Conversando com a Teoria

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Que entre o Neorrealismo!

No último post tratamos da primeira obra de Kenneth Waltz. Dissemos que ela estabelecia as bases para uma atualização de um realismo que lentamente caminhava pelo pântano do descrédito. Essas bases viriam a sustentar uma nova versão da teoria realista, publicada mais de 20 anos depois, no livro “Teoria da Política Internacional” (do inglês, “Theory of International Politics”), cujo objetivo era ser mais científica e fundamentada que as demais.

Ao averiguar que a base científica das teorias de política internacional até o momento era fraca, Waltz definiu um caminho para que se obtenha uma teoria satisfatória e buscou trazer um modelo que seguisse essa cientificidade. Para tanto, o primeiro passo seria necessário desenvolver uma construção intelectual que parta da identificação de um domínio estudado como isolado dos demais. A partir daí, grosso modo, seria preciso deixar de lado todas as outras questões que não são centrais para a teoria, estabelecer algumas relações entre os elementos que se selecionou e exercer a criatividade para criar um modelo ideal.

Para entendermos em termos concretos, vamos à própria política internacional. Sabe-se que na realidade, a política, a economia, a cultura e a história são elementos inseparáveis. Todavia, para o autor, uma teoria da política internacional de grande potencial explicativo seria aquela capaz de identificar a excentricidade, a diferença ou a característica determinante dessa área. E o cerne, o fator que caracterizaria e possibilitaria pensar o sistema da política internacional como um todo, seria a “estrutura política”.

Esse é o conceito-chave do neorrealismo waltziano, também conhecido como realismo estrutural. Mas o que seria essa tal estrutura? Bom, é um conceito não-concreto que se baseia em dois elementos, a distribuição de capacidades entre as unidades e um princípio ordenador. Pensemos no mercado como analogia. Primeiro, as pessoas ao interagirem comercialmente, o criaram. Logo menos, não tinham mais controle sobre ele, passando a sofrer influências e pressões dele emergentes. Para outra analogia poderíamos pensar em uma estrutura metálica de uma construção. Ela fornece as bases e, paralelamente, impede que as paredes, o teto e os cômodos saiam do lugar; em outras palavras, exerce uma “constrição”.

Assim funciona a estrutura na política internacional. Em um ambiente de anarquia (princípio ordenador), as interações entre os Estados (unidades do sistema), com capacidades diferentes (poderio econômico e militar) vivem sob uma estrutura que atua como uma espécie de força que limita e constringe a ação das unidades no plano internacional. Por que o Brasil tem tanta dificuldade de consolidar sua candidatura ao Conselho de Segurança da ONU? Por que a reforma dos organismos internacionais é tão difícil? A estrutura talvez ofereça uma interessante resposta para essas perguntas.

Esse conceito seria definido por esses dois elementos centrais, o princípio ordenador, no caso a anarquia, e a distribuição de capacidades, que gera uma força limitante na atuação dos Estados. Se a tal distribuição de capacidades for alterada, o sistema pode até mudar de característica (um exemplo é o fim da Guerra Fria, deixando de ser bipolar para ser unipolar), mas a estrutura continuará existindo, em todo o seu esplendor, constringindo e limitando a atuação dos países no plano internacional. Bom, como já se pode ver por outras obras do autor, o nível do sistema internacional é muito valorizado por ele para analisar a política. Waltz introduz o mundo ao neorrealismo e abre novas portas para formas de análise, garantindo força e vitalidade para o realismo. Até a próxima semana!

[Para uma interessante entrevista com Waltz sobre sua teoria, clique aqui]


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Uma introdução ao Neorrealismo

Hoje vamos retomar nosso exercício de conversar com a teoria. Para relembrar, nos últimos textos, discutimos o contexto histórico das décadas de 1960 e 1970 como extremamente propícios para o desenvolvimento de novas teorias, depois tratamos do neoliberalismo e chegamos a um estudo de caso. Nesse contexto, observamos que o mundo mudava e, paralelamente, a capacidade explicativa das teorias até então também. Isso levou a uma busca pelo novo. Teorias que satisfizessem o rigor científico e fossem igualmente mais modernas para explicar o mundo.

