Acordo histórico

Por

Nos últimos anos, qualquer menção à Rodada Doha seria utilizada como sinônimo de fracasso, reunião interminável ou impossibilidade de consenso. Não mais. Vemos, em momento dito histórico, o primeiro acordo firmado no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) desde o início de suas atividades, em 1995.

Sob a Diretoria-Geral do brasileiro Roberto Azevêdo, a Rodada Doha foi “destravada” com o “Pacote de Bali” ou “Doha Light”, adotado por consenso entre os 159 membros da organização, na última reunião ministerial ocorrida essa semana em Bali, na Indonésia. Consenso que não é e nem nunca foi simples, repleto de reviravoltas e dificuldades de negociação, mas que foi, finalmente, após quase duas décadas, alcançado nos termos deste pacote.

De fato, os elementos acordados representam menos de 10% das ambições originais de Doha na facilitação comercial, mas trazem consigo o que foi chamado por Obama de “rejuvenescimento do sistema multilateral de comércio”. Sistema multilateral que, reconhecidamente, ainda tem muito que avançar, mas cujos resultados finais não podem ser visualizados em um bloco único, mas sim em blocos fragmentados de conversação, sendo o acordo de Bali histórico, portanto, principalmente neste sentido.

Restaurar a crença no poder do multilateralismo e nos benefícios da cooperação global na esfera comercial significa restaurar os laços para futuros acordos – nunca fáceis, dados os interesses de todas as partes envolvidas – mas não por isso impossíveis de serem alcançados.

O acordo aprovado possui três elementos essenciais: “agricultura, com um compromisso de reduzir os subsídios às exportações; a ajuda ao desenvolvimento, que prevê uma isenção crescente das tarifas alfandegárias para os produtos procedentes dos países menos desenvolvidos, e a facilitação de intercâmbios, que pretende reduzir a burocracia nas fronteiras”.

No âmbito da “agenda para o desenvolvimento” da OMC, os ganhos principais envolvem a redução dos trâmites alfandegários e burocráticos que dificultam relações comerciais, reduzindo custos e atrasos e viabilizando a geração de empregos – instituto estadunidense estima em ganhos mundiais após o acordo da ordem de US$ 1 trilhão e a geração de 20 milhões de empregos.

Com a ambição de renovar a credibilidade de uma organização cuja imagem desgastou-se principalmente nos últimos dez anos, vemos um Azevêdo empenhado e empenhando-se em facilitar consensos, trazendo novo ar à instituição por meio do apoio de seus membros. Ao negociar temas tão sensíveis, a imprevisibilidade impera e os interesses são muitos, nem sempre mútuos. Bali é só o início na esperança de maior flexibilidade comercial por parte dos países desenvolvidos. Acordo histórico, impulsionando novas páginas na história da OMC… 


Categorias: Brasil, Economia, Organizações Internacionais


Black Friday

Por

E chegou o grande dia esperado por milhares de brasileiros. Ir a alguma loja física ou praticar o e-commerce com descontos de até (grifo meu) 70% sobre o preço real. Já peço desculpas pelo bordão: “Só que não!”. Teoricamente a Black Friday é o dia do ano com as maiores promoções e descontos do comércio, mas na prática, aqui no Brasil, isso está longe de ser real. 

A “sexta-feira negra” foi criada nos Estados Unidos em 2005 como tentativa dos comerciantes e empresários em alavancar as vendas sempre no final de novembro e logo após o feriado de Ação de Graças, o qual é muito comemorado e exaltado por lá. Para os norte-americanos, estar com orçamento no “black” significa um bom sinal e é sinônimo de lucros (não sabia disso até hoje e não me pergunte o porquê). Com o passar dos anos, o dia tornou-se internacional, diga-se de passagem, e atualmente ocorre em vários outros países como Canadá, Austrália e Reino Unido. 

Obviamente, rumou ao Brasil, até porque não só programas de tevê como “Big Brother” e “The Voice” são copiados por estas bandas. Carece de fontes, mas se estima que tal evento foi inaugurado aqui em 2010, sendo que me lembro somente do realizado em 2012. Virou sinônimo de piada, falsas propagandas e “feriado pré-natal” em virtude de vários lojistas aumentarem o preço na véspera e jogarem descontos em valores mais altos. 

