Conversando com a Teoria

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Construindo as Relações Internacionais


Como tratamos na semana passada, alguns teóricos começaram a questionar a maneira de se atingir o conhecimento, também chamada de “ontologia” nas relações internacionais e passaram a apontar como mais interessante o “entender” do que o “explicar, já que o conhecimento jamais seria neutro. Dentre esses autores, um grupo específico passou a questionar aquela famosa noção do realismo e do liberalismo de que os Estados viveriam em um ambiente internacional de “anarquia”. 

Ora, diriam eles, o que é a “anarquia” senão um edifício levantado pelos países enquanto interagiam (Alexander Wendt em “Anarchy is What States make of it”). Em outras palavras, pelo jargão desses teóricos ditos construtivistas, se a noção de anarquia existe, ela foi “socialmente construída”. E, da mesma forma como foi antes, pode ser alterada pelas interações. A partir dessa visão, a tão bem montada “estrutura” dos neorrealistas (baseada na ideia de anarquia) cairia por terra como elemento que define a área, pois os anos poderiam mover os tijolos e alterá-la. 

 A ideia central de autores como Wendt e Nicolas Onuf, os primeiros expoentes dessas ideias em RI, era a de que o mundo que nos cerca e nosso entendimento dele é como um edifício. À medida que os Estados vão agindo entre si, vão colocando novos tijolos ou derrubando outros. E a nossa visão mundo está contaminada pela forma que colocamos nossos tijolos de conhecimento e como os atores ao nosso redor colocam os deles. Esse tal edifício em construção quer dizer que essa abordagem dá importância também para questões que não são objetivas, como a influência das ideias ou da questão do conhecimento. Eles negam que haja elementos dados sempre como certos – “anarquia”, por exemplo –, mas sem se oporem ao reconhecimento de que alguns elementos, construídos, diga-se de passagem, afetam o comportamento daqueles que atuam internacionalmente. Todavia, como dissemos antes, é importante o entendimento de como essas questões concretas afetam os Estados/outros atores e, principalmente, que pela interação é possível (e provável) que as coisas venham a mudar. 

Parece difícil e complicado. Tanto parece que até os estudiosos da área não aceitavam muito os construtivistas. Eles somente passaram a ser melhor tidos como uma abordagem para as RI a partir de meados dos anos 1990. Como nas outras teorias, não há consenso entre os autores do Construtivismo. Há desde aqueles que acreditam que o mundo existe e que somente nossa visão é construída, passando pelos que consideram a linguagem (discursos políticos, por exemplo, pela forma como são proferidos ou escritos) ou as identidades (grosso modo, como os atores se vêem e como vêem os demais) como aspectos determinantes, até que cheguemos àqueles que acreditam que tanto o mundo como nossa visão dele são construídos. 

Apesar de diferentes visões nesse grupo, a “ideia do edifício”, da construção, sustenta os pilares dos pressupostos do Construtivismo. O mundo nunca é pré-determinado. Sempre haverá um aspecto de construção social, pela nossa visão dele, pelo nosso conhecimento ou pela ação dos Estados ou outros atores. Bom, paremos por aqui para não complicar mais o que já não é fácil. Na próxima semana aprofundaremos um pouco mais nessas questões. Até lá!


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Explicar ou Entender

Até o momento, descrevemos a evolução teórica em Relações Internacionais com base em três grandes correntes de pensamento. Do realismo ao neoxmarximo, podemos ver um fino e breve fio condutor que costura todas essas teorias juntas. Apesar de diferentes no conteúdo e nas visões de mundo, resumidamente, é no método que elas se aproximam. Em outras palavras, a maneira de se fazer teoria que, antes de tudo, aponta que é possível “explicar” a realidade internacional. Essa “explicação”, até certo ponto, seria objetiva, pois partiria da observação e de se verificar as hipóteses levantadas, as relações de causa-efeito, e assim, chegar-se-ia a um resultado lógico, racional. 

