Crise existencial

Por

Todos devem ter acompanhando as confusões e protestos na França que precederam a aprovação da nova legislação de aposentadoria (e que ainda continuam). A aprovação do aumento para a idade mínima de aposentadoria na última semana trouxe os prejuízos causados pelas greves (monetários, da ordem de 400 mil euros por dia, e até mesmo físicos, com toneladas de lixo pelas ruas) e o descontentamento popular. Muito contribui pra isso a desgastada imagem do presidente Sarkozy, o cara que parece uma mistura de Silvio Berlusconi com Roberto Justus, cujo governo marcado por escândalos e imoralidades teve essa reforma como a cereja do bolo da ira popular.

Ainda bem que isso não acontece no Brasil! Não, não, isso é coisa dos países ricos e envelhecidos. Mas é óbvio que se trata de uma questão de tempo para que a melhoria nas condições de vida cobre seu preço dos cofres públicos. Hoje mesmo, o país compromete boa parte do orçamento federal com a previdência, e se mantém pela força de trabalho jovem que cobre o rombo com seu trabalho e impostos. Mas um dia essa reforma deverá ocorrer por esses lados, e Deus nos acuda quando ela chegar.

Eis o drama e o paradoxo do Estado moderno. No pós-Segunda Guerra mundial, houve as condições perfeitas para a implementação do Estado de bem estar social – as garantias como o salário mínimo, previdência e auxílios diversos, que caíram como uma luva no esforço de reconstrução das economias arrasadas. Ainda que pensado no contexto de países europeus e EUA, esse modelo foi exportado a seu modo para outros lugares, como a América Latina, e resultou em grandes avanços na área social. Crise vai, crise vem, os governos tem que gastar mais e preço é cobrado, com a situação podendo ficar insustentável. Austeridade fiscal não combina com esse tipo de gastos. As soluções vão de ir pro buraco de vez a reformar essas legislações (isto é, seja qual for o remédio, é amargo).

Na Europa, o drama é a manutenção dos índices macroeconômicos previstos para a o ingresso na União Europeia, que obriga os países-membros na cortarem gastos da maneira que for possível nesse momento de crise. Na Grécia, por exemplo, já houve medidas ainda mais draconianas, como cortes de salários e demissões em massa. No caso do Brasil, é um pouco pior, pois todos esses benefícios estão garantidos na Constituição, e fica complicado mexer, por exemplo, na previdência – se fosse fácil, reforma não estaria sendo discutida há uns 10 anos. E é impossível que esse tipo de reforma não venha acompanhada de protestos e revoltas contra a retirada de benefícios que existem há gerações.

Isso remete ao anacronismo do comportamento do Estado atualmente – se ele age minimamente, com austeridade, é tachado de omisso e elitista pelos setores populares; se interfere demais, logo é assombrado pela acusação de paternalismo e irresponsabilidade. Qual a saída pra essa crise existencial?


Categorias: Brasil, Economia, Europa, Polêmica


Quem quer dólar?

Por

Nunca antes na História desse país houve uma entrada tão violenta de dólares na economia. Muito tem se falado na imprensa sobre a guerra cambial, expressão cunhada pelo mininistro da Fazenda Guido Mantega e que se espalhou mundo afora. Reunião do G-20 para debater a valorização generalizada de todas as moedas frente ao dólar: tudo conversado, nada resolvido, num problema que promete causar estragos em 2011.

Depois da crise de 2008, visando impulsionar o consumo e a produção, os países baixaram suas taxas de juros, gerando enorme liquidez. Em outras palavras, os governos pagam menos se você quiser deixar o seu dinheiro na poupança. Como não compensa deixar o dinheiro parado, você 1) consome, compra aquela TV que sempre quis mas nunca teve como adquirir ou 2) investe em aplicações de maior risco, e que dão retornos maiores. No Brasil, a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) ajudou a aquecer o mercado, e todo mundo comprou carro, geladeira, fogão, etc.

