Debates calorosos

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Esta parece ser uma semana um tanto quanto atípica para se comentar aqui no blog. Soa um tanto quanto paradoxal, porque vivenciamos dias agitados, mas alguns resultados já são esperados antes de entrarem nas mesas de negociação. Digo isto, pois três destes “debates calorosos” já passaram alguma vez nas análises da Página Internacional, mas nunca é demais retomá-los. Assim, vamos aos casos: a briga presidencial nos Estados Unidos, a negociação entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e os nove vetos de Dilma no Código Florestal. 

Na última segunda-feira, o programa “Complicações”, vinculado ao UNIVESP TV, publicou em seu canal do Youtube uma entrevista com o Professor Tullo Vigevani, no qual ele trata sobre a política externa norte-americana e a sucessão do cargo presidencial. Logo no começo do vídeo, Tullo afirma que os EUA têm uma linha a seguir em sua política de Estado, sendo que não há muitas mudanças nas trocas de governo. Lembrando que, por política de Estado temos um pensamento mais a longo prazo e estrutural e, por política de governo, uma perspectiva mais a curto prazo e conjuntural. Ou seja, Obama e Romney ficam se atacando, fala-se de crise econômica doméstica, falta de posicionamento nos conflitos internacionais, mas no final tudo parece refletir na mesma coisa: um discurso muito ideal e uma prática extremamente realista dos governantes. 

Pois bem, mudando de foco, começam hoje no hotel Hurdalsjoen (foto) em Oslo, na Noruega, as rodadas de negociação entre o governo colombiano e as FARC. Já é um tema batido, entretanto é importante reiterar que o grupo revolucionário atua no país há mais de cinquenta anos opondo-se ao poder central e controlando carteis de drogas. Sentar-se à mesa, conversar (ou discutir e gritar) já é um recomeço evidente por se tratar de duas posições contrárias. Algo me diz que isso vai demorar um bom tempo, afinal, se perdura por mais de meio século, vão precisar de muita diplomacia para por fim ao conflito.

E, por fim, aqui Brasil a Dilma apresentou nove vetos ao Código Florestal publicados, hoje, no Diário Oficial. Isso não é minha área e não entendo muito destas questões, só que, desde o começo, esse código estava sendo tratado como uma piada. Com toda certeza, daqui pra frente a opinião do congresso vai ficar ainda mais dividida. Ao olhar dos ambientalistas, o código é marca indelével de retrocesso ambiental e clientelismo político. Já ao olhar dos tomadores de decisão, nada de muito diferente. Afinal, para eles, a opinião pública não vale muita coisa. Similarmente ao apontado quando falei dos presidenciáveis norte-americanos, aqui o discurso é “legal” e a prática real no sentido mais pejorativo do termo.


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Protegendo?

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Onde está o limiar entre ações protecionistas, entendidas como práticas corrosivas ao mercado internacional, daquelas medidas bem-vindas às indústrias? Infelizmente, não existe resposta muito objetiva. Esse tipo de discussão sempre incorrerá em perspectivas diferentes partindo das visões divergentes dos países. Mas, no cenário internacional atual, mantendo-se dentro de um conjunto aceitável de regras da OMC, pode-se tentar barganhar pela legitimidade de um argumento. 

E a União Europeia não tem se poupado para obter esse recurso. O mais recente caso foi a ameaça de protestar na OMC contra a nova política automotiva do Brasil, o “Inova-Auto”, publicado na semana passada. Basicamente, o bloco critica o governo brasileiro de tomar uma medida de caráter protecionista e diz que vai tentar buscar legitimidade de sua posição na OMC. 

Ora, mas será que é protecionismo mesmo? 

Bom, antes de tentar responder à pergunta, vamos a algumas características dessa nova política. No contexto de crise econômica internacional e de diversas críticas a um suposto processo de desindustrialização do Brasil, para que as empresas automobilísticas tenham um desconto de 30% no valor do IPI (imposto sobre produtos industrializados), é preciso que elas tenham uma fábrica no país. Caso não o tenham, há um valor limitado de carros importados com o desconto no imposto. Da mesma forma, as empresas precisam cumprir alguns requisitos no uso de energia, como aumentar em 12% a eficiência dos motores, e manter um certo volume de peças nacionalizadas. Ainda há descontos extras no IPI para aqueles que também forem capazes de investir na redução do uso de combustíveis. 

