Brasil, mostra a tua cara!

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“Brasil, mostra a tua cara, quero ver quem paga, pra gente ficar Haiti.” HAITI? Pois é, Cazuza, os tempos mudam, as músicas, também. Somos brasileiros e somos haitianos. E como bons brasileiros não desistimos nunca! Nem do Haiti, nem do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Esta é a nossa cara, mas nós a mostramos? Oh, que dúvida cruel…


Em 2004, teve início a epopéia brasileira no Haiti. Era a inspiração guerreira e de palavras orgulhosas que o Brasil, à Camões, pediu para a ONU. E então, criou-se a MINUSTAH, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, sob a liderança do governo brasileiro. Essa missão tem por finalidade pacificar e trazer segurança para o país mais pobre do continente. Apesar de críticas e discordâncias, no dia 1º de junho deste ano, ela completou cinco anos. Vejamos alguns aspectos do que se produziu nesse período.

Primeiramente, os gastos brasileiros dispensados desde o início da missão chamam a atenção: em cinco anos, gastou-se cerca de R$ 700 milhões, dos quais 40% foram repostos pela ONU. Sabem quantas escolas e hospitais foram construídos no Haiti com esse dinheiro? A fabulosa marca de nenhum. Essas despesas cobrem o treinamento de militares e eventuais testes de equipamentos bélicos. E depois o Brasil quer convencer o mundo que está trazendo a paz para os haitianos. Não me admira que um povo tão sofrido reclame de certas atitudes brasileiras e o faz com razão: enviam-se soldados e não médicos, bombeiros, enfermeiros, etc.. É, Brasil, parece que essa cara você não mostra.

Assim como não mostra o Janus bifronte de seus princípios: a não-intervenção e o engajamento em missões de paz. O Deus romano dos portões é contraditório na perspectiva brasileira. Depois de muito atraso, em dezembro do ano passado, o país finalmente publicou a sua Estratégia Nacional de Defesa. Por um lado, esta prevê a não-intervenção como um dos princípios que rege a conduta do Brasil no exterior, por outro, considera importante o emprego das Forças Armadas em operações de paz e humanitárias conduzidas por organismos internacionais.

Uma coisa anula a outra e, assim, passamos da epopéia à hipocrisia. Por que o Brasil brinca de soldado no Haiti, sob a insígnia de uma missão de paz que viola o seu princípio da não-intervenção? Simples: o país quer um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. O Brasil quer ser gente grande só que se esqueceu, à Saint-Exupéry, que “todas as pessoas grandes um dia foram crianças.” O país não está preparado e ainda não amadureceu para assegurar a sua vaga no órgão. Estar no Conselho de Segurança é ter o dever de intervir em nome da paz e da segurança internacionais – embora haja certos membros que intervêm de modo indecente -, nós podemos de fato cumprir esta missão? Permitam-me lhes dar uma idéia do nosso efetivo militar (agradeço ao Álvaro Panazzolo Neto, aluno do 4º Ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca por esta informação): nossos aviões de combate são da Guerra do Yom Kipur.

Outro aspecto que denota a negligência do Brasil quanto à segurança internacional é a sua “intensa” participação nas reuniões do Conselho de Segurança da ONU. Entre 2006 e 2008, foram realizadas 571 reuniões, das quais 29 contaram com a presença brasileira, ou seja, chegamos ao fantástico percentual de 5%. Além disso, o posicionamento brasileiro com relação aos conflitos internacionais (ou eventos de grande importância na área da segurança) é bastante precário: o Itamaraty pouco se manifesta. Ainda assim, continuamos pleiteando o nosso assento no salão de festas do top 5.

Enfim, chegamos à conclusão de que não há Haiti que salve o Brasil, não importa se a retirada das tropas brasileiras do país só poderá ser pensada a partir de 2011, conforme a previsão do Itamaraty. Alguém está escondendo a cara e isso tem trazido um custo muito alto, tanto para nós, brasileiros, como para os haitianos. É, amigos, segurança ainda não é o nosso forte, o que nos traz muitas confusões. Chega de esconder a nossa verdadeira cara!


