Imagem da Semana

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Cheia Acre

Enquanto a região Sudeste do país vive o drama da seca na Cantareira, as imagens dessa semana mostram a gravíssima situação de cheia que está sendo vivenciada pelo Acre, no extremo norte do nosso país. Trata-se da maior tragédia em 132 anos, desde a criação da cidade de Rio Branco, com impacto direto na vida de aproximadas 71 mil pessoas.

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Já com 18 metros, o nível Rio Acre não para de subir e o prefeito de Rio Branco decretou no último domingo situação de calamidade pública na cidade. As imagens mostram o nível do desastre e nos levam a refletir sobre a amplitude do território brasileiro, o qual contempla realidades tão distintas ao mesmo tempo…


Os dois lados da moeda

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Por tradição, os brasileiros são bem pessimistas com relação à economia (apesar de adorarem uma gastança e estarmos entre os países com menor tradição de poupança do mundo), principalmente por causa do histórico de hiperinflação assombra o noticiário (quem não viveu aquela experiência percebe como os mais velhos se preocupam). Essa é uma percepção que cabe no cenário atual?

Nesta semana, divulgaram-se dois relatórios sobre indicadores econômicos de teor diferente mas com causas semelhantes. O primeiro, mais perturbador, foi de como o Tesouro Nacional está com um rombo de mais de 30 bilhões de reais do ano passado, o primeiro déficit desde que a medição começou, comprometendo a dívida pública e exigindo medidas de ajuste que serão amargas. Por outro lado, o IBGE também anunciou que em 2014 a taxa de desemprego no país atingiu uma mínima histórica de 4,8%. Estamos falando de um nível próximo do pleno emprego, o que é fantástico em comparação a países que sofrem para alocar sua força de trabalho.

E existe relação entre as duas? Boa parte daqueles gastos do governo foi justamente para garantir o bom funcionamento do mercado de trabalho, com incentivos e desonerações que mantêm o consumo em alta (e por consequência, o emprego). Claro que o lado negativo disso é a inflação (aumenta o consumo, aumentam os preços), a que nossos economistas ortodoxos respondem com aumento na taxa de juros (já que aumentar impostos é muito impopular). Aumentando os juros, se espera que o consumo seja freado, e assim se controle a inflação. O interessante é justamente que o Brasil está na contramão do mundo com as taxas de juros elevadas – a tendência mundial é justamente de baixa nos juros para incentivar o consumo pós-crise. Países como a Dinamarca chegam a estar com juros negativos (ou seja, deixar dinheiro no banco faz o investidor perdê-lo).

Nem tudo são flores – essa situação de emprego em alta esconde alguns fatores (como alocação de mão-de-obra ociosa) e não é sustentável, logo o desemprego deve voltar a crescer justamente por conta dos ajustes macroeconômicos. Sem contar que a situação das contas públicas é alarmante. Mas é uma situação privilegiada sim – países como Espanha e Grécia estão com problemas de contas públicas semelhantes ao brasileiro, mas em situação ainda pior devido ao encolhimento da força de trabalho e desemprego galopante (na Europa está perto de 11%, intolerável mesmo no continente com um histórico de desocupação elevado por conta das políticas de bem-estar social). O Brasil tem a sorte de se colocar em uma posição na qual tem condições de controlar tanto o desemprego quanto a inflação em médio prazo – o que dependerá do quanto o governo estará disposto a investir nos setores corretos, cortar gastos e aguentar o impacto político, e do quanto a população aprenderá a poupar, tolerará os ajustes e a insatisfação.

A situação é complicada – mas podia ser pior. Podemos nos dar um pouco de otimismo.


Categorias: Brasil, Economia, Europa


Novo ano, nem tão novo discurso

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Nesta semana em que se completa mais um ciclo presidencial, a expectativa do que poderemos esperar nos próximos quatro anos vem em grande parte do discurso na posse de Dilma Rousseff, ocorrida ontem. Como esperado, o foco principal foi dado a questões de cunho doméstico, especialmente as mais controvertidas como reforma política e combate à corrupção, mas com especial atenção dada aos problemas da economia. E as relações internacionais com isso?

