Rumo a um mundo melhor…

Por

Trazer à tona o drama vivido diariamente por pessoas em situação de migração ou refúgio nunca é demais. Em 20 de junho, celebra-se o Dia Mundial do Refugiado, estabelecido pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), em 1951. E, hoje, 19 de janeiro, celebra-se o Dia Mundial dos Migrantes e Refugiados, data instituída pela Igreja em 1914, no momento em que se iniciou a Primeira Grande Guerra.

No centenário da data, e sob o lema “Os migrantes e refugiados: rumo a um mundo melhor”, o Papa Francisco instigou, em seu discurso proferido hoje, a necessidade de esperança e de combate aos “mercadores de carne humana”, que buscam escravizar pessoas em situação de risco.

Trata-se, de fato, de uma situação com dados nem um pouco animadores. Vemos uma colônia de mais de 45 milhões de refugiados e 230 milhões de migrantes nos dias de hoje, especialmente ao considerarmos regiões em meio a conflitos, em que os países vizinhos se tornam os grandes receptores de pessoas que fogem por suas vidas. Afeganistão, Síria, Somália, Sudão e República Democrática do Congo lideram a lista de países de origem dos refugiados de hoje. E os números, infelizmente, parecem apenas aumentar

No nosso próprio país, o total de refugiados no último ano triplicou em relação a 2012, de acordo com informações do Comitê Nacional para Refugiados (CONARE), sendo que quase a metade dos mais de 600 pedidos aceitos pelo governo brasileiro foram oriundos da Síria.

Quando o problema tem raiz política, apenas uma solução política pode saná-lo definitivamente. Os meios humanitários utilizados para lutar contra as dificuldades dos refugiados, essenciais devido à gravidade da situação, veem-se, com frequência, restritos a medidas paliativas, temporárias. Estamos falando de indivíduos cujas vidas foram (e são) diretamente afetadas por conflitos que não são seus. 

“Rumo a um mundo melhor”: a mensagem certamente deve ser de esperança aos que buscam refúgio, mas principalmente de esperança que aqueles que possuem os meios políticos para sanar os conflitos se atentem às suas responsabilidades e avaliem o impacto de suas decisões não apenas em termos financeiros, mas – justamente – em termos humanos. 


Categorias: Assistência Humanitária, Conflitos, Direitos Humanos, Política e Política Externa


Morre Sharon, vive o conflito Israel-Palestina

Por

Líderes mundiais deixam, inevitavelmente, um legado histórico que ultrapassa fronteiras e que revela sua influência em grandes traços do cenário político internacional à sua época. Com Ariel Sharon, contudo, a análise é bastante particular. Dependendo do interlocutor, sua memória é relembrada de formas absolutamente distintas. Visões opostas de uma liderança controversa que se despediu sem que o conflito na região tenha qualquer perspectiva de finalização.

Aos 85 anos, após oito em estado de coma vegetativo, o ex-primeiro-ministro de Israel faleceu ontem. Considerado um dos “pais fundadores” de Israel, Ariel Sharon é lembrado por sua carreira militar à qual se sucedeu uma ampla trajetória política no país.

Sua postura “linha dura” em defesa unilateral dos interesses de Israel certamente impacta na situação em que a região se encontra ainda nos dias de hoje. Destaca-se o fato de que Sharon ainda teve seu nome associado ao triste massacre de palestinos em campos de refugiados do Líbano (Sabra e Chatila) enquanto era ministro da Defesa, em 1982.

Após passagem por vários cargos e sob o slogan de “segurança e paz verdadeira”, foi eleito primeiro-ministro em 2001, sob levante palestino. Responsável pela construção do absurdo muro da Cisjordânia e tradicional promotor de assentamentos israelenses em territórios ocupados por palestinos, o fato de Sharon ter ordenado a retirada de assentamentos israelenses da Faixa de Gaza em 2005 revelou uma faceta mais centrista em relação ao seu passado de direita. Pouco depois, o derrame que o levou ao estado vegetativo em que se encontrava até o momento de sua morte impediu a história de vislumbrar se sua postura em relação ao reconhecimento dos palestinos enquanto um povo livre se concretizaria, diferente de sua usual linguagem da força.