Mundialmente, apesar do auge da crise já ter passado, os países desenvolvidos não tem perspectivas de expansão dos seus mercados internos. A solução é ganhar espaço fora! Nesse sentido, uma das medidas econômicas mais simples para aumentar exportações é manter essa liquidez e desvalorizar o dólar perante as outras moedas. Para isso, os EUA estão imprimindo papel-moeda numa velocidade frenética e mantendo os juros baixos. Com muita moeda americana circulando, o preço da mesma cai, tornando as moedas nacionais “mais caras”. Com isso, fica mais barato comprar mercadorias importadas do que as nacionais, descompensando a balança comercial. O Brasil, então, é muito visado como “porto” para o atracamento desses investimentos, já que oferece uma das maiores taxas de juros.

Os governos, de olho nessa tendência, lançam mão de medidas para dificultar a entrada de capital estrangeiro – aumentam impostos, impõem cotas, erguem barreiras aqui e acolá. A China, mercado mais visado pelos países desenvolvidos, possui reservas suficientes para manter o yuan desvalorizado com relação ao dólar. Ou seja, nessa guerra da batata-quente, sobra para os outros subdesenvolvidos – nós.

Isso é muito visível quando olhamos para o índice Big-Mac. Criado pela ‘The Economist’, o índice afere o preço dos big-macs no mundo, partindo do princípio que o sanduíche é o mesmo em todo o lugar e, portanto, deveria custar a mesma coisa. Com esse cálculo, medem-se as distorções que uma moeda tem em relação à outra. O Brasil tem o segundo Big-Mac mais caro do mundo – US$ 5,16, só perdendo para a Suíça, com US$6,78 (nos países do Euro, o valor é US$ 4,79; nos EUA, US$ 3,71; e na China, US$ 2,18). Em se tratando de Brasil, outro indicador preocupante é o saldo de transações correntes (valor que leva em conta todas as operações do país com o exterior, como exportações e importações, juros pagos, transportes, seguros, lucros e dividendos recebidos, serviços diversos, e transferências unilaterais) e os sucessivos recordes deficitários – se quiser saber mais sobre isso clique aqui e aqui.

Em Seul, os ministros do G-20 acordaram contra a desvalorização de moedas, e se comprometeram a regular desvalorizações cambiais. Nem Meirelles nem Mantega compareceram ao encontro, que lança as bases da cúpula, a ocorrer em novembro. Apesar das “boas intenções” declaradas no G-20, o dólar continua a operar em baixa no mundo.

O fato é que essa situação não deve se alterar a curto prazo, possivelmente nem a médio. A guerra cambial pode se desdobrar em guerra comercial, com os países tomando medidas protecionistas para defender suas economias – e isso geraria uma recessão grave. Como toda moeda tem dois lados, talvez seja uma boa estratégia aproveitar o momento e as vantagens decorrentes de um real mais valorizado. Algumas possibilidades estão na melhoria de portos, aeroportos e indústrias, importação de maquinário, bastando-se algum freio para a importação de bens de consumo não-duráveis. Uma reforma tributária também cairia muitíssimo bem para aumentar a competitividade da indústria brasileira no mercado interno.

E seja quem for o próximo presidente, fato é que algumas escolhas difíceis deverão ser tomadas em 2011, quando esse problema deve atingir seu ápice e trazer conseqüências bastante danosas ao Brasil.


Categorias: Brasil, Economia, Estados Unidos


Capital da esperança

Por

Esperança. Palavra-chave utilizada por Capitão Furtado ou mesmo Neguinho da Beija-Flor para descrever Brasília, capital geográfica de nossa pátria amada, idolatrada. Talvez também deva ser a esperança o capital central a guiar os cidadãos às vésperas de mais uma eleição – capital este entendido enquanto potencial transformador dos seres humanos. Afinal, as eleições representam o momento crucial para reforçar os valores democráticos e a importância da escolha de representantes políticos a ocuparem os espaços a estes destinados na sociedade.

