Um mundo em lotação: o que escolher?

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Em seguimento ao post da semana passada, continuemos apresentando um retrato deste mundo em lotação e suas implicações para as relações internacionais. Nestes tempos de escassez, inevitavelmente, teremos que fazer escolhas. Que escolhas faremos? Eis um princípio basilar da economia, as pessoas enfrentam tradeoffs: para conseguirem algo que desejam, precisam abdicar de outra coisa de que gostam. Isso é importante para que elas tomem boas decisões, na medida em que compreendam as opções disponíveis.


Que tal voltarmos à questão dos alimentos? Vejamos este dado: para se produzir 1 kg de carne, são necessários 20.000 litros de água, enquanto que produzir 1 kg de cereal demanda 1.200 litros. Mas é possível aumentar a produção de carne e de cereais indiscriminada e simultaneamente? Comeremos carne ou cereais? E, se decidirmos comer os dois, beberemos água ou tomaremos banho? De acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2006, 1,1 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável e 2,8 bilhões não têm as mínimas condições de saneamento; apenas a agricultura responde por 70% do uso da água doce disponível no mundo. Para 2030, estima-se que a demanda por alimentos aumentará em 50% e a demanda por água, em até 40%.

Este cenário ainda se agrava. A escassez dos alimentos e da água enfrenta ainda outros tradeoffs, quando se adiciona as mudanças climáticas e a questão energética. Um estudo realizado em 2006, pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), verificou que a emissão de gases estufas das atividades pecuárias supera a emissão do sistema de transporte mundial. Gases estufas, como se sabe, geram aquecimento global, e o aumento de um grau Celsius na temperatura do planeta provoca a diminuição de 10% no rendimento da produção de cereais. Nós comeremos menos cereais… E menos carne, a não ser que queiramos viver no Saara e os rebanhos aprendam a fazer fotossíntese.

Então, o que vamos comer? Aí, depende da criatividade. Que tal um grilo? Só não façamos isso na China; lá, os grilos têm sua própria UFC. Mas não desanimemos, já há mais de 1.000 variedades de insetos comestíveis em pelo menos 80% dos países do mundo. Algum dia, talvez peçamos um Mc’ Gafanhoto, com saúvas crocantes. Em 2013, está prevista uma conferência mundial para discutir sobre os insetos comestíveis. Há bandas de rock ou pessoas famosas que adquiriram o hábito de deixar de comer carne um dia por semana. Por falar em China, como sabemos, o consumo de cachorro é uma tradição milenar no país, que, com a ascensão de uma nova classe média, procura-se coibir a prática. O que há de errado em mandar o Snoop para a panela? É preferível um chinesinho roubando cachorro para alimentar o mercado negro?

Vamos para a questão energética. Qual o tradeoff que enfrentaremos? A matriz energética mundial é composta por 85% de hidrocarbonetos. Petróleo polui. Energia nuclear dá problema, não só pelo temor de novos “Japões”, mas porque alguém, de repente, pode acusar outrem de fazer bombas. Isso permitiu um regresso para o passado: continuar gerando energia energética com reatores da época de “Os Trapalhões” e fazer guerras infantis. Escolhas precisarão ser feitas, ainda mais em se tratando de uma demanda energética mundial que se elevará 40% em 2030. Por um lado, a atual matriz causa o aquecimento global, que causa a queda na produção de alimentos, mas, por outro, a busca por fontes alternativas tem suas implicações; por exemplo, há uma previsão de que 5% do transporte rodoviário global será abastecido por biocombustíveis, o que representaria um consumo impreciso, entre 20% e 100%, da quantidade total de água destina à agricultura – a extração de gás natural também demanda o uso altamente intensivo de água.

(Confiram as publicações do Forum Econômico Mundial, particularmente as publicações intituladas “Global Risks“. Vejam também o site da FAO e estes artigos 1 e 2. A maioria dos dados forma extraídos destas fontes.)

É muito simples nós dizermos que a escassez gera conflitos, imigrações, instabilidade, entre outras coisas, mas é preciso ver, nas minúcias, como isso ocorre. O reino da vida e da morte, nas relações internacionais, pertence cada vez mais aos indivíduos e menos aos Estados. Por falta de alimentos, água, energia e pelo calor, as pessoas fenecem antes dos príncipes. Ainda pior, os tradeoffs que já se enfrentam parecem conduzir a uma inevitável Lei de Murphy: tudo dá errado! Qual é a saída? Do que abdicaremos para ter o que queremos? Somos 7 bilhões em ação, 7 bilhões de opções e 7 bilhões de expectativas…


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Um mundo em lotação: entre a escassez e a omissão

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No post de ontem, o Álvaro já destacou um acontecimento histórico: ontem, chegamos a 7 bilhões de habitantes no mundo. Quando Piotr, o bebê russo que nasceu em Kaliningrado, ou quando Enrique Ona, o bebê filipino que nasceu em Manila, chorou pela primeira vez, a marca foi alcançada. Uma hora ou outra, atingiríamos esse número, porém, é preciso uma análise mais detalhada sobre o crescimento populacional e suas repercussões, em médio e longo prazo. (Vejam esta avaliação da OECD).