Do discurso de Dilma, podemos traçar dois pontos principais ligados a relações internacionais, justamente a questão da economia e, de maneira breve (e preocupante), a política externa. Parte de sua fala foi dedicada à questão da necessidade de retomada do crescimento e o temido ajuste de contas públicas. A crise mundial de 2008 não bateu por aqui, mas o problema que era dos europeus naquele momento agora é nosso: como ajeitar as contas sem que o povo pague com benefícios sociais incompatíveis? Basta ver a discussão que rendeu o ajuste nas condições para obtenção do seguro-desemprego (ocorrido no começo da semana) que podemos esperar um ano turbulento, e cheio de protestos, caso esses ajustes sejam feitos como o esperado. Ao mesmo tempo, a retomada do crescimento depende de fatores dos dois lados, dentro e fora, como a alta do dólar (que culpa do aquecimento da economia norte-americana) quanto dos famosos gargalos de desenvolvimento (com problemas de infraestrutura acumulados que agora cobram seu preço para o país). O desafio é grande, especialmente numa semana em que grandes parceiros comerciais do Brasil (e do Mercosul), Argentina e Venezuela, admitem oficialmente que estão em recessão e mostram um cenário sombrio para 2015 no continente.

Isso nos dá o gancho para o segundo ponto – a política exterior. Quem nos acompanha sabe que a diplomacia de Dilma foi no mínimo tímida, em comparação a Lula. As poucas linhas dedicadas ao tema, reforçando o compromisso com o Mercosul e os mercados regionais (em crise) e com a dedicação nas relações Brasil-EUA (abaladas há algum tempo) mostram que a possibilidade de mudança nessa área é pouca, e preocupante. A atenção a crises domésticas, somada a perda de recursos para o MRE (que faz transparecer uma crise existencial no Itamaraty), leva a crer que mais uma vez a política externa será um tema secundário no governo Dilma. Mesmo o relativo sucesso do BRICS pode não ser suficiente para alçar o Brasil àquela posição de protagonismo almejada por tantos anos na época de Lula. Se isso era viável ou não, é outra história, mas o ímpeto não parece o mesmo. A indicação do novo Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, embaixador de carreira em Buenos Aires e Washington, ou seja, um nome extremamente competente, é um bom sinal, já que se trata de uma das poucas escolhas técnicas de Dilma, mas até aí o ex-ministro Patriota também era, e o contexto não leva a crer que vá haver mudanças significativas nesse setor – seria muito mais uma indicação para evitar danos maiores que para buscar novidades em nossa política externa.

2015 está aí, com a novidade e a esperança que sempre acompanha o ano-novo, mas o sinal de alerta está ligado para o Brasil. Cautela e prudência são as palavras-chave para este novo governo, que em face de perturbações domésticas cada vez mais marginaliza oportunidades e importantes questões internacionais.


Categorias: Américas, Brasil, Economia, Política e Política Externa


Adeus, Chespirito! Olá, América do Sul!

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Nunca é demais recordar uma figura que marcou a infância e a adolescência – e até mesmo os anos adultos – de todos nós: Roberto Bolaños. Um gênio que traduziu o humor na inocente simplicidade do cotidiano de uma vila. Um herói atrapalhado, nem por isso ingênuo, cujo maior ato foi elevar a cultura latino-americana, muitas vezes marginalizada, ao imaginário popular mundial. Um eterno transeunte que continuará despertando, sem querer querendo, nossos risos mais irreverentes. Chaves, Chapolin, entre outros personagens clássicos, representam o espírito de um povo tropical, às vezes desajeitado, mas sempre alegre, em busca de melhores condições de vida.

É comum encontrar analogias entre a turma do Chaves e países da América Latina, por exemplo, a Chiquinha como a Venezuela ou Cuba, porque se acha independente e arruma confusão com todo mundo. Entre o tributo e a análise, este texto também é uma tentativa de interpretar às transformações da América do Sul, em específico, ocorridas nestes últimos anos à luz de um seriado infantil que tantos nos inspirou. Diferente de outras comparações, pretende-se, aqui, tratar os personagens como pessoas normais – e não como países – que compõem o rico cotidiano desta região.

Em primeiro lugar, uma observação geral sobre o contexto. Entre o fim dos anos 1990 e início da década passada, diversos governos ditos de esquerda ascenderam em praticamente toda a América do Sul, sendo a maior exceção a Colômbia. Sem entrar no mérito se isso ocorreu ou não devido à falência do projeto neoliberal, com base nos preceitos do Consenso de Washington (1989), é possível encontrar uma característica comum entre os líderes ascendentes: a exemplo de Bolaños, todos eles simplificaram os discursos e conseguiram chegar a todas as classes sociais. A erradicação da pobreza e da fome e a redução das desigualdades, previstas na maioria das constituições sul-americanas, tornaram-se o objetivo síntese de um projeto político relativamente simples. Um projeto que propôs enfrentar ferozmente uma realidade histórica negligenciada. Não foi difícil, assim, convencer os habitantes desta vila humilde de que tantos Chaves e Chiquinhas também deveriam ter condições de adquirir a bola quadrada de Quicos.

