Imagem da Semana

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A imagem da semana não poderia retratar um tema tão importante para nós quanto o primeiro leilão de um campo de petróleo no pré-sal em nosso país. O leilão, bastante polêmico, não poderia deixar de vivenciar momentos de tensão. Ontem, o governo Federal e do Rio de Janeiro praticamente sitiaram o local onde ocorreria o evento, com ajuda do exército. Nada mais preventivo, com a de inúmeros grupos contrários à a privatização da produção do petróleo.

A imagem acima é o cordão de isolamento, formado até mesmo na areia da praia, evitando a aproximação de manifestantes. No entanto, ontem o número de protestantes não justificou a força deslocada pelo governo. Eram poucos, quase insuficientes para retratar a guerra jurídica dos últimos dias entre governo e oposicionistas ao leilão. Foram 25 liminares ao todo, todas derrubadas. 

O resultado final do leilão foi de sucesso, estabelecendo a estatal brasileira Petrobras como a grande vencedora do consórcio, que conta ainda com as gigantes Shell e Total, e as chinesas CNPC e CNOOC. Uma vitória e tanto para os planos do governo Federal, ainda mais na tempestade em que o processo se transformou.

Entre políticos e analistas, há burburinhos indicando que o resultado estava definido há tempos, quadro se é realçado pela desistência em massa de empresas e a vitória tranquila da proposta da Petrobras. No entanto, outros afirmaram que a vitória de tal consórcio foi a melhor das possibilidades. A nós brasileiros, agora resta torcemos e cobrarmos  para que a exploração dessa riqueza traga benefícios ao país.


Política Externa Local

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Ponte Estaiada – São Paulo


Semana passada foi publicado um artigo intitulado “Foreign Policy Goes Local”* na revista “Foreign Affairs” e o mesmo tornou-se o quinto texto mais acessado nos últimos dias na página web do periódico. Escrito por Rodrigo Tavares, atual Assessor Especial para Assuntos Internacionais do Governo de São Paulo, mostra como o estado federado aumentou sua projeção externa nos últimos anos, adquirindo patamar de “poder diplomático” da nova ordem mundial caracterizada pela intensificação da globalização. 

O artigo em si é bem escrito e fundamentado. Mas, além disso, devo destacar outro ponto: o espaço aberto em uma revista de grande porte para tratar de uma nova temática que há anos luta por maior reconhecimento na academia e, por que não dizer, na própria prática política. Estou falando do que Rodrigo Tavares e a grande maioria da literatura que se debruça sobre essa área denominam de paradiplomacia, seja ela a inserção internacional dos atores subnacionais (cidades, municípios, estados federados, províncias, departamentos, regiões, etc.). 

Em momento anterior eu mesmo escrevi uma pequena série de três postagens sobre paradiplomacia aqui na Página Internacional. Em “Para…o que?”, falei sobre o mundo do pós-Guerra Fria e dos novos atores que emergiram. Citei alguns dos principais exemplos de atores subnacionais com intensa atividade internacional e entrei no mérito da paradiplomacia desenvolvida nos processos de integração regional e em redes de cidades. 

Voltando ao assunto principal, o texto referente à “Política Externa a caminho do Local”, não sei se é de simples acesso ou não ter um texto publicado na “Foreign Affairs”. Mas muito me alegrou esse texto, porque sou pesquisador da área. São Paulo, e poderia citar até mesmo a cidade além do estado, tem uma potencial gigante de internacionalização. E isso tem sido fomentado, em maior ou menor escala, nos últimos anos. 

Ao final do texto, Rodrigo Tavares utiliza o termo “diplomacia subnacional” e, particularmente, defendo mais a utilização desse termo do que paradiplomacia. O discurso sobre a inserção externa dos atores subnacionais é muito importante para dar respaldo a essa área tanto na academia quanto na prática. Cada vez mais me convenço de que, quando falamos sobre política local, são necessárias pessoas formadas em Relações Internacionais para dar conta dessa demanda. Teoria e empiria se misturam, e muito, aqui. 

Países como Bélgica, Alemanha, África do Sul, Áustria, Estados Unidos, Canadá, México, Argentina e por aí vai, têm uma política externa mais permeável aos interesses subnacionais. No Brasil, conforme apontado no texto, essa ideia vem crescendo, mas digo que o Itamaraty ainda tenta concentrar ao máximo a tomada de decisões e nosso histórico de centralização de poder ainda atua como “barreira” à diplomacia subnacional. 