É claro que um pleito eleitoral é muito importante para a construção de qualquer país, cada qual com seus próprios desafios (diferentes exemplos aqui ou aqui). Não são necessárias delongas para reiterar que se trata da oportunidade de cada cidadão renovar os votos de esperança no futuro da nação a partir da perspectiva de representatividade. Contudo, vale lembrar que eleger representantes políticos exige identificação. Identificação com valores, propostas e projetos. E não apenas identificação com meras imagens ou piadas.

Há anos o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) divulga os avanços da democracia no mundo por meio de relatórios oficiais. Nada mais compreensível, afinal pode-se visualizar que o século XXI desponta como a era da informação, do desenvolvimento e da participação da sociedade civil. Entretanto, cabe reforçar uma reflexão apresentada pelo PNUD: eleições multipartidárias por si só não são suficientes para garantir a democracia. Certamente que não. Para garantir a democracia é necessário compreender o real sentido desta que significa, literalmente, “governo do povo”.

Apenas com o crescente apelo à participação popular nas discussões e no entendimento das demandas e das condições que representam o panorama político nacional é que se pode almejar ao fortalecimento da estrutura política de qualquer país. E à busca de um real sentido de esperança, é claro. A oportunidade de assistir a debates com candidatos tem influenciado eleitores no mundo inteiro há décadas. Todavia, no dia em que um humorista consegue mobilizar milhares pela internet satirizando as incoerências políticas brasileiras, é preciso entender que o senso político deve ir além do momento eleitoral em si.

É preciso, pois, um real engajamento social para que o brado retumbante deste povo heróico reflita efetivamente suas necessidades e para que se trabalhe coletivamente para tanto. Novos amanhãs dependem dos agentes que os constroem, quais sejam todos os indivíduos – principais detentores do “capital da esperança” e responsáveis pelo desenvolvimento social em termos nacionais e internacionais, com certeza.


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


É de matar…

Por

Bom, agora é oficial: Sakineh Mohamadi Ashtiani, a iraniana cuja pena de mote causa uma celeuma internacional, vai ser executada por crime de homicídio. Claro que de um jeito um pouco menos desumano que a dilapidação, mediante o popular enforcamento (método favorito dos suicidas e ainda em uso em países mais civilizados como o Japão, outros nem tanto, como o Irã e a China, e alguns estados norte-americanos). Certamente parece menos assustador morrer com o pescoço quebrado e inconsciente do que tendo a cabeça acertada por pedras cortantes. Contudo, apesar desse caso suscitar discussões variadas que vão do feminismo e direitos humanos ao programa nuclear iraniano (pra variar), cabe uma visão ainda mais profunda acerca da própria questão da pena de morte, jurídica e eticamente.

Bem, se perguntássemos hoje a um cidadão qualquer nas ruas do Brasil, não seria difícil achar quem defendesse a pena capital no nosso país. O estado atual de coisas faz com que muitos não se façam de rogados ao defender um modo de lidar com criminosos que no Brasil é restrito a crimes de guerra e não é praticado como punição a crimes comuns desde a proclamação da república, nos idos de 1889. Provavelmente, nunca virá a ser adotado, mesmo por que a Constituição não permite. Agora, é de estranhar que um brasileiro médio coadune com um tipo de mentalidade que pode ser vista em regimes autoritários e violadores de direitos humanos – matar criminosos comuns não é a regra em países democráticos. No Equador, por exemplo, a pena de morte é prevista apenas para o crime de pirataria em alto-mar. Já na Ásia, por exemplo, a maioria dos crimes que resulta em pena de morte estão relacionados ao narcotráfico e essa política tem reflexos na saúde pública. Claro que há casos extremos como China e Cingapura, onde crimes como latrocínio e ofensas ao presidente (!) são passíveis de execução.