Recordemos uma historinha narrada pelo renomado economista indiano Amartya Sen, ganhador do Nobel de Economia em 1998. Conta-se que, por volta do século VIII a.C., uma mulher chamada Maitreyee e seu marido, Yajnavalkya, estavam debatendo sobre os caminhos e os modos de se tornarem ricos, e em que medida a riqueza os ajudaria a obter o que desejavam. Maitreyee questiona se a riqueza lhe traria a imortalidade, ao que responde Yajnavalkya: “não”. E replica Maitreyee: “de que me serve isso, se não me torna imortal?”. Esse é ponto central do desenvolvimento humano, um processo expansivo das liberdades fundamentais dos seres humanos e da libertação de todas as formas de privações (pobreza, fome, desemprego, racismo, etc.) que os impedem de viver uma vida digna. É possível conciliar desenvolvimento humano e crescimento populacional?

Fonte: UNPA, Relatório sobre a população mundial 2011.

As pessoas que vêm aí não querem apenas dinheiro; querem comer, vestir-se, votar, amar, enfim, fazer escolhas sem qualquer constrangimento estrutural, para serem felizes, ainda que isso não lhes traga a eternidade. Mas vivemos em tempos difíceis e, a despeito dos excessos malthusianos do século XIX, um dilema é certo: mais habitantes significa menos recursos (água, alimentos, energia, etc.). O século XXI, inevitavelmente, será o século da escassez, e o grande desafio, postulado básico da economia, é como gerenciar os recursos escassos para uma população cada vez mais crescente.

A escassez dos recursos suscita inúmeras e infindáveis discussões. Alguns dizem que o problema dos recursos é o gerenciamento inadequado, outros dizem que eles inevitavelmente se esgotam. Qual a capacidade que temos de responder a isso? (Confiram este artigo da Al Jazeera) Além dos recursos naturais, muitos problemas giram em torno de recursos materiais, que exacerbam a má gestão dos recursos. Vejamos os dados de um estudo do PNUD, liderado por Caroline Thomas: no final dos anos 1990, a estimativa é que o organismo gastava, anualmente, US$ 6 bilhões com a educação básica, US$ 9 bilhões com água e saneamento e US$ 13 bilhões com a saúde básica e reprodução, enquanto os gastos anuais dos Estados Unidos com cosméticos eram de US$ 9 bilhões, da Europa com sorvete eram de US$ 11 bilhões, e os gastos militares globais atingiam US$ 780 bilhões.

Com base nos dados acima, poderíamos dizer que os problemas sociais que se alastram pelo globo são eminentemente um problema político, e não simplesmente de escassez. Falta vontade da comunidade internacional. Não fosse assim, não teríamos 1,2 bilhões de pessoas vivendo com menos de um dólar por dia, número que aumenta para 2,8 bilhões quando se eleva para menos de dois dólares diários e, até mais alarmante, 80% da população mundial vive com menos de dez dólares por dia! Em países como Etiópia, Tanzânia, Burundi, entre outros sete países, praticamente, 100% da população vive nessa última faixa.

É fato que a escassez de recursos naturais é indissociável à escassez de recursos materiais. A fome, por exemplo, tem duas facetas: por um lado, produzem-se alimentos suficientes para a população mundial, mas são mal distribuídos (às vezes, opta-se por alimentar rebanhos a alimentar seres humanos!); por outro, os preços dos alimentos encarecem e tendem a permanecer alto (ver também este artigo do futuro diretor da FAO, o brasileiro José Graziano), talvez até superem o pico que atingiram na década de 1970, à medida que aumenta a demanda (em longo prazo, a tendência é também a diminuição da oferta, o que elevaria ainda mais os preços). Como disse Lester Brown, em artigo na Foreign Policy, um aumento no preço do pão pode fazer um norte-americano comprar menos pão, mas, para um indiano, isso significa fazer uma refeição diária. Atualmente, há 925 milhões de pessoas desnutridas no mundo e cerca de 25.000 morrem de fome, ou de causas relacionadas à fome, por dia (isto representa uma pessoa morta a cada três segundos e meio em 24h).

