Post do Leitor

Post do leitor – William Soares Gonçalves

[Neste dia de Natal, a reflexão da Página Internacional fica por conta do nosso leitor William Soares Gonçalves, aluno da Escola Estadual Profª. Zeicy Apparecida Nogueira Baptista, em Taboão da Serra/SP. Seu novo texto é sobre a Amazônia, assunto tão importante para o Brasil e para o mundo. Boa leitura e um ótimo Natal a todos!]

Vamos cuidar do que é nosso 

A Amazônia, sem sombra de dúvidas, é um dos maiores berços ecológicos – se não for o maior – do mundo. Por essa questão, ela também é muito visada por pessoas que querem ganhar dinheiro a partir da diversidade ecológica ali presente. O desmatamento, o tráfico ilegal de animais, as construções de estradas também ilegais… tudo isso contribui para o futuro fim da nossa Amazônia.

Apesar de ter citado que a Amazônia é um berço ecológico, ela pode ser também uma mina de ouro quando cai nas mãos erradas. Funciona mais ou menos assim, por exemplo: o empresário quer uma arara azul para deixar de enfeite na sala de sua casa. Sabendo que se trata de um animal raro, ele contrata uma quadrilha especializada em tráfico de animais, que faz o serviço para ele.

Isso na verdade é um jogo mafioso entre quem rouba e quem compra, alimentando ainda mais esse mercado negro e ilegal. Contudo, em toda essa história, quem leva a pior é a floresta que perde mais ainda o que já está em falta. Talvez se não houvesse quem alimentasse esse crime contra a natureza, nossa floresta não estaria na situação que está…

Mas não é só o trafico de animais que prejudica a Amazônia. De 1901 a 2000, a área desmatada amazônica para a prática da pecuária de grandes fazendas é seis vezes maior que o território de Portugal. Isso a partir de dados de 12 anos atrás, imaginem então como deve estar a situação atualmente. [Leia mais aqui.]

O Brasil é o segundo maior produtor de soja do mundo, uma das causas que impulsionam esse desmatamento. Com o aumento da demanda de exportação para outros países, a consequência é também o aumento do plantio, levando à necessidade de novas áreas para este plantio. E como terreno na Amazônia não falta, os grandes produtores partem para o desflorestamento em certas regiões para a prática do plantio da soja.

Outras atividades que prejudicam também a floresta são a extração de petróleo e a mineração que, além de destruírem o verde, poluem também o solo, o ar e as águas. A construção de estradas ilegais também contribui para facilitar o transporte de madeira ilegal e o transporte de gado.

Na realidade, todos nós devemos respeitar nossa natureza assim como a nossa Amazônia, tão importante para o mundo e especialmente para o Brasil. O Ibama e os governantes devem estipular leis mais severas para aqueles que fazem mal ao que é nosso. Então fica o aviso: devemos cuidar do que é nosso ou a floresta – que, para nós brasileiros, é sinônimo de orgulho – irá acabar. 


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Crescei e multiplicai-vos

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Em épocas de massacres em escolas e guerras civis intermináveis, vamos falar de vida. Bom, pelo menos não de vida em si, mas de populações, já que pra que haja um país deve haver pessoas nele. Na semana passada, o presidente da Rússia, Vladmir Putin, fez o seu primeiro discurso à nação desde a reeleição, e além das cutucadas de sempre na política exterior dos EUA, abordou alguns problemas mais corriqueiros de lá. O principal deles, a retração da população, que caiu quase 10 milhões de pessoas desde o fim da URSS. Putin pediu para que a população não perca a unidade, e advertiu que sem força de trabalho o país pode ir à ruína. É um caso bem complicado, já que a imigração para lá é quase nula, e o país não está em condições das melhores quando falamos em economia. A solução é ter muitos russinhos, que possam levar o país nas costas mais pra frente.

A situação é bem parecida (se não pior) no Japão. Semana passada, por exemplo, o general Colin Powell deu uma entrevista uma emissora japonesa, em que comentou sobre o fato de ser muito importante para as novas gerações de lá que deixem um pouco os quadrinhos e tecnologia de lado para que assumam a tarefa de produzir e levar o país adiante. A pergunta em específico era sobre os “herbívoros”, jovens que passam mais tempo em casa cuidando de sua vida do que procurando garotas, mas fica a mensagem – num país com taxa de natalidade negativa, população idosa crescente e imigração mínima, é imperativo que haja um esforço para um novo “baby boom”. 

