A rede e o outro

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Não é surpresa alguma que hackers simpatizantes ao Estado Islâmico tenham feito o que fizeram essa semana, tirando do ar por horas várias redes de televisão de um conglomerado francês. Antes de tudo, a linguagem da informática é eminentemente matemática, com sua lógica e condicionais, e todos sabem que os orientais são muito melhores nisso há alguns milênios. Por isso chamamos nossos algarismos de arábicos e se vê a quantidade de asiáticos no Vale do Silício. Mas o elemento importante aqui é a aparente contradição dos métodos com os objetivos do grupo.

Oras, o ISIS tem por meta restabelecer um califado à moda antiga na Síria e no Iraque. E portanto rejeita não apenas o modelo de funcionamento do Estado moderno, mas o próprio modo de vida ocidental. E para isso… usam boa parte da tecnologia que esse próprio modo de vida originou. Por mais que seja um desenvolvimento técnico, não teríamos a internet que conhecemos hoje sem a popularização do computador pessoal e da própria rede como um ambiente de negócios e lazer. Há uma certa dose de ironia nisso tudo.

Mas o mais interessante é que provavelmente o ataque não veio do ISIS. Ou pelo menos dos membros “oficiais”, que estão lutando contra curdos e peshmergas com rifles e facões no deserto. Como já discutimos no blog, a sociedade da informação atual propicia o surgimento dos simpatizantes a certas causas de maneira espontânea, e em qualquer lugar. Os terroristas do jornal e do mercado não eram sírios ou iraquianos, mas franceses, descolados da sua própria sociedade e atraídos para a forma de protesto mais radical contra sua condição.

Do mesmo modo, ainda nem é possível saber de onde vieram os ataques. É bem plausível que os hackers da TV5 sejam franceses, atacando do próprio território europeu em apoio a seus colegas islâmicos. O impacto vem em duas frentes, tanto pela repercussão do ataque, extremamente refinado e robusto, que deixou 200 países sem um canal francês, e ao mesmo tempo nos leva a refletir sobre a condição da sociedade contemporânea, que tanto é causa (em parte) do fenômeno terrorista quanto oferece os meios mais eficazes para que seja empreendido, da cooptação e recrutamento à execução dos atos.


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Post do Leitor

Post do leitor – Andrew Zanelato

[Confiram abaixo mais um ótimo texto do leitor Andrew Zanelato, estudante de Relações Internacionais da Universidade Católica de Santos, em que ele analisa as eleições parlamentares em Israel e seu impacto nas relações do país com a Palestina, relações tão históricas quanto complexas. A Página Internacional é um espaço aberto a contribuições de seus leitores, não deixem de participar! Basta enviar um e-mail com seu texto para [email protected] que retornaremos o contato. Boa leitura!]

Por que o Hamas é o maior aliado de Netanyahu? (E vice-versa)

Israel

Na terça-feira, 17 de março, ocorreram as esperadas eleições parlamentares em Israel. O atual premiê, Benjamin Netanyahu, do partido de direita Likud, se reelegeu e continuará no cargo que ocupa desde 2009. No entanto, foi surpreendente o resultado da União Sionista, grupo de centro-esquerda liderado pelo líder trabalhista Isaac Herzog, que chegou a liderar as pesquisas, mas terminou em segundo lugar.

Um dia antes da eleição, em uma última tentativa de ganhar mais apoio dos eleitores dos partidos de extrema-direita e religiosos (especialmente os ultra ortodoxos), Netanyahu declarou aquilo que já era evidente há anos (mesmo que depois tenha voltado atrás): que enquanto for Primeiro-Ministro não haverá Estado palestino. Para completar, ainda criticou os cidadãos árabes de Israel, que decidiram votar em massa em seus opositores, ofendendo assim 20% da população do país. Apesar de sua vitória e suas declarações terem sido lamentadas internacionalmente e internamente, inclusive de modo reservado pelo próprio governo americano, muitos judeus e apoiadores de Israel no mundo todo comemoraram, argumentando que Netanyahu é um líder forte e capaz de destruir os inimigos de Israel, como o Hamas. Na verdade, porém, não há nada melhor para o Hamas que o próprio Netanyahu.