Para não nos cansarmos com este post, paremos aqui. Façamos uma reflexão sobre o que estes dados representam e retomemos nosso fôlego para prosseguirmos em outra oportunidade, na qual teremos mais números inquietantes.


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A flor da mocidade

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Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,

E imprime em toda a flor sua pisada.

Oh, não aguardes, que a madura idade
Te converta em flor, essa beleza

Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

Eis um trecho do poema “À sua mulher antes de casar”, de Gregório de Matos, considerado o maior poeta barroco do Brasil. Não é por acaso que se escolhe o poema e o estilo artístico barroco para este post, cujo objetivo é tratar dos protestos que se disseminam pelo globo e ganham cada vez mais força. Em todos os cantos, há cidadãos lutando contra o trote do tempo, que imprime sua pisada nos sonhos desabrochados da modicidade, sem deixá-los florescer nos jardins de esperança do futuro.

No século XVII, o estilo barroco surgiu de duas crises: a dos ideias e valores renascentistas, oriunda das lutas religiosas e marcada pela Contra Reforma, e a econômica, decorrente da decadência do comércio com o Oriente. Quando se pára para pensar cuidadosamente, observa-se que também há uma crise de ideias e valores, além da econômica, por trás de todos os protestos que sacodem o mundo. Ambas as crises apresentam características intrínsecas ao pensamento barroco, caracterizado pelo culto ao dualismo, pessimismo diante da vida e literatura moralista (em termos contemporâneos, seriam ‘protestos moralistas e educadores’). Autoritarismo x liberdade, capitalismo x (?), bancos x pessoas, são dilemas que se impõe, expectativas que se frustram e gritos que ecoam nas ruas.

O barroco voltou?

Da Primavera Árabe ao Outono Americano (ou “Ocupem Wall Street”), as pessoas contestam o exercício da tirania, muitas vezes imperceptível, da minoria. Ditadores, governantes, banqueiros, corporações, ou seja lá o que for, por toda parte, alguém é culpado por abusar do poder (político, econômico, cultural, etc.) e condenar milhões a uma vida indigna e sofrível. As ideias e os valores historicamente construídos por essa tirana são colocados em xeque, mesmo sem saber que ideias e valores se possam reinventar. Críticas são feitas aos regimes políticos árabes, outras atingem o sistema capitalista ocidental. O consumo não se traduz mais em felicidade e bem-estar, nem a religião traz alívio. As motivações comuns entre os protestos são o desemprego, a falta de moradia, o dinheiro, a fome, entre outras questões que agravam as condições sociais.

O mundo está se transformando em uma grande ágora contemporânea. Da praça Zuccotti, nos EUA, à praça de Tel Aviv, as pessoas acampam e protestam. Elas dormem e acordam em frente ao Banco Central Europeu, em Frankfurt, pedem a reforma do sistema educacional no Chile, enfim, as pessoas querem voz, demonstram sua insatisfação e querem participar diretamente dos governos, excedendo os meros caprichos eleitorais, manifestados pelo voto. Mas elas assustam. Na Inglaterra, foram tachadas como vândalas, desocupadas, para serem reprimidas, assim como são reprimidas nos países árabes. Volta à tona o príncipe maquiavélico, da época barroca, em que é melhor ser temido do que ser amado. Putin já deu o recado na Rússia.

Até quando esta flor da mocidade adornará os campos de penúria que se espraiam? O que esta pintura barroca do mundo sugere? A despeito da participação popular nos rumos de seus respectivos países, o grande desafio é proposicional. Por enquanto, os protestos são marcados pelo que elas se opõem, e não pelo que propõem, alertando os governos sobre suas práticas excludentes. Goza, goza da flor da mocidade, antes de ser acometida pelos passos abrasivos do tempo.

[Artigos interessantes sobre a temática tratada: 1, 2, 3, 4, 5, 6]


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Um por todos, e todos por um

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Quando Alexandre Dumas escreveu “Os Três Mosqueteiros”, nem imaginava que um dia o lema dos seus heróis poderia ser usado para caracterizar uma barganha de vidas humanas. E muitas vidas. Já ouviram falar em Gilad Shalit? Esse é o nome de um jovem soldado israelense seqüestrado pelo Hamas e cuja libertação foi definida após negociações meio ambíguas com Israel, que vai libertar cerca de 1000 prisioneiros palestinos acusados de crimes relacionados ao terrorismo, incluindo alguns que estavam em prisão perpétua. Todos ficam felizes e a vida continua, certo?

