Catalunha: anseios separatistas e as RI

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Fonte: abola.pt


Catalunha: Independência ou Morte? Calma, calma. A frase é mais para chamar a atenção. O que a Catalunha, comunidade autônoma da Espanha cuja capital é Barcelona, realmente quer é independência. Todo ano, mais especificamente no começo do mês de Setembro, a região volta a ser manchete nos noticiários e não tem sempre a ver com questões futebolísticas. Vamos aos fatos. Aproveito para dizer que hoje a análise será um pouco mais acadêmica e se guiará pela seguinte pergunta: Como podemos assinalar os episódios das manifestações separatistas catalãs no universo das Relações Internacionais (RI)? 

Em outro texto que escrevi e foi divulgado no Mundorama, me remeto a um episódio que também ficou conhecido no ano de 2012. O artigo intitula-se “Sinais dos novos tempos? As manifestações separatistas e a crise dos Estados na União Europeia”. Sei que é chato ficar se “auto-copiando”, mas no primeiro parágrafo está escrito assim: 

“No último dia sete de outubro [de 2012], em pleno jogo de futebol entre os dois maiores clubes da Espanha – Real Madrid e Barcelona –, grande parte da torcida da comunidade autônoma de Catalunha gritava em um só tom: “Independência!”. Aos dezessete minutos e catorze segundos do primeiro tempo, cerca de noventa e cinco mil vozes entoaram o grito fazendo referência ao ano de 1714, quando os catalães foram derrotados pelas tropas do Reino Espanhol na Guerra de Sucessão.” 

Fonte: operamundi.uol.com.br

E agora em 2013 não foi diferente, mas a movimentação não se remeteu aos esportes. No último dia onze, milhares de catalães fizeram um cordão de 400 km para pedir a Madrid o reconhecimento da independência da comunidade. Fez parte das celebrações da “Diada”, conhecida como o Dia Nacional Catalão. O que eles querem é a realização de um referendo realizado pelo governo central espanhol para colocar um ponto final nessa história e, de acordo com seus desejos, tornar a Catalunha uma região verdadeiramente autônoma e livre. Obviamente, a Espanha reluta e diz que quaisquer tentativas de separação são constitucionalmente ilegais. Nada que abale os anseios da população que, em sua maioria, apoia a independência. 

Realizada a explicação dos fenômenos expostos, cabe a pergunta para saber o que eles suscitam no debate acadêmico das RI. Dividirei em tópicos para abordar alguns dos cenários em que as reinvindicações catalãs podem aparecer. 

1) Surgimento de novos atores internacionais – Sabe-se que a ótica estatocêntrica sempre predominou nesse universo de pesquisa. O Estado-nação reconhecido por possuir população, território, governo e monopólio do uso da força enquadra-se como um dos (ou o único) sujeitos internacionais. Todavia, nos últimos anos houve uma transformação dessa visão e novos atores internacionais emergiram com real capacidade de influenciar o Sistema Internacional. Organizações Internacionais, ONGs e empresas transnacionais representam tal mudança. Mas até mesmo indivíduos, mídia, grupos terroristas e atores subnacionais (a exemplo da comunidade autônoma catalã) são expressamente reconhecidos na literatura como novíssimos atores internacionais. Os atores que estão dentro dos países, ou seja, intra-estatais, fazem parte da nova realidade das RI; 

2) O Regionalismo – Não há uma definição específica para o termo “regionalismo”, entretanto ele se encontra como um tema correlato aos meandros da Globalização. Sabe-se que esta deixou tudo mais dinâmico, mais rápido e mais “tecnológico”. Só que não existe um “poder global” ou um ator internacional com força global, nem mesmo as Nações Unidas (ONU). Fala-se muito em forças globais também, mas as decisões políticas são tomadas em outros níveis, principalmente nos nacionais. E não podemos esquecer que os Estados nacionais têm uma ligação constante e direta com os atores intra-estatais, os quais se encontram mais próximos das populações. O Regionalismo atesta o intenso jogo político com ligações dentro e através das fronteiras dos Estados. No caso espanhol, suas comunidades autônomas têm um maior poder político se comparado com outros países e regiões unitárias, a exemplo da Grã-Bretanha. O diálogo e as disparidades entre instâncias internas e nacionais são mais constantes e a Catalunha registra esse aspecto; 

3) A União Europeia (UE) como ponto de apoio – O Regionalismo pontuado anteriormente é muito ligado ao debate da UE. Não só a Espanha, mas também a Áustria, Alemanha e Bélgica (três federações) abrem espaços de influência política para seus atores subnacionais. E estes, por suas vezes, veem o bloco regional como um possível trampolim para maximizar seus interesses. É daqui que surge a ideia de “Europa das Regiões” ou algo do tipo. Como a UE possui traços de supranacionalidade, ou seja, instituições com poderes de mando que se sobrepõem aos Estados, é cada vez maior o anseio das regiões em levar suas demandas para órgãos como o Conselho de Ministros. Casos além da Catalunha como o País Basco, Flandres e Escócia são bem estudados na área das RI para compreender esse fenômeno; 

