Escravidão moderna

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Fonte: BBC.CO.UK

Fonte: BBC.CO.UK

O Brasil tem, hoje, aproximadamente 155 mil pessoas vivendo em condições de trabalho escravo. No mundo a estimativa é de cerca de 35 milhões de homens, mulheres e crianças, meio por cento da população global, que se encontram na mesma situação. Esses dados foram divulgados pela organização não governamental (ONG) “Walk Free Foundation” em seu “2014 Global Slavery Index”.

Por “escravidão moderna” entende-se o envolvimento de uma pessoa que controla ou possui outra tendo como resultado a privação da liberdade desta última. Trabalho forçado, exploração sexual, tráfico de órgãos e servidão absoluta são alguns dos exemplos práticos que entraram nos resultados em questão. De mais notório, a pesquisa chegou a dois resultados principais. Em primeiro lugar, pelo fato da mesma ter uma metodologia mais específica e apropriada, viu-se que a escravidão moderna em 2014 aumentou em relação ao ano passado. E, em segundo, constatou-se positivamente na maioria dos países, dentre os 167 analisados, a existência de leis e regras específicas no combate à escravidão. Todavia, suas implementações permanecem escassas e fracas.

Em torno de 60% da escravidão moderna está situada em cinco países: Índia, China, Rússia, Paquistão e Uzbequistão. Mauritânia, na África, lidera o ranking com sua “escravatura hereditária” de 4% do total da população. Na América, o Haiti é o país com o pior número e o México é o que apresenta o maior índice absoluto de escravos com aproximadamente 267 mil pessoas exploradas. Do lado oposto está o continente europeu como um todo, representando somente 1,6% dos 35 milhões de escravos modernos.

 

Mapa da Escravidão Moderna de 2014 (Fonte: Walk Free Foundation)

Mapa da Escravidão Moderna de 2014 (Fonte: Walk Free Foundation)

 

Especificamente sobre o Brasil, nosso país melhorou em relação ao ano passado, tendo saído da 94ª para a 143ª posição na escala da pesquisa. A ONG ainda deu destaque para políticas nacionais como a PEC do Trabalho Escravo e o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. Em contrapartida, afirmou que ainda é baixa a identificação de vítimas decorrentes de abuso sexual no território nacional.

Interessante notar que houve uma proporcionalidade direta entre instabilidade política de determinados Estados e a vulnerabilidade da população para com a escravidão moderna. Obviamente, conflitos civis e/ou guerras religiosas enfraquecem a perenidade de leis domésticas, cujos objetivos centrais, no caso aqui retratado, são garantir a liberdade individual. O Brasil melhorou, a Europa mantém a dianteira, mas a discrepância permanece e, cada dia mais, será necessário o trabalho de interdependência entre os atores governamentais e não governamentais. E é aqui que se deve destacar o trabalho da “Walk Free Foundation”.

PS: Para ter acesso direto ao “The Global Slavery Index 2014”, clique aqui.


Categorias: Assistência Humanitária, Brasil, Conflitos


Sobre muros e pontes

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Berlim

“A humanidade precisa de pontes, não de muros”. Com base nas sábias palavras do Papa Francisco proferidas ontem, a reflexão sobre os 25 anos que se celebram desde a queda do muro de Berlim se reveste dos traços históricos para pensar o futuro.

Construído em 1961, o arame farpado se converteu em concreto e deu origem a uma dura segmentação de Berlim no pós-Segunda Guerra Mundial, controlada por Estados Unidos e aliados em contraposição à União Soviética. Com as constantes fugas do lado oriental ao lado ocidental, a divisão foi imposta de modo a criar um cerco e impedir o acesso, interna e externamente, ao lado ocidental.

Há 25 anos, caía por terra (literalmente) o principal marco ideológico da história recente no período da Guerra Fria: o Muro de Berlim, que dividiu durante décadas a capital alemã em duas partes, sendo o lado oriental comunista e o lado ocidental capitalista.

Nas celebrações de ontem no centro de Berlim, mais de dois milhões de pessoas participaram da festa pela queda do muro, ocorrida no dia 9 de novembro de 1989. Apesar da inexistência, a partir de então, de um muro físico, apenas em 3 de outubro de 1990 caíram, de fato, os muros políticos, com a reunificação do país na República Federal da Alemanha.

