Post do Leitor

Post do leitor – Guilherme Backes

[Neste clima atual de mobilização e debate político em todo o território nacional, o leitor Guilherme Backes, acadêmico de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), nos brinda hoje com uma excelente reflexão para o blog. Confiram seu texto abaixo! Aproveitamos para agradecer as ótimas contribuições dos leitores e lembrar a todos os interessados que, para postar na Página Internacional, basta entrar em contato conosco pelo e-mail [email protected]. Boa leitura a todos!]

O Brasil em mobilização: desafios e oportunidades

As recentes manifestações que agitam as principais cidades brasileiras exigem uma profunda reflexão acerca do momento político pelo qual passa o Brasil. Após dias de estupor, uma série de contradições e de desconexões é arrolada pelos mais variados setores de nossa sociedade. Atores políticos dizem-se surpresos com a proporção dos acontecimentos; intelectuais dos mais variados matizes ideológicos titubeiam em oferecer respostas minimamente satisfatórias à luz das Ciências Sociais; uma miscelânea de demandas e de insatisfações compõe um processo equivocadamente interpretado.

Dentre tantas considerações, menciono, primeiramente, que nossos governantes bradavam em alto e bom som que o país se encontra em processo de desenvolvimento econômico sem precedentes. Baixo índice de desemprego, políticas de redistribuição de renda, maior acesso ao ensino superior, aumento do poder aquisitivo de milhões de famílias, diminuição das desigualdades sociais, ampliação de políticas sociais, inúmeras são as conquistas da sociedade brasileira que ocorreram nos últimos anos. No entanto, os protestos das últimas semanas demonstram que, muito longe do ambiente de estabilidade e de bonança erroneamente entendido por um segmento da classe política, o Brasil não constitui o mais recente paraíso das mil maravilhas.

Certo é que inegáveis são as mudanças sociais da última década, e negá-las consiste de desserviço para o aprofundamento do debate a respeito de nossa atual conjuntura. Por outro lado, a sociedade clama por mudanças significativas e urgentes. O distanciamento dos partidos políticos da realidade que circunda nossas demandas sociais, os subsequentes escândalos de corrupção, o incitamento à intolerância pregado em Comissões instituídas para a defesa dos direitos humanos, o desleixo com que bandeiras históricas da esquerda são tratadas por segmentos acomodados no establishment, o fim de uma pretensa pureza moral defendida pela esquerda tradicional, as flagrantes malversações de dinheiro público na execução de obras para a Copa de 2014 e o conluio com os setores mais arcaicos e reacionários da política nacional estimularam o surgimento de um denominador comum – a insatisfação generalizada. A partir desse sentimento compartilhado pelos mais distintos setores da sociedade brasileira, a impressão gerada é a de que as conquistas auferidas, ao longo dos últimos anos, não bastam. Nós, brasileiros, queremos mais! Queremos participar ativamente do processo político, conferindo-lhe um grau de legitimidade muito maior do que o existente até então.

Em segundo lugar, muito tem sido comentado e debatido sobre o perigo representado pela grande mídia e por segmentos à direita da política brasileira na condução do atual processo. Ora, todas as mobilizações das últimas duas semanas têm como origem a repressão policial a uma legítima manifestação da esquerda, a qual lutava pela redução da tarifa dos transportes coletivos da cidade de São Paulo. Admitamos, sim, que, com a retirada de cena do Movimento Passe Livre (MPL), a ausência de liderança tornou-se ainda mais premente. A consequência de tal lacuna incita a heterogeneidade do corpo que toma conta de nossas cidades, a demasiada amplitude de suas demandas, a abstração em torno de críticas vagas dirigidas a políticos corruptos e a aparente falta de direção de suas vozes. Todavia, enganam-se – voluntariamente ou não – aqueles que sucumbem ao desvario gerado pelo receio de um golpe da direita.

Evidentemente, a direita sempre esteve presente na seara política brasileira. Em diferentes momentos de nossa história política, abundantes são os exemplos da capacidade de influência de setores extremamente conservadores do empresariado e da política nacionais. A despeito de reconhecermos a presença, os interesses e as manobras desse grupo político, ledo engano seria superestimarmos seu respaldo na sociedade brasileira. Existem, sim, casos de flagrante atentado à democracia perpetrados por elementos infiltrados, de forma oportunista, no movimento de contestação ao descaso da classe política. Entretanto, pode-se asseverar, cabalmente, que a imensa maioria da população brasileira não defende a regressão à ditadura militar, tampouco outros fatores que compõem uma típica plataforma de direita. Se elementos de tal espectro ideológico – em suas facetas moderadas e extremadas – tentam moldar e canalizar o movimento em prol de suas causas políticas, é dever da esquerda continuar nas ruas e defender a originalidade e a legitimidade de suas demandas.

Finalmente, cabe mencionar a pretensa despolitização das atuais mobilizações. A rejeição à política como um todo demonstrada por uma grande parte dos manifestantes ressoa de maneira compreensível diante dos desmandos e das maracutaias identificados com inúmeros partidos políticos tradicionais. É natural, portanto, que símbolos partidários – tais como bandeiras, cartazes, camisetas, etc. – sejam, previamente, rechaçados por pessoas que expressam seu descontentamento com o sistema político vigente. Ainda assim, imperativo é preservar a liberdade de expressão em um movimento democrático e, originariamente, de esquerda. A não identificação do movimento com partidos em especial não pode significar, em hipótese alguma, a negação da própria política, haja vista ser ela a única esfera onde nossas demandas serão ouvidas, debatidas e conquistadas. É sabido que o desmantelamento de partidos políticos, bem como a subjugação da política a movimentos disformes encontram respaldo na irracionalidade de regimes ditatoriais e, até mesmo, totalitários – tanto de direita como de esquerda, conforme analisado por Hannah Arendt. Nesse sentido, o apartidarismo do movimento em questão deve ser pautado por fatores construtivos e positivos, de modo que o sistema político seja oxigenado e adaptado às novas demandas da sociedade.