O governo paulista vem quebrando essa lógica com muitos méritos. Possui população densa, infraestrutura e produto interno bruto para tanto. Além dos estados, muitas cidades também estão criando secretarias ou coordenadorias municipais de Relações Internacionais com o intuito de aumentarem diálogo, cooperação e troca política com seus semelhantes internacionais. Belo Horizonte, Vitória, Santo André, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Guarulhos, Campinas detêm ineditismo e destaque, também, nesse mérito. 

Que seja, gradualmente, produzido mais conteúdo sobre paradiplomacia, ou melhor, diplomacia subnacional. E que seja publicado em “Foreign Affairs” e muitos outros periódicos. Área de estudos fascinante tanto para pesquisadores quanto para aqueles que mexem com a política local no dia-a-dia. Se você pretende estudar ou está estudando Relações Internacionais e ainda não sabe “para que serve o curso?”, experimente conhecer o mundo da política local. Ratifico: só haverá maior crescimento da atuação internacional dos atores internacionais com o trabalho de pessoas especializadas em Relações Internacionais. 

* Para acessar o texto é necessário fazer um breve cadastro na “Foreign Affairs”.


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PSB e Marina, tudo a ver?

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Nesta semana, a principal personagem foi, sem dúvida, Marina Silva. Assim como no caso do voto de minerva de Celso de Mello sobre os tais embargos infringentes, muitos já apontavam a virtual rejeição do registro da Rede Sustentabilidade em sessão do TSE. Pois bem, na quinta-feira, de fato, veio a resposta negativa. Assim, um grande força para as eleições presidenciais ficava de fora da disputa. Sem o registro até o início deste vez, ficou inviabilizada a participação da Rede nas eleições em 2014.  

O grupo composto pelo Rede Sustentabilidade, que provavelmente conseguirá o registro no futuro próximo, transformou-se em um movimento político de relativa importância em um cenário pré-pré-eleitoral, mas ficou impedido de participar no jogo quando ele realmente começasse. Na sexta-feira, as propostas para filiação de Marina Silva pipocaram. Na prática, parecia que ela poderia aterrissar numa legenda (de aluguel), para assim colocar em marcha sua candidatura à presidência em 2014.  

Não foi o que aconteceu. Em um lance surpreendente, Marina escolheu juntar-se a um partido que tem candidato, o PSB. Na coletiva para anunciar a aliança, Eduardo Campos contemporizou ao afirmar que a decisão de quem iria ser candidato ocorreria futuramente, por outro lado Marina demonstrou e afirmou saber que não encabeçaria um chapa do PSB em 2014. A virtual candidatura de Campos, atual governador de Pernambuco, até mesmo provocou o rompimento com o governo e um racha interno com o grupo contrário a um voo presidencial solo. Por isto, faria pouco sentido ver o atual governador de Pernambuco como vice de Marina.  

No contexto atual, resta saber se o eleitor se convencerá que existe um alinhamento (ou pelo menos compatibilidade) entre os programas dos dois partidos. Além disto, se o eleitor aceitará votar em uma coligação que se inicia entre um partido formalmente inexistente e outro partido que aluga espaço para um grupo político que obviamente tem projeto próprio. Contudo, existem os lados positivos também. Campos quer apresentar-se como um personagem que fez parte do governo, mas que vê problemas na condução da política econômica. Marina, por sua vez, muito popular nos últimos meses, poderia significar um aporte importante ao referendar o primeiro. 

Parece cedo para prognosticar qualquer cenário, porém é evidente que a corrida fica mais interessante com Marina Silva. Apesar da surpresa, a união entre Rede e PSB, no final das contas, pode até parecer lógica. Resta saber se a união permanecerá estável e, no caso afirmativo, por quanto tempo.  


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O poder do discurso

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Ontem começou a Assembleia Geral das Nações Unidas. A data não é ao acaso – as reuniões ordinárias sempre começam em setembro, todo ano. Antes da reunião em si, os países podem fazer um discurso inicial, e aqui tem existe outra tradição interessante – a de que o Brasil sempre é o primeiro a fazê-lo. 