Como o idealismo, nosso famigerado realismo também estava desgastado. Apesar disso, o princípio básico de busca pela segurança parecia ser mais válido do que nunca, principalmente nas décadas de 1950 e 1960. A corrida armamentista entre Estados Unidos e a União Soviética estava a todo vapor, dando origem ao termo MAD, do inglês “louco”, que também seria a sigla para mútua destruição assegurada (Mutually Assured Destruction). O mundo caminhava para uma tensão nuclear e a segurança era um tema que não podia ser descartado.

Todavia, a corrente teórica não apresentava respostas satisfatórias para esse problema. Eis que, em 1959, um senhor da Columbia University, Kennteh N. Waltz ao publicar sua tese de doutorado, O homem, o Estado e a Guerra, desenvolveu as primeiras vigas para que se levantasse um novo e mais resistente arranha-céu realista. Sua ideia é simples, porém capaz de fortalecer as bases de pensamento do Realismo. Para se alcançar a paz é preciso compreender a guerra. Para compreender a guerra, é preciso olhar para suas causas. E, estudando o todo da ciência política, ele pode perceber que os autores até então haviam buscado explicar as causas desse fenômeno por meio de três níveis de análise ou, como ele denominou, imagens.

Na primeira dessas imagens, as guerras ocorriam em conseqüência da natureza e do comportamento do homem. Os homens seriam seres extremamente egoístas, movidos por seus próprios interesses apenas e isso levaria aos conflitos. As outras causas poderiam ser consideradas como secundárias. Grosso modo, o egoísmo e auto-interesse geraria os conflitos. Na segunda imagem, os conflitos seriam resultado da organização dos Estados. E, portanto, para que se possam alterar as possibilidades de guerra seria preciso mudar tais organizações. Os dois exemplos mais interessantes de autores que consideravam essa explicação são Karl Marx e Hans Morgenthau (sim, aquele do realismo clássico! Se quiserem saber mais, clique aqui!).

A terceira e última imagem seria aquela que, na opinião do autor, seria a principal causa das guerras: a anarquia internacional, em outras palavras, a guerra seria resultado da ausência de qualquer organização para controlar os Estados. Esse foi o ponto de partida para sua teoria (que será abordada no próximo texto), considerada uma teoria sistêmica, analisando todo o sistema de Estados.

Para facilitar, pensemos em algo mais prático. Em se tratando de cinema, sempre teremos boas histórias e outros com histórias não tão desenvolvidas. E quais fatores seriam definidores na trama? Bom, teríamos que ter um roteiro interessante e instigante aliado a uma boa direção. Isso, nos olhos de Waltz, poderia ser a terceira imagem, aquela que definiria a principal causa de uma trama boa. A primeira e a segunda imagens poderiam ser fatores importantes, como fotografia e o elenco, mas que não são determinantes para uma boa trama.

Em suma, ao fazer uma análise de como os autores tratavam da guerra até o momento, Waltz já preparou o terreno para uma teoria que tratasse do sistema internacional e não somente da psicologia do homem ou da organização do Estado. Para o autor os elementos das demais imagens seriam importantes, mas o papel definidor dos conflitos, o que recebe o caráter de protagonista na hierarquia das causas das guerras deveria ser ser dado à anarquia. Seu texto iniciou a renovação do Realismo que, ao final da década de 1980, recebeu um tratamento teórico detalhado em outra obra sua. Mas, deixemos isso para a próxima semana. Até lá!


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E vamos para mais um estudo de caso, dessa vez mais abrangente, para ajudar a consolidar o entendimento das linhas gerais do Neoliberalismo, mas que também deixa margem para interpretação de outros marcos teóricos.