Mesmo nos EUA, país onde as execuções são mais famosas, a pena capital é reservada aos crimes mais hediondos, e tende-se a comutar a pena, exceto nos estados mais conservadores. Por isso causou muita repercussão (e acusações iranianas de hipocrisia) o caso de uma senhora executada há pouco tempo (ela, que sofreria de problemas mentais, foi morta como mentora do plano, enquanto os executores foram condenados à prisão). Não vamos entrar nos méritos de discutir o sistema penal dos EUA. A questão é encarar por que a pena de morte é tão bem vista em um país pacífico como o Brasil.

Esse tipo de medida daria certo aqui? No Japão, a pena de morte é prevista para casos simples de homicídio com agravantes – e plenamente apoiada pela maioria da população. Mas isso em um país onde a taxa de criminalidade é baixíssima, e nem vamos comparar indicadores sócio-educacionais. O apoio no Brasil teria como fonte essa indignação com o crime em si e seu efeito de “anormalidade social” ou com a simples ineficácia do sistema em manter a ordem? Me parece que a segunda opção é mais plausível – e por isso invalida essa simpatia pela pena de morte.

Por que aceitaríamos que um assassino fosse morto quando nos horrorizamos com a condenação da senhora iraniana? Pessoas são pessoas, e o fato é que a pena de morte é algo inaceitável, que não seja pela combalida defesa dos direitos humanos, seja pela possibilidade sempre presente da execução de um inocente ou pelo fato de que nunca diminuiu a violência onde é aplicada. Isso quando é aplicada com “justiça”. Não vai ser tirando a vida de marginais que vamos resolver os problemas sociais do Brasil, a solução é muito mais complicada que isso. Deixemos essa medida extrema para aqueles da laia de Ahmadinejad.


Categorias: Assistência Humanitária, Brasil, Direitos Humanos, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica


Podcast

Por

É com prazer que a Equipe Página Internacional disponibiliza neste espaço mais um podcast!

Nesta oportunidade, gravada por ocasião da VIII Semana de Relações Internacionais da UNESP ocorrida entre os dias 09 e 13 de agosto na cidade de Franca/SP, tivemos a oportunidade de entrevistar o Prof. Dr. José Blanes Sala, graduado em Direito pela Universidade de São Paulo e doutorado em Direito Internacional pela mesma instituição. Atualmente é pesquisador vinculado a projeto temático do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC) e professor da “Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) – Campus Marília.

O tema da entrevista é a questão dos Direitos Humanos na América Latina e a posição desempenhada atualmente pelo Brasil neste âmbito. O professor nos apresenta uma visão bastante interessante neste sentido, vale a pena conferir!

Agradecimentos especiais devem ser destinados ao Pedro Henrique de Carvalho Costa, membro do Centro Acadêmico de Relações Internacionais “João Cabral de Melo Neto” da UNESP – Campus Franca, que nos ofereceu importante apoio para a realização deste podcast.

Aproveitem a discussão e sintam-se à vontade para comentar a respeito!

Faça o download aqui.

[2050] Brasil visionário: nosso papel no Oriente Médio

Por

[Como em um filme, avancemos algumas décadas – hipoteticamente, claro]

 

Tratar o Oriente Médio como uma área para onde os ideários ocidentais deveriam se expandir, propondo uma forma de colonização para nações e Estados vivendo ainda sob formas primitivas, foi talvez o primeiro erro conceitual e estratégico das grandes potências com relação a esta região. Retomando exemplos do início do século, as missões norte-americana no Iraque e Afeganistão pouco ou nenhum efeito tiveram no processo de “libertação” ou “democratização”, muito menos funcionaram como “spill over effect” para outros países. O presidente Obama, eleito como a nova cara para o “American way”, seguia arraigado na abordagem de sempre para o Oriente Médio. Foi justamente o Brasil que conseguiu abrir caminhos e traçar uma nova estratégia e parcerias na região, Obama sem Lula (o primeiro presidente brasileiro a propor a estratégia) seria um fracasso nessa questão.  

