Conversando com a Teoria

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Idealismo clássico: uma coletânea de pensamentos

Pessoal, o objetivo hoje é tratar resumidamente de autores “mais antigos” que contribuíram para a construção de um pensamento liberal na teoria das Relações Internacionais. Em específico, o post de hoje se concentra nas premissas que inspiraram o liberalismo no momento de criação da disciplina acadêmica. Deixemos para outro dia a apreciação de Norman Angell e Keynes.

Em plena Idade Média já se pensava em um mundo como poderia ser, sobretudo, idealizava-se um mundo pacífico. Marsílio de Pádua, ao escrever O defensor da Paz, objetiva demonstrar como alcançar a paz e como mantê-la. Esforçou continuado com Thomas More em A Utopia, na qual ele descreve uma ilha constituída por 54 cidades, cujos habitantes vivem em plena harmonia e repudiam a guerra com fervor por causa da brutalidade e selvageria que ela acarreta. Dois séculos mais tarde, Abade de Saint-Pierre, em seu Projeto para tornar perpétua a paz na Europa, defende que os valores comuns apresentam-se como a base para a integração e paz, sendo necessária a assinatura de um Tratado de União e a formalização de um Congresso Perpétuo entre as soberanias católicas da Europa.

No século XVII, o liberalismo se fez presente no surgimento do Estado liberal moderno. John Locke depositou grande crença num Estado que garantisse a liberdade individual para o progresso da sociedade moderna. Nesse período, Rousseau surgiu como um dos grandes expoentes do pensamento liberal. Ele criticou o projeto de paz de Abade de Saint-Pierre, afirmando que este não levou em consideração o regime político interno e a paz era indissociável a uma união de pequenos Estados democráticos.

No espírito de Rousseau, Immanuel Kant escreve em 1795 A Paz Perpétua, uma obra na qual ele delineia três artigos definitivos para paz: 1) republicanismo democrático; 2) união federalista de Estados; e 3) cosmopolitismo. Para Kant, é necessário um governo representativo internamente que defenda seus cidadãos, uma federação de Estados que prime pelo direito internacional e o tratamento hospitaleiro aos estrangeiros. Esta combinação de fatores seria a maneira de assegurar a paz perpétua.

Entre a razão e a paixão, os idealistas clássicos argumentam que os homens são naturalmente bons, cooperativos e pacíficos, e que com os incentivos corretos eles poderiam preservar sua natureza. A razão lhes ensinaria a insanidade das guerras e a paixão lhes daria a possibilidade de construir um mundo “perfeito”, mantendo o comércio, valores comuns e a paz. Por muito tempo acreditou-se que era possível mudar as relações internacionais de modo aproximá-las de como os indivíduos as idealizavam. A sociedade contemporânea ainda não perdeu essa crença.


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[Antes de iniciar o post de hoje, gostaria de registrar os cumprimentos de toda a Equipe da Página Internacional ao colaborador Raphael Camargo Lima, que hoje completa mais um ano de vida. Desejamos muita luz e sucesso no seu caminho! Um abraço especial de todos que aqui escrevem a você, Raphael.]

Liberalismo: entre a razão e a paixão

O artigo I da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) prescreve: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.” e, no entanto, esses dois valores elementares – liberdade e igualdade – não resplandecem em sua plenitude nos indivíduos de todas as nações do mundo. Tais valores e a preocupação com o indivíduo representam o cerne da tradição liberal e redundam de um longo processo (ainda incompleto) construído no decurso da história.

A queda da Bastilha e a formação da sociedade industrial moderna educaram o filho dileto do Iluminismo, o liberalismo, e seus ensinamentos extrapolaram as fronteiras do tempo. Atualmente, a corrente liberal, mesmo que enfoque primordialmente a dimensão nacional, apresenta-se como um dos paradigmas dominantes nas teorias das Relações Internacionais.