A União Europeia é um caso dos mais interessantes para aplicarmos o pensamento liberal-institucionalista. Se hoje enfrenta problemas, ainda assim é o caso de integração regional de maior sucesso até hoje. Representaria bem o espírito da interdependência complexa, com cooperação envolvendo os múltiplos canais de comunicação e negociação, a agenda múltipla, e o uso decrescente da força militar, no âmbito de uma organização supranacional.

E a crise atual? Oras, é justamente a interdependência complexa agindo. A debilidade atual foi desencadeada pela crise do endividamento público de muitos países europeus, o que envolve suas finanças, por conseguinte afetando suas políticas quanto ao bloco, e suas economias em geral. Vejam o caso de Portugal: precisando de ajuda financeira, precisa tomar medidas mais austeras para conter o déficit e se adequar às metas de participação no bloco. Diminuem salários, aumenta o desemprego, a economia esfria. Isso afeta as importações, o que rebate em outros países europeus que sejam seus parceiros econômicos. Quanto aos demais, se a ajuda econômica for dada, estarão pagando pelos problemas de outrem. Por outro lado, manter a coisa como está vai criar uma bola de neve (temida desde os problemas na Grécia) que pode arrastar ainda mais países outros para o buraco.

Pode parecer irônico que um mecanismo de integração esteja passando por dificuldades justamente por sua característica de interconexão e efeitos recíprocos. Mas isso apenas demonstra duas importantes idéias do Neoliberalismo: a amplitude da questão, envolvendo atores não estatais, e diversos interesses que vão além do Estado e da segurança, vista na existência de discordâncias em diversos estratos (governo, empresas, etc.) quanto ao tema da “crise”; e que, bem ou mal, a UE em si é uma importante arena de discussões e concertos com relação à política européia – ou seja, se as coisas andam mal com ela, pior sem…


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Uma (necessária) postura neoliberal…

Diante da apresentação do Neoliberalismo no estudo das Relações Internacionais, seguida pela descrição das Teorias dos Jogos e sua abordagem estratégica para a análise dos acontecimentos mundiais, cabe-nos, neste momento, apresentar um exemplo, na prática, de uma postura neoliberal no que se refere à atuação externa brasileira.

Tal como apresentado nos posts anteriores, os teóricos neoliberais se dedicam notadamente ao entendimento dos meios para a promoção da cooperação, deixando, de certa forma, de lado uma postura utópica (tipicamente liberal) para avaliarem, por sua vez, a cooperação em termos de interesses e benefícios mútuos. A partir da idéia de “interdependência complexa”, o Neoliberalismo reconhece a mútua dependência existente em um contexto no qual o diálogo se destaca enquanto ferramenta poderosa para se alcançar os interesses. Diálogo que, especialmente nas últimas duas décadas, tem se fortalecido por meio das instituições – espaços dedicados à coordenação de atitudes em relação aos mais diversos assuntos, reunindo sob “regras” comuns os atores envolvidos.

Neste sentido, percebe-se o protagonismo brasileiro no que se refere à participação em (e mesmo criação de) grupos de diálogo variados e de importância crescente. Desde a atenção com a Organização das Nações Unidas (em uma busca especial – e peculiar – por um assento permanente no Conselho de Segurança, deve-se registrar), até o IBAS (Fórum de Diálogo entre Índia, Brasil e África do Sul), passando pelo famoso BRICS (agrupamento dos emergentes Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul) ou pelo menos conhecido G-15 (composto por Argentina, Argélia, Brasil, Chile, Egito, Índia, Indonésia, Irã, Jamaica, Malásia, México, Nigéria, Senegal, Sri Lanka, Venezuela, Zimbábue e Quênia), o que se percebe é a valorização do papel das instituições para o Brasil no contexto internacional.