Foram lançados ontem ao ar aproximados 8 mil balões (foto), os quais estavam localizados na antiga faixa do muro, posicionados na mesma altura do mesmo (3,6 metros). A dissolução dessa barreira imaginária, em ato simbólico de grande representatividade, nos leva a refletir sobre a história da Alemanha (e do mundo) durante o século XX, marcado por grandes avanços tecnológicos, mas também sangrentos conflitos. A “era dos extremos” de Hobsbawn viu as sociedades, por diversas vezes, se dividirem e se reunificarem, lutarem e se reconciliarem…

Se de fato entendermos que o mundo não precisa de muros, mas sim de pontes – ou seja, de vias pelas quais as partes se encontrem para buscar o diálogo – veremos que vários dos embates atuais, não mais revestidos com o pano de fundo da Guerra Fria (pelo menos em teoria), poderiam vislumbrar soluções.

A celebração da importância da queda do Muro de Berlim não deve, portanto, se restringir ao povo alemão, mas sim inspirar o mundo inteiro que, com seus muros (visíveis ou não), ainda é palco de tantos conflitos cuja resolução depende, em grande medida, de vontade política.


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Aniversariante da semana

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ONU

24 de outubro de 1945 é o dia oficial de nascimento da Organização das Nações Unidas (ONU) e, portanto, na última sexta-feira celebramos seu 69º aniversário. Isto significa que há quase 70 anos entrou em vigor a Carta da ONU, em que “os povos das Nações Unidas” declaram seus compromissos diante dos princípios, da estrutura e dos objetivos da organização.

Ban Ki-moon iniciou sua mensagem oficial esse ano dizendo que a ONU é mais necessária que nunca no momento atual. De fato, em tempos tão críticos em que o mundo se defronta com desafios que vão desde uma assustadora epidemia de Ebola até históricos conflitos políticos como Gaza, uma estrutura que favoreça o diálogo internacional e impulsione esforços multilaterais se faz imprescindível.

Entretanto, nem tudo são flores e a teoria da luta por esforços compartilhados se distancia da prática de defesa de interesses individuais que tende a prevalecer. Inegável sendo que o papel da ONU é extremamente importante, imprescindível é reconhecer a necessidade de reforma de sua estrutura.

O tradicional Conselho de Segurança com o poder de veto – e, portanto, de determinação da agenda propositiva – restrito a Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido nos faz acreditar que não estamos em 2014, e sim em 1945…

Celebrar é importante e a existência da ONU foi determinante nas últimas décadas para o delineamento das pautas e decisões multilaterais entre os seus 193 países-membros. A comunidade internacional, nos mais variados espaços onusianos destinados a temas políticos, econômicos, sociais, ambientais, etc., pode se posicionar e debater os assuntos que, cada dia mais, se tornam transfronteiriços.

Às vésperas do ano em que celebraremos seu 70º aniversário, contudo, vale a reflexão sobre como tornar essa estrutura única mais eficiente e menos demagógica, alcançando na prática o seu propósito essencial de garantir a paz e a segurança internacionais


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Levando na conversa

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Com toda a crise do ISIS e a formação da coalizão dos EUA e amigos no Oriente Médio, um assunto que tem passado ao largo do noticiário internacional é a crise do programa nucelar iraniano. Para quem não lembra, é a grande crise geopolítica da região, mais ainda que a questão palestino-israelense, e envolve o delicado balanço de poder da região. Até a eclosão das revoltas da Primavera Árabe, era o grande tema da política norte-americana na região, e não deixa de ser – mas enfrenta complicações justamente por causa dos efeitos das revoltas, e a aproximação da data-limite para sair um acordo.

Como está a situação atual? O Iraque (antigo inimigo do Irã) tem agora um governo pró-Teerã, e enfrenta problemas com o ISIS juntamente dos curdos e com apoio dos EUA. A Síria está dividida em três, com o governo Assad (amigo do Irã), o ISIS (inimigo de todo mundo) e as forças de oposição espalhadas (que deveriam ter apoio ocidental mas estão à míngua). O Irã tem uma aproximação tímida com os EUA após a eleição de Hassan Rohani, mas ainda é tecnicamente um inimigo pelo apoio a Assad, oposição a Israel, entre outros.