Considerado “herói político” por israelenses e “criminoso e tirano” por palestinos, sua morte está sendo, ao mesmo tempo, lamentada e comemorada por muitos. Posições de enfrentamento que, desde a polêmica criação do Estado de Israel da qual ele mesmo participou, representam um dos maiores desafios político-militares nas relações internacionais.

Com claros interesses em jogo, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu reforçou hoje o anúncio da construção de novos assentamentos israelenses em territórios palestinos, contradizendo as expectativas palestinas e internacionais, mesmo após a recente tentativa de retomada de negociações pela paz por parte de John Kerry, Secretário de Estado norte-americano. O conflito Israel-Palestina, infelizmente, tem perspectiva de vida longa…


Categorias: Conflitos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Resquícios pós-conflito

Por

O encerramento de grandes conflitos muitas vezes não representa efetivamente seu final. Os anos que se seguem após os enfrentamentos são decisivos para o processo de reconciliação e recuperação de uma rotina de paz, o trabalho com a memória e a reconstrução – física e mental – dos indivíduos e dos locais que sofreram com a violência de uma guerra.

Contudo, mesmo após muitos anos, bombas e minas antipessoal ainda tornam vivas as lembranças dos horrores passados, vitimando inocentes após gerações e demonstrando a perversidade desse tipo de armamento.

Uma explosão na última sexta-feira levou a uma vítima fatal e oito pessoas feridas na cidade de Euskirchen, no Estado da Renânia do Norte-Vestfália na Alemanha, após uma escavadeira colidir com uma bomba da Segunda Guerra Mundial (foto). As áreas industriais do país ainda revelam incidentes similares com frequência, evidenciando a necessidade de esforço especial do governo para a desativação de bombas.

Apesar de não terem sido registradas vítimas fatais recentemente na Alemanha, milhares de pessoas têm de ser evacuadas a cada nova descoberta. Apenas no ano de 2012, 706 bombas foram desativadas, mais de um terço pesando mais de 50 kg. Em novembro do último ano, uma bomba de impressionantes 1,8 tons (!) foi desativada em Dortmund.

O drama de bombas atiradas à época das Grandes Guerras na Europa (especialmente remanescentes na Alemanha, na França e no Reino Unido) revela tragédia similar àquela das minas antipessoal plantadas em muitos lugares do mundo em situações de conflito. A chamada Convenção de Ottawa proíbe totalmente seu uso desde 1997, em campanha humanitária que revela a importância de que o assunto permaneça em pauta. Com 161 Estados-Parte, o tratado mobiliza a comunidade internacional e supera antigos paradigmas de segurança nacional em prol da desminagem.

Entretanto, ainda recentemente o governo sírio foi acusado de se utilizar do armamento no conflito que persiste no país, o que demonstra que o tema ainda não foi superado e se faz presente nos grandes debates internacionais.

Desafio atual, demonstrando que as consequências dos conflitos permanecem por anos a fio após a celebração da paz – momento importante, mas que não se encerra em si mesmo, em um longo processo histórico para a superação dos últimos resquícios de conflitos na vida dos civis. 


Categorias: Assistência Humanitária, Conflitos, Direitos Humanos, Europa


Espírito de reconciliação?

Por

Eis que no funeral de Nelson Mandela, ícone mundial da reconciliação, vimos uma cena inédita ocorrer: um cordial aperto de mãos entre os líderes Obama e Raúl Castro – sob o olhar atento de Dilma, dos demais presentes e dos flashes mundiais.

E por que tal ato surpreende de forma a transformar-se em manchete internacional? Estados Unidos e Cuba, de fato, não possuem relações entre si desde 1961, dois anos após a chegada de Fidel ao poder na ilha, nacionalizando propriedades estadunidenses. Em 1962, portanto, Kennedy impôs um embargo econômico duradouro aos cubanos, o qual permanece até hoje e torna as relações entre os países tão tensas.