A desconstrução desordenada e inconsequente de símbolos e de estruturas representativas de nossa sociedade configura terreno fértil para a atuação de setores retrógrados e nefastos da política nacional. Sendo assim, o discurso da imprensa conservadora visa ao afastamento e ao escorchamento de partidos de esquerda para que a grande massa dos manifestantes seja direcionada à defesa dos interesses da direita – atingindo, justamente, o oposto da origem das manifestações de São Paulo. Ademais, cabe a reflexão acerca da manutenção ou não de grupos ligados à esquerda nas ruas, nas discussões das redes sociais e no debate imediato com a sociedade. Haja vista a proporção das últimas manifestações, a melhor alternativa seria retirar-se do processo e abrir mão da presente mobilização em favor de restritos grupos reacionários? Certamente, não!

Não se alude, aqui, à possibilidade de modelos políticos baseados em teorias execradas pelo próprio desenvolvimento do processo histórico. O mais importante, na atual conjuntura de nosso país, diz respeito à oportunidade de que mudanças criativas, reais e substanciais sejam impetradas por segmentos progressistas e de esquerda com a efetiva participação da sociedade brasileira. Sendo assim, afastada da demasiada utopia balizada pelo romantismo da esquerda clássica e o excessivo pragmatismo dos partícipes do sistema, a sociedade pode, sim, incitar uma onda de mobilizações com reivindicações concretas e ordenadas. O momento exige cautela e atenção a diferentes fatores, mas a subsunção da racionalidade política ao mero comodismo poderá tolher a capacidade de entendimento e de ação dos movimentos progressistas. O engajamento da esquerda (movimentos sociais e partidos políticos) deve, por conseguinte, ser exigido e afirmado por todos aqueles que se preocupam com o surgimento de figuras bonapartistas e demagogas, buscando-se, assim, a consolidação de nossa democracia, concomitantemente à ampliação da participação da sociedade civil. 


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Imagem da Semana

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Neste clima de mobilização nacional, temos visto os mais diversos atos realizados nos quatro cantos do país por melhorias sociais. A partir das reivindicações pela diminuição das tarifas e pelo aprimoramento do transporte público, o movimento se alastrou e tem alcançado repercussão inédita.

Valorizando a mobilização social, bem como o interesse da população em questionar e reivindicar mudanças, tristes são apenas os atos de violência e vandalismo que infelizmente foram também vistos nos últimos dias. As cenas de depredação e tentativa de invasão do Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, por exemplo, foram lamentáveis.

No dia seguinte a este acontecimento, 21 de junho, o Ministro das Relações Exteriores Antônio Patriota organizou um abraço simbólico em torno do prédio, imagem que merece o destaque dessa semana. Centenas de pessoas – entre funcionários, simpatizantes e inclusive manifestantes da noite anterior contrários a qualquer prática de violência – participaram do “abraço”, reconhecendo sua importância na capital nacional e repudiando atos de vandalismo que minimizam a beleza de manifestações democráticas e pacíficas por parte da sociedade civil.


Impacto Internacional

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Fonte: Anonymous/Brasil


Impossível não falar ou comentar sobre a onda de manifestações, protestos e atividades levada às ruas brasileiras na última semana. Indo direto ao assunto, o objetivo desse texto é reunir alguns pontos de vista de jornais internacionais com o intuito de observar como as mídias estrangeiras estão noticiando os últimos acontecimentos aqui no Brasil. Obviamente, o foco é o movimento de ontem (20/06). 

No francês “Le Monde”, uma das notícias mais acessadas e com o maior número de “curtidas” no Facebook versa exatamente sobre as manifestações que reuniram mais de 1 milhão de pessoas nas ruas. O jornal destacou os números em Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Obviamente, colocou na manchete a fatalidade que ocorreu com um jovem atropelado em Ribeirão Preto. Citaram-se fontes da “Folha de São Paulo” e, por fim, alertou para o tamanho do movimento dizendo que a presidente Dilma Rousseff cancelou sua viagem para o Japão previamente marcada para o próximo dia 26 de Julho. 

O “Al Jazeera”, jornal da maior emissora de televisão do Quatar, destaca o fato de Dilma ter se reunido, em caráter de emergência, com ministros de Estado. Mostrando entender bem mais do assunto do que muitos brasileiros, o periódico enfatizou na primeira frase da reportagem que os protestos aumentaram de tamanho em virtude da falta de qualidade dos serviços públicos e dos altos custos com a Copa do Mundo de 2014. Ao final, noticiam que nem mesmo o Governo do Brasil está entendendo o movimento… 

O muito conhecido “The New York Times”, em matéria intitulada “Despertar social no Brasil”, afirmou que a onda de protestos em nossas ruas não é motivo de surpresa. Mesmo mencionando a relevância da existência de um regime democrático aliado a um crescimento econômico razoável, disse não haver uma lógica entre discurso político e o dia-a-dia da população. Termina dizendo, mesmo de forma indireta, que Dilma terá que rever alguns conceitos para conseguir a reeleição do Partido dos Trabalhadores (PT) no mais alto escalão do poder executivo. 

No liberal “The Economist”, o artigo mais recomendado e popular é o “Protests in Brazil: the streets erupt”. Interessante que o jornal cita o Movimento Passe Livre (MPL) e o coloca como um grupo radical com uma visão irrealista sobre o transporte público (!!!). Observou, ainda, que muitos protestos ocorreram de forma pacífica. Ademais, disse que os movimentos de rua vivenciados pela Grã-Bretanha, França, Turquia e Suécia nos últimos dias/meses são diferentes do Brasil, pois este último é uma democracia estável e vem crescendo economicamente. 

Por sua vez, o espanhol “El País” colocou como destaque da sua seção “América” a matéria sobre o que pode ser o maior protesto da história brasileira. Focou o episódio trágico da tentativa de invasão e depredação do Palácio do Itamaraty, em Brasília. De tal sorte, pontuou sobre as ondas de aversão a partidos de esquerda no cerne das manifestações e colocou algumas perguntas-chave para saber qual será o futuro do Movimento Passe Libre (MPL). Talvez ninguém saiba… 

Outro inglês, o “The Guardian”, estima em 2 milhões o número de brasileiros nas ruas no dia de ontem. Traz uma visão mais interna dos protestos, pois cita frases de manifestantes e participantes do movimento. Para refletir, fica essa citação: “Victor Bezerra, a law student, said the police action was like something from the dictatorship era. ‘These are bad days for Brazil. The police were acting just like they did 30 years ago.’” 