Como o acordo do programa nucelar afeta isso? A negociação, envolvendo os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, além da Alemanha, busca frear o programa nucelar iraniano oferecendo a contrapartida de retirar algumas das sanções aplicadas ao país por conta do mesmo. Seria a chance perfeita de barganhar um auxílio contra o ISIS – como diz a máxima realista, o inimigo do meu inimigo pode ser meu amigo. O problema é que existe muita desconfiança, especialmente nos EUA (onde até tem quem deseje que a coisa azede). O lobby israelense é forte e qualquer aproximação de Teerã seria malvista. Talvez a coisa funcione indiretamente – por meio, por exemplo, da Turquia, que está cada vez mais ativa na questão do ISIS e poderia fazer essa “intermediação” entre os lados. Trazendo o Irã, indiretamente a Síria estaria envolvida nessa coordenação. Um front unido contra o ISIS é irreal, mas a coordenação é possível, e um dos indicativos (ou, mais ainda, fundamentos) para isso seria a confiança resultante de um eventual sucesso nas negociações do programa nuclear.

De fato, o que temos é uma discussão cercada de mistério e, apesar das possibilidades, com um indicador de fracasso rondando as negociações. Caso isso aconteça, além da possibilidade de mais sanções serem aplicadas, perder-se-ia uma chance de ouro de formar uma aliança eficaz para os envolvidos enfrentarem uma das maiores complicações geopolíticas da história recente.

 


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As boas armas

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Demorou, mas com um ano de atraso, Malala Yusafzai, junto do ativista Kailash Satyarthi, ganhou o prêmio Nobel da Paz. A menina paquistanesa que levou um tiro na cabeça por defender a educação para crianças, especialmente meninas, foi agraciada junto ao indiano por seu trabalho contra o trabalho infantil há mais de 20 anos. Já havíamos comentado como essa premiação tem muitas vezes um caráter mais político (como no ano passado, em que Malala era cotada como favorita mas o prêmio foi para a organização de regulação de armas químicas pela atuação com a ONU na crise do momento, na Síria). E quando pensamos que a honraria já foi concedida recentemente a Obama e à União Europeia, cabe aquela reflexão sobre o que anda acontecendo no Oriente Médio – as premiações e os envolvidos podem não parecer mas tem muito em comum.

Malala e Styarthi são defensores de direitos fundamentais. Direitos que tanto Estados agressores como a Síria quanto invasores como os EUA e as forças insurgentes costumam desrespeitar. O caso do ISIS/Estado Islâmico é o mais emblemático – estabelecendo um “califado” nas regiões entre Iraque e Síria, persegue causa a fuga de curdos, cristãos e outras minorias. O desrespeito ao gênero é ainda mais gritante, com casos de casamentos forçados e outros ultrajes.

E chegamos ao segundo ponto – aqueles que ganharam o prêmio antes, como Obama e a UE, são tanto causa do problema como aprofundadores do mesmo. Ninguém pode negar que a ação desastrada dos EUA na última década forneceu o espaço inédito para que esses grupos se desenvolvessem na terra sem lei pós-Saddam Hussein. E hoje, com campanhas de ataques de drones, bombardeios cirúrgicos e intervenções “limpas” que deixam o trabalho sujo nas mãos ensanguentadas dos locais, reforçam a tese de que a preocupação não é resolver o problema, mas mostrar que estão fazendo algo. Novamente, as intervenções militares (pra não dizer invasões) a Iraque e Afeganistão comprovaram que apenas o componente militar não é suficiente para resolver questões de governança e estabilidade. Tampouco com a entrada de empreiteiras texanas.

É necessário educação, condições de moradia, oportunidades somadas à ajuda humanitária. E isso os países ocidentais não se sentem dispostos a fazer. Nunca estiveram – vejam o caso da crise de ebola na África, em que foi necessária a explosão da epidemia e infecção de pessoas na Europa e nos EUA para que ajuda mais maciça fosse enviada. O discurso soa eleitoreiro (especialmente no mês atual para nós), mas em sua simplicidade, como ao informar que a melhor arma contra o terrorismo é a educação, Malala e Satyarthi demonstram ser campeões entre os gigantes da política internacional e que compreendem com muito mais profundidade os problemas tão simples mas de solução tão complexa.


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Um ideal para lutar?