Raúl hoje propõe que ambos os países venham a “respeitar mutuamente suas diferenças e acostumar-se a conviver pacificamente com elas”, denotando a necessidade de flexibilizar as posições para viabilizar o diálogo. O próprio Obama reconheceu recentemente que tinha acabado de nascer quando Castro chegou ao poder, sendo “tolice acreditar que as medidas implementadas em 1961 ainda são eficazes hoje, na era da Internet e do Google”.

Ou seja, ambas as partes demonstram um certo grau de abertura ao diálogo que não se via há décadas. O aperto de mão da foto apenas reforça, em sua sutileza, a esperança de que as relações bilaterais Cuba-EUA sejam restabelecidas em um momento histórico propício a renovações e movimentos de reconciliação.

Os traços de rivalidade entre os países ainda são grandes e não se espera, ingenuamente, que um aperto de mãos resolva todos os problemas. Contudo, Raúl Castro tem colocado em prática – ainda que lentamente – reformas econômicas na ilha que podem facilitar esse diálogo com os “inimigos” do norte. Discussões bilaterais recentes sobre imigração e serviço de correio entre os países representam ainda um avanço histórico após tantos anos de distanciamento entre os países e seus líderes.

Que a chama do espírito reconciliador de Mandela mantenha-se viva após as cerimônias oficiais de despedida ao líder sul-africano que comoveram o mundo em tantos momentos. Uma porta, ou uma brecha que seja, talvez aberta ao diálogo entre Cuba e Estados Unidos é certamente significativa em nosso contexto atual, reavivando as expectativas de que 2014 seja um ano decisivo com relação a avanços nas negociações internacionais em todos os âmbitos. 


Categorias: Américas, Conflitos, Economia, Política e Política Externa


Um caminho para o futuro

Por

Está havendo muito auê por conta do acordo provisório entre EUA e Irã sobre o programa nuclear deste, mas será mesmo um daqueles momentos de inflexão histórica? Vamos por partes. Pra quem vive embaixo de uma pedra ou ficou longe dos jornais na última semana, os dois países firmaram um acordo em que o Irã se compromete a cumprir algumas exigências (que praticamente paralisam seu programa nuclear) em troca do alívio de algumas das sanções econômicas que castigam o país por conta dessa aventura. 

Vendo por cima parece algo muito bom, mas tem muitos problemas por trás. Não foi algo feito de uma hora para a outra – inclusive diz-se que as negociações “secretas” começaram ainda na época de Ahmadinejad. Apesar de ser considerada uma vitória para a estabilização da região, a maioria dos países da região (incluindo Israel e Arábia Saudita) são contra, assim como a maioria do Congresso nos EUA e a Guarda Revolucionária do Irã. E na prática os países nem retomaram as relações oficiais (rompidas em 1979), estão apenas mantendo um canal de diálogo, e se o Irã pisar na bola as sanções voltam e ainda piores. Na verdade, parece surpreendente como algo assim tenha saído, para começo de conversa, e isso se deve principalmente ao impacto que as sanções tiveram na economia iraniana. Mesmo a eleição de um moderado como Rohani não teria tanto impacto para isso quanto massas de desempregados pelas ruas. 

O que isso pode mudar na geopolítica da região? Vamos lembrar que até a queda de Saddam Hussein, os três grandes polos de poder no Oriente Médio eram Arábia Saudita, Iraque e Irã. Os três inimigos uns dos outros, e se contrabalanceando. A queda de Saddam resultou em um governo xiita que se alinhou a Teerã e a polarização rompeu o equilíbrio regional, reduzindo as alianças a amigos de Irã ou Arábia Saudita/países do Golfo. Mas como tudo no Oriente Médio é complicado, as questões religiosas e étnicas podem colocar aliados em lados opostos e aproximar inimigos. A questão do terrorismo pode ser a grande chave para entender o futuro, já que o movimento salafita (presente na Líbia e no Iraque, principalmente) é inimigo de praticamente todo mundo por lá, de Assad à Arábia Saudita. 