Categorias: Américas, Brasil, Defesa, Paz, Segurança


Dito e feito

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Dizem que malandro é o cavalo marinho, que aprendeu a nadar pra não puxar carroça, mas nossos hermanos argentinos estão passando dos limites. Desde o ano passado com o estouro da crise financeira, já é de perder de vista a quantidade de medidas protecionistas que nos afetam diretamente. E mais impressionante ainda é a parcimônia do nosso governo. Esses dias anunciou que vai ajudar a fortalecer as reservas internacionais da Argentina com um mecanismo de troca de moedas (swap) entre 1 e 5 bilhões de dólares.

Pois é. E a indústria têxtil brasileira é a que mais tem sofrido com isso tudo. Nossa participação na pauta de importações de têxteis da Argentina caiu de 41,9% para 26,4%.

O mais engraçado é que o argumento dos argentinos é que eles precisam proteger a indústria nacional contra a brasileira que é mais competitiva.

Argumento legítimo. É natural que se faça isso e até aceitável em tempos de crise. A OMC mesmo até aceitou as medidas tomadas recentemente pelo Equador que sobretaxou a maior parte dos produtos que entram no país. Além disso, somos superavitários no comércio bilateral.

Só que quando se olha para o caso argentino, se vê que não é isso que ocorre. No mesmo período que nossa participação caiu no setor têxtil por lá, a China (aquela mesmo que faz produtos a preço de banana parecerem caros) aumentou de 15,8% para 31,9%.

E isto tem nome, colegas. Chama-se deslocamento de comércio. O que era pra ser uma medida pra proteger a indústria local, só fez com que houvesse uma troca de parceiro comercial. E vamos combinar, a China provoca muito mais danos em qualquer mercado que o Brasil…

E aí a malandragem vai continuando. Só não consigo entender o porque dessa revolta com o Brasil. Somos um dos principais parceiros comerciais da Argentina, temos acordos de cooperação em quase todas as áreas, inclusive um bloco que pretende ser de livre comércio e circulação de pessoas.

Mais uma vez o cavalo marinho está ameaçado no seu posto de malandro (O Lugo, o Morales e o Chávez já estavam ameaçando o bichinho). Mas a Argentina está abusando, e o Brasil insistindo no tal do risco moral…


Categorias: Américas, Ásia e Oceania, Brasil, Economia


Sensibilidade Presidencial

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[Post rapidíssimo]

Nosso blog trata de Relações Internacionais, é bem acessado e lido. Não poderíamos deixar de nos manifestar com relação ao acidente do vôo Air France 447.

Nós, da Página Internacional, também nos solidarizamos com as famílias da vítimas, de várias nacionalidades. Assim como as autoridades brasileiras, que estão em busca de sobreviventes, esperamos que o quanto antes voltem aos seus lares.

Só o nosso presidente que, além de tomar uma postura oposta a do presidente francês, e de outros inúmeros líderes mundiais, como o próprio Obama na entrevista à BBC citada no post abaixo, ainda teve a audácia de fazer um trocadilho no mínimo sem noção nenhuma: “País que acha petróleo a 6 mil metros de profundidade pode achar avião a 2 mil”.

Sem comentários.


Categorias: Brasil


Admirável mundo novo

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Caros leitores, bem-vindos ao admirável mundo novo contemporâneo. Porém, não se iludam. Não estamos falando do best-seller de Aldous Huxley, escrito em 1931. Não falamos de uma sociedade totalitária a nível global, mas nada nos impede de visualizarmos totalitarismos locais. Totalitarismos loucos e sedentos por uma glória absurda. Ordem? Que ordem? Só mesmo como aspiração, como um elemento histórico das relações internacionais não aplicável ao atual contexto. Paz, felicidade e satisfação dos desejos? Apenas enquanto a guerra se convalida como o esporte dos reis, enquanto se comanda a máquina do mundo. Somos todos selvagens.

Ontem, em conversa com o Alcir, eu expressei minha rebeldia: só dá Coréia do Norte na mídia. Já estou cansado de ficar falando de uma múmia caquética comandando espetáculos pirotécnicos. De um ditador despojado do dom de viver que prefere que seu próprio povo feneça enquanto sua vida se esvai. Deixemos registrado: o governo norte-coreano resolveu invalidar o armísticio que tinha com a Coréia do Sul, o qual vigorava desde o término da guerra de 1953. Olha, eu sinceramente nunca vi, em toda a história, uma empreitada militar sem a perspectiva de abastecimento resultar em sucesso. É fato que a Coréia do Norte detém o terceiro maior exército do planeta, assim como é verídico que o país depende de ajuda financeira externa e de energia e alimentos.