Bom, e é justamente aí que as coisas começaram a complicar. Ao final dos anos 1980, um pessoal começou a criticar a visão de mundo dessas principais correntes. Basicamente, alguns autores apontavam que nas Relações Internacionais, como qualquer ciência social, é difícil obter uma explicação válida que não esteja poluída por valores, princípios e quaisquer entendimentos daqueles que explicam. O que significa que seria possível “compreender” o mundo e não o “explicar”. Ora, em termos práticos, o que isso quer dizer? 

Uma vez já usamos a analogia de como elaborar uma teoria baseado no exemplo do pôr-do-sol. Talvez fosse interessante retomar esse ponto. Quando falamos de certo João que enuncia uma “teoria do entardecer” pela observação de que o sol se punha sempre entre as 18:45 e as 19:10, podemos dizer que ele olhava pela janela de sua casa, em sua cidade. Isso significa que sua teoria é baseada em sua realidade e, seria importante saber, onde no mundo era localizada essa janela da qual ele observava. Pois caso alguém que viva no Canadá ou na China queira utilizá-la, talvez possa ver que o sol se põe em horários diferentes e, portanto, a tal teoria do João não se aplicaria. 

E é, grosso modo, esse ponto que alguns autores da Teoria Crítica, do Construtivismo, do Pós-Modernismo ou da Teoria Normativa nos mostram. As teorias levam valores dos que a escrevem – por exemplo, do lugar onde vivem, da visão de mundo da sociedade – e há sempre outros envolvidos e fatores que são difíceis de se verificar somente pela observação. O subjetivo, aquilo que não é concreto, no nosso caso do João, aquilo além dos conceitos empiricamente verificáveis, ganha importância Esse é considerado, por muitos, o “Terceiro Grande Debate” das Relações Internacionais, no qual a pergunta do “como estudar” a disciplina vem à tona de novo (para mais sobre os debates, clique aqui). As duas correntes que lutam, sem necessariamente se oporem, seriam os Positivistas (marxistas, liberais e realistas) e os Pós-Positivistas (outras abordagens que consideram o subjetivo) ou Racionalistas e os Reflexivistas (como são chamados por alguns). 

Para o segundo grupo, é importante o “compreender” o “entender”, ao invés de ser capaz de “explicar” ou até “prever”. Essa crítica ao “rigor científico”  não representa também uma mudança total na forma de fazer teoria. Como alguns construtivistas fizeram, houve quem buscou um meio termo entre o positivismo e o pós-positivismo. Até hoje, essas duas formas de pensar coexistem e interagem (para bem e para mal), sem chegar a uma conclusão sobre se é melhor “explicar”, “entender” ou um pouco de cada.  Bom, pessoal, paremos por aqui para não complicar demais. Na próxima semana continuaremos um pouco com essas questões e introduziremos algumas dessas teorias! Até lá!


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Estamos chegando a um momento importante de nossa coluna. Nos últimos tempos, estivemos trabalhando com as vertentes mais debatidas nos anos 80 e 90, o chamado debate neo-neo, e com a adição do neomarxismo, completamos as principais vertentes do mainstream das Relações Internacionais nas últimas décadas. O estudo de caso de hoje é bastante importante nesse sentido, já que é um assunto que já foi tratado sob o enfoque das outras teorias. 

Relembrando, para os neoliberais, a crise atual do continente europeu seria mais um reflexo do seu processo de interdependência, enquanto para os neo-realistas reflete padrões de poder regional, com a prevalência de cálculos políticos sobre os econômicos e interesses internos sobre os institucionais. E o neomarxismo? 

A vertente que cai como uma luva para essa análise é o sistema-mundo. Vejam como se configura o quadro da crise europeia: tudo começa com a importação de uma crise externa (a dos bancos dos EUA), passando pelo desequilíbrio fiscal dos PIIGS, a esquizofrenia dos bancos nacionais e a perspectiva tenebrosa de um fim melancólico para o bloco mais exitoso da história. Todos esses elementos possuem uma explicação sob a ótica da polarização econômica, política e social proposta por esses autores que trabalhamos nas últimas semanas. A dinâmica entre Europa e Estados Unidos, que estremeceu as bases, mostra como mesmo entre as regiões centrais do sistema internacional podem existir atritos e pressões (ou “infecções”…) quando entra em jogo a economia. Isso era de se esperar, mas quando vemos a situação interna da Europa que a coisa fica feia: vemos ao vivo a formação (ou melhor, degradação…) de áreas de Estados semi-periféricos, como a Grécia (que no momento está inserida numa área central, mas apresenta características de periferia).