Como se já não bastasse, agora em 2013 a Black Friday virou “meme”, algo viral e que ficou popular em muito pouco tempo na internet e redes sociais. A sexta-feira virou Black Fraude, “Tudo pela metade do dobro”, “Black Friday é uma cilada, Bino”, “Black is a Trap” e assim por diante. Hoje, no Facebook, só se fala disso e nada mais. É gente tentando vender e o PROCON tentando orientar os consumidores para não trocarem coelhos por lebres. 

Nada mais internacional do que a Black Friday, né? Saiu da terra do Tio Sam, vem rumando para outros países e serve como mais um dia para todo mundo comprar coisas que, por vezes, seria desnecessário. É aquela história de já aproveitar o fim do ano com presentes de Natal e propagar a ideia de que adquirir itens “x” é bom demais (e em algumas ocasiões não deixa de ser verdade). Até o Greenpeace lançou a campanha Green Friday para criticar o consumismo da “sexta-feira negra” e defender a preservação das florestas. 

Pode esperar que daqui uns tempos surgirão Yellow Friday, Blue Friday, Purple Friday, etc. O nome em inglês fica mais bonito e sempre haverá pessoas comprando a ideia. Tomara que essas não virem fraude, independentemente do motivo de suas existências.


Categorias: Brasil, Economia, Mídia


A dupla imbatível

Por

Congestionamentos em feriados prolongados tornaram-se habituais no Brasil

Fonte da imagem: Renato Cerqueira/Futura Press


Já é de praxe aqui no Brasil. Se tem feriado, ainda mais feriado prolongado, os congestionamentos no trânsito das grandes cidades e no litoral aparecem como “bônus”. Ontem não foi diferente e hoje, dia da Proclamação da República, a dupla imbatível voltou a aparecer. Na cidade de São Paulo registrou-se o maior congestionamento da história com aproximadamente 310 km de filas, o que equivale a quase 36% de todas as vias municipais monitoradas pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). 

São Paulo é um caso clássico. Mas congestionamentos em feriados também ocorrem com frequência no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e várias outras capitais. E no litoral nem se fala, sentido Santos e Ubatuba sempre é um caos. Mas, afinal, quais seriam as explicações para esses acontecimentos? Gestores públicos sempre argumentam que não existe possibilidade de acabar com o intenso tráfego durante feriados por uma questão simples: é muita gente para pouco espaço. 

E isso acaba sendo a realidade de grandes cidades brasileiras e ao redor do mundo. É a ótica da aglomeração. Não é algo anormal, diga-se de passagem, só que cada vez mais muda-se a paisagem das cidades e emergem aqueles arranha-céus gigantescos. Novamente, de “bônus” vem acompanhada a famosa bolha imobiliária brasileira já afirmada por muitos, inclusive pelo ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Por experiência própria, vi isso em Brasília de forma cabal. Não consigo entender porque um aluguel de uma kitnet de 25 m² varia em torno de 800 reais por mês (sem contar condomínio) e porque o valor do m² no Plano Piloto às vezes ultrapassa 12 mil reais. Enfim, volto à pergunta feita anteriormente. 

Congestionamentos em feriados continuarão existindo, mas refletem a ótica de um problema há muito conhecida aqui no Brasil: questão de mobilidade urbana. Nosso país é comandado por transporte terrestre, ruas, avenidas e rodovias. E, mesmo assim, basta sair do estado de São Paulo para ver o quão precárias algumas dessas se encontram. É o reflexo de um mau planejamento absurdo e total descaso por parte de autoridades públicas responsáveis para tanto. 

Vejamos alguns números. Nos estados do Sul, São Paulo e Distrito Federal há uma média de três habitantes para cada carro. Em São Caetano do Sul, existe um carro para cada 1,6 habitante. São Paulo precisaria mais do que duplicar a área de ruas para que todos os veículos circulassem ao mesmo tempo!! De 2001 até 2012 o número de carros no Brasil cresceu 104,6% para 50,2 milhões de unidades, algo muito superior ao próprio crescimento da população, de acordo com dados da Revista Carta Capital (n. 774). Tudo isso acompanhado por propagandas de concessionárias que vendem a ideia de “sucesso = carro”, mais um incentivo aqui e ali do governo para baixar o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). O resultado é isso: falta de estrutura para um consumo por vezes desnecessário. Quando a bomba explode? Nos feriados! Dupla imbatível! 

