A arte na guerra

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Chamou a atenção nessa semana a destruição de artefatos assírios no Iraque pelo grupo Estado Islâmico, em vídeos divulgados pela internet. Não tem como não lembrar de um caso semelhante (e um pouco mais explosivo) quando o Taleban dinamitou estátuas gigantes de Buda em Bamiyan, no Afeganistão em 2001. O ultraje da comunidade internacional pelo ocorrido, com a depredação de peças históricas de valor incalculável para a arqueologia fez inclusive que a Unesco pedisse uma reunião extraordinária no CS da ONU para buscar uma solução para a crise iraquiana (que desde a derrubada de Saddam Hussein vê inúmeros artefatos do berço da civilização desaparecerem de museus, destruídos ou pilhados para coleções particulares).

O nome desse fenômeno é iconoclastia, originalmente de acepção religiosa que basicamente significa a rejeição ao culto a imagens, dentro ou fora de seu “conjunto” cultural. E a versão mais conhecida atualmente é a do islamismo, que rejeita inclusiva e representação gráfica de seu fundador. No contexto religioso tem um caráter de afirmação da fé, mas ao mesmo tempo se reveste de um caráter politico (como quase sempre acontece com a religião, de qualquer modo).

Não é novidade alguma. Alguns dos grandes eventos da história recente, especialmente os ligados a fins de conflitos ou quedas de regimes tem aquela imagem clássica de uma estátua sendo derrubada e destruição de arte e imagens ligadas ao regime anterior. Não sem razão – o significado cultural e discursivo desse tipo de imagem é muito forte, e por isso recorrente. Por exemplo, antes de os russos verem as estátuas Lenin indo ao chão nos anos 90, já em 1917 os revolucionários haviam feito o mesmo com imagens da família do Czar.

Talvez a chave aqui seja o interesse cultural. É sabido que os nazistas, entre suas conquistas territoriais, tomavam obras de arte clássicas das regiões conquistadas (especialmente de judeus…) e buscavam criar um museu gigantesco de cultura europeia (enquanto arte “degenerada” como a moderna era destruída impiedosamente). Boa parte das obras que compõem a enorme coleção egípcia do Louvre vieram da conquista napoleônica do país africano. Quando há o interesse, a arte é preservada – e por vezes até mesmo buscada. Então no fim tudo se resume a cultura?

Pode ser política. Quando o Taleban destruiu os Budas, além do teor religioso da implosão houve a explicação oficial de que se tratava de um protesto contra as políticas e fundações ocidentais que repassavam mais dinheiro para a conservação das estátuas que para a população faminta do país. O ISIS é um grupo fundamentalista que assusta até a Al Qaeda, então certamente a explicação iconoclasta cabe como uma luva, mas podemos pensar em algo mais? Há um perigo em identificar o grupo com a alcunha de “Estado” por ser um recurso discursivo para reforçar sua intenção de legitimidade no sistema internacional. Destruir artigos assírios, considerados os “pais” do povo iraquiano, mais que atentar contra ídolos, deixa claro um sentido de ruptura com a cultura iraquiana tradicional. Não há espaço no califado para aquilo que não seja, essencialmente, islâmico, e o objetivo é a diferenciação do “outro”.  A preocupação com a cultura e preservação histórica é legítima, mas a destruição desses itens está muito mais próxima das decapitações e imolações que o noticiário deixa transparecer…


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A desumanidade nossa de cada dia

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A selvageria das execuções do grupo Estado Islâmico chama a atenção do mundo. Quando decapitações (nenhuma exclusividade deles, a propósito) não eram chocantes o suficiente, a imolação do piloto jordaniano causa comoção e uma reação de países ocidentais clamando pelo confronto ao grupo e da Jordânia executando terroristas convictos prisioneiros (mesmo não tendo, a rigor, nada a ver com o ISIS). É a improdutiva lei de Talião, pura e simples.

Por que isso chocou tanto? Na história da humanidade, se existe uma coisa que o ser humano demonstra saber fazer muito bem é matar uns aos outros. Decapitações são até benevolentes quando comparados a outros métodos de execução, e mesmo queimar gente viva não parece tão cruel. Entre outros, por exemplo, destaco o “necklacing” africano (em que um pneu cheio de óleo é colocado ao redor de uma pessoa e ateado fogo para que queime lentamente), a morte por animais selvagens nas arenas romanas, fervura (com a pessoa mergulhada em óleo ou água fervente e virando um pastel humano), evisceração (arrancar órgãos de pessoas vivas, especialmente o coração), empalação (atravessar com uma estaca de baixo para cima, famosa por conta de um certo Vlad Tepes, o lorde romeno que inspirou o Drácula de Bram Stoker) e, possivelmente o mais aterrador, aquele chamado escafismo, praticado pelos persas (em que uma pessoa é largada em um barco, besuntada em mel e nos próprios dejetos, para que seja devorada por aves, insetos e vermes num suplício que duraria mais de uma semana).