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1out2014

Uma das notícias mais inusitadas da semana foi a revelação de que um ativista preso em São Paulo durante os protestos da época da Copa do Mundo está hoje lutando ao lado dos rebeldes separatistas ucranianos. Assim como a notícia do ex-soldado norte-americano que se juntou aos curdos na luta contra o ISIS, são comuns as notícias de pessoas que largam tudo para se juntar a alguma causa – e explicam muito das dificuldades encontradas pelos Estados nos conflitos atuais.

Até o final da Idade Média e começo da Moderna, a regra era que Estados contratassem mercenários. Não no sentido negativo que o termo tem hoje, mas como pessoas que escolhiam um ofício bem específico, o de lutar para quem os contratasse. E era um serviço muito bem feito, como atestam os famosos mercenários suíços que pintam em quase todas as guerras do período. Com isso a população civil nem precisava se preocupar com os combates (a não ser que chegasse ao seu quintal…). Isso muda com a consolidação do Estado Moderno, que entre suas características inclui a formação de exércitos regulares, sob controle do rei (afinal, não parecia ser a melhor das ideias que estrangeiros ficassem a cargo da proteção do país) e a conscrição de soldados a partir da população civil. Acima de um dever profissional, o cidadão deveria ir ao combate por razões mais vagas, como o sentimento de dever ou o nacionalismo – ou apenas por pura obrigação para não ir preso. Isso vale para os conflitos que assolam o mundo até hoje, e como o cidadão comum geralmente não tem muito interesse em morrer pelo país (apesar das muitas exceções), é necessário que haja uma atuação pesada em termos de propaganda e alistamento (como nos EUA) para que essa atividade se mantenha. Os benefícios ofertados para o soldado de hoje tem de ser muito mais que um salário (como bolsas estudantis e plano de saúde) para que se arrisquem desse modo.

Então o que acontece com as pessoas que largam tudo para se juntar a uma causa, muitas vezes suicida, em outra parte do mundo? É irônico constatar que, enquanto noções vagas e até mesmo construídas como o nacionalismo era usadas como justificativa para a conscrição, boa parte desses viajantes o faz justamente por razões de identidade e comunidade. Talvez a primeira grande manifestação disso seja lá nos anos 30, durante a Guerra Civil espanhola, mas pense hoje nos americanos e ingleses que se unem à luta na Síria ou ao ISIS – fora o laço da religião não existe nada que os obrigue a isso. Mas o mundo contemporâneo possibilita a formação de redes de informação que facilitam a troca de informações e ideias, aproximando pessoas com experiências semelhantes em círculos de convivência atrativos e à revelia da noção de identidade nacional. E como pessoas sem nada a perder, dispostas voluntariamente a combater por sua causa, lutam de maneira acirrada, por vezes indo além do que se espera da disciplina militar regular e recorrendo à guerrilha e ao terrorismo.

Tal é o desafio das guerras do século XXI. Na ausência de conflitos entre democracias, os mercenários de ontem não encontram reflexo nos combatentes de hoje. O que se opõe via de regra são exércitos regulares embasados em um modelo tradicional (mas custoso para que se mantenha funcionando), contra indivíduos dispostos às últimas consequências para defender um ideal – ou mesmo a luta destes entre si.


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O abacaxi ucraniano

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A quantas anda a Ucrânia? Talvez a palavra-chave seja insatisfação, que está aparecendo por todos os lados.

Semana passada um cessar-fogo iniciado no dia 5 tem tido sucesso (leia-se – respeitado por quase todos) em evitar as mortes que pipocavam diariamente em confrontos entre forças ucranianas e separatistas. Mas nem tanto – confrontos isolados levaram a pelo menos seis mortes que abalam o tênue acordo. Como se vê no caso de Israel e Palestina, sempre há aqueles mais beligerantes dispostos a arruinar o esforço de entendimento.

Enquanto isso, o parlamento da Ucrânia tenta resolver o impasse agradando a todos – na terça ratificou o famigerado acordo de comércio com a Europa e concedeu status especial às regiões em distúrbio. Basicamente, concede um grau mínimo de autonomia a essas localidades por três anos e possibilitando que façam eleições além de anistiar os combatentes (exceto aqueles envolvidos na derrubada do avião de passageiros da Malaysian Airlines) e atender a maior parte das reivindicações sem que os separatistas precisem largar Kiev pra trás. Na ideia, reivindicações de todos os lados são atendidas. Na prática, é praticamente a aceitação de que estão prestes a perder nacos de seu território (tendo sido aceito com relutância pelo presidente Poroshenko), enquanto o acordo com a União Europeia, visto como um passo necessário ao ingresso no clube europeu, irrita tanto os líderes separatistas quanto Moscou.