O que muitos não queriam admitir ou reconhecer, o Brasil apregoou e perseverou até obter o reconhecimento e congratulações da comunidade internacional. O principal ator internacional para o Oriente Médio no início do século XXI seguia sendo os Estados Unidos. No entanto, a visão americana seguia fortemente vinculada a uma lógica ainda presa a Guerra Fria que, por conseguinte, impedia seus líderes e diplomadas de propor negociações e promover acordos que levassem a consubstanciação de interesses estratégicos (não só americanos) nesta parte do globo. Enquanto muitos países exigiam diversas precondições para sentar-se a uma mesa com um diplomata iraniano, o Brasil desde o governo Lula tomou este país como um aliado estratégico, tecendo um emaranho de tratados bilaterais de cooperação. Defendendo, inclusive, a ampliação das negociações quando a seu programa nuclear. Por fim, o triângulo de poder conformado por Estados Unidos, Irã e Turquia, conseguiu estabelecer equilíbrio na região, algo pouco provável 40 anos atrás. O Brasil provou que sua estratégia era efetiva para construir melhores relações entre o Ocidente e o Oriente Médio. O mundo não seria o que é atualmente sem o esse Brasil visionário.  

[Termino a ficção (ou devaneio) para tratar da realidade em 2010] 

Caro leitor, não estou louco ou tenho bola de cristal. O meu texto não é uma previsão, mas sim um possível cenário traçado a partir das idéias de Stephen Kinzer. O autor descreve a política dos Estados Unidos para o Oriente Médio como uma insanidade, no sentido de sempre repetir o mesmo procedimento e esperar resultados diferentes em relação ao passado, e que ao contrário de sua visão o país fomentou na região conflitos, ódio e um sentimento antiamericano. Pensar o futuro do Oriente Médio, ainda de acordo com Kinzer, exige um exercício de criatividade, começar do zero. Analisando a sociedade americana, quais seriam os aliados que os Estados Unidos buscam para fugir do atual paradigma? O americano responde que: Irã e Turquia. Parece loucura, mas sua convicção é que estes países têm interesses no longo prazo e valores – nos quais suas sociedades estão baseadas – próximos aos americanos. Assim, a escolha de Israel, Arábia Saudita e Paquistão como aliados seria um dos principais erros da Política Externa atual sob a tutela de Hilary Clinton.  

A partir desta premissa inicial, surgiria um novo triângulo de poder: Estados Unidos, Turquia e Irã. São países que possuem um forte viés democrático junto a seus cidadãos (não necessariamente na prática) e serviriam de como uma forma sustentação à nova abordagem para o Oriente Médio. A Turquia como um parceiro para abrir caminhos em termos de negociações diplomáticas e o Irã como um possível estabilizador do Iraque e Afeganistão. Além disso, o Irã teria um segundo benefício: o de ser um grande inimigo do extremismo sunita, que tem como expoentes o Talibã e a Al-Qaeda. Kinzer, levando em conta este fatores, defende que os atuais aliados dos Estados Unidos para o Oriente Médio não seriam o caminho mais efetivo pensando em seus interesses, mais estratégico seriam aproximar-se do Irã e Turquia. O Paquistão e a Arábia Saudita ficariam no meio do caminho, servindo como suporte ao Talibã ao mesmo tempo em que cooperam com os americanos. Para concluir com sua teoria, é evidente que tal estratégia não virá dos setores ligados a diplomacia ou do “establishment” de Washington, ainda presa a aliança com o Israel. 

Chego também a minha conclusão e a explicação para o devaneio do início. O Brasil, involuntariamente, parece seguir em certo sentido essa premissa. Sem os vínculos excludentes dos Estados Unidos, a diplomacia brasileira tenta costurar acordos sobre o programa nuclear iraniano, com o auxílio da Turquia. entregou avanços, um começo, que poderia servir de base para uma nova rodada de negociação entre os norte-americanos e os iranianos. No entanto, tal mediação foi prontamente rejeitada pela Casa Branca. O mundo teve que aceitar eventualmente a China, antes reconhecida como o antro comunista e que hoje é talvez a futura principal potência mundial. Em algumas décadas é possível que o mesmo processo aconteça com o Irã e o Oriente Médio como um todo, pensar novo (apesar das extensas críticas e contra-argumentos) passaria pela inclusão do Brasil na vanguarda de uma estratégia nova e que poderia tornar-se realidade no futuro, queiramos ou não.  