Isso serve para aliviar a barra dos radicais? De modo algum. Mas por que causa tanta indignação? Polícias do mundo todo cometem atos de tortura que, se não causam a morte, são tão dolorosos ou degradantes quanto os mencionados. Prisioneiros em campos de concentração nazistas passaram por horrores indescritíveis antes das câmaras de gás. Pessoas pobres sofrem privações e fome que são uma violência inadmissível no século XXI. O problema em si não é o modo como as execuções ocorrem, mas como são divulgadas. A tortura policial ocorre às escondidas. A tortura nazista é parte dos livros de história e da memória dos sobreviventes (apesar de ser uma das causas para o fortalecimentos dos regimes de Direitos Humanos, inegavelmente). Os miseráveis são “invisíveis” nas periferias e sarjetas. Mas as mortes do ISIS? Circulam pela internet e fazem parte do cotidiano do noticiário. É claro que o ultraje resultante é maior.

Geralmente, a morte como pena serve como punição exemplar. Lembrem da casa do Tiradentes sendo demolida e o terreno salgado, para humilhar sua descendência e mostrar para o resto do povo como seria ruim se revoltar contra a Coroa de novo. As mortes do ISIS seguem esse padrão de mensagem? Aparentemente, nem tanto. “Aceitem nossas condições, libertem nossos colegas, reconheçam nosso califado, senão…”.

Não importa como a morte ocorre – poderia ser um fuzilamento, enforcamento, o que importa é a ideia de haver pessoas sendo mortas como uma moeda de barganha com a comunidade internacional. Em menor escala, é o que ocorre quando países negociam a troca de espiões capturados ou cidadãos presos – mas sem que, geralmente, essas vidas estejam em risco. Mesmo quando são pessoas condenadas à morte, como no recente caso dos brasileiros presos na Indonésia, a causa da pena capital é relacionada ao próprio indivíduo, não sendo uma ameaça a seus Estados de origem. O caso do ISIS é inovador no sentido que praticamente está havendo uma negociação de sequestro internacional com um grupo que almeja se tornar um Estado, quebrando todas as “regras” que os próprios Estados seguem, e que de maneira indireta consegue um pouco de sua intenção justamente pelo reconhecimento recebido e a importância que a questão consegue na política e mídia internacionais. O emprego de métodos não-convencionais e chocantes é apenas uma ferramenta, e não o objetivo da execução em si.

Mortes horríveis, vidas desperdiçadas de todos os lados. Mais que a obtenção de resultados políticos, o caso das execuções do ISIS reforça, uma vez mais, o velho argumento realista de que o ser humano, em geral, não presta mesmo.


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Terrorismo, um rabisco sem graça

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O mundo está comovido. Não importa a bandeira, ideologia, religião, convicção. Nem apenas porque o direito à vida é inalienável ou porque a liberdade de expressão foi fatalmente ferida. O atentado contra o jornal satírico “Charlie Hebdo” é uma afronta à genialidade humana, característica transcendental e atemporal, legado para gerações futuras. Entre os mortos, está o lendário cartunista francês Georges Wolinski, que inspirou até mesmo Ziraldo. A violência, sobretudo o terror, como manifestação inequívoca da discordância é a demonstração maior da intolerância e da segregação social – e entre povos. E também fica o alerta: a liberdade expressão, quando violenta – não necessariamente levando à agressão física, pode ser intolerante ou segregadora.

A deterioração da paz, conforme o Global Peace Index 2014, publicação anual do think tank australiano Institute for Economics and Peace, é traço marcante dos últimos oito anos, e o terrorismo é uma das principais motivação. A insegurança tem um impacto econômico expressivo. Em 2013, a violência causou um prejuízo de 9,8 trilhões de dólares, o equivalente a 11,3% do PIB mundial – ou duas vezes o PIB do continente africano. Mas a dimensão humana se sobressai, porque ela é irreparável. No levantamento do Global Terrorism Database, desde o início da incursão norte-americana ao Iraque, o número de mortes decorrentes de atividades terroristas aumentou no mundo todo, de 3.800, em 2002, para aproximadamente 11.000, em 2012 – estima-se que esse número chegue a 17.800, em 2013. Se, em 2002, 28 países eram afetados por essas mortes, em 2013, registrou-se 59 países.

Em um ambiente mais inseguro e menos pacífico, o terrorismo está se convertendo em um fenômeno verdadeiramente global, inclusive no aspecto geográfico, e não apenas político ou psicológico. É preciso, no entanto, cautela analítica. Na década passada, novamente em consonância com o Global Terrorism Database, 80% das fatalidades provocadas por atos terroristas ocorreram contra alvos não ocidentais. No mesmo dia em que dois irmãos abriram fogo contra a sede do “Charlie Hebdo” e mataram 12 pessoas, um carro-bomba explodiu em frente a uma academia de política em Sanaa, no Iêmen, causando 30 mortes. Mortes, a propósito, de muçulmanos. Pouco se noticiou. O Ocidente tem um peso simbólico nos valores que moldam a política mundial, o que reforça seu olhar narcisista: uma vida ocidental vale mais do que uma vida oriental.

É exagerado e falacioso refletir à luz do choque entre civilizações de Samuel Huntington, Ocidente x Oriente, colocando duas culturas – nelas, inserindo-se a ideologia, religião, etc. – em lados opostos e em confronto. Oriental também mata oriental, e vice-versa, por maiores que sejam as afinidades culturais. A percepção, mutuamente excludente e preconceituosa, que reforça a própria identidade em detrimento do outro, só alimenta a proliferação de radicais islâmicos e de islamofóbicos e aumenta a probabilidade de atos terroristas. Por que um ativista de extrema-direita e fundamentalista cristão, como Anders Behring Breivik, é taxado como louco após atentados de Oslo, em 2011, e todo ativista islâmico, ainda que não tenha perpetrado nenhum ato, é supostamente um terrorista?

