Eleições, sociedade e mídia

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Este post, diferente de outros que já escrevi, é muito mais um desabafo do que uma análise. Não é e nem deve ser interpretado como uma apologia a qualquer candidato a Presidente da República ou a qualquer outro cargo eletivo. Ele é o relato da frustração temperada pela desesperança: um povo que não conhece a si e nem a própria história é incapaz de transformar seu destino.

Os fatores dessa frustração serão concentrados, neste texto, em dois atores fundamentais do atual ciclo eleitoral: sociedade e mídia. Nesse período, praticamente todos, sem exceção e principalmente quem nunca se interessou, tornam-se especialistas em política. Por isso, não raro, constata-se a elevação do nível de bobagens divulgadas, a ascensão do sentimento de intolerância e o baixo nível do debate em torno de programas de governo – os quais, na verdade, deveriam ser de Estado.

Em primeiro lugar, as ideias e as propostas dos presidenciáveis – à exceção daqueles que conhecemos – são cada vez menos direcionadas para os eleitores e cada vez mais direcionadas para mídia. Importa aquilo que repercute, não necessariamente o que é essencial para o país. E a repercussão tem um preço: a construção de estereótipos, que alimentam a desinformação e a intolerância. “Isso é coisa de PTralha!” ou “Os tucanos privatizaram o país!”. Mesmo quem propõe o fim dos estereótipos – ou da polarização, como queiram – ou fica no vazio, ou fica na farsa.

Nós, sociedade, caímos na armadilha. Talvez por causa de nossa volúpia por simplificações grotescas. É mais fácil aceitar e reproduzir uma informação, especialmente quando ela reforça nossa identidade e convicções como contrárias àquelas que negamos, do que ir atrás da informação. O compromisso com a veracidade acabou. Prevalece a desinformação ou, pior, a falsificação da informação combinada com a intolerância e o sensacionalismo, que também são utilizadas nas campanhas. Um exemplo claro é a afirmação de que o Brasil propõe dialogar com terroristas que cortam cabeças. Afirmar isso é, no mínimo, desconhecer os princípios constitucionais de nossas relações exteriores e a tradição diplomática brasileira.

Em segundo lugar, ou a voz das ruas dos protestos de junho de 2013 não foi ouvida pelos presidenciáveis, ou o povo não soube o que pedir nem o que esperar. No máximo, apenas dois dos candidatos poderiam acolher essa voz, porém, estão bem abaixo nas intenções de voto. Isso leva inevitavelmente a seguinte dedução: o povo é radical e genérico no pedido, mas conservador na mudança, seja por temor, seja por inaptidão. Daí resulta a escolha na hora de votar, preferindo a opção “menos pior”, que pode ou não ser diferente da situação, em vez da melhor opção, aquela em que se confia de fato.

Outro ponto que cabe observar é a inversão das prioridades no debate eleitoral. São os temas polêmicos – legalização das drogas, aborto, criminalização da homofobia, etc. – que ocupam o centro do debate e não as políticas e as estratégicas dos programas de governo que contemplam esses temas. Não faz sentido discutir legalização das drogas e aborto, por exemplo, descolados dos programas para saúde e segurança públicas, bem como sua integração com outras políticas públicas. Dizer se é favorável ou contra não é o mesmo que propor ações consonantes com as próprias posições no contexto de uma ampla e integrada estratégia. Em grande medida, a mídia é a responsável por polemizar, por canalizar o debate em torno desses temas estruturados, não estruturantes, deixando a sociedade à deriva da audiência.

Finalmente, a votação clarifica o profundo abismo social no Brasil. Ela praticamente reflete uma versão adaptada da luta de classes das análises marxistas. Quem tem menor renda, vota no PT; quem tem mais, no PSDB (ou PSB). Ambos se criticam pelas razões inversas, enxergam-se como mutuamente excludentes e cultivam um sentimento recíproco de intolerância. Uns dizem, por exemplo, que políticas de transferência de renda são compra de votos, outros propagam o apocalipse dos programas sociais. Convém lembrar que nenhum candidato propõe o fim de programas dessa natureza. Os argumentos dos dois são injustificáveis. Trata-se de uma política de Estado, aliás, tão velha e praticada quanto à própria Economia. É, antes, um problema de ênfase – investir demasiadamente em uma área em detrimento de outra –, não motivo de intolerância e de segmentação social. Isso deve ser compreendido e aceito pela sociedade sem titubear.