4) Protodiplomacia – Aqui sim há uma definição delimitada para esse termo. A protodiplomacia é a “condução de relações internacionais por governos não-centrais que têm por objetivo o estabelecimento de um estado plenamente soberano. Catalunha é um exemplo “protodiplomático”, pois almeja a separação, tem alcunhas identitárias e deseja constituir-se em região livre dos poderes centrais espanhóis. Esse termo não pode ser confundido com a paradiplomacia, a qual vem sendo amplamente estudada nas RI. Uma rápida busca em bibliotecas ou no Google Scholar ajuda na compreensão da terminologia; 

5) A questão cultural e o constitucionalismo – Progressivamente o âmbito cultural vem sendo estudado nas RI. Se o Estado está em crise e é um “signo sob rasura”, por que não afirmar que o aspecto cultural e costumeiro dos catalães se divergem dos espanhóis de modo geral? E se eles querem criar um “novo Estado”, por que não dizer que estão insatisfeitos com os preceitos constitucionais estabelecidos pelo direito interno do governo espanhol? Debates assim trazem à discussão novas formas de resolução de litígios e novos modos de se observar esses temas na prática.

 Fonte: Google

Não me alongarei mais no debate. De maneira rápida e um tanto quanto superficial, mostrou-se como um modesto fenômeno enseja uma série de reflexões nas RI. Pensemos assim sobre qualquer coisa que aconteça, seja com uma multidão, conforme observado nos casos catalães, ou com uma simples pessoa que tenta trazer à tona seus anseios. Miúdos gestos na prática, mas grandes observações na teoria e na literatura. Para tudo se tem espaço nas RI. Um cordão humano catalão de 400 km é o exemplo pontual de enormes implicações históricas e pode ser estudado tendo em vista os novos atores internacionais, o regionalismo, os blocos regionais, os governos subnacionais e os anseios culturais. Existem outras inúmeras áreas e abrangências, mas fiquemos por aqui hoje. Fim!


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O Gigante sem amigos

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Algumas nações levam consigo a crença na predestinação. Povos que teriam qualidades capazes de dominar o destino, caminhando eternamente em uma imutável estrada rumo ao sucesso. Os EUA e sua igualdade que o levaria a se tornar a hegemonia mundial, a terra das oportunidades. A possibilidade do “sonho americano”. O Brasil e sua fama de “o país do futuro”, slogan desgastado do ufanismo brasileiro, são alguns dos exemplos. 

Outros países também compartilham desse sonho. A Rússia, cujo símbolo de predestinação, ou de maior força perante as outras nações é um urso mal encarado, está nesse grupo de fieis da superioridade. E de certo ponto de vista, o destino parece ter contribuído para que essa ideia permanecesse durante séculos.

Fazendo um exercício de volta ao passado, poderíamos nos lembrar qual é o primeiro momento em que ouvimos falar do país, ainda na escola? Certamente leitores com melhor memória se lembrarão do fracassado ataque de Napoleão, vencido pelos russos e pelo seu inverno. De certa forma, a Rússia naquele momento ainda era um país agrário e atrasado. Insignificante, mas com certa sorte em surgir do nada como central no que vinha ocorrendo na Europa.

E assim seguiu a Rússia, sem grande destaque, até a Revolução de 1917. Com ela veio o socialismo e o país se transformou em portador máximo do “espectro que rondava o mundo”. Foi exatamente esse espectro que chamou a atenção e brotou o ódio da Alemanha na Segunda Guerra Mundial contra o país. Após sofrer diversos massacres e contando novamente com o inverno, a Rússia seguia sua predestinação de ter papel central.

Mas foi na Guerra Fria no pós-guerra que pudemos notar uma certa predestinação da Rússia, além do papel central nas decisões do mundo, já estabelecido. Era o isolamento político. O país parecia fadado à ele. Após o fim do muro que separava os dois pólos, percebia-se que a imagem do país sofria danos até diante de seus parceiros soviéticos, sendo ela acusada de forte exploração e imperialismo, e já no fim do regime comunista, de uma forte necessidade de manter o território pela custasse o que custar. E normalmente o custo era alto.

O fim da Guerra Fria não apagou as mágoas de seus vizinhos, muitos deles flagelados pelo decadente sistema socialista e o abuso do poder central russo, em manter por tempo mais do que necessário, a dominação de um sistema caindo aos pedaços. A Rússia havia aprendido a se tornar imperialista de forma dura, aumentando sua influência de forma pouco inteligente comparada ao sorriso amigo dos EUA, sua potência antagonista.

E assim chegamos aos dias de hoje, em que o país sofre com sua falta de competência em construir pontes. O fim da União Soviética não finalizou o medo de dispersão dos diversos territórios do Império. Há pelo menos 37 áreas de instabilidade dentro do país. Conflitos internos que por vezes assumem tons dramáticos, com ataques terroristas de grupos separatistas seguidas de respostas polêmicas do governo central. 

A indisposição interna dos rebeldes chegou à capital, com polêmicas ações do governo como a lei anti-lobby gay do governo. Decisões que, além de comprometer a popularidade do governo com parte da população, afastam o país de alguns setores sociais do ocidente. Mais do que isso, criam o que cientistas políticos gostam de chamar de “agenda negativa” sobre um governo. Até mesmo o beijo entre competidoras no pódio acirrou os ânimos dos críticos. A quem se dispõe a compreender a sociedade do espetáculo, conhece como esses tipos de acontecimentos são determinantes atualmente. 