O argentino “Clarín” coloca na manchete a frase “Crise Brasileira”. Focou na hostilização de manifestantes de esquerda (PSTU, PSOL e UNE) e, ao contrário dos outros jornais, noticiou protestos que ocorreram, também, em Manaus (AM), onde se reuniram cerca de 60 mil manifestantes e não ocorreu um único momento de tensão, tudo foi encaminhado de forma pacífica. 

Essas foram algumas das principais notícias ao redor do mundo. É claro que existem outros inúmeros jornais, mas os comentados acima refletem um pouco sobre o impacto internacional do Brasil nos últimos dias. O resumo da ópera parece se resumir deste modo: todo mundo sabe o porquê das manifestações terem começado, mas ninguém tem ideia de quais serão seus resultados a curto, médio e longo prazos.


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Vinte centavos no país das maravilhas

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Vinte centavos nunca custaram tão caro. E não foi preciso ser Alice para cair na toca de um coelho e ver o impossível se tornar possível. Bastou sair às ruas ou acompanhar o noticiário. Disseram uns que “o gigante acordou”, outros entoaram o hino nacional com entusiasmo inabalável. A maioria protestou pela primeira vez. De repente, o Brasil tornou-se o país das maravilhas em um mundo já maravilhado. 

Aquela recorrente característica do povo brasileiro, a apatia, é colocada à prova. Povo apático, não necessariamente pacífico (o relatório anual do australiano Instituto para a Economia e a Paz intitulado Global Peace Index listou o Brasil em 81º lugar entre 162 países). Uma apatia que encontra traços na própria história da formação política, econômica, social e cultural do país, analisada por ícones da intelligentsia brasileira. 

A cordialidade, diria Sérgio Buarque de Holanda, é uma herança lusitana, cuja delicadeza no trato serve a propósitos pessoais. Perpetuam-se, com isso, as relações de compadrio, a troca de favores, o estado patrimonialista, a subordinação do interesse público aos interesses particulares, entre outras distorções. Não por menos, Raymundo Faoro tanto destacou as cíclicas tensões entre a construção de um estado patrimonialista, por parte das elites, e sua possibilidade latente de dissolução, por meio das massas e de uma ação democrática. Seguiria a república inacabada. 

Será que concluímos a república? Após mais de quinhentos anos de “descobrimento” e quase duzentos anos de independência, será que o brasileiro encontrou uma forma de organização político-institucional e socioeconômica da qual faça parte e nela se sinta plenamente representado? Se não, o que fazer? 

Mesmo na antiga sabedoria política hobbesiana, em que os indivíduos renunciariam à sua liberdade incondicional em benefício de uma segurança despótica, abria-se espaço para derrubada do soberano. Uma vez descumprido o pacto social que o instituía, cabia aos súditos destituí-lo e realizar um novo pacto. Para os arautos do socialismo, comunismos, marxismos, entre outros “ismos” ditos de esquerda, a revolução seria o caminho; o modo de fazê-la, discutível. Mas sopraram os ventos liberais, forjados pelas revoluções (também) burguesas, e os ideais da modernidade iluminista percorreram o mundo. O principal deles: era preciso domesticar o leviatã, seja ele quem ou o que for. Aí também entrou a sociedade e suas manifestações. 

Não é diferente hoje. E não dá para compreender o Brasil sem olhar para o mundo. Poucos imaginavam que presenciariam uma onda global de protestos nesta década, afetando, indiscriminadamente, países ricos e pobres, democráticos e autoritários. O mais recente deles na Turquia. 

A crise financeira internacional levou multidões às ruas para protestar contra o agravamento das condições socioeconômicas. Desemprego, pobreza, fome, medo e descrença pareciam anunciar o fim do estado de bem-estar social europeu. O “Ocupe Wall Street”, cujo mote “99% x 1%”, lançou um grito contra a desigualdade na distribuição de renda e de riqueza na terra de oportunidades, na superpotência mundial. Os estudantes chilenos marcharam em prol do ensino universitário. E, é claro, a Primavera Árabe, quando a autoimolação de um vendedor de frutas tunisiano inflamou levantes populares no Oriente Médio e no norte da África. Em edição especial sobre o assunto, a revista Foreign Policy trazia em suas primeiras páginas uma piada egípcia: “Qual é o dia perfeito para Hosni Mubarak? Um dia quando não acontece nada.”. 

Muita coisa aconteceu. Não só no Egito. A personalidade do ano eleita pela revista Time, em 2011, foi “o manifestante”, cuja capa apresentou uma pessoa com a face coberta, deixando apenas os olhos à mostra. Sem dúvidas, esta “Era da Informação” proporcionou um empoderamento dos indivíduos, alterando as relações de poder entre eles e os governos e ampliando os meios para se conduzir a ação política. Dos suntuosos edifícios para o espaço público, da representatividade indireta para o tête-à-tête, uma nova ágora está se desenhando. 

Mas também muitos sonhos feneceram. Em meio à crise financeira, governos eleitos pelo povo foram substituídos por tecnocratas, que passaram a adotar medidas impopulares à procura de uma saída. As vozes libertárias e reformistas de muitos árabes foram sucumbidas pelo conservadorismo das classes dirigentes, já no poder antes mesmo da eclosão dos protestos. Observou-se que sair às ruas não foi sinônimo imediato de mudar um país. Mudou, sim, a mentalidade das pessoas. 

Se for possível uma rápida conclusão, toda manifestação não pode abrir mão da política. Não aquela partidária, mas sim a organizacional, diretiva e finalística, no sentido de definir objetivos e estratégias para alcançá-los. Renegar à política é perder a chance de escrever a história, e não somente nela se inscrever. As imagens ficam, o filme passa.