Está chato! Sinceramente, ou nós – e também a mídia – evoluímos conscientemente enquanto seres pensantes em política, ou nós deixamos, de acordo com o senso comum, esse assunto relegado na discussão – como futebol e religião – para evitar brigas. Não é assim que se pensa no futuro do país, pela exclusão das diferenças. É, sim, pelo diálogo construtivo das alteridades, indispensável ao jogo democrático. Mas talvez isso fique para 2018, quando voltaremos a falar de política novamente.


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O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo

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Fome no mundo

Que a fome é um dos mais graves problemas sociais no mundo ninguém desconhece, mas não deixa de ser assustadora a estimativa de que, ainda nos dias de hoje, uma em cada nove pessoas no planeta sofre de fome crônica, totalizando aproximadamente 805 milhões de indivíduos em tal situação.

O dado foi divulgado essa semana com o lançamento do relatório “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo” (SOFI 2014, na sigla em inglês), por parte da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em conjunto com o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA).

As agências romanas, que lidam mais diretamente com o tema da alimentação no sistema das Nações Unidas, publicizaram as últimas tendências no que se refere ao combate à insegurança alimentar e nutricional. Apesar de os números ainda demonstrarem que grandes esforços internacionais ainda são necessários na luta contra a fome, as perspectivas não deixam de ser positivas.

Na última década, cerca de 100 milhões de pessoas deixaram de passar fome, em um percentual mundial que baixou de 18,7% para 11,3%, segundo os dados do relatório. Nos países em desenvolvimento, a diminuição é ainda mais expressiva, caindo de 23,4% para 13,5%. Lembrando que a redução pela metade da fome no mundo se enquadra no primeiro dos “Objetivos do Milênio” até 2015, meta já alcançada por 65 países em desenvolvimento no mundo, dentre os quais se encontra o Brasil.

O estudo do caso brasileiro demonstra que os esforços empreendidos notadamente a partir do Programa “Fome Zero” têm garantido bons resultados e uma redução de 75% da pobreza extrema no país entre 2001 e 2012. Entretanto, dadas as proporções continentais de nosso país, o número de pessoas que permanece em situação de fome ainda é representativo: cerca de 16 milhões de pessoas (8,4% da população brasileira) – o que representa, por exemplo, o total de habitantes de Portugal e Finlândia somados…

O problema da fome tem solução, isto é fato. Engano é apenas pensar que se trata simplesmente de uma questão de doação de alimentos – pelo contrário, a fome representa um problema complexo que requer ações múltiplas e coordenadas em seu combate. O acesso aos alimentos deve ser viabilizado em consonância com o acesso à terra, a serviços públicos de qualidade, à tecnologia, etc. – um esforço integrado que viabilize a consecução do direito humano à alimentação adequada para a totalidade dos cidadãos do planeta.

[No site da FAO podem ser encontradas maiores informações sobre o tema: http://www.fao.org/publications/sofi/en/]


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Boa educação?

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O que é um insulto? Pode ser uma expressão usada para expressar algum descontentamento e frustração, praguejando contra si mesmo ou o universo, mas geralmente é algo utilizado para ofender o interlocutor. Rebaixar suas características morais, apontar algum sinal de inferioridade física ou social, depende do contexto e do entendimento do que está sendo comunicado – amigos podem se ofender com naturalidade, por vezes sem o sentido de insulto, mas experimente fazê-lo a um colega de trabalho.  Existem contextos que não podem aceitar esse tipo de conduta, e um deles é a diplomacia. Por isso causa tanta perplexidade a inusitada declaração de um porta-voz de Israel sobre a crítica brasileira ao conflito em Gaza: após o Itamaraty ter chamado para consultas seu embaixador em Tel Aviv (o que é considerado um sinal de alerta nas relações diplomáticas), Israel qualificou a atuação do País como “um anão” no cenário internacional. A resposta veio polida, por meio do chanceler Luiz Alberto Figueiredo, classificando a morte de civis como inaceitável e desproporcional. A tréplica veio em tom de deboche lembrando a lavada da Alemanha sobre o Brasil na Copa como exemplo de desproporcionalidade, e parece que novos capítulos virão.