Resumidamente, esse novo regime automotivo brasileiro representa uma tentativa do governo de incentivar investimentos em tecnologias e inovação na indústria automobilística instalada no país, aproximar-se do cumprimento de metas de redução de gases de efeito estufa e ainda exigir produtos de maior qualidade para o consumidor. 

Agora, voltando para nossa pergunta, podemos dizer que a medida é protecionista? Em termos absolutos, não tem como negar que a medida tem “um que” de protecionismo. Entretanto, em termos relativos, não. Ora, é sim uma forma de proteger o mercado contra os importados, pois a necessidade de ter uma fábrica no país e de cumprir com as exigências técnicas é um fator limitante. Por outro lado, mais que protecionismo, é uma demanda por maior qualidade dos automóveis vendidos por aqui e de busca por movimentar o mercado nacional. Isso porque, ao se exigir peças nacionais, mexe-se também em inúmeras outras indústrias que podem gerar empregos. 

Bom, sem entrar no mérito dos economistas sobre se a política vai produzir efeitos sobre preços e volume de empregos, pode-se ver que nesse sistema econômico liberal construído após a II Guerra Mundial, ser taxado de protecionista é ser alvo de descrédito. Mesmo tendo sido a União Europeia indicada como campeã de protecionismo nos últimos tempos, criticar políticas que fazem empresas importantes saírem de suas zonas de conforto é sempre mais conveniente do que adaptar-se. E, no fim das contas, o discurso de crítica ao protecionismo representa apenas uma forma de proteger suas próprias medidas protecionistas.

[Para mais: 1, 2, 3]


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Post do Leitor

Post do leitor – William Soares Gonçalves

[Hoje temos o prazer de publicar no blog um post do leitor diferente. Este texto nos foi enviado por William Soares Gonçalves, dedicado aluno do final do ciclo do Ensino Fundamental na Escola Estadual Profª. Zeicy Apparecida Nogueira Baptista, em Taboão da Serra/SP. Neste texto, William nos apresenta sua visão sobre uma lei nacional envolvendo os caminhoneiros. Vale a pena conferir sua análise! Boa leitura!] 

Gigantes do asfalto

 

Muito se tem falado sobre a nova lei imposta pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran) ao governo, que obriga caminhoneiros a fazerem paradas de descanso pelo menos de 11 horas em um período de 24 horas. Esta nova lei gerou muita discórdia na classe dos caminhoneiros, pois como eles poderiam fazer paradas em lugares que nem sempre se tem hotéis ou postos de gasolinas, para que os motoristas pudessem cumprir sua jornada de descanso?

Os caminhoneiros estão pedindo mais estrutura nas estradas que eles possam cumprir a lei em segurança. Por outro lado, uma das polêmicas geradas pela nova lei é a questão do tempo de entrega de fretes que os companheiros da estrada devem cumprir. Muitos fretes que os caminhoneiros fazem têm que serem entregues no tempo certo, que é imposto pelas transportadoras. Essas cargas são chamadas de cargas perecíveis, ou seja, produtos que podem ser estragados facilmente.

É ai nesta corrida contra o tempo que acontece a criação da lei. Os motoristas são subordinados a viajarem no menor tempo possível, cortando estradão dia e noite, e é assim que o perigo chega. Rodando noites e noites, o cansaço bate, e junto com ele o sono, que muitos caminhoneiros tentam driblar, usando drogas como o “rebite”, que é um estimulante para que os motoristas possam ficar horas e horas acordados. Mas quando o sono bate de verdade, não tem “rebite” que dê jeito, e aí é que acontecem as tragédias nas estradas envolvendo os caminhoneiros que são noticiadas em telejornais.