Problemas que levam a  próxima sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas à total contestação. A forte oposição da população ao governo e à recorrentes críticas internacionais. A corrupção durante a época socialista e ascensão de diversos bilionários, ligados à mafia e herdeiros de gigantes estatais, colocam em dúvida até mesmo a existência de algum resquício de democracia no país.

Nos BRICS, a Rússia também não é capaz de selar nenhum acordo de cooperação ou que transforme essa sigla em de fato um bloco útil. Inclusive, é um dos pilares da falta de possibilidades de uma ação conjunta entre países de tão diversa cultura e aparentemente tão inaptos em traçar relações que não sejam unilaterais. 

Agora eis que a Russia se coloca como ator principal na crise formada pela guerra civil da Síria. Como um dos principais parceiros do país, tenta de todas as formas deslegitimar o possível ataque americano ao país, com constantes falas na mídia e na ONU. Enquanto a situação segue para o iminente ataque, o país tenta barganhar mais poder decisório deslocando tropas no mediterrâneo. Tudo para proteger seus interesses e de um dos seus parceiros. Mas como sempre, o país demonstra seu destino de caminhar sozinho, enquanto mostra claramente a sua distância, em todos os aspectos, com o país árabe e seu isolamento total no Conselho de Segurança. O poder de veto se tornou com o tempo voto vencido com a falta de apoio que o país carrega na organização.

E muitos poderão perguntar: e o apoio da China, constante, no Conselho de Segurança da ONU? Não seria um forte parceiro? Sabemos que a China só defende interesses que sejam bem claramente seus. No mais, é outro lobo solitário no cenário internacional, que tem parceiros mais pela necessidade do que pela afinidade. Com a Rússia seria o mesmo.

O Gigante parece mesmo fadado a uma cíclica posição de destaque, para o bem e para o mal. Só mais forte do que a predestinação à ocupar um papel central no mundo, parece sua capacidade de se colocar como antagonista de outras potências e isolada politicamente. Se fosse uma pessoa, seria acusada de anti-social. E o destino prega peças engraçadas para confirmar sua dificuldade. Basta relembrar a ironia da Segunda Guerra Mundial, em que a Rússia se uniu ao “time dos Aliados”, mesmo sem nada em comum além da ameaça de Hitler. Depois disso, tais aliados sempre se transformaram em inimigos. Ironias até na nomenclatura de alianças de guerra, traçadas pelo destino de um país sem amigos.


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Construindo Istambul

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E no final de semana Istambul ferveu. Milhares de pessoas saíram às ruas protestando contra o governo do primeiro-ministro Erdogan, cada dia mais impopular dentro da Turquia. Até aí, nenhuma novidade dentro do que se viu no Oriente Médio nos últimos dois anos, ou no mundo. A onda de protestos tem crescido ultimamente. O que chocou foi a velocidade da insatisfação, a rapidez de uma revolta tão ampla e inesperada.  

Os protestos desencadeados em Istambul começaram maciços, brecando a indústria e gerando um apagão de um dia na imprensa da capital. Mais do que isso, tiveram uma motivação peculiar, até aqui inédita. O projeto urbanístico do primeiro-ministro Erdogan, contrário a história arquitetônica e política da cidade, foi o grande acendedor do pavio. Mas o que leva à insatisfação popular a sociedades atuais, como o caso turco? 

Crises econômicas, tensões entre governos, opressões de ditaduras ou conflitos religiosos. São muitas as prováveis causas que levam milhares de pessoas a se unirem em torno de uma luta que se estende as ruas. Durante grande parte do século XX amplas teorias sociológicas tem afirmado que as tensões sociais devem, pelo menos por hora, diminuir. Isso por que há nos modelos governamentais mecanismos diferentes da época em que se excluía grupos e se combatia suas insatisfações à força. 

Quem protesta evidentemente protesta contra algo. Está inserido em um grupo insatisfeito. O que se defende  é que os modelos de política atuais buscam inserir, ou pelo menos dar a impressão de inserção a toda a população. Assim, cada dia é dada menor margem a legitimidade e a força de revoltas. Vez por outra, como em momentos de crise econômica, grupos muito prejudicados pela situação social quebram com o estabelecido, se revoltando com a instabilidade do sistema. Na maioria do tempo são apenas a minoria dos mais cultos, ou mais revoltosos, que se arriscam a protestar. A inserção ocorreria quase que exclusivamente pelo direito de todos a comprarem, a estarem dentro do mercado e do consumo.

Mas onde Istambul entra em tudo isso? Normalmente todo esse sistema de pacificação social está vinculado a economia ou a inserção financeira das pessoas. Entretanto, ao que tudo indica, o Oriente Médio e o mundo islâmico como um todo tem uma forte barreira contra o domínio de mercado, ou uma sociedade ocidentalizada. A revolta na capital turca foi principalmente ocasionada pela tentativa de construção de prédios comerciais em áreas tradicionais da cidade, com identidades arquitetônicas e políticas. Para o povo, a destruição de pontos históricos foi inaceitável. 