Houve a inversão de uma fórmula consagrada neste período: o bolo precisa ser repartido conforme o crescimento, não depois de pronto. Trata-se de um crescimento distributivo, às vezes aquém do que se espera, mas que contribua para a melhoria dos indicadores sociais. Daqui para frente, dificilmente as sociedades sul-americanas aceitarão crescer sem inclusão social, independentemente das políticas econômicas adotadas. Convém ainda ressaltar que esse crescimento, embora tenha sido favorecido pela elevação dos preços das commodities, foi alimentado pelo trabalho e aumento de renda. Muitos Seu Madrugas, que antes faziam bicos – engraxate, marceneiro, vendedor de pipoca, etc. –, conquistaram um emprego formal. Muitas Donas Florindas, que já desfrutavam de alguma renda, resolveram abrir um restaurante. Muitos Seu Barrigas compraram mais imóveis, muitos professores Girafales ensinaram mais alunos, muitos viajaram para Acapulco, enfim, muitas pessoas passaram a fazer parte de um processo, ainda incipiente, de transformação social, ao se desprender de mazelas históricas.

O problema é que as lideranças esquerdistas emersas na década passada tinham um discurso claro e simples para quando o Chaves não comia sanduíche de presunto. Agora, ele come. E não quer só o sanduíche. Também quer torta, bolo, churros, pirulito, etc. Mais do que isso, ele quer andar de bicicleta, pegar um ônibus para ir ao parque, deixar de morar em um barril. Há uma ampliação da “nova classe média” – ou, como dizem os críticos, dos “novos proletários” – que modificou seu pleito: da universalização do acesso a serviços básicos para a qualidade desses serviços. Esta nova condição, ainda não sedimentada, é o grande desafio das políticas públicas das próximas décadas, sem deixar de lado o enfrentamento dos desafios históricos. Há um clamor por mudanças na população, eventualmente consubstanciada por uma nova orientação em seus governos, que já se percebe nos pleitos eleitorais apertados – Brasil e Uruguai são os casos mais recentes.

Uma era se encerra, outra começa. A primeira, humorística, a segunda, política. Roberto Bolaños tornou-se o guardião de uma era para a cultura latino-americana e compreendeu, de forma inocente, o que a Ciência Política, Sociologia, Filosofia, entre outros campos do conhecimento, tentam explicar até hoje: a natureza dessa gente americana dos trópicos. Ela é imperfeita e desastrada, por definição, mas feliz e esperançosa, por convicção. E é essa gente bronzeada, como compôs o sambista Assis Valente, que hoje mostra o seu valor. Não contente apenas em ser parte de um processo de transformação social, quer ela ser condutora da própria transformação, o que pode iniciar novos episódios na vila sul-americana.


Categorias: Américas, Brasil, Política e Política Externa


Escravidão moderna

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Fonte: BBC.CO.UK

Fonte: BBC.CO.UK

O Brasil tem, hoje, aproximadamente 155 mil pessoas vivendo em condições de trabalho escravo. No mundo a estimativa é de cerca de 35 milhões de homens, mulheres e crianças, meio por cento da população global, que se encontram na mesma situação. Esses dados foram divulgados pela organização não governamental (ONG) “Walk Free Foundation” em seu “2014 Global Slavery Index”.

Por “escravidão moderna” entende-se o envolvimento de uma pessoa que controla ou possui outra tendo como resultado a privação da liberdade desta última. Trabalho forçado, exploração sexual, tráfico de órgãos e servidão absoluta são alguns dos exemplos práticos que entraram nos resultados em questão. De mais notório, a pesquisa chegou a dois resultados principais. Em primeiro lugar, pelo fato da mesma ter uma metodologia mais específica e apropriada, viu-se que a escravidão moderna em 2014 aumentou em relação ao ano passado. E, em segundo, constatou-se positivamente na maioria dos países, dentre os 167 analisados, a existência de leis e regras específicas no combate à escravidão. Todavia, suas implementações permanecem escassas e fracas.

Em torno de 60% da escravidão moderna está situada em cinco países: Índia, China, Rússia, Paquistão e Uzbequistão. Mauritânia, na África, lidera o ranking com sua “escravatura hereditária” de 4% do total da população. Na América, o Haiti é o país com o pior número e o México é o que apresenta o maior índice absoluto de escravos com aproximadamente 267 mil pessoas exploradas. Do lado oposto está o continente europeu como um todo, representando somente 1,6% dos 35 milhões de escravos modernos.