É interessante notar que a diplomacia brasileira é uma das mais cautelosas do mundo – mantém boas relações com todos os países da ONU, evita opinar sobre temas mais arriscados ou que possam ter repercussões futuras, como a responsabilidade de proteger, e apresenta um dos corpos diplomáticos mais capacitados (basta comparar com as coisas que apareceram quando vazaram as correspondências norte-americanas…). Por isso soa tão… estranho, para dizer o mínimo, esse tipo de indelicadeza. É como se fosse gratuita.

Desde tempos antigos, o respeito e decoro fazem parte da relação entre nações estrangeiras com representantes oficiais – nos tempos dos reis e imperadores, o embaixador representava o papel do próprio soberano! Porém, a evolução histórica mostra que as práticas se adaptam ao tempo, e Hedley Bull já dizia que no século XX temos uma mudança bem atípica nesse cenário que ele denominava de “diplomacia do insulto”. Basicamente é usar os canais oficiais para desqualificar países adversários em uma guerra de palavras, por vezes de baixo calão. Basta lembrar do enxofre do diabo sentido por Hugo Chavez na ONU, Kadaffi rasgando a carta da instituição ou a Coreia do Norte chamando Barack Obama de um “macaco malvado”. É possível notar que esse fenômeno acontece por conta  de outro fenômeno, o da diplomacia presidencial, em que uma figura única concentra o papel de decisão e interlocução de questões da sua política externa, sem muito controle do corpo diplomático. Mas no caso de Israel, o descontentamento brasileiro vem justamente pelo ultraje de ter sido algo lançado pelo porta-voz do MRE deles.

Que tipo de motivação leva a essa resposta? Uma das justificativas de Israel é combater terroristas. Em uma interpretação maniqueísta, o Brasil expressar indignação com a morte de mulheres e crianças faz com que seja simpático aos que Israel denomina terroristas? A preocupação com o respeito a garantias fundamentais (sem esquecer do adágio de que em casa de ferreiro o espeto é de pau…) é sintoma de uma diplomacia irrelevante? Esta parece ser a lógica que transparece no comunicado. O que surpreende, visto que por meio do Mercosul o Brasil é um dos poucos países com acordos de livre-comércio com Israel. Ou ainda o fato de que um dos principais articuladores da criação do Estado de Israel foi o brasileiro Osvaldo Aranha, e que o país presidiu a sessão da ONU que o criou. Considerar um país responsável pela sua existência como irrelevante parece, no mínimo, contraditório.

A troca de ofensas, por mais brandas ou debochadas, mostra que a situação de Gaza chega a um ponto em que a indignação supera a ponderação. E deixa transparecer a blindagem que existe no cenário internacional à atuação israelense. Basta verificar o resultado da votação de uma resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU (que, francamente, não tem muita credibilidade sendo que já foi presidido por verdadeiros campeões da justiça como a Líbia) para o estabelecimento de uma investigação de crimes humanitários nessa ofensiva israelense em que os EUA foram o único país contrário à resolução (e com os aliados europeus se abstendo, em maioria). No fim das contas, Israel não precisa se preocupar muito com dissabores diplomáticos e pode subir o tom de voz quando quiser pelo simples fato de ter um aliado superpoderoso que pode e vai abafar qualquer contratempo. Mas também fica claro que, ao emendar às justificativas de praxe uma carga de insulto, tenta-se mudar o foco da questão ou evidencia-se a falta de argumento. Como diz a sabedoria popular, “apelou, perdeu”. E isso não contribui em nada para legitimar a posição de Israel nesse conflito em que cada vez mais parece lhe caber o papel de vilão.


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Alguém falou em participação social?

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Participacao Social
Alguém falou em participação social? O assunto em pauta é fortalecer as instâncias consultivas de participação da sociedade civil na gestão de políticas públicas? A questão que se coloca é impulsionar a aproximação do cidadão comum das ferramentas políticas existentes em seu próprio benefício?

As respostas às três perguntas são: sim, sim e sim! O tema é essencial, mais atual que nunca e está (como deveria) em pauta, mas gerando divergências políticas que demonstram a sensibilidade suscitada por esse tipo de resposta positiva.