Istambul é mais um episódio de forças tradicionais, com forte apelo popular, que são contrárias a uma “sociedade atual”. Não por acaso esperamos sempre uma população em ebulição, fortes conflitos entre forças governamentais e a população nesses países. A falta de democracia, as fortes diferenças internas entre os grupos que lutam pelo poder e, por fim, a impossibilidade do uso dos mecanismos de inserção, impedem que haja uma sociedade mais pacífica. Istambul sofreu com o último caso, diferente de outras revoltas vistas nessa mesma região.    

Os protestos na praça Taksim podem liberar uma boa discussão. Representam um momento de forte descontentamento com a política do povo turco, podendo ser um episódio inicial do fim da paciência com o seu governo. E mais importante, podem fazer parte de mais uma crise cíclica que ocorre em sociedades modernas, quase sempre pacíficas. Mais uma fase em que se quebra uma construção de uma sociedade de inserção, causada pela falta de paciência da população com o ataque aos seus direitos de compra, como ocorre na crise econômica europeia, ou aos seus domínios, como ocorre na destruição de pontos tradicionais para a construção de prédios comerciais, como em Istambul. Mais uma vez a paz, por um momento, se apagou.


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Boston Massacre

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A exatas duas semanas ocorria o mais recente evento de violência denominada pelas autoridades americanas como terrorismo. Ao que tudo indica, dois jovens tchetchenos aparentemente inseridos na cultura e sociedade ocidental, decidiram explodir uma bomba caseira dentro de uma mochila deixada próximo a linha de chegada da maratona de Boston, uma das mais importantes do mundo. Três pessoas morreram e centenas ficaram feridas.

Desde aquele momento foi iniciada uma caçada aos responsáveis pelo ataque, colocando à prova a competência da polícia americana em defender o país de terroristas. O desdobramento das investigações levou a dois suspeitos, logo perseguidos cinematograficamente pelo FBI, levando a morte de  um deles e a prisão do outro. A transmissão ao vivo da caçada aos suspeitos bateu recordes de audiência nos Estados Unidos e se transformou em assunto recorrente dos noticiários brasileiros, só competindo com as entrevistas dramáticas às vítimas sobreviventes e aos parentes dos mortos, que tentavam humanizar o espetáculo do cenário de guerra em Boston, cena muito mais recorrente na ficção de jogos eletrônicos e filmes de Hollywood.

Os motivos que levaram a explosão na maratona, que não seria a única pelo arsenal encontrado na casa dos jovens e pelo interrogatório a que foi submetido o sobrevivente, continuam obscuros. A tentativa de ligá-los a grupos terroristas, que foi desde vasculhar mensagens de redes sociais em que se diziam a favor da separação da Tchetchenia da Rússia até o desespero de trazerem parentes  dos acusados dos mais longínquos lugares a fim de que confessassem o que não se provou, foi totalmente ineficaz. Talvez a violência tenha sido causada apenas pela não inserção na sociedade, como defenderam alguns psicólogos às pressas para a imprensa, ou motivada por alguma psicopatia. Alguns experts no assunto, como que constatando o óbvio deixado em um primeiro momento de lado, defenderam que talvez esse tenha sido um caso de violência interna sem ligação a ideais políticos, e que talvez a sociedade americana, e todas as sociedades que copiam a sua forma de vida, sejam violentas. 

A ação individual de um louco munido de armas estaria longe de ser a primeira ocorrida em um país que desde a década de 80 não passa um ano sequer sem viver um massacre fabricado pelos chamados “assassinos em massa”, “serial killers” e outros tipos de criminosos. E os americanos vivem essa realidade intensamente, acompanhando os noticiários e perseguições aos suspeitos, assistindo filmes, séries fictícias e reais sobre cada caso recente. Há canais em que a grade de programação inteira é dedicada a esses notórios assassinos. Na verdade, não existe nada que a televisão ensine mais aos seus expectadores do que como funciona a sua violência, o seu modo de matar, a sua vida, as suas vítimas e o seu final. Talvez sejam os únicos a competirem com as celebridades em destaque e conhecimento popular.   

E com a ação desses assassinos também se constrói o ódio. O lobby pela pena de morte, recente em nosso país e feito pelo noticiário policial recheado de sangue, é mera cópia do modelo de televisão americano. Nesses programas, o lado humano do incidente estava por todos os lados, à vista ou escondido pelas câmeras. Poderia ser visto no desespero e medo dos habitantes de Boston, retirados por uma ampla força policial que checava de casa em casa o paradeiro do suspeito. E nas sombras pelo desdobramento do espetáculo, com a morte de Sunil Tripathi, confundido por meio de um perfil do twitter como um dos homens que apareciam no site do FBI como responsáveis pela explosão. O jovem foi encontrado morto três dias após o incidente, provavelmente assassinado por alguém que buscava vingança, ou ter se suicidado pela culpa atribuída a ele e as constantes ameaças. A histeria causada pelo sensacionalismo e o circo montado em cima do atentado, já um evento grandioso e trágico por si só, chegava ao ápice de ocasionar uma cena de (in)justiça com as próprias mãos ou de pré-julgamentos, dignas da barbárie total, no contrastante ambiente do país mais desenvolvido do mundo. A violência é fortemente propagada por todos os lados.