Devido às altas estatísticas envolvendo acidentes com caminhoneiros, a lei do descanso foi criada. Mas está lei também foi criada para preservar a vida dos irmãos da estrada. O que seria de nós sem os caminhoneiros? São eles que nem sempre têm o valor merecido, que carregam a economia do país nas costas, transportando o arroz e o feijão para as nossas mesas, deixando suas famílias em casa para cumprirem seus deveres e às vezes, ou muitas vezes, não tendo a valorização de seus trabalhos por nossa parte.

Então fica a reflexão, para que possamos valorizar mais essa classe de trabalhadores que passam horas e horas na “boleia” do caminhão para sustentar nossa sobrevivência, e sustentar principalmente suas famílias. Fica uma simples pergunta: você passaria dias longe de sua família para levar o pão e o leite para outra? O caminhoneiro passa. 


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Sempre é tempo de eleição

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Nos Estados Unidos, Obama e Romney fizeram o primeiro debate antes das eleições presidenciais que ocorrerá no próximo mês de Novembro. Na Venezuela, o atual presidente Hugo Chavez encontra, pela primeira vez, um rival de peso, o opositor Henrique Capriles, na disputa por votos. E, no Brasil, teremos novamente processos eleitorais municipais para ver quais prefeitos e vereadores continuarão ou entrarão na política nacional. 

Ontem mesmo ocorreu, na Universidade de Denver, no Colorado, o encontro entre presidenciáveis norte-americanos (a íntegra está disponível aqui). Para quem esperava novidades, nada disso aconteceu. As trocas de farpas e acusações foram, em sua maioria, a respeito da economia interna do país. De um lado, Romney atacava o adversário dizendo que a crise de 2008 ainda não fora resolvida e justificava sua postura republicana defendendo a mínima intervenção do Estado nas questões econômicas. Já Obama, protegia-se, claro, e parece que se saiu melhor. Mesmo com as prévias, o atual presidente lidera as pesquisas. O mais interessante, em momento pontual do debate, foi Obama dizer que já acabou com a guerra no Iraque e fará isso com o Afeganistão. Se for, tem que fazer isso logo, porque os EUA já tiveram imensos prejuízos com ambos os conflitos. 

Chavez se encontra em uma disputa nunca antes vista durante seus últimos catorze anos de governo. Neste caso, como também já se esperava, a querela parece ser mais ideológica. De um lado, o atual presidente foca-se em suas reformas sociais realizadas ao longo dos últimos mandatos. De outro, o opositor Capriles diz que manterá esta postura, mas com um discurso mais neoliberal. Especialistas dizem que a população não está preocupada com as ideias (sejam elas bolivarianas ou liberais), ou seja, querem inclusão social e ponto. Na última edição do periódico “Le Monde Diplomatique” há uma reportagem intitulada “Um chavismo sem Chavez é possível?” (foto), ou seja, novas dúvidas começam a surgir a respeito do legado do atual governante. A eleição dos próximos dias, com toda certeza, será decisiva! 

 

Por fim, no Brasil, não tem muito o que falar. A Ficha Limpa (ou Suja, como quiserem) continua muito bonita na teoria, mas na prática não funciona. As eleições municipais são vitais para o bom funcionamento da federação, mas tudo continua a mesma coisa. Candidatos com nomes hilários, corrupção pra lá e pra cá, adesivos estampados em carros e por aí vai. Só resta esperar e advertir para a importância de quem vai votar. No site “DivulgaCand” do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) encontra-se a lista dos candidatos registrados em todos municípios brasileiros. Entre e veja as propostas!


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O discurso de Dilma na AGNU

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Na última terça-feira, a presidente (ou presidenta) Dilma Rousseff abriu pela segunda vez a Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), desta vez em seu 67º número. Desde 1947 há a tradição do Brasil ser o primeiro orador a discursar e assim vem sendo, cabendo ao presidente tal posto. Logo no início de sua fala, Dilma pontuou novamente ser uma voz feminina a abrir a AGNU, fato que evidencia uma busca por igualdade de direitos e oportunidades, bem como a ausência de discriminação e violência na questão de gênero. 