Diferente da tradição realista, não se pode encontrar um pensamento coeso na tradição liberal e as diferenças e controvérsias culminam em sub-tradições dentro de uma ampla perspectiva filosófica – liberalismo sociológico, liberalismo institucionalista, etc.. Apesar da falta de coesão, há uma essência da qual compartilham as diferentes tradições liberais: o fundamento da liberdade individual, que traz consigo a capacidade de decidir o que é justo e o que é bom. Logo, amparados pela razão, nossas escolhas nos permitiriam produzir resultados sociais positivos e sociedades auto-reguladas, bem como poderíamos assegurar condições permanentes para o progresso contínuo e inevitável dessas sociedades.

Rompendo agora a dimensão interna e passando para o plano internacional, a fé depositada na razão assume novas formas. As idéias liberais de livre-comércio, democracia, instituições, interdependência, dentre outras, superariam a inevitabilidade da guerra e a condição anárquica do sistema internacional. Em suma, a guerra cessa a atividade comercial; democracias não entram em guerra; instituições reduzem os conflitos e mudam a natureza da política mundial; uma situação de dependência mútua abranda disputas. A natureza humana é essencialmente boa e os seres humanos, dotados de razão, podem muito bem construir um novo mundo, não como ele é, mas como ele deveria ser. Não seria uma visão apaixonada?

Findada a Primeira Guerra Mundial, os primeiros liberais a formularem conceitos às Relações Internacionais – conhecidos como idealistas na época – acreditaram que este seria o conflito que poria fim a todos os demais porque os humanos teriam aprendido que tamanha bestialidade não deveria se repetir. Sim, este era um pensamento bastante razoável, mas não teria também o elemento da paixão? De uma súbita veleidade? Não ocorreria o mesmo no artigo I da Declaração Universal dos Direitos Humanos?

Certamente, esta deve ser também a tradição mais próxima dos humanos, pois a intermediação entre a razão e paixão remonta o próprio e eterno dilema humano entre o agir racionalmente e o agir emocionalmente. No meio, perdura o mistério de toda ação. Cabe-nos perguntar o quanto devemos ter aprendido com os liberais e quanto eles devem ter aprendido conosco.


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Nas últimas semanas, lidamos com o Realismo, sua teoria e seus autores. Agora, vamos abordar um caso prático. Apesar de ser a vertente mais consagrada das Relações Internacionais, e que literalmente moldou a disputa entre EUA e URSS na Guerra Fria, o Realismo teórico perdeu um pouco de força a partir da década de 1990. Todavia, casos práticos com esse aspecto mais clássico ainda existem, como as relações entre Índia e Paquistão, focadas na insegurança e temor da ação militar.

Contudo, existe um caso interessante – e bem atual – que mostra uma riqueza maior associada ao Realismo, indo além do aspecto do conflito, que é a situação das bases militares no Quirguistão. O país asiático, como sabem, está há algum tempo imerso em conflitos internos e problemas políticos. A isso se soma uma velada disputa internacional, encabeçada justamente por EUA e Rússia. A questão é que ambos os países possuem bases militares na ex-república soviética e “oficiosamente” não veriam com bons olhos a presença um do outro, especialmente a Rússia. De fato, um dos fatores de crise interna no país centro-asiático foi a repercussão da renovação do aluguel da base norte-americana, após o ex-presidente ter recebido uma mesada de 2 bilhões de dólares Moscou (para quem as bases devem ser temporárias e desarticuladas após cumprirem suas missões relevantes) como “incentivo” ao fechamento das mesmas.

Mas onde o Realismo entra nisso? Lembrem dos interesses em termos de poder, e a busca pela sobrevivência do Estado. A base norte-americana é vital para a missão do Afeganistão (servindo como ponte de abastecimento e logísitca), na cruzada contra o terror. Ora, esta é uma questão vital para a sobrevivência e a garantia da segurança dos EUA, ao menos na última década. Por outro lado, a existência de uma base russa é apenas um demonstrativo das constantes “investidas” de Moscou na Ásia Central, onde anda perdendo influência para a Europa Ocidental, principalmente com a abertura para o ingresso na União Europeia. De fato, mesmo os EUA acabam tendo um fator de influência crescente – boa parte da melhoria permanente de infraestrutura das cercanias depende do dinheiro norte-americano para a base. Por aquelas bandas, poder militar ainda significa muito, principalmente após quase 20 anos de abandono e empobrecimento de diversos países, e a Rússia ainda tem muitos interesses políticos e econômicos, influindo de maneira sutil (ou não…) nos desenvolvimentos da região, incluindo a atuação no Quirguistão, dividido entre grupos pró-Moscou e pró-Ocidente.