Bom, esse expediente de troca de prisioneiros não é coisa nova – teria começado mesmo na Guerra de Secessão dos EUA. Antigamente, prisioneiros eram simplesmente mortos ou vendidos como escravos. Claro que isso não pegaria bem na pátria da liberdade, e como as prisões chegaram a um ponto de superlotação, os comandantes da União e confederados chegaram à conclusão que o ideal seria simplesmente trocar os prisioneiros de uma maneira justa. Assim, quem fosse capturado podia circular livremente (sob a condição de ser morto sem piedade caso fosse pego com armas na mão) até que os exércitos encontrassem um lugar neutro pra fazerem a troca de figurinhas. E com isso começou uma tradição que hoje é regulamentada pela Convenção de Genebra, que diz que soldados doentes ou incapacitados para o esforço de guerra e que estejam em território inimigo devem ser repatriados.

O problema é que, enquanto os dois lados do conflito são Estados, dá pra seguir essa regra sem muito problema (e mesmo assim nem sempre é garantia de proteção aos prisioneiros, basta ver a II Guerra Mundial…), mas quando o conflito tem um ator não-estatal, especialmente conflitos civis, o que antes era um recurso humanitário passa a ser um elemento de barganha. Ou seja, se torna não uma decorrência natural do combate, mas um meio para atingir o fim específico de libertar prisioneiros, muitas vezes condenados criminalmente. Basta pensar no seqüestro de diplomatas para trocar por prisioneiros políticos na época da ditadura, no caso das FARC, que mantém gente presa há mais de 10 anos no meio do mato para trocar por terroristas presos, ou dos funcionários de empresas de construção capturados no Iraque.

Esse é o problema desse tipo de troca, pois não são prisioneiros de guerra, apenas vítimas de um crime bastante específico. O próprio Gilat não é um prisioneiro de guerra – foi seqüestrado deliberadamente por um túnel na fronteira. E isso traz mais drama pra situação: pode parecer que todos ficam satisfeitos com o resultado, mas no fundo isso só traz problemas em longo prazo. Essa troca do Gilat é particularmente ruim por que abre um precedente: o pessoal do Hamas já ameaça seqüestrar mais soldados israelenses até que consiga a libertação de cerca de 6000 palestinos presos em Israel. Ao mesmo tempo, os conservadores de Israel repreendem o acordo por considerarem “fraqueza”, além de considerarem que o país perde uma importante moeda de troca nas negociações com os palestinos. Familiares de vítimas de ataques condenam a libertação de “terroristas e assassinos” (inclusive entrando na justiça contra esse acordo). E até mesmo há discussão interna entre Hamas e Fatah – esse acordo teria sido uma manobra de Israel pra tirar a atenção da mídia da questão do reconhecimento do Estado palestino, o que é muito provável, dadas as condições “desvantajosas” que Netanyahu acatou.

Entre mortos e feridos, salva-se o pobre Gilat, que (espera-se) volta para sua família. Mas fica a apreensão de tantos outros, em Israel e pelo mundo, que possam vir a passar pelo mesmo com o sucesso da barganha feita com sua vida.


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Outono árabe

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A primavera árabe já virou um outono?

Tivemos um fim de semana sangrento por aqueles lados. No Egito, confrontos entre minorias cristãs e muçulmanos que se seguiram a um grande protesto renderam cerca de 30 mortos. Segundo as autoridades, foram os manifestantes que começaram. Já os manifestantes afirmam que era uma passeata pacífica e que foram atacados por bandos armados e pelo exército. O fato é que o Egito, desde que removeu Mubarak do poder, ainda está enfrentando questões internas graves de segurança, com divisões sectárias que eram controladas pelo antigo ditador, e parece que ainda não consegue decidir que forma seu novo governo vai possuir. O mais provável é que o poder continue nas mãos dos militares (que foram o elemento-chave na derrubada de Mubarak). Por mais que os manifestantes da Praça Tahir quisessem mudanças, democracia não parece ser o resultado disso em curto prazo…

Agora, esse lance de passeatas pacíficas sendo atacadas pelo governo, não parece familiar? Quem soube minimamente do que se passou no Bahrein vai reconhecer essa situação. Naquele pequeno país, manifestantes pacíficos foram violentamente massacrados e perseguidos (inclusive os médicos que tratavam dos feridos), com apoio de tropas sauditas e de outros países do Golfo, e a situação continua até hoje. Isso pode ser visto em um documentário polêmico e chocante que chegou a causar um mal-estar diplomático entre o Bahrein e o Qatar, sede da emissora. (Se tiver algum tempo livre, veja o vídeo completo aqui.)