Há ainda números sobre outros tipos de mobilidade urbana que assustam. Tóquio, Nova Iorque, Pequim e Londres possuem linhas de metrô que ultrapassam a marca dos 300 km. No Rio são 44 km acompanhados por 74 km na capital paulista. Os ônibus são uma alternativa precária e, na grande maioria, utilizados somente por aqueles que os veem como recurso necessário e não por livre escolha. Quem usa metrô e ônibus é a massa trabalhadora. Ninguém gosta de entrar em lata de sardinha. Daí entra a questão do carro: vejo a propaganda e penso: “Vou comprar meu carro, abaixar o vidro e ligar o ar-condicionado”. E o mundo lá fora respira… 

Poderia citar, também, as ciclovias e bicicletas. Prefeituras tentam implementar inúmeros projetos para torná-las viáveis, mas é difícil sair do papel para adentrar o cotidiano das pessoas. Infelizmente, estamos acostumados com a realidade dos motores. 

Por fim, recapitulando a pergunta, não podemos apenas afirmar que a máxima “muita gente para pouco espaço” é a resposta única para o grande número de congestionamentos em feriados prolongados brasileiros. O que existe é um processo duplo: primeiro, negligência governamental e, segundo, negligência da população. Falta recurso e falta infraestrutura pública. Todavia, não podemos deixar de lado o fato de existir essa consciência “sucesso = carro”. Faltam faixas de ônibus, linhas de metrô, ciclovias e ciclofaixas… E faltam caronas, integração. O pior de tudo é que demandará tempo para uma mudança da nossa mentalidade.


Categorias: Brasil


O jogo das sombras na República Democrática do Congo

Por

Fonte: DefesaNet


“Geni viu os corpos das duas filhas serem arrastados pela correnteza de outubro, mês das chuvas. Forjou com o caçula um esconderijo sobre folhas de bananeira e ali ficaram até cessarem os gritos. Voltou à vila e encontrou a cabeça do marido, como as de outros homens da aldeia, secando ao sol em estacas – a marca do grupo liderado por um homem chamado Sheka.”  


Esta é uma das várias histórias tristes sobre a República Democrática do Congo (RDC). O relato foi descrito na excelente reportagem do Estadão, da jornalista Adriana Carranca, que cobriu o ataque de um grupo rebelde ao vilarejo Lwibo, na Província de Kivu do Norte. Entre tantas tragédias, uma boa notícia: o “Movimento de 23 de março” (M23), principal grupo rebelde congolês, anunciou sua rendição no último dia 5. Um fato significativo no longo percurso em direção à paz e estabilidade do país e da região, onde perdura um delicado jogo das sombras. 


A principal razão desse jogo é a riqueza inestimável da RDC. Se há uma linguagem universal para as interações sociais, ela se fundamenta em três palavras inter-relacionadas: poder, espaço e dinheiro. Uma matéria publicada na revista Tecnologia & Defesa destacou as riquezas do Congo: 30% das reservas mundiais de diamante, quinto maior produtor mundial de estanho e segundo, de cobre, é responsável pela metade da produção global de cobalto e detém 80% das reservas conhecidas de coltan (uma mistura composta de dois minerais: tantalita e columbita, material de alta resistência, muito utilizado na fabricação de eletrônicos).  


Tão logo se percebe que o conflito na RDC não é por liberdade ou democracia, trata-se de uma disputa por recursos naturais e domínio das áreas onde eles se encontram – sobretudo, no leste do país. Ressalta a matéria citada que os grupos rebeldes, particularmente o M23, são apenas a “ponta do iceberg”; submerso, está a oculta e acirrada luta das grandes potências pelo controle desses recursos. 


Neste sentido, a renúncia à luta armada por parte do M23 é parte – muito importante – do processo de pacificação e estabilização da RDC. Isto significa que, até o momento, a estratégia mais proativa e incisiva da comunidade internacional está surtindo efeito. A aprovação de uma brigada de intervenção no âmbito da MONUSCO, a missão de paz das Nações Unidas no país, e a nomeação do general Santos Cruz para comandar as tropas por lá podem promover, inclusive, um ponto de inflexão na história congolesa.  


