O Primo Chinês

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E inicia-se a contagem regressiva para uma das mais importantes viagens internacionais do governo Dilma, de fato a primeira de grande peso estratégico para o país: sua visita à China. A apenas dois dias da chegada de nossa presidente em território chinês, começa-se a pensar por que vias anda essa relação entre os dois países.

Os números mentem muito pouco. A importância da China para o Brasil é muito grande. Atualmente, com um comércio bilateral rendendo, com base nos resultados de 2010, mais de 54 bilhões e com essa balança pesando para o Brasil com aproximadamente uns 5,4 bilhões, o país já é o primeiro parceiro comercial brasileiro. Mas seria essa parceria tão profícua quanto parece?

O que é isso que os números não dizem? As estatísticas absolutas não falam algo que Eça de Queiróz captura muito bem em sua obra, o Primo Basílio. Luísa, uma jovem fragilizada que na ausência de Jorge, seu marido, logo se envolve em aventuras românticas com seu primo recém chegado na cidade, Basílio, depositando no Paraíso, (o lugar onde se encontravam) a maior parte de suas expectativas. Em curto prazo, a jovem sentia-se muito feliz e via reacender uma nova paixão. As consequências de longo prazo que não eram bem consideradas…

E Queiróz não poderia dizer melhor sobre essa relação entre Brasil e China. “O paraíso” do comércio bilateral entre os dois países tem garantido ao governo brasileiro uma elevada rentabilidade. Entretanto, uma análise mais acurada mostra que podemos cometer um erro parecido com o de Luísa.

Isso porque, apesar dos números, o Brasil exporta preponderantemente produtos agrícolas e importa dos chineses um volume muito grande de produtos manufaturados. Para os primeiros, o preço não cresce muito, enquanto para os segundos em razão da inovação tecnológica, os preços tendem a aumentar bem mais. Outra complicação é o fato de muitas indústrias brasileiras instaladas na China (como a Embraer) não conseguirem produzir tanto quanto desejariam precipuamente por restrições do governo local (apesar de indicativos de tentativas de amenizar a situação). Os números escondem a contribuição dessas relações para um tímido, porém possível, processo de desinstalação de indústrias alguns setores (para mais clique aqui e aqui), já que compensaria mais importar do que produzir.

Uma situação delicada e muito cara aos projetos de crescimento do Brasil. Ao que tudo indica, o governo está ciente disso e dentre os objetivos de Dilma e sua comitiva de quase 300 empresários, a tentativa de diversificação desse comércio e melhoria de suas condições são relevantes temas a serem tratados no encontro. Mesmo assim, é importante manter os olhos abertos para as relações com o “Primo Chinês” para que o longo prazo não nos cause embaraços semelhantes ao de Luísa, enquanto nosso Basílio continuará em sua vida de ávido crescimento e comércio sem grandes preocupações…


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"Belo Monte" de problemas

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Eis que um “Belo Monte” de problemas para o governo brasileiro vem à tona novamente nesta semana. Tudo porque a Organização dos Estados Americanos (OEA), por meio do seu Conselho Internacional de Direitos Humanos (CIDH) divulgou uma nota oficial (veja o texto original aqui) pedindo a paralisação imediata das obras da usina hidrelétrica de Belo Monte, iniciadas no último mês às margens do Rio Xingu, no Pará.

O principal argumento utilizado por esta Organização Internacional é a existência de prejuízo potencial no que se refere aos direitos das comunidades tradicionais da bacia do rio Xingu. Esse manifesto ocorre aproximadamente cinco meses após a denúncia formal feita por movimentos sociais, índios e camponeses que temem pelo ecossistema da região.

Entretanto, sabe-se que a discussão (e a polêmica) sobre Belo Monte não é recente. Remonta, de fato, à década de 1980, quando os primeiros projetos da usina foram divulgados. Após fortes manifestações contrárias de ambientalistas e comunidades indígenas, o projeto foi adiado e voltou à pauta apenas em 1994 com alterações notáveis (reduzindo a área a ser represada e, por consequência, seu impacto ambiental). Mesmo assim, os críticos consideram ainda hoje que os problemas ambientais advindos dessa obra permanecem enormes e não fazem valer o “custo-benefício” de sua construção.