Aliás, o exemplo grego seria emblemático da perversidade desse sistema: má administração interna à parte, o sistema que havia na Europa dava a impressão de permitir uma melhora ou evolução do Estado grego em termos de poder e economia, mas quando a coisa apertou, esse “vôo da galinha” foi abortado e os vizinhos pouco podem (ou querem) fazer para que essa degradação em semi-periferia ocorra. Com isso, está havendo a geração de bolsões de desigualdade na Europa; não que não existissem, mas agora ainda mais acentuados (basta ver como Alemanha e França estão conseguindo prosperar), que transferem poder e recursos para o centro. Mais ainda, a tendência é que permaneça esse padrão de distribuição irregular. Isso redunda depois em problemas como crises de imigração e acirramento de ânimos, que põem em cheque a própria integração europeia. 

Essa é uma análise breve e que certamente não explora a riqueza de possibilidades ou a profundidade exigida para a questão, mas que mostra como o pensamento neo-marxista, em especial a teoria do sistema-mundo, tem sua valia para um caso contemporâneo. Até a próxima!


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Voltamos a conversar com a teoria! Hoje faremos um breve estudo de caso sobre o neomarxismo, mais especificamente, de sua vertente latino-americana, a Teoria da Dependência. Bom, abordamos na última semana que, apesar de heterogêneo em suas proposições, esse grupo de teóricos bebeu das fontes dos pensadores da CEPAL. E, por isso, também viam o mundo dividido entre os países do centro e os da periferia. Os primeiros exportariam principalmente produtos industrializados enquanto os segundos enfocariam suas exportações em produtos primários. A relação entre esses dois blocos seria basicamente de exploração da periferia pelo comércio desigual. 

Para os teóricos da dependência dos anos 1970 e 1980, o problema principal disso tudo era que os países periféricos nunca seriam capazes de reduzir o fosso tecnológico, econômico e militar que estava entre eles e os centros. E, por seu maior preparo econômico, as crises acabariam afetando bem mais a periferia do que o centro. Os conhecidos projetos de desenvolvimento nacional brasileiros, a exemplo do o famoso “50 anos em 5” do Plano de Metas de JK ou mesmo dos planos nacionais de desenvolvimento dos militares, jamais seriam capazes de suprir essa diferença. 

Agora vamos para o fim da década de 1990 onde  o nosso caso está. Vivia-se um período no qual se falava de “globalização”, de economias interdependentes com muito otimismo. Mas bastou uma primeira grande crise surgir para que nossos olhos voltassem para a visão dos dependentistas. Essa primeira grande crise iniciou-se pelo aumento da escala da crise financeira do sudeste asiático, em 1997. Países como Coreia do Sul, Tailândia e Indonésia viram sua economia degradar-se rapidamente. Em pouco tempo, a crise expandiu seus tentáculos para além da Ásia, piorando ainda mais a situação já ruim situação dos sul-americanos e da Rússia, que declarou moratória em 1998. 

Enquanto isso, os países do centro não sofreram tanto os efeitos quanto emergentes. Efeito da posição de dominação que esses países exercem sobre a periferia. Isso revela que, a despeito de os países periféricos terem adotado as ideias do Consenso de Washington e investido no desenvolvimento de economias industriais, ainda sofreram os severos efeitos econômicos das crises em maior intensidade que os países cêntricos. Portanto, a visão teórica dos dependentistas nos mostra que não importam as condições contextuais ou internas, a superação da posição de periferia não é possível somente ou a partir de planos nacionais de desenvolvimento. A relação de exploração entre os centros e as periferias será sempre intrínseca ao estágio atual do capitalismo. 

O diagnóstico desses autores é muito próximo. Todavia, a forma que se deveria agir para sair dessa condição variou muito. Uns apontaram que era preciso romper com o capitalismo, enquanto outros preferiam uma grande aliança internacional “antiimperialista”. Bom, esses são alguns dos elementos que os dependentistas valorizaram em sua análise. Seguiremos nossa conversa com a teoria na próxima semana. Até lá!