Esses discursos, mais do que apresentarem a “posição” do país, são um momento importante e simbólico. Quem não se lembra de Kadafi rasgando a carta da ONU? Ou Chavez falando do cheiro de enxofre após o discurso do Bush filho? Além dos momentos mais pitorescos, é claro que outros são mais impactantes, inclusive o que começou essa tradição de o Brasil inaugurar as sessões: logo na segunda reunião da AG (que foi extraordinária), em 1947, aquela que definiu a formação do Estado de Israel, o representante brasileiro Osvaldo Aranha foi um dos responsáveis pela defesa (e sucesso) da proposta, e como o primeiro orador inaugurou essa tradição. 

Recentemente, o Brasil vem sendo representado pelo seu chefe de Estado, e o discurso acaba tendo uma importância relativa para entender aspectos de sua política externa. Lula por exemplo teve seu grande momento internacional quando trouxe o tema da pobreza para o debate na AG. Mesmo Dilma já tinha feito algo parecido quando trouxe o debate da “Responsabilidade ao Proteger”, que estava em voga na época por causa da invasão da Líbia, e que hoje está meio esquecido, mas teria tudo para ser a bola da vez com a questão da Síria.

Com isso chegamos ao discurso de ontem. Dilma fez o que se esperava: reclamou da espionagem dos EUA, condenou isso como violação do Direito Internacional e propôs uma regulamentação para a atividade no “cyber espaço” para que não seja usado como arma de guerra. A discussão é polêmica, a rede é uma terra de ninguém, mas se temos convenções até para tornar o espaço sideral uma área sem conflitos, por que não? Não é despropositado, e se vai render alguma coisa em longo prazo, é difícil saber, mas o discurso tem um peso e entra pra história pessoal da presidente, além de ter tido um grande destaque na imprensa internacional. 

Mas talvez os discursos mais interessantes (e esperados) tenham sido dos EUA e do Irã. A perspectiva de uma negociação é bem plausível agora, já que o novo presidente, Hassan Rouhani, parece bem mais flexível que Ahmadinejad. O momento seria de cautela, mas há uma expectativa positiva. Por outro lado, o discurso dos EUA é mais pessimista, com um Obama abatido e com inimigos por todos os lados, e a imagem de um país indeciso quanto a seu papel de potência. As críticas recentes de Putin a essa “excepcionalidade” parecem coadunar com a “crise de identidade” dos EUA, que quer manter sua posição no mundo mas não sabe exatamente como.

O fundamental disso tudo é que os atores principais parecem não mudar. Lideranças pontuais ou novidades (como o egípcio Morsy, que no ano passado era a vedete da AG e hoje nem se sabe onde está preso) surgem todo ano, mas no fim das contas o peso maior recai sobre os países mais tradicionais. E o Brasil, bem ou mal, faz parte desse grupo.


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Brasil e Argentina: amizade nas ruínas da rivalidade

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Atualmente, trata-se de um dos nossos relacionamentos bilaterais mais importantes. A Argentina é a 3º maior parceira comercial do Brasil, atrás somente de China e Estados Unidos. Em termos políticos, há uma importância talvez ainda maior. Contudo, a tônica que marcou historicamente as escolhas de ambos os países, desde o século XIX, teve como sombra importante a rivalidade com o vizinho. Em determinados momentos, a tensão foi além da habitual brincadeira relativa a uma inimizade mais teórica que propriamente prática.   

Durante o século XIX, em um cenário de consolidação nacional na bacia do Prata, consolidou-se uma ambígua relação que prevaleceu até meados de 1980. Naquela época, argentinos e brasileiros empreendiam estratégias com o objetivo de consolidar uma hegemonia sobre o Uruguai (antiga província Cisplatina, que conquistou sua independência em relação ao Brasil durante o Primeiro Império). Deste período, ficou conhecida a oposição brasileira a Rosas, líder da então província de Buenos Aires.   

Poucos anos depois, em um curioso desdobramento, consolidaram uma aliança militar contra o Paraguai. Logo, contudo, voltariam a escolher lados opostos. Trazendo o debate para tempos contemporâneos, a década de 1970 foi marcada pela discordância sobre projetos hidroelétricos. O Brasil queria construir Itaipu (em parceria com o Paraguai), enquanto a Argentina temia que o aproveitamento do rio Paraná pelos brasileiros prejudicasse a instalação da usina hidroelétrica de Corpus em seu território. Naquela época, apresentar ambos os países como sócios, em qualquer aspecto, seria uma proposta ousada.  