Vários outros mecanismos inter-regionais nos quais o Brasil atua poderiam ser citados (leia mais aqui), mas o essencial a esta breve reflexão é demonstrar de que forma a postura neoliberal teoricamente apresentada pode ser efetivamente visualizada neste cenário. A proliferação de Organismos Internacionais demonstra uma forma de se incentivar a resolução dos desafios globais de maneira conjunta, apesar dos interesses individuais não deixarem, é claro, de existir. O cálculo racional das probabilidades de ação ocorre (tal como as Teorias dos Jogos apresentam) e a cooperação se mostra, com freqüência, muito mais interessante para que a posição brasileira se fortaleça internacionalmente.

O poder a partir do diálogo, por meios “suaves” (também conhecido como soft power nas Relações Internacionais – termo consolidado pela visão neoliberal), para muitos não é tão “palpável” quanto o poder por meio da força (ou hard power). Contudo, o fato é que a crescente demanda por instituições para buscar soluções aos problemas globais torna visível a (também crescente) relevância – e mesmo necessidade – do diálogo multilateral atualmente. Até que ponto o diálogo parece existir, em várias situações, apenas em função do próprio diálogo é assunto para uma reflexão interessante, mas que estes aspectos valorizados pelos neoliberais podem ser claramente percebidos em uma análise um pouco mais atenta da atuação externa brasileira, ah, isso não se pode negar…


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Se na semana passada procuramos apresentar a Teoria dos Jogos de maneira geral e demonstrar a sua importância para a análise do comportamento humano, em específico, a tendência para a cooperação ou para o conflito, nesta semana, o objetivo é apresentarmos os “jogos hipotéticos” propriamente ditos, cuja analogia encontra amparo na realidade.

Mesmo aqueles que não gostam de números, lógica, raciocínio, etc., não vão deixar de se impressionar com a linguagem facilitada pela qual estes jogos transmitem de situações reais, por meio de comparações. Isso os deixa ainda mais interessantes! Chega de papo, vamos aos jogos: dilema do prisioneiro, chicken game, stag hunt, assurance, deadlock. Não é possível trabalhar detalhadamente com cada jogo e aplicá-los na prática, mas esperamos apresentá-los ao leitor e despertar-lhe a curiosidade, estimulando-o a interpretar determinadas situações a partir desses jogos.

O mais tradicional dos jogos é o “dilema do prisioneiro”. Parte-se da situação em que dois prisioneiros, envolvidos com um crime, são colocados em salas separadas e questionados por um promotor, que não dispõe de provas suficientes para incriminá-los. São lhes dadas as opções incriminar o outro ou permanecerem calados. Se ambos permanecem calados, vão para a prisão por um tempo relativamente curto. Porém, se um incrimina e outro permanece calado, quem incriminou é libertado, enquanto o outro ficará por mais tempo. Se ambos se incriminam, vão para prisão por um tempo maior do que se tivessem ficado calados.

Assim, é feita uma lista de preferência: DC > CC > DD > CD. D = delatar/denunciar e C = cooperar (silêncio). O resultado mais provável é que ambos se denunciem, temendo o pior: ser bonzinho com o amiguinho pode ser ruim para si mesmo. Porém, seria melhor se ambos fossem bonzinhos. Poderíamos pensar na questão nuclear iraniana, o que acham? Por um lado, as potências ocidentais e o Irã trocaram farpas, enquanto Brasil e Turquia optaram pelo diálogo. Qual a melhor opção?

Seguimos jogando. Dois jogos interessantes aqui: chicken game e stag hunt. O primeiro diz respeito a uma situação típica de um racha norte-americano, com dois carros posicionados em rota de colisão. Assim que é dada a largada, ambos os carros partem em direção ao outro. Quem desviar é o “frango”, o covarde. Ambos podem cooperar e serem frangos, ou continuarem a trajetória e bancarem os “machões”, só que mortos. Pensem no caso da Crise dos Mísseis de 1962. Já o stag hunt simula uma situação de caçada, na qual dois caçadores podem se juntar e caçar algo maior, como um veado, ou cada um caçar sozinho e conseguir, no máximo, um coelho. Acordos bilaterais parecem ilustrar bem este jogo, como os acordos de livre comércio entre Estados Unidos e Chile.