Como de costume, manteve uma postura crítica e severa quanto às políticas monetárias e fiscais ortodoxas realizadas por potências mais desenvolvidas. Em suas palavras, os países emergentes vêm perdendo mercado devido à valorização artificial de suas moedas. No mais, seguiu acobertando a defesa comercial de tais países, a qual não é protecionismo e está regulamentada nas diretrizes da Organização Mundial do Comércio (OMC). No que toca a este tema, finalizou com o que seria a solução para a crise financeira: um maior vínculo entre Estados e organizações internacionais, com destaque para G20, Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI). 

Também, é claro, não poderia faltar a menção da política interna formulada por seu governo aqui no Brasil. Enalteceu as política sociais inovadoras, o consumo de massa e o combate à pobreza. Reafirmou, com convicção, dizendo: “Meu país tem feito sua parte!”. Posteriormente, passou para a complexidade do Oriente Médio e do Norte da África. Sobre a Síria, em específico, aderiu ao discurso diplomático e de mediação entre ONU e Liga Árabe, repudiando totalmente o conflito armado. Ainda assim, foi contra a onda de preconceito em relação aos islâmicos em países ocidentais. Interessante observar que somente neste momento ela foi aplaudida pelas autoridades presentes. 

Reiterou sua fala de 2011 quanto à urgência de reconhecer o Estado Palestino como membro das Nações Unidas. Sobre esta organização, disse que o impasse do Conselho de Segurança é um dos maiores problemas das relações internacionais contemporâneas, sendo necessária a sua reforma. Novamente, não poderiam ficar de fora os debates sobre mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável, merecendo ênfase em sua fala a presença do multilateralismo na Rio+20. 

Sobre as relações com países vizinhos, salientou a ação do Brasil em fomentar o ambiente democrático, de paz e justiça social na região e na integração sul-americana e caribenha. Justificou a querela com o Paraguai com a seguinte frase: “Integração e Democracia são princípios inseparáveis”. Por fim, mencionou Cuba como exemplo clássico de um país que necessita de apoio e cooperação internacionais. Criticou o embargo econômico e defendeu seu fim. Elogiou as Olímpiadas de Londres e já falou do papel a desempenhar na Copa do Mundo e nas Olímpiadas em território nacional nos próximos anos. Nas últimas expressões, repreendeu a intervenção através do uso da força e ratificou a existência de uma ordem multipolar. 

Como todo discurso dito “diplomático”, ele tem seu caráter normativo e ponderado. Todavia, nos serve para trazer ao debate e resumir uma série de acontecimentos importantes das relações internacionais que ainda não teve um fim em si mesma. Já temos as bases para as cenas de um próximo capítulo, ou melhor, de um próximo discurso.


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Refugiando-se

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Refúgio. Assunto delicado para todas as partes envolvidas: países de origem (já que a questão nunca pode ser analisada isoladamente, trata-se de uma consequência de problemas muito maiores); países de destino (dependendo do fluxo de refugiados em questão, há o risco de limitações por parte desses países temendo por sua própria segurança); comunidade internacional (por meio de suas diversas organizações, notadamente a ONU, a mediação tenta ser feita, mas sempre sujeita à disposição dos Estados); e, principalmente, os refugiados e solicitantes de refúgio em si (pessoas mais afetadas por toda a situação – aqueles que sofrem em suas próprias vidas as consequências de todas as dificuldades que envolvem as demais partes mencionadas).

Nesta segunda-feira, tive a oportunidade de participar da 1ª Oficina Paulista de Jornalismo sobre Proteção Internacional de Refugiados, realizada em São Paulo pela Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). O tema, já discutido em posts recentes no blog (aqui e aqui), está constantemente em pauta na agenda das Relações Internacionais, devido aos sempre existentes conflitos que atentam contra a vida e o bem-estar dos indivíduos, seja em termos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opinião política.

Os sírios, hoje, já somam mais de 250 mil refugiados (registrados apenas nas estatísticas oficiais – número possivelmente muito diferente da realidade!) em meio a um conflito sem previsão próxima de desfecho. Considerando que os países vizinhos são sempre os destinos mais visados pelos que fogem de quaisquer perseguições, mais de 80 mil sírios são os refugiados reconhecidos pelo governo da Turquia. Número próximo à situação da Jordânia, onde já se encontram mais de 77 mil sírios (com 30 mil à espera do reconhecimento de refúgio); ainda há aproximados 60 mil no Líbano (com mais de 15 mil à espera) e quase 20 mil no Iraque (com cerca de 2 mil à espera).