Depois ainda dizem que a Coréia do Norte é socialista. Ah, é verdade! O país socializou as loucuras e os anseios de um ditador. Socialismo agora é assim, basta socializar, não importa o quê, e a felicidade é forjada.

Eu, particularmente, estou de acordo com a opinião do governo norte-americano: a chance de um conflito militar é remota. Há a iminência, mas se restar um mínimo de juízo na cabeça mofada de Kim Jong-il, tudo não passará de um incidente diplomático. E é bom o senhor se comportar direitinho, senão a comunidade internacional realmente vai começar a pegar pesado com a China, a maior aliada norte-coreana.

E agora, Pequim? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, Pequim? Opa, errei, era José. Peço desculpas ao Drummond, mas não pude resistir à tentação de parafraseá-lo. Até quando a China vai se manter firme no seu pau de sebo? Ou poderá se utilizar deste episódio para contrapor uma maior presença norte-americana na região e, assim, ir se consolidando cada vez mais como uma potência hegemônica? Aliás, uma coisa interessante para se notar é que os testes nucleares da Coréia do Norte tiveram efeitos na política interna chinesa, provocando divergências entre o Partido Comunista e a Chancelaria.

Peguemos um avião e voemos para a América Latina. Já expressei minha rebeldia. Chega! Vocês viram que agora a Venezuela e a Bolívia estão sendo acusadas de fornecerem urânio para o Irã? Daqui a pouco o Chavez também vai resolver seguir o exemplo iraniano, vai enriquecer urânio para dar energia à sua eterna presidência.

E o Brasil que agora tem foco terrorista, dá para acreditar? Se o blog tem um colaborador fantasma, o Brasil tem o “libanês K”. Eu já disse e agora repito: o terrorismo é um ótimo negócio. Nunca vi dar tanta mídia uma tema como esse. Agora vamos ser rotulados como um reduto da Al Qaeda. Como eu gostaria de ver um avião caindo em pleno Congresso Nacional.

É, meus amigos, nós temos visto “coisas estranhas” nestes últimos tempos. Desde trágicas a cômicas, o que faz deste mundo um mundo admirável. Totalitário para uns, feliz para poucos e sem ordem alguma. Cada vez mais escrevemos a obra de Huxley com linhas tortas.

Boa noite, pessoal! Vou tomar o meu soma.


Categorias: Américas, Ásia e Oceania, Brasil, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Podcast

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Vocês acharam que a gente ia esquecer dele???

Ouça aqui (ou baixe nos links ali do lado) os comentários sobre a visita do nosso presidente Lula à Arábia Saudita, China e Turquia.

Saldo positivo?
Mais gafes do Lulinha?

Tire suas conclusões no 10° (agora, sim!) podcast da Página Internacional!


Três é o novo dois

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Depois da malandragem imperial empregada pelo Huguinho, temos mais dois candidatos à eternidade presidencial!

Primeiro, um candidato com grandes possibilidades: Álvaro Uribe!

“Dois não, agora quero três!”

Homem de família, que teve um número bem considerável de denúncias de corrupção e ligação com milícias para-militares, tanto de esquerda quanto de direita. Se no Brasil o deputado pode até ser genocida que não é cassado, lá já foram mais de 30% dos senadores afastados ou cassados por causa dessas denúncias. A questão é tão grave que ele até mandou espionar diversas pessoas ligadas a ele. (comentários aqui) Com uma grande aceitação popular graças a suas ações empregadas contra as FARC, se ele fosse candidato ele seria o mais votado com grande vantagem. Tanto que já está bem encaminhada a mudança constitucional que irá possibilitar o segundo mandato (o congresso ser uribista é pura coincidência). Detalhe: se não der certo, o Ministro da Defesa, Juan Manuel Santos (que apoia Uribe) já está saindo do cargo para poder ser candidato à presidência, com grandes chances de vitória. Dessa forma, a continuidade da política Uribista está mais do que garantida.