O fato é que, apesar do fim da Guerra Fira, ainda persistem muitas desconfianças entre EUA e Rússia. Basta ver a celeuma causada pelo tal escudo antimísseis da OTAN. A presença dos EUA na Ásia Central, associada à guerra no Afeganistão, torna-se uma presença indesejada e até mesmo improdutiva para a Rússia, que em seu projeto de reestruturar uma esfera de influência, ainda tem que aturar a presença crescente da China nos negócios da região. Os dois países podem até não estar em conflito armado (como, aliás, nunca estiveram, diretamente), e são tecnicamente aliados hoje, mas lembrem-se do famoso ditado realista: “o amigo de hoje pode ser o inimigo de amanhã” – e vice-versa!

Portanto, os EUA precisam da base para combater o terror, e a Rússia precisa de sua base como elemento de influência regional. A coexistência de ambas torna-se problemática em uma região conturbada, na qual entram os elementos da imprecisão e da dificuldade em prever o que o outro está pensando (o cerne do dilema de segurança), e o atrito acaba sendo uma conseqüência inevitável. Esse caso é apenas uma breve e superficial mostra da riqueza teórica do Realismo, corrente que certamente ainda vai continuar a se adaptar aos tempos e render muitos estudos importantes para a área.


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[Pessoal, segue abaixo mais um post do colaborador Giovanni Okado para a seção Conversando com a Teoria. Nesta oportunidade, são desenvolvidas idéias de pensadores realistas das Relações Internacionais! Aproveitem a leitura!]


Realismo: pensamento e pensadores

De modo geral, a tradição realista se subdivide em duas vertentes: o realismo clássico e o realismo moderno (ou neoclássico) – concentremo-nos apenas nestas. No que concerne à primeira, os principais autores são Tucídides, Maquiavel e Hobbes. Já no tocante à segunda, Carr e Morgenthau são as referências indispensáveis e mais diretamente ligadas às Relações Internacionais, propriamente ditas.

Primeiramente, tratemos dos realistas clássicos. Tucídides (471-400 a.C.), o antigo historiador grego que analisou a Guerra do Peloponeso (431–404 a.C.) – batalha travada entre Atenas e Esparta (foto) –, depreendeu que, “em um mundo onde os poderosos fazem o que têm o poder de fazer e os fracos aceitam o que têm que aceitar”, perdura o medo de não sobreviver e incita a guerra. Assim sendo, o historiador prenunciou o conceito de balança de poder, dado que os fracos tentarão se aliar aos poderosos, os quais ostentam rivalidades entre si, no intuito de manter uma situação relativamente pacífica em que todos possam sobreviver. Contudo, a sombra do conflito não se dissipa nesta interação.

Por outro lado, a herança de Maquiavel (1469-1527) ao realismo encontra-se na ênfase depositada na sobrevivência do Estado como ator, retratando a conturbada época vivida pela Itália na qual o teórico político renascentista escreveu “O Princípe”. Para o teórico, o príncipe (governante) deveria sempre estar preparado para a guerra de modo a garantir a segurança estatal. Por fim, o conceito hobbesiano de “estado de natureza” assemelha-se ao estado de anarquia no sistema internacional. Hobbes (1588-1679) argumentou que a natureza humana é essencialmente má e que a inexistência de um soberano (Leviatã) implicaria na guerra de “todos contra todos”. Internamente, o filósofo inglês defende que é possível a realização de um contrato que encerre o relacionamento conflituoso. Externamente, os Estados guerreiam entre si. Certamente, Hobbes prescreveu a idéia do dilema da segurança.

Passemos agora para os realistas modernos ou neoclássicos. Edward H. Carr (1892-1982) é tido como um dos precursores desta vertente e sua obra “Vinte Anos de Crise – 1919-1939” delineia exatamente o Primeiro Debate nas Relações Internacionais. Ele é responsável por apresentar este debate, travado entre realistas e idealistas. Em sua obra, Carr refuta a ingenuidade do idealismo, afirmando que interpretaram erroneamente os fatos da história e que não entenderam a natureza das relações internacionais. Ademais, o autor recorda o poder como o motivador das ações dos Estados, embora tenhamos que admitir: Carr buscou muito mais uma síntese realismo-idealismo do que uma posição puramente realista.