Amos Oz, maior escritor de Israel e ativista pela paz, certa vez disse que o conflito na verdade não é entre israelenses e palestinos, mas entre radicais e moderados dos dois lados. Se analisarmos a fundo a questão, sem paixões, ideologias ou maniqueísmo, veremos que ele não poderia estar mais certo.

Primeiro, é necessário entender o que é o Hamas. Não se trata apenas de um grupo armado ou de terroristas, o Hamas é uma ideia, uma ideia de luta armada contra a ocupação israelense (ou mais que isso, pois sua carta de fundação defende a necessidade da destruição total de Israel de seu povo). A força do Hamas vem do apoio da população à sua ideia, pois ele se alimenta do ódio palestino contra Israel, e sem isso ele morre, como já quase aconteceu algumas vezes durante a década de 90. Não é possível destruir uma ideia usando força militar, pelo contrário, isso só a fortalece, especialmente neste caso, em que as ações militares contra Gaza e as mortes que causam só aumentam o ódio contra o Estado judeu e o apoio ao Hamas.

De fato, se observarmos os dados de pesquisas de opinião na Palestina, veremos que em abril de 2013, a maioria da população apoiava a resistência pacífica contra a ocupação, e o apoio ao Hamas estava bem baixo. Esse cenário ainda persistia um ano depois, em abril de 2014, pouco antes da Operação Borda Protetora, com a popularidade do Hamas muito baixa e o apoio às negociações pacíficas de Abbas com Israel muito alto. Entretanto, em agosto, um mês após a guerra e os 2.200 mortos em Gaza, o apoio ao Hamas e à luta armada estava nas alturas, mesmo que ele tenha caído um pouco em setembro, quando a poeira estava baixando. Ao mesmo tempo, enquanto Mahmoud Abbas, do Fatah, aparecia muito à frente de Ismail Haniyeh, do Hamas, nas pesquisas presidenciais anteriores à guerra, logo após Haniyeh surgiu ganhando disparado, e na última pesquisa, em janeiro desse ano, ainda aparece bem à frente de Abbas.

A outra ideia principal na Palestina é a defendida hoje pelo presidente da Autoridade Palestina, Abbas, e se trata de negociações e cooperação por um tratado de paz com Israel. As acusações feitas por Netanyahu, de não haver parceiros pela paz e de Abbas ter sabotado as negociações de Kerry são falsas (o próprio Netanyahu quem as sabotou), assim como as de que ele encoraje o terrorismo, já desmentidas inclusive pelo chefe do Shin Bet. Ações como a guerra de Gaza e as últimas declarações de Netanyahu só enfraquecem a ideia da possibilidade de negociação e de convivência pacífica, destruindo assim a popularidade de Abbas e ajudando o Hamas, que já declarou que espera que agora o Fatah desista de ideias pacifistas.

A única coisa que pode destruir uma ideia é outra ideia mais poderosa. Assim, o que poderia enfraquecer o Hamas seria um acordo de paz entre Israel e a Autoridade Palestina, que melhorasse as condições de vida dos moradores da Cisjordânia e assim mostrasse de forma prática que a convivência é mais benéfica que a destruição. Isso não é algo difícil de perceber. Por que então Netanyahu faz justamente o contrário?

Porque o mesmo ocorre em Israel. As guerras, os ataques, a sensação de um inimigo sempre à espreita, a visão de que todos os palestinos são terroristas fortalecem um líder agressivo como Netanyahu, e fortalecem os radicais israelenses, nos quais ele tem se apoiado cada vez mais. O isolamento ainda maior de Israel na comunidade internacional decorrente de suas declarações é outra coisa que fortalecerá os radicais, especialmente os mais nacionalistas. Assim, os radicais israelenses e palestinos são na verdade aliados informais, fortalecendo-se mutuamente para destruir qualquer chance de convivência pacífica, e enfraquecendo mutuamente os moderados dos dois lados.

Os resultados da União Sionista são surpreendentes porque os trabalhistas, do mesmo modo que grupos pacifistas como o Shalom Aksheva, estavam praticamente mortos na política do país. Uma vitória de Herzog teria sido muito benéfica para o processo de paz, uma vez que ele foi eleito líder do Partido Trabalhista focando em esforços de paz com os palestinos (enquanto sua adversária Shelly Yachimovich se focou em assuntos econômicos), e após sua eleição, um dos primeiros atos foi um encontro com Abbas.