São problemas que afetam menos os países com muita variedade de recursos e populações enormes, como Brasil, China e EUA, mas já se pode pensar num alerta. O Brasil, por exemplo, está com sua pirâmide etária se estabilizando e taxas de natalidade diminuindo. Antes exportávamos mão-de-obra, mas agora temos gente vindo de todos os lados, e nos dois extremos, de latino-americanos fazendo serviços de baixa renda (ou, pior ainda, em regime semi-escravo), a muitos europeus fugindo da crise e assumindo vagas de alto desempenho (como engenheiros) pela falta de gente qualificada aqui. 

Nosso país não enfrenta um envelhecimento avançado como o do Japão, nem uma retração catastrófica como a da Rússia, e não precisa que o governo incentive as pessoas a ter filhos, mas ao mesmo tempo parece estar chegado ao limite da sua produção de força de trabalho, e já atrai imigração há algum tempo, mas sem ter uma economia madura o suficiente pra demandar isso. É uma perspectiva preocupante. Não precisamos de uma anomalia populacional como China ou Índia, mas as lições de Rússia, Japão e até mesmo da Europa como um todo podem mostrar ao Brasil como o planejamento familiar é um fator importante para a manutenção de um país em condições economicamente viáveis.


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Em boca fechada não entra mosca

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O Reino Unido deu o que falar na última semana. A terra da Rainha foi palco de dois eventos que acabaram tendo sua repercussão internacional, já que os protagonistas eram de fora, e em ambos os casos teve gente que perdeu a chance de ficar calada. 

O mais trágico, com certeza, foi o caso do trote de uma rádio australiana passado para o hospital onde estava em tratamento a duquesa Kate Middleton, e que (ao que tudo indica) motivou o suicídio da enfermeira que atendeu a ligação e acreditou nos radialistas que fingiam ser membros da família real pedindo informações. Uma brincadeira inofensiva? Sim, mas como a doença era grave e coloca em risco o futuro herdeiro da Coroa, o “vazamento” de informações pode ser um problema terrível numa terra onde o noticiário é movido a fofoca. Sem contar a perda de credibilidade do hospital, o que deve ter motivado essa atitude extrema da enfermeira. O fato é que trotes e pegadinhas são as formas mais simplórias (e antigas) de fazer “humor”. Até que ponto é válido se aproveitar da boa-fé ou da reação de estranhos, sem seu consentimento, pra fazer audiência? Esse caso mostra que tem que se pensar nas conseqüências, e apesar de o programa até ter sido retirado do ar, as palavras que saem da boca não voltam mais. 

Mas o que mais repercutiu por aqui foi uma análise da revista britânica “The Economist” (confira aqui), em que o autor faz uma crítica aos problemas que o Brasil está enfrentando para manter o crescimento (e possivelmente para garantir um segundo mandato para Dilma). Relativamente despretensioso, o texto causou furor por, lá no final, o autor considerar que Dilma devesse demitir a equipe econômica para dar um novo rumo ao Brasil. Uma leitura atenta mostra que essa sugestão aparece muito mais uma hipótese de “teste” de pragmatismo da presidente do que um conselho propriamente dito. O texto é até razoável nas suas críticas. Mas o que pegou mesmo foi a mídia divulgando apressadamente que a maior revista de economia do mundo pediu a cabeça do nosso Ministro da Fazenda. 

Deu no que deu. A página da reportagem está entulhada de comentários dos mais questionáveis de brasileiros, dos mais variados espectros políticos (nada muito diferente da praga que se vê nas redes sociais todo dia). Os editoriais dos jornais brasileiros ficaram furiosos. Até a presidente se dignou a comentar sobre o assunto, e isso acabou fortalecendo Mantega no cargo. 