Por fim, nesta semana entraram em vigor as mais novas sanções da UE, EUA e Canadá contra a Rússia, reflexo direto da crise na Ucrânia. São mais diretas pois afetaram não apenas o acesso a mercados financeiros, mas também o setor petrolífero e empresas estatais russas. Desnecessário dizer quem fica insatisfeito nessa história, mas a Rússia o faz com classe – o presidente Putin afirma que é um esforço ineficaz e que pode até mesmo ajudar a Rússia em longo prazo, enquanto quer levar os países ocidentais à OMC por essa “injustiça” comercial. No fim das contas o efeito colateral é um rejuvenescimento da OTAN e, apesar do conflito ser uma possibilidade remota (pra não dizer impossível), a aproximação que se desenhava entre Rússia e EUA nos últimos 20 anos parece ser coisa do passado.

O centro de tudo, é claro, é quem mais sofre. A Ucrânia sofre o risco de fragmentação, instabilidade interna constante ao longo do ano e consequências econômicas nocivas. A depender do resultado do plebiscito na Escócia, os grupos separatistas podem ganhar ainda mais força. Mas sempre fica a lição de que, no mundo atual e interdependente, as consequências vão muito além das suas fronteiras. Pelo menos eles ainda têm a amizade inabalável do grande Canadá.


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Para o tudo ou nada

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Obama.Guilty

Ontem, completaram-se 13 anos dos ataques terroristas do 11 de setembro. Enquanto homenagens eram feitas às vítimas em Nova Iorque e Washington, onde os ataques são uma memória triste, em outras partes do mundo aquele dia continua a afetar diretamente a vida de milhões de pessoas, da instabilidade interminável do Afeganistão à insurreição do ISIS/Estado Islâmico da Síria e Iraque. Por isso se tornou tão simbólico que o presidente Obama tenha anunciado anteontem em discurso uma nova “guerra ao terror” ao grupo que anda chocando o mundo com sua intolerância e violência.

O que podemos tirar disso tudo? Pelo menos três coisas.

Primeiro, o que diabos os EUA ainda estão fazendo por lá? Apesar do apoio internacional, o grosso da operação será feito por eles.  Uma década inteira de intervenção no Iraque e no Afeganistão demonstraram por A mais B que uma invasão em larga escala não deve ter resultado sem que haja sacrifício enorme de vidas de todos os lados. Por isso o modo de operação está seguindo a ideia do que foi feito na Líbia, de maneira “limpa”, com ataques aéreos, sem envolvimento direto de tropas, além de apoio logístico e financeiro a seus “aliados”. Claro que no caso da Líbia o resultado não foi nada melhor (ou até poderíamos dizer que foi pior, com o vácuo de poder que literalmente divide o país hoje). O uso de drones também está em pauta, apesar de serem armas que matam mais civis que os alvos desejados. Ou seja, nada de novo com relação à parte operacional.

Segundo, qual a motivação? No discurso, Obama afirma que o ISIS é uma organização terrorista e tem meios para se tornar uma ameaça a cidadãos norte-americanos no futuro, por isso os ataques. A tal ideia do ataque preventivo de Bush filho, agora em uma versão de menor escala. Nem vamos entrar na discussão sobre o funcionamento da ONU e todas as legalidades (ou não) envolvidas. Como já comentai anteriormente, a ação dos EUA, desastrada, é a causa de boa parte dos problemas atuais daquela região ao ter rompido o delicado equilíbrio tripolar entre Irã, Iraque e Arábia Saudita. Desse modo, a terra sem lei do Iraque se tornou um oásis para os grupos extremistas (que antes não existiam por lá) e virou o berço do ISIS. No mínimo, portanto, qualquer ação os EUA deveria ser com vistas a limpar a sujeira que eles próprios fizeram – mas aparentemente o resultado será ainda mais complicações caso o plano não dê resultados e o ISIS não venha a ser derrotado definitivamente.