O Brasil, país tão distante geograficamente (e até politicamente!) da revolução síria recebeu, por sua vez, 60 refugiados desde o começo dos conflitos – refugiados que enfrentam logo de início o grande desafio do idioma para se integrarem à sociedade e desempenharem suas atividades mais básicas. Uma rede de apoio (mais aqui) foi criada para acolher essa população que, ainda que pequena, enfrenta dificuldades imensas em nosso país.

Neste evento em São Paulo, o depoimento de um refugiado sírio que vivenciou o início dos conflitos com sua família na cidade de Homs deixou todos os participantes ainda mais estarrecidos diante da violência relatada por uma pessoa comum, vítima (como tantos outros) de ataques desvelados de um governo contra seus próprios cidadãos. Cada uma das milhões de vítimas desse conflito certamente teriam histórias similares a relatar, denunciando as consequências práticas da incapacidade política de resolver a questão.

Refugiando-se, as pessoas buscam condições mínimas para seguirem suas vidas quando estas se encontram sob as mais diversas ameaças. Refugiand0-se, os indivíduos esperam receber a proteção que, tal como no caso atual da Síria, lhes foi (ou está sendo) negada por aqueles cujo objetivo principal deveria ser zelar por ela… 


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Polêmica ianomâmi

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A polêmica da vez envolve a população indígena ianomâmi e um suposto massacre ocorrido em território venezuelano por parte de garimpeiros brasileiros. “Suposto” porque até o presente momento a denúncia parece ser insistentemente negada por parte de representantes políticos da Venezuela – o próprio Hugo Chávez já se pronunciou a respeito. Tal suposição, apesar de ainda envolta em incertezas, reacende evidentemente a temática da proteção indígena, assunto especialmente sensível aos países amazônicos.

A denúncia em questão foi levantada pela Promotoria Superior de Porto Ayacucho e por integrantes da HOY (Horonami Organização Ianomâmi), de acordo com relatos de três índios sobreviventes. O massacre teria acontecido, na verdade, no início de julho (tendo sido denunciado apenas essa semana devido ao isolamento da região), na comunidade de Irotatheri, localidade fronteiriça entre Brasil e Venezuela.

De acordo com as denúncias, os responsáveis seriam garimpeiros brasileiros, os quais são acusados pelos ianomâmis desde 2009 de atos de violência e poluição na região. O número de vítimas é incerto – assim como o massacre em si –, mas já foi estimado pela imprensa venezuelana em cerca de 80 mortos.

O peculiar desta situação toda é que o próprio governo venezuelano nega veementemente a ocorrência deste massacre, enquanto o governo brasileiro também desconhece detalhes e solicita esclarecimentos. Nebulosa, a temática envolve uma série de interesses regionai$ e Chávez é acusado por Organizações Não-Governamentais de “silenciar a questão” sem apurar devidamente os fatos.

A construção de uma agenda regional indígena especialmente voltada à proteção dos povos isolados é um tema atual em pauta nas discussões regionais por parte da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, organismo intergovernamental cuja Secretaria Permanente foi criada em Brasília no ano de 2002 em meio ao (eterno) desafio comum de promoção de ações conjuntas no que tange à Amazônia e todas as suas riquezas naturais, sociais e culturais. Trata-se de um assunto sempre recente e polêmico, em meio aos interesses econômicos que assolam a maior floresta do mundo e, por consequência, as populações indígenas locais.

Há quase 20 anos, 16 índios ianomâmis foram comprovadamente assassinados no lado amazônico brasileiro também por garimpeiros no episódio que ficou conhecido como “Massacre de Haximú”, demonstrando que a possibilidade de que a presente denúncia seja verídica é (infelizmente) real.