Isto ainda não está ocorrendo no Brasil. De início, já se sabia que os R$ 0,20 era apenas o estopim para algo mais amplo. Há um sentimento de indignação coletiva contra vários assuntos: transportes, Copa do Mundo, corrupção, mídia, saúde, educação e por aí vai. É a insatisfação contra algo ou alguém que une as pessoas. É também o que lhes dá esperança. Alguns dirão, com razão, que a democracia é povo nas ruas, unido não só pelas concordâncias, mas especialmente pelas discordâncias. A festa do pluralismo em uma sociedade multicultural, o fim da inércia… A combinação perfeita!

Na prática, a teoria é outra. Quem protesta contra tudo, ao mesmo tempo, protesta, especificamente, contra nada, assim como manifestações que representam todos os grupos acabam por não representar, particularmente, nenhum deles. O resultado é o estabelecimento de uma agenda negativa, não no sentido pejorativo, mas sempre em resposta ao que está ruim e, mesmo apresentando o que se pretende, não propõe como alcançá-lo. 

Até agora, tem-se uma sociedade mobilizada, não necessariamente organizada, e que apresenta uma mensagem clara aos governantes e a ela: a rua, mais do que nunca, é a reação natural aos descasos e distúrbios do sistema político brasileiro. O segredo é passar de uma agenda negativa para outra propositiva e converter essa mensagem em satisfação das demandas. Certamente, isso contribuiria para restringir os “vândalos” e “baderneiros”, que não representam, de fato, os movimentos. 

As manifestações atuais, enfim, fazem parte do acabamento da república. Põem em xeque a cordialidade de um povo que tenta amar o próximo, mas esquece o distante. Recuperam a brasilidade e fazem o cidadão sentir as rédeas do destino de seu país em suas mãos. Nada de errado nisso. Porém, por enquanto, o que se ouve é aquele brado retumbante, outrora contido, contra todo e qualquer problema. A diversidade, embora seja uma virtude unificadora, é também a vicissitude dos protestos, algo que tende a apequenar o “gigante acordado”. Sem organização, agenda e lideranças, os manifestantes deverão ser suplantados por outra inércia, ainda pior: a indecisão. 

A melhor ilustração para momento está na própria obra Lewis Carroll, que, mais do que um livro infantil, é um tratado de lógica. Quando Alice se depara com uma encruzilhada, ela pergunta para o gato qual caminho deveria seguir, ao que ele responde com outra questão: “para onde quer ir?”. Sem titubear, ela lhe diz que pouco se preocupa para onde vai. Sabiamente, argumenta o gato: “nesse caso, qualquer caminho serve”. Nós ainda somos todos Alice. E prosseguem as manifestações.

*Texto do colaborador Giovanni Okado.


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Até minuto de silêncio

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Nelson Rodrigues, entre suas célebres frases e seu amor incondicional ao futebol, costumava brincar com um certo costume nacional afirmando que “brasileiro vaia até minuto de silêncio”. E o brasileiro vaia mesmo, sem pudor. Pelo menos suas autoridades, todas odiadas, vistas como culpadas  por todas as mazelas, verdadeiras personificações dos motivos que nos levam a não sermos tão desenvolvidos como gostaríamos. 

Mas desde que Lula chegou ao poder, quem ocupa o cargo máximo parece desmerecer a sabedoria de Nelson Rodrigues. Como o ex-presidente em 2007, em um Maracanã lotado, Dilma se arriscou a dizer algumas palavras na abertura da Copa das Confederações sábado passado. O resultado: uma sonora vaia. Joseph Blatter, presidente da FIFA, na tentativa de salvar a presidente e desconhecendo a própria impopularidade da entidade no país, ainda tentou contornar uma situação deselegante de forma bastante cordial, questionando as arquibancadas inquietas com o jargão criado pela Federação para definir tudo que é louvável nas atitudes esportivas: “amigos, onde está o Fair Play?”

As vaias às autoridades foram apenas a última das marcas de ambiguidade deixadas no inicio do evento teste para a Copa do Mundo. Afinal, até onde essas vaias representariam algo para o momento político ou seriam apenas a boa e velha insatisfação nacional com tudo? Difícil imaginar um cenário diferente, mesmo trocando os personagens da abertura. O próprio outro presidenciável três anos atrás, José Serra, se transformou em uma espécie de exemplo de impopularidade, perdendo até as eleições municipais, com altos índices de rejeição.

Mesmo que as vaias não sejam conclusivas quanto a popularidade de Dilma e o momento político brasileiro, ela mostra o país da Copa das Confederações como contrastante, de difícil projeção futura.  Muito superior a África do Sul, o Brasil passou facilmente pelo teste de prazos e organização dos jogos. Estádios prontos, eventos impecáveis. Já fora das arenas a infraestrutura ainda peca, ameaça falhar em uma competição muito menos inflada que a Copa do Mundo, com apenas 8 seleções e nada da massa de turistas que deve chegar ao país.

Pernambuco e Rio de Janeiro já sofreram com a desorganização. Na capital nordestina, a falta de transporte de qualidade e de infraestrutura nos arredores do estádio ficaram evidentes. No Rio, problemas com grandes filas e um confronto violento entre manifestantes e policiais marcaram as horas anteriores ao jogo. Aliás, os protestos em frente aos estádios apenas confirmaram o que se tem visto nos últimos dias.

Além do evento esportivo pré-Copa, o Brasil recebeu certa visibilidade internacional na última semana devido aos protestos contra a falta de qualidade e as altas taxas do transporte público. Como cereja do bolo, a truculência policial contra os manifestantes e a violência com jornalistas selaram uma imagem negativa de instabilidade. Mais do que isso, quebraram a visão de país em perfeita comunhão com o desenvolvimento.

Aliás, essa era a imagem que o governo gostaria de passar ao mundo, seguindo o exemplo das Olimpíadas chinesas. No entanto, aqui tanto o povo como a imprensa não ajudam tanto em esconder algumas evidentes lacunas de organização. Se em outros países era a imprensa internacional que precisava denunciar erros, no Brasil a imprensa um tanto quanto combativa e crítica ao governo é quem primeiro denuncia. Em outro ponto, a população não se convence nem da qualidade, nem dos futuros benefícios prometidos a quem sediasse a Copa do Mundo. O evento é incapaz de receber o apoio político do povo.