Em números mais exatos, o custo financeiro da obra atinge a exorbitante casa dos aproximados 20 bilhões de reais – sem que se mencionem os inestimáveis custos sócio-ambientais. Em contrapartida, esta represa tem potencial para se tornar a terceira maior do mundo (e a maior do Brasil, já que Itaipu pertence também ao Paraguai), diversificando ainda mais a matriz energética do país e beneficiando a população em geral com o início de suas atividades – previsto, a princípio, para 2015.

Apesar da grande polêmica, as obras já estão em andamento no Pará e o Ministério das Relações Exteriores se posicionou oficialmente afirmando “perplexidade” diante deste (inesperado) impasse internacional. O ministro Patriota se utilizou de termos como “injustificável e precipitada” para caracterizar a nota oficial da OEA e expressar o descontentamento do Itamaraty. O governo afirma que foram feitos todos os estudos necessários a respeito do impacto das obras nos níveis social e ecológico, tendo as obras sido autorizadas por vários organismos que lidam com o controle de danos ao Meio Ambiente, tal como o Ibama, por exemplo.

Contudo, dados recentes apontam que 70% das obras para reduzir os impactos de Belo Monte ainda não começaram – sendo que as estatais e as construtoras responsáveis foram acertadas há um ano atrás. Trata-se de obras de infra-estrutura básica que poderão auxiliar as comunidades da região em que a usina se desenvolverá e minimizar as consequências negativas da construção. O que pensar diante dessa situação?

Parece existir uma nítida e infeliz contradição entre, de um lado, a preservação ambiental da região e a proteção dos povos indígenas; e, de outro, um projeto político histórico e a perspectiva de baixo custo na geração de energia elétrica para o país a longo prazo. Os argumentos de ambos os lados são amplamente defendidos, porém o necessário equilíbrio entre as partes parece estar longe de ser atingido. A única certeza é que um “Belo Monte” de questões políticas, sociais e ambientais são evidenciadas neste contexto – questões, aliás, muito mais complexas do que se pode imaginar à primeira vista…

[Vale esclarecer que esta nota emitida pela OEA não implica em nenhuma consequência prática de imediato para o Brasil. Porém, se porventura a justificativa brasileira não for aceita pela Comissão, o caso pode ser levado à Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA, a qual tem o poder de condenar o país e determinar sanções em geral.]


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Invertendo papéis?

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Diante da severa crise econômica que enfrenta Portugal surgiu espaço para uma brincadeira. Será que o Brasil poderia salvar Portugal? Talvez Portugal pudesse retirar-se da União Européia e ser anexado ao Brasil, não?

Todos conhecem bem nossa história compartida. Portugal, em seus áureos tempos, foi uma das grandes potências mundiais. Entre os séculos XV e XVI, alguns países europeus lançaram-se aos oceanos com o objetivo de descobrir novas rotas à Índia e novas terras. Tal período foi denominado Era das Grandes Navegações. Neste contexto, Portugal logo encontrou destaque devido a diversas condições internas favoráveis. Tais aventuras surtiram efeitos, muita riqueza e colônias afluíram às terras portuguesas. O Brasil foi parte do esplendor português.

Desde a independência brasileira, muitos fatores levaram a um certo distanciamento entre (as antigas) colônia e a metrópole. Os ingleses, os norte-americanos e os sul-americanos foram os principais brasileiros parceiros desde então. Portugal, antes detentor de exclusividade comercial, econômica e política junto ao Brasil, viu seu papel diminuir nos rumos tomados pela terra que já acolhera sua família real. Enquanto os brasileiros viram surgir um renascimento político, econômico e social; Portugal teve seu posto de potência revogado ante aos países de crescente influência e poder em sua região, marcadamente França, Alemanha e Reino Unido. De certa maneira, Portugal nunca mais voltou a gozar do prestígio de outrora.