O Decreto 8.243/2014 foi publicado no último dia 23 de maio, após assinatura pela presidenta Dilma durante o grande evento “Arena da Participação Social”, em Brasília (confira o texto completo aqui). O Decreto instituiu o Plano Nacional da Participação Social (PNPS) e o Compromisso Nacional pela Participação Social (CNPS), celebrando o diálogo e buscando consolidar a participação social destacadamente um método de governo. (Leia mais aqui e aqui.)

Mas o assunto não teve repercussão unânime, pelo contrário. Enquanto o Decreto foi celebrado pelo governo, por movimentos sociais e pela sociedade civil em geral enquanto meio para fortalecimento da democracia, a oposição vem criticando duramente a forma como o texto foi aprovado e alguns mais extremistas insinuam até mesmo uma “invasão”/ “competição” do Poder Legislativo por parte dos/com os movimentos sociais.

Se o ideal seria que texto semelhante sobre a matéria fosse aprovado por projeto de lei tramitado via Congresso Nacional, todos sabemos que o plano ideal está, infelizmente, bem distante da realidade…

O texto foi aprovado por decreto presidencial (via Poder Executivo, pois) já que não cria novas instâncias participativas, mas apenas reforça sua importância e as articula em formato de sistema, definindo diretrizes mínimas a serem observadas nos espaços em questão – todos de caráter consultivo e não deliberativo, e que não ferem, portanto, a autonomia legislativa dos representantes eleitos para cumprirem tal função.

No furor desse debate, argumentos alegando o “sucateamento total e absoluto do Congresso Nacional” motivaram até projetos de decreto legislativo na Câmara (PDC 1.491/2014) e no Senado (PDL 117/2014) para anular o decreto aprovado. Houve quem defendesse que “a democracia se dá por meio dos seus representantes no Congresso, legitimamente eleitos”. Mas quem é que está dizendo o contrário?

Falar em participação social vai gerar polêmica sempre e em qualquer situação, e a aprovação de um texto como tal às vésperas de um processo eleitoral tampouco passa despercebida. Contudo, desmerecer a iniciativa ou seus objetivos não parece condizente com a própria concepção de democracia participativa. Alguém falou em participação social? Que bom! E que continuem não apenas falando, mas principalmente aplicando-a no dia-a-dia político…

[Sobre o tema, vale ainda destaque sobre o Fórum Interconselhos, iniciativa de monitoramento participativo acerca da implementação de políticas públicas no Brasil, que foi premiada internacionalmente pelas Nações Unidas há poucos dias (leia mais aqui). Sendo o Decreto 8.243/2014 um reforço às estratégias participativas já empregadas pelo Brasil, alguém realmente duvida que, apesar de a jornada ser longa, estamos no caminho certo?]


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A culpa é das estrelas (do PT)

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Fonte: Twitter

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O título deste texto faz apenas uma analogia ao título do livro do escritor John Green, o qual, inclusive, virou filme e está passando nos cinemas. A história, pelo que li e me parece, é linda e triste, pois narra a história de dois adolescentes que se conhecem em meio à conturbada presença de um câncer. Entretanto, termina aqui minha explicação, posto que meu comentário no blog se reserva a outras dimensões: a política brasileira, a disputa presidencial e o bom e velho futebol tupiniquim.

Mesmo ainda no início da segunda fase e sem saber se o Brasil realmente será o campeão dentro de campo, a Copa do Mundo trouxe um ponto muito positivo ao país, seja ele a volta de um debate político cotidiano e mais acalorado. Quando falamos em Política Externa, a grande maioria de interessados na área sabe que o brasileiro não a vê com a atenção necessária e, por vezes, o tema passa batido nos discursos políticos. Ao contrário, a Política Interna sempre foi mais presente nos palanques e o âmbito nacional aparece, novamente aos olhos dos brasileiros, como o nível de análise mais importante e aclamado.

Exemplo claro dessa afirmação anterior está em como normalmente se dão os (des)créditos dos sucessos e fracassos da política brasileira ao âmbito federal, visto que nosso país é uma Federação Trina regida pela Constituição de 1988, na qual os entes federativos dividem-se em municípios, estados e União. Se na teoria é assim e na prática deveria ser, no discurso batido geral do brasileiro (não colocarei a expressão “brasileiro médio”, porque nem sei direito o que isso significa) nos últimos meses ecoa apenas uma frase: “A culpa é do PT (Partido dos Trabalhadores)”, fazendo uma clara evidência à presidente Dilma Rousseff.