Não há solução para o conflito Israel x Palestina que não seja a cooperação voluntária. Ações militares e “líderes fortes e corajosos” só aprofundam o problema, pois a coragem de que se precisa agora é a de dialogar com o vizinho. Se seguir nesse caminho, Israel acabará sem nenhum aliado. Netanyahu e a extrema-direita são ainda mais prejudiciais aos israelenses que aos próprios palestinos, assim como o Hamas é mais prejudicial aos palestinos que os próprios israelenses, e no fundo, ambos são a mesma coisa…


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A arte na guerra

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Chamou a atenção nessa semana a destruição de artefatos assírios no Iraque pelo grupo Estado Islâmico, em vídeos divulgados pela internet. Não tem como não lembrar de um caso semelhante (e um pouco mais explosivo) quando o Taleban dinamitou estátuas gigantes de Buda em Bamiyan, no Afeganistão em 2001. O ultraje da comunidade internacional pelo ocorrido, com a depredação de peças históricas de valor incalculável para a arqueologia fez inclusive que a Unesco pedisse uma reunião extraordinária no CS da ONU para buscar uma solução para a crise iraquiana (que desde a derrubada de Saddam Hussein vê inúmeros artefatos do berço da civilização desaparecerem de museus, destruídos ou pilhados para coleções particulares).

O nome desse fenômeno é iconoclastia, originalmente de acepção religiosa que basicamente significa a rejeição ao culto a imagens, dentro ou fora de seu “conjunto” cultural. E a versão mais conhecida atualmente é a do islamismo, que rejeita inclusiva e representação gráfica de seu fundador. No contexto religioso tem um caráter de afirmação da fé, mas ao mesmo tempo se reveste de um caráter politico (como quase sempre acontece com a religião, de qualquer modo).

Não é novidade alguma. Alguns dos grandes eventos da história recente, especialmente os ligados a fins de conflitos ou quedas de regimes tem aquela imagem clássica de uma estátua sendo derrubada e destruição de arte e imagens ligadas ao regime anterior. Não sem razão – o significado cultural e discursivo desse tipo de imagem é muito forte, e por isso recorrente. Por exemplo, antes de os russos verem as estátuas Lenin indo ao chão nos anos 90, já em 1917 os revolucionários haviam feito o mesmo com imagens da família do Czar.

Talvez a chave aqui seja o interesse cultural. É sabido que os nazistas, entre suas conquistas territoriais, tomavam obras de arte clássicas das regiões conquistadas (especialmente de judeus…) e buscavam criar um museu gigantesco de cultura europeia (enquanto arte “degenerada” como a moderna era destruída impiedosamente). Boa parte das obras que compõem a enorme coleção egípcia do Louvre vieram da conquista napoleônica do país africano. Quando há o interesse, a arte é preservada – e por vezes até mesmo buscada. Então no fim tudo se resume a cultura?

Pode ser política. Quando o Taleban destruiu os Budas, além do teor religioso da implosão houve a explicação oficial de que se tratava de um protesto contra as políticas e fundações ocidentais que repassavam mais dinheiro para a conservação das estátuas que para a população faminta do país. O ISIS é um grupo fundamentalista que assusta até a Al Qaeda, então certamente a explicação iconoclasta cabe como uma luva, mas podemos pensar em algo mais? Há um perigo em identificar o grupo com a alcunha de “Estado” por ser um recurso discursivo para reforçar sua intenção de legitimidade no sistema internacional. Destruir artigos assírios, considerados os “pais” do povo iraquiano, mais que atentar contra ídolos, deixa claro um sentido de ruptura com a cultura iraquiana tradicional. Não há espaço no califado para aquilo que não seja, essencialmente, islâmico, e o objetivo é a diferenciação do “outro”.  A preocupação com a cultura e preservação histórica é legítima, mas a destruição desses itens está muito mais próxima das decapitações e imolações que o noticiário deixa transparecer…


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Um ano sem aniversário

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A Ucrânia está em guerra há um ano. No dia 20 de fevereiro de 2014, o massacre de ativistas na Praça da Independência em Kiev (com mais de 50 mortos) foi o estopim de uma reação em cadeia inesperada que resultou na secessão da Crimeia e coloca o país em rota de conflito com a gigante Rússia.