Todos esses fatos nas vésperas da Copa das Confederações e na sua abertura deixam claro que certamente o país não conseguirá vender ao mundo a imagem de Brasil-espetáculo, desejo tão grande do governo como propaganda internacional, que talvez seja a maior utilidade de uma Copa do Mundo. Ao contrário, deixamos até aqui imagens de suntuosos estádios, disciplina em cumprir exigências de prazos e da FIFA, misturadas à vergonha de não termos resolvidos problemas básicos do passado.

Mas tudo isso já era esperado. Quatro anos e uma Copa não resolveriam o que até aqui não foi solucionado. A única possibilidade de uma imagem de país perfeito seria a venda de uma ilusão. Mas a ilusão, se não se esvaiu com os protestos e a desorganização do pré-jogo, não se sustentou às vaias. Por que, como sabem, o Brasil tem problemas sérios atualmente. E o brasileiro nem desses problemas precisaria, ele vaia até minuto de silêncio.


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Há um ano...

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…víamos uma coincidência interessante aqui no blog. 2012 foi ano de Eurocopa, e o torneio vencido pela Espanha e realizado em conjunto pela Ucrânia e pela Polônia serviu de pano de fundo para uma onda de protestos nesses países. A situação da Europa naquele momento (e que se estende até hoje) dispensa explicações, e num ambiente de insatisfação, os governos daqueles países passaram por maus bocados para lidar com os manifestantes. 

Não parece familiar? Pois é, nessa semana de Copa das Confederações realizada no Brasil, o que vemos é uma série de protestos relativamente localizada, mas bastante pontual e expressiva, com os “levantes” contra aumentos de tarifas de ônibus em diversas cidades servindo de estopim para movimentos de protesto mais sérios e amplos. Com isso, já tivemos (e provavelmente teremos muitos ainda) protestos antes de jogos da competição, e a exemplo do caso europeu de um ano atrás, motivações aparentemente desligadas dos eventos estão por trás de um movimento de contestação que tem como alvo um problema muito maior. 

Reproduzo o último parágrafo, que poderia muito bem caber em um texto feito nessa semana. 

“O mais interessante disso tudo é ver como os protestos não são contra o evento em si, mas atitudes do governo, e até mesmo da própria sociedade, em decorrência da sua realização. Incompetência do governo, gastos desenfreados e corrupção, sociedade acomodada […] Será que podemos esperar algo parecido para 2014? Não custa sonhar.” 

Não prece uma realidade muito distante, afinal. Isso aí pessoal, postando e relembrando…


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Ação e insatisfação

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Nessa semana, o que chamou a atenção foram protestos, em todos os cantos. Tivemos ativistas do Femen presas na Tunísia, a já comentada ação popular na Turquia contra o governo de Reçep Erdogan, a opinião pública dos EUA escandalizada com o terror dos grampos da CIA e, de modo mais intenso, manifestações contra aumento de preços no transporte público aqui o Brasil, especialmente em São Paulo, onde os choques com a polícia e a violência são maiores. 

Não vamos entrar nos méritos da discussão sobre quem está certo ou errado. No caso dos protestos no Brasil, existe uma tendência nada saudável a demonizar os dois lados da questão, com os manifestantes denunciando uma “guerra” da mídia contra o movimento e o governo e empresas de comunicação focando nos casos de vandalismo decorrentes. Qualquer aglomeração pode ser o estopim de um desastre, e existem pessoas e pessoas. Nem todos os manifestantes são bandidos, mas certamente há malfeitores entre eles, assim como se há policiais abusando da autoridade há aqueles que estão lá apenas fazendo seu serviço. Quando os dois lados perdem a razão, a legitimação vai embora. Mas, não é essa a questão na postagem de hoje. 

O interessante que essa experiência brasileira traz é o modo como esse tipo de mobilização acontece por aqui, contrastando com outros países. Qual a “gênese” desse tipo de revolta? Isso por que já faz um bom tempo que não vejo manifestações dessa magnitude no país, com tanta organização. Geralmente, o que chega aos noticiários são iniciativas isoladas e em casos extremos, como paralisações, invasões e coisa do tipo. As razões pelas quais o brasileiro evita esse tipo de confronto são inúmeras e rendem discussão sem fim, mas podemos dizer que existe uma “acomodação”. É preciso que surja um caso que afete um número MUITO grande de pessoas pra que se mexam. Foi assim no caso das Diretas, só pra pensar no mais famoso. Mas falta algo. 

Vejam outros casos recentes pelo mundo. Na Turquia, um protesto contra uma ação impopular do primeiro-ministro (a destruição da tal praça histórica) acabou virando uma contestação de seu regime. Na Tunísia então, lá em 2010, um rapaz chamado Mohamed Bouazizi resolveu tocar fogo em si mesmo, em protesto contra o confisco de seus bens pelo governo, e com isso causou a queda de pelo menos três regimes e convulsionou o mundo árabe – na verdade, até hoje. A graça dessas revoluções é justamente o fato de começaram com algo totalmente despretensioso ou sem relação com o “cenário” amplo e que acaba tendo repercussões muito maiores, diferentes do original. 

No Brasil, quais as chances de algo assim acontecer? Algo como, digamos, que esses protestos contra o péssimo serviço e transporte público virem algo mais. Baixíssima, eu diria. Fora os fatores culturais, talvez o que pese seja o fato de o Brasil ser, bem ou mal, uma democracia. Nesses países onde as coisas descambam para o enfrentamento direto da autoridade, geralmente existe repressão ou movimentos muito personalistas (como na Turquia). No Brasil, felizmente, ainda temos a opção pela solução democrática (apesar de, tecnicamente, poder protestar é uma das marcas de uma boa democracia). Não é perfeito, mas ainda está nas mãos da população o modo como vai ser governada. Aqui, mais uma vez, entramos num território delicado de condições e análises, mas acho que podemos dizer com certeza que a situação poderia ser MUITO pior. 