Em 1979, a resolução da questão do aproveitamento energético, firmada por Brasil, Argentina e Paraguai, marca um momento de inflexão. Logo no ano seguinte, brasileiros e argentinos assinariam um acordo sobre usos pacíficos da energia nuclear. Estes primeiros passos não representaram uma guinada para a cooperação, mas um período de estabilidade que possibilitou o fortalecimento de uma parceria até então impensada. As respectivas transições democráticas ensejam novas condições de aproximação, possibilitando negociações que levaram à constituição de um tratado de integração bilateral e, posteriormente, sua expansão para a configuração do Mercosul.  

Durante a década de 1990, novos mecanismos foram criados para fomentar o diálogo e consolidar uma parceria estratégica. A relação tampouco esteve livre de crises conjunturais, mas nunca mais se aproximou da rivalidade de outrora. A recente sintonia no âmbito bilateral em termos de agenda social aprofundou temas relacionados ao combate a mazelas no Mercosul e a abriu novas frentes de cooperação. Os críticos podem apontar para discordâncias quanto à liderança regional, às negociações multilaterais de comércio, entre outras. Os fatos, no entanto, corroboram que estas crises pontuais não afetaram a estabilidade estrutural do relacionamento bilateral.  

Não fosse assim, como poderiam existir projetos para construção de um reator nuclear e um satélite de observação conjuntos? Além da importância comercial, especialmente com o advento do Mercosul, rompeu-se o padrão anterior ao consolidar parcerias em setores abrangentes. Há, por exemplo, projetos nas áreas de defesa, de energia, de pagamentos em moeda local e de mobilidade estudantil. A rota da integração imobiliza a margem de manobra dos governos para reconduzir os países a uma rivalidade extremada. Nada mais resta do que tratar de manter diálogos de alto nível e estabelecer uma concertação para discordâncias. Consolidado o subcontinente como área de paz e livre de armas nucleares, ambos puderam se concentrar no que realmente interessa para seus povos.  


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Política Externa – o Retorno?

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Pois é, o cenário internacional anda agitado, mas pela primeira vez em muitos anos um causo de política externa está agitando o noticiário nacional e envolvendo os brios do próprio Brasil. Vale lembrar que política externa até vira notícia no Brasil, mas rende muito pouco em termos de eleições, então tanto a população como boa parte do governo não dão muita importância ao que o Brasil faz lá fora. Quando dá, são as trapalhadas como o rolo com o programa nuclear iraniano ou as expropriações de empresas brasileiras.

Mas eis que os EUA cometeram o maior erro que um espião pode cometer – se deixar ser pego no ato – e de repente o tema “internacional” ficou quente de novo no Brasil. Espionagem, guerra e prostituição existem desde que o mundo é mundo (e geralmente estão interligadas, diga-se de passagem), mas nos tempos modernos, em que a moralidade da opinião pública massacra o pragmatismo dos Estados, o Brasil não poderia deixar sem resposta essa afronta a sua soberania no que é considerado até mesmo um ato de hostilidade contra um “país amigo”. Pela primeira vez em muito tempo se vê uma reação de ultraje da opinião pública nacional por causa de algo lá de fora. 

Quem ganha com isso, e chegamos ao centro da discussão aqui, é a presidente Dilma. Ao cancelar a reunião que estava marcada com Obama, assim como Putin fez há algumas semanas, dá a entender que se coloca como uma interlocutora que busca respeito. Não havia muita opção quanto ao que fazer – se deixasse o assunto esfriar, seria fraqueza; uma reação mais dura, exagero. No mínimo ela consegue melhorar sua imagem interna, mas o fato é que a situação se mostrou bem oportuna para que Dilma dê um fôlego a sua política externa. 

São vários fatores que colaboram para isso – a remoção do ministro da pasta, Antonio Patriota, que dá novos ares ao Itamaraty; a possibilidade de o Brasil ter um papel relevante na crise da Síria (seja pelo fato de a Rússia ser um interlocutor próximo, seja após se descobrir que um funcionário brasileiro da ONU poderia ter evitado toda essa crise anos atrás se não fosse… pelos EUA, sempre eles!), e a revelação da espionagem em massa dos EUA que foi a deixa para Dilma (voltar a) atuar. 