[O Irã já foi assunto muitas vezes na Página Internacional: 12345]


Categorias: Brasil, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Independência, é sorte!

Por

Neste dia 7 de setembro, comemoramos os 188 anos de Independência do Brasil. A data é consagrada por uma visão histórica que remete aos tempos escolares, de desfiles militares e patriotismo. Já a realidade pode não ser tão floreada assim – os registros históricos afirmam que D. Pedro estava acometido por uma terrível diarréia e se locomovia em uma nada garbosa mula quando recebeu as notícias de alguns desmandos da corte portuguesa e impulsivamente declarou a opção pelo rompimento que deu no que deu hoje. Pois, tratemos do tema da independência, mas sob o viés internacional, claro – leia-se, a Política Externa Brasileira (PEB).

Existe certo consenso entre o pessoal da área quanto à continuidade e ao pragmatismo nas políticas do Itamaraty. As grandes sacadas do Barão do Rio Branco, nos idos do início do século XX, foram entender que o Brasil precisava se aproximar dos EUA para não ser fagocitado pela potência emergente, assim como formar um corpo diplomático altamente capacitado e, principalmente, alheio na medida do possível a inflexões na política interna. Isso se tornou perceptível na diferença entre as chamadas políticas de Estado e de governo.

Claro que em determinados momentos havia congruências entre ambas as vertentes, devido a conjunturas específicas – como, por exemplo, a Política Externa Independente (PEI) dos governos Quadros e Goulart, que encontrou terreno fértil no arrefecimento da Guerra Fria. Pois este é um tema recorrente à PEB – justamente a questão da independência já prevista pelo patrono da diplomacia brasileira, e que encontrou ecos até mesmo no pragmatismo responsável do governo militar em Geisel. Basicamente, o Brasil sempre teve como meta essa busca pela autonomia – em graus variados, ao sabor da conjuntura internacional – e garantida pela “independência” do Itamaraty, que pôde manter políticas de longo prazo sem ingerência de aspectos específicos de cada governo.

E hoje? Há quem diga que os recentes desdobramentos dos rumos que nosso pais anda tomando no exterior estariam coadunando-se com determinados aspectos de viés ideológico ou partidário do governo, o que seria nocivo à política do Estado. Nesse espírito inédito de diversificação, fala-se até em uma aparente contradição quanto à defesa de regimes internacionais, dada a aproximação com Estados não muito bem quistos na comunidade internacional. Por outro lado, é justamente esse um aspecto primordial do pragmatismo. Parafraseando o presidente, nunca antes na história desse país houve tanta autonomia para o Brasil. O resultado de mais de 100 anos de PEB visando a essa independência? Talvez. Mas resta saber como, nos próximos anos vamos lidar com o pragmatismo, em especial comercial, contraposto a uma crescente importância política e o chamado ao cumprimento das obrigações internacionais do Brasil.

A independência é um aspecto primordial da nossa política externa. Mas, se vamos saber arcar com o seu peso, cabe ao futuro dizer.


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


Malditos (i)migrantes

Por

A escolha que leva uma pessoa a deixar seu país, familiares, amigos e cultura para trás nunca é uma decisão simples, fruto do acaso ou de um mero desejo mesquinho. Buscando raízes históricas, tomando o caso do Brasil como exemplo, os movimentos partiram tanto do exterior – pessoas que fugiam de zonas de conflito e perseguição social ou famílias que rumavam a uma terra de maiores oportunidades –, quanto surgiam entre as regiões brasileiras – caso típico seria devido à rápida urbanização do país e em busca de uma vida melhor nas grandes cidades. Neste contexto, é recorrente o hábito de culpar migrantes por diversos problemas sociais contemporâneos, desde violência urbana até o aumento do desemprego.  