Uma aproximação com o Irã, se der certo, pode mudar completamente o rumo da política regional. Claro que Israel e os sauditas vão espernear, mas com os favores dos EUA, uma possibilidade de relação aceitável entre Washington e Teerã pode ter um impacto muito positivo em longo prazo, seja por evitar um conflito armado na região, seja por acabar com o poder de barganha e jogo duplo das monarquias do Golfo. Ainda tem muita água para rolar nos próximos seis meses (a data de validade do acordo), mas vão ser meses incrivelmente agitados na política mundial. Dependendo do resultado, Obama pode finalmente deixar sua marca na história e fazer valer aquele Nobel da Paz.


Categorias: Conflitos, Defesa, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Política e Política Externa, Segurança


Há um ano...

Por

Há um ano, as discussões no blog passavam por diferentes cantos do mundo. Destacando alguns dos principais pontos, temos um interessante post sobre François Hollande, então com apenas seis meses cumpridos de mandato na França, em que já se destacavam alguns elementos contraditórios em sua forma de governar. A partir de um discurso tido como esquerdista, Hollande foi eleito por franceses esperançosos por mudanças após a emblemática era Sarkozy. Após um ano e meio de governo, ele está sendo avaliado hoje como o presidente com menor apoio da população em 30 anos (!) – pior que o próprio Sarkozy… os anos vão delineando a política de uma forma imprevisível (ou alguém imaginava isso?) na França.

Já previsível, contudo, era a falta de perspectivas para o término do conflito na Síria. Infelizmente, o título do post de um ano atrás (“Nada de novo na Síria”) poderia ser o título de um post sobre o tema essa semana. Se naquele momento o número de vítimas fatais era estimado em 36 mil, neste ano vimos a cifra quintuplicar, chegando a mais de 115 mil mortos atualmente e milhões de refugiados nos países vizinhos e pelo mundo afora. Com metade da população na miséria, estamos vendo a destruição de um país sem que nenhuma medida efetiva consiga evitar os danos. Em um pós-guerra que ainda não consegue ser visualizado, as dificuldades certamente persistirão por anos a fio até que esses momentos façam parte de lembranças longínquas.

Já na América Latina, há um ano apresentávamos um embate argentino que persiste entre o governo e os meios de comunicação, mais precisamente o Grupo Clarín (a “Rede Globo” da Argentina). A batalha envolve a “Lei da Mídia” promulgada em 2009 e contra a qual o grupo tem lutado incessantemente, já que a legislação obrigaria o Clarín a se desfazer de licenças tanto de rádio como de televisão, respeitando uma série de limitações que visam evitar o monopólio dos meios de comunicação. Ontem, poucos dias depois de derrota na Corte Suprema de Justiça do país, foi apresentado (a contragosto) pelo Grupo Clarín plano de adequação voluntária à lei. O assunto ainda deve gerar discussão por lá – e bem que a moda podia contagiar os demais países da região…

Postando, relembrando e avaliando o que o tempo traz de novo em temas já discutidos no blog, seguimos com o “Há um Ano…” na Página Internacional! 


Categorias: Américas, Conflitos, Europa, Há um ano...


Luto e tensão no Quênia

Por

A notícia que abalou o final de semana vem da África, mais especificamente do Quênia – e está diretamente relacionada à Somália. O ataque ao shopping Westgate em Nairóbi, na capital do Quênia, já deixou, segundo a Cruz Vermelha local, 68 mortos e 175 feridos, sendo que ainda há reféns e os autores do ataque permanecem no local.

Ainda é muito cedo para qualquer análise a respeito da situação, mas a autoria do ataque já foi assumida pela milícia radical islâmica somali Al-Shabaab, a qual justifica o feito em represália contra a participação do Quênia na Missão de Paz das Nações Unidas na Somália.

A referida participação corresponde a 4 mil soldados quenianos que se encontram no sul da Somália desde 2011, envolvidos em esforços internacionais na busca pela estabilidade em um país que enfrenta violentas disputas pelo poder político desde 1991, com a queda do governo de Siad Barre. Neste ano de 2011, contudo, a saída dos militantes islamitas do grupo Al-Shabaab, vinculado à Al-Qaeda, da capital Mogadíscio deu novos ares de esperança à reconstrução do país.