Vale ressaltar que sua política externa ficou meio acanhada em comparação à dos antecessores. Dilma recuou em alguns temas que eram peça-chave para Lula, e reduziu seu próprio papel (a chamada “diplomacia presidencial”, de caráter personalista, que era muito forte tanto em FHC quanto Lula). A grande exibição de Dilma até agora foi a proposição do conceito de “responsabilidade ao proteger”, uma releitura da “responsabilidade de proteger” que a ONU emprega (ou deveria empregar…) em casos como o da Síria, mas que perdeu impacto e não foi tão aclamada quanto, por exemplo, a inclusão do tema da miséria no debate internacional feita pelo Lula. 

Digamos que o Brasil não abriu mão de algumas pretensões, mas prefere “deixar pra mais tarde”. É cedo pra tirar conclusões, mas o cenário de agora apresenta uma chance boa de Dilma tentar uma política mais arrojada, atuando pontualmente em alguns setores para demarcar a posição brasileira, mas sem o espetáculo dos anos Lula. O tempo irá dizer se essa cautela de Dilma, agora forçada à ação, vai render frutos, mas a chance para a mudança – e, quem sabe, deixar sua marca na história da política externa que não seja o apagado debate sobre a “responsabilidade ao proteger” – está na mesa.


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Cegueira não tem fim

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Em todos os lugares, de tempos em tempos um tema qualquer polariza a discussão sobre os caminhos adotados pela política nacional. Grupos se concentram em lados opostos, à esquerda e à direita, liberais e social-democratas, conservadores ou progressistas. Apresentam caminhos diferente para a solução de problemas em comum. Desses embates surgem propostas e posições que irão definir o futuro das decisões políticas importantes. Na saúde, nos transportes, na educação, nos direitos das minorias etc.

Mas a polarização tem um efeito colateral. Dela, surgem grupos que mais parecem caricaturas. Logo, começam a colocar ideias por vezes esdrúxulas, em outros momentos perigosas. E assim formulam as mais absurdas respostas para a realidade e os problemas sociais. Qual a política de emprego? “Expulsar os imigrantes, metralhar os patrões.” Qual a solução para a violência? “Execuções em praça pública, condenações sem julgamentos”.  

Nos dias atuais, ao menos no processo decisório, as caricaturas quase nunca aparecem. Não aparecem por que já perderam o embate da discussão, não foram levadas suficientemente a sério pela maioria. E cada dia são menos levadas. As caricaturas sempre ficam em segundo plano, longe do centro debate. Exceto no Brasil. Aqui, há uma recente tendência que a caricatura apareça mais que o bom senso em grande parte das vezes. E com uma recorrência que deveria nos assustar.

Como eu poderia provar essa afirmação? Com o assunto do momento: a vinda de médicos estrangeiros ao Brasil, por meio de um programa federal de “cooperação internacional”, em que se abrem vagas para estrangeiros trabalharem no Sistema Único de Saúde. Uma decisão que tem gerado bastante polêmica. Vamos compreendê-la melhor.

Tudo começou quando Alexandre Padilha, então ministro da saúde sem grande destaque, foi alçado pelo ex-presidente Lula como uma dos nomes futuros de seu partido. Padilha supostamente sairia do ministério rumo à disputa para algum cargo executivo, de preferência o governo do Estado de São Paulo. Mas ele precisava de uma propaganda positiva. Mas como fazer a propaganda de um homem que gerencia a mais criticada área pela população? Aqui no Brasil é possível. Basta criar uma “marca”.

As marcas servem para cobrir gestões medíocres ou instáveis. A partir delas é que criou-se a ideia de um ministro que é “pai do Real” ou de uma suposta “mãe do PAC”. Se personaliza tudo. Quem se interessa por política interna sabe que aqui a propaganda política não morre órfã. Padilha, que não era pai de nada, resolveu ser pai do Programa Mais Médicos.

Foi um ano de negociações, sempre com muitos empecilhos e criticas, em que o ministro buscou transformar seu filho em realidade. Até que ocorreram as manifestações de junho. Na ânsia de dar resposta satisfatória ao povo, a presidente decidiu tomar um série de medidas de melhoria em várias áreas, inclusive na saúde.