Podemos imaginar que algo semelhante (ou pior!) acontece na Síria, onde falta de informação torna o número de mortos mais impressionante. Lá, onde milhares de pessoas já morreram nos protestos, agora há o risco de guerra civil iminente – após o governo massacrar civis, é a vez de milícias de oposição enfrentarem tropas do governo diariamente. Parece que, quando a coisa aperta, os revoltosos acabam se radicalizando.

Duas coisas que aprendemos com essa situação de repressão governamental. A primeira, é que os países desenvolvidos estão pouco se importando com a questão democrática dessas revoltas. Na Líbia, houve a intervenção (desastrada, diga-se de passagem) por conta de fatores econômicos sob risco iminente que pesavam para os interesses europeus. Na Síria, por mais que haja retórica contra o “tirano”, interesses sino-russos impedem ações práticas. E as demais revoltas, como no Bahrein, foram ou continuam sendo simplesmente ignoradas.

A outra, é que com a repressão nos protestos em andamento, e o aparente insucesso das que deram certo (Egito, Tunísia, Líbia), a “primavera árabe” parece cada vez mais um evento isolado, algo como fogo de palha. Nosso colega Mário Machado disse certa vez que não gostava de se referir a essa onda de protestos como “primavera” dada a carga negativa de insucessos que esse tipo de predicado teve em revoluções no passado. Pelo jeito, não estava enganado, e pode ser que na prática não passem disso, uma simples onda…


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A (luta pela) conquista de direitos

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Segundo o poeta francês Balzac, “A igualdade pode ser um direito, mas não há poder sobre a Terra capaz de a tornar um fato”. Será? Talvez o poder do diálogo e da luta social possa surtir efeitos – ainda que lentamente e a partir de muitos (e articulados) esforços. Mais um passo foi dado na Arábia Saudita no que se refere à igualdade de gênero: trata-se da importante conquista do voto e da elegibilidade feminina nas eleições municipais, a partir de 2015.

Em uma era de movimentos contra os regimes autoritários no Oriente Médio, a famosa “Primavera árabe”, esta recente conquista das mulheres árabes merece destaque, já que se trata de um direito básico e essencial à consolidação de sua participação na tomada de decisões (e na construção destas) em sua sociedade.

Vale lembrar que a rica e conservadora Arábia Saudita é uma monarquia absolutista, de forma que o rei concentra os poderes de chefe de Estado e de governo. Nesta semana estão sendo realizadas, apenas pela segunda vez na história, as únicas eleições existentes no país, para cargos municipais. Ainda sem a participação das mulheres, a falta de confiança nos órgãos públicos por parte da população marca o tom dessas eleições. Muito ainda precisa mudar para que o regime possa ser considerado efetivamente participativo…

A luta para que as mulheres sejam incluídas no sistema político (e tenham seus direitos básicos respeitados) não é de hoje, e as críticas à intolerância religiosa têm alcançado novos patamares nos últimos tempos, dada a facilidade de contato e de disseminação de ideias/propostas/revoltas/movimentos proporcionada pela internet, especialmente por meio das redes sociais (veja aqui post no blog a respeito do movimento pelo direito das mulheres a dirigir, também na Arábia Saudita). A pressão dos cidadãos árabes têm sido responsável por um incremento considerável em seus direitos: igualdade e democracia buscadas a cada dia!

É verídico afirmar que a igualdade (ainda) não é fato consolidado em nossos tempos, mas não seria excessivamente pessimista pensar que esta situação é irreversível? Para que se possa enxergar resultados práticos, é preciso que a mobilização social seja constante, diária, cotidiana… cada sociedade enfrenta seus próprios desafios na busca pela igualdade, nos mais diversos âmbitos. E, bom, será que estamos fazendo também a nossa parte?


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Até quando?

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Haiti. MINUSTAH. Operação de paz. Estes três termos – intrinsecamente relacionados – têm gerado profundos debates internacionais há anos (quase uma década!). O Haiti, país assolado por dificuldades extremas e dos mais diversos tipos, recebeu em 2004 a “Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti” (MINUSTAH), operação de paz em que o protagonismo brasileiro é notável, com mais de 13 mil soldados e 1 bilhão de reais investidos (posts sobre o assunto aqui e aqui).