Como está a situação após um ano? Infelizmente, assim como outros conflitos recentes (Líbia, Síria, Nigéria…) o que chama muita atenção no começo começa a perder um pouco de apelo (e da atenção) quando os combates se tornam recorrentes. Há uma semana foi assinado um acordo de cessar-fogo entre o governo de Petro Poroshenko e os separatistas, mas nada impede os combates. Notícias do dia relatam uma destruição semelhante à da Segunda Guerra Mundial em cidades como Debaltseve. Como esperado, o governo Putin dá risada das sanções econômicas ocidentais, continua a ajudar os separatistas e preocupa os vizinhos. Velhas práticas da Guerra Fria, como invadir o espaço aéreo de países da OTAN com bombardeiros Tupolev “Bear”, mantidas nos últimos vinte anos como uma ocorrência incômoda, passam a ter um significado muito mais aterrador nesse último ano.

A situação na Ucrânia é muito séria. O risco de a guerra sair do controle e afetar países vizinhos, direta ou indiretamente, é grande, apesar de depender do humor de Moscou. Mesmo a consideração de um conflito generalizado, apesar de praticamente nula, acaba passando pela cabeça dos líderes europeus e só por isso é algo aterrador. Um relatório crítico emitido pela Inglaterra (apesar de se considerar o euroceticismo) parece acertado ao sugerir que a União Europeia errou ao tentar se aproximar da Rússia e esperar um comportamento amistoso de um país em vias de democratização – que demonstrou não ser nada disso. A possível sugestão norte-americana de armar o governo para enfrentar os separatistas em pé de igualdade resultaria em uma corrida armamentista explícita. A própria ideia derradeira de enviar tropas de paz da ONU para supervisionar o cessar-fogo literalmente seria considerado pelos separatistas um rompimento do mesmo e daria munição para avançarem. E nunca vai acontecer, já que a Rússia vetaria de qualquer jeito.

Deve a Ucrânia considerar perder os anéis para não perder os dedos? O grande risco (para os Estados) do sucesso de movimentos separatistas é o exemplo que isso pode dar (razão pela qual a China, tradicional aliada de Moscou, nem gosta de tocar nesse assunto). Uma via diplomática, assim como nas guerras mencionadas ali no começo, seria a melhor saída, mas também se chegou a um ponto sem retorno em que a situação deve ser resolvida pelo conflito. Essa solução já esta acontecendo há um ano. O problema é saber se vai trazer mais negociadores para seu desenvolvimento macabro.


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Enquanto isso, no Afeganistão…

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Enquanto a folia de Carnaval termina no Brasil, um relatório das Nações Unidas revela, em números, uma triste realidade que ainda aflige o Afeganistão. Ocorre que, durante o ano de 2014, foi registrado o mais alto número de civis mortos ou feridos em confrontos no país no comparativo dos últimos cinco anos.

No ano em que as tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) encerraram oficialmente suas atividades no Afeganistão e os Estados Unidos iniciaram a retirada das suas tropas – após mais de uma década passada desde o fatídico 11 de setembro – os números revelam que o desafio da estabilidade persiste no país. [Confira o relatório completo aqui, em inglês.]

Segundo as Nações Unidas, por meio de sua Missão no Afeganistão (UNAMA, na sigla em inglês), o número de vítimas civis foi de 10.548 em 2014, dentre as quais estão registradas 3.699 mortes, 25% a mais que o ano anterior (2013).

Uma das razões apresentadas para justificar a alta cifra são os combates em solo, que envolvem armamento bélico em meio a grandes aglomerações, causando grande número de vítimas civis. Os talibãs são responsabilizados pela maior parte das casualidades, de acordo com o relatório.