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Continuamos a conversa com o Neomarxismo, agora falando da outra vertente mais relevante, a famosa Teoria da Dependência. Muito conhecida por ser uma teoria fora do “mainstream” da área (leia-se, feita fora do eixo EUA-Reino Unido), já que é principalmente sul-americana, propõe uma opção ao pensamento marxista tradicional e em alguns momentos se aproxima bastante da teorização do sistema-mundo que vimos na semana passada. 

Esqueça luta de classes: existem relações de dominação e subordinação para os teóricos do desenvolvimento, mas elas passam pela relação de atraso econômico dos subdesenvolvidos. Esse atraso é fruto da própria colocação desses países no sistema internacional, e fatores de alocação de recursos e desenvolvimento tecnológico mantinham esse ciclo – o que torna o desenvolvimento desses países praticamente impossível nessa estrutura. 

Uma das principais bases para isso foi a teorização de Raúl Prebisch, que revê a questão das vantagens comparativas lá da época do David Ricardo e chega a uma conclusão trágica: os países que dependem de produtos primários vão estar sempre em desvantagem já que vão precisar exportar cada vez mais dos seus produtos para conseguir a mesma quantidade de manufaturados e produtos de maior valor agregado dos desenvolvidos. Isso, grosso modo, é o que chama de “deterioração dos termos de troca”. 

Esse pensamento mostra que não basta se industrializar (como pregava, por exemplo, o pensamento corrente da CEPAL): é necessário romper com a lógica da subordinação, mesmo que chegue ao extremo de romper com o Capitalismo em si. Claro que havia variações: Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, um dos expoentes mais importantes da Teoria da Dependência, não acreditava que a dominação implicasse necessariamente em subdesenvolvimento, ou que o socialismo fosse a única via possível como alternativa ao Capitalismo. 

Com isso, a Teoria da Dependência ganhou muita força nos anos 60, mas enfrentou descrédito a partir dos anos 70, principalmente por conta das crises econômicas e políticas da região. Porém, ainda hoje resiste, em muito se aproximando dos conceitos estruturalistas da teoria do sistema-mundo e a questão de ciclos históricos de acumulação. 

O neomarxismo é muito rico em variedade (como podemos ver, até mesmo dentro de suas subdivisões), e poderíamos classificar outros autores nessa vertente, mas deixemos para outra oportunidade quando lidarmos com o pensamento mais radical das Relações Internacionais. Por hora, vamos focar em alguns estudos de caso para mostrar a aplicação prática dessa vertente. Até a próxima!


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Post do Leitor

[Dando continuidade a nossa análise, hoje teremos um post especial e riquíssimo, de autoria de nosso colega Bruno Hendler, mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e bolsista CAPES, no qual ele abordará a teoria do sistema-mundo e seus autores. Aproveitem!] 

Sistema-mundo e as relações internacionais 

Sistema-mundo moderno de 1500-1775 (BRAUDEL, F. Civilização material, economia e capitalismo. Séculos XV-XVIII: O tempo do mundo. São Paulo, Martins Fontes, 1996. p. 18-19)

A perspectiva teórica dos sistemas-mundo surge com a publicação do livro “The World-System Analysis” de Immanuel Wallerstein, como uma crítica à centralidade do Estado nas ciências sociais. Sua origem está ligada ao surgimento da economia política internacional nos anos 70 e aos questionamentos da época sobre os rumos do sistema internacional frente à crise hegemônica dos EUA durante a Guerra do Vietnã e o fim do padrão ouro-dólar. Assim, autores da teoria da estabilidade hegemônica como Gilpin e Kindleberger, da interdependência complexa como Nye e Keohane e o próprio sistema-mundo de Wallerstein apontavam respostas diferentes para perguntas parecidas. Vamos ficar com o último e ver mais a fundo as bases do sistema-mundo para entender suas respostas. 

Em primeiro lugar, o método de análise dos sistemas-mundo evita o uso de conceitos abstratos para depois buscar exemplos históricos que os comprovem ou refutem. Wallerstein utiliza o método da “comparação incorporada”, ou seja, seus conceitos são construídos à medida que avança na análise da história. Para ele, o sistema social que existe hoje surgiu no fim da Idade Média na Europa Ocidental e se expandiu pelo mundo todo como a soma de um sistema de unidades políticas competitivas e uma divisão internacional do trabalho que supera as fronteiras políticas e funciona sob a lógica do capitalismo. 