Já Hans Morgenthau (1904-1980) é sem dúvida a maior expressão do realismo e autor dos seis princípios que norteiam a essa tradição teórica. Resumidamente, são estes os princípios: 1) a política obedece a leis objetivas decorrentes da natureza humana; 2) o interesse estatal é sempre definido em termos de poder; 3) o interesse em termos de poder é um conceito universal; 4) os princípios morais universais são aplicados em consonância com a época e o local; 5) os princípios morais de uma nação em particular não podem governar os demais; e 6) a política é uma esfera autônoma, isto é, não se subordina a nenhuma outra (econômica, cultural, etc.).

Eis alguns pensadores e pensamentos. Na próxima semana, traremos um caso concreto no qual se pode aplicar a teoria realista das Relações Internacionais. Aguardem!


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Realismo: da morte à imortalidade

“Leve-me da morte à imortalidade.” Estas são as palavras de um dos upanishads (transliteração) da Índia. Mas de que forma podemos relacioná-las com as teorias de Relações Internacionais e, mais especificamente, com a teoria realista?

Caros leitores, primeiramente, é importante salientar que o realismo se impõe como a mais influente tradição teórica nas Relações Internacionais, seja entre analista, seja entre tomadores de decisão. Tal fato decorre da diversidade e da riqueza das premissas históricas e de princípios básicos, quais sejam, a sobrevivência, o poder, a centralidade do Estado e a anarquia internacional. Sob o viés histórico, a política internacional é marcada pela recorrência e repetição: tudo o que acontece no presente e acontecerá no futuro tem o seu “gêmeo univitelino” no passado.

Ora pois, apresentemos a tradição realista. Se internamente é possível a existência de uma organização política ordenada e consumada no Estado, no plano externo, inexiste uma ordem internacional similar ao ordenamento estatal interno e a regra é a anarquia (entendida enquanto a ausência de um governo central e não como baderna). Nessa ordem anárquica, os Estados se sobressaem como os únicos atores: somente eles são capazes de atuarem na política mundial (fazer acordos, declarar a guerra, etc.). A sociedade civil, as organizações internacionais, as organizações não-governamentais e demais atores são desconsiderados pelos realistas.

A finalidade básica dos Estados é aumentar a própria segurança para assegurar a sobrevivência. Logo, irão buscar a expansão de seu próprio poder para lograrem êxito na consecução de seu fim – entendamos o poder no sentido do sociólogo Aron: a capacidade de fazer com que outrem faça o que nós queremos. A permanente busca pelo poder faz com que a sombra do conflito avance no relacionamento interestatal. Todo esse pensamento é amparado pela História, a nossa grande mentora. Por exemplo, desde o fim da era glacial a guerra tem sido um elemento indissociável da evolução humana. Conceito ilustrativo de tal situação é o “dilema da segurança”, como vimos no post da semana passada.

Sobrevivência: eis a lógica que então permeia todo o pensamento realista. Um Estado conduz suas ações no sistema anárquico internacional para sobreviver. Outros farão o mesmo e assim surge a perspectiva do conflito. Portanto, concluímos que partindo da iminência da morte, os Estados farão o possível para serem “imortais”. Reescrevendo a frase do upanishad indiano: “Levem-nos da morte à imortalidade.”

Numa outra oportunidade, tratemos dos principais autores realistas e de um caso prático para empregar esta teoria. Até lá!


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Conceitos-chave nas Relações Internacionais

No post de hoje, pessoal, vamos tratar dos conceitos mais utilizados nas Relações Internacionais, de maneira a ambientar o leitor nos posts desta coluna, ou mesmo nos posts que diariamente elaboramos. Ressalta-se, traremos breves definições, visto que, pormenorizadamente, cada um desses conceitos precisariam de um livro para elucidá-los. É hora de conceituar:

Soberania estatal: qualidade de um Estado ser politicamente independente dos demais Estados, sem se subordinar a uma autoridade superior.