O terrorismo também é um movimento de ação e reação. Não há como entendê-lo simplesmente pelo repúdio (natural e merecido) a quem comete um ato terrorista. Há um contexto histórico que levou à construção de uma narrativa sangrenta no século XXI. O 11 de setembro foi apenas o começo de uma nova velha saga, com novos atores, dinâmicas e enredos. A guerra global contra o terror e o discurso maniqueísta do então presidente norte-americano George Bush de “quem está conosco x quem está contra nós” disseminaram o sentimento do medo na política mundial e a necessidade empregar todos os meios necessários para contê-lo, mesmo diante de inimigos incertos, difusos e apátridas. De um lado, ocorreu uma confluência automática de posições entre Estados Unidos e alguns de seus aliados, de outro, uma radicalização progressiva das antipatias contra essa atitude do dito Ocidente, que acabou se casando – e ao mesmo tempo se legitimando – com o fundamentalismo islâmico. Uma década depois, todos se perguntam: quem venceu a guerra contra o terror?

Ninguém venceu. Todos perderam. É preciso rever as estratégias regionais e globais de combate ao terrorismo. Especialmente agora, em que pelo menos dois aspectos poderiam ser observados. O primeiro deles é que terroristas, mais do que disseminar o medo, passaram a ter ambições territoriais e constituir um espaço multinacional sob um governo, como é o caso do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL). Segundo, a intensificação dos chamados “lobos solitários”, como o que ocorreu recentemente em Sidnei, em que indivíduos comentem algum ato de terror por vontade própria, ainda que seja justificada por um motivo religioso, e não porque recebeu a instrução específica de um grupo terrorista.

O terrorismo está colocando um rabisco vermelho na política mundial. As pessoas ficam amedrontadas; os governos, eufóricos. Uma resposta ríspida torna-se a necessidade imediata de líderes e da sociedade. A extrema direita francesa já tratou o incidente de anteontem como uma declaração de guerra do islamismo contra a França. É a típica atitude que faz o mundo mergulhar em uma espiral de violência sem fim, sem graça e trágica. Ela espraia a intolerância e o ódio, não a paz e o diálogo. Foi-se o tempo em que os terroristas entendiam apenas a linguagem do dinheiro e da força. Eles também compreendem a política. E sem esta, a força será um desperdício. Para terroristas e vítimas.


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Um ideal para lutar?

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1out2014

Uma das notícias mais inusitadas da semana foi a revelação de que um ativista preso em São Paulo durante os protestos da época da Copa do Mundo está hoje lutando ao lado dos rebeldes separatistas ucranianos. Assim como a notícia do ex-soldado norte-americano que se juntou aos curdos na luta contra o ISIS, são comuns as notícias de pessoas que largam tudo para se juntar a alguma causa – e explicam muito das dificuldades encontradas pelos Estados nos conflitos atuais.

Até o final da Idade Média e começo da Moderna, a regra era que Estados contratassem mercenários. Não no sentido negativo que o termo tem hoje, mas como pessoas que escolhiam um ofício bem específico, o de lutar para quem os contratasse. E era um serviço muito bem feito, como atestam os famosos mercenários suíços que pintam em quase todas as guerras do período. Com isso a população civil nem precisava se preocupar com os combates (a não ser que chegasse ao seu quintal…). Isso muda com a consolidação do Estado Moderno, que entre suas características inclui a formação de exércitos regulares, sob controle do rei (afinal, não parecia ser a melhor das ideias que estrangeiros ficassem a cargo da proteção do país) e a conscrição de soldados a partir da população civil. Acima de um dever profissional, o cidadão deveria ir ao combate por razões mais vagas, como o sentimento de dever ou o nacionalismo – ou apenas por pura obrigação para não ir preso. Isso vale para os conflitos que assolam o mundo até hoje, e como o cidadão comum geralmente não tem muito interesse em morrer pelo país (apesar das muitas exceções), é necessário que haja uma atuação pesada em termos de propaganda e alistamento (como nos EUA) para que essa atividade se mantenha. Os benefícios ofertados para o soldado de hoje tem de ser muito mais que um salário (como bolsas estudantis e plano de saúde) para que se arrisquem desse modo.

Então o que acontece com as pessoas que largam tudo para se juntar a uma causa, muitas vezes suicida, em outra parte do mundo? É irônico constatar que, enquanto noções vagas e até mesmo construídas como o nacionalismo era usadas como justificativa para a conscrição, boa parte desses viajantes o faz justamente por razões de identidade e comunidade. Talvez a primeira grande manifestação disso seja lá nos anos 30, durante a Guerra Civil espanhola, mas pense hoje nos americanos e ingleses que se unem à luta na Síria ou ao ISIS – fora o laço da religião não existe nada que os obrigue a isso. Mas o mundo contemporâneo possibilita a formação de redes de informação que facilitam a troca de informações e ideias, aproximando pessoas com experiências semelhantes em círculos de convivência atrativos e à revelia da noção de identidade nacional. E como pessoas sem nada a perder, dispostas voluntariamente a combater por sua causa, lutam de maneira acirrada, por vezes indo além do que se espera da disciplina militar regular e recorrendo à guerrilha e ao terrorismo.