Mais uma vez eu pergunto: qual é a diferença dele para o Chávez? Tudo bem que o Uribe tem uma aceitação popular tremenda, mas os indices sociais não aumentaram tanto quanto poderiam, e não restam dúvidas de que ele é querido por ser considerado o “guerreiro que derrotará as FARC”. Mas daí para querer governar um terceiro, quem sabe quarto, quinto mandato já é demais. Se o Ministro da Defesa não pode dar conta das políticas (já que se pudesse nem se conversaria sobre um terceiro mandato de Uribe), isso pode significar duas coisas:

1- A Colômbia tem um governo débil o bastante que não suportaria uma transição ou que é dependente de um perfil bem específico, algo péssimo para a continuidade do país. A curto prazo pode até não ser tão problemático, mas a longo prazo pode danificar seriamente a estrutura política Colombiana

2- O Uribe quer concorrer com o Chávez e Putin o prêmio de governo mais longo do século XXI. Ou o de o governo com maior manipulação da imprensa (não sei qual páreo é mais duro).

O segundo candidato é o nosso Lulinha, que fala Dilma pra cá, Dilma pra lá, mas não faz taaanta oposição quando alguém fala em terceiro mandato. Mas como aqui é a página INTERNACIONAL, vou deixar pra lá. Mas é importante lembrar que o Lula não tá sozinho.

Lembrando que ninguém tenta propor extender seu mandato sem ter certeza de um sucesso nas eleições. Afinal “se o povo quer eu estou aí!”

E vocês, o que acham da idéia de um terceiro mandato? Acham que não deve houver de maneira alguma ou o povo deve decidir?


Categorias: Américas, Brasil


Entre dekasseguis, auxílios e críticas… dá pra comer de pauzinhos?

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Aí vai meu primeiro post como correspondente internacional (mal, pessoal… estava sem internet em casa).

Há pouco mais de um mês no Japão, pude perceber a realidade dos dekasseguis de forma mais clara do que quando via as notícias pela TV, no Brasil. O post pode parecer meio ácido, mas já digo de antemão que não é porque estou trabalhando para o governo japonês que tomei partido do mesmo. Sou brasileira e torço pelo Brasil, mas tem coisas que simplesmente… não dá para concordar.

Antes de mais nada, uma informação básica (até demais). O desemprego não afeta apenas os dekasseguis brasileiros, mas outros estrangeiros e japoneses em geral. (oooh! ¬¬”)
Segundo, se os próprios japoneses estão desempregados, o que dizer dos brasileiros, que mal entendem a língua?

Convenhamos, a maior parte dos brasileiros veio para cá para trabalhar o máximo de horas extras possíveis nos chãos de fábrica, para juntar tanto dinheiro quanto possível no menor espaço de tempo. Algum interesse em aprender a língua? Nenhum. Nem interesse nem força para estudar, depois de jornadas de mais de 10 horas diárias. Se estão sendo demitidos agora e procuram por um outro tipo de emprego, não o conseguem porque a maioria mal consegue se comunicar decentemente. Alguns estão tentando recuperar o tempo perdido, estudando a língua, mas não se pode dizer que o japonês seja algo tão fácil e rápido de se assimilar, razão pela qual há muitas desistências ao longo dos cursos básicos de japonês que surgiram nestes últimos tempos (detalhe: a maioria é voluntária ou a custos baixos, justamente para auxiliar os brasileiros e outros latinos). Outros perceberam que era hora de voltar e assim fizeram. Outros ainda estão tentando alguma coisa, enquanto se inscrevem para o programa de “auxílio-subsitência” do governo…. brasileiro? Não, japonês.

100 anos depois da vinda dos japoneses ao Brasil, seus descendentes e cônjuges voltam à terra do sol nascente para fazer fortuna e retornar ao país. O que mudou de lá pra cá? Quase nada. As pessoas emigram ao outro lado do mundo para prosperar e voltar para casa. A diferença é simples: os japoneses acabaram ficando pelo Brasil e se integraram bem à sociedade, pagando os seus impostos, falando português e tudo o mais, ao passo que no caso brasileiro, além do desinteresse em se integrar à sociedade, língua e costumes locais, estão onerando os cofres públicos japoneses pois precisam de auxílio do governo para sobreviver no Japão ou ir embora de vez. Ah, e muitos ainda estavam reclamando, como o ministro Carlos Lupi. Faz sentido?