Voltando nossa atenção para o capítulo atual da história, fica evidente que os países tiveram seus papéis fortemente alterados. O Brasil apresenta uma economia pujante, um papel de protagonista internacional e uma governança consolidada. As grandes potências só fazem corroborar esta premissa, à medida que aumentam o papel da diplomacia brasileira nas principais temáticas internacionais. Portugal, em caminho contrário, viveu anos de baixo crescimento econômico, políticas fiscais desreguladas; que por fim culminaram no seu atual estado, um país forçado a buscar medidas de austeridade a custo de seu bem-estar social. Mais que isso, Portugal está a um passo de buscar ajuda internacional para mitigar os efeitos mais urgentes de sua crise. Dilma, em visita a Portugal durante esta semana, discutiu a possibilidade do Brasil entrar em cena e ajudar nossos “irmãos portugueses”.

A ironia da brincadeira lançada pelo jornal Financial Times reside nesta inversão de papéis. Brasil está mais próximo do papel internacional da metrópole portuguesa do século XVI, ao passo em que Portugal aproxima-se do cenário de crise que viveu sua ex-colônia por tantos anos. As crises econômicas brasileiras nos forçaram a jogar pelas regras do jogo. Nossa submissão política nos levou a décadas de ostracismo e papel diplomático restrito. O exemplo clássico de nosso papel como “país do futuro” veio por meio das medidas de austeridade impostas por credores internacionais. A libertação simbólica do Brasil ocorreu com o fim da dívida junto ao FMI. Frente à atual crise, eis que Portugal escuta de Dilma “podemos ajudar, desde que se apresentem garantias de pagamento”. Soa familiar, não?

Quem quer ajudar Portugal? Mais que isso, quem vai ajudar os portugueses comuns que sofrerão com as medidas impostas para controlar a crise? Caberá ao próximo governo português limpar o terreno, impor políticas pouco populares e enfrentar a fúria popular. Os antigos governantes – não só em Portugal – que construíram o caminho para a crise e deixaram seus países em situações lamentáveis, vestem discretamente a camisa da oposição, esperando que na próxima eleição o quadro se inverta a seu favor novamente. No meio de tudo isso, o Brasil seguirá desvendando os desdobramentos de seu novo papel como “metrópole”.


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A princípio, uma guerra…

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Antes de começarmos o post de hoje, devemos prestar nossas devidas condolências pela morte de José Alencar, ex-vice-presidente do Brasil. Poucas pessoas foram capazes de despertar tamanha comoção no povo brasileiro. Um exemplo grandioso de quem ficou de frente para morte em inúmeras ocasiões e ensinou que o sorriso, a simplicidade e a perseverança são as melhores armas, quando a força está debilitada. Um gigante parte para viver eternamente na história e em nossas memórias.

E a guerra na Líbia? Por lá, a situação não está nada fácil. A intervenção tem sido entendida como uma manobra precipitada, porém necessária. Depois de bombardeios, enfraquecimento das exíguas tropas de Kadafi e avanço dos rebeldes, os desencontros que precederam as iniciativas da coalizão começam a se acentuar. Para agravar, as manifestações se intensificaram no Iêmen e na Síria, enquanto o Bahrein já recorreu até as tropas sauditas para controlar os protestos.

No século XIX, o general prussiano Clausewitz disse que “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Em sua assertiva, a política é entendida enquanto um ato de imposição da vontade. Na Líbia, a comunidade internacional quis o cessar-fogo. Kadafi rejeitou. Quando a palavra falha, a vontade é lançada à sorte das armas. Porém, trata-se de vontades – por exemplo, a busca do prestígio externo francês, ou o controle da imigração africana para a Itália –, no plural, e não uma única vontade, esta condensada no cessar-fogo. Essas vontades podem explicar a ausência de uma grande estratégia em relação ao cessar-fogo: derrubar Kadafi ou apenas proteger os cidadãos líbios, com a zona de exclusão aérea? Ou algo mais?