 

Mapa da Escravidão Moderna de 2014 (Fonte: Walk Free Foundation)

Mapa da Escravidão Moderna de 2014 (Fonte: Walk Free Foundation)

 

Especificamente sobre o Brasil, nosso país melhorou em relação ao ano passado, tendo saído da 94ª para a 143ª posição na escala da pesquisa. A ONG ainda deu destaque para políticas nacionais como a PEC do Trabalho Escravo e o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. Em contrapartida, afirmou que ainda é baixa a identificação de vítimas decorrentes de abuso sexual no território nacional.

Interessante notar que houve uma proporcionalidade direta entre instabilidade política de determinados Estados e a vulnerabilidade da população para com a escravidão moderna. Obviamente, conflitos civis e/ou guerras religiosas enfraquecem a perenidade de leis domésticas, cujos objetivos centrais, no caso aqui retratado, são garantir a liberdade individual. O Brasil melhorou, a Europa mantém a dianteira, mas a discrepância permanece e, cada dia mais, será necessário o trabalho de interdependência entre os atores governamentais e não governamentais. E é aqui que se deve destacar o trabalho da “Walk Free Foundation”.

PS: Para ter acesso direto ao “The Global Slavery Index 2014”, clique aqui.


Categorias: Assistência Humanitária, Brasil, Conflitos


Problemas de primeiro mundo

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Há algumas semanas tivemos um post sobre eleições e suas consequências. Uma das mais importantes mencionadas era justamente a que ocorrerá amanhã nos EUA, a chamada eleição do “midterm”, quando os eleitores fazem a escolha do Legislativo. Após os eventos da última semana, não tem como não traçar um paralelo com o Brasil.

A impopularidade crescente de Obama por conta da economia e deslizes na política externa podem ter seu preço, com a possibilidade real de os Republicanos tomarem a maioria no Senado (atualmente dos Democratas por seis cadeiras) e expandirem seu domínio na Câmara. Com isso Obama corre o risco de herdar um país ingovernável por dois anos, em que o Congresso terá o poder de barrar quaisquer medidas que desejar e abrir caminho para a oposição nas eleições presidenciais de 2016.

Ora, o que vemos no Brasil? Na semana passada o governo aumentou a taxa básica de juros (indo contra sua propaganda eleitoral) e está em queda de braço com o Congresso por conta da rejeição de um decreto sobre comitês populares. Apesar de ser uma das medidas que efetivamente trariam mais participação política ao cidadão (e satisfazendo a tal “sede de mudanças políticas”), deve ser rejeitado um pouco por obra da oposição (ainda mordida pela derrota na última semana) e um pouco por uma revolta de partidos da base aliada (que querem colher os frutos do apoio no pleito).

Não se trata de uma discussão ideológica, mas política. O que importa não é o conteúdo do ato administrativo, mas o resultado da sua rejeição, visto como danoso ao governo. As situações de Brasil e EUA, nesse momento, são relativamente parecidas. Claro que não podemos igualar a situação de um bipartidarismo de facto como o americano com a farra de 28 partidos que elegemos em 2014. E enquanto Obama está à própria sorte, Dilma ainda tem maioria no Congresso, mas com uma margem de manobra extremamente reduzida comparando aos governos anteriores. Contudo, considerando que governo e oposição se aglomeram em torno de dois partidos, temos algo similar, com a grande diferença sendo a existência daquele monólito chamado PMDB, sempre pronto a agradar qualquer um dos lados em troca de bocados políticos (e que, de certa maneira, faz a coisa toda funcionar já que possibilita a maleabilidade que inexiste no modelo bipolarizado norte-americano).

Na verdade isso é comum a quase todos os sistemas políticos que se proponham a ser democráticos. Mas Obama e Dilma terão anos visivelmente complicados daqui em diante, com um Legislativo arredio e de certo modo interessado apenas nas consequências para o próximo ciclo eleitoral. Podemos dizer que enfrentamos “problemas de primeiro mundo”, mas não no sentido usual de algo frívolo ou que não se compara aos problemas mais graves de países empobrecidos. E quando a atividade política deixa de ser um meio para o bem da comunidade (com a replicação de discursos dicotômicos e emperramento da máquina pública) e se torna um fim em si mesma, seja de perpetuação no poder ou de busca pelo mesmo, a sociedade perde como um todo.