As vaias em si e não seus tons pejorativos conforme fora visto no “Ei, Dilma, vai tomate cru” são válidas? Sim, são. Mas se fosse pra xingar, não faltariam políticos para tamanho coro. De fato, as críticas ao PT devem ser feitas, só que com conhecimento de causa. O atual governo federal errou e falhou em inúmeros aspectos, deixando totalmente de lado o legado do partido, embora isso já fosse visto na presidência de Luiz Inácio Lula da Silva. Todavia, conforme mencionei logo acima, devemos ter em mente que a Federação é trina e também existem responsáveis diretos pelos erros e falhas estatais e municipais.

E isso vai muito além do PT. Vejamos, novamente por exemplo, o caso da greve no metrô da cidade de São Paulo. Muitos colocaram a culpa nos próprios metroviários e na famigerada Dilma pelo “caos” urbano na capital. Mas muitos se esquecem de que a responsabilidade direta pelo metrô é do governo estadual do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), ferrenho adversário do PT, propriamente dito. Do mesmo modo, citam e citam que a corrupção “à lá” PT é a responsável pelo atraso brasileiro. Mas esquecem e esquecem do esquema milionário de fraudes em propinodutos do PSDB…

Não podemos confundir conjuntura com estrutura, sendo que os problemas vistos atualmente no Brasil (corrupção, precariedade educacional, insegurança pública, etc.) são problemas estruturais. Poderíamos voltar à formação econômica e política nacional para explicar tais fatos. Por ora, até para não ficar cansativo, friso que as vaias que colocaram a culpa nas estrelas (do PT) são válidas. Entretanto, partiram de um setor específico da sociedade, quem era “very important person” (VIP) ou estava disposto a desembolsar uma quantia muito maior do que qualquer Bolsa Família para comprar um ingresso para a abertura da Copa. E, na maioria dos casos, esse setor social é míope às transformações sociais ocorridas em nosso país nos últimos anos.

Por fim, resumo duas ideias. Primeiro, com a Copa do Mundo ficou nítido o quão o “brasileiro geral” preocupa-se em demasia com a esfera federal e desconhece as realidades estaduais e locais. Ele vive o Brasil das bandeiras em capôs de carro e canta o hino na sala de casa antes da narração do Galvão Bueno, mas não sabe distinguir minimamente se o problema da sua calçada advém do presidente, do governador ou do prefeito. Segundo, voltando ao livro de John Green, devemos parar com essa síndrome anti PT e ver que o verdadeiro câncer na política interna nacional é o bipartidarismo velado entre o próprio PT e o PSDB. Desacreditar no primeiro e apoiar o adversário me parece pertinente. Contudo, acreditar que o segundo de Aécio Neves vai transformar o cenário atual é pura ilusão e demagogia.


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Há um ano...

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Tempo passando
Há um ano, vaias contra a presidenta Dilma marcaram o início de um jogo importante da Seleção Brasileira. Apesar de muito semelhante à situação vivida há uma semana na abertura da Copa do Mundo, o fato relatado em post do blog de um ano atrás se refere à abertura da Copa das Confederações, realizada também no Brasil, quando Dilma realizou seu discurso de abertura.

Sem questionar a suprema liberdade de expressão, vale apenas registrar que a repetição de um ato de grosseria (ainda que verbal) como esse apenas indica que os espaços reais em que a insatisfação e desejo de mudança deveriam ser mostrados continuam subaproveitados…

Outro fato interessante de um ano atrás foi a entrada no bloco europeu do nosso primeiro adversário na Copa do Mundo. Faz exatamente um ano que a Croácia teve sua aceitação oficial na União Europeia, após anos de negociação. O longo processo de adesão do país, o vigésimo oitavo membro do bloco, reflete o resultado de reformas políticas, econômicas e sociais que se passaram para esta vitória croata no processo de integração com a União Europeia.

E qual acontecimento mais marcante de um ano atrás que a onda de protestos e manifestações que se alastrou pelo Brasil afora? As imagens que já se tornaram históricas, e que registramos há um ano, hoje ainda representam um misto de sentimentos, críticas e expectativas na luta por um país melhor e cada dia menos desigual. Se todos se unem na torcida pela seleção nacional, por que não acreditar que é possível canalizar emoções e, principalmente, ações por mudanças no cenário político e social desse país tão diverso?