Esta estratégia não foi levada a cabo durante a discussão sobre o tipo de abordagem na Líbia, nem qual seria a estrutura de comando (até a OTAN assumir). Desacertos e inércias gritantes podem ter um preço alto. Em debate, está a queda de Kadafi pelos próprios rebeldes, os quais se converteriam na força terrestre – armados pelos países da coalizão (França e Estados Unidos já deram sinal favorável a isso) – para terminar o trabalho que a força aérea estrangeira iniciou. Aqui, retorna a iminência de uma sangrenta guerra civil; o pré-intervenção foi só o aquecimento.

Outra questão cara: e depois da queda? A coalizão, a OTAN ou qualquer outra organização ou país vai participar do processo de reconstrução da Líbia? Em nossa memória ainda fresca, permanecem as aventuras hercúleas no Afeganistão e no Iraque. Uma das últimas coisas que os interventores querem é plantar e cultivar a democracia em terreno pedregoso.

A guerra, quando fica órfã da política, toma caminhos sombrios e ainda mais incertos. Sem objetivos claros e com vontades ocultas e contrastantes entre os membros da coalizão, os três meses para “arrumar” a Líbia serão absolutamente insuficientes. Permanece também a dúvida se essa guerra pode se espalhar na região, no caso de contestadas lideranças vizinhas abusarem da força na repressão dos protestos. Mal se pensou a guerra, que dirá as suas conseqüências…


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Em cima do muro

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O que antes eram manifestações se converteu em guerra civil e, agora, tomou proporções internacionais. Uma coalizão de países, liderada por Estados Unidos, França e Reino Unido, decidiu intervir militarmente na Líbia, com a finalidade de proteger os cidadãos do país das tropas sanguinárias de Muamar Kadafi. Por enquanto, derrubar o polêmico tirano não faz parte dos planos, mas os objetivos da coalizão ainda não estão perfeitamente claros e podem ir além do estabelecimento de uma zona de exclusão aérea (no-fly zone), ou mesmo atravessar as fronteiras da Líbia, sob a discreta forma de intervenção humanitária. (Seguem dois artigos bastante explicativos sobre a Guerra na Líbia: aqui e aqui)

Ora, que ninguém se engane, se a política internacional fosse a arena do altruísmo, o mundo seria perfeito. Os interesses nacionais acabam falando mais alto, principalmente aqueles de natureza econômica e geopolítica. Fora da coalizão, mas igualmente interessado nos acontecimentos na Líbia, está o Brasil. A abstenção brasileira na votação da resolução do Conselho de Segurança da ONU que autorizou o estabelecimento da zona de exclusão aérea está muito longe de significar desinteresse na questão. Nosso país tem se pronunciado o tempo todo. Tenta agradar a gregos e troianos com um insustentável laissez-faire. E, assim, fica em cima do muro.

O Brasil condenou os ataques contra o povo líbio, promovido pelo seu próprio líder, mas discordou do tipo de abordagem com relação à questão. Para não causar mal-estar, absteve-se de votar. Qual seria a solução brasileira? O diálogo pacífico! Evidentemente, este seria o melhor caminho, se a situação não demandasse urgência. Rubens Ricupero, em recente artigo publicado na Folha de São Paulo, chegou a dizer que o Brasil faz o “melhor de dois mundos”, já que não se compromete e deixa os outros resolver o problema.

Uma situação como esta evidencia um despreparo do Brasil para assumir um posto permanente no Conselho de Segurança. Não adianta o ex-chanceler Celso Amorim escrever um artigo na Foreing Policy explicando por que os Estados Unidos deveriam apoiar a pretensão brasileira, ou o governo ficar todo excitado com o “apreço” de Obama – digno de míseras linhas de uma nota diplomática norte-americana – à inclusão do Brasil, manifestado com veemência hoje, em Manaus, pela presidenta Dilma. Não é apenas a nova realidade global do poder, a capacidade de estabelecer diálogo com todos os países do mundo ou a dimensão econômica do nosso país que carimbam as nossas credenciais para administração da segurança internacional. Quando as negociações fracassam, a fala cede espaço para a sorte das armas e as decisões se tornam inadiáveis.