Vale relembrar, contudo, que a insistente intervenção da ONU na Somália é considerada um dos grandes fracassos da organização em sua história, denotando a complexidade da situação no país e a falta de preparo da comunidade internacional em lidar com este desafio. [Interessante artigo sobre as intervenções na Somália aqui.] O tema da legitimidade do uso da força vem à tona em meio a um debate que talvez nunca se esgote.

Este ataque premeditado pelo grupo Al-Shabaab no Quênia só demonstra o quanto ainda há a ser realizado em termos de diálogo para que a mais nova missão da ONU no país, estabelecida em maio deste ano (Missão de Assistência das Nações Unidas na Somália – UNSOM), venha efetivamente a cumprir sua missão de facilitadora e auxiliar o atual governo federal interino a harmonizar os interesses nacionais em busca da paz – no país e na região.

Aliás, é tristemente irônico que um ataque deste porte tenha ocorrido no Quênia justamente no Dia Internacional da Paz, celebrado pela ONU em 21 de setembro desde 1981. Percebemos, infelizmente, que a distância entre as declarações e a prática com frequência é muito maior de que se espera ou do que se possa porventura imaginar…


Categorias: África, Conflitos, Organizações Internacionais


Solução à vista?

Por

Depois de uma intensa semana de negociações, a notícia mais comentada do dia de ontem foi o acordo em que chegaram Estados Unidos e Rússia a respeito da Síria e das medidas a serem tomadas especialmente em relação aos ataques com armas químicas que chocaram a comunidade internacional há pouco menos de um mês (leia post no blog a respeito aqui).

O dilema sírio já é bem conhecido por todos e o complexo jogo de interesses envolvido (e já discutido no blog em diversos momentos, veja alguns posts aqui, aqui e aqui) torna qualquer solução de difícil visualização no plano prático. Contudo, o uso de armas químicas por parte do governo Assad revelou uma nova e ainda mais terrível faceta deste conflito, mobilizando especialmente o gigante americano contra essa ameaça à paz e à estabilidade internacionais (posts aqui e aqui).

Todos os números destes dois anos e meio de conflito civil na Síria são chocantes e denotam a grande dificuldade de se chegar a um acordo de paz no país. Acumulando mais de 110 mil mortos e aproximadamente 2 milhões de refugiados em países vizinhos, poucos avanços têm sido vistos ultimamente, tornando incertas as perspectivas de paz para a população da Síria e da região.

Com a iminência de um ataque dos Estados Unidos ao país, entretanto, houve uma especial mobilização por parte da Rússia (tradicional aliada da Síria no Conselho de Segurança) para o estabelecimento de uma ponte diplomática de diálogo. Ontem, pois, acordou-se que a Síria deve apresentar um inventário de suas armas químicas em uma semana e que estas deverão ser completamente destruídas até o ano que vem, evitando-se assim um ataque norte-americano e almejando-se que este acordo evolua gradativamente para algo mais abrangente que reacenda a esperança do final do conflito…

Ainda é cedo demais para entender as reais consequências do acordo, mas fato é que, apesar de inicial, este representa um importante passo nas negociações com o regime sírio. Ainda, a ONU afirmou ter recebido carta da Síria com intenções de que o país venha a aderir à convenção internacional contra as armas químicas. Registro de algum avanço? Possivelmente sim.

Mas nem tudo são flores e os ataques do governo aos rebeldes (e vice-versa) continuaram hoje em um ambiente hostil, em meio ao qual todas as boas intenções parecem se esvaecer. Obama segue preparado para um ataque à Síria em caso de descumprimento do acordo. Rússia e China seguem dispostas a barrar quaisquer ações mais incisivas contra o regime sírio com seu poder de veto na ONU. A oposição no país não vê o acordo com bons olhos, e permanece ainda uma descrença generalizada quanto à solução do conflito.