Existe insatisfação no Brasil, com certeza. Por um lado, fatores culturais e conjunturais tornam pouco provável que isso resulte em protestos mais incisivos, e ainda é possível alterar os rumos e “consertar” políticas segundo as regras do jogo, por meio de eleições. Por outro, é relativamente desanimador ver como existe pouca cultura de “incômodo” político por aqui – as mobilizações acontecem, geralmente, apenas quando o interesse específico de um certo grupo é atingido. Algum dia o Brasil terá essa consciência, seja da necessidade de união nos protestos, seja do poder que tem pelo voto? Precisamos de um Mohamed Bouazizi se imolando para abrir a cabeça da população e ver que seus problemas vão além do que se apresenta no noticiário? Perguntas, perguntas…


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Conhecimento trocado?

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Pareceria fábula afirmar que houve uma época em que o trabalho, a produção e a vida humana era algo estritamente regional? Que um homem nascia e morria na mesma cidade, sem ao menos conhecer as terras vizinhas. Que se casava com a filha do amigo do pai e que todas as vezes que os sinos da igreja tocavam anunciando uma morte, se sabia que haveria sido de uma pessoa conhecida, mais próxima do que o necessário nos dias de hoje para chamar alguém de amigo.

Hoje é clichê retratar o mundo como dinâmico, interligado. Começando pela estrutura internacional das grandes empresas, surgiram muitas realidades que levam a cada dia uma circulação e interação maior de pessoas distantes em países longínquos. Mas não só o mundo do trabalho que se transformou. As universidades de excelência e as instituições de ensino, espaços para as futuras mentes importantes ao empresariado, não ficaram para trás ao se inserirem na formação de parcerias internacionais e da troca, que vão desde a multi-cooperação em pesquisas científicas a intercâmbio de alunos e profissionais.  

Foi na circulação acadêmica de pessoas que muitos países enxergaram políticas para potencializar seus profissionais, e começaram a estabelecer estratégias que buscassem novos talentos nas periferias. Logo, exemplos como os EUA ou a Inglaterra contavam com uma população toda de pesquisadores e executivos encontrados em outros países como Índia, China e até mesmo o Brasil.

A política de intercâmbio de mentes logo não seria exclusividades das potencias. A periferia também buscou tomar parte nisso.O Brasil, mais recentemente, em uma tentativa forte de se inserir de uma vez na cooperação entre as universidades, decidiu criar o “Ciência sem Fronteiras”, programa que distribui bolsas de estudos no exterior para alunos brasileiros. O slogan do programa é o de “dar oportunidade aos jovens, de uma bagagem que englobe experiência e formação internacional, para que possam contribuir com os desafios do país e o desenvolvimento da ciência”.    

Individualmente, o projeto é uma grande oportunidade a milhares de estudantes de aumentarem a qualidade e a riqueza de suas graduações. Mas enquanto política de trocas de estudantes entre Brasil e outros países, quão eficaz aos nossos interesses o programa se demonstra?

A essência do programa é o de que nossos alunos saíam, aprendam com empresas e universidades do exterior, e voltem aptos a reforçar o nosso mercado com profissionais “de peso”. Em uma outra ponta, os próprios países participantes dos acordos de interação também mandariam seus estudantes, para que pudessem trocar conhecimento e experiência com os alunos e professores dentro das nossas universidades.

Evidente que, como toda medida política, durante a sua colocação em prática o “Ciência sem Fronteiras” pode apresentar resultados positivos, bem próximos ao esperado durante sua formulação e outras boas surpresas, como também desvios desagradáveis. Conhecendo os objetivos do programa e reconhecendo que em muito ele pode satisfazer o prometido, vamos às dificuldades que estão sendo observadas durante seu processo.

O programa contempla o mérito, é quase uma exclusividade de bons alunos das nossas melhores universidades. Assim, muitos grupos de pesquisa tem demonstrado o descontentamento com a perda de alunos que aqui se encontravam na metade de bons projetos científicos, e saem prejudicando todo um trabalho. Seria paradoxal um programa que se intitula um “reforço para a ciência nacional” retirar do Brasil boas pesquisas e pesquisadores, enfraquecendo o que se produz aqui. A falta de qualidade do próprio ambiente acadêmico faz com que a grande maioria de estudantes prefira abandonar suas atividades no país em troca da oportunidade de intercâmbio.

Outro aspecto é a questão de formação de profissionais para o mercado de trabalho. Muitos alunos saídos do Brasil criam vínculos em outros países com empresas e instituições. A falta de competitividade brasileira abre espaço para a perda de muitos desses jovens no futuro. Em contrapartida, a falta de boas instituições brasileiras de nível, até mesmo baseado nos rankings internacionais de universidades, transforma o Brasil em país menos atraente aos estudantes de fora. Os países mais beneficiados com os nossos alunos são os que menos enviam os seus. Por fim, com toda essa desigualdade, é difícil acreditar que dentro da cooperação não exista uma concorrência e uma vantagem desses países em adquirirem novas mentes entre nossos jovens, enquanto nossos avanços com esse programa são ainda duvidosos. 

O “Ciência sem Fronteiras” parece um remédio com contra indicações, que visa curar em partes o histórico de falta de qualidade educacional, de inserção da ciência nacional na realidade internacional e da falta de competitividade do nosso país. Exclusivamente para o individuo, é uma oportunidade brilhante para muitos das nossas melhores mentes. Como política pública e reforçadora da ciência brasileira, funcionaria sem outras medidas?


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Post Especial: A hora e a vez do general Santos Cruz

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[Nas últimas semanas, o noticiário relatou com entusiasmo a eleição do embaixador Roberto Azevêdo para a chefia da OMC. Outra importante nomeação de um brasileiro passa pela mídia com menos alarde, mas podemos dizer que seja tão significativa quanto. Nessa postagem muito especial, o colaborador Giovanni Okado conta um pouco de sua experiência pessoal com o General Santos Cruz, designado pelas Nações Unidas para comandar a inédita brigada de intervenção da força militar da ONU no Congo. Aproveitem essa esclarecedora e surpreendente leitura, sobre homem tão singular a quem foi confiada uma missão tão importante.]