Sistema estatal (internacional): relações entre agrupamentos humanos organizados politicamente (também tratados como Estados), que ocupam territórios distintos sem que exista uma autoridade superior a que estejam subordinados.

Dilema da segurança: quanto maior for a busca por segurança por parte de um Estado, maior será a repercussão para que os demais Estados façam o mesmo e, com isso, as ações por eles projetadas na persecução da segurança produz, na verdade, a insegurança.

Poder: a capacidade de fazer valer a própria vontade.

Hegemonia: poder e controle exercidos por um Estado proeminente sobre os outros.

Balança de poder: um arranjo pelo qual o poder de um Estado (ou grupo de Estados) é controlado pelo poder compensatório de outros Estados.

Filosofia da história: questiona-se o quanto é possível fazer inflexões no curso da história, isto é, se para a explicação dos fenômenos internacionais deve-se estritamente recorrer ao passado ou se há pontos de ruptura.

Atores internacionais: para alguns, o Estado é tanto o ator central como o único ator nas relações internacionais, para outros, deve-se considerar as organizações internacionais, as ONGs, os movimentos sociais e, inclusive, os indivíduos.

Esperamos que este glossário seja útil a vocês, leitores, que sempre nos acompanham. A partir da próxima semana, poderemos entrar em cada teoria, propriamente dita. Cada um poderá fazer as suas escolhas teóricas, tais como aqueles que as enunciaram fizeram, e defendê-las apaixonadamente, como um pregador do Sermão da Sexagésima do Padre Antonio Vieira: “Será porventura a falta de ciência que há em muitos pregadores? Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam. Depois da sentença de Adão, a terra não costuma dar fruto, senão a quem dar fruto, senão a quem come o seu pão com o suor do seu rosto. Boa razão parece também esta. O pregador há-de pregar o seu, e não o alheio.” Ou adotar o sincretismo teórico como via analítica, assemelhando-se a um detetive, que percorre pista por pista para apurar um determinado caso. Pregadores e detetives, a sorte está lançada!


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Os Grandes Debates Teóricos das Relações Internacionais

É muito comum, nas Relações Internacionais, afirmar que a teoria evoluiu através de grandes debates. Afirmação, por certo, muito válida, mas que de modo algum deve ser tomada como uma camisa-de-força que nos obriga necessariamente a rotular as origens e os desenvolvimentos de uma teoria ou outra. Os debates são, antes de tudo, formalidades didáticas para a organização do pensamento e não dogmas classificatórios. Tracemos agora, brevemente, um quadro evolutivo das teorias dentro da disciplina de Relações Internacionais.

Falamos repetidas vezes do Primeiro Debate, é hora de desmistificá-lo. No imediato posterior à Primeira Guerra Mundial, os chamados “liberais utópicos” (ou “internacionalistas liberais”, dentre outras nomenclaturas) contrapuseram-se aos “realistas”. Os primeiros acreditavam que a humanidade teria aprendido pelos seus próprios erros a significância da barbárie da guerra e, assim, esta seria suprimida como instrumento de política externa. Para eles, seria possível se chegar a um mundo mais pacífico por meio da cooperação, do direito internacional e de organizações internacionais. Entretanto, os segundos, vislumbrando um cenário no qual as tensões da primeira grande guerra não foram completamente sufocadas, sobrelevaram a iminência do conflito e da política de poder. Em suma, o debate envolveu uma perspectiva liberal do mundo como “deveria ser” e uma realista do mundo como ele “é”.

Na década de 1950, o Segundo Debate envolveu as abordagens tradicionais, centradas no entendimento da realidade, e as behavioristas, que objetivava explicá-la. As primeiras pautavam-se pelas normas e valores, pelo julgamento, pelo conhecimento histórico, enquanto as segundas primavam pelas hipóteses, pelo acervo de dados e pelo conhecimento científico. Em síntese, se por um lado, os tradicionalistas defendiam a utilização da Filosofia, do Direito e da História para a compreensão das relações internacionais, os behavioristas optaram por fazê-lo aplicando o cientificismo, isto é, seria possível formular leis científicas para as relações internacionais, tais como se enunciam na Física ou na Matemática. No tradicionalismo, enquadravam-se as teorias realista, liberal e a Escola Inglesa e no behaviorismo encontravam-se as raízes do neoliberalismo e do neo-realismo.