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Política externa e futuro

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O que significa a reeleição de Dilma Rousseff para o Brasil na área da Política Externa? Por um lado fica difícil pensar nos planos para o futuro já que, como de praxe, o debate eleitoral marginalizou (de ambos os lados) a discussão sobre Política Externa e Defesa (duas das principais atribuições da Presidência). Por outro, temos o histórico de Dilma nesses últimos quatro anos, que vão mostrar indícios do que poderá ser esse próximo quadriênio.

Dilma começou seu governo com Antônio Patriota no timão do Itamaraty, um nome de peso e respeitado na carreira, mas que sofreu ao tentar conciliar planos de uma diplomacia mais convencional com o gigantismo (chamada por alguns de “megalonaniquismo”) da política externa de Lula. Lentamente corroído e finalmente espinafrado após o causo do senador boliviano que fugiu para o Brasil debaixo do nariz do Itamaraty, ganhou o exílio dourado na sede da ONU enquanto o discreto Luiz Alberto Figueiredo assumia a chancelaria. Essa turbulência é sintomática de um período instável e, de certo modo, desfavorável para o país no cenário internacional.

Dilma nunca teve o espetáculo de Lula em termos de Política Externa. A busca pela diversificação de parcerias minguou; na ONU, a cruzada pela busca do assento permanente no CS da ONU parece cada vez mais uma realidade distante e colocada em segundo plano, e o conceito de Responsabilidade ao Proteger está esquecido; novas lideranças como a Turquia disputam um espaço de liderança com os países do “Sul” que antes tinham o Brasil como principal referência; dificuldades econômicas e escândalos políticos causam efeito adverso em investidores e afetam o ambiente financeiro e a confiança no país. Parece que o Brasil perdeu espaço nesses quatro anos. Porém, ao mesmo tempo, o país também protagonizou momentos de grande exposição, como a liderança, ao lado da Alemanha, do movimento de indignação contra a violação de dados e espionagem contra líderes mundiais feita pelos EUA, a indicação de um brasileiro, Roberto Azevêdo, para presidir a Organização Mundial do Comércio (e conseguir, após uma década, fazer andar minimamente o acordo da rodada Doha de liberalização do comércio), e intenso empenho na ONU para a aceitação da Palestina como membro observador na Assembleia Geral. Não foi pouca coisa.

Pensar em curto prazo nas consequências dessas escolhas é um exercício arriscado. Há de se lembrar que Política Externa é uma política de Estado, e deve sobreviver à mudança de governos. Coesão e previsibilidade são características de uma chancelaria forte, e o Brasil permanece atrelado a princípios históricos de sua atividade. Um exemplo claro dessa discordância foi a exposição dada ao discurso de Dilma na ONU, que se interpreta como uma tolice ao ser lido como a proposição de “discussão” com os terroristas do ISIS. Qualquer conhecedor da tradição diplomática brasileira sabe que o país preza pela não intervenção e soberania. Defender os meios não violentos não significa aceitar o terrorismo (que o país repudia, de qualquer modo), mas denuncia o emprego da força em situações como a do Iraque e da Síria, cujos resultados geralmente são catastróficos e distantes do objetivo almejado – como o noticiário comprova diariamente o esforço de Sísifo da coalizão.

Talvez a palavra-chave seja “alerta”. A posição do Brasil no cenário internacional hoje não é a mesma de quando Lula deixou o Planalto, mas tampouco é o desastre completo que se veicula por aí, e ainda goza de muito prestígio. O perfil da governante alterou o modo de operação visto em Lula, mas as metas tradicionais de nossa diplomacia estão lá, bem ou mal. Parece que Figueiredo não terá a sorte de seu colega da Fazenda e se manterá no cargo em 2015, então se pode esperar que não haja grandes mudanças no perfil da atuação do Itamaraty. Mas diversas áreas demandam ação (da busca pelo assento permanente e disputas econômicas no seio do Mercosul), e caberá à presidente ponderar sobre erros e acertos para definir quais as metas para os próximos quatro anos.