Ok, mas a pergunta que não quer calar é: até quando? Uma operação de paz, dentro de uma lógica de ação humanitária, deve pressupor um planejamento de curto, médio e longo prazo que respeite o(s) momento(s) de urgência social e humanitária (no plural, já que o desastroso terremoto de janeiro de 2010 fez a escala de ação retroceder “abaixo do zero”, segundo o então representando da ONU no Haiti – veja post no blog sobre o tema aqui), mas que também visem, pouco a pouco, à promoção do desenvolvimento local.

Neste sentido é que a MINUSTAH passa a ser questionada pelo próprio povo haitiano. Alguns escândalos por parte de abusos dos “capacetes azuis”, tal como são chamados os soldados da ONU, também têm contribuído para essa visão negativa. A partir do momento em que a população não se sente participante do processo de construção comunitária, muitas dificuldades advêm e tornam a fase de “transição” mais longa do que deveria ser.

Vista como “força de ocupação”, a MINUSTAH não cativa hoje os haitianos como em 2004. Após todos esses anos, esperava-se poder visualizar a construção de uma estrutura nacional que proporcionasse segurança social à população, o que não ocorre. Segundo declarações da ONU e do próprio governo brasileiro, a operação de paz só pode ser encerrada quando houver uma alternativa a ela, de forma que a saída da MINUSTAH não venha a gerar o caos.

O atual presidente haitiano, Michel Martelly, eleito este ano com a promessa de retirar as forças da ONU do país, discursou semana passada na 66ª Assembleia Geral das Nações Unidas pedindo, contudo, a permanência da MINUSTAH. Segundo ele, a operação ainda precisa ajudar o governo em questões como educação, geração de empregos, meio ambiente e garantia de um Estado de direito.

Enquanto este ciclo vicioso (e retórico) se estende, a esperada “alternativa sustentável à MINUSTAH para o Haiti” parece ser construída (?) a passos demasiado lentos. Sem forte apoio da população e ainda com um caráter excessivamente assistencialista, a MINUSTAH segue em suas atividades no país. Não se pode negar, é claro, a importância de uma operação de paz para a ingerência humanitária em situações de crise e em face da necessidade de estabilização política, mas podemos questionar até quando esta operação específica no Haiti não será acompanhada de um necessário (e desafiador!) desenvolvimento sustentável nacional…

[UPDATE: Será que até março de 2012? “Brasil vai começar a retirar tropas do Haiti em março, diz Amorim”, 29/09/2011]


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Segredos bem guardados…

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Existem dois elementos que geralmente rendem boas histórias para livros e filmes: aventuras em terras estrangeiras (como ser preso por tráfico na Tailândia ou se tornar confessor de um jovem Dalai Lama no Tibet) ou enfrentar problemas em terreno hostil (como ficar preso a uma rocha ou nos destroços de um avião). Os alpinistas norte-americanos Josh Fattal e Shane Bauer vão ter bastante o que contar pois sua história envolve esses dois aspectos – eram eles os prisioneiros norte-americanos que estavam no Irã há dois anos, acusados de espionagem, e libertados neste fim de semana.

Tudo começou com uma confusão com relação à localização do grupo de alpinistas (que incluía uma terceira pessoa, Sarah Shourd, que foi libertada ano passado), que teriam se perdido na fronteira com o Iraque e acabaram parando inadvertidamente em território iraniano em meados de 2009. Esse engano (até que se prove o contrário) se tornou para esses três jovens uma experiência vívida da parcialidade do regime jurídico iraniano. Isolados do mundo, julgados com base em mentiras absurdas e encarcerados sob condições deploráveis, em meio aos gritos de outros presos sendo torturados. O relato desses rapazes é assustador e mostra uma faceta irônica da situação – segundo consta, todas as vezes que reclamavam do tratamento, os guardas os lembravam de como os norte-americanos tratavam seus presos em Guantánamo e Abu-Ghraib.

E assim chegamos ao tema principal do texto de hoje. Não é segredo pra ninguém que quase todos os governos do mundo mantêm ou mantiveram, em maior ou menor grau, algum tipo de repressão política. Porões de ditadura, prisões secretas, campos de trabalho forçado. Cada localidade tem sua variedade de como lidar com prisioneiros políticos (uma “justificação” para se livrar daqueles que incomodam o regime). Como lidam com isso, depende da situação política ser favorável ou não. Mesmo as democracias não estão livres disso! Obama confirmou a existência de prisões secretas e o previu o fechamento destas e de Guantánamo, mas no fim das contas essa continua aberta, e as outras… quem sabe. O Irã obviamente usava os jovens como uma moeda de troca valiosa com os EUA, e sua libertação teria sido um aparente movimento para atrair a simpatia ocidental. Ou teria sido o mero desmoronamento de uma acusação infundada que se tornara insustentável? Ou o valo estratégico dos reféns acabou? É difícil saber.