Mas a morte de um inocente não aplacou a festa. A comemoração nas ruas de Boston poderiam ser vistas como um alívio ou até mesmo uma demonstração de patriotismo dos americanos, felizes com o resultado final da caçada. No entanto, também não podemos deixar de considerar todo o deslumbramento com que essa sociedade trata a violência, desde os cinemas e os seriados de TV a recordes de compras de armas. Os maiores defensores da democracia americana  para a população estavam mais uma vez lá, fardados. Por meio da bala e a algema anularam o medo. Mas como poderiam evitar que outro louco logo surja, mandando pelos ares expectadores de uma maratona, ou um shopping center, ou uma praça? 

A foto acima é de uma camiseta promocional da Nike, com os dizeres “Boston massacre” (massacre de Boston, em português), em analogia a um jogo de futebol americano realizado na cidade. A linguagem da violência transportada a outras áreas da vida, principalmente ao esporte, não é mera coincidência e sim parte de um processo continuo da transformação dela em bela e banal. A maior parte do tempo isso passa desapercebido por todos nós, como algo bastante comum. Mas nem sempre isso ocorreu. Na verdade, as analogias a violência são bastante recentes, desde a década de 70 para ser mais exato. Anteriormente a isso, se você se direcionasse a outra pessoa e afirmasse que no dia anterior havia ocorrido “um massacre” no jogo de seu time, certamente deixaria a outra pessoa em pânico. Excitação pela violência, achar legal a vida de um assassino ou as mortes em uma guerra seria uma impossibilidade ainda maior. Mas todos nós assistimos isso, e na maior parte do tempo gostamos.  

De onde vem o gosto pela violência, desde quando ela se transformou em algo tão atraente? Evidentemente, não quero cometer o erro de culpar o cinema e a TV pela violência, mas ao contrário, utilizá-lo como um espelho do que nos interessa ou que somos levados a nos interessar, de como vivemos. E vivemos tempos de exposição, em que todo acontecimento se torna um evento midiático, uma história de cinema. A retirada das camisetas das lojas foi um dos raros dias em que os americanos não acharam graça nos filmes de ação. Nada também que a transmissão da CNN a perseguição dos suspeitos não pôde mudar. E se depois de algumas horas descobrissem que aqueles jovens suspeitos eram inocentes? A emoção a frente da TV teria sido válida, as filmagens fechadas nos carros de guerra de última tecnologia e nos soldados teriam valido, enfim, para o atraente espetáculo da violência teria sido mais um dia de contentamento para os seus criadores e o seu público sempre cativo. 


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O respeito e as diferenças

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Esse post é apenas uma reflexão sobre diferenças culturais e religiosas e os ideais que nomeamos como igualitários e formadores de uma tolerância para vivermos em paz em um mundo plural. 

Coreia do Norte, Islamismo e a Direita americana. Marcos Feliciano ou Bolsonaro. Nas discussões tanto da política nacional como da internacional, figuras como essas sempre aparecem cumprindo os mais múltiplos papéis. Com suas diferenças, em uma característica se parecem: são os personagens que desafiam as ideias mais comuns do que se prega no ocidente como caminho para um futuro melhor.

No post de ontem do blog, fomos apresentados a ideia criada de um mundo sem conflitos, fabricado no que seria o último pós guerra da história. Verdade ou não essa ideia, ainda mais após as diversas batalhas e massacres que estiveram envolvidos os maiores defensores de que vivemos em um mundo de paz, como os EUA, sempre houveram os antagonistas à Ordem estabelecida, nos dois sentidos da palavra. Mas não somente no conflito entre países que se espalham ideias totalizadores, de inserção, e seus críticos. 

As diferenças culturais, por exemplo, atravessam todos os comportamentos do ser humano individual ou de grupos específicos, menores que a população de países e seus governos. Assim, se formam as mais diferentes práticas e visões de mundo, muitas delas apenas importantes para a maioria como fato curioso. Mas como sentimos as diferenças quando elas vão contra aqueles comportamentos que incontestavelmente vemos como ideais? A maior parte do tempo isso se passa desapercebido, até que nos deparamos com alguma ação que achamos bizarra. 

Nessa semana tivemos dois exemplos disso. O primeiro, um estupro coletivo na Índia contra uma turista. Tudo ainda observado pelo marido impotente.É certo que na Índia o estupro é considerado crime, mas se torna um fato bastante comum em um país extremamente dominado pela vontade dos homens. Um exemplo disso é também o costume bastante comum no país de casamentos arranjados entre homens e crianças de apenas oito anos de idade. Em outro momento da semana, soubemos do apedrejamento de um homossexual condenado na Somália,  legitimado pela lei do país como punição ao crime de se manter relações com o mesmo sexo. Diante disso, como deve se comportar a população ocidental esclarecida, as organizações e os governos defensores da igualdade e ditos contrários ao preconceito? 

Durante pelo menos a primeira metade do século XX, a ideia de que os valores deveriam ser impostos foi bastante comum. As críticas a intervenção, ao imperialismo e ao ocidentalismo fizeram com que surgisse um outro grupo: os defensores da autonomia de cada cultura. Até que ponto podemos influir em outra cultura? Para esse grupo em basicamente nada. Todas as mudanças de posturas e revoluções deveriam ser feitas pela própria população. Como se cada qual fosse dono do seu nariz.