Esse é um baita exemplo de caso em que todo mundo perdeu a chance de mostrar que calar é ouro. O jornalista do Economist poderia ter tido algum cuidado com a escolha das palavras, mas no fim das contas é o que menos tem culpa nisso, já que é o seu trabalho ser instigante, e a liberdade de imprensa está aí pra isso. Os defensores/detratores mais exaltados do governo fazem um desserviço ao país com alguns comentários escabrosos que andam aparecendo por lá. A grande mídia nacional fez o pior de tudo ao focar suas manchetes num trecho de duas linhas de uma reportagem que nem se propunha a causar essa repercussão (e ignorando completamente o resto da crítica do autor, essa sim que renderia uma discussão interessante). E até mesmo a presidente perdeu a chance de sair com elegância dessa saia justa, ainda mais por de quebra alfinetar os países europeus com essa resposta. Se realmente uma revista estrangeira não tem influência nas decisões do governo, sequer deveria se dignar a responder sobre esse assunto (e, pelas suas palavras, dar a impressão de que a coisa seria diferente caso fosse uma revista nacional…). 

Haja mosca.


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104 anos de um sopro eterno

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Se a vida é um sopro, fato é que algumas pessoas têm o poder de deixar marcas infindáveis, seja pela genialidade de suas obras, pela importância de suas ações ou pela simplicidade em sua grandeza. E a personalidade que nos deixou ontem certamente fez com que esse sopro de vida centenária se tornasse eterno.

Oscar Niemeyer, o “pai” de Brasília, um arquiteto que deixou sua marca registrada na idealização e construção do coração político do país, além de conferir beleza e funcionalidade a tantas outras cidades brasileiras – o complexo da Pampulha, em Belo Horizonte; o Parque do Ibirapuera e o Memorial da América Latina, em São Paulo; e o Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, são apenas algumas das grandes obras de seu legado no Brasil. Pelo mundo afora, seu nome também consta na autoria de grandes projetos, tais como a sede da ONU em Nova York ou a Sede do Partido Comunista Francês em Paris, por exemplo. [Confira a lista de suas obras e projetos pelo mundo aqui.]

Acreditando politicamente no comunismo durante toda sua vida, o que lhe rendeu anos de exílio em tempos passados, suas obras buscaram sempre contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, rompendo com as convenções por meio de suas curvas e de sua originalidade.

Conferir dinamismo ao concreto – elementos à primeira vista absolutamente paradoxais – foi o que consagrou este carioca como mestre, sendo celebrado pela admiração de cada indivíduo que se depara com suas obras, assim como pelos tantos prêmios internacionais recebidos, em que se destaque o Pritzker (1988), maior reconhecimento no mundo da arquitetura.

Sem Niemeyer, um dos precursores da arquitetura moderna, hoje o mundo amanheceu mais triste, rendendo-lhe elogios póstumos através dos mais diversos meios de comunicação internacionais. Lamentar a morte de Niemeyer é inevitável, mas mais vale festejar o que foi sua vida, um exemplo de genialidade já imortalizado em cada uma de suas obras e realizações.

 “A vida é importante; a Arquitetura não é. 

Até é bom saber das coisas da cultura, da 

pintura, da arte. Mas não é essencial. 

Essencial é o bom comportamento 

do homem diante da vida.” 

Oscar Niemeyer

 


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E quais são as novidades?

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Estão para começar a Cúpula de Chefes de Estado do MERCOSUL e Estados Associados em comunhão com a XLIV Reunião do Conselho do Mercado Comum. Ambos os eventos ocorrerão aqui no Brasil, mais precisamente em Brasília, nos próximos dois dias da semana (06 e 07 de Dezembro). A Cúpula é, digamos assim, o evento central do bloco, o de mais alto nível e diálogo entre as lideranças da América do Sul circunscritas a este aparato regional. 

Pois então, tais encontros são realizados periodicamente e com uma frequência exata. Todavia, o que há de novo nestes próximos encontros? Muita coisa. Após a saída (ou pseudo-expulsão) do Paraguai e a entrada da Venezuela como membro permanente, algumas coisas mudaram na atual conjuntura. E, com toda certeza, refletirão no andar da carruagem destes países. Deste modo, podemos citar quatro assuntos principais que serão destaques nas discussões: a entrada da Bolívia como membro pleno do MERCOSUL; a possível adesão do Equador, também como membro permanente; a criação de uma verdadeira Área de Livre Comércio na América do Sul; e o estímulo às iniciativas privadas intra-bloco.