Teríamos dois tabuleiros no sistema-mundo moderno, que se afetam mutuamente: a esfera do capitalismo, onde os agentes empresariais buscam lucro e riqueza com aplicações econômicas; e a esfera do sistema interestatal, onde os Estados aplicam recursos de violência em busca de poder. É importante ressaltar que nas duas esferas há uma hierarquia que define o papel dos agentes e faz o sistema oscilar entre a ordem e a anarquia. 

No tabuleiro do capitalismo, também chamado de economia-mundo capitalista, existe uma polarização de riqueza, não apenas entre classes, mas principalmente entre regiões do sistema. Wallerstein se aproxima dos teóricos da dependência ao verificar uma hierarquia na divisão internacional do trabalho entre regiões ou Estados centrais (que se ocupam de tarefas que exigem maior qualificação, aplicação de tecnologia de ponta, agregação de valor a mercadorias e maior acumulação de riqueza) e regiões ou Estados periféricos (que apresentam baixa rentabilidade marginal e transferem para as regiões centrais grande parte do seu excedente de riqueza). Porém, Wallerstein vai mais longe e ainda identifica regiões ou Estados semi-periféricos, onde há uma proporção equilibrada entre atividades que acumulam e transferem valor. 

O tabuleiro do sistema interestatal também tem suas assimetrias, que dependem não apenas dos recursos de poder entre os Estados, mas da função que ocupam na economia-mundo capitalista. Assim, Giovanni Arrighi, outro expoente, percebe ciclos entre governança e caos de acordo com potências hegemônicas. A governança decorre da capacidade da hegemonia em garantir a ordem no tabuleiro político (por meio da hierarquia de poder) e a rigidez no tabuleiro capitalista para manter-se no centro; e o caos sistêmico substitui a governança no momento em que surgem Estados capazes de enfrentar militarmente o poder hegemônico e/ou concorrer e ultrapassá-lo na vanguarda do capitalismo. Em outras palavras, a ascensão e queda de potências. Assim ocorreu com o declínio da hegemonia holandesa frente à ascensão da Inglaterra e da França; e o declínio da hegemonia inglesa frente à ascensão da Alemanha e dos Estados Unidos.

Com isso, a grande interrogação que fica é sobre os rumos do sistema-mundo diante das sucessivas crises nas últimas décadas. Wallerstein sugere o “fim do mundo como o conhecemos”, uma verdadeira ruptura com o padrão histórico do sistema-mundo moderno; já Arrighi sugere uma fissão das capacidades sistêmicas: um novo ciclo econômico estaria surgindo na Ásia, puxado pela China, enquanto que a hierarquia no tabuleiro de poder continuaria a favor dos Estados Unidos por um bom tempo. Façam suas apostas!


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Nas últimas postagens, falamos principalmente do que chamamos de debate “Neo x Neo”, contrapondo as vertentes contemporâneas do Liberalismo e do Realismo. Mas, não faltou alguma coisa? Quando o Giovanni introduziu o tema do debate “novo“, com esse processo de renovação de teorias, uma terceira vertente nos foi apresentada, e a partir de agora vamos mergulhar no chamado neomarxismo. E, assim como as outras vertentes ampliaram e aprofundaram a área de estudo anteriormente proposta, o neomarxismo tem algumas diferenças importantes com relação ao Marxismo clássico. 

Não precisamos nem entrar nos méritos de que haja “os” marxismos, e essa diversidade se reflete na ampla gama de estudos que podem ser considerados neomarxistas. A coisa é tão ampla que há alguns analistas que colocam essa vertente junto com teóricos construtivistas e críticos num mesmo saco, denominando essas escolas de “radicais”. Mas vamos ficar com a divisão usual, em que o neomarxismo herda uma visão de mundo preocupada com relações de dominação e desigualdades, mas de um jeito diferente da teorização original. 