Por fim, chegamos ao terceiro ponto: quais as implicações regionais? Por que dos interesses envolvidos, os EUA se encontram em uma situação embaraçosa. Na Síria, a guerra civil já é tripartite – Assad contra frente Nusrah (vulga Al Quaeda) e agora o ISIS, todo matando uns aos outros. Agindo contra o ISIS, os EUA deveriam tomar parte de um dos lados, mesmo que indiretamente, mas seus aliados moderados agora são inexpressivos e fica entre a opção menos pior, o violador de direitos humanos, ou o grupo que orquestrou o 11 de setembro. É desnecessário indicar qual seja a melhor opção para Washington. E no Iraque, onde a ofensiva tem mais chances de dar certo, pode acabar tendo que trabalhar junto do Irã, o que em longo prazo seria ótimo para todos os lados mas vai de encontro a mais de 30 anos de retórica de inimizade entre os países.

No fim das contas, essa opção pela ofensiva parece muito mais uma manobra política para aproveitar a data e responder à opinião pública indignada pelos degolamentos do ISIS (apesar de pouco ligar para o que acontece no México, ali do lado, onde tanta gente ou mais é decapitada pelo narcotráfico). O histórico nada favorável das intervenções norte-americanas no Oriente Médio somado aos embaraços diplomáticos que pode causar parecem fazer dessa operação mera bravata para aproveitar a data de triste memória.


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O cálculo da intolerância

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O HOMEM q calculava

Um dos meus livros favoritos até hoje é “O homem que calculava”. Escrito nos anos 30 pelo professor Júlio César de Mello e Souza, mais famoso como Malba Tahan, narra as aventuras do bom e justo Beremiz Samir resolvendo problemas com sua prodigiosa habilidade com números. Mais do que ajudar a despertar o amor pela matemática recreativa, o livro também mostra um pouco do ambiente do Oriente Médio antigo, inclusive com figuras históricas reais. Apesar de no final o protagonista muçulmano se converter ao cristianismo (literalmente no último parágrafo, o que ficou meio estranho para dizer a verdade), a mensagem que transparece é de tolerância, e apesar do contorno fantasioso, é sabido que o grau de aceitação de outras culturas em certas regiões do Oriente Médio sempre foi muito alto. Basta ver como traços de diferentes culturas e ciências foram legados pelos povos de lá. O próprio Líbano, a despeito de anos de guerra civil nos anos 80, é um dos países mais cosmopolitas do mundo hoje.

A razão de ter feito essa introdução é para, mais uma vez, comentar sobre a violência insensata no Oriente Médio. Enquanto podemos dizer que na Síria se pratica uma guerra contra a humanidade, já que todos os lados cometem violações humanitárias, no Iraque o aumento da violência do grupo Estado Islâmico é aterradora, com imagens de decapitações e a noticia de pessoas do mundo todo largando suas vidas para se juntar a essa causa extrema causando comoção internacional. E a razão, em boa parte, é a intolerância.

Não devemos dizer que a região sempre foi um mar de rosas, mas geralmente a culpa dos problemas recai sobre os países ocidentais, das Cruzadas à desastrada divisão política da região entre as potências no período entre guerras. O mesmo vale para hoje. Os EUA tem sua culpa em pelo menos 3 dos conflitos violentos de agora (dando costas quentes a Israel no caso da faixa de Gaza, sendo os culpados pela falência do Iraque que deu força ao ISIS no país, e armando os rebeldes sírios que por sua vez estão ligados aos grupos radicais anti-americanos). O descontrole que toma os beligerantes é impulsionado pela ação externa, e o resultado é a violência. Mas é incrível perceber o contraste. A base do conflito entre Israel e palestinos é a não aceitação da existência do outro lado por algumas lideranças. O conflito sectário da Síria tem como resultado a perseguição a minorias como os alauítas, protegidos de Assad. E o ISIS, que quer restabelecer os califados da época do livro, parece se esquecer da parte em que aceitavam a presença de estrangeiros e outras religiões enquanto pratica atos de selvageria que literalmente os isolam da opinião pública internacional.

Infelizmente, não é algo exclusivo dessa região. Intolerância é algo que parece próprio do ser humano, e não precisamos ir longe para ver seus matizes mais variados em aspectos como a vida política (basta acompanhar a irracionalidade de alguns argumentos no debate eleitoral desse ano) ou até mesmo as brigas entre torcidas de futebol. A violência do ISIS, apesar de lamentável, nem é inédita na história da humanidade (apesar de fazer com que regridamos a tempos bem mais infelizes).