Sem declarar culpados antecipadamente, investigar de forma adequada os fatos antes de declarar qualquer veredicto é o mínimo que podemos esperar, em respeito a uma das mais importantes etnias indígenas amazônicas que (sobre)vive em pleno século XXI. Esquecer (ou, literalmente, enterrar) tradições locais que antecederam o próprio povoamento colonial parece ser uma triste consequência do jogo de poder político-econômico em que a Amazônia se vê envolta em nossos tempos. 


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Olimpíadas de Londres: lições para o Brasil

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[Pouco mais de uma semana após o encerramento das Olímpiadas de Londres, o colaborador Giovanni Okado nos oferece uma interessante análise a respeito, com enfoque para as lições que ficam para o Brasil, próximo país-sede dos jogos. Vale a pena conferir!]

 

As Olimpíadas de Londres, belíssimas e históricas, acabaram. Suas lições para o Brasil, não. Mais do que a organização e a logística, os jogos olímpicos despertam em nós, brasileiros, uma questão essencial: que país queremos ser? Para responder essa pergunta, é preciso um amplo debate entre governo e sociedade. Todo governo é reflexo dos anseios e das inércias da sociedade.

Quando o cidadão quer algum bem, certamente haverá ações, boas ou ruins, para supri-lo. Quando o cidadão não se manifesta sobre um bem, os governantes adotarão medidas sem qualquer consentimento popular. No Brasil, o esporte é um bem que se enquadra em ambas as categorias e, ao mesmo tempo, em nenhuma delas. 

As Olimpíadas demonstram a baixa valorização do esporte no Brasil. Somos, é claro, um povo apaixonado, que torce, vibra, sofre e chora com cada vitória e derrota de nossos atletas. Mas somos, antes de tudo, um povo que pouco entende o sacrifício deles, as situações adversas a que se sujeitam no dia a dia, para se tornarem a esperança de uma nação ouvir o brado retumbante ecoar no mais alto lugar do pódio. E não adianta dizer que isso é problema apenas do governo, que não incentiva o esporte, é também um problema da sociedade, que cria mitos esportivos ingênuos – boa parte deles, produzidos e reproduzidos pela mídia.

De que adianta ganhar, finalmente, a primeira medalha de ouro no futebol se ela conta apenas como uma medalha de ouro na classificação geral? Por que ficar falando que o Brasil é o país do futebol, quando a nossa hegemonia esportiva se impôs no vôlei, de quadra e de praia, masculino e feminino? Por que não investirmos mais em esportes individuais, como o atletismo e as artes marciais, que garantem mais medalhas? O grande problema é que não pensamos no coletivo e reduzimos as Olimpíadas a emoções particulares, ainda irrealizadas.

Um país de 200 milhões de habitantes tem potencial para descobrir talentos, pessoas com dons inatos e características próprias para determinados esportes, como é o caso do maior medalhista olímpico, Michael Phelps. O esporte deve ser encarado como uma atividade profissional no Brasil. Do contrário, continuará revelando heróis, como Sarah Menezes, Arthura Zanetti, os irmãos Falcão, sobre os quais depositamos nossas expectativas e frustrações, e não atletas, cuja missão é competir para vencer.

O esporte afeta as dinâmicas das relações internacionais. Basta lembrar que a Guerra Fria jamais foi uma competição travada exclusivamente pelas armas e, nas Olimpíadas de Pequim, os Estados Unidos alteraram, internamente, os critérios de pontuação para se considerarem vencedores – recorda-se que a China obteve mais ouro e, na soma dos pontos, terminou em primeiro lugar. O esporte é uma oportunidade de demonstrar para o mundo o modelo de desenvolvimento socioeconômico adotado por qualquer país e avaliar os resultados desse modelo.

Nos últimos anos, o Brasil alinhou crescimento econômico com inclusão social. Chegou a ocupar a sexta posição no ranking das maiores economias mundiais e retirou da miséria cerca de 20 milhões de brasileiros. A pujança econômica e a melhoria social não condiz, entretanto, com o IDH do país (84º colocado no ranking), as altas taxas de violência e, por que não, a posição no quadro olimpíco de medalhas. País rico, como diz o mote do atual governo, é, sim país sem miséria, e o esporte é essencial para esse fim.