Quanto ao processo de adesão da Bolívia e do Equador, num futuro próximo eles se juntarão de fato ao MERCOSUL. O diálogo entre as partes já foi iniciado e o Brasil já deu apoio a estas iniciativas. Ainda durante a penúltima Cúpula realizada no Paraguai em 2011, o Ministro Antônio Patriota disse que todos estavam com grande interesse em caminhar com estas adesões, mas que seria um processo sem tempo delimitado para ter um final feliz. Após a entrada dos venezuelanos, talvez as inclusões caminhem rapidamente. Ainda mais com a suspensão dos paraguaios… 

Do outro lado, a efetiva criação de uma Área de Livre Comércio na América do Sul gera mais dúvidas. Colocaram o prazo para 2019, mas juntar todos os países, com exceção da Guiana e do Suriname, é algo bem complexo de se fazer. Mais importante ainda é debater se tal “futuro bloco” terá institucionalização necessária para articular fluxos comerciais de proporções continentais. A iniciativa é brilhante, claro, mas existem outros organismos regionais como o próprio MERCOSUL ou até mesmo a Comunidade Andina (CAN) que caminham aos trancos e barrancos. Continuar fortalecendo os blocos existentes ou estimular o nascimento de novos deve ser tratado e discutido com afinco na mesa de negociação. 

Estimular a iniciativa do empresariado é algo esperado no MERCOSUL. Articular projetos e ideias é extremamente necessário quando se fala no crescimento econômico público e privado. Ademais, ficam aqui algumas considerações sobre o que poderão vir a ser a Cúpula e a Reunião. Símbolo de crescente ceticismo, podemos afirmar que o MERCOSUL vestiu roupa nova nos últimos anos e está tentando expandir sua área de abrangência. Em termos econômicos e geoestratégicos, a entrada da Venezuela deve ser comemorada. Porém, em termos políticos e jurídicos, a saída do Paraguai pode ser contestada. Quando os alicerces econômicos estiverem prontos, passar-se-á para a via política e é aqui que o bloco regional necessitará de forças para se reerguer.


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Clássico das Américas

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Mas nada de amistosos caça-níqueis de futebol. Hoje vamos falar de Brasil e México. Na verdade, como o México pode dar umas lições para o nosso País. Deu no jornal: o México está se tornando o país do momento para investidores, e pior ainda, tomando o lugar do Brasil como queridinho de Wall Street. O encanto do mundo com o Brasil que se via nos últimos anos parece estar acabando. 

Após o sucesso em enfrentar a crise a partir de 2008 e ter mostrado um bom ritmo de crescimento, parece que cada vez mais vamos acabar empacando por causa de fatores internos. O sistema bancário é seguro e confiável para investimentos, o câmbio ajuda e a pirâmide etária está se estabilizando. Parece um oásis de estabilidade. O problema é que essas condições favoráveis têm suas contrapartes no risco-país. Burocracia, um sistema de produção altamente protecionista e ineficiente, infraestrutura problemática e questões sociais só pra ficar na ponta de cima do iceberg. É só ver o caso das obras para Copa do Mundo e Olimpíadas: boa parte do cronograma está atrasado para os dois eventos, muitas obras de infraestrutura prometidas (coisa que está no contrato dos eventos) não vão ser entregues no prazo (por fatores que vão de greves a incompetência) e os orçamentos estão estourando a cada dia. Com tempo de sobra para efetuar as obras, o Brasil passa a imagem de que não consegue cumprir com o acordo e fazer investimentos básicos no prazo. Mas pouco importa, imagina a festa, certo? 

Enquanto isso, o México, um país que está assolado por uma onda de violência que faz os ataques a policiais brasileiros das últimas semanas parecerem brincadeira, e que estava num caos eleitoral desde junho, consegue competir em pé de igualdade com a China no mercado dos EUA (podendo até superá-los em alguns anos) e está atraindo atenções (e investimentos). Como isso acontece? A resposta é um pouco do que falta ao Brasil – uma estrutura de produção moderna e integrada aos mercados mundiais. Produzir no México está na moda e dá certo, e o presidente eleito Peña Nieto já articula reformas importantes com a oposição para impulsionar ainda mais o desenvolvimento. 

Não estamos falando que o modelo mexicano é perfeito, e modismos são uma cilada. E nem temos espaço aqui para discutir todos os fatores envolvidos no “crescimento” de um país. Mas a euforia com o Brasil parece cada vez menos viável caso o país continue com esses problemas básicos e que causam muito impacto na produção, e podemos aprender lições com esse caso. Protecionismo demais, falta de inovação em setores importantes e excesso de confiança no setor primário (da soja ao petróleo) são uma aposta arriscada para crescimento contínuo, que depende de uma estrutura que não seja apenas atrativa aos investimentos, mas onde eles possam virar alguma coisa de fato. O sinal de alerta está ligado e o México mostra que, se o Brasil quiser manter esse crescimento, pelo menos com relação aos investimentos, vai ter que passar por muitas mudanças ainda.