Porém, a grande ironia é ver como este ponto nodal do planeta, onde tantas culturas interagem há milênios, e que poderia ser (como já foi) um ponto de entendimento e verdadeira comunidade internacional, hoje é um barril de pólvora banhado a sangue. Aqui mais uma vez o livro de Malba Tahan é ilustrativo – a história se encerra relatando a invasão mongol de Bagdá, justamente o evento que desarticulou por séculos a política regional e, de certo modo, foi o começo dessa espiral de violência identitária.


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100 anos depois: visões da guerra

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Cartão postal russo de 1915 simbolizando a participação dos países europeus na IGM

Cartão postal russo de 1915 simbolizando a participação dos países europeus na IGM

O legado empírico e teórico para as Relações Internacionais

A Grande Guerra, mais conhecida como Primeira Guerra Mundial (IGM), começou o período bélico do século XX, ou seja, iniciou a sequência do que viriam a ser longos anos e décadas de conflito direto ou indireto entre potências de determinadas conjunturas. Obviamente, tratam-se da Segunda Guerra Mundial (IIGM) ocorrida entre 1939 e 1945 e da Guerra Fria, a qual terminou por volta de 1990, quando, em 1989, caiu o famoso Muro de Berlim e, em 1991, finalmente ruiu o Império Soviético. Se, por esse lado, houve mais destruição territorial e desmoronamento de Estados-nações, por outro as Relações Internacionais, com letras maiúsculas, vieram a conhecer seu período de existência, propriamente dito. Momentos nos quais essa área tomou corpo como ciência e trouxe consigo os grandes debates internacionalistas. Pode-se dizer, de outro modo, que da IGM o movimento empírico trágico dos conflitos sustentou o curso expressivo teórico dessa arena mundial.

Por conseguinte, o legado empírico da IGM foi ter conformado o futuro das relações econômicas e geopolíticas entre as principais potências. O pontapé da IGM foi o assassinato do Arquiduque austríaco Francisco Ferdinando, fazendo com que a Áustria-Hungria declarasse guerra à Sérvia. Formaram-se, de lados totalmente opostos, a Tríplice Entente (Reino Unido, França e Império Russo) e a Tríplice Aliança (Império Alemão, Áustria-Hungria e Itália).

Até aqui, nada de novo na “Guerra das Trincheiras”. Entretanto, somente em 1917 os Estados Unidos entraram no conflito ao lado da Entente. Isso, inclusive, vai ser um traço característico do país: adentrar os conflitos em momentos posteriores ao seu início e sempre ter como palco territórios para além mar. Como se sabe, a Aliança foi a grande derrotada da IGM, quando, em 1918, fora assinado o Armistício de Compiègne e, em 1919, tomou forma o muito conhecido Tratado de Versalhes. Na teoria, o acordo simbolizou a “estabilidade e paz futura” nas relações intereuropeias. Todavia, na prática, proveu a culpa por todas as mazelas da guerra à Alemanha, a qual saiu derrotada e fracassada das mesas de negociação.

Adolf Hitler

Adolf Hitler

Já no final da IGM e logo após a mesma, essa postulação de vitoriosos e derrotados trouxe consigo a propagação de duas ideologias que marcaram fortemente a IIGM e a Guerra Fria, quais sejam o Nazifascismo e o Socialismo tendo como lideranças a própria Alemanha (acompanhada da Itália) e a Rússia, respectivamente. Tem-se, aqui, logo no começo do século XX, a faísca das relações interestatais procedentes. O Nazismo tornou-se ponto de apoio alemão, fez surgir lideranças como Adolf Hitler que invadiu a Polônia em setembro de 1939 e começou a IIGM. Por sua vez, o Socialismo Russo ganhou devotos e serviu de base para a criação da União Soviética, que mais tarde viria a ser um dos lados da balança no conflito frio.