Tal é o desafio das guerras do século XXI. Na ausência de conflitos entre democracias, os mercenários de ontem não encontram reflexo nos combatentes de hoje. O que se opõe via de regra são exércitos regulares embasados em um modelo tradicional (mas custoso para que se mantenha funcionando), contra indivíduos dispostos às últimas consequências para defender um ideal – ou mesmo a luta destes entre si.


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Clube do Bolinha – ou das bolinhas?

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Na semana em que a questão de gênero teve grande relevo com o discurso da Emma Watson na ONU, vem da Espanha mais um caso de como isso é um problema ainda.

Há alguns dias a seleção espanhola da Copa Davis (a Copa do Mundo de tênis) foi eliminada pelo Brasil e ficou de fora do grupo especial. Desfalques espanhóis e dedicação dos atletas brasileiros à parte (que foi realmente sensacional), seria mais ou menos como se o Brasil (uma “superpotência” do esporte) perdesse para o Paraguai (que tem bons atletas mas não faz nada de excepcional há anos) e ficasse fora da Copa no futebol. E claro que cabeças rolaram – especificamente do técnico, o ex-jogador (que já foi número 1 do mundo) Carlos Moyá.

E o gênero com isso? Para seu lugar, foi chamada Gala León, também ex-tenista e diretora esportiva. A reação mais contundente foi de Toni Nadal (tio do Nadal famoso), que considerou a escolha equivocada e que a técnica terá dificuldades “no vestiário” por se tratar de uma equipe masculina. A repercussão negativa dos comentários, tachados de machistas a antiquados, revela um problema nada velado na sociedade e que fica ainda mais evidente no mundo tradicional do esporte.

É comum vermos homens dirigindo equipes femininas ou atletas mulheres. Mas o inverso é uma raridade – quando ocorre, geralmente é algo por laços familiares ou é temporário. Pode-se argumentar sobre diferenças fisiológicas para a prática do esporte entre homens e mulheres, mas em teoria a preparação exige o conhecimento, algo que ambos os gêneros compartilham em igual medida. O que existe, no caso, é uma barreira social, histórica e econômica. Estudos apontam que, apesar das tendências de queda, a remuneração de homens e mulheres na mesma posição ainda tem uma diferença substancial em termos de valores. Mesmo no Brasil, por exemplo, as mulheres ganham em média apenas 73% do que os homens. Os avanços no mercado de trabalho ainda não têm o impacto suficiente em diversas sociedades para reverberar em mudança na estrutura e percepções de gênero mais enraizadas.

Também devemos lembrar que, como no caso da Espanha, um país às portas da crise política (a Catalunha está prestes a seguir o exemplo da Escócia e puxar um referendo para separação da Espanha) e já em crise econômica há algum tempo, o conservadorismo ganha força em momentos de insegurança. E parte do conservadorismo significa uma estrutura tradicional em que a igualdade de gênero vira mais um problema que solução. Certo ou errado, o fato é que León não deve ter problemas em trazer a equipe (mais que gabaritada) de volta ao grupo mundial da Davis – seu grande desafio, possivelmente, será a mera manutenção de seu cargo nesse contexto adverso.


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A defesa (re)nascente

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Esta semana foi histórica para o Japão. O país historicamente marcado pelo espírito de combate e que por algumas décadas se empenhou em um militarismo imperial que acabou se mostrando suicida para depois da Segunda Guerra Mundial ser transformado em uma potência pacífica, aprovou uma emenda constitucional que flexibiliza o uso da força pelas suas Forças de Auto Defesa (ou SDF).

Calma, isso ainda não significa que o Japão vai poder disputar as ilhas Senkaku no braço. A emenda, que já estava no ar há algum tempo, adicionou algumas condições bem específicas para o conceito de “autodefesa coletiva”. Segundo a constituição do país, suas forças armadas devem ser usadas especificamente para a defesa do território nacional, e nada mais, sem poder usar a força para resolver qualquer conflito fora do arquipélago. Agora, com a mudança, caso algum aliado do Japão esteja em risco, e com o Japão na mesma situação, pode haver alguma ajuda – por exemplo, abatendo mísseis norte-coreanos lançados contra a costa oeste dos EUA.

Na prática, é uma medida que não muda quase nada – o conceito empregado é uma variação do já consagrado ideal da “segurança coletiva” nascido do presidente Wilson quase 100 anos atrás e alicerce do funcionamento da ONU. Nesse sistema, ninguém pode atacar ninguém. Se algum de nossos amigos for atacado, absolutamente todos devem ajuda-lo, e quem atacou está obrigatoriamente errado. Claro que na prática não funciona bem assim, mas a ideia está aí faz tempo e a emenda japonesa não é nenhum ovo de Colombo.