A realidade demonstra que o Afeganistão, após tantos anos de intervenção da comunidade internacional (especialmente dos Estados Unidos), ainda vive uma situação de precariedade institucional, com inúmeras dificuldades que se refletem na vida da população civil. Os civis ainda se encontram em situação de extrema vulnerabilidade, em meio a uma fase de transição do país em que as responsabilidades parecem não estar claras, de modo que os maiores prejudicados são aqueles que menos vínculos possuem com as (já históricas) hostilidades políticas afegãs…


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Imagem da Semana

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As imagens da semana não poderiam deixar de envolver o Estado Islâmico e os últimos casos de execução sumária realizados pelo grupo. Após as polêmicas negociações que envolviam a “troca de liberdade” da iraquiana Sajida al Rishawi, condenada à morte na Jordânia por terrorismo, por um refém jordaniano e um japonês. Nos últimos dias, foram divulgados vídeos em que Kenji Goto, o jornalista japonês, é decapitado; e Muath al-Kasaesbeh, o piloto jordaniano, é queimado vivo.

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Em que pese o fato de que a veracidade das imagens e vídeos ainda está sendo verificada, a violência dos atos revela o nível de gravidade do tema, que afeta toda a comunidade internacional e cujas perspectivas futuras se mostram incertas e assustadoras…


Terrorismo, um rabisco sem graça

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O mundo está comovido. Não importa a bandeira, ideologia, religião, convicção. Nem apenas porque o direito à vida é inalienável ou porque a liberdade de expressão foi fatalmente ferida. O atentado contra o jornal satírico “Charlie Hebdo” é uma afronta à genialidade humana, característica transcendental e atemporal, legado para gerações futuras. Entre os mortos, está o lendário cartunista francês Georges Wolinski, que inspirou até mesmo Ziraldo. A violência, sobretudo o terror, como manifestação inequívoca da discordância é a demonstração maior da intolerância e da segregação social – e entre povos. E também fica o alerta: a liberdade expressão, quando violenta – não necessariamente levando à agressão física, pode ser intolerante ou segregadora.

A deterioração da paz, conforme o Global Peace Index 2014, publicação anual do think tank australiano Institute for Economics and Peace, é traço marcante dos últimos oito anos, e o terrorismo é uma das principais motivação. A insegurança tem um impacto econômico expressivo. Em 2013, a violência causou um prejuízo de 9,8 trilhões de dólares, o equivalente a 11,3% do PIB mundial – ou duas vezes o PIB do continente africano. Mas a dimensão humana se sobressai, porque ela é irreparável. No levantamento do Global Terrorism Database, desde o início da incursão norte-americana ao Iraque, o número de mortes decorrentes de atividades terroristas aumentou no mundo todo, de 3.800, em 2002, para aproximadamente 11.000, em 2012 – estima-se que esse número chegue a 17.800, em 2013. Se, em 2002, 28 países eram afetados por essas mortes, em 2013, registrou-se 59 países.

Em um ambiente mais inseguro e menos pacífico, o terrorismo está se convertendo em um fenômeno verdadeiramente global, inclusive no aspecto geográfico, e não apenas político ou psicológico. É preciso, no entanto, cautela analítica. Na década passada, novamente em consonância com o Global Terrorism Database, 80% das fatalidades provocadas por atos terroristas ocorreram contra alvos não ocidentais. No mesmo dia em que dois irmãos abriram fogo contra a sede do “Charlie Hebdo” e mataram 12 pessoas, um carro-bomba explodiu em frente a uma academia de política em Sanaa, no Iêmen, causando 30 mortes. Mortes, a propósito, de muçulmanos. Pouco se noticiou. O Ocidente tem um peso simbólico nos valores que moldam a política mundial, o que reforça seu olhar narcisista: uma vida ocidental vale mais do que uma vida oriental.

É exagerado e falacioso refletir à luz do choque entre civilizações de Samuel Huntington, Ocidente x Oriente, colocando duas culturas – nelas, inserindo-se a ideologia, religião, etc. – em lados opostos e em confronto. Oriental também mata oriental, e vice-versa, por maiores que sejam as afinidades culturais. A percepção, mutuamente excludente e preconceituosa, que reforça a própria identidade em detrimento do outro, só alimenta a proliferação de radicais islâmicos e de islamofóbicos e aumenta a probabilidade de atos terroristas. Por que um ativista de extrema-direita e fundamentalista cristão, como Anders Behring Breivik, é taxado como louco após atentados de Oslo, em 2011, e todo ativista islâmico, ainda que não tenha perpetrado nenhum ato, é supostamente um terrorista?