Antes mesmo de partir para a missão, tive a oportunidade de conversar diversas vezes com o general e ficou nítido todo seu entusiasmo em assumir esta grande responsabilidade. À época, dizia ele sobre os grupos rebeldes: “estes caras só entendem duas coisas: a força e o dinheiro”. A melhor maneira de agir, em sua opinião, era pressionar esses grupos de modo que não tivessem outra opção, senão um acordo político e a inserção dos ex-combatentes em um programa de desarmamento, desmobilização e reintegração. E essa ação deveria ser permeada por contexto político favorável, negociando com atores externos envolvidos com o conflito, como Uganda e Ruanda.  


Há quase três semanas, em rápida visita ao Brasil, acabei me encontrando novamente com o general e pude ouvir as novidades de lá. Confidenciou o chefe militar brasileiro que foram travadas batalhas longas e sangrentas entre as tropas da ONU e os grupos rebeldes, além das atrocidades cometidas contra civis pelos revoltosos – cenas inimagináveis, diria ele. Ao mesmo tempo, deixava transparecer sua expectativa acerca de possíveis desdobramentos positivos na RDC.  


Um clima de otimismo,ainda que moderado, já toma conta da comunidade internacional. É preciso, no entanto, lidar com este jogo das sombras, à medida que se aprofunda a disputa pelos recursos naturais. As grandes potências – ou boa parte da alta classe delas –, que deveriam colocar a proteção dos civis em primeiro lugar, definem essa tarefa sob a ótica econômica, não humanitária. Se isso persistir, nunca haverá a superação do longo – embora segmentado – conflito na RDC.

Por e-mail, o general contou suas primeiras impressões de lá: “O Congo, em particular, é uma história fantástica e triste, de colonialismo e massacres inimagináveis. Talvez a dimensão dos números fez perder o sentido da dimensão humana dos absurdos.” Passou da hora de recuperar a humanidade.  


Categorias: África, Assistência Humanitária, Brasil, Defesa, Direitos Humanos, Paz, Segurança


Jeitinho da China

Por

Digamos que é o que acontece quando colocamos o jeitinho brasileiro num negócio da China. Trocadilhos e piadinhas à parte, essa expressão parece servir bem para um caso curioso. Isso por que a China se tornou um dos maiores consumidores de carne brasileira do mundo.

Mas espera aí… eles não embargaram a compra de carne daqui por causa de uma denúncia de casos de vaca louca? Sim, a China não compra mais carne bovina daqui. É aí que entra o jeitinho. Oficialmente, o maior comprador não é a China, e sim Hong Kong.

A região administrativa faz parte da China, mas tem governo próprio, então faz o que bem entende no comércio com o Brasil. E toda aquela carne que compram (um negócio bilionário) vai para o continente, sem nenhum tipo de empecilho. A China continua batendo o pé e prorrogando ao máximo a suspensão do embargo iniciado no ano passado; ao mesmo tempo, o mercado chinês continua sendo um mercado em expansão (e considerado até estratégico) para nossos produtores. 

Claro que uma pressão política não faz mal e o vice-presidente Temer já está na China para, entre outras coisas, negociar a liberação da venda (que parece pouco provável). Aqui vemos algumas das grandes contradições dos BRICS, os países que buscam parceria e alguma coesão em nível internacional, mas quando são confrontados com questões de sobrevivência básica como o mercado de commodities, começam a chutar a canela uns dos outros. 

Enquanto isso, a China não compra a carne brasileira. Mas continua comprando (mesmo por quê o mercado cresce demais por lá, e não podem depender de extravagâncias como carne de cachorro). E continuamos vendendo. Haja jeitinho…


Categorias: Ásia e Oceania, Brasil, Economia


Dez anos do PBF: há o que comemorar?

Por

Conforme destacado na “Imagem da Semana”, no último dia 30 de outubro o Programa Bolsa Família (PBF) completou dez anos. Lançado ainda no primeiro ano do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o PBF é uma iniciativa de transferência de renda direta para o benefício de famílias pobres ou em situações de extrema pobreza. Além de objetivar o alívio da condição econômica, o programa procura prover direitos sociais básicos como saúde e educação para famílias com baixo poder aquisitivo. 