A marca da Guerra Fria: o bipolarismo entre Estados Unidos e União Soviética

A marca da Guerra Fria: a bipolaridade entre Estados Unidos e União Soviética

A Alemanha também perdeu a Segunda Grande Guerra, a Europa ficou devastada e estatísticas somam aproximadamente 60 milhões de mortos nos seis anos de pleito. A Organização das Nações Unidas (ONU) surgiu logo após, em 1948, como outra tentativa de se estabilizar a paz internacional. Mas, de caráter central, da IIGM tornaram-se potências os Estados Unidos e a União Soviética, os quais duelaram, mesmo que indiretamente, na conhecida Guerra Fria. Episódios como a Crise dos Mísseis de 1962 mostram a importância do conflito que terminou por volta de 1990, quando a União caiu e os Estados Unidos saíram vencedores. De lá pra cá, o mundo viu-se unipolar, multipolar e uni-multipolar. Em pleno século XXI, cogita-se uma possível queda estadunidense frente a uma elevação constante da China comandando iniciativas a exemplo dos BRICS. O debate é recente e ficará para o futuro próximo decidi-lo. A única certeza é a de que a atual conjuntura é fortemente impactada pela IGM.

De modo paralelo, mas convergente, o legado teórico da IGM foi ter provido a criação, propriamente dita, das Relações Internacionais enquanto área de conhecimento, campo de estudos e/ou ciência. Foi em 1919, mais precisamente na Universidade de Gales, no Reino Unido, que se criou a cadeira Woodrow Wilson de Relações Internacionais, tornando-se a primeira instituição mundial a adotar formalmente a disciplina acadêmica. Essa data, inclusive, abrange o período inicial do livro de Edward Carr intitulado “Vinte anos de crise – 1919-1939”, conhecida obra retratante da geração do Primeiro Debate Teórico das Relações Internacionais: Realismo versus Idealismo/Liberalismo.

Woodrow Wilson: ex-presidente estadunidense e símbolo do Idealismo, cujo nome foi dado à primeira cátedra de Relações Internacionais em 1919

Woodrow Wilson: ex-presidente estadunidense e símbolo do Idealismo, cujo nome foi dado à primeira cátedra de Relações Internacionais em 1919

A arguição de ambos os lados vai ter como ponto de fundamento justamente o que fora dito anteriormente, ou seja, a ótica da guerra e a busca plena e final de uma ordem de paz. Teóricos como Hans Morgenthau e Raymond Aron foram fortemente influenciados pela IGM, IIGM e Guerra Fria, fatos que comprovaram e deram sustentação às suas obras literárias. Se, de um lado, realistas se baseavam nas relações entre Estados e na anarquia internacional, de outros os liberais postulavam que um mundo melhor e mais pacífico deveria ser buscado.

Dessa primeira contenda proveio o Segundo Debate Teórico das Relações Internacionais com oposição entre Tradicionalismo versus Behaviorismo por volta da década de 1950. Aqui tomou forma uma querela metodológica no se pensar “Como fazer as Relações Internacionais?”. A explicação da realidade se opunha à compreensão da mesma e o novo “pensar científico” proveu as bases para o que veio a seguir. Em 1970/80, o Terceiro Debate Teórico das Relações Internacionais, o Neorealismo versus Neoliberalismo (Neo-Neo) surgiu contrapondo nomes como Kenneth Waltz e Robert Keohane. Obviamente, novas nuances surgiram aqui, mas a velha ótica do conflito e a busca por cooperação permaneceram da herança do primeiro debate pós-IGM.

Similarmente ao legado empírico da IGM para o atual século XXI, o teórico também se encontra em constante mutação e volubilidade. Já se postula a geração de um Quarto Debate Teórico das Relações Internacionais entre Positivismo versus Pós-Positivismo. É daqui que provêm teorias como Construtivismo, Teoria Crítica, Feminismo, Pós-Modernismo, etc. Se, como dito lá atrás, a China e os BRICS colocam reticências na conjuntura geopolítica mundial, pode-se afirmar o mesmo dessas novas concepções conceituais e teóricas, posto que elas também questionam os discursos dominantes anglo-saxões das Relações Internacionais.

Permanecem a dúvida e a incerteza para com as atuais conjunturas das relações internacionais, com letra minúscula, e das Relações Internacionais, com letra maiúscula. De todo modo, temos a confiança de que a IGM carrega consigo um imenso legado empírico e teórico para essas áreas. O jargão parece senso comum. Todavia, seria infundável afirmar que a Grande Guerra não deteve aspecto central nas relações internacionais. Todo esse jogo econômico e geopolítico do século XXI fundamenta-se lá atrás, entre 1914 e 1918, justamente no nascedouro da “ciência internacional”.


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