O terrorismo também é um movimento de ação e reação. Não há como entendê-lo simplesmente pelo repúdio (natural e merecido) a quem comete um ato terrorista. Há um contexto histórico que levou à construção de uma narrativa sangrenta no século XXI. O 11 de setembro foi apenas o começo de uma nova velha saga, com novos atores, dinâmicas e enredos. A guerra global contra o terror e o discurso maniqueísta do então presidente norte-americano George Bush de “quem está conosco x quem está contra nós” disseminaram o sentimento do medo na política mundial e a necessidade empregar todos os meios necessários para contê-lo, mesmo diante de inimigos incertos, difusos e apátridas. De um lado, ocorreu uma confluência automática de posições entre Estados Unidos e alguns de seus aliados, de outro, uma radicalização progressiva das antipatias contra essa atitude do dito Ocidente, que acabou se casando – e ao mesmo tempo se legitimando – com o fundamentalismo islâmico. Uma década depois, todos se perguntam: quem venceu a guerra contra o terror?

Ninguém venceu. Todos perderam. É preciso rever as estratégias regionais e globais de combate ao terrorismo. Especialmente agora, em que pelo menos dois aspectos poderiam ser observados. O primeiro deles é que terroristas, mais do que disseminar o medo, passaram a ter ambições territoriais e constituir um espaço multinacional sob um governo, como é o caso do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL). Segundo, a intensificação dos chamados “lobos solitários”, como o que ocorreu recentemente em Sidnei, em que indivíduos comentem algum ato de terror por vontade própria, ainda que seja justificada por um motivo religioso, e não porque recebeu a instrução específica de um grupo terrorista.

O terrorismo está colocando um rabisco vermelho na política mundial. As pessoas ficam amedrontadas; os governos, eufóricos. Uma resposta ríspida torna-se a necessidade imediata de líderes e da sociedade. A extrema direita francesa já tratou o incidente de anteontem como uma declaração de guerra do islamismo contra a França. É a típica atitude que faz o mundo mergulhar em uma espiral de violência sem fim, sem graça e trágica. Ela espraia a intolerância e o ódio, não a paz e o diálogo. Foi-se o tempo em que os terroristas entendiam apenas a linguagem do dinheiro e da força. Eles também compreendem a política. E sem esta, a força será um desperdício. Para terroristas e vítimas.


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Oriente esquentando

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Fim de ano costuma ser uma época bem parada no noticiário internacional – a não ser quando ocorre uma calamidade como a que completou 10 anos no dia hoje, com o tsunami monstro que varreu o Oceano Índico e matou quase 300 mil pessoas em 2004. Felizmente, não temos uma catástrofe dessas para comentar, mas 2014 ainda vai ser quente nessa última semana graças, é claro, à Coreia do Norte e sua insistência em fazer manchetes.

Um pouco em continuidade ao post da semana passada, vou retomar o que diz Barry Buzan sobre aquela região do estremo Oriente – é um “microcosmo residual” da Guerra Fria. Basicamente, por culpa da Coreia do Norte, já que a China está muito mais para parceira que adversária dos EUA. Se os eventos da semana passada deixam claro que Cuba deve deixar um dos postos restantes de inimizade com os EUA, resta à Coreia do Norte fazer oposição ao grande Satã – pelo menos, sob o viés político-ideológico. E se trata de uma oposição indireta, já que suas maiores preocupações são o Japão e a Coreia do Sul, com os EUA como inimigos “por tabela”.