Deixamos, por enquanto, de jogar dois jogos (assurance e deadlock). Os três que foram aqui apresentados são suficientes para entendermos situações de cooperação e conflito, variando de acordo com os comportamentos e expectativas dos jogadores envolvidos. Outro ponto importante é que nem sempre o melhor resultado para ambos é alcançado, pretendendo-se, assim, o resultado que minimize as próprias perdas.

É hora de cada qual escolher o seu jogo e jogar de acordo com as relações internacionais. Bom jogo a todos vocês!


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Teoria dos Jogos: por Relações Internacinacionais mais científicas

Aqueles que gostam de números, lógica, raciocínio e testes encontrarão um amparo na Teoria dos Jogos. Aqueles mais aficionados por jogos podem considerar a Teoria dos Jogos como um grande pôquer das Relações Internacionais, em que o blefe é perigoso e a aposta é sempre um risco. É preciso saber quando blefar e quando se arriscar em função do fim desejado.

Essa teoria não é propriamente uma teoria das Relações Internacionais, foi desenvolvida pelos trabalhos dos matemáticos Von Neumann e Morgenstern durante a década de 1940 e, a princípio, serviu como um modelo para descrever e prever o comportamento econômico. Com o tempo, passou a ser incorporada por outras áreas do conhecimento, como a psicologia, antropologia, e chegou também às Relações Internacionais.

Por volta dos anos 1950, momento em que emergiu o Segundo Grande Debate das Relações Internacionais (revejam o post sobre ele aqui), cientificistas se contrapuseram aos tradicionalistas. Os primeiros defendiam uma abordagem mais científica para a disciplina, o que incluía o emprego da Teoria dos Jogos para analisar o comportamento dos atores internacionais em suas interações. Tal teoria encontrou expressão no neoliberalismo e no neorrealismo, de maneira a prever as possibilidades de cooperação e as perspectivas de conflito.

Mas, afinal, em que consiste a Teoria dos Jogos? Ela parte do pressuposto de que os atores envolvidos nos jogos (entenda-se, situações de interação) são “racionais” e, portanto”, buscam maximizar os seus lucros e minimizar as suas perdas. Em outros termos, os jogadores devem assegurar os melhores resultados para si mesmos. Isso não é tarefa fácil. Eles devem fazer escolhas, num conjunto finito ou infinito de possibilidades e estratégias, que envolve outros jogadores, sabendo que o resultado final dependerá das combinações decorrentes das escolhas feitas por todos envolvidos no jogo.

[Uma demonstração esquematizada da Teoria dos Jogos]

Não basta apenas o jogador fazer uma escolha entre todas as possíveis, é preciso também imaginar que escolha fará os demais jogadores para que se chegue no resultado mais favorável para si. Vejamos uma situação hipotética. Um país pode optar por se manter neutro numa guerra feita pelo seu principal aliado, para não ser afetado pelo conflito, entretanto, a neutralidade acaba tendo um custo: o encerramento de um contrato de transferência de tecnologia militar. Qual seria o melhor resultado para o esse país: a neutralidade ou a guerra?

É por isso que se organiza o raciocínio da Teoria dos Jogos numa lista de preferência, em que nem sempre se atinge o melhor resultado possível, alcançando, na maioria das vezes, a segunda melhor opção. O país supracitado não perde soldados, nem se desgasta economicamente, mas, por outro lado, não recebe tecnologia militar. Na próxima semana, com a demonstração de “jogos específicos”, construiremos uma escala de preferência para tornar mais claro este ponto.

Enfim, o que é importante saber é que as Relações Internacionais ganham aqui o reforço das ciências exatas, e, por meio de um modelo teórico, dedica-se a descrever e prever o comportamento de atores, apresentando-lhe escolhas, individuais e alheias, com vistas à formulação da melhor estratégia para atingir o melhor resultado possível.