Quando falamos em estudos neomarxistas, a origem está em autores como Luckács e Gramsci (aliás, é curioso pensar que, tecnicamente, o neomarxismo está no páreo há mais tempo que Neo-realismo ou Neoliberalismo…). Sua importância para o neomarxismo está em possuírem uma origem esquerdista, mas abandonando a rigidez e a base eminentemente econômica do marxismo clássico para ampliar a abrangência de suas análises. O foco econômico das relações de dominação não deixa de existir, mas é suplantado por uma série de estruturas externas, além da luta de classes, como condições e processos históricos, relações de distribuição de poder e novas divisões entre os atores envolvidos. 

Esse tipo de pensamento, muito ligado a questões de emancipação e superação de desigualdades, encontrou terreno fértil para prosperar no período após a 2ª Guerra Mundial, e talvez seja o que mais tenha representado aquele espírito de transformação de valores e dificuldades que o mundo enfrentava no momento. Disso advieram suas variantes mais famosas, a teoria do Sistema-Mundo de Wallerstein e a Teoria da Dependência, por muitos considerada uma autêntica teoria de Relações Internacionais sul-americana (ou melhor, que não seja anglo-saxônica). Há quem considere o leninismo como um neomarxismo precoce, ou estudos como o de Robert Cox, um crítico, mas vamos ficar com os exemplos mais famosos. 

Graças à sua variedade, o neomarxismo pôde ser trabalhado pelas mais diferentes vertentes, do radicalismo contra-cultural à teologia cristã, agregando valores e diferentes perspectivas, o que faz com que consiga sobreviver e se adaptar aos novos tempos tão bem como (ou até melhor) do que suas contrapartes “Neo”. Especialmente no momento contemporâneo, em que se acirram polarizações econômicas e muitas das antigas ordens de poder estão sendo invertidas ou abaladas, esses estudos surgem com força para oferecer um entendimento sobre as dificuldades que são postas em jogo. 

Nas próximas semanas, vamos mostrar alguns de seus autores mais importantes e trabalhar suas idéias. Até lá!


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Nas últimas postagens, terminamos nossa exposição acerca do Neorrealismo e postamos nosso primeiro estudo de caso sobre assunto. Desta vez, vamos retomar aquela nossa breve análise sobre o Neoliberalismo (clique aqui para conferir) e buscaremos explicar os mesmos eventos pela ótica neorrealista.

Como já dissemos em nosso outro texto, a União Europeia é o exemplo mais bem sucedido de integração atualmente. E, mesmo assim, o bloco tem enfrentado severas dificuldades que nos levam a questionar a manutenção dessa integração. Os neoliberais apontaram que as instituições seriam uma forma de os Estados superarem a condição de anarquia e adotarem posturas mais cooperativas. Em outras palavras, por projetos de integração ou outras vias de diálogo seria possível que os países agissem mais de forma “comunitária” e menos “unitária”. 

Agora, pelas lentes do neorrealismo, o projeto de integração europeia e a crise do Euro ganham outros contornos. Primeiramente, avaliando a distribuição de capacidades, percebemos que, embora a UE seja um bloco, são poucos os países ali que podem ser considerados potências. A Alemanha, a França e o Reino Unido são os únicos com status de potência mundial, se considerados isoladamente. Isso já nos dá uma pista importante sobre sua atuação em caso de instabilidade. Tanto que bastou a crise estourar na Grécia, Portugal, Itália e Espanha para essas potências recuarem. Nenhuma delas abraçou a ideia de medidas que representassem grandes perdas para suas economias e defenderam ações de austeridade dos países em crise em detrimento de uma ação conjunta. A menos flexível foi a Alemanha que esperou sentir-se em uma sinuca de bico e ver sua economia ameaçada para agir. E, vale dizer que não agiu pelo bloco, mas agiu em benefício próprio, para evitar efeitos severos sobre a economia alemã. É nesse ponto que um neorrealista provavelmente encherá a boca para criticar os neoliberais. 