Como foi divulgado ontem, o polêmico filme de comédia sobre um plano de assassinato do líder norte-coreano foi lançado nos EUA e pela internet. Basicamente, o estúdio dá uma banana aos grupos de hackers que ameaçaram as distribuidoras e salas de cinema que exibissem a obra, em nome da liberdade de expressão (e após ouvir bronca da Casa Branca por conta do cancelamento). Pyongyang não reconhece a autoria dos ataques mas repreende oficialmente o conteúdo do filme (compreensivelmente), assim como, adivinhem só,  Rússia e China. Até agora, nada de ruim aconteceu, mas a repercussão pode vir a galope, já que a expectativa de retomada das negociações sobre o programa nuclear norte-coreano (o “six-party talks”) era grande para 2015 e pode ir pro vinagre rapidamente. Para piorar, a internet do país ficou fora do ar por quase 9 horas e há suspeitas de que seja retaliação dos EUA. Ou não.

Enquanto isso, os EUA firmam um acordo com Coreia do Sul e Japão para manter vigilância sobre o vizinho comunista. A intenção clara é de dissuasão – a vigilância e troca de informações sobre Pyongyang serve para deixar o recado que a Coreia do Norte está isolada. Trata-se de um acordo estranho, já que aproxima rivais históricos (Japão e Coreia do Sul) sendo visto com desconfiança por ambos. No fim das contas, numa situação delicada, fortalecer os laços com os principais adversários da Coreia do Norte pode ser visto como uma jogada ainda mais agressiva por parte dos EUA e piorar ainda mais a situação. Nessa queda de braço política que está se tornando midiática, o risco é a ruína de todos os progressos atualmente paralisados com relação ao esforço de não-proliferação nucelar na região…


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E que venha 2015…

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Never give up

Em sua essência, a palavra “Natal” nos remete à ideia nascimento, vida. Nesta véspera de uma data tão simbólica, vale uma reflexão justamente sobre as vidas ceifadas ou prejudicadas durante o ano de 2014 devido a crises humanitárias, nas mais diversas localidades, vítimas das mais diversas tragédias. Tragédias estas que, advindas notadamente de desastres socioambientais ou conflitos políticos, possuem como consequência comum o custo humano envolvido. As cifras de mortos, feridos, refugiados, deslocados atingem níveis alarmantes e elevam as necessidades de financiamento de organizações humanitárias a montantes nunca antes vistos na história.

No início de dezembro, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou um apelo para 2015 no valor de aproximados 16 bilhões de dólares, em benefício de pelo menos 57 milhões de pessoas que se encontram em situação de extrema vulnerabilidade (veja o apelo aqui).

Algumas crises podem ser destacadas pela sua gravidade e seu enorme impacto social no ano de 2014, dentre as quais a crise na Síria, que completa quase quatro anos e devido à qual praticamente dois terços de toda a população do país se encontra em situação de necessidade de assistência humanitária. Os milhões de refugiados, principalmente nos países vizinhos, mas também pelo mundo afora (inclusive no Brasil), deixam claro que o problema não se restringe apenas à realidade síria, mas já alcançou níveis regionais e globais de intensa preocupação.

A persistente crise entre Israel e Palestina, cuja amplitude constitui um dos maiores impasses internacionais das últimas décadas, ocasionou um dos mais sangrentos combates na Faixa de Gaza esse ano: durante 50 dias, as notícias de bombardeios, vítimas e refugiados, notadamente palestinos, foram diárias. A trégua atual, infelizmente, ainda não traz uma perspectiva duradoura de solução para o conflito.

Também alcançando nível global, a crise humanitária na África Ocidental advinda do surto epidêmico do vírus Ebola tem demonstrado claramente a incapacidade internacional em lidar com uma emergência de saúde pública deste porte. Com quase 20 mil pessoas infectadas e 7 mil mortos segundo as últimas estimativas oficiais, o impacto da crise – principalmente nos países mais afetados (Guiné, Libéria e Serra Leoa) – foi subestimado por um período muito longo de tempo até que medidas condizentes com as necessidades começassem a ser tomadas.

A República Centro-Africana, o Sudão do Sul e o Iraque, países fragilizados e com conturbado histórico de conflito político integram a lista de crises cuja gravidade é visível, porém que se prolongam indefinidamente, já que a solução envolve um complexo jogo de poder e interesses em que o custo humano não se enquadra como uma das variáveis. A Ucrânia, país europeu, também integra a lista e sofre hoje uma situação de crise de destacadas proporções.