Anunciou então 50 bilhões de reais em investimentos, mais de 12 mil novas vagas de graduação em medicina nas universidades públicas federais e a vinda de milhares de médicos estrangeiros. Notem, a medida da vinda de médicos estrangeiros foi anunciada como a principal delas. Óbvio, 12 mil vagas nas universidades e 50 bilhões em investimentos valem menos politicamente do que ser pai de algum projeto.  

A partir daí houve a polarização, tão comum nas democracias. Parte dos médicos acusavam a medida de populista. Outros defendiam investimentos além de novas contratações, ou a melhoria das condições de trabalho nas cidades pobres, para que surgissem vagas mais atraentes. Outros argumentavam que o aumento de formandos por si só solucionaria o problema da falta de médicos, não precisando de medidas emergenciais. O assunto seguia interessante. A vinda dos médicos estrangeiros era mais um bom debate no efervescente momento dos protestos. Aos poucos os médicos foram perdendo espaço. Pesquisas mostravam que o apoio ao plano do governo saíra de 7% de desvantagem para os contrários à medida, para 8% de vantagem.

Pouco a pouco, os contrários a vinda dos médicos foram mudando de argumentação. Foram criando uma polêmica atrás de outra. Primeiro, contestaram a competência dos postulantes às vagas. Depois do sistema Revalida. Até que surgiu o anuncio da vinda em massa de médicos cubanos.

O problema é que pega mal a palavra Cuba aqui no Brasil. Inclusive, essa é uma palavra que parece mal-assombrada no país. Toda vez que entra em cena temos a percepção do ressurgimento de muitos esqueletos há muito enterrados. Esqueletos ideológicos. Não demorou muito para pessoas começarem a criar um suposto plano de infiltração de terroristas de jaleco, disfarçados para impor uma certa revolução vermelha.

Em qualquer país tais suposições não freariam o plano,  nem ganhariam repercussão. Mas aqui as caricaturas, por vezes, pesam mais que o bom senso. Os jornais passaram a noticiar a vinda de médicos como um embate ideológico sobre o apoio ou não à ditadura cubana. Houve quem ousasse tecer um plano para o governo brasileiro “financiar” a ditadura cubana, sabe-se lá por qual motivo.

E daí surgiram anomalias cada vez maiores. Um diretor regional de medicina dizendo que chamaria a policia aos estrangeiros e, pasmem, não socorreria erros médicos dos mesmos. Em uma ordem, o médico rasga o juramento que fez ainda na universidade, e diante da posição que ocupa, não mede esforços em fazer política com vidas.

Mas o assalto dos absurdos continuou. “Médicos cubanos são mercadorias, estão despreparados”, “a medicina cubana esta superada”. Até que surgiu a noticia de que seriam “quase escravos”, trabalhariam por 30% do salário. O restante seria entregue ao governo cubano. Enfim uma discussão valida. Afinal, seria correto essa forma de remuneração? 


Voltamos a boa discussão por um momento. Até que os médicos cubanos chegaram, afirmando amores ao Brasil. Dizendo que trabalhariam até de graça, que concordavam com a forma de pagamento. Seria o fim da polêmica de que os cubanos seriam escravos prestes a fugir do domínio do regime. Como combater o apoio dos próprios cubanos a suas contratações?

O resultado é o da foto acima. Uma dúzia de médicos recepcionando estrangeiros da forma mais vergonhosa possível. Criando uma espécie de corredor polonês, vaiando, ofendendo, pedindo a saída deles do país. Se houvesse um retrato do preconceito em exposição em uma galeria de arte, seria o acima. O que levaram tais médicos a se comportarem dessa forma? Diria eu, que o resultado do triunfo da mediocridade sobre o bom senso.

A caricatura vence o bom senso no Brasil por muitas vezes. Quando li que os médicos cearenses ofendiam os cubanos os chamando de “escravos”, já sabia do que se tratava: uma velha ação muito comum no Brasil. Imaginem que a mulher apanha do marido. Dias depois ela volta a viver com ele e apanha novamente. A partir de então se criminaliza a vitima, e o marido está livre para futuras surras. Algo do tipo “Os cubanos são escravos. Mas apoiam o modelo do seu governo? Então merecem a senzala.” A senzala, o corredor polonês, a xenofobia de perto. O brasileiro leva muito a sério o raciocínio binário.