Há o que comemorar? Sim. Pelo menos é o que dizem as principais notícias e publicações divulgadas nesta semana. Mas não podemos esquecer de que ainda permanecem muitas falhas nas transferências de renda do governo federal. Há cerca de dois meses foram divulgados alguns casos de servidores públicos com um considerável contracheque, mas que recebiam o BF. Dez prefeitos e mais de dois mil vereados recém-eleitos receberam o BF de forma indevida no começo de 2013… E ocorreu até o caso de uma moradora do Espírito Santo que ganhou um milhão de reais na loteria e continuou sacando o benefício…

Problemas ocorrem aos montes, diga-se de passagem. Mas em relação ao PBF, tais questões são mais concernentes à forma como se dá a administração pública para com a fiscalização das transferências de renda. E, convenhamos, isso é um problema da máquina pública brasileira como um todo e não somente do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) ou da presidente Dilma Rousseff. A principal crítica que se faz ao PBF poderia ser feita a qualquer iniciativa governamental de grandes proporções. Infelizmente, o histórico brasileiro não ajuda. 

Atualmente, o PBF atende cerca de 13,8 milhões de famílias brasileiras. Sabe o que é isso? Aproximadamente um quarto de toda população! É muita gente, sendo que o valor médio do benefício é de 152 reais e espera-se um orçamento de 24 bilhões de reais para 2013. Somadas grande parcela populacional com imenso montante financeiro, é impossível ter 100% dos casos satisfatórios. Um dos problemas relatados reside no fato de recebedores do BF não trabalharem porque recebem o benefício. Isso já foi desmistificado, pois sete em cada dez beneficiados exercem funções empregatícias. Restam 30%, mas, como mencionado anteriormente, há casos e casos. Como haveria de ser, esses exemplos servem de manobra para opositores do governo criticarem o PBF, basta ver o que a Revista VEJA sempre faz.

Os dados lançados pelo governo através do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em estudo publicado no livro “Programa Bolsa Família – uma década de inclusão e cidadania” trazem um marco positivo para os dez anos da iniciativa. De acordo com a publicação, o PBF reduziu de 15 a 20% a desigualdade de renda no país, diminuiu as diferenças entre as regiões (até porque o Nordeste concentra grande número dos casos), diminuiu a pobreza crônica de 14 para 3% (mais de 22 milhões de brasileiros abandonaram a miséria) e decresceu o número de óbitos infantis em virtude de más qualidades de saúde e desnutrição. 

Qualificar ou criticar negativamente o PBF deixou de ser discurso ideológico e de partidos. Exemplo disso é que o próprio Aécio Neves, provável candidato do PSDB para as próximas eleições presidenciais, apresentou proposta para fazer do programa uma política de Estado, ou seja, algo duradouro e perene, sem provável extinção. É um sinal de que, a par dos inúmeros problemas que ainda permanecem, há o que comemorar. 

A maioria aqui no Brasil não nasce em berço de ouro. Dizer que todos têm a mesma oportunidade, seja profissional, financeira ou quaisquer outras, é pura demagogia. Minha crítica pessoal continua residindo no modo de como o PBF deve ser mais fiscalizado e aprimorado. Mas não há dúvidas sobre seus benefícios. E para quem acha que a transferência de renda é uma política tupiniquim, saiba que na Suécia e nos Estados Unidos existem tais políticas desde a década de 1930.


Categorias: Brasil, Economia


Imagem da Semana

Por

E a imagem dessa semana representa, na verdade, um importante marco para a política brasileira. Foram celebrados hoje, em Brasília, os 10 anos do programa Bolsa Família [foto], iniciado durante o primeiro governo de Lula.

As críticas ao programa sempre existiram, e certamente sempre há melhorias a serem realizadas (especialmente no âmbito da transparência), mas a verdade é que o Brasil se tornou referência mundial no que tange às políticas sociais de combate à fome e à pobreza. Isso não significa que ainda não existam pessoas passando fome ou em situação de necessidade, contudo o avanço desta última década é inegável. 

O combate à fome e à miséria é o primeiro dos Objetivos do Milênio das Nações Unidas para 2015 e deve representar uma prioridade para o Brasil na busca de resultados sustentáveis. Espera-se que não apenas a estatística seja aprimorada, mas sim a realidade dos milhões de brasileiros que ainda carecem das mais básicas condições de vida para seu desenvolvimento pessoal e profissional. 


Qual pátria de chuteiras?