O grande exemplo está entre as feministas do não envolvimento em relação aos outros. As mulheres lutam pelas mesmas bandeiras no mundo como se fossem um grupo só, ou cada grupo de mulheres, dependendo da cultura, da cor ou do extrato social devem lutar pelas suas próprias melhorias? Essa discussão chega ao seu limite de radicalismo ao vermos a questão da mulher em culturas que, por exemplo, exigem a cirurgia do clitóris na infância, para que a mulher não tenha nenhum prazer sexual durante a vida. Parte das feministas defenderam que um país assim deveria ser “liberto” de tais ideias. Outras, já enxergaram que parte do papel da mulher nessa sociedade é o de sofrer essa cirurgia, e que se retirassem delas essa marca, elas seriam completamente engolidas pela cultura, párias, seres sem identidade. Entretanto, Bolsonaro também não defendeu a continuação do papel tradicional da mulher como algo bom a sua felicidade? O que desejamos e defendemos para os nossos equivale aos outros?

Quando o que achamos errado ocorre em nossa sociedade ficamos indignados. Quando ocorre em outras, qual deve ser nossa reação? Até qual ponto podemos nos posicionar a realidade de outros povos? Em certo ponto, existe algum novo valor que deve ser universal?

Uma das premissas constantes do discurso do deputado federal Bolsonaro, o maior acusado de homofobia no Brasil, é a “liberdade de expressão” a que  estamos sujeitos como desculpas ao seu ódio. Portanto, devemos “engolir” tudo o que o congressista fala como aceitável pela sua premissa ou devemos e podemos contestar suas ideias e opiniões? Até qual ponto medimos uma liberdade pela outra? E assim, até qual ponto medimos que uma cultura diferente é apenas destoante, contrastante da nossa e que deve ser aceita pelo discurso de pluralidade, ou deve ser negada por não se enquadrar a valores que por tanto tempo lutamos?  Contudo, é muito mais fácil quando nos deparamos com informações sobre as meninas islâmicas aceitarem que naquela cultura aquelas são as suas crenças, e não criticar como sendo esses costumes uma afronta aos direitos das mulheres. O mesmo poderia ser pensado a respeito de Marcos Feliciano e os evangélicos conservadores que se colocam totalmente contra aos direitos homossexuais? Ou o ocidente perdeu a cultura, somos agora superiores próximos à sociedade perfeita, e devemos ser pacientes com as superstição e crenças de massa? 

Como expectadores nos tornamos impotentes e prudentes diante de um fato desses, e chegamos a admitir que esse costume das mulheres islâmicas é um habito cultural, o que seria impensável se essa mesma violação dos direitos de uma mulher acontecesse nas nossas fronteiras culturais. O que esquecemos é que até pouco tempo atrás tínhamos costumes que hoje consideramos repugnantes. A discussão entre a existência de valores universais para esses pontos é um posicionamento que deve recair em nossa geração, e seremos nós que teremos que tomar alguma posição, quanto a aceitá-las ou negá-las totalmente. Tanto no discurso da câmara, a pensamentos de uma religião ou as práticas de outros povos. Lembrando que essa discussão não tem significado de intervenção ou de contestação de uma cultura inteira, mas sim das ideias que defendem cada uma dessas, isoladamente. Façamos uma reflexão!


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Mulheres do mundo

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Hoje é o dia internacional da mulher. Essa data tem origem já no começo do século XX, época de lutas sociais. A comemoração ficou, e hoje em dia a cada ano a ONU dedica a data a um tema, e o de 2013 é o clamor pelo fim da violência contra a mulher. Parece muito significativo poucos meses depois do emblemático ataque sexual a uma indiana que chocou o mundo, mas revela uma realidade crua ainda para a maioria das mulheres do mundo. Mesmo com esse dia especial, mudou alguma coisa? 

As estatísticas mostram que uma enorme porcentagem de mulheres ainda vai sofrer algum tipo de violência na vida, existem desigualdades no mercado de trabalho, e o mundo ainda é dos “homens”. Basta ver o noticiário pra ter uma noção, girando em torno de figuras masculinas. Quando não, são eventos ligados à guerra, que está ligada ao gênero da lança e do escudo por boa parte de estudiosos feministas. 

E as mulheres que chegaram ao topo? Pelo mundo, há uma progressiva percepção do “empoderamento” de mulheres (pensem nas Dilmas e Merkels por aí), mas isso repercute em verdadeiro sentido de crescimento? Ou essas mulheres poderosas estão apenas se adaptando a um padrão de vivência e estrutura tradicionalmente masculina, se igualando a “eles”? Acho o caso mais interessante desse tipo de discussão o lance do título de “presidenta”. Ao mesmo tempo em que mostra a diferença de se ter uma mulher o cargo, serviria para criar essa “categorização”. Diferencia com uma ideia de nova atitude, mas ao mesmo tempo deixa de igualar com o que já está consolidado. Quem está certo nesse caso? Parece ser muito mais que semântica, e representa como, mesmo no mais alto grau de hierarquia de um Estado, uma questão de gênero pode trazer muita discussão e incerteza ainda, a depender de quem lida com essa informação. 