[Para quem se interessar, fica a dica de um interessante artigo (aqui) da Foreign Affairs a respeito do Totalitarismo no século XX.]


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A tal da interdependência complexa…

Se, na semana passada, procuramos dar uma visão mais geral sobre o neoliberalismo, hoje trataremos dos principais teóricos e suas ideias. São eles Robert O. Keohane e Joseph S. Nye Júnior.

Ambos os autores partem de uma metáfora interessante: a política mundial não é uma tela sem costuras, mas uma tapeçaria confeccionada com diversas relações. Em outras palavras, não importam apenas as relações interestatais, mas também as transnacionais. Indivíduos ou grupos de um Estado se relacionam com outros Estados ou com indivíduos ou grupos – organizações internacionais, ONGs, movimentos sociais, etc. – de outros Estados ou internacionais. Por exemplo, uma obra da Camargo Corrêa em Moçambique ou a atuação do Greenpeace. Os atores não-estatais influem na política mundial, mesmo com que o Estado seja o principal ator.

Desta premissa, tem-se o conceito-chave de Keohane e Nye: a interdependência complexa. Como afirmamos na semana passada, a definição mais simples desse conceito é a “dependência mútua”, situação em que ocorre efeitos recíprocos entre países e atores diferentes. Sem tais efeitos, há apenas interconexão. Um exemplo: o protecionismo agrícola europeu afeta as próprias exportações e as do G-20 agrícola (interdependência), ao passo que não afetam Nepal ou Papua Nova-Guiné (interconexão). Embora a interdependência seja mais visível na dimensão econômica, ela se aplica a outras áreas (como a militar).

Três são as principais características da interdependência complexa: 1) a existência de múltiplos canais de comunicação e negociação, isto é, envolve uma diversidade de atores e espaço para a atuação deles, sendo as organizações internacionais as principais arenas; 2) a agenda múltipla, com uma variedade de temas, sem que um predomine sobre o outro e sem uma clara distinção entre o doméstico e o internacional; e 3) o uso decrescente da força militar. Detalhe: a interdependência, a despeito do aumento da perspectiva de cooperação, não pressupõe, de modo algum, a superação definitiva dos conflitos.

Neste ponto, é importante notar a relação entre interdependência e poder. Desnecessário dizer que um mundo mais interdependente é um mundo mais equilibrado. As assimetrias prevalecem. São medidas pelo poder. Para os autores, o poder pode ser definido tanto como a habilidade de fazer com que outros façam o que nós queremos, quanto com a capacidade de controlar resultados. A interdependência pode favorecer mais alguns, por imporem sua vontade e ter resultados, e desfavorecer outros. Aqui é onde se abre a possibilidade de ocorrência de conflito.

O poder, por sua vez, pode ser medido por outras duas variáveis: sensibilidade e vulnerabilidade. A primeira é um indicativo de impacto, a segunda diz respeito ao custo das alternativas disponíveis a partir do impacto. Ilustremos isso: se dois países dependem de quantidades similares da importação do petróleo e há uma elevação de seu preço, ambos são igualmente sensíveis, porém, aquele que puder recorrer a fontes alternativas de energia, será menos vulnerável.

[Por uma questão didática, limitaremos por enquanto a tratar deste conceito. A cooperação e o papel das instituições serão melhor trabalhados com a apresentação das Teorias do Jogos e o debate “Neo-Neo” (Neorrealismo x Neoliberalismo)]


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Neoliberalismo: interdependência, instituições e cooperação

O mundo como deveria ser pertence à utopia liberal. Um mundo como pode ser se encaixa no repertório neoliberal. É possível superar a condição anárquica do sistema internacional, que, na ausência de um soberano global a qual todos os países estariam subordinados, mantém a guerra num horizonte sempre próximo. Verdade também seja dita, nem sempre as relações conflituosas são mitigadas e os neoliberais reconhecem isso. Mas a grande questão que se interpõe é: como então mitigar a anarquia e o conflito?

