A Estratégia Nacional de Defesa – Parte 1

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Pessoal, antes de tratar da Estratégia Nacional de Defesa (END), promulgada em dezembro do ano passado, eu gostaria de fazer algumas considerações iniciais. Primeiramente, ressalto que estive no III Encontro da Associação Brasileira dos Estudos de Defesa (ABED), realizada em Londrina, na semana passada, o qual teve como tema justamente a END e, portanto, julgo ser interessante reportar algumas das discussões a vocês, leitores. Em segundo lugar, estamos vivenciando um momento ímpar no que tange à Defesa Nacional e que necessita da participação da sociedade civil. Em terceiro lugar, espero que possamos promover avanços significativos numa das áreas mais sensíveis de um país – e até das relações internacionais; que nada comprometa as iniciativas positivas que estão sendo tomadas, sobretudo esses “movimentos estranhos” da política nacional, e que avaliemos o que tiver que ser avaliado.

(Vejam a Estratégia Nacional de Defesa)

Destaco também que não entrarei nos pormenores da END, apenas lidarei com os aspectos mais importantes e mais debatidos no Encontro da ABED. Neste post, tratarei do contexto brasileiro na área da Defesa e da elaboração da Estratégia.

O Brasil tem perambulado pelos arrabaldes da Defesa após o fim da Guerra Fria e do regime ditatorial, ficando inclusive atrás de muitos países da América Latina nessa área sensível. Criamos o Ministério da Defesa apenas no ano de 1999 e não por um impulso endógeno, mas reativo: em 1995, realizava-se a Primeira Reunião de Ministros de Defesa das Américas e, adivinhem, o Brasil não tinha um Ministro de Defesa. Foi vergonhoso. Em 1996, elaboramos a nossa primeira Política de Defesa Nacional (Vejam aqui), reformulada somente no ano de 2005, (Vejam aqui) com poucas alterações, enquanto Chile e Argentina, na metade da década passada, elaboravam seus Livros Brancos de Defesa (os quais especificam à Nação e à comunidade internacional quais são as ameaças, as estratégias, as perspectivas e os recursos relativos à Defesa). Nosso equipamento militar é precário – chamo novamente a atenção para o fato de que nossos aviões de combate são da Guerra do Yom Kipur -, nossos militares são desvirtuados de suas atribuições, sendo muitas vezes usados para “tapar buracos” e servindo, assim, de instrumento de manobra eleitoral. Precisamos urgentemente nos libertar dessas mazelas.

Mas por que só agora se fala na Defesa da Nação? Pois é, essa é a grande pergunta. Não resta dúvidas de que a END veio tarde. Contudo, imaginem qual a percepção que uma sociedade como a nossa tem dos militares, após ter atravessado mais de vinte anos de ditadura? É evidente que carregamos uma herança indesejada e passível de esquecimento.

No entanto, Defesa é uma questão que não se pode prescindir. Nós a negligenciamos, como bem apresenta o Deputado Raul Jungman, presidente da Frente Parlamentar da Defesa Nacional (criada no ano passado), por alguns motivos, quais sejam: a) Defesa “não dá votos”; b) não travamos uma guerra há aproximadamente 150 anos (a última foi a Guerra do Paraguai) e nem temos ameaças externas concretas que ponham em risco a nossa sobrevivência; c) baixo perfil decisório do Legislativo nessa área; e d) despreparo dos parlamentares para debater o assunto. Por outro lado, o deputado destaca a premência da Defesa para o Brasil, atrelada a configuração de um novo cenário marcado pela: a) emersão de novos riscos ou ameaças não-estatais (narcotráfico, terrorismo, etc.); b) o protagonismo crescente do país no cenário global; c) a emergência de uma nova ordem global e sul-americana; e d) as potencialidades de novos arranjos nos campos da defesa e segurança hemisféricas. Na concepção de Jungman, retorna o sonho do Brasil como potência à medida que ocupar os vácuos deixados em ambas as áreas no pós-Guerra Fria e que ter a capacidade de defender efetivamente o seu próprio território.

No mesmo sentido, o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, um dos maiores idealizadores da END, enaltece a necessidade do Brasil se atentar à sua própria Defesa. Ora, vejam este trecho de um de seus pronunciamentos: “Os países precisam ter a capacidade de dizer não, no contexto internacional, e ter a capacidade inclusive de defender seus interesses econômicos, políticos e sociais com absoluta transparência. E no mundo só se faz se, e somente se, tivermos a força da Defesa.”Ainda nesse mesmo pronunciamento, Jobim afirma que o que se busca é “um grande ajuste de contas do Brasil com o seu futuro” e, portanto, é preciso pensar grande e ser arrogante, de modo a elevar o país à posição que deveria ocupar no globo, a posição de potência.