O que se percebe com clareza é que esses norte-americanos tiveram muita sorte – afinal, sua detenção era uma das principais chantagens contra o país mais poderoso do mundo. Assim enfrentaram, até onde se sabe, julgamento severo e injusto (que custa a vida de muitos em locais como a China e a Tailândia) e prisão insuportável mas saíram relativamente ilesos (ao menos, fisicamente). Por outro lado, quantos prisioneiros políticos como eles estão tendo menos sorte em países de governos mais truculentos, pelo mundo todo. Vamos tomar o exemplo dos países da tal Primavera Árabe… Basta pensar no Iêmen: o presidente Saleh está de volta e fala em transição do poder, mas persistem os choques e as mortes em confrontos com forças policiais. É impossível saber o número exato de mortos – quanto mais de presos, que ficarão sabe-se lá quanto tempo em algum porão até conseguirem sair (SE saírem). E mesmo onde as revoltas parecem ter sido exitosas (como na Líbia), se descobrem segredos cada vez mais aterrorizantes: a bola da vez é a cova coletiva de Kadafi, descoberta pelos revolucionários perto de Trípoli, com as ossadas de mais de 1200 pessoas mortas em protestos contra o regime nos anos 90. É tão ruim quanto (ou pior) do que as valas encontradas nos genocídios balcânicos da mesma época.

O alívio de ver os jovens aventureiros sãos e salvos (independentemente de sua origem ou de como foram pegos – não deve haver terror semelhante ao da impotência ante um sistema todo contra você) contrasta com a angústia de saber que tantos outros estão por aí em condição semelhante ou pior. E descobertas como essa da Líbia, ao mesmo tempo em que são assustadoras, um verdadeiro choque de realidade quando tomamos conhecimento desse tipo de evento, é benéfico que se desacobertem esses abusos. Fica a incerteza.


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Cova somaliana

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“Esta cova em que estás, com palmos medida

É a conta menor que tiraste em vida

[…] Não é cova grande, é cova medida

[…] É uma cova grande pra teu pouco defunto

É uma cova grande pra tua carne pouca” […]

A partir dos dizeres acima de Chico Buarque, em sua música inspirada no poema “Morte e Vida Severina” de João Cabral de Melo Neto, a reflexão de hoje se volta a uma crise social tão grave (em seu âmbito) como a crise econômica norte-americana, porém muitíssimo menos noticiada. Trata-se da situação da Somália, país imerso em uma cova de fome, miséria e despreparo.

Despreparo diante de uma situação que envolve fatores ambientais, políticos, econômicos e sociais em um cenário internacional no qual as perspectivas de Assistência Humanitária ainda precisam se tornar muito mais eficientes e construídas sobre um sistema de cooperação que preze efetivamente pelo humanitarismo, e não unicamente por interesses estratégicos pontuais.

Enquanto isso, a Somália permanece em uma cova cada vez mais funda: a crise de fome se alastra rapidamente pelo sul do país e o número de mortes já é estimado em dezenas de milhares. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), metade da população do país (quase 4 milhões de pessoas) sofre direta ou indiretamente com esta crise humanitária.

Vale destacar que a chamada região do “Chifre da África” – que inclui, além da Somália, a Eritréia, o Sudão, a Etiópia e o Djibouti – se encontra em uma situação de crise generalizada de fome que afeta mais de 11 milhões de pessoas segundo a ONU devido às secas prolongadas.

Além da situação de seca, somam-se a falta de um governo efetivo e os conflitos internos na Somália para se compreender o quão grande está a cova em que a “carne pouca”do povo parece ser lançada sem piedade. Os coveiros? O governo local (ou a falta dele); os interesses geopolíticos internacionais que impedem historicamente o desenvolvimento social africano; os interesses econômicos internacionais que limitam os fundos auxílio humanitário a um país que, na opinião de muitos, parece ser tratado como insignificante; os fatores climáticos que insistem em castigar a região; e talvez muitos outros que poderiam ser listados aqui…

Se a ampliação dos programas e dos fundos de assistência humanitária são urgentes, como afirma a ONU, talvez seja necessário midiatizar cada dia mais essa temática para que se possa cobrar esse desenvolvimento dos órgãos e responsáveis. Ou talvez seja apenas necessário que nos consideremos todos responsáveis pela solução de uma crise humanitária como esta para que a Somália não se afunde cada vez mais em si mesma e em suas dificuldades que são locais, mas também globais.