A União Europeia (como qualquer outro projeto de integração), para eles, não é capaz de retirar a ação da estrutura sobre os Estados. Em outras palavras, a situação de anarquia e a preocupação com a distribuição de capacidades não pode ser superada, é uma questão estrutural. Por isso, a Alemanha e as outras potências europeias se preocupam primeiro com a sua posição econômica no sistema e depois, em um segundo plano, pensam em como agir em caso de crise dos demais parceiros da zona do Euro. Toda a ideia de bloco, ação conjunta e união seriam, ao final das contas, muita retórica e pouca prática.

Até mesmo a última ação do Banco Central Europeu de injetar aproximadamente 1 trilhão de euros nos principais bancos europeus (clique aqui para mais sobre isso) apenas teria ocorrido porque as potências da UE viram as suas próprias economias ameaçadas e não para benefício do bloco. O importante seria manter a distribuição de poder relativamente favorável às potências, o que encorajou a ação, já que suas economias poderiam estar perdendo em competitividade no cenário mundial.

Essa é uma breve e até simplista forma de analisar o que está ocorrendo na Zona do Euro pela ótica neorrealista. Mas, é bem reveladora porque mostra as preocupações dessa corrente e nos permite ver outros elementos que pelo neoliberalismo provavelmente não veríamos. Até a próxima semana!


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Nas últimas semanas, falamos de Neorrealismo e muita teoria. Por mais que a ideia seja simplificar, é muito mais fácil de entender quando pensamos em um caso concreto, e o Neorrealismo não foge à regra. Um exemplo muito ilustrativo dessa teoria e que está bastante fresco na memória de todos é o caso da intervenção na Líbia.


Recapitulando, o regime de Muamar Kadafi/Ghadafi/Gandalfi começou a enfrentar protestos estimulados pelos levantes nos países da região. Como todo regime opressor, mandou tanques e aviões atacarem os protestos e logo aquilo tomou a forma de uma guerra civil prolongada. A ONU, atendendo aos apelos da comunidade internacional, autorizou uma intervenção com zona de exclusão aérea e possibilidade de ataques para proteger a população civil. Tudo muito bonito, e o resto é história – Kadafi caiu (e foi linchado na primeira oportunidade), o Conselho Nacional de Transição está tentando evitar que a Líbia e torne uma nova Iugoslávia (aliás, o provável destino da Síria) e a coisa vai de mal a pior por aqueles lados.

E o Neorrealismo com isso? É claro que o foco é na ação das potências ocidentais, que protagonizaram os ataques aéreos e deram uma mãozinha aos grupos de oposição na Líbia. Vamos pensar nas duas “condições” no Neorrealismo, a estrutura e a distribuição de capacidades. Para um analista dessa vertente, o caso da Líbia é bastante claro. Vejam que os principais interessados na remoção de Kadafi do poder eram os países europeus… que poucos meses antes eram seus aliados; mas por quê isso? O regime de Kadafi oferecia vantagens a suas empresas, especialmente de petróleo. Nesse sentido, havia uma distribuição clara de recursos de poder, estável. Porém, com os protestos e a reação de Kadafi, países como França e Inglaterra se viram na situação de rever a posição quanto ao regime líbio – não pegaria bem ficar a favor de um governo que massacra civis manifestantes, e seria proveitoso garantir desde já o acesso aos grupos de poder emergentes quando viesse a iminente queda de Kadafi. Nada mais pragmático. Por outro lado, Kadafi já desconfiava do apoio dos europeus e ameaçava suas empresas – mas sem cogitar qualquer reação contra empresas russas ou chinesas. Basta ver o resultado da votação da resolução do Conselho de Segurança que aprovou a intervenção: os países que se abstiveram foram os que não tinham nada a perder com a situação (ou até ganhavam), como China, Rússia, Brasil e Índia.

Havia uma estrutura, que limitava as ações (o sistema ONU), mas que não impediu que se aprovasse por meios legais (apesar da justificativa ser meio controversa…) a ação orquestrada pelos países interessados para que mantivessem sua distribuição de poder. Alterações nas condições do sistema levaram os países interessados a agir para se acomodarem em uma nova realidade. O resultado dessa intervenção, para França e amigos, foi a continuidade do acesso a recursos estratégicos e a manutenção de uma ordem de poder regional que lhes seja conveniente. Aliás, lembra muito a “criação de condições” do Neorrealismo ofensivo, não? Pois é, nada nesse mundo é mera coincidência…

Essa é uma análise muito superficial (que nem mexe nos temas mais espinhosos desse caso), mas que mostra como o Neorrealismo pode servir para entender fatos contemporâneos. Na próxima semana, vamos lidar com um caso que já analisamos e contrapor ao que já vimos com o Neo-liberalismo. Até lá!