Não são questões fáceis de discutir em tão pouco espaço, mas fica o registro dessas considerações sobre as mulheres no mundo de hoje. O alento é que a situação poderia ser pior, e a esperança é de melhora. Falta muito, mas quem sabe em postagens futuras não tenhamos conquistas mais sólidas para celebrar. Enquanto isso, podemos parabenizar a todas as mulheres pelo seu dia, e mais do que presentes, mimos e agrados, o desejo de que ganhem respeito pelo que são e merecem.


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Ciao, Bento

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Segunda-feira é um dia complicado, por que sempre pode aparecer uma surpresa. Estava preparado para fazer uma postagem sobre o escândalo frigorífico da carne equina na Europa quando do nada vem a notícia que o abatido papa Bento XVI vai renunciar no fim do mês. 

Esperem, renunciar? Sim, eles podem, apesar desse expediente não ser usado desde 1415. Na era moderna, os papas sempre encerraram o pontificado com seu falecimento. Bento XVI, ou Joseph Ratzinger, que foi o primeiro papa alemão desde o século XI, deixa assim a sua “marca” para os livros de curiosidades, assim como seu antecessor João Paulo II foi o primeiro papa não italiano em séculos. 

Mas… e daí? A única coisa que se especula é que a saída tenha a ver com sua idade avançada. Muito stress pra pouca saúde. Lembramos que a Igreja Católica passa por um momento delicado atualmente. Ao mesmo tempo em que cresce em regiões da África e da América Latina, perde fieis em rincões tradicionais como o Brasil e a Europa. Sem o carisma do antecessor, tentou inovar, como a sua famosa conta do Twitter. Mas no fim das contas, o papado de Bento XVI é marcado por problemas, com a tentativa de disciplinar a atuação da Igreja, com punições mais acentuadas a denúncias de abusos, mas ao mesmo tempo sem que parassem de estourar escândalos e continuando com uma postura rígida acerca de temas mais sensíveis como aborto e casamento homossexual. 

Nesse sentido, a saída dele tem muita importância. Muita gente vai estar interessada no que o novo pontífice vai falar, católicos ou não. Vale lembrar que ainda é uma das maiores igrejas do mundo, e a única das “grandes” com uma liderança única significativa, que mesmo sem poder na prática, interfere potencialmente nos valores de uma parcela gigantesca da humanidade. A dúvida é se o novo papa vai ter uma postura mais “liberal” ou continuar o processo conservador de Ratzinger, nesse desafio de balancear o discurso e agradar a gregos e troianos. É tentador trazer pro debate coisas como as profecias de São Malaquias ou especular novos candidatos, mas por enquanto o jeito é esperar a fumaça branca no Vaticano.


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O fim que é recomeço

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E nesta mítica sexta-feira 21/12/12, o assunto no blog não poderia ser outro que o fim de uma era histórica, segundo o calendário maia – ou o suposto “fim do mundo”, segundo os fins comerciais e midiáticos dos nossos tempos… 

Tantas profecias e especulações em relação ao um possível “fim do mundo” parecem refletir a influência hollywoodiana sobre o imaginário mundial, alimentando uma fantasia que atormenta alguns [leia aqui ou aqui], diverte outros tantos [confira aqui o trailer do fim do mundo narrado por Galvão Bueno], e certamente gera altos lucros a determinados setores da sociedade. São impressionantes os milhões de turistas e de investimentos públicos e privados para as celebrações na Guatemala e no México, onde estão concentrados os maiores aglomerados populacionais de origem maia. [Estima-se entre 6 e 9 milhões a população maia atual na América Central, especialmente nestes dois países.]

Ao mesmo tempo, os herdeiros vivos desta antiga e inigualável civilização infelizmente não merecem a mesma atenção que suas lendas manipuladas por nossa sociedade do consumo. Vivendo em estado de miséria – que afeta 73% da população descendente maia na Guatemala, por exemplo – os povos de origem maia sofrem hoje em dia racismo e discriminação, além da falta de terras para o cultivo de alimentos e a problemas em relação aos serviços de saúde e educação.

Ironicamente, uma exposição sobre a cultura maia foi realizada recentemente em um dos museus mais importantes de Paris, atraindo a atenção de toda a alta sociedade europeia… valorizamos o passado e esquecemos o presente? Parece que sim.

Ao fim de uma longa era de aproximados 5.200 anos, segundo as históricas previsões maias, a data de hoje simboliza apenas um recomeço, com a esperança de melhores dias que sempre cultivamos a cada final de ano. Acreditando em uma nova era de espiritualidade renovada, esperemos, pois, que toda esta atenção voltada aos maias durante esse ano de 2012 possa vir a promover um real impacto positivo nas condições de vida de seus descendentes atuais, nada semelhantes a todo o “glamour” das comemorações oficiais deste dia…


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Camel Racing!

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Já ouviu comentários sobre as corridas de camelo? Tem ideia do que seja isso? Sabe onde este esporte é extremamente popular? Se a resposta for afirmativa ou não, dê uma breve olhada neste vídeo (aqui), o qual mostra partes de uma corrida na cidade de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos (EAU). É um fenômeno um tanto quanto recente e bastante característico dos países do Golfo Pérsico, dentre eles Arábia Saudita, Qatar, Bahrein, Kuwait e os próprios EAU. 