Esse é o “Há um ano…” na nossa Página Internacional, postando e relembrando os temas já comentados no blog!


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Há um ano...

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relogio ha um ano
Há um ano, um dos temas que preenchiam o conteúdo do blog era o anúncio do General Santos Cruz para comandar a brigada de intervenção das forças de paz das Nações Unidas na República Democrática do Congo, a MONUSCO. Em um relato pessoal cativante que vale a pena ser relido (confira a íntegra aqui), vemos o General sob uma perspectiva diferente, do dia-a-dia daquele que há aproximadamente um ano lidera a mais desafiadora missão onusiana da atualidade – em um país cujas duas últimas décadas de guerra já vitimaram aproximadamente 5,5 milhões de pessoas.

O fato de, pela primeira vez desde 1948, os capacetes azuis possuírem autorização para “impor” a paz, ou seja, “dar o primeiro tiro” em prol da resolução do conflito, torna histórica e delicada a missão do General, em um tênue limiar entre uso necessário ou exagerado da força. A derrota do M23, então maior grupo armado do país, em novembro se mostrou como vitória importante de uma batalha que parece longe de chegar ao seu final, contado com um líder brasileiro como protagonista…

Voltando-se para questões internas, outro excelente texto ainda trouxe reflexão sobre a polêmica questão da saúde pública no Brasil, bem como as estratégias e os programas adotados pelo governo nesta área. Às voltas com o “Programa Mais Médicos”, instalou-se, há pouco menos de um ano, enorme polêmica envolvendo a questão de “importação” de médicos. Hoje a avaliação parece positiva, apesar das críticas sempre existentes, no sentido de que o governo demonstrou pulso firme nas medidas em saúde. Méritos e dificuldades à parte, vemos que o programa se tornou um carro-chefe eleitoral do atual governo Dilma….

Postando e relembrando, esse é o “Há um ano…” na nossa Página Internacional!


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Somos todos humanos

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post racismo

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Se a Declaração Universal dos Direitos do Homem fosse respeitada por todos aqueles a quem ela se refere, certamente não teríamos tantos casos de racismo sendo noticiados na mídia internacional ainda hoje.

Às vésperas do maior evento do futebol mundial, temos visto uma série de manifestações racistas no esporte, gerando debate sobre um tema que não deveria nem mais entrar na pauta, já que distinção alguma existe (ou deveria existir) entre os seres humanos.

O jogador da seleção brasileira Daniel Alves, ao comer uma banana que lhe foi lançada em campo durante o importante torneio de futebol espanhol, provocou uma polêmica reação liderada por Neymar (a partir de uma ação de uma agência de publicidade, vale registrar) em que o lema “#somostodosmacacos” rapidamente causou grande repercussão nas redes sociais.

O que aconteceu com Daniel Alves não representa um caso isolado no esporte, mas, muito pelo contrário, infelizmente – e não apenas no futebol – casos semelhantes têm acontecido com frequência no Brasil e no mundo inteiro.

Fato é que o esporte tem um poder de mobilização talvez muito maior que qualquer outra área, e que racismo não é uma problemática que se restringe às quadras e campos, mas que ainda aflige especialmente os mais vulneráveis espaços da sociedade. Merece, portanto, ser combatido não apenas com frases em redes sociais, mas também e principalmente por ações no dia-a-dia.

Em situação internacional emblemática essa semana, a ministra francesa da Justiça não cantou o “A Marselhesa”, o tradicional hino da França, em cerimônia de comemoração da abolição da escravidão no país. A polêmica se alastrou devido à frase do refrão do hino em que se entoa “nossa terra do sangue impuro se saciará”, em alusão às lutas contra exércitos estrangeiros…

Independentemente da situação, vemos que a questão racial ainda persiste como uma fonte de rancor, violência e distinções na sociedade. Campanhas publicitárias representam apenas estratégias para uma reflexão que precisa ser intrínseca a todas e a cada uma das pessoas para que a raça deixe de se tornar critério, razão ou fundamento de qualquer ação ou discussão. Acima de tudo, somos todos humanos.


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Imagem da Semana

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E a imagem dessa semana não poderia deixar de ser também uma homenagem ao ícone Ayrton Senna, cuja trágica morte há exatos 20 anos ainda parece um acontecimento bastante recente na mente dos brasileiros e dos fãs mundiais do automobilismo.