O que pensar diante desta situação? Difícil. Acreditar que a esperança é a última que morre é importante. Mas as mortes sírias são tantas e de tantas formas que a esperança parece precisar, na verdade, ressurgir das cinzas. Se estamos vendo e vivendo os primeiros passos para tanto, só o tempo poderá confirmar. Aguardemos (esperançosos!) o desenrolar deste acordo para reavivar um otimismo há muito obscurecido pelo ceticismo e avistar, efetivamente, uma solução duradoura para o drama sírio. 


Categorias: Conflitos, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


Novas caras de um velho problema

Por

Hoje é 11 de setembro, e a data é ligada a desastres. Tem quem lembre da queda de Allende no Chile, em que um experimento malsucedido de socialismo deu lugar a uma ditadura pior ainda. Mas é claro que não tem como se fazer qualquer tipo de análise sem lembrarmos a efeméride fatídica de 2001. E talvez seja um ano bem oportuno pra retomarmos aqueles acontecimentos. 

Isso por que toda a discussão acontecendo em torno da Síria representa um dos grandes debates que existe na academia de Relações Internacionais hoje na área de Segurança e Defesa, que são as tais “novas guerras”. Não que a definição do que elas sejam esteja indefinida ainda – é um conceito muito amplo, mas que deixa bem claro do que trata. As guerras clássicas envolviam Estados, tinham uma delimitação clara, mesmo que houvesse alvos civis. Na Segunda Guerra (talvez a última grande guerra entre Estados), havia Eixo e Aliados. Mesmo na Guerra Fria, era EUA x URSS e o resto do mundo pendurado em um dos dois (sem generalizar, claro, por que depois surgem os não alinhados, a China, e por aí vai). Era um mundo mais “fácil” de compreender (isso em termos de análise de conflitos mais tradicional). 

Hoje não. Desde os anos 90, há uma multiplicação de atores envolvidos. Guerras civis explodem dentro de países, opondo grupos étnicos ou religiosos, e seu conflito transborda para os vizinhos. Ou pior ainda, existe o conflito entre Estados, mas não entre os governos, e sim entre milícias e grupos específicos em confronto com grupos de outros Estados (como se vê muito na África). Não é que conflitos dessa natureza não existissem antes, mas agora eles são os mais destacados. Essas “novas guerras” são justamente as assimétricas, em que não se sabe exatamente quais são as partes envolvidas já que são grupos muito heterogêneos, e por vezes sem participação do Estado (ou quando o Estado é falido). 

Aqui entra a questão do 11/09. O ataque a Nova Iorque e Washington mostrou essa capacidade de um inimigo sem face, e teria dado um novo objetivo aos Estados na arena internacional. Acadêmicos norte-americanos abraçaram a ideia de que “a América tinha uma missão a fazer”, e seus políticos entraram na espiral da destruição promovendo guerras que tiveram resultados desastrosos, tanto para os EUA em si, quanto para os países onde ocorrem (até hoje…) os conflitos e suas regiões. Por outro lado, os ataques também representaram a grande “apresentação” para o mundo dessa nova onda de atores e agentes que afetam a segurança internacional de um modo que o sistema tradicional de Estados não está acostumado a lidar. O resultado disso vemos nas diversas guerras das últimas duas décadas, que em sua maioria foram fracassos retumbantes, seja na atuação do sistema ONU, seja nos objetivos dos que iniciaram os conflitos. 

O 11/09 é emblemático como a representação de um mundo em fragmentação. Questões e demandas específicas de atores subnacionais cada vez mais influem nas decisões e ameaçam os atores tradicionais, em um futuro incerto. O desfecho do conflito na Síria é apenas um entre diversos atos de uma grande peça que é novidade no palco internacional e ainda está longe de se encerrar.