Por

Num ano em que pressões migratórias causam tragédias entre a África e a Europa, temos caso um pouco menos trágico, mas que vai chamar muito mais atenção da mídia que centenas de africanos mortos em praias do Mediterrâneo, devido à Copa do Mundo. Ontem, o jogador de futebol Diego Costa informou que não tem intenção de defender a seleção brasileira e isso está causando revolta tanto entre a comissão técnica (segundo a qual ele está “abrindo mão do sonho de milhões de garotos”) quanto nos torcedores. E se não parece uma questão das mais relevantes, traz alguns pontos de reflexão bem pertinentes. 

Talvez a principal “acusação” contra o jogador é de que seria “antipatriótico”, um “traidor”, e se ele realmente for jogar pela Espanha deve-se esperar todo tipo de apupos em 2014. Paixão de torcedor é uma coisa meio irracional mesmo (o termo “paixão” tem a mesma origem de “doença”), mas quando a comissão cria um clima de hostilidade devido à escolha da pessoa, já temos uma questão mais espinhosa. 

Jogadores mudando de país não são novidade alguma. O grande Puskas, maestro da Hungria de 1954, teve de fugir da opressão soviética e defendeu a seleção da Espanha (que parece ter esse costume de trazer talentos de fora) em outra Copa. Mudar de país e depois se envolver com a seleção local parece uma progressão aceitável. Claro que existem casos que chegam a ser cômicos, e até moralmente questionáveis, como os times de tênis de mesa nas Olimpíadas – das delegações que chegam às etapas avançadas, o espectador vai ver um monte de nomes chineses, já que maioria são atletas naturalizados para esta função especificamente. 

Claro, não parece ser o caso de Diego. O jogador que saiu cedo do país (e até cidadania espanhola tem). A “revolta” parece ser muito mais recalque ou mesmo temor pela má fase dos atacantes do time nacional. Mas… e se ele realmente tivesse escolhido a Espanha por fatores “imorais” como o dinheiro? Seria condenável? 

Muitas vezes, os jogadores que mudam de time ao tilintar das moedas são chamados de mercenários. Dá pra fazer uma analogia bem interessante sobre isso. Lá atrás, na sua obra mais conhecida, “O Príncipe”, Maquiavel recomendava aos governantes que nunca delegassem a defesa nacional a mercenários, justamente por que eles não teriam comprometimento com o Estado, e não estariam dispostos dar a vida apenas pelo vil metal – pior ainda, poderiam mudar de lado pelo mesmo motivo. 

Devemos a isso a acepção negativa que existe até hoje para o termo “mercenário”, mas é totalmente despropositado quando pensamos em esporte, e quanto mais em outras questões mais pungentes como guerras e catástrofes. Seja um jogador de futebol, de tênis de mesa, ou um engenheiro, ou um médico, ou apenas refugiados africanos em busca de melhores condições de vida – escolher um país diferente para residir e trabalhar, e sim, por causa de uma possibilidade de renda maior, e porventura decidir (de acordo com a lei) se tornarem cidadãos do outro país, não é nenhum tipo de imoralidade. 

Já que falamos de autores clássicos, vamos lembrar também de Immanuel Kant e seu cosmopolitismo – para o filósofo, todos os homens nascem iguais, são “cidadãos do mundo”, e possuem todos os mesmo direitos. Barreiras como idioma e nações são artificiais – todos teríamos o mesmo direito a poder transitar ou habitar em qualquer pedaço da Terra. E quando pensamos que o próprio nacionalismo, que parece alimentar o tipo de crítica levantado contra o jogador, é apontado por muitos atores como uma artificialidade, uma construção social que legitima o poder do Estado, fica ainda mais frágil manter qualquer tipo de censura. 

As pessoas são livres para escolherem onde querem ser felizes, seja para fugir de uma situação insustentável, seja para jogarem futebol. Já não bastasse a rejeição ao “estrangeiro” (vejam o caso dos médicos “importados” pelo Brasil), lidar com rejeição dos seus conterrâneos não deixa de ser uma violência. E a discussão que isso levanta vai muito além dos gramados.


Categorias: Brasil, Europa, Mídia, Polêmica


O que 60 mil Almas Devem Ensinar

Por

Por vezes a distância territorial e cultural não nos permite, por mais informados que estejamos sobre o mundo e a realidade de um país específico, ao menos uma compreensão superficial destes. Os conflitos religiosos na Irlanda do Norte, os estupros e a proliferação da AIDS como arma de guerra na África ou a total falta de direitos das mulheres no Marrocos podem ser conhecidas facilmente, mas poucas vezes entendidas.