Afinal, somos o quinto maior país do mundo em território, fazemos fronteiras com quase toda a América do Sul, temos riquezas naturais diversas – inclusive, diz-se que as guerras futuras serão travadas por essas riquezas -, somos populosos, a maioria das rotas comerciais marítimas e aéras, quando tocam o continente sul-americano, desembocam nos portos e aeroportos brasileiros, enfim, somos grandes e a preservação dessa grandeza carece de uma forte Defesa. Não há país grande que não tenha uma notável capacidade de se defender.

Assim chegamos à Estratégia Nacional de Defesa, a qual decorre de uma vontade pessoal do nosso Presidente da República, consubstanciada nos esforços do Ministério da Defesa e da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência, representados pelos respectivos Ministros, Nelsom Jobim e Roberto Mangabeira Unger (recentemente substituído por Daniel Barcelos Vargas). Infelizmente, logo de início se faz uma crítica: excluiu-se a sociedade da formulação de um documento tão importante para o país.

Se no período de criação, fecharam-se as portas para o diálogo, o documento prevê a ampliação deste e a sua extensão para toda a sociedade. É nessa parte que entramos. E a discussão agora está aberta aqui no blog. É muito importane a opinião de vocês para construir o Brasil que queremos. Pode ser que não sejamos ouvidos, mas o desenvolvimento de uma posição própria em matéria de Defesa Nacional é essencial para o exercício da plena cidadania.

É a Página Internacional se fazendo presente na construção do futuro do Brasil. E vocês, leitores diários do blog, são parte desse processo, senão perderíamos a nossa razão de ser.

Até a próxima!

(Outros links para se interarem mais do assunto: aqui, aqui e aqui)



Categorias: Brasil, Defesa, Paz, Segurança


Podcast

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Conforme prometido, eis aqui a entrevista com a Profa. Dra. Suzeley Kalil Mathias da UNESP. Clique aqui para ver o currículo da Profa. Suzeley.

Clique aqui para baixar e ouvir!

As Relações Internacionais não podem ser vistas apenas “de fora” para “dentro”. O que acontece internamente, dentro de cada país, afeta a sua projeção externa. Por muito tempo, tratou-se o Estado como uma “caixa preta”, no sentido de que o plano interno não faz diferença nas relações internacionais, mas estamos abrindo cada vez mais essa caixa preta. Nesta entrevista, temos a oportunidade de abrir a do Brasil.

Pessoal, estamos diante de “movimentos estranhos” no cenário político nacional. (Sugiro que liguemos o tema com notícias dos escândalos do Congresso, por exemplo) Parece inacreditável, mas as atuais incongruências internas podem comprometer o nosso comportamento lá fora.

Confiram a entrevista para saber o que está em jogo e como isso nos afeta. Não se esqueçam, temos eleições no próximo ano e em quem se vota faz diferença.

Mais uma vez, agradeço à Profa. Suzeley Kalil Mathias e ao Giovanni pela bela entrevista!

PS.: Como as férias na rede pública de ensino foram estendidas, e nossas primeiras entrevistas seriam feitas com os professores da UNESP, talvez na próxima semana o novo modelo de podcasts esteja ameaçado. Talvez…

Olha ele de novo aí, gente!

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Pois é turminha, olha o tempo fechando novamente na região andina! As relações Colômbia-Venezuela me lembram, em certa medida, briga de irmãos: não te aguento, mas não te largo.

O novo impasse entre eles diz respeito a uma suposta ajuda chavista às FARCs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), com fornecimento de armas à guerrilha. Mas uma coisa me chamou a atenção quando li a notícia no jornal . Se Bogotá avisou Caracas de ter encontrado armamentos venezuelanos com as FRACs em 2008, por que só agora trouxe caso a público? Se o fato era tão grave, por que esperar tanto tempo pela resposta, e só agora, quando houve manifestação dos países da região contra o acordo da Colômbia com os Estados Unidos de aceitar instalar bases militares em seu território é que a “bomba estoura”? Outra coisa curiosa: as armas foram compradas em 1988, e segundo o vice-presidente venezuelano, foram roubadas em 1995. Em nenhum desses períodos Hugo Chávez estava na presidência ou ocupando algum cargo do governo. Por que seria ele o responsável pelo desvio desses armamentos?