Além dos auxílios financeiros e empréstimos fornecidos, há vários outros órgãos criados pelo Japão para busca de emprego, estudos e profissionalização, bem como para moradias mais econômicas e afins. Diariamente eu traduzo vários panfletos e informativos para facilitar a vida do brasileiro no Japão, desde eventos e informes em geral (ultimamente muita coisa sobre a gripe suína) às organizações de auxílio ao desempregado, oportunidades de bolsas, moradia, etc. Essas são apenas algumas das ações do governo para tentar integrar e informar os imigrantes que não querem/conseguem fazê-lo.

Não estou tomando o partido do governo japonês, mas sejamos realistas: a questão dos imigrantes – legais ou ilegais – tem se tornado um constante problema em vários países do chamado 1o. mundo. O Brasil sempre foi tido como a terra das oportunidades, aberto aos imigrantes de todas as partes do mundo e com todas as possibilidades de se desenvolver. Mas e se o Brasil estivesse entre os países desenvolvidos e enfrentasse os mesmos problemas do enorme fluxo de imigrantes provenientes de países mais pobres, que medidas estaria adotando? Se uma onda de desemprego como a atual afetasse os seus nacionais e os imigrantes, será que o chamado “calor brasileiro” prevaleceria sobre as questões políticas e étnicas e ele estaria dando o apoio necessário aos imigrantes – que, aliás, até agora não quiseram ser assimilados? Será que o governo brasileiro iria tão longe? Chegaria a contratar imigrantes nos tempos de crise para auxiliar na integração à sociedade brasileira e o melhor fluxo de informações aos mesmos? Gostaria de ser otimista neste aspecto, mas infelizmente duvido muito que algo do tipo fosse feito.

Se o movimento dekassegui surgiu em meados da década de 80 e continua até hoje foi porque o Brasil não ofereceu nem consegue oferecer ainda oportunidades de trabalho suficientes aos seus cidadãos. Imagine se toda a colônia brasileira no Japão voltasse ao Brasil, de uma só vez? Não será isso que o nosso caro ministro teme?

Bom, assim como um apostador deve saber a hora de parar, os que depositaram as fichas no Japão devem ter em mente que vieram temporariamente para cá e devem, em algum momento, voltar ao Brasil (a não ser que já vieram com planos de se fixar permanentemente no Japão, que são casos raros). Devem saber a hora de parar para sair por cima. E com as próprias pernas.

Mas será que realmente estão economizando, fazendo uma poupança? O estardalhaço provocado por conta da medida adotada pelo governo japonês (aquela que proibia o retorno dos brasileiros ao Japão por tempo indeterminado, uma vez requerido o auxílio do governo de 300.000 ienes para retornar ao Brasil) é totalmente infundada. Se estavam aqui para trabalhar, economizar e voltar, porque não voltar quando não conseguem mais arranjar emprego? Por que insistir no que não está mais dando certo? Se estavam economizando, por que não tem dinheiro nem para voltar? Por que reclamar do auxílio se nem mesmo é capaz de voltar para casa por si (a proibição de volta é só para quem pedir o tal auxílio)? E, mesmo assim, diante das inúmeras reclamações, o governo flexibilizou a proibição de volta para 3 anos. Quem sabe assim, quando voltarem ao Japão da próxima vez (se realmente voltarem), tragam consigo um curso de educação financeira na bagagem.

Do lado japonês, não posso negar que há um certo sentimento da presença brasileira como problemática. Evitemos generalizações, mas convenhamos, uma fruta podre estraga todas as outras na cesta e, nesses tempos de recessão, houve casos isolados de condutas deturpadas, por assim dizer, que acabaram por construir uma imagem negativa do brasileiro. Nem todos os brasileiros agiram/agem de má fé e perturbam a pacata vida japonesa, mas os que assim o fizeram/fazem, acabam por dificultar um pouco a vida para outros que vêm depois.

Outro dia fui chamada a traduzir um diálogo de cobrança de multa para um brasileiro que quebrou parte das barras de proteção de um trecho da rodovia. Já é a segunda vez que vão cobrar pelo não pagamento. O indivíduo alega não ter dinheiro para pagar o conserto pois está desempregado. Bom, a quantia é ínfima, ele ainda tem o carro com o qual causou o acidente e ainda está vivendo no Japão. O que dizer sobre isso…?

É nessas horas que sinto um pouco de tristeza ao ver que estamos tão mal representados (sem generalizações) aqui e que isso acaba por aprofundar mais ainda a desconfiança por parte dos japoneses. É, o jeitinho brasileiro não funciona por aqui. Ele só piora as coisas. A nossa imagem, no caso.