“I’m ready!”. Com essas palavras, o general Santos Cruz colocou-se à disposição, logo na primeira sondagem, no início do mês de abril, para comandar as tropas da MONUSCO. 

Nesse dia, estávamos almoçando juntos. De repente, o telefone tocou. Era o tenente-general Babacar Gaye, do Senegal, Assessor Militar do Escritório de Assuntos Militares do Departamento de Operações de Paz das Nações Unidas e Force Commander da MONUSCO entre fevereiro de 2005 e julho de 2010. A proposta estava lançada. Restavam os acertos políticos na ONU, e entre ela e os governos africanos e brasileiro.

Dia 24 de abril de 2013, chegou a carta da organização para o governo brasileiro, oficializando a proposta. No documento, foram ressaltados atributos do chefe militar: “muito dinâmico, capaz e bem respeitado, com vasta experiência, incluindo sua atuação exitosa como Force Commander da MINUSTAH de janeiro de 2007 a abril de 2009.”. Pouco menos de um mês depois, dia 17 de maio, veio o anúncio do Secretário-Geral das Nações Unidas, nomeando-o como novo comandante da força militar da MONUSCO. 

Este é um motivo de grande orgulho para todos os brasileiros. É, também, um exemplo de vida para cada um de nós. Se é verdade a célebre frase machadiana – e ela certamente o é – de que os melhores amores nascem de um minuto, então, temos muito a aprender com ele. O amor dele à pátria, à profissão, ao próximo e, sobretudo, à paz demonstra que o instante desafiador é o mais belo. E o mais duradouro. 

A fala desse combatente é ríspida, o rosto, severo. Mas o tratamento é sempre humilde, simples, educado e equilibrado, jamais superior ou inferior. É uma mistura de quem diz “tem que ser violento na ação, depois que ela acabou, termina a violência” e ao mesmo tempo fala “desde que eu me conheço por gente, sou um cara apaixonado”. Por trás da incansável farda, o guerreiro cavalheiresco, uma pessoa com quem a convivência rende boas histórias, e estas se tornam um tesouro raro. 

Tenho a sorte de ter convivido com essa personalidade ímpar. Minha admiração por ele é imensa. Ainda na graduação, durante minhas primeiras pesquisas e estudos sobre temas de segurança e defesa, deparei com o seu nome. Era o “cara” que pacificou o Haiti. Era a pessoa que estava presente nas notícias e nos relatórios que eu lia, quem eu me perguntava se um dia teria a oportunidade de conhecer. 

Conheci. Para minha surpresa, no mestrado, encontrei com ele sentado na sala de aula, na condição de aluno. Durante um semestre, fizemos uma disciplina juntos. Pudemos debater, conversar, ele e eu e com a classe toda. Eu, assim como a maioria dos alunos, mais teórico; ele, mais prático. Às vezes, o general era criticado por apresentar ideias que decorriam de sua vivência, a exemplo de frases como “para muita gente, na África, democracia é ter uma luz acesa em casa”, mas não deixava de revelar, ainda que sem o dito conhecimento que se exige no meio acadêmico, a sensatez que escapa à teoria.

Àquela época, mal esperava eu que o destino nos colocaria novamente próximos. Desta vez, no trabalho: ele, coordenando a Assessoria de Defesa da Secretaria de Assuntos Estratégicos, eu, como assessor técnico. Essa relação durou pouco, é bem verdade, foram apenas dois meses. Mas, recordando Vinícius de Moraes, foi eterna em sua duração. Uma experiência notável, que me permitiu evoluir, seja no aspecto profissional, seja no aspecto humano. 

Nenhuma manhã começava sem uma reunião em sua sala. As cadeiras se aglutinavam em torno de sua mesa. Entre muito papo, muito debate sobre o noticiário e muitos relatos de uma longa carreira militar, as tarefas eram distribuídas. Ao longo do dia, ele entrava em nossa sala, perguntava sobre o que estávamos fazendo e logo estávamos novamente papeando. Se havia, a subordinação do empregado ao chefe era pouco percebida; prevalecia a colaboração e o respeito aos seus “subordinados”, a quem ele se referia como “muito bons e inteligentes”.

Quanto aos relatos, entre tantos que não chegam à mídia, marcou-me uma história triste, mas de superação. Em uma escola caindo aos pedaços no Haiti, havia uma menina com as pernas presas aos escombros, que precisaria ser amputada não fosse a valentia de uma médica do Exército Brasileiro, apoiada pelo general Santos Cruz. Bem embaixo do edifício, em um local de acesso remoto e onde o menor barulho poderia derrubar toda a estrutura que sobrou da escola, entraram o chefe militar e a equipe de resgate para socorrer essa menina. Hoje, ela anda normalmente. 

Nunca vi o general se vangloriando de seus feitos, vários deles heroicos. Só o via se vangloriando de seus cavalos, de como eles tinham saltado bem, a cada dia que chegava à SAE/PR, depois de tê-los treinado. O entusiasmo era nítido em sua voz. Assim como presenciei esse entusiasmo quando estávamos no Rio de Janeiro, em missão, e passamos pelo Pão-de-Açúcar. Repetidas vezes, ouvi ele dizer “isso aqui é maravilhoso!”. Próximo a aterrisagem na capital federal, novamente escutei sua voz entusiástica: “Giovanni, ó Brasília, ‘vem’ ver!”. Naquele momento, compreendi que, independente de sua posição e de suas realizações, não há vanglória maior nem melhor do que ser apaixonado pela vida.

Em pequenas atitudes, o general facilmente conquista a simpatia de qualquer um. O homem que esteve presente no jantar de comemoração do meu aniversário é o mesmo que era tratado como um “rei” pelas tropas jordanianas da MINUSTAH. Exatamente o mesmo sujeito, sem pompa ou soberba. Aquele que, no último dia 23, reuniu amigos e familiares em seu jantar de despedida e deixava transparecer alegria e empolgação, consciente de que sua missão no Congo, embora hercúlea, não é irrealizável. 