Após o fato ocorrido, uma jornalista ainda colocou em uma rede social uma comparação entre a aparência de médicas cubanas e das empregadas domésticas. Em uma só frase foi racista, preconceituosa e um bocado ignorante. No fim ainda se esquece que os cubanos vieram exatamente para atender gente humilde, que ela mesmo humilha. Em sua “defesa” aos mais pobres, ainda afirma: “coitado desse povo, ser tratado por essa gente!” Coitado mesmo, que depende da decisão e ação de uma suposta elite, que tão facilmente cai no limbo do pensamento medíocre. A caricatura perfeita do preconceito, da xenofobia, do corporativismo e da intolerância. 

Esse debate surpreende pelo baixo nível até a quem já está acostumado as discussões sobre política em nosso país. E isso é de impressionar! O limbo intelectual tomou conta do centro do debate. Já não é a primeira vez que isso ocorre, seria otimismo demais dizer que será a última. E para quem se interessa pela melhoria do país, resta se contentar com opiniões desse tipo pipocando por todos os lados. Poderíamos até mudar a letra daquela velha música, para mostrar o que as vezes sentimos nesses momentos: “Cegueira não tem fim. Paciência, sim!”


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10 anos depois

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Na última segunda-feira, dia 19 de agosto, comemorou-se o Dia Mundial da Ação Humanitária, em homenagem àqueles que dedicam suas vidas ao trabalho humanitário nas mais diversas situações de necessidade no mundo, recordando especialmente os trabalhadores que perderam (e ainda perdem) suas vidas no trabalho.

A data foi criada pelas Nações Unidas no ano de 2008, relembrando o triste atentado de 19 de agosto de 2003 em Bagdá, no Iraque, durante o qual 22 funcionários da ONU faleceram e mais de 150 ficaram feridos. Neste dia o Brasil e o mundo lamentaram a morte do brasileiro Sérgio Vieira de Mello, então chefe da missão no Iraque, funcionário de grande reconhecimento e possivelmente cotado para assumir o Secretariado-Geral desta organização à época (interessante documentário sobre sua vida e legado disponível aqui).

10 anos depois, vemos que as condições de trabalho humanitário no mundo têm se tornado cada vez mais difíceis, com crises que impressionam pela quantidade de vítimas, pela dificuldade de acesso da ajuda e, frequentemente, pela imobilidade internacional diante dos grandes interesses político-econômicos em jogo. Uma Síria especialmente preocupante nos provoca hoje reflexão sobre as condições de trabalho humanitário no mundo. Quantos Sérgios anônimos não perdem a vida diariamente na realização de seu trabalho? Quanto ainda deve ser feito para garantir a proteção daqueles que escolheram a proteção dos mais vulneráveis como opção de vida?

Incertezas ainda rondam o atentado ao Iraque em 2003 (leia aqui artigo de Carolina Larriera, companheira de Sérgio Vieira de Mello também presente no momento do atentado) e aceitar esse contexto político de interesses obscuros talvez seja uma das tarefas mais difíceis para qualquer pessoa envolvida com cooperação humanitária. Os ideais se veem confrontados com uma realidade muito menos gentil, mas diante da qual não se pode deixar de acreditar na possibilidade de fazer a diferença em sociedades afetadas pelas mazelas de conflitos armados e desastres socioambientais.

Que este marco de 10 anos desde o atentado em 2003 possa de alguma forma nos lembrar do que já passou, nos fazer questionar o que ainda não está claro, nos inspirar pelo exemplo de tantos – mas especialmente de Sérgio Vieira de Mello – e nos mostrar que os caminhos a seguir ainda estão sendo traçados e que devem respeitar sempre os princípios humanitários para aqueles que sofrem e também para aqueles que trabalham para minimizar este sofrimento.

[Em meio às homenagens ao Dia Mundial da Ação Humanitária, a campanha anual da ONU tem como conceito “transformar palavras em ações”, incentivando as pessoas a completarem a frase “O mundo precisa de mais…” para que as palavras sejam financiadas pela iniciativa privada em prol das ações humanitárias que estão se desenvolvendo hoje no mundo. Veja mais aqui e participe aqui.] 