Categorias: Conflitos, Defesa, Estados Unidos, Organizações Internacionais, Paz, Segurança


Pessoas da Síria, vergonha de mundo

Por

Há 7 meses escrevia meu primeiro texto para o blog. Na época, como ainda não havia escrito nada, pensei em publicar o assunto que mais me incomodava. E nenhum outro tinha tanta força de tirar o sono do que o tráfico internacional de pessoas, mais precisamente o tráfico de mulheres. Não somente por ser um dos atos mais asquerosos existentes, mas também por ter certeza que ele não seria eliminado à curto prazo.

Afirmava na época que embora houvesse uma enorme tentativa por parte das forças policiais e jurídicas de diversos países para coibir essa forma de crime, ele só se fortalecia com o tempo. Mas então qual seria o segredo do sucesso dessa prática? Hoje o crime mais rentável do mundo. E concluí que isso ocorria precisamente por ser executado contra pessoas de “menor importância”, que não eram valorizadas por governos e sociedades.

A única coisa que faltava naquele texto era um cenário que na prática demonstrasse a relação entre crimes hediondos contra a humanidade e a falta de valorização de certos grupos, o que legitimava tais ocorrências. Agora surge a Síria, que infelizmente pode servir como um bom exemplo.

O país que passa por uma guerra nos últimos meses entre governo e oposição. Conflito que já matou mais de cem mil pessoas, segundo estimativas. De um lado, Bashar Al Assad. De outro, rebeldes, muitos deles financiados pelas potências ocidentais. Uma massa heterogênea de pensadores, políticos, pacifistas e terroristas, digna das complexidades presentes nos conflitos do Oriente Médio.

A guerra corria sem novidades, até a ocorrência de um ataque químico, ao qual o ditador sírio é acusado de ser o mandatário. A denúncia de que haveriam mais armas desse tipo em poder de Assad, que inclusive poderiam ser descarregadas não só contra os rebeldes, mas contra os inimigos da Síria, e coloque-se aí Israel e EUA, ligou o sinal de alerta de Obama e das potências europeias. Agora, passado algum tempo, estamos prestes a ver uma intervenção americana no país.

Feita a exposição inicial da situação, proponho um processo de desconstrução do que ocorreu nas últimas semanas, colocando os excluídos sírios, até aqui invisíveis, no papel central da discussão. Por que a não ser que tenha ficado louco, nada do que acabei de dizer, embora realmente esteja ocorrendo, faz sentido. Há hoje, uma guerra que matou 100 mil pessoas, e Obama só agora propõe uma intervenção, se utilizando de um discurso moralista, do tipo: “as potências não podem se calar diante dessa tragédia.”

Como justificar que após 100 mil mortes omitidas, ou pelo menos “pouco impactantes”, mil e quatrocentas vidas sejam tão mais importantes? A ponto de fazer o presidente ficar tão inconformado e buscar justificar um ataque à Síria. Seria necessária um grande poder de discurso, de persuasão. E para os EUA é o que não falta.

Obama é astuto, ele conhece os caminhos da compaixão humana. Ele fala em 1400 mortos e logo acrescenta, “boa parte crianças”. E afirmo que no dia em que as análises de discursos políticos não se limitarem ao que foi dito, mas também ao que foi omitido, o tom moralista e heroico de Obama após os ataques químicos tem muito a dizer sobre por que ocorrem atrocidades que passam batidas, como guerras e  o tráfico de pessoas. E agora explico.

Quando Obama fala em mortes de civis, e em sua maioria crianças, ele faz um contraponto entre os milhares de mortos em guerra. Primeiro, por que na guerra existe um “lado mal”, e para esse lado a morte não deve ser lamentada. Segundo, que há a ideia de que os que morreram pelo lado correto, se sacrificaram pela “guerra justa”. Por último, uma constatação: a maioria dos que morreram em combate são homens adultos. “Soldados”. Menos valorosos que crianças.

E por que eu digo que são homens adultos? Primeiro, por que a Síria é um dos países mais machistas do mundo. Logo, a mulher está pouco representada no espaço público, ainda mais durante guerras. Segundo e mais conclusivo, digo isso por ter lido alguns dados, que dão conta de uma migração de mais de 2 milhões de refugiados sírios, em sua maioria mulheres e crianças.