Na maioria das vezes apenas nos atemos a definições genéricas para cada assunto, enquanto na vida real e as relações que definem quem somos é mais complexa. Em certo momento, para todos que tentam conhecer as razões que definem as sociedades é necessário a utilização de todas as peças do quebra-cabeça social, mesmo enquanto analisamos uma única parte. Ainda mais quando se procura más características, como a quem busca compreender conflitos ou injustiças, temas em que as verdades são apagadas propositadamente dos livros oficiais e só levantadas às vezes por uma série de pensadores e críticos corajosos.

Entretanto, tudo pode parecer mais claro quando relacionamos injustiças sociais à como uma cultura ou uma sociedade que conhecemos profundamente foi estabelecida. Para completar um dos quebra-cabeças entre legitimação social de uma injustiça e como é estabelecida uma sociedade, utilizo um fato ocorrido em nosso país há apenas 30 anos atrás.  

O caso do hospital psiquiátrico de Barbacena e do tratamento de seus “pacientes”, ocorrido por quase um século, é o melhor exemplo que podemos utilizar. Os motivos para as internações da maioria que ali residiam, a vida que levavam dentro da instituição e, por fim, o baixo preço da existência dessas pessoas formam um quadro exato para a compreensão das injustiças sociais ligadas à cultura brasileira.

O hospital, que abrigou milhares de pessoas durante o século XX, foi responsável pela morte de pelo menos 60 mil pessoas, número que representa apenas os 15 anos em que documentos oficiais e pesquisas foram capazes de contabilizar os mortos. As peculiaridades da instituição impressionam. Era uma população formada por mais de 200 mil pessoas, nas quais 70% delas não apresentando nenhum quadro de problemas mentais. Eram sim desafetos políticos de senhores poderosos, prostitutas, mulheres engravidadas fora do casamento, supostos criminosos e pessoas afetadas pela pobreza extrema.  

O hospital psiquiátrico de Barbacena foi verdadeiramente um cárcere travestido de instituição médica, utilizado como ferramenta para o cumprimento de desejos pessoais e políticos de pessoas poderosas, e do desejo de limpeza étnica e social por parte da sociedade de Minas Gerais e dos estados vizinhos. 

Dentro do cárcere, a maioria experimentava a morte e a indigência. Enquanto viviam tal brutalidade, o hospital de Barbacena gozava de enorme prestígio entre políticos, autoridades policiais e homens de grande respeito e poder aquisitivo, os grandes utilizadores dos “serviços” prestados pelo hospital. Os que não participavam diretamente do absurdo, mas podiam protestar contra o que ocorria, também nunca ousaram contestar a forma como eram tratados os pacientes. 

O hospício que fabricou o “Holocausto brasileiro” em nenhum momento esteve isolado do mundo, muito menos as suas atividades permaneceram escondidas nas sombras. Durante seu funcionamento, bebês foram retirados das mães internadas e adotados por outras famílias, com o conhecimento de autoridades e de diretores de Barbacena. Corpos foram vendidos à faculdades de Medicina, instituições de prestígio. Pessoas sumiam, trens cheios de novos presos chegavam todos os dias, sem que parentes e amigos contestassem os sumiços, autoridades ou moradores da cidade buscassem informações sobre as causas de tantas internações.

O caso de Barbacena é de um exemplo quase cristalino da injustiça social em que aos poucos se constituiu a pior característica do Brasil. O poder exacerbado para alguns, baseado nas raízes nacionais do coronelismo e do triste contraste entre sujeitos cheios de poder e miseráveis sem direitos, foram os responsáveis por esse episódio. 

Barbacena é a identidade primitiva para compreendermos como hoje em dia ainda temos tanto descaso pelos Direitos Humanos no país, junto a um abuso de autoridade constante, ambos legitimados pela maioria da população. Os pacientes, por serem “loucos” ou criminosos, pouco mereciam de consideração e respeito. Para outros, a miséria do hospício se transformava na única forma possível de vida que pudesse ser ofertada a “esse tipo de gente”.  Por fim, a exagerada crença nas autoridades, agindo como criminosas, forjavam os 70¨% de internações ilegais pela instituição e o descaso total à vida. 