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A ocasião faz a violência

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[Texto do colaborador Giovanni Okado]

A velha sabedoria machadiana já pregava que a ocasião não faz o ladrão. Ela faz o furto; o ladrão nasce feito. Não obstante o exagero do determinismo histórico, esse provérbio é aplicável à violência e suas causas no Brasil: a ocasião faz a violência; as causas nascem feitas. 

Se, em suas relações exteriores, o Brasil é um país pacífico,internamente, o cenário é violento. E muito! Entre 2004 e 2007, nos 62 conflitos armados existentes, morreram 208.349 pessoas; nesse mesmo período, no país, livre de disputas territoriais, movimentos emancipatórios, guerras civis, entre outros enfrentamentos, morreram 192.804 pessoas vítimas de homicídio. Não é por acaso que 62,4% da população brasileira tem muito medo de assassinato e 23,2% dela tem um pouco de medo.

Em se tratando da violência homicida, os dados impressionam e demonstram mudanças nem sempre perceptíveis. O senso comum é colocado à prova. De 2003 a 2010, o crescimento das taxas de homicídio foi negativo (- 1,4% aa). Mesmo que elas tenham se estagnado, o índice é elevado e preocupante: são 26,2 homicídios em 100 mil habitantes, acima dos 10, valor que já é considerado uma epidemia. E, pior, essa violência homicida exibe novos padrões. 

Hoje, os homicídios não se concentram nos principais estados e nas grandes cidades. Há uma década, Alagoas, Pará e Bahia ocupavam, respectivamente, o 11º, 21º e 23º lugar no ranking nacional das taxas de homicídio e passaram a ocupar, agora, o 1º, 3º e 7º lugar. São Paulo e Rio de Janeiro, no mesmo período, tiveram uma redução acentuada, respectivamente, de 63,2% e 42,9%, deixando a 4ª e 2ª posição para ocupar a 25ª e 17ª. Nesses dez anos, também, o interior, e não as capitais e regiões metropolitanas (RM), impulsionou o crescimento dos homicídios: o Brasil, como um todo, passou de 45.360 para 49.932 homicídios; as capitais e as RM, de 32.339 para 28.797; e o interior, de 13.021 para 21.135.

Os dados demonstram a ocorrência de dois processos simultâneos: a disseminação e a interiorização da violência. Nas décadas anteriores, os homicídios acompanharam o dinamismo econômico dos principais estados e metrópoles. Ao final do século XX, com a reestruturação da produção industrial brasileira, deslocando-se para outros estados e para o interior, houve a migração dos polos dinâmicos da violência. E, infelizmente, essas áreas apresentavam estruturas precárias ou incipientes de segurança, sem experiência histórica, que impediram o combate eficiente do problema. 

Que lições ficam? Primeiro, é preciso ponderar sobre a violência. A chamada “onda de violência” que atualmente se alastrou pelo país é, sim, drástica. Mas não deve ser superdimensionada, para evitar ações equivocadas e negligenciar o tratamento adequado da segurança pública como um todo, e não localizado. Segundo, as autoridades competentes na matéria devem permanecer sempre atentas à evolução da realidade político-econômica do país. Terceiro, é melhor prevenir do que remediar. Ao invés de se investir na construção de novos presídios, é preciso aumentar o investimento em policiamento e informação/inteligência policiais. De 2006 para 2011, essas rubricas diminuíram: os gastos com policiamento passaram de 17,13% para 8,16% das despesas realizadas com segurança pública, enquanto aqueles relativos à informação/inteligência foram de 1,95% para 0.66%. Outros problemas estruturais também poderiam ser debatidos, como as brechas na legislação e a coordenação entre as esferas federal, estadual e municipal. 

A ocasião, de fato, faz a violência. Há mudanças em seus padrões, mas suas causas são as mesmas. Uma hora ou outra, o descaso cobraria seu preço. E ele é alto! Por trás das estatísticas, estão pais sem filhos, filhos sem pais, maridos sem mulheres, mulheres sem maridos, jovens, adultos ou idosos… Não existe número que meça a dor que fica, muito menos os sonhos que partem. 