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Reflexões para o futuro

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Uma questão intrigante para começarmos, que expressa bem a redistribuição global do poder e o reposicionamento dos países no mundo, é o Conselho de Segurança da ONU. Todos sabemos que a missão central do organismo é zelar pela paz e segurança internacionais. Também sabemos que isso inclui deter um poder militar condizente a essa missão, certo? Pois bem, de acordo com os dados do site Global Firepower, a França não mereceria mais ocupar um assento permanente, já que ocupa apenas a 8ª posição, atrás de três países emergentes: Índia (4ª), Turquia (6ª) e Coreia do Sul (7ª). Mas é claro que esse posto também é assegurado por razões históricas, prestígio e poder econômico. Neste último aspecto, os top-5 deixam a desejar ainda mais: não apenas pelas consequências da atual crise financeira que enfrentam, senão pela posição que ocupam na economia mundial, de acordo com PIB. Reino Unido e França, por exemplo, ocupam, respectivamente a 8ª e 9ª posição.

O agravamento da violência na Síria, que suscita uma resolução de condenação pelo Conselho de Segurança e abre espaço para uma possível intervenção militar, é um exemplo da manifestação das transformações em curso no âmbito do poder global. As potências tradicionais, notadamente Estados Unidos e Europa, querem adotar a resolução, enquanto os países emergentes, principalmente Brasil, Índia e África do Sul, são contrários. De um lado, uma estratégia de força; de outro, uma estratégia de fala. A dúvida é: qual o limite para as duas serem levadas separadamente e de que maneira elas se relacionam? Este debate provavelmente permanecerá em aberto e trará tanto dificuldades para administrar a ordem mundial quanto possibilidades mais amplas para a cooperação. Uma coisa é clara: não é mais possível prevalecer apenas a opinião das potências tradicionais. O Concerto Europeu ou a Pax Americana pertencem à história.

A prevalência de uma opinião absoluta do Ocidente pseudo-hegemônico silencia riscos importantes. Mesmo o terrorismo é preciso ser desmistificado. A Guerra Global contra o Terror, capitaneada pelos Estados Unidos, infundiu um maniqueísmo sem precedentes – “ou vocês estão conosco ou contra nós” – e marchou sobre a diferença, denegrindo a imagem de religiões e povos. Quer exemplo melhor dessa situação do que o ocorrido na Noruega? O dedo acusador do governo apontou um muçulmano como culpado, quando, na verdade, era um nacional da extrema direita. (Vejam estes dois artigos 1 e 2, de um professor de Filosofia da UFRGS e do ex-Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, respectivamente). Mais do que isso, demonstrou que o terrorismo não está “lá fora” ou é praticado por quem vem de fora, e sim que é algo endógeno. Aliás, é só pensarmos: além do 11/09, Madri e Londres, quais foram os grandes atentados terroristas tidos como globais?

O terrorismo ainda conduziu a uma espécie da amnésia coletiva. Não é apenas a política conduzida de maneira extrema que mata, a ausência da política é igualmente fatal. Previsões indicam que a população mundial deve ganhar a adição de mais 1,2 bilhões de pessoas, o que provocará pressão sobre os recursos alimentares, energéticos e hídricos. É calculado que a demanda por esses recursos aumentará entre 30-50%, já levantando o problema da escassez. Hoje, as estimativas são de que um em cada cinco habitantes do planeta não tem acesso à água potável, sem contar que cerca 70% dela, em nível mundial, é utiliza para a irrigação. Dois dados já antigos, que prevalecem praticamente semelhantes hoje, em 2002, 1,2 bilhões de pessoas viviam com menos de um dólar por dia; com menos de dois dólares diários, esse número se elevava para 2,8 bilhões. A questão é que problemas como esses não aparecem todos os dias na TV ou na internet.

Caetano Veloso já cantava, “Alguma coisa/ Está fora da ordem/ Fora da nova ordem mundial”, agora, acontece. Por um lado, os países que sobem e os que descem precisam encontrar mecanismos comuns para a governança global, por outro, devem permanecer atentos aos novos riscos. Do contrário, não será mais uma escolha entre a vida e morte, mas entre a escassez e a morte. Costuma-se dizer que toda civilização evolui quando atinge um ponto crítico. Será que chegamos ou precisamos chegar a um ponto mais crítico para evoluir? Em algum canto do mundo, as pessoas estão morrendo não pelas decisões que os países estão tomando, mas pelas questões que estão deixando de tratar, por esquecimento ou impasses. Infelizmente…

[As informações para este post foram coletadas, principalmente, no site do PNUD.]


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