Dez anos bastam

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“Dez anos bastam”: estes foram os dizeres de manifestantes que formaram uma cadeia humana em Washington essa semana para protestar contra a manutenção da prisão de Guantánamo, que existe há (quase exatos) dez anos na base naval dos Estados Unidos em Cuba (foto).

Instalada em meio ao fulgor da “guerra contra o terrorismo” após os atentados de 2001, a prisão é constantemente alvo de fortes críticas exatamente por desrespeitar Direitos Humanos básicos. Centenas de presos já passaram por Guantánamo e os quase duzentos que permanecem ainda hoje se enquadram entre os seguintes perfis principais: são acusados de crimes de guerra e aguardam julgamento; são considerados “perigosos” (pelo governo estadunidense), mas não podem ser acusados por falta de provas; ou, finalmente, não possuem nenhuma acusação (!), mas são impedidos de partir pela instabilidade de seus países.

Parece inacreditável conceber atualmente situações como tal, mas Guantánamo é um claro exemplo das contradições globais que ainda hoje frequentemente visualizamos. A busca pela igualdade é constante, mas o acesso aos recursos disponíveis é extremamente limitado. A ânsia por promover a “justiça” (?) é crescente, mas os meios utilizados para este fim são absolutamente criticáveis…

Constatar a ineficácia do presidente Obama em fechar Guantánamo (promessa cujo “prazo expirou” já há dois anos) significa constatar uma realidade na qual a teoria e prática permanecem em âmbitos muito distintos (e distantes!). A pressão tem sido feita por diversas entidades humanitárias e organismos governamentais, mas é ainda incerta a perspectiva para o real cumprimento desta nobre promessa.

Enquanto isso, mantém-se uma realidade perversa para os prisioneiros (em sua boa parte possíveis inocentes – veja post antigo no blog a esse respeito aqui) e para a comunidade internacional, que convive com um tácito sentimento de “impunidade” em relação às controversas políticas antiterroristas estadunidenses.

Em se tratando de Guantánamo, pode-se dizer que dez anos – efetivamente – bastam ou são até demais, não?


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O Haiti é aqui?

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“Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui.” […]

Os versos acima, eternizados por Caetano Veloso no início da década de 1990, refletem uma implícita crítica social e uma literal discussão que tem se destacado nas últimas semanas. Dois anos após o terremoto que devastou o país, constata-se a maior imigração haitiana para o Brasil desde o século XX. Desta forma, o assunto entra na pauta nacional e causa diversas reações.

O fato é que o terremoto que atingiu especialmente Porto Príncipe, a capital haitiana, há dois anos foi a “cereja” de um “bolo” que nunca encontrou o “ponto certo” – como nossas avós diriam (veja interessante post antigo no blog à época do terremoto aqui). A catástrofe natural que assolou o país foi de um nível de destruição tão alto que talvez só não seja superado pelo nível de incapacidade estrutural (notadamente do governo) em lidar com a situação que se seguiu.

Incapacidade que, segundo o atual governo – cujo mandato se iniciou em maio do ano passado –, foi herdada de governos anteriores. A afirmação não é falsa (pelo contrário!), mas é notável como tal herança parece multiplicar-se ao invés de desfazer-se com seus sucessores, assombrando um sofrido país e provocando inquietudes diversas.

Dada uma situação ainda em ruínas no país, a imigração tem sido considerada a única saída para muitos nacionais. E o equivalente ao tradicional “sonho americano” para os haitianos é, apesar do complicado acesso geográfico, o “sonho brasileiro”. Com a entrada recente (e em sua maior parte irregular) de aproximadamente 4 mil haitianos no Brasil, o assunto merece, sem dúvida, atenção especial.

Cidades amazônicas, especialmente Tabatinga (Amazonas, foto inicial do post) e Brasiléia (Acre), têm concentrado os imigrantes haitianos que chegam com a esperança de recomeçarem suas vidas em um país do qual a ideia de crescimento parece ser indissociável no momento. A noção de que esse crescimento acelerado é paradoxalmente acompanhado de desigualdades internas ainda extremas não parece indispor os haitianos a essa busca por uma recomeço em terras tupiniquins. O Haiti é aqui?

A concessão de vistos humanitários tem ocorrido aos haitianos que chegam, mas o governo anunciou ontem uma restrição a esse número mensal de vistos, almejando controlar o fluxo de imigração. Medida polêmica, já que a não aceitação do visto pode acarretar em deportação para o Haiti, onde a missão de reestabelecimento da paz da ONU (MINUSTAH) ainda é liderada pelo próprio Brasil. O Haiti é aqui?