As milhares de pessoas falecidas, que ainda viveram um final de vida em que estavam presos, nus, sem alimento e sem água potável, é uma atrocidade genuinamente brasileira. Como deixamos acontecer? Simplesmente não sabíamos, não desconfiávamos e não nos importávamos. Um tripé que em muito ajuda a esclarecer como coisas do tipo podem ocorrer em outros países, pergunta que muitas vezes não encontramos quando falamos de um realidade exterior. 

Quantos casos como esse existiram e ainda existem no Brasil? Quantas são as vítimas totais? Até qual ponto a cultura e a estrutura social  foram responsáveis para que tais fatos fossem legitimados, esquecidos e não punidos, algumas vezes até mesmo apoiados? Nesse momento conseguimos perceber o quão fácil é para uma cultura legitimar o que para nós, quando estamos distantes, se torna abominável. Por que o abominável de cada sociedade não reside mais nas sombras do que na claridade do dia-a-dia. 

 As 60 mil almas perdidas nesse triste episódio brasileiro só podem servir como um fato positivo nos dias atuais: a compreensão de como um sistema e uma ordem social se estruturam para legitimar situações absurdas e atentados contra seu próprio povo, sejam elas motivadas por causas econômicas, religiosas ou de poder. Cabe a nós evitarmos que o pior de uma sociedade se levante.

Recentemente, a publicação do livro “O Holocausto brasileiro” foi o primeiro grande passo para a recuperação da memória do que houve em nosso país durante a existência de tais “instituições psiquiátricas”. O conhecimento desse tema é crucial ao brasileiro. Afinal, relembrar o passado é a ferramente para compreender e modificar o presente.  E infelizmente, parte desse passado nunca será totalmente varrido de nossa sociedade, por que as sociedades reproduzem Mário Quintana com a verdade da célebre frase: “o passado não reconhece o seu lugar. Está sempre presente”.

Para interessados, a apresentação do livro “O Holocausto brasileiro” – (clique aqui). 


Categorias: Brasil, Cultura, Polêmica


Fala muito!

Por

A crítica sempre esteve ligada, de certo modo, ao anonimato. O medo de rejeição, e principalmente o temor de represálias leva os insatisfeitos desde muito tempo atrás a se exporem ocultando sua identidade. Se a crítica é aceita pela coletividade, passa a fazer parte desse fenômeno de massa – se não, não causa mal algum ao autor. Mas e se for descoberto? 

Esse fenômeno é potencializado hoje, já que a vida em rede já faz parte da vida política contemporânea. Redes sociais, fóruns de discussão e redes de telecomunicações têm um impacto formidável na opinião pública. A eficiência disso, é claro, depende de quem está envolvido, e de muitos outros fatores. Basta lembrar da “revolução” de julho no Brasil, que saiu do Facebook para durar umas… duas semanas, e desaparecer quase que por completo, mostrando apenas resquícios desse ativismo em protestos pontuais (apesar de recorrentes). 

Isso tudo vem da atividade em grupo, mas resta algum papel para o indivíduo? A noção de uma “massa” vem justamente do fato de que se faz parte de uma coletividade, com interesses que estão acima dos pessoais, e a noção do anonimato é fundamental em alguns casos. É interessante notar como o anonimato volta a ter importância nesse contexto, já que é um ambiente propício a essa condição. 

 Em um caso recente, um funcionário da Casa Branca foi demitido por manter uma conta anônima em que espinafrava membros do governo. Descoberto, foi demitido e lhe resta a infâmia. Enquanto isso, no Brasil, contas “fakes” (falsas, com pessoas imitando personalidades) fazem sucesso, e uma delas imita a presidente Dilma por meio de uma sátira bem-humorada, sendo que o humorista criador da conta até já esteve em conversa pessoalmente com a “vítima”. Descoberto, não foi arrasado, e sim premiado pelo uso “inteligente” das redes sociais. 

Vê-se que depende muito de contexto, é claro, e do uso que é dado a cada ferramenta, mas nem mesmo o anonimato serve de blindagem, já que pode ser revertido a qualquer momento nessa nuvem de informação.


Categorias: Brasil, Estados Unidos, Mídia, Política e Política Externa