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Damos continuidade à nossa conversa com a teoria falando “dos” Neorrealismos… Mas como assim? Afinal, quando falamos de Neorrealismo logo se pensa em Waltz – e foi dele que tratamos até agora; nada mais justo, considerando que foi o primeiro a articular essas ideias. Porém, vida de estudante de Relações Internacionais não é fácil, e mesmo um ramo de pensamento relativamente coeso como esse tem montes de subdivisões.

 


Bom, pra se ter uma ideia, para ficarmos apenas na divisão “histórica”, temos a divisão entre Neorrealismo e Realismo Neoclássico: enquanto o primeiro busca apenas determinar conseqüências da atuação dos Estados no sistema, o segundo entra no aspecto do comportamento e razões dos mesmos (assim como no Realismo “original”). Ou seja, grosso modo é mais ou menos como um conflito entre conseqüências e motivações, com as teorias analisando os mesmos fenômenos mas com objetivos diferentes.

 


Por outro lado, temos a divisão, essa mais conhecida, entre os Realismos Ofensivo e Defensivo. E vejam só: essas divisões (para ficar apenas nas mais conhecidas e simplificar), não se anulam, e sim se sobrepõem, formando na verdade um quadro analítico bastante complexo.

Robert Jervis

O Defensivo é o tradicional, que tem origem em Waltz (e sua tradição do balanço do poderes) e Robert Jervis, com suas teorizações acerca do dilema de segurança (brevemente, quando um Estado busca sua segurança gera insegurança para os demais Estados). O nome diz tudo – a sobrevivência do Estado vem da capacidade de lidar com a divisão de poder na estrutura internacional e se impor.

Entre os Defensivos se destaca Stephen Walt, um Neoclássico, que defende a teoria do Balanço de Ameaças, separando os termos “poder” e “ameaça” como elementos distintos na condução da política internacional: apenas quando uma soma de fatores de certo Estado como força bruta, proximidade geográfica, capacidades e intenções se mostrar como uma ameaça, é que outro Estado vai tentar crescer pra balancear aquele que ameaça.

Já a vertente ofensiva, apesar de ter ficado famosa com John Mearsheimer, tem origem na teoria hegemônica vista em Robert Gilpin (aquele da economia), em que a estabilidade viria de um Estado hegemônico no sistema. Assim como o ramo defensivo adota as idéias de Waltz, o ofensivo parte da hegemonia de Gilpin, mas indo pelo lado de que não basta para o Estado se adaptar à divisão de poder da estrutura, mas sim “criar” condições ideais.

John Mearsheimer

O mais famoso dessa leva, Mearsheimer, por exemplo, seria um Neorrealista Ofensivo – sua teorização da política de grandes potências evoca uma posição de destaque para os EUA, mesmo que apenas como um hegemon regional. Mas não se enganem com o título! Ser ofensivo não significa necessariamente ser favorável à guerra. Mearsheimer é um dos grandes críticos da condução da guerra no Afeganistão e do modo como Israel lida com os Palestinos; ao mesmo tempo, considera um erro a aproximação econômica com a China (que seria estar municiando um futuro inimigo). No caso, ser “ofensivo” seria apenas se tornar “menos amistoso”…

Muito confuso? Não é tão ruim quanto parece – o Neoliberalismo consegue ser ainda pior quando falamos em ramificações. É claro que essa análise varia de autor para autor – há quem considere, por exemplo, Barry Buzan (um autor mais ligado à Escola Inglesa) e Samuel Huntington (aquele do “choque de civilizações”) autores neorrealistas. Rotulações à parte, o que importa é que para esses autores o Estado ainda é o ator principal, e a distribuição de poderes no sistema sempre leva à consideração, para o bem ou para o mal, do conflito.

Um artigo interessante sobre o tema (e com uns quadros bastante explicativos) pode ser visto aqui. Até a próxima!


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