A princípio é um pouco estranho, pois denota traços culturais distintos e característicos da região do Oriente Médio. Conhecemos bem o futebol no Brasil, o futebol americano nos Estados Unidos e até mesmo o rugby na Nova Zelândia. Mas…corridas de camelos? Não! Assim, o vídeo em questão colocado no parágrafo anterior serve para ilustrar como se dá esta manifestação que retrata, também, os jogos de poderes e lideranças nesses países. 

Primeiro, a corrida é cultural. Com as consequentes descobertas e os “boom” do petróleo nas últimas décadas, o camelo deixou de ser instrumento de trabalho e foi substituído por carros modernos. Ao lado das pistas, os instrutores e tratadores dos animais os acompanham com seus Toyota, Mercedes-Benz e assim por diante. Consequentemente, os camelos passaram a ter outra utilidade principal: o esporte. 

Segundo, a corrida é instrumento de poder. Nos EAU, em específico, criou-se em 1992 a “Camel Racing Association”, que conta com grande apoio financeiro das principais famílias do país. Quando passadas na televisão, os locutores “endeusam” os seus principais líderes – os sheikhs – para reafirmarem seus sucessos de política de governo. Com as corridas, os Estados são personificados nos sheikhs. Se o camelo de determinada liderança é o vencedor, isso mostra que o legado cultural ainda está sendo defendido na região e eles ganham prestígio popular. 

Por fim, as corridas dos camelos são o retrato da tradição (cultural, religiosa) e da modernidade no Oriente Médio, em específico no Golfo. Sabe qual o prêmio ao dono do camelo vencedor? Um troféu, uma espada de ouro e um modelo de última geração da Mercedes-Benz. A espada simboliza os ancestrais e o carro é o reflexo da difusão tecnológica. Desde sociedades baseadas na economia petrolífera até no poderio dos famosos sheikhs, o esporte retrata a unificação nacional.

Pode parecer exótico, mas é só tomar como exemplo quaisquer outras manifestações esportivas a nível global. No Golfo Pérsico, a corrida de camelos é um dos principais sinais dos novos tempos. Tempos estes que são marcados por liberalizações econômicas e, ao mesmo tempo, fortes traços nacionalistas.


Categorias: Cultura, Oriente Médio e Mundo Islâmico


As histórias da história

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Faz algum tempo assisti um filme muito bom, chamado Ip Man (que no Brasil saiu como “O grande mestre”). Mais do que um excelente filme de kung-fu (que conta a história do mestre de Bruce Lee), é uma visão crua daquele período conturbado do final dos anos 30, quando o Japão invadiu parte da China até o final da Segunda Guerra. Nesse filme chinês, a visão dos japoneses não podia ser pior: são cruéis e trazem miséria e sofrimento. Quando pensamos do outro lado, em filmes japoneses os chineses são tacanhos ou traiçoeiros. A questão é que nenhum dos lados admite sua parcela de culpa em problemas do passado, e ao mesmo tempo não deixam de mostrar o “outro lado” com a pior imagem possível. Falamos disso inclusive há algumas semanas aqui no blog quando comentávamos sobre a questão das ilhas em disputa no mar da China. 

E o que isso tem a ver com História? Bom, é a questão da parcialidade. Não é simplesmente tratar de revisionismo, como reconhecer os erros do passado ou pensar de um modo diferente, mas como o entendimento dos fatos é muito influenciado pela percepção de cada pessoa. E não são apenas eventos, mas também pessoas que entram nessa brincadeira. Vejam só o caso da morte do Hobsbawm, coisa recente. A polarização das reações foi impressionante, só havia praticamente dois tipos de comentários: os que endeusavam o autor como um dos maiores (se não o maior) pensadores do século XX, e os que festejavam a partida de mais um marxista maquiador de totalitarismos. Ao pensarmos na bibliografia de alguém, temos que pesar fatores como o contato, e o modo como foi reproduzida sua história particular. Ignorar as contribuições de um grande autor é tão lamentável quanto fazer vista grossa aos seus deslizes históricos – sendo que o “julgamento” sobre a vida de Hobsbawm acabou se confundindo com o de sua obra. Não estamos falando de buscar um meio-termo ou ficar em cima do muro, mas o fato é que objetividade é uma coisa complicada, e o ser humano tende a escolher “um lado”. É isso, inclusive, que os pensadores da Teoria Crítica defendem, que seria impossível “produzir” conhecimento sem subjetividade, mas isso é discussão pra outra hora. 

E claro que isso afeta as relações internacionais. Na verdade, é uma via de mão dupla. Vamos voltar pro caso de China e Japão: essas rusgas históricas estão aí há anos, e não vão ter solução tão cedo (isso SE forem ter). Um monte de fatores determina a visão de cada lado, e é preciso uma mudança muito impactante para que algum deles reveja sua posição. A certeza é que a história influencia as ações dos agentes, e suas ações influenciam o “fazer” da história. Imaginem isso em escala mundial, com todos os eventos que afetam esse nosso mundo interligado. Qual vai ser a versão dos fatos atuais que ficará para o futuro? Nesse cabo-de-guerra, quem vai estar “certo”?


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