Porém, essa mudança ainda que sutil tem um efeito moral e simbólico fundamental. Como dito acima, é a primeira vez em décadas que o Japão mexe no ponto mais característico da sua constituição, e que é considerado um dos fatores mais benéficos para seu desenvolvimento. A justificativa, é claro, são as ameaças dos vizinhos, com o debate sobre as ilhotas com a China ou o programa nuclear norte-coreano. Mas isso é uma ameaça de fato? Nos últimos anos Japão e China mantinham uma certa aproximação (ainda são grandes parceiros comerciais), especialmente nas reuniões da ASEAN, e até mesmo suspendeu sanções contra a Coreia do Norte por “bom comportamento”. Essa medida, de fato, pode ter o efeito contrário – no bom e velho paradoxo da segurança, quem pode se sentir ameaçado são os vizinhos do Japão, que ainda tem contra si um passado imperial e violento sobre o sudeste asiático. A medida foi criticada duramente na região, especialmente, é claro, na China.

Todavia, o maior impacto ainda é interno. Boa parte da população não aprova as mudanças (o pacifismo se tornou um valor querido pelos japoneses), e uma flexibilização mais radical é literalmente impossível. Com isso, a medida do premiê Shinzo Abe parece ser uma prova de força contra a oposição em um país dividido politicamente e em crise moral. Basta ver notícias recentes, como a da parlamentar que foi ofendida durante um discurso sobre políticas de natalidade por um colega do Legislativo e resultou em um pedido de desculpas público do agressor, ou do constrangedor choro de um vereador corrupto, flagrado torrando o erário em resorts e soltou o berreiro. Há alguns anos o Japão enfrenta instabilidades política e uma insatisfação crescente com seus governantes, e a busca por mais segurança (no sentido de estabilidade, indo justamente a um dos pontos mais sensíveis da política internacional, que é a Defesa), pode ser uma arriscada aposta de Abe.


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O tal nacionalismo

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Ano de Copa, e pelas particularidades da organização desse ano, temos tudo para que o mundial de 2014 seja conturbado fora de campo, com protestos e até os mais exaltados que clamam para que não haja torneio. Razões e motivações à parte, um ponto interessante que vai aparecer em qualquer discussão, de redes sociais a barzinhos, é o tal do nacionalismo. Quem defende os protestos vai argumentar que ser verdadeiramente nacionalista nesse momento é lutar pelos direitos, contra a corrupção, custe o que custar, pelo bem do Brasil. Quem argumenta do lado oposto vai dizer que, de um modo mais tradicional, ser contra a Copa vai causar estragos econômicos (mais do que já houve) e arruinar a imagem do país. E aqueles mais despreocupados vão ligar esse problema mais ao sentimento de pertença ao grupo, com nacionalismo se igualando a torcer pela seleção e voltar pro trabalho na segunda-feira.

Todos esses pontos de vista (apesar de remontar também ao patriotismo, que é uma coisa um pouco diferente) mostram um problema importante do mundo atual, que é a noção de nacionalismo e identidade. Como tal, é intersubjetivo – o que se entende como nacionalismo é um conceito construído, lá no século XIX, e hoje perde um pouco de sentido em alguns casos dependendo de como cada grupo entende o problema. É só ver a crise da Crimeia – são ucranianos no papel, na lei, mas em termos de sentimento nacional estão mais apegados ao lado da etnia russa. Com isso, os crimeanos abrem mão da nacionalidade ucraniana (é um pouco mais complicado, já que alguns podem optar por continuarem ucranianos, mas vou me dar ao luxo de generalizar um pouco essa explicação) para se tornaram russos. Se fosse realmente um conceito tão fundamental, as pessoas não trocariam tão facilmente de nacionalidade, o que demonstra brevemente que o peso dessa ideia depende muito de cada caso.

Existem até mesmo constituições nacionais que endossam esse caráter de pertencimento ao grupo, mas quem pode impedir o indivíduo de não querer ser parte disso? Um exemplo vem da notícia pitoresca das últimas semanas de que o governo britânico está promovendo uma campanha (com apoio da Scotland Yard e grupos de direitos humanos) pedindo que esposas e irmãs de possíveis ativistas islâmicos denunciem o fato para que o governo impeça que saiam do país e se juntem ao combate na guerra civil Síria. Existe uma grande fonte de ironia em tudo isso – desde o começo, países ocidentais vêm apoiando a oposição síria, e parte dela são grupos radicais, muitos ligados a extremistas islâmicos… e antiocidentais. E boa parte de seus combatentes são pessoas convertidas ou nascidas em países como a França e o Reino Unido. Por mais que tenham a nacionalidade de países europeus, a identidade religiosa fala mais alto, ao ponto de abandonarem tudo para se juntarem a uma luta de extrema letalidade e potencialmente suicida.

Resumo da ópera: pensar em nacionalismo hoje depende muito da conveniência de quem discute. Pode ser um elemento de legitimação ou garantia do status quo, bem como para a derrubada do mesmo. Pode ser uma ideia aproveitada para manipular contingentes populacionais. E pode não ter absolutamente peso ou valor nenhum. Pois o nacionalismo é apenas um aspecto da identidade, seja coletiva ou individual, e no mundo de hoje tem muito mais concorrência para determinar qual seja o valor fundamental para cada indivíduo.


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Fé derretida

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Você confia nos outros? Uma questão tão simples quanto essa é cada vez mais central para governos, sociólogos e cientistas políticos. É que a confiança nas relações interpessoais e nas instituições tradicionais, muito além de ser um problema cotidiano sem importância, pode ser um dos termômetros que definem quem somos e qual sociedade temos. A falta de fé na honestidade de autoridades, parceiros comerciais, empresários e consumidores já aparece como um dos principais fatores que atravancam o desenvolvimento econômico e democrático de diversos países.