É amiguinhos! Isso tudo tem cheiro de teoria da conspiração! Ainda mais quando se sabe que o governo bolivariano acredita firmemente que a Colômbia está sendo usada pelos Estados Unidos para desestabilizar seu país. O Golpe de Estado em Honduras foi um sinal de alerta à iniciativa venezuelana de formar um bloco regional independente.

Na minha modesta opinião, nenhuma dessas suspeitas e respostas para as perguntas acima serão verdadeiramnete respondidas. Isto porque, mais do que nunca, verdades podem ser construidas de maneiras muito convincentes.

Acredito, firmemente, na hipótese dessa crise ter sido gerada para desviar a atenção das nossas futuras vizinhas bases militares. Sinceramente, não sei se a Colômbia suportaria a pressão sul-americana contra a instalação dessas bases.

Por outro lado, não concordo com uma jornalista política que disse que a política externa do Brasil pegou novamente o bonde errado por ter tomado partido da Venezuela nessa controvérsia, e de que a nossa tradição, desde Rio Branco, é tentar apaziguar os ânimos. Alguém tem que avisar para essa moça que os tempos são outros, e embora o Brasil não tenha abandonado a tradição conciliadora de outros tempos, tem um novo papel na região, o de líder reconhecido, que às vezes é criticado sim, mas que teve coragem de chegar aos Estados Unidos e dizer: nós agradeceriamos muito se nos deixassem cuidar de nossos assuntos sem sua interferência.

O Brasil, no seu papel de líder regional, não tomou partido da Venezuela, mas questionou a atitude de um vizinho que optou por outro alinhamento, sistematicamente recusado por muitos países da região. Talvez esteja na hora da Colômbia deixar de ser mirim e sair debaixo da saia da potência do norte. E que bom que o Brasil está tomando conta do nosso quintal!

Quanto a Venezuela…Bom, acho que o Chávez tem um jeito meio … de ser, mas só está tentando se defender e a seu país das acusações colombianas. Nós já vimos, muitas vezes, ele retirar seus embaixadores de países com quem teve alguma rusga, mas depois de um certo tempo, as coisas tendem a se normalizar. Acredito que seja apenas retórica dissuasória.



Categorias: Américas, Brasil, Estados Unidos


A Argentina e seus bodes

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[Certa vez, os funcionários de uma empresa reclamavam das condições de trabalho. Não havia ar condicionado, impressoras pra todos etc. O chefe do setor resolveu colocar 2 bodes no departamento. Foi um auê. Bode cagando pra todo lado, comendo papel, enfim. E eles tinham de cuidar dos animais. Depois de muito mais reclamações, o chefe tirou um bode. O problema diminuiu, mas o cheiro ainda era isuportável. Até que um dia eles chegaram ao trabalho e não tinha mais bode por lá. O que eles fizeram? Foram agradecer o chefe pelo bom ambiente de trabalho sem os animais]

Hoje a Argentina anunciou uma ‘liberação maciça” das licenças de importação para calçados e móveis brasileiros. De quebra, ainda sobretaxou alguns tipos de calçados chineses.

Foi uma alegria só por aqui. O governo desistiu de retaliar os argentinos, disse que entende os vizinhos. O setor calçadista se disse satisfeito com a medida, enfim, tudo certo!

O problema, meus caros, é que o Brasil não ganhou nada com a medida. Pelo contário, ainda se mostrou ‘feliz’ com as medidas protecionistas dos argentinos que tanto afetam nosso comércio bilateral.

É como acontece no Brasil quando tem reajuste salarial dos deputados. Eles querem 10%, mas sabem que não vai dar. O que fazer, então? Pedem 90% de aumento! Aí todo mundo fica doido, é imprensa, blog, Jornal Nacional, enfim. Eles acabam ‘cedendo’ à pressão da sociedade civil e da mídia e aceitam um reajuste de 15%.

No fim das contas, conseguem mais do que querem e ainda todo mundo fica mais ou menos satisfeito. A mídia acha que cumpriu com seu papel, a sociedade acredita que evoluiu e não aceita mais os absurdos do congresso nacional e os políticos estão lá torrando nosso dinheiro pra empregar os namorados das netas.

Foi isso que a Argentina fez. Aumentou a pressão ao empacar os processos de liberação de licenças. Quando aliviou a pressão, todo mundo ficou feliz. O problema, é que o que gerou a controvérsia foi a medida que instituiu as licenças e o protecionismo deles (e não somente a demora na liberação dos documentos). Agora, voltamos a esse mesmo patamar, com a diferença que estão todos satisfeitos.

Enfim. Tiraram os bodes!


Categorias: Américas, Brasil


Lixeira do Mundo?

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Vocês sabiam que nós importamos lixo doméstico da Inglaterra? Pois é. A que ponto chegamos. Temos uma quadrilha que facilita a entrada de lixo de países desenvolvidos da Europa em nosso país. E a justificativa desses países para realizarem essa exportação é meramente econômica: é mais barato mandar lixo clandestinamente para o Brasil do que investir em reciclagem no próprio país, mesmo que sejam pegos e tenham que repatriar o lixo e pagar multa como aconteceu no início dessa semana.

Cerca de 1.400 toneladas de resíduos doméstico como fraldas, seringas, preservativos, etc. foram apreendidos nos portos de Santos, Rio Grande e na alfândega de Caxias do Sul. Vieram como polímero de etileno usado como isolante termico na produção de plástico.

Fico me perguntando a quanto tempo isso acontece… e será que vem só lixo doméstico? Já não basta os problemas que enfrentamos aqui, com os lixões a céu aberto das grandes cidades e o impacto ambiental que isso causa? É claro que ficar monitorando o grau de desmatamento da Amazonia é mais limpo e mais chique, mas as consequências sanitárias da destinação do lixo são tão sérias quanto o aquecimento global.

Além disso, se nós temos conseguido, mesmo que a duras penas, conscientizar nossa população e criar usinas de reciclagem que garantem emprego para muitas famílias carentes, por que será que eles não conseguem? Se são tão desenvolvidos. Talvez falte mão-de-obra carente para tocar o negócio. Será que eles não querem importar alguns trabalhadores informais brasileiros? Tenho certeza que causariam um impacto ambiental positivo.



Categorias: Brasil, Europa, Meio Ambiente


Comendo o pão que o Diabo amassou e arrotando caviar

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Dizem que quem foi rei nunca perde a majestade. Eu diria que quem foi rei nunca quer deixar o castelo…

O G-8 está reunido em uma pequena cidade em Áquila, na Itália, para discutir os resultados da crise econômica, que começa dar pequenas amostras de recuperação, embora ainda haja advertências dos presidentes dos Bancos Centrais sobre a precariedade dos sinais de estabilização econômica.

A dificuldade de encontrar uma solução para os problemas ligados à economia internacional, causada em grande medida, por ações tomadas pelos próprios países desenvolvidos, poderia ser encarada como um indicativo da diminuição da relevância do grupo das sete maiores economias do mundo mais a Rússia.

A insistência do G-8 em continuar com a não adoção de medidas que incrementariam o comércio, como por exemplo, a abertura de mercado, e preferência pela contingência de adoção de novos pacotes financeiros que debilitarão ainda mais suas economias a longo prazo, abrem espaço para a busca de novos caminhos.

Esta poderia ser, sem dúvida, a oportunidade tão esperada para os países emergentes que compõem o G-20, juntamente com os países mais ricos do mundo, de ganhar preponderância no cenário internacional. Entretanto, por uma absoluta questão de conveniência não se cumpre o acordado.

Está claro que os países mais ricos e a Rússia, apesar da pindaíba em que se encontram, não estão nem um pouco dispostos a ceder lugar aos países emergentes, abrindo assim espaço para um novo modelo de governança global. A sustentação desse status quo pressupõe a manutenção do poder, mesmo que só aparentemente.

Por outro lado, é mais do que legitima a reivindicação dos países emergentes de serem mais representativos em organismos multilaterais financeiros. E é ai que mora o perigo. Novos atores com voz no cenário internacional significa novos interesses em jogo, e também, a necessidade de transigência entre as partes envolvidas nas negociações. Entretanto essa não é a atitude reinante.

A cada dia que passa parece ficar mais claro para todos, exceto para os países desenvolvidos, que se não houver cooperação de ambas as partes, não se encontrará uma saída adequada para o contexto de crise atual. Cada uma das partes deve atuar dentro de seu espectro de possibilidades: os mais desenvolvidos devem liderar o processo e fazer concessões de mercado para que os emergentes possam aquecer a economia global.

Parece ter chegado o momento em que se os países ricos não quiserem realmente deixar o castelo, pelo menos deverão admitir alguns novos moradores.

Mas enquanto isso não acontece, vamos por ai distribuindo camisas da seleção brasileira de futebol, porque pelo menos nisso parece que somos imbatíveis… pelo menos por enquanto…



Categorias: Brasil, Economia, Europa


Pausa

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Olha, o nosso blog é um lugar sério!

Mas eu vi um vídeo hoje no blog “Não Salvo” (de humor) e não resisti, é muito sem noção.

Tentei colocar diretamente aqui, mas como é widescreen, acabou ficando por cima dos links dos podcasts aqui do lado.

Então, veja ele aqui.

Na verdade é a ‘resposta’ do Obama a este vídeo do Lula.

A cara do Obama e do Lula no fim é impagável!

Vamos dar uma pausa de tanta coisa séria, né?


Categorias: Brasil, Estados Unidos


Antes tarde do que nunca

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Os ditados não existem atoa. Ninguém fica repetindo uma frase feita a vida toda se ela não fizer algum sentido. E parece que nosso governo resolveu dar vida ao “antes tarde do que nunca”.

O causo é simples. Já foi tema de inúmeras postagens neste blog as malandragens que os nossos vizinhos argentinos fazem conosco em matéria de comércio exterior. (Veja aqui a última delas). Agora parece que o nosso governo resolveu fazer alguma coisa.

Foi publicada hoje nos principais jornais a intenção do governo de retaliar a Argentina por conta das inúmeras barreiras comerciais que estão sendo levantas contra o Brasil. Por lá já aumentaram a perder de vistas as tarifas de importação de grande parte de nossa pauta de exportação, principalmente os têxteis.

O problema é que até pra retaliar estamos com problemas. Deve ser divulgado ainda hoje um relatório da OMC, por exemplo, que cita as medidas protecionistas tomadas pelo Brasil (e olha que não foram muitas!). Além disso, o país tem criticado o mundo afora pela proteção dada aos seus mercados. E assim como já aconteceu quando se tentou tirar do caixão as defuntas licenças prévias de importação, o governo vai ter problemas ao tomar qualquer medida.

Só que não há muito o que se fazer. O Tratado da OMC tem uma tal de Cláusula da Nação Mais Favorecida. Em poucas palavras, não se pode dar a um país tratamento diferente dos demais. Ou seja, não pode haver uma nação mais favorecida no comércio de quem é membro da OMC, as regras e tarifas têm de ser iguais para todos (a menos em caso de acordos comerciais).

Nesse caso, não resta saída ao governo que não tentar as licenças prévias de novo… Acontece que, para cumprir as regras do comércio mundial, elas afetam todos os países, não só Argentina. Só que os brasileiros são os reis da gambiarra! E pra isso já tem um jeitinho pronto: qualquer país vai ter as licenças autorizadas na hora. A Argentina não.

Não há nada que proiba isso. Só que tem um peso político nessa decisão toda. A Argentina já há muito tempo pratica o protecionismo em tempos de crise e não tem a importância que o Brasil tem no mundo hoje. Então, para eles, adotar a medida é menos ‘feio’ que para o Itamaraty, que ainda roda o mundo criticando todos.

E ficará para o dia 14 de Julho a decisão final. E ainda fomos até demais benevolentes esperando as eleições parlamentares por lá passarem antes de anunciar qualquer intenção de mudar as coisas. Mais uma vez é aguardar. Mas só a mudança do discurso de sujeição do Brasil já é um avanço.



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Efeito Gripe Suína

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Pois é, minha viagem pra Argentina pegou gripe do porco… Tive de cancelá-la. Ia já na semana que vem, mas o surto da doença me fez mudar de idéia. Aliás, não só a mim, mas a muitos brasileiros. Até as companhias aéras deixaram de cobrar multas, taxas, enfim, pra quem cancelar os bilhetes: reembolso de 100%.

E os meios diplomáticos evidentemente repercutiram as declarações e recomendações do governo brasileiro. Os ministérios do turismo do Chile e da Argentina pediram que o nosso ministro da saúde retirasse o que disse sobre os brasileiros não irem pra lá. Tudo bem que isso afeta nosso vizinhos, uma vez que muito da receita com turismo deles vem de nós. Por outro lado, o surto por lá parece estar maior do que a média, e eles iriam cuidar dos doentes que voltassem de lá, com questionou minha colega Adriana Suzart?

E eles que não se sintam privilegiados, a economia mexicana levou uma porrada da gripe suína. E os EUA, que estão lá por perto, já perderam muita gente por causa da doença.