Por fim, ao ministro Lupin eu diria que se ele criasse frentes de trabalho suficientes no Brasil, talvez nossos compatriotas não estariam “construindo e dando a nossa mão-de-obra” ao Japão, mas ao Brasil. Ademais, se ele acredita que nossos nacionais estão sendo explorados nos chão de fábrica ao invés de trabalharem em posições mais altas, ele deveria entrar em contato com o Ministério da Educação para melhorar a nossa qualidade de ensino… Mas aí já são outros quinhentos, e como o post já está imenso, é melhor parar por aqui.


Categorias: Ásia e Oceania, Brasil, Economia


Podcast

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E a oitava edição do nosso podcast trata de um fato anunciado essa semana. A china superou os EUA como maior parceiro comercial do Brasil.

É anti americano e gostou?
Tá com medo de ter de virar anti chinês agora?
Nunca pensou nisso?

Ouça aqui o podcast e tire suas conclusões!

No xadrez da política

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Pois é, galera. Vamos ao realismo. (também) É de política (no sentido aristotélico e maquiavélico do termo) que vivem as Relações Internacionais.

Essa semana, o Brasil decidiu apoiar um egipcio anti semita que já mandou queimar livros em seu país para a direção da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) em detrimento deste coitado aí em cima e de outro brasileiro (Sr. Marcio Barbosa, atual secretário-adjunto da entidade). Pra quem não se lembra, o senador Cristovam Buarque disputou as eleições de 2002 e sempre teve sua imagem ligada à educação (já foi reitor da UnB, por exemplo). Portanto, tinha cara de um bom candidato pra UNESCO.

Mesmo assim, com um candidato com boa reputação e um dos poucos políticos brasileiros que não tem algum indício de sujeira na vida pública, e outro que já está lá e tinha chances, o Brasil quis mesmo o tal do Farouk Hosni. A notícia do link lá em cima deixa claro porque é considerado um anti semita. Então, comentemos o fato.

Lembram de um post em que comentávamos que o Brasil queria colocar o Amorim na Agência Internacional de Energia Atômica? (Veja aqui, item 5). Está aí, meus caros, a chave do mistério. O Lula gosta muito do Amorim (política também é feita de relacionamentos…) e tem dito por aí que ele é hoje o maior ministro de relações exteriores do planeta (não me perguntem qual). E nosso país, por razões diversas vezes já abordadas por aqui, não consegue um cargo sequer em qualquer agência internacional de peso desde que o Lulinha assumiu.

Aí juntou-se a fome com a vontade de comer. Se o Amorim ficar mesmo na direção da AIEA, o Lula consegue um destino nobre pro seu chanceller quando deixar a presidência e, ao mesmo tempo, coloca um brasileiro na direção de um dos mais importantes organismos internacionais (ainda mais em tempos de coréia do norte, paquistão, etc etc). O Lula aposta no prestígio do Amorim pra conseguir o cargo (política também é feita de relacionamentos…).

E o que isso tem a ver com a UNESCO e o pobre do Cristovam Buarque? Elementar, meus caros. Não pega bem ficar querendo tudo a toda hora. O Brasil quer deixar esse peixe pra pescar outro maior mais pra frente. Movimento estratégico normal.

Mas aí nosso país se colocou numa sinuca de bico. Os únicos candidatos com chance de levar a UNESCO eram brasileiros. Então, temos de apoiar o adversário. Que era o egípcio anti semita…

Nas contas dos estrategistas do Itamaraty, o custo político de se apoiar uma figura polêmica era menor do que o ganho de uma agência internacional de peso. Imagino (e tenho a sincera esperança) que eles tenham levado em conta o fato de que apoiar anti semitas pra qualquer coisa não pega bem… E já tem muita gente incomodada com isso… E tenham certeza de que vão se lembrar desse apoio nas eleições da AIEA…

Concluindo, o Brasil não apoiou o egípcio porque é anti semita, cruel, ruim, etc. Apóia por razões políticas. O problema é que, mais pra frente, pode perder apoio de muita gente, não porque eles são bonzinhos, mas porque podem estar atrás de um motivo para, também por razões políticas, apoiar um outro candidato.

E assim as peças se movimentam nesse grande tabuleiro de xadrez…

e não se esqueçam do votinhooo


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