*Obs: os dados apresentados foram extraídos de três documentos – Mapa da Violência 2012. Novos Padrões da Violência Homicida no Brasil; Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2012; SIPS – Segurança Pública.


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Mais Brasil na Espanha…

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E começou mais uma Cúpula Ibero-americana de Chefes de Estado e de Governo. A vigésima segunda da história, realizada em um momento internacional muito diferente de duas décadas atrás. Enquanto em 1991 se reuniam pela primeira vez os países ibero-americanos (América Latina + Espanha e Portugal) em um contexto de crescimento econômico europeu e endividamento latino, neste ano de 2012 os papéis se encontram consideravelmente invertidos. [Veja um breve histórico a respeito das cúpulas precedentes aqui.] 

A tônica do início deste encontro é clara: a América Latina é vista como uma “saída” para a crise que vivem Espanha e Portugal. As antigas metrópoles percebem atualmente nos emergentes países da América Latina, especialmente no Brasil, oportunidades de negócios que dependem de negociações bilaterais em que as ex-colônias estão em nítida vantagem comparativa. 

“Mais Brasil na Espanha… e mais Espanha no Brasil” é o que deseja Mariano Rajoy, o presidente do governo espanhol. De fato, nossa presidenta é a grande estrela da Cúpula que acontece entre hoje e amanhã em Cádiz, e uma agenda paralela de negociações diretas com a Espanha está também prevista. Sendo a Espanha o segundo maior investidor externo do Brasil, a expectativa de uma intensificação nas relações econômicas entre ambos é certamente uma prioridade espanhola pelo menos até 2016, com os grandes eventos esportivos. 

Mesmo com uma participação expressiva dos países ibero-americanos, as perspectivas de resultados multilaterais realmente significativos não são tão elevadas, com maior peso tácito para o diálogo bilateral. A importância deste encontro internacional parece residir, sobretudo, no fortalecimento dos laços entre países que partilham há séculos uma história comum, mas que têm vivido na contemporaneidade grandes altos e baixos econômicos os quais causam grande vulnerabilidade social – hoje notadamente na Espanha e em Portugal.

Visualizar um cenário internacional assim tão diferente do que jamais se poderia antes imaginar nos leva a refletir sobre como serão as coisas daqui a duas décadas, por exemplo. Previsões (das mais diversas) não faltam, mas tampouco são capazes de esgotar o assunto. A única certeza é que, hoje, na intensificação deste intercâmbio – com mais Brasil na Espanha e vice-versa, por exemplo – nós (como América Latina em geral) estamos em uma posição de barganha mais avantajada que nunca.


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Post do Leitor

Post do leitor – William Soares Gonçalves

[O nosso leitor William Soares Gonçalves, aluno do final do ciclo do Ensino Fundamental na Escola Estadual Profª. Zeicy Apparecida Nogueira Baptista, em Taboão da Serra/SP, enviou mais um interessante texto para a Página Internacional. Sua nova análise trata dos investimentos que estão sendo feitos para a Copa do Mundo de 2014. Tema complexo que, ao mesmo tempo em que envolve uma destacada dimensão internacional de prestígio perante os demais países, gera questionamentos inevitáveis quando são analisados os elevados gastos internos… Ótima leitura a todos! E aproveitamos para lembrar que para ter seu texto publicado no blog, basta entrar em contato com a equipe pelo e-mail: [email protected]]

A beleza custa caro 

A Copa do Mundo é, sem dúvida, um dos eventos esportivos mais bonitos e importantes do mundo, bem como uma grande fonte de renda para seu país-sede. A Copa do Mundo de 2014 irá acontecer no nosso querido Brasil, e é a partir disso que surge o tema deste texto.

Primeiramente, faço uma pergunta: o Brasil está mesmo preparado para sediar um evento de tamanha importância e que envolve praticamente o mundo inteiro? Fomos escolhidos para sediar a Copa no ano de 2007 e ainda falta muita coisa para ser feita. Isso inclui a melhoria da infraestrutura do país em aeroportos; meios de locomoção, tais como as estradas; e principalmente a melhoria da segurança para as pessoas que vierem assistir aos jogos.