Se a necessidade da guerra justifica a morte de milhares de “soldados” dentro da Síria, a falta de importância dos refugiados justifica a omissão dada a esse problema. São milhões de crianças, e logo muitas delas serão traficadas, ou utilizadas em trabalhos desumanos. Milhares de mulheres que começam a sofrer a mesma ameaça. O tráfico de pessoas e a prostituição forçada dependem e sempre foram muito eficazes em recrutar esse mar de refugiados que se forma a cada conflito. É assim no mundo todo, será assim na Síria.

Voltando ao discurso de Obama, o ouvimos dizer que “nós (EUA) faremos uma intervenção na Síria, por que é inconcebível que um país descumpra um tratado internacional”. Pelo que sei, Obama não é professor de política internacional, muito menos de sociologia. O público dele não é uma sala de estudiosos, mas sim o cidadão americano. Quando ele direciona o discurso para estes, ele não pode justificar suas ações lendo bulas, mas exercendo uma argumentação que alimente o senso de justiça da população. Que legitime o ataque por esse ser algo correto a se fazer, e apenas isso.

Mas não. Obama usa somente um discurso legalista para justificar a invasão. Mais e ainda pior: ele dá importância a um fato sobre os outros. Obama está praticamente dizendo que “o que justifica a nossa intervenção é o uso de armas químicas”. Em outro ponto ele traz para mais próximo a ameaça dessas armas, dizendo que elas “põe em perigo os EUA e toda a comunidade internacional”. Fala completa, cidadão convencido ou não, há um outro discurso: o do silêncio.

Nele, Obama está dizendo: “armas químicas são perigosas, inclusive para nós. Queremos a queda do ditador e para isso financiamos os rebeldes. As 100 mil mortes até aqui dessa guerra não foram suficientes para realçar nossa compaixão, ou mudar nossa política. Os milhões de refugiados, que logo morrerão, ou pior, se tornarão escravos, sexuais ou não, não tem tanta importância. Por isso atacaremos, mesmo que o ataque piore ainda mais todo o cenário para a população comum”. E governos e homens como Obama não se importam mesmo. Para diminuir o peso da crítica que faço sobre eles, afirmo que sei que não são os únicos omissos. São parte da maioria.

Por isso mesmo essa semana discutiremos novamente a intervenção ou a votação do Congresso americano. Será tema principal até o poder de destruição das possíveis bombas, como funcionam, como são construídas. E no mesmo momento estarão passando pelas fronteiras milhares de mulheres, que logo serão exploradas graças a esse cenário de desgraça. Inclusive pelo tráfico internacional de mulheres. Quem sabe algumas delas até nos clubes de Miami, bem próximas a Obama. Algo terrível. Mas que de forma impressionante sempre permanece como problema de última prioridade.

Alguns podem dizer que meu texto é utópico. Afinal como Obama poderia ser responsabilizado por essa situação, ou mesmo como lutaria para terminar com um problema mundial tão complexo? Eu também faço esse tipo de pergunta, mas para uma outra situação: como uma intervenção de Obama poderia trazer democracia e paz na Síria? Essas ideias já passaram por Iraque e Afeganistão.  Em todos os casos, a “democracia” cobrou mais vidas do que deveria. O presidente dos EUA “acredita” que pode levar soluções a conflitos, mas não move um dedo para para discutir a situação de refugiados, os milhares de mortos de uma guerra em que ele é um dos financiadores, ou o florescimento do tráfico de pessoas, que ficará ainda mais forte com essa nova “leva” de refugiados sírios.

Agora, uma questão pessoal. Quantas armas químicas são necessárias para igualar o caminho de dor e desilusão causada pela bomba formada por guerras, milhões de refugiados e o sistema internacional de tráfico de pessoas?  Mas aparentemente esse problema segue fora de pauta, por vezes relembrado aqui e ali, esporadicamente. Retratos obscuros da marcha dos crimes contra seres humanos pouco valorizados, refugiados, traficados, entre outros. Seres humanos invisíveis.


Categorias: Assistência Humanitária, Conflitos, Direitos Humanos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica