Pedras e bom coração

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O caso da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani tomou maiores proporções essa semana. O presidente Lula ofereceu asilo no palanque, foi chamado de desinformado e emotivo pelo ministro das relações exteriores iraniano… Muita informação de repente jorrada pela mídia, uma súbita mudança de postura do Brasil com o Irã, e também a situação das condenações a morte no mundo. Vamos por partes.

Ashtiani foi condenada em maio de 2006 por ter mantido uma “relação ilegal” com dois homens, a 99 chicotadas. A pena se cumpriu. Pouco tempo depois, a mãe de dois filhos foi novalemnte a julgamento por adultério, e dessa vez deu-se a sentença por apedrejamento. Ashtiani alega inocência. Depois de protestos em muitos países e organizações internacionais, no início de julho deste ano, chegou-se a anunciar que Ashtiani não seria morta por apedrejamento, e que a pena seria revista. Oficialmente, não há confirmação dessa informação, nem nenhuma garantia da mudança.

O Irã foi o segundo país que mais executou condenados à morte em 2009. Dados oficiais dizem que 388 pessoas foram executadas por ordem da Justiça no país, atrás apenas da China, que não divulga esse tipo de informação – sabe-se que a Justiça condena à morte mais pessoas que todos os outros países somados.

 

A pena de morte (ou pena capital) é ainda aplicada em muitos países (prevista em 58, aplicada em 18). Em geral, e sem discussão do poder que o Estado tem para tirar a vida de alguém, os métodos atualmente aplicados abrangem apedrejamento, câmara de gás, fuzilamento, injeção letal, forca, cadeira elétrica e decapitação. Para nos restringirmos ao caso da iraniana, a morte por apedrejamento é feita de maneira que o condenado seja amarrado e enterrado até a altura do peito, no caso das mulheres. O juiz inicia atirando uma pedra, seguido pelos jurados e pelo público, até que a pessoa morra por traumatismos, cerca de uma hora depois.

Voltado ao envolvimento do Brasil. A famosa carta secreta enviada dos EUA ao Brasil, que supostamente conteria instruções ao governo brasileiro sobre as preocupações norte-americanas quanto ao Irã, misteriosamente vazou para a mídia. Depois das atrapalhadas negociações com Irã e Turquia, e do apoio (nem sempre) velado a outros países violadores de direitos humanos, num terceiro-mundismo infundado, Lula teve uma sacada de mestre. O presidente afirmou que, “como cristão”, não considera correto que um Estado condene uma pessoa à morte, mas é uma situação muito delicada pois envolve a soberania de um país… Que bom coração!
 

O Brasil recebe essa mulher! Não é humano apedrejar ninguém, assim como não é humano ‘se deixar morrer de fome’, não é mesmo, Lula?


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Vinícius, eterno!

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[O colaborador Giovanni Okado nos brinda com um ótimo texto sobre Vinícius de Moraes – poeta, boêmio, diplomata, e, post mortem, Ministro de Primeira Classe da Carreira de Diplomata. Confira abaixo!]

“Meu Vinícius de Moraes,

Não consigo te esquecer,
Quanto mais o tempo passa,
Mais me lembro de você.”

Não apenas Tom Jobim, mas o Brasil inteiro se lembra. Há uma saudade cuja idade não falta a memória e o tempo não fenece: duas décadas sem a cultura, a música e a poesia do inesquecível Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes, ou simplesmente Vinícius de Moraes (confiram sua biografia).

Nascido em 1913, no Rio de Janeiro, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, Vínicius haveria de transcender com a beleza poética, transformada posteriormente em canções, à dureza da realidade: guerras, crises e tensões, externamente; lutas sociais e a ditadura, internamente. Poeta e diplomata, mas também boêmio. Uma boemia que lhe rendeu tanto críticas quanto uma criatividade extraordinária, inclusive para responder às críticas à altura e com elegância (como no episódio em que ele bradou os versos de Poética para os jovens salazaristas, ferrenhos à ditadura lusitana, e estes se curvaram ao gênio).

Pessoa de gostos simples, apaixonado pela carne seca desfiada da tia Beti (mulher de Pixiguinha), e requintados pela poesia francesa. Num país condenado por suas imperfeições, foi patriota como poucos, como expresso no poema Olha Aqui, Mr. Buster. Sofredor, como há de ser o grande poeta, perseguido pelo AI-5 e sempre saudoso do Brasil, quando no exterior. Em resposta à publicação do AI-5, Vinícius declamou Minha Pátria, juntando a perseguição e a saudade:

“Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!”

Só que a perseguição lhe custou a carreira diplomática, já tão contestada por ser incompatível com a de músico. Não bastasse aposentá-lo compulsoriamente do serviço público, em 1969, classificou-o entre os “bêbados, boêmios e homossexuais”. Classificações que seriam varridas junto com o regime autoritário, preservando a herança cultural e literária, antes confinada aos círculos elitistas, por toda a nação. Vinícius não assistiu à queda da ditadura, morreu em 1980, vítima de um edema pulmonar. Partiu sem pedir a benção e dizer adeus. Mas segue como um ícone raro de nossa história, capaz de unir a ação ao sentimento (embora ele tenha dito isso a Carlinhos Lyra), de demonstrar que as palavras se sobrepõem à força.

É, Vinícius, sem você, o Brasil emudeceu e ensurdeceu. Ainda assim, não o esqueceu. Exemplo disso é a sua elevação post mortem ao cargo de Ministro de Primeira Classe da Carreira de Diplomata (aqui), o mais alto cargo dessa carreira. Você foi eterno enquanto durou, e que assim permaneça quando não mais dura. A benção a nós que ficamos e o reconhecimento a você que partiu…

[Para quem tiver interesse, no YouTube está disponível uma sequência de vídeos sobre Vinícius de Moraes, no programa Mosaicos. Acesse aqui a parte 1, a parte 2, a parte 3, a parte 4 e a parte 5. Vale a pena!]


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Cedendo às pressões

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Há alguns dias que Brasil e Irã retornaram às manchetes dos jornais brasileiros e internacionais. Todavia, não se tratava da conturbada questão nuclear, mas sim de uma questão que, para alguns, é uma das mais polêmicas da política externa de nosso companheiro presidente Lula: a questão dos direitos humanos.

Antes de qualquer coisa, cabe uma breve recapitulação das três aproximações polêmicas do Brasil e das repercussões negativas que têm por aí.

Na aproximação com Cuba, Lula foi criticado pelas supostas vistas grossas frente às greves de fome dos dissidentes e aos presos políticos do país.

No contato com o governo venezuelano, o Brasil é acusado de ouvir demais o inconstante Hugo Chávez, que cada vez mais fecha o cerco contra a sociedade limitando as liberdades de expressão e desviando os olhares, por meio de sensacionalismos constantes, das profundas crises que o país vive.

E na polêmica aproximação com o Irã, as violações do governo dos aiatolás são, por muitos, colocadas como sustentáculo de argumentos opostos à suposta retomada do pragmatismo na política externa – que tem tentado novamente torná-la menos inclinada a argumentos ideológicos.

Bom, atualmente, parece que o Brasil acatou a uma das críticas de sua relação com o Irã. nesse caso, cabe alguns esclarecimentos sobre a declaração de Lula que gerou um bafafá mundo a fora. Aquela na qual o presidente brasileiro pede permissão ao governo iraniano, caso seja necessário, para conceder asilo político à mulher iraniana condena a morte por apedrejamento, Sakineh Mohammadi Ashtiani.

A questão abre precedentes para questionamentos bem interessantes, muito além do entendimento de uma suposta intervenção em assuntos internos iranianos. Ao que parece, o Brasil cedeu às pressões da comunidade internacional e intentou mostrar que se importa sim com as questões de direitos humanos. É interessante, que em alguns países já é esboçada reações positivas a apoios a essa posição. O discurso foi uma espécie de mensagem de Lula à comunidade internacional.

Todavia, essa mensagem foi elaborada em momento inoportuno e em situação igualmente inoportuna. Posicionar-se sobre uma questão de significação cultural tão delicada, vai contra o pragmatismo proposto pela diplomacia brasileira. Quando o Brasil cedeu às pressões internacionais, foi contra sua longa tradição de política externa. Irônico, não?


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Fim de temporada

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Estará chegando ao fim a novela mexicana que se tornou o programa nuclear iraniano? Se depender do tanto de reviravoltas que andam ocorrendo, parece que estamos lá pelos últimos capítulos. Indícios estão pipocando nessa semana.

Todos conhecem o caso da senhora Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por lapidação no Irã. Mais estranho que a declaração de Lula oferecendo asilo a ela no Brasil (após fazer vistas grossas a diversas violações e violadores de direitos humanos por aí e até mesmo dizer que devia-se respeitar a lei de cada país), foi a disposição de Teerã em considerar a proposta, algo impensável há alguns meses. Se vier a aceitar, certamente será uma cartada estratégica com a intenção de melhorar um pouco a imagem internacional do Irã.

Afinal, a coisa anda feia por aqueles lados – as sanções chegaram a todo vapor, da ONU e unilateralmente por parte de EUA e UE. Pra piorar, surgiu a notícia de que os EUA já teriam um plano de ataque pronto para completar seu tour de incursões militares na Ásia. Apesar dos desdobramentos negativos e pouca probabilidade de ação militar, é uma opção caso os outros meios de negociação falhem e Ahmadinejad sabe que não importa o quanto chantageie, os cowboys não tem medo de chegar atirando. Tanto que, aquele que há pouco tempo tresloucadamente dizia que o polvo Paul era o símbolo da decadência do Ocidente, já baixou a bola e chamou Obama para uma conversa.

Enquanto isso, seu governo se mostra aliviado pelo fato a AIEA dar sinais de querer retomar a negociação de troca de urânio com o Grupo de Viena, proposta por Turquia e Brasil-sil-sil. Parece que todas as partes envolvidas, fazendo suas pressões aos seus modos, dão sinal de querer voltar ao debate, o que aparentemente era inviável algumas semanas atrás. Uma hora a bravataria dá lugar ao bom senso, espera-se.


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Podcast

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Finalmente os podcasts voltaram, pessoal!

Esperamos que todos vocês, leitores diários da Página Internacional e demais interessados, tenham sentido saudades deles.
Na passagem do colaborador Raphael Lima e de Diego Lopes da Silva (graduando do 3º Ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca) por Brasília, ambos juntaram-se a Giovanni Okado e realizaram este podcast.
Uma das questões atuais de grande relevância, tanto para o Brasil como para o mundo, é a projeção brasileira no cenário internacional. Até que ponto nosso país está influenciando importantes processos internacionais? Nossa posição regional e interna sustenta nossa atuação em âmbito global? Ora, muitas vezes a suposta liderança regional é percebida como um imperialismo na região, sem contar a negligência do Brasil para com alguns aspectos importantes na América do Sul. Ademais, internamente, nem sempre se verifica fatores condizentes com a condução de suas relações externas.
Enfim, o tema deste podcast é “O protagonismo brasileiro nas relações internacionais: mito ou fato?”. De modo algum se pretende apresentar uma resposta definitiva, mas fazer algumas considerações para conduzir a reflexão crítica e debatermos nesse espaço.

Baixe e ouça as versões em .mp3, .wav ou .ogg

Bom podcast a todos!

O novo "Angelus Novus"

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Em 1920, Paul Klee pintou a sua famosa obra intitulada “Angelus Novus”, ou “Novo Anjo”, objeto de profunda reflexão por Walter Benjamin. O quadro, embora bisonho à primeira vista, está repleto de significações. O anjo, no centro da obra, está horrorizado com tantas atrocidades e abominações do passado e do presente, que igualmente são empurradas para o futuro, numa tempestade nebulosa chamada progresso. Em meio aos mares de sangue e oceanos da miséria humana, o anjo é incapaz de se mover, fita o passado com tristeza e anseia por um futuro menos desgraçado, mas não perfeito. Mais do que uma obra divisora da modernidade, é uma obra pensada para além do seu tempo, abarcando antagonismos que apagam a esperança. Recentemente, os pincéis da política internacional repintam um novo “Angelus Novus” no Oriente Médio.

O Irã persiste como a pedra no caminho das grandes potências. Ontem, a União Européia resolveu adotar novas sanções econômicas contra o país – à semelhança dos norte-americanos -, proibindo negócios com bancos e companhias de seguro e investimentos nos setores de gás e petróleo. A Rússia protestou. Ahmadinejad desconversou. Também em resposta ao vazamento (tratado pelo Álvaro ontem) de informações confidenciais dos Estados Unidos, supôs uma invasão norte-americana a pelo menos dois países do Oriente Médio nos próximos três meses, sem especificar quais e as fontes de tal informação. Concomitantemente, o presidente iraniano considera-se pronto para retornar as negociações sobre a troca de combustível nuclear e aberto ao diálogo sobre seu programa nuclear a partir de setembro, esperando contar com a participação do Brasil.

O Iraque vive a quimera da reconstrução. As ilusões democráticas se converteram em maldições socráticas, na medida em que a implementação da democracia, motivo da “intervenção” norte-americana, infligiu um conceito inalcançável de “bem” para o país. Bem que fenece a cada atentado – o mais recente ocorreu ontem e deixou 25 mortos – e que é desacreditado a cada desconcerto político. Em meio a tanta bagunça e o fortalecimento dos insurgentes, dificilmente as tropas deixarão o país em 2011. Hoje se noticiou o “sumiço” de US$ 8,7 bilhões destinados a reconstrução do Iraque e que os militares não sabem para onde foi esse dinheiro. O Parlamento adiou outra vez a retomada de suas sessões, após as eleições de março. Curiosamente, a situação iraquiana serviu de analogia para um futuro desdobramento das tensões entre Venezuela e Colômbia, no discurso de Chávez na ONU.

Certamente, o quadro não poderia ser repintado, sem as pinceladas sobre as negociações de paz entre palestinos e israelenses. A União Européia pede a abertura do bloqueio a Gaza, região que o premiê inglês, David Camerom, chamou de “prisão a céu aberto”. Netanyahu fez uma visita surpresa a Jordânia, para conversar com o rei Abdullah II, pouco depois deste ter se reunido com Abbas. O chanceler brasileiro Celso Amorim também está de passagem pela região, considerada importante para um porta-voz palestino. No entanto, perdura a questão se as negociações se darão de maneira direta ou não. E continua o exercício de déjà vu e futurologia…

A sorte está lançada para o Oriente Médio, este anjo imóvel na história contemporânea. Os ventos do passado e do presente carregam todos os insucessos para conduzi-lo ao futuro, uma iminente repetição de outrora. Muitas manobras que estão em curso, sobretudo das grandes potências, não deverão conferir mobilidade ao anjo. Outrossim, esse mesmo anjo não pode se mover enquanto voltar seu olhar estritamente para as atrocidades do passado. Nesta divisa entre tempos e possibilidades, as alternativas podem estar na audácia de lidar com o incerto e inovador, simultaneamente, como uma diplomacia mais aberta a atores e voltada mais ao diálogo e menos à coerção, sem o ilusionismo da paz puramente pelas palavras, mas dosada por um realismo que leve em conta a sombra da guerra e da instabilidade. Há um lugar para o Irã, Iraque, Palestina e Israel no mundo, que não seja aquele ocupado pelo Angelus Novus.


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A Copa do Mundo é nossa

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No dia em que o Brasil se entristece devido à desclassificação pela Holanda nas quartas-de-final da Copa do Mundo 2010, cabe uma breve reflexão acerca da importância desse evento de abrangência internacional, especialmente no que tange o continente africano, sede dos jogos neste ano.

A realização deste evento mundialmente conhecido e imensamente aguardado a cada quatro anos ocorre, pela primeira vez na história, em solo africano. Desta forma, desde o início dos jogos na África do Sul, no dia 11 de junho, o combate ao preconceito racial e à miséria que aflige todo o continente têm sido recorrentes na análise “extra-campo”.

A presente Copa, inegavelmente, tem como um de seus principais méritos a visibilidade midiática alcançada no que tange aos desafios enfrentados pelos países que, historicamente, se encontram em situação de exploração, notadamente européia. A movimentação, centrada na África do Sul, se estendeu aos vizinhos e impactou fortemente na região.

Percebe-se que a realização desta Copa do Mundo pode ser considerada um marco na história da evolução das políticas mundiais de combate ao racismo e à pobreza que aflige o povo africano em geral. A cada jogo, a participação destacada dos africanos com suas vuvuzelas tem demonstrado a alegria com que o povo local acolheu a competição. Espera-se que, efetivamente, esta Copa represente uma mudança de postura e o início de uma nova mentalidade mundial com relação à África, especialmente por parte dos países desenvolvidos daqui pra frente.

Em 2014, o Brasil sediará a Copa. Se em 2010 a seleção brasileira não pôde comemorar o hexacampeonato, daqui a quatro anos a Copa será nossa. Pelo menos territorialmente. A Fundação Ernst & Young, junto com a Fundação Getulio Vargas, divulgou um estudo demonstrando que, entre 2010 e 2014, R$ 142,39 bilhões serão gerados em investimentos diretos e indiretos para a economia brasileira, o que poderá atingir a maior parte das atividades econômicas do país.

O impacto nacional já pode ser percebido nos investimentos que começam a ser realizados e na mobilização dos estados que sediarão jogos, sendo que especialistas ainda questionam as reais projeções de crescimento esperadas para o país. Contrariedades à parte, a expectativa para a próxima Copa é grande. Copa esta que já começa oficialmente na próxima quarta-feira, dia 08 de junho, quando o evento de lançamento dos jogos de 2014 acontecerá em Johannesburgo.


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Hermanos, pero no mucho

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Reação de uma eurodeputada à proposta de aprofundamento das relações comerciais com o Mercosul

Estamos na reta final da Copa do Mundo e o sentimento de união entre os países, que perfez o início dos jogos, se ofusca, dando lugar a um caldeirão de frustrações, alegrias e rivalidades. O assunto está tão em pauta, que nem mesmo a primeira visita ao Brasil do novo chanceler argentino, Héctor Timmerman, foi capaz de deixar de lado uma conversa sobre futebol. Por detrás de comentários jocosos inspirados na atual fase do mundial e da rivalidade futebolística entre brasileiros e argentinos, vislumbram-se anos de discórdia e lutas pela liderança regional sul-americana.

Historicamente, as relações políticas e econômicas entre Brasil e Argentina tardaram em alterar-se, somente atingindo um tom mais cooperativo ao final da década de 1980 e em meados da década de 1990. A assinatura do Tratado de Assunção em 1991 – criando o Mercosul – parecia haver trazido um novo patamar de entendimentos para os dois países. Todavia, ainda hoje é possível observar, no interior do Mercosul, certa herança dessa rivalidade histórica.

Exemplo disso são os famosos casos de barreiras argentinas à produtos brasileiros. E o novo episódio dessa longa saga deu-se em maio desse ano, com bases em uma controversa declaração do secretário do Comércio Interior argentino, Guilherme Moreno. Nesse polêmico discurso, o secretário argentino defendeu que os empresários e comerciantes de seu país não importassem produtos brasileiros que possuíssem homólogos nacionais. Ainda, falou-se de um bloqueio para esses produtos alimentícios. Pouco se sabe se tal iniciativa foi consolidada ou não, do ponto de vista oficial, mas sabe-se que a repercussão para a parceria comercial brasileiro-argentina (e até mesmo para os próprios comerciantes argentinos) não foi nada boa. O Brasil reagiu declarando que, se tal iniciativa fosse consolidada, haveriam medidas contra a Argentina.

Dado esse desenrolar de eventos, a recente visita do novo ministro argentino ao Brasil teve fins diplomáticos bem definidos: esclarecer essas questões comerciais – frisando que a Argentina não impôs oficialmente essas barreiras comerciais – e reforçar a importância das relações comerciais bilaterais. Ao final do encontro as pautas podem até ter sido esclarecidas, mas seus efeitos transcenderam a América do Sul, recaindo diretamente sobre o discurso da União Europeia. Daí emerge certa resistência ao aprofundamento das relações comerciais entre Mercosul e a UE. Afinal, como dar credibilidade a um bloco que não nem mesmo a tem entre seus próprios membros? E outra, talvez o Brasil não seja o único alvo de bloqueios e medidas protecionistas no setor alimentício, pois o próprio bloco europeu tem exigido o fim de medidas desse gênero por parte dos argentinos.

Esse tipo de prática de protecionismo no Mercosul degrada as relações comerciais no interior do bloco e garante-lhe desprestígio em âmbito internacional. Assim, entende-se que o maior receio da UE é que em um possível tratado de livre comércio com o Mercosul, os países-membros democratizem essa prática, o que os europeus não se podem dar ao luxo, dada a grave situação econômica de seu bloco.

Nossos hermanos argentinos podem até ter deixado de ser o foco de nosso eixo estratégico em questões de defesa. Mas tanto no campo de futebol, quanto no campo econômico, os resquícios dessa antiga rivalidade histórica ainda transparecem.


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Há um ano...

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O mundo parece que gira em falso. Há um ano, a discussão internacional rondava – adivinhem – o Irã. E um pouco do Brasil também. Quem diria que os temas estariam tão relacionados um ano depois.

Na época, o Brasil era criticado pelo Giovanni (aqui) devido à relação entre nossa participação no Haiti, considerada hipócrita, e as pretensões a um assento permanente no CS da ONU. Esta postagem servia de gancho para outra na qual o Alcir tratava da falta de utilidade prática do CS, mas também dava indícios de que o Brasil era meio que leniente com denúncias de abusos de Direitos Humanos. Ora, basta ver as vistas grossas de Lula quanto aos prisioneiros de Ahmadinejad em sua recente visita ao país do Oriente Médio. Aliás, muitos desses prisioneiros políticos acabaram sendo os protestantes que denunciavam as fraudes nas eleições passadas. A comoção foi discutida aqui e aqui.

Via-se também como Lula já meio que defendia o presidente iraniano ao declarar que a fraude eleitoral não teria ocorrido. Tudo fica claro – assim como o Brasil ignora a “não-intervenção” para mostrar serviço na ONU, ignora as arbitrariedades do Irã em prol do comércio bilateral. Mal sabia Lula que essa teimosia traria resultados ruins para suas ambições no CS.

Isso pois se houve alguém que mudou muito foi o Obama. Na época, buscava reatar com a Venezuela e era aplaudido como o líder que soubera recuar para atingir resultados construtivos. Mas agora, com o esgotamento de seu ímpeto inovador o fracasso em fazer valer muitas de suas promessas, voltou ao bom e velho diálogo à la Bush e comandou o time das sanções contra o Irã.

Que fim teve tudo isso? Ahmadinejad continuou na presidência. Os prisioneiros políticos dos protestos ainda apodrecem em alguma masmorra. E Lula aproveitou pra jogar pela janela todo o esforço no Haiti e perder todo o apoio que tinha de membros permanentes à vaga no CS em uma jogada despropositada para mostrar força no cenário internacional, defendendo o coitadinho do Irã. Imagino como isso fica daqui a um ano.


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Quem vence por último, vence melhor

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Chegou o próximo capítulo, Raphael. Uma história chega ao final sem ter propriamente um fim. Se no Afeganistão morreu o 300º soldado britânico, no Brasil está fenecendo os esforços de mediação do caso iraniano. Infelizmente, perdeu-se uma boa chance para uma guinada positiva na política mundial, qual seja a conformação de uma saída negociada para a questão nuclear do Irã, marcada por uma postura atuante da diplomacia brasileira.

O presidente Lula já entregou os pontos, ao dizer que o Brasil fez o que pode. Por certo, fez o que deixaram fazer, não no sentido de cumprir um pseudo-receituário norte-americano (lembremos da suposta carta de recomendação de Obama), mas por não poder ir além do condomínio inescrupuloso das grandes potências. Muitas elogiaram a atuação brasileira, no entanto, no máximo, conceberam-na como um show de abertura ao espetáculo das sanções. Agora quem samba é o Conselho de Segurança, nos festejos de uma prática recorrente e que nunca deu certo, ainda assim dita milagrosa. O Irã já vive sobre sanções! Diante de tal atitude, só faltava o clube mandachuva pensar que o governo iraniano receberia cordialmente os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), quando não lhe ofereceram a chance de pôr em prática a Declaração de Teerã. (aqui, aqui e aqui)

Aliás, o Conselho de Segurança foi alvo de críticas do chanceler Celso Amorim, que afirmou que o órgão não reflete mais a realidade política, e sim “a realidade de 65 anos atrás”. Isto não é novidade. Assim como tal declaração também não escamoteia o sacro desejo brasileiro de se tornar membro-permanente do órgão. Mas evitemos os reducionismos que contaminam a maioria das análises atuais sobre o que o Brasil foi fazer no Irã. Ampliemos os horizontes de nosso senso crítico. É fato notório: do final dos anos 1990 para frente, a política externa brasileira alcançou praticamente todo o globo e tem se sentado nas principais mesas de negociação (ONU, OMC, G-8, G-20, etc.).

Mas por que o Irã, quando todos dele se distanciavam? A princípio, ninguém é ingênuo ao ponto de não perceber os interesses comerciais, haja vista que o Brasil mandou uma coalizão de empresários ao país pouco antes do encontro de Lula e Ahmadinejad. Em segundo lugar, a América Latina é a única região livre de armas nucleares, garantia acordada de maneira institucional, por acordos regionais e bilaterais, com destaque para os esforços de Brasil e Argentina. Em matéria nuclear, temos o que ensinar para o mundo! Por fim, é preciso que alguma voz se levante para demonstrar que “as coisas não andam bem”. Em 1976, na Assembléia Geral das Nações Unidas, o chanceler brasileiro Azeredo da Silveira propôs uma Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI), sobrelevando as necessidades do desenvolvimento econômico e social ante as preocupações de segurança. Agora, Lula e Amorim sinalizam a necessidade de uma nova diplomacia, tarefa malograda de Obama. O presidente, que outrora ensejou uma aproximação com Teerã, colhe as quinquilharias da vitória das sanções, focando em bancos e gasolina.

Ressalta-se que mesmo o ex-presidente Cardoso destacou a credibilidade e o respeito internacional do Brasil em suas relações exteriores. Ainda que para muitos o país saia derrotado do caso iraniano, é uma derrota vitoriosa. Quando as grandes potências se despojarem de sua soberba, perceberão que a solução para o Irã seria uma saída negociada e pacífica, algo tentado pelo Brasil em conjunto com a Turquia. Sem os suspiros ufanistas de Policárpio Quaresma, o herói de Lima Barreto, o Brasil está bem cotado no mundo, deixando a condição de periferia no passado e a condição de potência no futuro.

(Vejam também a justificativa do Brasil por ter votado contra as sanções no Conselho de Segurança.)


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