Até o Segundo Debate, pode-se dizer que há uma divisão clara entre dois pensamentos opostos, cada qual abarcando o seu conjunto teórico. A partir do Terceiro, as classificações ficam mais complicadas. Para alguns, ele é o último, para outros, poderíamos chegar até o Quinto Debate. É válido notar que durante a década de 1970 digladiavam-se simultaneamente três grandes vertentes teóricas, quais sejam, (neo)realismo, (neo)liberalismo e (neo)marxismo, discutindo acerca da necessidade de abordagens sistêmicas ou estadocêntricas (centradas no Estado) para as relações internacionais. Ainda que não tenham se constituído como um debate, para alguns, as discussões acentuaram desde as causas do subdesenvolvimento até as perspectivas de cooperação em regimes internacionais.

Por uma questão didática, paremos por aqui. Em outras oportunidades, aprofundaremos esta discussão dos Grandes Debates. Conforme avançarmos, elencaremos os conceitos de cada teoria supracitada e escolheremos alguns eventos internacionais passíveis de compreensão pela teoria em foco. Seguimos conversando!


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Montando um quebra-cabeça teórico

Quem nunca brincou de montar quebra-cabeça na infância? Pois é, os teóricos, na disciplina acadêmica de Relações Internacionais, não parecem ter feito algo muito diferente. Escolheram algumas pecinhas e então teorizaram. No entanto, cada quebra-cabeça individual não apresenta as suas bordas regulares; há espaços para se encaixar outras peças, que conformam outras teorias.

Comumente, acredita-se que existem, ao menos, cinco valores sociais básicos que os Estados devem defender: segurança, liberdade, ordem, justiça e bem-estar. O enfoque teórico mais tradicional – por vezes, dito positivista – das Relações Internacionais recai no modo pelo qual são incorporados esses valores, ou seja, cada teoria preconiza um deles perante os outros.

A teoria realista das Relações Internacionais concentra-se no valor da segurança, entendendo que na política mundial prepondera uma constante luta pelo poder e, por conseguinte, o cenário internacional é notadamente marcado pelo conflito. O liberalismo, por seu turno, enfoca o valor da liberdade e procura abordar as perspectivas de cooperação nas relações internacionais para se alcançar a paz e o progresso da humanidade. Ordem e justiça são valores assumidos pela Escola Inglesa (ou teóricos da Sociedade Internacional) e reforçam a idéia de que existem interesses compartilhados, regras e instituições que regem a sociedade internacional. E, por fim, o valor do bem-estar é relevado pelos teóricos da Economia Política Internacional (EPI) – marxistas, neomarxistas, etc. –, os quais se atêm à explicação de como o sistema econômico mundial reproduz desigualdades, pobreza e conflitos.

Até aqui, nada de mistérios. Entretanto, como na infância, sempre há aquele amigo joselito, que resolve desmontar o quebra-cabeça montado com grande esforço. Nas Relações Internacionais, esse amigo é representado pelo conjunto de teorias não tradicionais – taxadas, com certo comedimento, como pós-positivistas -, mas não necessariamente novas: teoria crítica, construtivismo, feminismo e os pós’s (pós-modernismo, pós-colonialismo, pós-estruturalismo). Ora, justiça seja feita, ainda bem que tínhamos um joselito, do contrário, não teríamos avançado no campo teórico, no sentido de entender como esses valores são cunhados, que relações são traçados a partir deles e se pensar além do Estado como organização política ou provedor de tais valores. De uma profunda crítica até a desconstrução, eis o caminho dessas teorias.