Eis que entram em cena os conceitos de “interdependência” e “instituições”. Keohane e Nye, os teóricos mais expoentes da abordagem neoliberal, constataram na década de 1970 que os processos transnacionais estavam mudando a natureza das relações internacionais, notadamente, as economias nacionais cada vez mais interligadas e a maior presença de atores não-estatais (empresas multinacionais, ONGs, etc.). Um mundo interdependente que nos faz lembrar a personagem Waris Dirie, do filme Flor do deserto, “o que acontece com qualquer um de nós, afeta a todos nós.” As crises do petróleo são o principal exemplo, a atitude dos países da OPEP repercutiu de imediato em todos os quadrantes do globo.

Uma definição mais precisa de interdependência (e que será trabalhada melhor na próxima semana), na concepção dos autores supramencionados, é a situação na qual ocorrem efeitos recíprocos entre os países ou entre atores de diferentes países. Em outras palavras, um estado de mútua dependência. Num mundo interdependente, o custo da guerra se eleva, ainda que envolva poucos países, já que os efeitos dela podem ser prejudiciais a terceiros. E também aumenta a perspectiva da cooperação. (Uma ressalva: isso não quer dizer que o conflito seja extinto de uma vez por todas, pois, como veremos, a interdependência pode também contribuir para que ele ocorra.)

Outro ponto que aumenta e aprofunda a cooperação é a criação de instituições, o segundo conceito. Por instituições, não se entende apenas “organizações internacionais”, mas um conjunto de regras (formais ou informais) que norteiam o comportamento, constrangem a ação e geram expectativas. Pode ser uma ONU, um sistema como Bretton Woods ou convenções (por exemplo, Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (1992) – UNFCCC, na sigla em inglês). A institucionalização engendra confiança, permite a troca de informações e confere maior previsibilidade em relação ao comportamento futuro dos atores envolvidos na instituição. Por isso, a cooperação.

Para não estender muito este artigo, apenas um último registro: os neoliberais, ao contrário do pensamento realista vigente, não concebem uma ordem hierárquica de assuntos, sendo que a segurança vem à segurança. Para eles, segurança é tão importante quanto bem-estar econômico, quebrando a distinção que usualmente se faz entre high politics (segurança, poder militar, etc.) e low politics (economia, cultura, meio ambiente, etc.). Isso foi também favorecido pela emersão de atores não-estatais nas relações internacionais.


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Neoliberalismo: uma breve introdução

É hora de teorizar! E começaremos pelo neoliberalismo, ou teoria neoliberal institucionalista, ou institucionalismo neoliberal. Antes de apresentarmos o seu corpo teórico propriamente dito, é importante termos em mente que não se trata do famoso neoliberalismo, iniciado por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, que se espalhou pela América Latina a partir do final dos anos 1980, com as medidas ditadas pelo Consenso de Washington. No Brasil, em específico, a lembrança de eras neoliberais nos remete aos governos de Collor, Franco e Cardoso.

Nas relações internacionais, o neoliberalismo difere da prática político-econômica adotada pelos governos daqui da região. Não prevê o Estado mínimo, com as privatizações, ou a abertura indiscriminada dos mercados nacionais. Trata-se, resumidamente, de uma teoria que se dedica a entender a cooperação a partir do conflito – e não da natureza humana boa, como acreditavam os liberais.

É importante destacar que, embora o neoliberalismo tenha sido cunhado na década de 1970, outras teorias, desenvolvidas nas décadas de 1950 e 1960, já traziam algumas ideias que seriam retomadas pelos autores neoliberais das Relações Internacionais. Entre esse conjunto de ideias, podemos destacar a teoria “funcionalista” e “neofuncionalista”, bem como a própria contribuição de Norman Angell, um autor que se enquadra na vertente liberal, mas que previa que a interdependência entre as nações afastava a perspectiva do conflito.