E a confiança tem estado em baixa no mundo todo. Inúmeras pesquisas realizadas em países da União Europeia apontam que praticamente 3 em cada 4 pessoas acredita que a corrupção está impregnada na sociedade. Com ou sem razão, tais níveis de descrença pode ser um verdadeiro desastre para o futuro. A UE tem visto esses resultados como um anúncio de dificuldade econômica. Afinal, a confiança é determinante para os índices de empreendedorismo na sociedade. As relações comerciais dependem principalmente de boas relações interpessoais. E quanto maior a dinâmica das relações econômicas, maior o desenvolvimento.

Mas não só na economia que a crise de confiança age de forma negativa. Há comprovações por meio de pesquisas que ela está ligada também ao aumento da criminalidade, da aceitação de comportamentos nocivos, para a expansão de crimes fiscais e de práticas comerciais abusivas. Em países no topo da escala de desconfiança social, ela também age como promotora de grupos e ideias anti-democráticos, que prosperam em momentos de crise moral e econômica.

Para entendermos os desdobramentos da falta de confiança na sociedade temos que analisar pesquisas recentes, em que ela é igualada ao que foi cunhado de “crise siciliana”. Isso por que a configuração social e familiar dessa região da Itália criou facções tradicionais que defendiam a proteção incondicional aos parentes de sangue, mesmo que isso envolvesse a prática de crimes e de ações desonestas enquanto se relacionavam com o restante da sociedade. Ali surgia o código de honra da máfia siciliana.

E o que isso tem a ver com o momento atual? É que as pesquisas apontam que tal comportamento tende a ser copiado quando vivemos crises de confiança humana. Exemplo disso são pesquisas realizadas pela Confederação da Indústria (CNI), que mostram que 80% dos brasileiros não confiam em ninguém além de familiares. Entre essas pessoas, a crença de que o desrespeito à lei e de que comportamentos oportunistas em relações comerciais sejam aceitáveis é mais presente. Para se ter ideia, 55% desses brasileiros acreditam que crimes leves, como viajar sem pagar a passagem, ou até mesmo a sonegação de impostos, são atitudes pouco nocivas à sociedade.

Mais do que uma forma de proteção diante da corrupção humana, esse tipo de ideal moderno nascido da máfia é válvula para uma separação maior entre as pessoas. Em última instância, até mesmo serve como álibi a práticas indesejáveis.

Assim, podemos dizer que a crise de confiança é também a crise de valores éticos em que uma sociedade foi alicerçada. Não à toa durante as manifestações nacionais, assim como em muitas outras indignações populares que se espalharam pelo mundo recentemente, notamos que a insatisfação generalizada mais do que apontar um governo ineficiente, demonstrou que vivemos uma espécie de crise de tudo. Praticamente ninguém ficou impune à insatisfação e a descrença das ruas. Sejam governos, religiões, meios de comunicação e representações públicas.

Mas nada disso é novidade. A modernidade parece ser o espaço da luta entre os valores éticos tradicionais e as relações interpessoais voláteis, líquidas. Uma espécie de conceito freudiano às avessas, em que a falta de engessamento das práticas e dos aparelhos sociais dão o tom da nossa crise, e não o contrário, como profetizou o pensador ainda no início do século XX.

Não à toa, a falta de confiança estabelece uma corrida legalista por justiça, fazendo com que aja apoio massivo da populações por mudanças nas leis, sempre visando uma maior rigorosidade das mesmas. Em meio a essa turbulência, a defesa da educação como caminho para a mudança social e de valores recentemente alçados a centrais, como o da cidadania, ficam em segundo plano. Nas situações mais alarmantes, até mesmo a democracia corre o risco de retrocesso, ainda mais em países em que a perda da confiança é total, como parece ser o caso da Grécia. Nesses casos, grupos totalitários e contra-reformistas ganham novamente voz, exatamente pelo discurso de esperança do retorno de um “passado” menos incerto.

O renomado sociólogo Zygmunt Bauman, um dos primeiros defensores de que vivemos em uma época única em que as relações humanas e os valores morais colidem, inicia um dos seus livros com a seguinte pergunta: ” Quantos de nós seríamos capazes de seguir um código moral ao pé da letra? E de forma flexível?” O momento atual é caracterizado pela falta de fé na política, nas pessoas e instituições, fenômeno mundial de importância muito maior do que para uma agradável discussão filosófica. Com a grande complexidade que rege o tabuleiro das práticas sociais, a quebra da confiança se apresenta como uma das principais peças que definirão o futuro das relações humanas e das sociedades modernas.


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O que 60 mil Almas Devem Ensinar

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Por vezes a distância territorial e cultural não nos permite, por mais informados que estejamos sobre o mundo e a realidade de um país específico, ao menos uma compreensão superficial destes. Os conflitos religiosos na Irlanda do Norte, os estupros e a proliferação da AIDS como arma de guerra na África ou a total falta de direitos das mulheres no Marrocos podem ser conhecidas facilmente, mas poucas vezes entendidas.