Seguimos montando este quebra-cabeça teórico, pessoal. Olhemos as peças de cada teoria e as aberturas de suas extremidades que ensejem aproximações e completudes com outras teorias. E, ademais, continuemos a exercitar as nossas dúvidas e inquietações, ampliando os horizontes de nosso pensamento de maneira contínua…


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Teoria das Relações Internacionais: uma dúvida imanente

[Pessoal, peço desculpas pela extensão deste post, mas ele é bem importante para adentrarmos especificamente no campo teórico. Tentei não enfocar apenas as teorias de Relações Internacionais e fazer comparações para ajudar no entendimento. Espero que gostem. Não poderia deixar de mencionar que este post teve a colaboração do meu irmão, Giuliano Okado, aluno do 4º Ano de Engenharia Mecânica da Unicamp.]

Vamos recordar do nosso último artigo, no qual existia um tal de João. Contemplando o céu, ele elaborou uma teoria. Porém, como vimos, nem sempre uma teoria tem validade universal. E, também, ela pode se estender por anos, mas tende a ser contestada ou reformulada. Por exemplo, pensou-se por muito tempo que a Terra era o centro do universo e que todos os corpos celestes gravitavam em torno dela, até que Nicolau Copérnico, no século XV, provou o contrário: na verdade, o Sol é que ocupava a posição central e a Terra, bem como os demais corpos celestes, giravam em torno dele.

De modo geral, uma teoria mantém a sua validade enquanto se mostra capaz de explicar uma dada ordem de fenômenos, e, mesmo submetida a freqüentes críticas, consegue se “safar” delas. Fazendo alusão a Thomas Kunh, à medida que as falhas excedam as explicações e justificações, a teoria cai no descrédito. A desconstrução é chave para a evolução e progresso do conhecimento, e as teorias exercem um papel primordial nesse processo – obviamente, a prática também influi decisivamente no conhecimento.

Por outro lado, as lacunas teóricas são fundamentais para a completude do pensamento. Certamente, todos conhecem um sujeito chamado Albert Einsten; talvez pela fatídica invenção da bomba atômica, esquecemo-nos de suas grandes contribuições para a ciência, dentre as quais, a teoria da relatividade. Esta, por sua vez, trouxe um complemento para a mecânica newtoniana, que previa as equações de movimento de um corpo. Enquanto a primeira aplicava-se a corpos com velocidades próximas a velocidade da luz, a segunda destinava-se a corpos com velocidades deveras inferiores. Encerremos nossas considerações iniciais com uma frase do próprio Einsten, “Nenhuma soma de experiências é suficiente para provar que estamos certos, mas basta uma para provar o contrário”.

Partindo de uma visão geral sobre o pensamento teórico, concentremo-nos agora mais especificamente na disciplina de Relações Internacionais. Em 1919, na Universidade de Wales, em Aberystwyth, foi criado o primeiro departamento próprio e, basicamente, a disciplina se predispôs a estudar as causas da guerra e as condições para a paz, refletindo as preocupações de um mundo imerso na Primeira Guerra Mundial.

Desde a criação, ocorreram pelo menos quatro grandes debates – os quais exploraremos noutra oportunidade – na área de Relações Internacionais que contrapuseram diferentes teorias. O que é válido ressaltar é que as contraposições e os embates teóricos contribuíram significativamente para o aprimoramento da disciplina. Um exemplo ilustrativo: se, num primeiro momento – entenda-se, após a Primeira Guerra Mundial –, o liberalismo saiu-se perdedor do chamado Primeiro Debate, vencido pelo realismo, nada impediu que os teóricos liberais revisassem suas premissas e revigorassem seu pensamento para voltar com mais força no imediato pós-Segunda Guerra.

Ainda assim, o pensamento liberal não vingou. Seu reavivamento só obteve êxito na década de 1970, com os chamados teóricos da interdependência ou do neoliberalismo. O realismo, até então preponderante, sofreu profundas críticas e passou por reformulações, culminando em sua inovação teórica: o neo-realismo. Vejam, caros leitores, que mais uma vez encontramos o embate teórico inicial. Liberais e realistas são como geocêntricos e heliocêntricos, respectivamente; liberais e neoliberais – ou se preferirem, realistas e neo-realistas – são como Newton e Einsten, também respectivamente.