Por enquanto, as políticas sociais atuais, com destaque para o Bolsa Família, permitem ao cidadão vencer os liames da pobreza. É preciso incluir o esporte nessas políticas, pois não basta retirar as pessoas da pobreza sem lhes dar uma opção de vida. Isso incentivaria a formação de atletas, como profissionais, para representar nosso país nos principais eventos esportivos internacionais.

Os desafios para o Brasil parecem imensos e as Olimpíadas do Rio já estão aí. Em 2016, teremos uma oportunidade especial de mostrar ao mundo o nosso modelo desenvolvimento socioeconômico, que país somos e a que aspiramos. Desde já, entoa o título da obra de Stefan Zweig, “Brasil, país do futuro”, nas esperanças de que essa nação alcance seu destino. Pensar no esporte é uma das maneiras de concretizar essa visão, não como um projeto ufanista, mas como uma realidade concreta. 


Categorias: Brasil


Mais uma semana

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E lá se foi mais uma semana. Estou falando da 10ª Semana de Relações Internacionais realizada por docentes e discentes dos cursos de Relações Internacionais da UNESP dos campi de Franca e Marília. Para quem não sabe, as duas universidades possuem este curso e, em conjunto, realizam uma série de debates, palestras, mesas redondas, mini-cursos e apresentações de trabalho uma vez por ano. Comemorando uma dezena de encontros, o evento foi lotado na UNESP/Franca, na qual todos os colaboradores do blog estudaram. Escrevo, desta vez, de maneira diferente e proponho mostrar a seguir alguns dos debates que observei durante a semana. É bastante válido para todos acompanhar um pouco do que está rolando no mundo acadêmico e creio que este é um dos objetivos da própria Página Internacional: difundir as ideias para além das universidades. 

Começo pelo título do evento: “A construção das relações internacionais no Brasil no início do século XXI”. Desde já é nítida qual foi finalidade desta Semana de RI, fomentar o debate sobre as assim chamadas “relações internacionais brasileiras”. Nada mais correto, uma vez que o grande protagonismo nacional mundo afora vem aflorando nos últimos anos. Na conferência de abertura houve a participação do Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, atual Alto-Representante Geral do MERCOSUL. Sua fala centrou-se no futuro da política externa brasileira (PEB), afirmando que a região da América do Sul, e não a África, a Ásia ou a Europa, será a chave-mestre nacional. Nosso país tenderá a fortalecer a cooperação regional, promover a integração e, é claro, alimentar o seu interesse nacional enquanto, como todos dizem, país ou potência emergente. 

Posteriormente, destaco a mesa redonda sobre “Cultura e Relações Internacionais”. Foram discutidos os mais diversos temas, deste a própria conceitualização do que é cultural, até teorias feministas e intervenções externas norte-americanas. Do que mais me marcou, ficam as ideias do Professor Estevão Chaves de Rezende Martins (da UnB), que afirmou com convicção sobre a falácia da Primavera Árabe. Para ele, o termo é mal empregado e reflete apenas um conceito utilizado por leigos para que seja noticiado nos telejornais. Sumariamente, seu pensamento condiz com o fato da região (Egito, Líbia, Síria, etc) ser extremamente heterogênea e ter um histórico bastante variado, fatos que culminam na impossibilidade de amontoar tudo em apenas duas palavras. Se fosse assim, já ocorreram verões, outonos e até invernos árabes. Mas quase ninguém tem conhecimento disso. 

Por fim, mudo o tema para defesa e segurança. Acompanhei os debates a respeito da criação da UNASUL e consequentemente do seu Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS). O que deve ficar claro para todo mundo é que a UNASUL não porá fim ao MERCOSUL, porque tem objetivos diferentes. Tão diferentes que, se este ficou sobrando nos aspectos econômicos, aquela tenta promover uma maior cooperação política na região, indo ao encontro, também, do citado CDS. De acordo com os professores Jorge Szeinfeld (da Universidade de La Plata – Argentina) e Héctor Saint-Pierre (da UNESP/Franca), falta articulação política na região e, especificamente sobre defesa, é exatamente isso que o conselho vem tentando articular. Como a organização é muito nova, resta esperar as cenas dos próximos capítulos que estão sendo pesquisadas por vários alunos. 