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


Imagem da Semana

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Carmen Miranda
Acabou a lua de mel com o Brasil? Pelo menos com a revista britânica The Economist, sim. Aquela que em 2010 mostrava uma capa com um Cristo Redentor decolando como um foguete como símolo do país que crescia quase 8% ao ano, já não mostrava tanta confiança em 2013, com a imagem do mesmo Cristo em uma espiral decadente. Agora, com as eleições, o tom é azedo, com uma imagem que remete à Carmem Miranda cheia de frutas podres na cabeça. A capa foi recebida com indignação pelo governo. o que revela duas coisas. Primeiro, que linhas editoriais podem sim mudar – e não necessariamente a depender de interesses políticos. Segundo, a opinião dos governos pode mudar também – já que em 2010 e Economist era a coisa mais linda do mundo, mas hoje…


O mundo às urnas

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Ontem tivemos eleições gerais no Brasil, e apesar do impacto tremendo disso na vida política nacional (e claro, internacional), vamos falar no dia tradicionalmente dedicado pelo blog a eleições, de outros escrutínios que acontecem pelo mundo. Ou melhor, aconteceram, pois em pelo menos dois países o fim de semana foi movimentado para seus eleitores como foi para os brasileiros.

Para pegar o gancho, na Bulgária, terra da família da atual presidente, as eleições legislativas mostraram a vitória do partido de centro-direita GERB. Porém, como parece ser a regra em países europeus em crise, o partido não obteve a maioria e encontrará dificuldades em se articular com os demais especialmente o Partido Socialista. O populista ex-primeiro ministro Boiko Borisov tem a ingrata tarefa de levar o país mais pobre da União Europeia (sim, até mesmo a Grécia tem renda por cidadão maior), em um ambiente de crise política e corrupção endêmica que se arrasta por quase 25 anos (desde o fim do comunismo) somado a uma crise bancária que ameaça seu principal banco e espanta o investimento estrangeiro.

Um pouco acima, na Letônia, as eleições parlamentares levaram o partido Harmonia à maioria e devem dar fim ao governo de coligação atual que já dura 9 meses. Assim como a Bulgária, o país se encontra na UE, e em situação delicada – mas pela presença do gigante russo ao lado. O Harmonia é um partido de tendências pró-Moscou, e com isso é esperado que recomece a haver uma influência significativa da política russa no país. Ao contrário da Ucrânia, porém, a Letônia é membro da OTAN, e uma interferência mais aguda como a que assola o celeiro da Europa desde o começo do ano é uma improbabilidade. Existe uma parcela significativa de russos étnicos no país, e o debate entre a manutenção dos laços com a Europa ou voltar a face a Moscou é um temor factível que pode resultar em divisões internas. Ou seja, problema a longo prazo.

Por fim, quando estivermos perto do segundo turno das eleições presidenciais aqui, lá nos EUA estarão ocorrendo as eleições do “mid term”, ou seja, do Legislativo. A decisão da composição da Câmara de Representantes (a Câmara dos Deputados deles) e do Senado contém a chave para o futuro do país, pois a distribuição dos partidos no Congresso vai definir se as políticas dos próximos dois anos vão render algo ou se um entrave político emperrará decisões vitais na área de Defesa e economia. Uma derrota republicana no Senado manterá um Congresso engessado e impopular, enquanto uma vitória poderá significar uma campanha de terror pela não-cooperação com as políticas de Obama e até mesmo definir as possibilidades reais de derrota democrata nas eleições presidenciais de 2016. E mesmo com essa eleição histórica a menos de um mês, o modelo de alistamento eleitoral voluntário mostra uma incrível taxa estimada de apenas 15% de eleitores interessados no assunto.

Logo teremos a chance de verificar o resultado desse evento, mas com estes exemplos fica aparente a situação de crise que a maior parte destes países enfrenta, de democracias consolidadas a novatos nesse clube pós-muro de Berlim.


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Imagem da Semana

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Independentemente dos resultados das eleições de hoje por todo o país, a imagem do dia reflete uma triste, apesar de recorrente, situação em época eleitoral: lixo espalhado pelas ruas, principalmente nas proximidades de locais de votação pelo Brasil afora. A foto acima é do Rio de Janeiro e ilustra o extremo de uma situação de poluição eleitoral.

Se a Lei das Eleições (n. 9.504/97) determina que o recrutamento de eleitores ou a chamada propaganda de “boca de urna” pode resultar em multa e detenção, a poluição nas ruas revela uma forma velada de influenciar os eleitores indecisos na última hora, o que, indiretamente, não deixa de constituir também crime eleitoral.

Aliás, toneladas de materiais (panfletos, cavaletes, faixas, etc.) têm sido apreendidas em todo o país durante o período pré-eleitoral por estarem dispostas em locais/horários irregulares. O Distrito Federal bateu o recorde nacional: 350 toneladas de propagandas ilegais – cuja destinação final, ao menos, deverá ser a reciclagem

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