Na maioria das vezes apenas nos atemos a definições genéricas para cada assunto, enquanto na vida real e as relações que definem quem somos é mais complexa. Em certo momento, para todos que tentam conhecer as razões que definem as sociedades é necessário a utilização de todas as peças do quebra-cabeça social, mesmo enquanto analisamos uma única parte. Ainda mais quando se procura más características, como a quem busca compreender conflitos ou injustiças, temas em que as verdades são apagadas propositadamente dos livros oficiais e só levantadas às vezes por uma série de pensadores e críticos corajosos.

Entretanto, tudo pode parecer mais claro quando relacionamos injustiças sociais à como uma cultura ou uma sociedade que conhecemos profundamente foi estabelecida. Para completar um dos quebra-cabeças entre legitimação social de uma injustiça e como é estabelecida uma sociedade, utilizo um fato ocorrido em nosso país há apenas 30 anos atrás.  

O caso do hospital psiquiátrico de Barbacena e do tratamento de seus “pacientes”, ocorrido por quase um século, é o melhor exemplo que podemos utilizar. Os motivos para as internações da maioria que ali residiam, a vida que levavam dentro da instituição e, por fim, o baixo preço da existência dessas pessoas formam um quadro exato para a compreensão das injustiças sociais ligadas à cultura brasileira.

O hospital, que abrigou milhares de pessoas durante o século XX, foi responsável pela morte de pelo menos 60 mil pessoas, número que representa apenas os 15 anos em que documentos oficiais e pesquisas foram capazes de contabilizar os mortos. As peculiaridades da instituição impressionam. Era uma população formada por mais de 200 mil pessoas, nas quais 70% delas não apresentando nenhum quadro de problemas mentais. Eram sim desafetos políticos de senhores poderosos, prostitutas, mulheres engravidadas fora do casamento, supostos criminosos e pessoas afetadas pela pobreza extrema.  

O hospital psiquiátrico de Barbacena foi verdadeiramente um cárcere travestido de instituição médica, utilizado como ferramenta para o cumprimento de desejos pessoais e políticos de pessoas poderosas, e do desejo de limpeza étnica e social por parte da sociedade de Minas Gerais e dos estados vizinhos. 

Dentro do cárcere, a maioria experimentava a morte e a indigência. Enquanto viviam tal brutalidade, o hospital de Barbacena gozava de enorme prestígio entre políticos, autoridades policiais e homens de grande respeito e poder aquisitivo, os grandes utilizadores dos “serviços” prestados pelo hospital. Os que não participavam diretamente do absurdo, mas podiam protestar contra o que ocorria, também nunca ousaram contestar a forma como eram tratados os pacientes. 

O hospício que fabricou o “Holocausto brasileiro” em nenhum momento esteve isolado do mundo, muito menos as suas atividades permaneceram escondidas nas sombras. Durante seu funcionamento, bebês foram retirados das mães internadas e adotados por outras famílias, com o conhecimento de autoridades e de diretores de Barbacena. Corpos foram vendidos à faculdades de Medicina, instituições de prestígio. Pessoas sumiam, trens cheios de novos presos chegavam todos os dias, sem que parentes e amigos contestassem os sumiços, autoridades ou moradores da cidade buscassem informações sobre as causas de tantas internações.

O caso de Barbacena é de um exemplo quase cristalino da injustiça social em que aos poucos se constituiu a pior característica do Brasil. O poder exacerbado para alguns, baseado nas raízes nacionais do coronelismo e do triste contraste entre sujeitos cheios de poder e miseráveis sem direitos, foram os responsáveis por esse episódio. 

Barbacena é a identidade primitiva para compreendermos como hoje em dia ainda temos tanto descaso pelos Direitos Humanos no país, junto a um abuso de autoridade constante, ambos legitimados pela maioria da população. Os pacientes, por serem “loucos” ou criminosos, pouco mereciam de consideração e respeito. Para outros, a miséria do hospício se transformava na única forma possível de vida que pudesse ser ofertada a “esse tipo de gente”.  Por fim, a exagerada crença nas autoridades, agindo como criminosas, forjavam os 70¨% de internações ilegais pela instituição e o descaso total à vida. 

As milhares de pessoas falecidas, que ainda viveram um final de vida em que estavam presos, nus, sem alimento e sem água potável, é uma atrocidade genuinamente brasileira. Como deixamos acontecer? Simplesmente não sabíamos, não desconfiávamos e não nos importávamos. Um tripé que em muito ajuda a esclarecer como coisas do tipo podem ocorrer em outros países, pergunta que muitas vezes não encontramos quando falamos de um realidade exterior. 

Quantos casos como esse existiram e ainda existem no Brasil? Quantas são as vítimas totais? Até qual ponto a cultura e a estrutura social  foram responsáveis para que tais fatos fossem legitimados, esquecidos e não punidos, algumas vezes até mesmo apoiados? Nesse momento conseguimos perceber o quão fácil é para uma cultura legitimar o que para nós, quando estamos distantes, se torna abominável. Por que o abominável de cada sociedade não reside mais nas sombras do que na claridade do dia-a-dia. 

 As 60 mil almas perdidas nesse triste episódio brasileiro só podem servir como um fato positivo nos dias atuais: a compreensão de como um sistema e uma ordem social se estruturam para legitimar situações absurdas e atentados contra seu próprio povo, sejam elas motivadas por causas econômicas, religiosas ou de poder. Cabe a nós evitarmos que o pior de uma sociedade se levante.