Estas foram algumas das temáticas que fizeram parte da 10ª Semana de RI da UNESP. Daria pra citar uma série de outras coisas, principalmente sobre os mini-cursos ministrados que versaram sobre governança, identidade brasileira, teorias de integração regional, políticas públicas, dentre outros. Quem sabe a cobertura de eventos torne-se algo mais constante aqui no blog. É interessante, sempre interessante, fazer este paralelo e dividir o espaço entre academia e o “bate-papo internacional” do dia-a-dia.


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Por água abaixo

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Muitas vezes só se sente falta de algo quando se perde. Lembro dos tambores de guerra no ano passado, quando o ex-presidente do Paraguai, Fernando Lugo, estava querendo renegociar o preço da venda da energia sobressalente de Itaipu para o Brasil. Pra quem não lembra, Itaipu é um projeto binacional (apesar de o Brasil ter pagado tudo, diga-se de passagem) e a energia produzida lá deve ser repartida igualmente entre os dois. O Paraguai não usa nem 10% disso e revende o resto para o Brasil (que usa tudo isso e muito mais, podes crer). 

A questão do preço é uma coisa muito discutível. Por um lado, como disse foi o Brasil que pagou pela usina, literalmente, então nada mais justo que fique com a maior parte da produção. Por outro lado, a barragem alagou áreas dos dois lados da fronteira, e houve um custo social e ambiental também para o Paraguai. Royalties (em sua acepção original, como reparação por dano causado por exploração de recurso natural, e não como um jeito das cidades de arrancar dinheiro do Estado ou alguma empresa) são pagos integralmente aqui e acolá. No fim das contas, claro que esse preço era uma bagatela, e rever seus valores muito mais um incômodo político (e orçamentário) do que um problema técnico. Ou seja, renegociar o preço com Lugo era chato, mas tolerável (pensando naqueles termos de inserção internacional, criar um bom ambiente diplomático na América do Sul e tal). 

Agora, o problema muda de figura com o atual presidente, Federico Franco, que já se propõe a acabar completamente com a venda dessa energia sobressalente para o Brasil (e para a Argentina, mas é outra história) nos próximos governos caso passe um lei nova por lá. Ninguém ganha nada com isso (o Paraguai não tem pra quem e nem como vender isso, e o Brasil nem se fala o quanto perde de energia), mas vendo o tom do discurso (falando em imperialismo brasileiro e interromper a “cessão” de recursos) já dá pra imaginar no que vai dar. É tradicional de regimes sul-americanos incompetentes invocar esse tipo de furor nacionalista, seja pra distrair a opinião pública, ou para reforçar a imagem do mandatário. No caso do Paraguai, o país acabou de ser defenestrado do Mercosul, está sendo isolado de todos os lados (, já cogita adesão a outros blocos e o presidente está de olho nas próximas eleições. Quando o país vai mal, nada como jogar a culpa no gigante do lado (e no meio disso deixar uma boa impressão com as elites econômicas). Enquanto isso, o Brasil corre um grande risco, com muito mais a perder, tendo um recurso estratégico como “refém diplomático”. 

Em essência, o Paraguai está errado? Não! Basicamente é o que está no contrato, e o Paraguai tem o direito de fazer o que bem entende com sua parcela da energia. Mas a questão é saber o que ele vai querer com essa barganha. Seja qual for a intenção, é uma estratégia extrema, a última cartada que eles poderiam jogar contra os vizinhos. Se o Brasil recuar por conta disso, seria uma vergonha, e muito provavelmente não valeria de nada para Assunção. E se for o Paraguai a recuar, caso o Brasil force um pouco a barra, vai ser o desfecho de uma estratégia megalonanica desastrada. O mais provável é o usual, que a coisa vá se arrastando com a barriga e tudo termine do jeito que está, com um reajuste maior do preço de venda, fora o mal-estar diplomático. Que saudade do Lugo…


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