Particularmente, manifesto-me favorável à reforma do Conselho de Segurança e gostaria de ver o Brasil incluído no órgão. No entanto, nossa conduta recorrente não tem passado de uma aventura homérica. Protestamos, discordamos e até sugerimos outras soluções, mas quando se trata de implementá-las, não temos força. O mundo árabe tem uma imagem positiva do Brasil, mas não há como falar e querer negociar se não tivermos capital político, econômico e, principalmente, militar à altura de nossa voz. Não há também como dizer “não” para os grandes ou tratar de igual para igual, de maneira clara, por exemplo, o sentido da intervenção na Líbia. Resta ficar em cima do muro.


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Salas de recepção

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Nos últimos dias temos observado interessantes visitas internacionais muito bem destacadas na mídia nacional e internacional. Ambientes de recepções caracterizados pela diversidade dos seus hóspedes, oscilando entre aqueles bem-vindos e aqueles muito mal queridos. Bom, comecemos pelo Brasil. O governo brasileiro já se organiza para uma visita presidencial aos moldes dos grandes eventos musicais, como o Rock in Rio.

A vinda do presidente estadunidense, Barack Obama, e de sua comitiva ao país tem agitado os ânimos dos brasileiros e as expectativas dos Estados Unidos. Expectativas essas de mobilizar não só o Itamaraty ou o governo brasileiro da importância da parceria Brasil – Estados Unidos, mas também com forte apelo à população, com discurso de Obama a ser proferido ao público geral brasileiro. Um hóspede que oferecerá uma negociação de dois âmbitos. A primeira do governamental, por negociações diretas em Brasília, e a segunda, no âmbito social, com um discurso à população que visa reforçar a importância dessa parceria estratégica e despertar no povo esse sentimento.

A primeira insere-se nas recepções acaloradas. Agora, também é de se notar uma recepção quente, que trouxe muito calor e insatisfação para os protestantes no Bahrein. País que se encontra envolvido na onda de protestos do mundo árabe, dessa vez uma população de maioria sunita volta-se contra a dinastia xiita, dos Khalifa, que se encontra no poder há mais de duas centenas de anos. As reivindicações da população se inseriam no âmbito de protestos pacíficos quando iniciados em fevereiro, tanto que o governo apontou para possibilidade do diálogo, prometendo a criação de melhores condições para a população e libertando presos políticos.

O diálogo não foi o suficiente e com o prosseguimento dos protestos, o rei Hamad bin Isa al-Khalifa, logo apelou para a repressão. A quente recepção foi observada quando o rei pediu apoio do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) para operar na repressão dos protestos. Logo desembarcaram no Bahrein tropas sauditas e do CCG (que seriam mais que suficiente para assegurar a visita de Obama) mas tinham um propósito mais, digamos, repressivo (apesar de os sauditas dizerem diferente). Como destacou um artigo da Foreign Policy, a organização foi criada como forma de os países da região lidarem com agressões militares externas a quaisquer membros, e não é o que se observa no caso.

Nesses diferentes ambientes de visitas, enquanto no Brasil, é acalorada e o hóspede é bem querido, no Bahrein, a recepção é quente e os hóspedes malditos para o prosseguimento dos protestos. De um lado observa-se a vontade de reconstruir a importância estratégica e ampliar o entendimento conjunto, de outro, há a imposição da estratégia de repressão e de um entendimento de manutenção de situação vigente. Apesar de contextos diferentes e métodos divergentes, ambas visitas também visam atingir um ponto em comum: as populações locais.


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Desenvolvimento socioeconômico ou apenas econômico?

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Esta é uma questão crucial para o Brasil. Para agora e para o futuro que pretende alcançar. Uma nação socialmente justa, idealizada nos discursos de nossa presidenta e de seus predecessores, depende da equalização do desenvolvimento econômico com o atendimento das necessidades sociais. Por sinal, este foi o tema de um artigo de Érica Fraga, publicado ontem na Folha de São Paulo. Para a autora, este é o grande desafio do nosso país: traduzir os avanços econômicos em melhoria dos indicadores sociais.