O Brasil se solidariza até demais com os vizinhos, vamos falar a verdade. Não precisa também querer dividir o ônus dos impactos da doença.

Também temos de levar em conta a questão da mídia nisso tudo. Não confio 100% no que trazem os jornais. O objetivo deles é vender, e muitas vezes aumentar um pouco as coisas vende mais. Liguei pra Argentina pra cancelar o hotel e aproveitei pra saber como estavam as coisas. Disseram que no Brasil tem havido um exagero, e que os maiores focos não estão nem em Buenos Aires, mas nas províncias no norte.

Não sei. Assim como os jornais, eles também estão interessados no meu dinheiro. Então, não podem ser uma fonte 100% confiável.

E como o Brasil já está até com um processo disfarçado de racionamento de remédios, melhor tomar cuidado e não se arriscar a pegar essa gripe, não é? O Ministério da Saúde divulgou novas regras com relação ao tratamento da doença no Brasil, e uma delas é que só receberão o medicamento aqueles que estiverem em estado grave ou sejam do grupo de risco (idosos, crianças etc.).

Não tenho razões pra confiar na saúde pública deste país quando passo em frente a um hospital do SUS. Nesse caso, é melhor previnir do que remediar. Ainda mais quando a segunda opção já não é mais tão uma opção assim…


Categorias: Américas, Brasil


Não vê, não ouve e não se pronuncia

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[Essa semana não teremos podcast]

Essa semana o Brasil foi recebido com críticas em Genebra, em ocasião da reunião do Conselho de Direitos Humano da ONU.

O motivo? Quem leu o post do Giovanni (logo abaixo deste) deve ter uma noção. Não se trata especificamente do Haiti, mas do rumo que nosso governo toma quando o assunto é relacionado à alguma denúncia de violação dos Direitos Humanos.

Alguns exemplos vêm do medo de se perder aliados, como no caso do Sudão. O presidente daquele país está com o mandato de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional e há denúncias graves de violações dos Direitos Humanos por lá. O Brasil? Não faz nada. Não quer perder um importante aliado na África que tem algo de comércio conosco. Não condena, não ajuda, enfim. Prefere seguir o tal do princípio da não interferência…

O xadrez da política explica outros, como o caso do senador Cristovam Buarque e as eleições da UNESCO (não entendeu? Clique aqui).

Outras vezes, a simples retórica sul-sul já ajuda a entender alguma coisa, como no caso do Sri Lanka, quando com o voto do Brasil o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução que não condenou de forma clara o governo do Sri Lanka pelo tal do ‘banho de sangue’ contra os Tigres Tâmeres aleando a tal da não ingerência.

Isso sem falar no apoio dado aos nossos vizinhos quando tomam alguma atitude ‘questionável’.

Tudo bem. É uma conduta que o país decidiu adotar e não há nada de errado nisso tudo, de verdade. O problema é que o Brasil não é um país hoje com significância reduzida no cenário internacional. Tudo bem de novo. Há países com relativa importância, como a Suíça, que preferem se manter neutros sobre quase tudo. O problema de novo é que o Brasil acha que tem o direito de ser gente grande, como diz o Giovanni. Quer assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, quer ser BRIC, quer sair primeiro da crise, enfim…

Como um país que não toma atitudes sobre quase nada pode querer ter poder de veto no mais importante órgão das Nações Unidas? Como o Brasil quer ser respeitado se quando o presidente de um parceiro insignificante mata milhares de pessoas o Itamaraty não faz outra coisa se não soltar uma nota em papel timbrado com alguma declaração vazia?

Estar no Conselho de Segurança da ONU como membro permanente não tem outra função que não a simbólica. O órgão não é respeitado nem pelos Estados Unidos nem uma Coréia do Norte qualquer. As operações de paz são mais criticadas que o Hugo Chávez em véspera de referendo.

No entanto, é justamente o valor simbólico que importa. Estar lá é a prova de que o país faz diferença no jogo de poder mundial, ou na estrutura do poder, como diriam os neo-realistas. É ser gente grande. A configuração do Conselho hoje revela nada mais nada menos do que a distribuição do poder no mundo após a segunda guerra mundial, o que não é pouca coisa. E é justamente por esse status todo que quem está lá não quer abrir a porta pros demais.

Pois é. Os macaquinhos que não vêem, não ouvem e não falam podem ser até bonitinhos pra ficar em cima da mesa, mas não pra ficar em cima de uma cadeira permanente do Conselho de Segurança da ONU.


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