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Um elogio e duas matérias

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Pois bem, eu estava sem ideias para escrever até receber minha Revista “Pesquisa” da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). É um dos melhores periódicos do Brasil, sem dúvida alguma. A FAPESP é referência em pesquisas científicas e acadêmicas e ela tenta passar um pouco do conhecimento produzido em seus projetos nessa revista. Para quem não conhece, fica a dica. É só clicar nesse link aqui

Foi daí que comecei a dar uma lida na edição de Agosto (n. 210) e logo na capa vi o título “A era dos extremos”. Logo pensei na célebre obra de Eric Hobsbawm sobre o seu breve século XX. Abri e vi que o escritor pontuou o livro em questão no primeiro parágrafo e meu interesse aumentou. A matéria é sobre mudanças climáticas aqui no Brasil e atesta que até 2100 a temperatura em todo país aumentará entre 3º a 6ºC. Ainda assim, as chuvas tenderão a aumentar 30% no Sul-Sudeste e diminuir até 40% no Norte-Nordeste. 

O projeto financiado pela fundação tem como título “Brazilian Model of the Global Climate System” e está sob coordenação de Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Bem verdade, representa uma extensa rede de pesquisas nacional. São vários pesquisadores e instituições envolvidas, sendo que se destaca o fato do Brasil ser o único país do hemisfério sul a possuir seu sistema próprio de monitoramento do clima. Para se ter uma breve noção da complexidade disso tudo, foram analisados até o tamanho das gotas de chuva para saber se haverá mais ou menos precipitações. Os dados desse primeiro relatório indicam com maior importância que a temperatura aumentará em todas as latitudes brasileiras. Ou seja, aquela história do aquecimento global ser mito é pura mentira. A reportagem completa pode ser acessada aqui

E não menos importante, já mudando de assunto, essa mesma edição da Revista “Pesquisa” da FAPESP trouxe outra matéria intitulada “Gosto pela Diplomacia”. Como resultado do projeto “Brasil, as Américas e o Mundo – política externa e opinião pública”, coordenado pela Professora Maria Hermínia de Almeida do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, fora observado que cada vez mais a política externa brasileira entra no interesse nacional, contrariando a tendência de tempos passados. De fato, brasileiros nunca se interessaram muito por política interna e menos ainda pela externa ou Internacional. 

Fonte: Revista Pesquisa (FAPESP) – n. 210, Agosto/2013

Mas essa constatação mudou nos últimos anos. Além da política externa estar presente no dia-a-dia da população, progressivamente há a negação de que o Itamaraty é “um caso bem sucedido de insulamento burocrático”. A maioria dos entrevistados acredita que o Brasil terá grande peso nas Relações Internacionais daqui pra frente e afirma que aos BRICS pertencerá o futuro. Dos resultados mais surpreendentes destaca-se um: houve um consenso entre a opinião do público em geral e dos especialistas! Será que isso denota uma gradual ruptura no Ministério das Relações Exteriores (MRE) no sentido de que, ao contrário do que muitos imaginavam, a população sabe o que está dizendo sobre nossa política externa? Para a leitura completa da publicação, clique aqui

Ficam aqui registrado meu elogio à FAPESP e minha menção às duas reportagens. Se tiver interesse, leia, pois são muito boas e apresentam uma discussão bem mais profunda e especializada comparado com o que escrevi de forma resumida acima.


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Imagem da Semana

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A imagem dessa semana é de hoje, e mostra muito bem como a diplomacia é uma atividade complexa, e no fim das contas meio ingrata. No encontro do Ministro das Relações Exteriores do Brasil com o Secretário de Estado dos EUA, Patriota fez coro ao discurso das últimas semanas e condenou a espionagem de cidadãos brasileiros por órgãos de segurança norte-americanos, indo mais longe, ao clamar pelo fim dessas atividades. Kerry fez o que se espera do chefe da diplomacia dos EUA, justificando do jeito que podia as atividades de seu país e se esquivando ao máximo. Quando pensamos em saias-justas que esses encontros podem causar (e por vezes são cancelados, como vimos no caso do encontro entre Obama e Putin que foi pro espaço na semana passada), é de admirar a frieza dessas pessoas. Talvez nem tanto no caso de Patriota, que não fez menos que o esperado, mas principalmente de Kerry, que com toda calma do mundo fez sua parte no meio de “lobos”, por assim dizer. Se a desculpa vai colar, é claro, são outros quinhentos.