Nunca é demais recordar que a persecução do desenvolvimento figura no cenário político brasileiro desde a década de 1930. Ora, foi traduzido como industrialização, ora como crescimento econômico. Na década de 1990, adicionou-se definitivamente o prefixo “socio”. Uma nota teórica: a partir do conceito de “desenvolvimento humano” do renomado economista indiano Amartya Sem, o desenvolvimento passou a significar muito mais do que crescimento econômico, senão como a eliminação de todas as formas de privações que impeçam as pessoas de viverem uma vida plena e digna. Privações estas que podem ser de natureza diversa: pobreza, fome, preconceito, desigualdade de gênero, analfabetismo, etc.

Do ponto de vista econômico, muitas projeções, a priori, são otimistas. A expectativa é que o Brasil ultrapassará Itália, Reino Unido e França, no ano de 2015, e se tornará a 5ª maior economia do mundo. Até 2040, juntamente com os demais membros dos BRIC – agora com a adição da África do Sul e, possivelmente, deve entrar a Indonésia –, superará a economia do G-7. O nosso “bilhete premiado”, ou seja, o pré-sal, pode gerar nada mais nada menos do que US$ 1 trilhão, o que significa a adição – se comparado com os dados atuais – de um terço ao PIB brasileiro. O lado pessimista é que crescer demais gera a inflação e sua cadeia causal: menos consumo, menos crescimento. Outro fator é a desconfiança: é possível converter nossas potencialidades em possibilidades concretas?

Agora o lado social. É absolutamente fantástico e louvável o esforço dos nossos governos de libertarem mais de 20 milhões de pessoas da pobreza. Porém, libertar da pobreza significa, de acordo com os padrões do Banco Mundial, viver com mais de US$ 2 por dia. Com R$ 3,34 por dia ou R$ 100,20 mensais, uma pessoa sobrevive? Para retomar o conceito de Sen, a libertação da pobreza é apenas a libertação das formas de privação e, portanto, não pressupõe o alcance final do desenvolvimento. Há privações que persistem: de acordo com o coeficiente Gini, o Brasil é o 11º país mais desigual do mundo, e, segundo o último Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD, o Brasil ocupa a 80ª posição em matéria de desigualdade de gênero. Ademais, para especialistas, a melhoria da educação é condição indispensável para nos consolidarmos como um país desenvolvido.

Estas são apenas algumas reflexões de uma discussão muito intensa. Para concluir, convém apresentar uma frase de Lúcio Costa, um dos construtores de Brasília: “O Brasil não tem vocação para mediocridade.” De fato, se não temos vocação para a mediocridade econômica, não devemos ter também para a social. A Colômbia (sim, surpreendam-se!) está mais nesse caminho inseparável do que o Brasil, como apresentou Fraga. O desenvolvimento socioeconômico deve ser um pacto de sangue e suor entre o povo e seus governantes, entre a nação e a sua história.


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Dragão inflado

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Recentemente, um termo que andava esquecido voltou às manchetes: o temor da inflação, que a maioria da geração dos anos 90 desconhece e que parecia derrotado indefinidamente, mas permanece à espreita em 2011 e traz dores de cabeça ao governo brasileiro – e a muitos países emergentes. Ok, não é uma crise de hiperinflação como nos bons tempos. Apenas um leve temor de que o governo não consiga cumprir a meta de inflação para o ano. É algo que parece pouco (as previsões são que exceda em 1 ou 2 por cento a taxa esperada, em um país que já teve inflação na casa dos milhares – pergunte aos seus pais), mas reflete uma situação própria dos países que se “safaram” da crise econômica recente.

Aliás, qual o problema da inflação? Basicamente, é um aumento dos preços causado pelo aumento do consumo que não é acompanhado pelo aumento da produção, típico em economias aquecidas. E a medida favorita dos governos para combatê-la é o aumento da taxa de juros (que diminui o consumo). Esse é o drama dos países que escaparam da crise: sua blindagem se deu justamente pela alta de preços de commodities e mercado interno aquecido; agora, pagam o preço, com inflação crescente e seus riscos inerentes, principalmente no que se refere à balança comercial. Esse é o temor da China, que depende de suas exportações mas ao mesmo tempo sofre internamente com seus efeitos.