As secas no Chifre da África, notadamente na Somália, bem como na América Central (Guatemala, El Salvador, Honduras), trazem à tona o tema da insegurança alimentar e nutricional em contextos de impossibilidade de produção local de alimentos. As crianças, que constituem um dos grupos mais vulneráveis nas sociedades, se veem destacadamente afetadas, com índices de má-nutrição que alcançam tristes recordes.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 2014 foi um ano “devastador” para as crianças. A estimativa é de que 230 milhões de crianças vivam atualmente em áreas de conflitos armados, sendo que aproximadamente 15 milhões estão sofrendo consequências diretas nas principais crises mencionadas.

Com perspectivas tão “sombrias” para o ano vindouro no que se refere às crises humanitárias, celebrar a vida parece uma realidade ainda muito distante para milhões de pessoas no mundo, infelizmente. Esperemos que 2015 possa contrariar as expectativas negativas e trazer consigo esperança: esperança de que novos caminhos para o diálogo e para a cooperação internacional se abram e de que a paz se torne, mais que um desejo, uma realidade…


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Reconhecer o problema

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O sistema internacional é como um clube. Pelo menos, quando pensamos em Estados. Para que aquela unidade política seja aceita entre os demais, não basta cumprir alguns requisitos próprios, mas ser aceito pelos “colegas”. Quando pensamos no tal Estado Islâmico, por exemplo, mesmo que consigam eventualmente assegurar um território e um governo, provavelmente jamais serão reconhecidos pela comunidade internacional por conta das atrocidades cometidas para chegar a essa situação. Por isso causa muita euforia a notícia de que parlamentos de países europeus (um dos últimos focos de resistência ao movimento) estão debatendo sobre leis para reconhecer o status de Estado para a Palestina – a Suécia mesmo já passou por cima disso e se tornou o primeiro Estado do continente a fazer isso há algum tempo. O caso mais recente foi uma votação simbólica no parlamento da França, mas algo parecido já ocorre na Inglaterra e Espanha.

O que isso tudo significa? Por mais que a aceitação internacional crescente signifique uma pressão enorme pela resolução pacífica, não representa necessariamente uma possibilidade de fim das hostilidades com Israel. O problema reside em dois pontos. Primeiro, a tendência é de endurecimento em Israel, com a consolidação de radicais e a possibilidade de uma legislação que tornaria o estado ligado à religião. Segundo, o reconhecimento do Estado Palestino como tal reduz a possibilidade de funcionar uma solução que é possivelmente uma das mais vantajosas, a de um Estado único.

Quanto ao primeiro ponto, o premiê Netanyahu demitiu nesta semana membros moderados do governo e dissolveu a coligação, fazendo com que fosse necessária uma eleição em 2015. A tendência é que se mantenha no poder, com uma frente de partidos nacionalistas e religiosos. O grande temor é a aprovação de uma lei que define o país como uma pátria de judeus, o que implicitamente criaria uma diferenciação entre cidadãos – e marginalizando, por exemplo, os de origem árabe. Esse tipo de política radical reflete o fortalecimento do movimento conservador no país, e é um claro empecilho às negociações de paz. Mais que isolar o país politicamente, essa medida pode ser usada como munição para países árabes levarem um projeto de resolução no Conselho de Segurança da ONU pedindo o fim das ocupações israelenses – que causará dano político de maneira inegável, sendo vetado ou não. Ao mesmo tempo, Israel está fortalecido no cenário regional, e o impacto destas políticas é uma incógnita.

Já no segundo ponto, se não impeditivo, o reconhecimento do Estado Palestino atrapalha um dos planos mais sensatos que une intelectuais de ambos os lados do conflito, que seria a solução de um Estado com as fronteiras pré-1967 e um governo conjunto. Basicamente, reconhecer a Palestina como Estado independente significa que a comunidade internacional nas entrelinhas não vê a solução de um Estado unificado como viável, ao mesmo tempo em que se configura como uma solução que contempla a maior parte dos interesses envolvidos, com o controle de territórios em disputa e a livre circulação de cidadãos.

Como sempre, apesar do clichê, o destino da crise entre palestinos e israelenses fica ao sabor de desenvolvimentos futuros, mas como o quadro se configura hoje, uma solução ainda é impensável.


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