Exemplo de esportista e cidadão, a fatalidade que levou sua vida no Grande Prêmio de San Marino, em Ímola (Itália), ainda é lembrada com tristeza e consternação, tendo ocorrido no auge de uma carreira já vitoriosa, mundialmente (re)conhecida, mas ainda bastante promissora, com seus apenas 34 anos de idade.

Na curva Tamburello do circuito italiano, foi realizada uma grande homenagem na última quinta-feira, 1º de maio, no horário exato de sua batida em 1994 (foto). Senna tem sido lembrado em inúmeras ocasiões e de formas diversas pelos seus admiradores no mundo inteiro, especialmente esse ano. Reconhecido como um dos maiores pilotos da história da Fórmula 1, ele foi (e é) responsável por levar as cores do Brasil a todos os cantos do mundo e inspirar multidões há 20 anos (e ainda hoje).


O tal nacionalismo

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vijnationalism

Ano de Copa, e pelas particularidades da organização desse ano, temos tudo para que o mundial de 2014 seja conturbado fora de campo, com protestos e até os mais exaltados que clamam para que não haja torneio. Razões e motivações à parte, um ponto interessante que vai aparecer em qualquer discussão, de redes sociais a barzinhos, é o tal do nacionalismo. Quem defende os protestos vai argumentar que ser verdadeiramente nacionalista nesse momento é lutar pelos direitos, contra a corrupção, custe o que custar, pelo bem do Brasil. Quem argumenta do lado oposto vai dizer que, de um modo mais tradicional, ser contra a Copa vai causar estragos econômicos (mais do que já houve) e arruinar a imagem do país. E aqueles mais despreocupados vão ligar esse problema mais ao sentimento de pertença ao grupo, com nacionalismo se igualando a torcer pela seleção e voltar pro trabalho na segunda-feira.

Todos esses pontos de vista (apesar de remontar também ao patriotismo, que é uma coisa um pouco diferente) mostram um problema importante do mundo atual, que é a noção de nacionalismo e identidade. Como tal, é intersubjetivo – o que se entende como nacionalismo é um conceito construído, lá no século XIX, e hoje perde um pouco de sentido em alguns casos dependendo de como cada grupo entende o problema. É só ver a crise da Crimeia – são ucranianos no papel, na lei, mas em termos de sentimento nacional estão mais apegados ao lado da etnia russa. Com isso, os crimeanos abrem mão da nacionalidade ucraniana (é um pouco mais complicado, já que alguns podem optar por continuarem ucranianos, mas vou me dar ao luxo de generalizar um pouco essa explicação) para se tornaram russos. Se fosse realmente um conceito tão fundamental, as pessoas não trocariam tão facilmente de nacionalidade, o que demonstra brevemente que o peso dessa ideia depende muito de cada caso.

Existem até mesmo constituições nacionais que endossam esse caráter de pertencimento ao grupo, mas quem pode impedir o indivíduo de não querer ser parte disso? Um exemplo vem da notícia pitoresca das últimas semanas de que o governo britânico está promovendo uma campanha (com apoio da Scotland Yard e grupos de direitos humanos) pedindo que esposas e irmãs de possíveis ativistas islâmicos denunciem o fato para que o governo impeça que saiam do país e se juntem ao combate na guerra civil Síria. Existe uma grande fonte de ironia em tudo isso – desde o começo, países ocidentais vêm apoiando a oposição síria, e parte dela são grupos radicais, muitos ligados a extremistas islâmicos… e antiocidentais. E boa parte de seus combatentes são pessoas convertidas ou nascidas em países como a França e o Reino Unido. Por mais que tenham a nacionalidade de países europeus, a identidade religiosa fala mais alto, ao ponto de abandonarem tudo para se juntarem a uma luta de extrema letalidade e potencialmente suicida.

Resumo da ópera: pensar em nacionalismo hoje depende muito da conveniência de quem discute. Pode ser um elemento de legitimação ou garantia do status quo, bem como para a derrubada do mesmo. Pode ser uma ideia aproveitada para manipular contingentes populacionais. E pode não ter absolutamente peso ou valor nenhum. Pois o nacionalismo é apenas um aspecto da identidade, seja coletiva ou individual, e no mundo de hoje tem muito mais concorrência para determinar qual seja o valor fundamental para cada indivíduo.


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