Para conter o temor do mercado, os governos agem, cada um ao seu modo. E isso sempre traz algumas surpresas no caso chinês, pois seu regime diferenciado permite jogar com regras um pouco diferentes. Diriam que por causa de seu comunismo? Muito pelo contrário, a China se sobressai justamente por ser o país onde o capitalismo de desenvolve de maneira mais selvagem no mundo – e sob a tutela do Estado. Para se ter uma idéia, já existe por lá o incrível arroz artificial (uma nutritiva mistura de batata-doce e plástico, a qual comer uma tigela equivale a ingerir um saquinho de supermercado). Assim, a China via de regra age como bem entende em termos econômicos, como alterar o câmbio artificialmente

A surpresa maior, contudo, é justamente um “despertar” ortodoxo que ocorre nesse momento: assim como no Brasil, no momento a China aumenta suas taxas de juros (e faz despencar as bolsas asiáticas). A China começa a jogar pelas regras como conhecemos, o que certamente é um sinal de alerta – ou algo estava dando errado em suas vantajosas políticas usuais, ou não sobraram opções. É interessante ver como as coisas funcionarão por lá a partir de agora: esse início de crise inflacionária pode significar alguma mudança de rumo mais normativa na economia chinesa? Mudanças que afetam a segunda maior economia do mundo transbordam pelo globo. E, assim, o duelo entre os dragões, o do Estado chinês e o da inflação, pode ser fundamental para determinar os rumos da economia mundial de agora em diante.


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Duelo de titãs

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Os preparativos para o encontro em meados de março entre Barack Obama e Dilma Roussef já estão lançados. Debates, polêmicas e repercussões internacionais não faltarão. O encontro promete!

A primeira questão que deve ser colocada em tela é a mudança na correlação de forças no sistema internacional. Trata-se, pois, da erosão hegemônica de uma grande potência e da ascensão contínua de uma potência emergente. De um lado, os Estados Unidos e a sua incapacidade de gerir a ordem mundial. De outro, o Brasil e suas aspirações para construir uma ordem mundial mais justa e democrática. A interface entre ambos, à primeira vista, parece irreconciliável, porém, um olhar mais acurado, sugeriria o oposto: uma complementaridade. (Vejam um artigo interessante)

Ser complementar, no entanto, depende do esforço empreendido pelos países para lidar com os possíveis choques de interesses e os harmonizar, na medida do possível. Vale lembrar que tanto Obama como Dilma desejam uma reaproximação (para alguns) ou o fortalecimento (para outros) da parceria estratégica entre os Estados Unidos e o Brasil. À parte dos acordos de cooperação nisso ou naquilo que, como de práxis, serão firmados, dois pontos chamam a atenção: a manipulação cambial e a reforma do Conselho de Segurança.

No primeiro ponto, o secretário do Tesouro norte-americano, Timothy Geithner, em visita ao Brasil, para preparar o futuro encontro, veio pedir o apoio brasileiro contra a política cambial adotada pela China. Não faltou à Geithner vários argumentos para persuadir o quão danoso é o yuan desvalorizado para os brasileiros. Um exemplo ilustrativo é que a concorrência chinesa levou a perda de 67% dos clientes dos exportadores nacionais. Porém, há coisas que ele não disse, como demonstrou Carlos Ming. Em específico, se há falta de liquidez e desequilíbrios financeiros, os culpados são os Estados Unidos!

Em relação ao segundo ponto, no domingo, Obama declarou que é contrário ao ingresso brasileiro como membro permanente do Conselho de Segurança. Essa posição decorre do voto contrário do Brasil às sanções ao Irã. O presidente norte-americano também comentou que não levará este tema para a pauta de discussões no encontro, já que o objetivo principal é melhorar o relacionamento entre ambos os países. Porém, a diplomacia brasileira não dá sinais de que o excluirá. Antonio Patriota espera contar com o apoio dos EUA para a reforma do organismo e defende que o Brasil tem credenciais para fazer parte dele.