Mas, infelizmente, o que mais preocupa não é só o bem-estar das pessoas que assistirão aos jogos, mas sim os gastos absurdos feitos nos investimentos para as construções e reformas de estádios. Não dá pra entender como são feitos tantos investimentos assim em um país em que ainda há tanta gente passando fome, morando nas ruas, com precariedade na segurança, na educação e em tantas outras coisas que merecem atenção especial das autoridades.

Quando o “Itaquerão”, a arena corinthiana, estiver pronto, os investimentos feitos ultrapassarão a quantia de meio bilhão de reais – eu digo meio bilhão! O pior de tudo é que 70% dessa quantia é patrocinada pela prefeitura de São Paulo, ou seja, esse dinheiro sai do bolso do trabalhador que acorda 5 horas da manhã para trabalhar e pagar seus impostos. Ao invés de ver esse dinheiro investido em áreas que lhe beneficiem como cidadão, não, o dinheiro dele e de muitos outros está sendo investido em construção de estádios…

E não apenas o Itaquerão está levando dinheiro público, mas sim uma média de 14 estádios pelo país. Nossa presidenta Dilma Rousseff fala de um investimento para a Copa do Mundo no valor de 33 bilhões de reais (!). Talvez fosse muito melhor se esse valor fosse investido diretamente na educação, na saúde, no transporte e em outras áreas que beneficiem os cidadãos. Todo esse investimento em estádios de futebol pode ser questionado, sabendo que tantas pessoas ainda passam fome e morrem em hospitais no nosso país… 


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Quando um não fala…

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Durante esta semana dois fatos me chamaram a atenção. Primeiro: é Furacão Sandy pra todo lado. Abria a seção dita “Internacional” em sites de jornais – a exemplo de Estadão, Le Monde, New York Times, The Economist, El Pais – e sempre havia uma notícia sobre o ciclone. Nada contra, realmente é um fenômeno de consequências muitas vezes irremediáveis, mas isso me remeteu ao segundo ponto. Este, por sua vez, tomou forma quando vi somente no Facebook algumas notícias sobre os casos dos índios Guaranis Kaiowás no Mato Grosso do Sul e do referendo para aprovação de uma nova constituição na Islândia. 

Novamente afirmo, nada contra o Sandy, até porque ele deve, sim, estar presente nos noticiários em qualquer tipo de mídia (inclusive aqui na Página Internacional no post logo abaixo). Contudo, o meu principal argumento vem do segundo fato levantado: no Brasil, a grande mídia oculta acontecimentos importantes. Normalmente quando se abre a página “Internacional” dos jornais tem-se um “arrepio” por parte de qualquer estudante da área. Talvez por um simples motivo: aquilo é tudo, menos internacional no sentido mais puro da palavra. 

Tudo bem o NYT falar repetidamente do furacão, mas por que o Estadão coloca uma notícia sobre ele e deixa em segundo plano a questão dos índios Guaranis Kaiowás? Sinceramente, não dá pra entender. Nem vou falar das mídias televisivas, porque, em sua grande maioria, são horríveis e porque eu também não acompanho estes noticiários. Notadamente, são canais mais conservadores (alguns liberais) e, por mais óbvio que seja, defendem seus pontos de vista. Todavia, fazer isso por omissão e não por contraposição de fatos é ignorância pura! 

E a principal questão é que as pessoas se interessam pelos outros fenômenos. O maior exemplo disso foi o já citado Facebook. Normalmente usado para bisbilhotar vida alheia ou colocar “n” fotos tiradas com um “IPAD geração 50”, a plataforma online tem um caráter valorativo gigantesco, inclusive para tocar nestes pontos mencionados no presente texto. Foi assim com a questão dos índios que se tornou “viral” e, em menor número, com o referendo realizado na Islândia para aprovação de uma nova constituição elaborada por dirigentes escolhidos pelo e para o povo em sua totalidade. Pude observar esta movimentação repetidamente esta semana na rede social. 

Agora, se você não sabe o que está acontecendo no Mato Grosso do Sul e/ou com os cidadãos islandeses, fique atento. No caso das notícias internacionais, além do Estadão e da Folha que são os mais circulados, leia Diplomatique Brasil, Carta Capital e até a Veja. Sim, até a Veja, porque, para criticar, é preciso ler. O mais importante é ler o máximo de canais possível, independentemente de posição ideológica. O nosso verdadeiro problema internacional, guardadas suas devidas proporções, não é o Sandy, mas sim o descaso com os índios. Afinal, nada mais interno que seja internacional e vice-versa.


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