São inúmeros os cientistas sociais que trataram a questão, incluindo os clássicos Marx, Weber, Malthus e Durkheim. Suas teses variam, circundando temas como o crescimento geométrico da população somado ao crescimento aritmético das tecnologias disponíveis; industrialização e urbanismo; e a inevitabilidade da pobreza como fruto do empreendimento capitalista. A partir disso, pode-se afirmar que o debate não é novo e traz uma profunda carga teórica para embasar qualquer tipo de posicionamento. No decorrer do século XX, a migração passou cada vez mais a ser tratada como uma patologia social, uma ameaça a coesão social do país e um risco aos seus cidadãos frente a estrangeiros que tomavam oportunidade antes exclusivamente nacionais. 

Passando da contextualização para a prática, são muitos os países nas Américas (como continente) que tiveram seu desenvolvimento baseado – ao menos em termos populacional – na imigração. Fomos, em grande medida, um grande pólo de atração e recepção de diversas nacionalidades. A meu ver, um processo menos conflituoso que em outras partes do mundo. Atualmente, os denominados países desenvolvidos tratam de limitar a imigração legal, combater a imigração ilegal e expulsar imigrantes ilegais. Em uma conversa com uma francesa, me ficou claro um ressentimento com relação aos imigrantes em seu país, visto que muitos desses resistem à principal forma de integração social, qual seja, aprender o idioma nativo do país onde passaram a viver.  

Esta semana duas notícias me chamaram a atenção. Primeiro, o governo francês que sofre críticas da Comissão Européia por seu procedimento para deportar ciganos vivendo em seu país. Segundo, o massacre de imigrantes no México. O acirramento do combate a este fluxo atinge questões vinculadas aos Direitos Humanos, tornando-se efetivamente um tema de estudo abundante nas Relações Internacionais. Para minha imensa surpresa, no entanto, descobri que há também ressentimentos no Equador (onde atualmente vivo). Obtive relatos de equatorianos segundo os quais seriam os colombianos e/ou cubanos os grandes promotores da desordem social do país, trazendo consigo violência, seqüestros, narcotráfico, entre tantos outros.  

Voltando ao ponto inicial. Não é fácil chegar à decisão de migrar ou imigrar – isso quanto tratamos dos casos voluntários. Pior ainda é quando se chega a um país onde não são garantidos os mesmos direitos e a proteção institucional, culminando em famílias expostas a trabalhos de baixa remuneração, por vezes temporário, e sem garantias. Em geral, pode-se afirmar que são estas as condições encontradas por grande parte dos migrantes/imigrantes. Seu impacto social, obviamente não justificável mas esperado, é emersão dos problemas já citados.  

Frente a tudo que me relatam pessoas de diversas nacionalidades e a partir de meu ponto de vista como brasileiro vivendo em outro país, tendo a concluir que há certo exagero no grau de responsabilidade que colocam nas costas dos migrantes/imigrantes. Os problemas são mais profundos do que muitos gostariam de admitir. A tendência é apontar para o alvo mais fácil. Admito, no entanto, o contra-argumento que os movimentos migratórios ilegais devem ser remediadas e que muitos imigrantes promovem desordem social, assim como muitos nacionais. O único ponto não aberto a discussão nesta temática é que não se pode desrespeitas as regulações internacionais, qualquer Estado que o fizer deverá ser responsabilizado e devidamente punido.


Categorias: Américas, Brasil


O México é aqui?

Por

Pois é, época de eleições e não se fala em outra coisa no Brasil. Como já tratamos de eleições pelos quatro cantos do mundo (apesar deste ser redondo) em 2010, hora de comentar um pouco o pleito nacional. No espírito da imparcialidade, vamos focar em um aspecto um pouco diferente, mas não menos aventado na mídia – umas análises meio alarmistas que andam saindo de “mexicanização” do Brasil.