Recentemente, a publicação do livro “O Holocausto brasileiro” foi o primeiro grande passo para a recuperação da memória do que houve em nosso país durante a existência de tais “instituições psiquiátricas”. O conhecimento desse tema é crucial ao brasileiro. Afinal, relembrar o passado é a ferramente para compreender e modificar o presente.  E infelizmente, parte desse passado nunca será totalmente varrido de nossa sociedade, por que as sociedades reproduzem Mário Quintana com a verdade da célebre frase: “o passado não reconhece o seu lugar. Está sempre presente”.

Para interessados, a apresentação do livro “O Holocausto brasileiro” – (clique aqui). 


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A (Des)Igualdade Econômica entre Gêneros

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Regularmente, o Fórum Econômico Mundial cumpre um papel importante para a compreensão da desigualdade de gênero. O Relatório Global de Desigualdade entre Gêneros (Global Gender Gap) é um dos maiores termômetros das desigualdades econômicas persistentes entre homens e mulheres de 135 nações diferentes.

 

Ferramenta importante para pesquisadores qualificados, o relatório também pode servir como uma consistente base para o entendimento da situação atual de desigualdade de gênero para interessados no tema. Os seus resultados, embora anuais, retratam parte e do desenvolvimento dos direitos da mulher e sua inserção no mercado de trabalho no século XX.

 

Como exemplo, podemos ver que os países melhores classificados, com a menor presença de desigualdades, são os escandinavos. Nesses locais, as leis jurídicas que garantiram a igualdade civil e politica entre homens e mulheres datam do início do século passado. A Suécia, por exemplo, tem em sua Constituição a igualdade entre sexos desde 1905. A Islândia é o maior exemplo de sociedade igualitária desse tipo, sendo o único país do mundo em que o índice registra uma igualdade completa entre homens e mulheres.

 

Entre os bons exemplo de construção de uma sociedade mais justa estão os mercados mais desenvolvidos do mundo. Segundo especialistas, países com maior desenvolvimento econômico aparentaram ter o maior desenvolvimento rumo à igualdade. Os economistas dizem que a procura pelas melhores mentes,  independente de particularidades preconceituosas, é o combustível dessa evolução nesses locais.

 

Entretanto, o resultado do último relatório não é tão otimista. A diminuição da desigualdade desacelerou nos últimos anos. Em cinco anos, houve apenas uma evolução de 10% na redução da desigualdade mundial. Enquanto isso, ao redor do mundo a diferença entre homens e mulheres ainda beira a casa dos 60%.

 

No Brasil, a desigualdade sofreu uma grande diminuição em menos de dois anos. O país saltou 20 posições no ranking, passando a ser a nação número 62 em igualdade de gênero, entre 135 países. Tudo isso garantido pela inserção de diversas mulheres em cargos de poder no governo Federal desde a eleição de uma presidente mulher.

 

Mas devemos ficar alertas ao comemorarmos alguns números. Se a nova política formação de ministérios inciada por Dilma tem o poder de indicar um certo empoderamento feminino no país, ele também mostra a fragilidade das medições utilizadas pelo Fórum e a sua metodologia. Afinal, a desigualdade de gêneros não pode ser apenas medida por fatores econômicos e a conjuntura politica de um país.

 

A formação e os costumes de uma sociedade devem também pesar para esse tipo de análise. O nosso país é campeão mundial em exploração sexual e prostituição infantil. Infelizmente, esse tipo de crime contra a mulher, muitas vezes respaldado pela sociedade, não entram nesse cálculo. Metodologias estritamente economicistas por vezes impedem a visão de algumas más práticas sociais, tais como o machismo elevado ou a cultura do estupro, presente em diversas nações.

 

Mesmo assim, não podemos deixar de pontuar que há situações ainda muito piores que a brasileira, em que a mulher ainda se encontra fora da educação formal, do mercado de trabalho e muitas vezes da vida pública e da política. Em outros locais, como o Marrocos, pode sofrer uma dupla punição em um país em que o homem é livre para ter relações sexuais com qualquer mulher, muitas vezes á força, enquanto elas podem ser condenadas à morte por sexo fora do casamento, mesmo em casos de estupro.

 

Os indicadores de desigualdade econômica apontam para um mundo menos desigual no futuro, mesmo que essa mudança esteja desacelerando. Ainda mostram que as primeiras sociedades estão chegando a igualdade plena, antes presente apenas nos sonhos de alguns. Entretanto, devemos esperar que, como o Fórum Econômico já o fez, organizações de estudos sociais insiram em suas pautas a realização de pesquisas tão completas quanto é a da situação de desigualdade econômica de gênero,  além da economia somente, mas também de ordem jurídica e social.

 

Infelizmente, o espaço possível de uma postagem não seria suficiente para cobrir todos os dados formados por esse estudo tão interessante. Aos que se interessarem mais profundamente pelo assunto, segue o estudo completo e a classificação dos países de acordo com a igualdade de gênero presentes em cada um.

 

Estudo completo: The Global Gender Gap Report. (Clique no nome da pesquisa).

 

Classificação geral das nações: Ranking de igualdade de Gêneros.  (Clique no nome do ranking).

 


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