Os titãs duelam. O velho e o novo. Não por puro combate, mas também como desafio. Contudo, o duelo não é uma crua ode ao confrontacionismo, senão uma maneira de buscar alternativas e soluções entre ambos e entre os dois e o mundo. Desde as independências, os dois países buscaram uma forma de caminhar juntos, de mãos dadas ou não. Há uma boa sintonia. Em geral, os Estados Unidos não ditaram verticalmente o que devia ser feito. Da mesma forma, o Brasil sempre teve que levar em conta as posições norte-americanas no cálculo para atuação. Se Obama quer discutir economia, vai ter que discutir política também. Nosso país não pode prescindir. Um diálogo de alto nível deve levar em conta os interesses em questão, ainda que divergentes.


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Isso é Globalização?

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[O texto abaixo foi publicado há exatamente um ano aqui no blog, porém – considerando a atualidade da reflexão – segue novamente para discussão e análise. Aproveitem a leitura!]

“E o povo escolheu a Globo, isso é Globalização”. […] Este é o refrão da vinheta intitulada ‘Samba da Globalização’, veiculada por essa tradicional emissora televisiva em rede nacional há anos na época que antecede o Carnaval. O samba, de autoria de Arlindo Cruz, Helio de La Peña, Mú Chebabi e Franco Lattari, está em sua quarta edição e foi muito bem elaborado para os seus fins, não se pode negar. O que impressiona, contudo, é a notável capacidade de manipulação da informação e construção de ideologias existente em tempos modernos.

O termo ‘globalização’ se tornou recorrente em nosso vocabulário nos últimos anos, possuindo múltiplas acepções possíveis. Comumente, este conceito é apresentado simplesmente como “fenômeno ou processo mundial de integração ou partilha de informações, de culturas e de mercados”. Com maior aprofundamento teórico na área de Relações Internacionais, Held e McGrew (2001) descrevem a globalização enquanto um “conjunto de processos inter-relacionados que operam através de todos os campos primários do poder social, inclusive o militar, o político e o cultural”. As definições podem variar em alguns aspectos, porém costumam se complementar de forma geral. Definir, entretanto, globalização como palavra derivada do nome de uma emissora televisiva e apresentar sua abrangência como escolha do povo, tal como indica o refrão do samba supracitado, deve trazer à tona certa discussão.

Milton Santos (2000), importante geógrafo brasileiro, aprofunda a reflexão neste eixo temático ao expor três possibilidades de se enxergar o processo da globalização. Em um primeiro momento, esta pode ser vista como fábula (“O mundo como nos fazem crer”), em que se nota o papel da máquina ideológica, destacadamente dos meios de comunicação de massa: fantasias repetidas acabam por se tornarem sólidas. Qualquer semelhança com a idéia da primeira frase deste post não é mera coincidência…

Em seguida, tem-se a noção de globalização enquanto perversidade (“O mundo como é”), em que se percebe a situação de desigualdade de boa parte da humanidade que sofre com as mazelas do desemprego e da pobreza. Por fim, vê-se, de forma otimista, a possibilidade de se pensar em uma outra globalização (“O mundo como ele pode ser”) – aquela que valoriza o humano, a consciência e a sociodiversidade na construção da história.

A partir da exposição destes pontos, convém perceber o grande poder de influência do conteúdo veiculado pela TV Globo sobre a população brasileira. Esta emissora possui, visivelmente, uma destacada concentração das atenções populares, da audiência geral e da publicidade, o que a torna um meio cultural de enorme destaque no país. O trocadilho feito com o termo “globalização” apenas elucida a forma como este meio pode atender a interesses específicos. (Um artigo interessante sobre diversidade cultural no Brasil pode ser acessado aqui.)

Para finalizar a análise, pretende-se ressaltar o otimismo de Milton Santos para entender que a globalização atual não é irreversível (em todos os sentidos que o termo possa suscitar). A dissolução de ideologias é possível, mas requer esforços coletivos, evitando-se o conformismo generalizado que parece pairar sobre nossos tempos. Nas próprias palavras de Milton Santos, “devemos nos conscientizar de que o mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efetivamente existir. Não há verdades eternas”. Fato.


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