“Mexicanização”? É o nome que se deu no Brasil ao processo de institucionalização de uma “ditadura branca” (termo meio que controverso) no México durante mais de 60 anos com o PRI (Partido Revolucionário Institucional), que se manteve hegemônico no México dos anos 30 aos 2000. Assumindo um caráter de início extremamente popular, com o resgate de princípios da Revolução de 1910, tornou-se uma espécie de bloco hegemônico e considerado unipartidário (havia outros partidos, mas de tão pequena expressão que na prática apenas o PRI concorria). Por isso o aspecto de “ditadura”, pois as eleições livres estariam apenas dando uma carapuça democrática a um governo contínuo.

E o Brasil com isso? Já houve temores de coisas semelhante ocorrer por aqui antes (tanto que o termo já existia), por exemplo, na época das acachapantes vitorias da ARENA. Nunca se chegou ao ponto de um unipartidarismo mascarado por aqui. Porém, o que se anda dizendo é que caso o PSDB seja derrotado nas principais instâncias governamentais, não tenha forças para se reerguer como oposição nacional e abra caminho para um processo semelhante de erosão com uma hegemonia de centro-esquerda fundamentada no maquinário estatal e pessoal dos anos Lula.

A discussão sobre isso é complicada, mas tenhamos em mente, contudo e de maneira breve, que são situações bem diferentes, pois a oposição aqui, apesar de um pouco ineficiente nos últimos anos, ainda é bem organizada. Ademais, e principalmente, para algo assim dar certo, um eventual governo que mantenha as bases atuais dependeria de bons ventos internacionais para se sustentar, visto que é isso que mantém o sucesso do país hoje. Quando a economia internacional não estiver tão favorável, e isso vai acontecer cedo ou tarde, o Brasil enfrentará o rombo fiscal e um monte de outros problemas até agora contornados, o que contribuiria para uma provável perda de popularidade. Quando se trata de mudar de opinião, a economia geralmente se reflete imediatamente na opinião povo – Obama que o diga. Assim, o risco desse tipo de hegemonização seria relativamente improvável.

Um último ponto de reflexão: poderíamos pensar também em “mexicanização” com a escalada da violência? Nada é impossível, e claro que no Brasil a coisa está feia, mas ainda não está nos patamares catastróficos do México, com mais de 20 mil mortes, em pouco mais de 4 anos, diretamente ligadas ao narcotráfico. Se não acredito que vá haver essa mexicanização política, tampouco que haja um dia em que aconteçam por aqui e com regularidade massacres como o da semana passada. O México não é aqui, espero.


Categorias: Américas, Brasil, Política e Política Externa


Há um ano...

Por

Há um ano, estávamos discutindo três temas importantes, cada um à sua maneira, e que acabam sendo paradoxalmente recorrentes um ano depois.

Giovanni discutia acerca da Estratégia Nacional de Defesa e seus pontos principais, uma discussão que aparentemente tem aplicação pratica apenas daqui a algumas décadas (prazo para a aplicação de toda a grana envolvida e para se ver os resultados ), mas cuja motivação podemos ver na urgência em proteger o pré-sal e todo aquele Oriente Médio na costa brasileira. Sabem como é.

O interessante foi ver como os posts de Ivan sobre a “filtragem” de notícias na mídia internacional e da Adriana sobre questões culturais – e que deu uma senhora discussão – se relacionariam hoje. Lembram de como a mídia está se alvoroçando no caso da iraniana condenada à morte? O que menos importa no circo internacional é a vida da coitada, e sim a repercussão política dos envolvidos, com a condenação veemente do sistema iraniano. Não defendo, mas lembrem do relativismo cultural. Sabem como é.

Por fim, tínhamos dois posts (um do leitor Antonio Mota e outro do Luis Felipe) acerca dos problemas de mudança climática. Mas a discussão destes teve um rumo meio diferente. Um ano depois? Claro que vieram um monte de problemas econômicos e os temas menos importantes foram aparentemente esquecidos pela grande mídia. Sabem como é.

E isso aí pessoal, postando e relembrando.


Categorias: Brasil, Há um ano..., Meio Ambiente