Trabalhar com o general foi, para mim, uma honra que não poderia imaginar nem conseguiria descrever. Mais do que trabalhar, conviver. Nesta semana, ele embarcou para Nova Iorque e, exatamente no dia de seu aniversário, 2 de junho, partirá para o Congo. Fico agora, assim como milhões de brasileiros, africanos e pessoas de todo o mundo, na torcida pelo seu sucesso. Que essa nova esperança, de sangue verde e amarelo e de bem com a vida, floresça naquele solo tão manchado por guerras, frustrações, violência e desamor. 

Boa sorte, general Santos Cruz! Força, muita força!


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Saúde para todos?

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A saúde é um direito universal, gratuito e garantido pelo Estado. Pelo menos é o que garante a Constituição brasileira em um dos seus artigos mais importantes. Durante mais de duas décadas o Brasil tem perseguido essa realidade, a maior parte das vezes bem distante de cumprir o que determina a legislação máxima no país. A saúde pública existe, o que não existe é a mínima qualidade no atendimento.

A falta de qualidade não é mera crítica ou exposição de uma situação distante do ideal. Na verdade, é uma denúncia de total desrespeito ao ser humano. Não são raras denúncias de situações desumanas contra quem mais precisa das garantias básicas oferecidas pelo Estado. Ao contrário do que um ideal tão bonito como a universalização, o Sistema de Saúde aparece quase sempre como maior problema do país nas pesquisas com a população. Suas aparições nas discussões e na imprensa vem sempre seguidas por denúncia de corrupção, da falta de serviços e de condições vexatórias de atendimento. 

As belas palavras da Constituição são substituídas pela descrença total de que um modelo assim possa funcionar em um país tão problemático. Há não muito tempo atrás, até mesmo um secretário próximo ao Ministro da Saúde haveria dito as seguintes palavras a revista Piauí: “A saúde pública é igual ao papai noel, todas achamos fantástico mas na verdade não acreditamos.”

Ocorre que entre os muitos problemas da saúde surgiram denúncias que dão conta de que além da falta de verbas e de vontade política, a qualidade do atendimento ainda sofre com a falta de responsabilidade dos profissionais da área, já escassos. Em mais de um caso nas periferias ocorreram mortes de pacientes que buscaram ajuda em hospitais e postos de saúde e não a encontraram por estes estarem sob a responsabilidade de profissionais que faltaram aos seus plantões. Mais do que isso, ficou conhecido o costume de determinados médicos da rede pública em burlarem a escala de trabalho, modificando horários de entrada e saída do serviço.

Além da falta com suas responsabilidades cometida por alguns médicos, ficou notório a falta de profissionais em periferias e cidades do interior, sobretudo das regiões norte e nordeste. Falta não pelo sucateamento da infraestrutura, não pela falta de dinheiro para se pagar novos profissionais, mas sim pela ausência de médicos com vontade de trabalhar nesses locais, mesmo com garantias de salários melhores do que os encontrados nas cidades grandes e capitais. 

Defendendo solucionar essa situação, o Ministro da Saúde afirmou que o Brasil faria uma tentativa de buscar profissionais de Cuba dispostos a trabalharem em hospitais de periferia e cidades do interior. Mais tarde, afirmaria que o país fechou um acordo internacional para trazer médicos em massa da Espanha e de Portugal dispostos a trabalhar nos mesmos locais.

O Conselho Nacional de Medicina, que até então não havia se pronunciado a respeito da polêmica falta de interesse dos profissionais em trabalharem nesses locais, foi fortemente contrário a movimentação do governo, chamando a medida de temerária e desrespeitosa. Entre os argumentos dos médios brasileiros, estava o de que não se tinha provas suficientes da qualidade dos profissionais trazidos de outros países e se o conhecimento técnico dos mesmos estaria de acordo com os padrões nacionais. Na verdade, a palavra do Conselho causa determinado temor, pois se não se sabe se os profissionais que vem para o país tem costumes piores do os já vistos, como de faltar em seus plantões e deixar seus pacientes a beira da morte ou quase nunca preferir atender a população carente, então não saberíamos quais são essas práticas ainda piores do que a realidade atual. 

Em contrapartida as fortes críticas do Conselho de Medicina, seguiram ataques fortes a toda condição médica no Brasil. Houve quem chamasse o Conselho de corporativista e defensor de um monopólio dominado por um número limitadíssimo de profissionais. Esse só seria o ponto máximo de uma realidade construída desde o elitismo da carreira, da dificuldade de se cursar uma universidade de medicina, da formação de poucos profissionais que quase sempre fazem parte da casta das pessoas mais rica do país, dos melhores alunos possíveis, dos moradores das cidades mais desenvolvidas etc. 

Tudo parece levar a que quase todos os profissionais de medicina preferissem carreiras como profissionais liberais, donos de consultórios, de clínicas e hospitais particulares que privilegiassem o status e o lado financeiro. Não por culpa dos médicos, mas sim de uma conjuntura construída para corroborar toda a realidade brasileira, menos a universalização da saúde. Ocorre o mesmo com as profissões que envolvem o ensino e a educação.  Com o agravante de que por serem poucos os médicos, não sobrariam muitos dispostos a trabalharem por salários pequenos e longe dos grandes hospitais públicos dos centros urbanos, de boas universidades etc. 

Se analisarmos a medicina no país como elitista chegaremos logo a uma contestação péssima: é impossível pensarmos em saúde universal e para todos se até mesmo na formação dos profissionais não existem cursos, estudantes e médicos suficientes. E não tão cedo haverão. Além disso, não existe vontade nem do governo, nem da mentalidade dos profissionais da área em universalizar o sistema. E o elitismo a esse respeito fica mais evidente ao pensarmos no próprio acordo fechado pelo Ministério da Saúde. Afinal, deixando de lado toda a polêmica em torno do caso, podemos chegar na seguinte questão. Como se encontram profissionais de países europeus, como Espanha e Portugal, dispostos a trabalharem em locais periféricos do Brasil em que sobrem vagas pela falta de interessados em pegá-las? Aparentemente está mais fácil encontrar médicos para periferia dentro dos países desenvolvidos do que no universo de médicos brasileiros. 


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