Pode parecer uma ligação bastante perigosa comparar as ciências exatas com as ciências humanas, mas não nos esqueçamos que cada vez mais o conhecimento tem adquirido uma face interdisciplinar, isto é, pode ser compartilhado por diversas disciplinas. Note-se, por exemplo, a questão da morte: se, num momento inicial, ela era objeto de estudo da religião e da filosofia (ciências humanas), hoje, ela também é estudada pela física (ciências exatas), vide a mensuração das chamadas “experiências de quase-morte”.

Cada vez mais nos deparamos com um mundo bastante complexo e as respostas para as nossas perguntas nem sempre estão a nossa vista. Teorizar é exercitar constantemente as nossas dúvidas, é fazer com que perdure a máxima socrática “Só sei que nada sei.”. As teorias não oferecem respostas concretas aos fatos, apenas elucidam a compreensão deles. Podemos nos sentir iludidos por nunca conseguirmos entender em definitivo a lógica que movimentam as coisas ao nosso entorno, mas, como diria Fernando Pessoa, “Ser descontente é ser homem/Que as forças cegas se domem/Pela visão que a alma tem!”. Sejamos então homens – e também mulheres – movidos pelo ímpeto do saber, acima de tudo, mas com a convicção da dúvida imanente que pulula em nosso intelecto.


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Por que uma teoria das Relações Internacionais?

Que dúvida esta, não? Mas acreditem, pessoal, uma teoria não é só um emaranhado de conceitos aprisionados num punhado de papel que deixam os estudantes de Relações Internacionais loucos e os professores sedentos pelo tal do marco teórico nas pesquisas. Ela confere inteligibilidade a uma diversidade de fenômenos e também orienta a prática. O atual chanceler brasileiro (e ex-professor de teoria das Relações Internacionais da UnB), Celso Amorim, afirma: “aqueles que não conhecem a teoria não exercem a intuição que aconselha qualquer decisão”.

Imaginemos uma situação hipotética. Um certo alguém, chamado João, passa todas as tardes do seu dia a contemplar o posicionamento do sol. Depois de muito tempo procedendo da mesma forma, João começa a perceber um fato que até então não lhe ocorria: o sol sempre se punha em torno das 19h. Intrigado com isso, ele começa a investigar para ver se isso realmente se comprova. Passado outro período de tempo, João enfim constata que, de fato, o sol se põe entre 18h45 e 19h10 e resolve enunciar a “teoria do entardecer”. Depois desse trabalho, caber-lhe-ia questionar a quem seria endereçada essa teoria. Poderia ser do interesse, por exemplo, de indivíduos desejosos de regularem sua atividade diária ou de clubes que oferecem atividades de lazer.

Passemos agora para as relações internacionais, onde o sol de João não se põe facilmente no mesmo horário. Não há apenas uma teoria, senão várias. Como e o que teorizar? Hoje em dia, cada vez mais tem se falado que o mundo está internacionalizado, integrado e globalizado, os assuntos internacionais ocupam um grande espaço nos noticiários, as questões ambientais começaram a se apresentar como uma questão sobremaneira pertinente, dentre outros acontecimentos. Por outro lado, expectativas louvadas foram frustradas: não se superou definitivamente a guerra e tampouco a esperança de um desenvolvimento equânime e justo produziu igualdade. Com tantas coisas, fica a pergunta: uma teoria pode dar conta de tudo isso?

Evidentemente, não. Uma teoria de Relações Internacionais não apresenta uma resposta única para a compreensão de todos os fenômenos que ocorrem no cenário internacional, embora no período da Guerra Fria tiveram a pretensão de fazê-lo. Ademais, acrescenta-se que a disciplina acadêmica é perpassada por desacordos teóricos, coexistindo tanto um embate entre as diferentes abordagens como no interior delas. No entanto, ainda que a diversidade seja o traço marcante do arcabouço teórico das Relações Internacionais, ela também contribui no sentido de fornecer elementos analíticos riquíssimos para a compreensão dos fenômenos internacionais, podendo um mesmo fenômeno ser interpretado de outra maneira conforme a teoria escolhida.

Pois é, pessoal, neste ambiente teórico controverso – às vezes confuso -, mas fundamental, é que iremos agora mergulhar. Esperamos que as teorias possam ajudá-los na interpretação do que ocorre no mundo, com João’s e os seus sóis. O convite está aberto!


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