Particularmente, era do interesse dos autores funcionalistas estudarem o funcionamento das organizações internacionais, para compreender de que maneira elas ajudavam no aprofundamento da cooperação. Termos como “peace by pieces” (“a paz por partes”) ou “spill-over effect” (“efeito de transbordamento”) ganharam coro. O primeiro, no sentido de que as organizações internacionais formariam redes e assumiriam cada vez mais funções que os Estados não poderiam desempenhar sozinhos. O segundo, trazia consigo o pressuposto de que a cooperação em uma determinada área poderia ser transbordada para outra, num processo de aprendizado constante; por exemplo, se dois países cooperam em ciência e tecnologia, podem, futuramente, também cooperar em defesa e segurança.

Basicamente, esta é a sala de entrada para a teoria neoliberal das Relações Internacionais. Não tem o mesmo significado que na economia e também retoma alguns conceitos que foram se desenvolvendo no pós-guerra. Para encerrar, vale notar um ponto que é bastante discutível: muitos consideram que o neoliberalismo não se apresenta como uma evolução do pensamento liberal, mas, antes, uma ruptura com o mesmo – diferente do realismo para o neorrealismo. Alguns até consideram que o neoliberalismo parte de uma concepção realista sobre a “sombra da guerra” no sistema internacional, mas enxerga a possibilidade de superá-la. Seguimos conversando…


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Décadas em mutação, teorias em gestação – III

Antes de fazermos um balanço conclusivo das décadas de 1960 e 1970, de maneira a compreender por que neste período emergiram novas teorias das Relações Internacionais, convém comentar pelo menos mais dois acontecimentos importantes. O primeiro deles diz respeito ao “aquecimento” da Guerra Fria, com as guerras do Vietnã e Yom Kipur, numa demonstração do equilíbrio instável no período de arrefecimento do conflito entre as superpotências. A despeito das expectativas otimistas, a guerra deve ser levada em consideração no cálculo racional dos países em suas interações.

O segundo fato importante é a reanimação da Europa, praticamente reconstruída ao final dos anos 1950, com a ajuda econômica norte-americana. Recuperada, o continente encaminhou-se para a reinserção no terreno das relações internacionais, buscando também um lugar ao sol. Uma das estratégias de reinserção foi a construção de uma Europa integrada, marcada pela superação da rivalidade franco-germânica, com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (1951), que depois veio a se tornar a Comunidade Economica Europeia, com os tratados de Roma (1957). Nascia, assim, a União Europeia, o principal projeto de integração supranacional.

Pelo que temos nos últimos posts desta coluna, as relações internacionais mudaram quantitativa e qualitativamente nas décadas de 1960 e 1970, embora o pano de fundo tenha sido o mesmo: a Guerra Fria. Novos atores contracenaram de maneira diferente, fora dos roteiros preconcebidos no jogo de poder e ajuste de posições. Novos temas e novas preocupações, que passaram despercebidos pela cega ameaça da mútua destruição entre as duas superpotências, foram incorporados à agenda global: ambiente, bem-estar econômico, melhorias sociais, movimentos contra-cultura, independência, etc.

Da mesma forma, não se deve pressupor que as velhas preocupações das teorias de Relações Internacionais desapareceram, como assinalam as guerras. A política de poder foi explorada pelo neorrealismo e também com os neoliberais, uma vez que estes consideram que a perspectiva de conflito é o que conduz à cooperação. Os neomarxistas se dedicaram a explicar o subdesenvolvimento e as possibilidades de romper com esse ciclo vicioso. Assim, outros fenômenos, junto com os antigos, eram submetidos à análise sob novas lentes. Ressalta-se também que nem por isso realismo, liberalismo e marxismo, sem os prefixos, foram abandonados.

Diante das mutações os anos 1960 e 1970, novas teorias foram gestadas. A partir da próxima semana, procuraremos apresentá-las!


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