A preocupação é complexa e envolve os âmbitos humanitário, político e mesmo econômico, devendo constituir pauta importante da viagem diplomática de Dilma ao Haiti, programada para o começo de fevereiro. As consequências da imigração irregular demonstram que muito ainda deve ser feito no Haiti para que os cidadãos não mais se sintam tentados pelas propostas de coiotes de ilegalmente entrar no Brasil, muitas vezes sob condições desumanas. E, é claro, muito ainda deve ser feito no Brasil para que possamos, efetivamente, afirmar que não, o Haiti não é aqui…


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País dividido…

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Como o Raphael comentou na postagem da semana passada, há cerca de um ano um dos temas que mais despertava atenção para discutirmos era a criação do Sudão do Sul. Dito e feito, em 2011 surgiu o mais novo Estado africano, mas com menos de um ano de existência já parece ter batido um recorde nada invejável.

Lembram da Síria? Sim, aquele país em que o ditador não liga a mínima para a presença de observadores da Liga Árabe (que já não está servindo de muita coisa faz algum tempo, mas não deixa de ser legítima), enquanto seu serviço secreto paga para gangues armadas chacinarem a população revoltada e mantém prisões subterrâneas onde sabe-se lá o quê é feito com os opositores amordaçados. Pois bem, a ONU reconhece que mais de 5 mil pessoas morreram lá por conta dos conflitos, ao longo de mais de 10 meses, desde o ano passado.

Bem, no Sudão, conseguiram chegar perto dessa marca, 3 mil mortos, e com mais de 50 mil refugiados junto, mas em apenas uma semana de conflito. Oficialmente, a extensão dos danos, assim como o número exato de mortos, não são claros, mas têm origem em tensões étnicas e conflitos tribais. É um Estado sendo posto à prova e falhando miseravelmente… Teria sido muito prematura essa mudança de governo? Ou já era algo de se esperar? Falta o apoio internacional? Sequestro de mulheres e crianças se somam a fome e miséria em um cenário de crise humanitária desesperadora. Enquanto isso, as coisas não são melhores no Sudão original – tudo indica que o país esteja rumando para mais uma guerra civil, com opositores clamando por uma derrubada pacífica e rápida do longevo Omar al-Bashir (algo bem difícil de se esperar de um ditador que tem no seu currículo o genocídio de Darfur e não vai largar o osso tão cedo após mais de 20 anos no poder…), e escaramuças periódicas com o vizinho do sul. E isso pra não entrarmos na questão de Darfur, que ainda rende muitas mortes e conflitos incessantes (o último, devido à morte de um líder rebelde).

Prestem atenção – vendo de maneira superficial, temos 3 focos diferentes de conflitos e crises humanitárias, em uma região que era um único país há pouco mais de um ano! O que tiramos disso tudo? Bem, primeiramente, vemos que o tempo passa, o tempo voa, e nada muda naquela região da África subsaariana – seja na Somália ou no Sudão, expectativa de melhora em curto prazo é praticamente zero. Fome, miséria e falta de governança, com governos corruptos e/ou incapazes somados à ignorância internacional, parecem ser algo endêmico e que gera conflito.

Enquanto isso, a criação do Sudão do Sul, em que se esperava haver a possibilidade de finalmente conter a guerra civil que existia há décadas, serviu apenas para reduzir a escala do conflito e limitar seus participantes – sem que se diminuíssem a crueza dos combates e o sofrimento humanitário. Por fim, uma ligação curiosa e irônica entre os casos da Síria e do Sudão – o chefe da criticada e, até o momento, pouco efetiva missão de observadores é um aliado de al-Bashir e procurado pelo TPI por ser um dos criadores das milícias “janjaweed”. Com essa experiência, não é de se espantar que a missão de observadores não esteja dando muitos frutos…


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Riscos humanitários

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E o ano de 2011 termina com tristes acontecimentos no meio humanitário. Em Mogadishu (Somália), dois agentes humanitários da ONG Médicos sem Fronteiras (MSF) foram mortos em um atentado local, ainda com autoria indefinida. Este é o segundo caso grave em pouco tempo no país, pois outros três funcionários somalis de organizações humanitárias foram também vítimas fatais na última semana.

A Somália vive a pior seca de sua história que tem gerado, por conseguinte, o pior surto de fome da região (veja post no blog a respeito aqui). Esses fatores tornam urgente o desenvolvimento de ações humanitárias em grande escala no país, porém estas sofrem muitas vezes consequências graves advindas da falta de estrutura local. Grupos rebeldes lutam entre si e as principais vítimas são a população e os agentes humanitários. No último mês o grupo somali Al Shabaab (vinculado à Al Qaeda) chegou a proibir a presença de agências humanitárias no território.

Entretanto, o risco aos trabalhadores humanitários não se restringe à Somália. Segundo relatório recente publicado pelo Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), os ataques violentos triplicaram na última década, vitimando mais de 100 pessoas por ano. Apesar da proteção garantida pelas Convenções de Genebra do Direito Internacional Humanitário, a percepção local de que os agentes são cúmplices das políticas praticadas pelas partes envolvidas nos conflitos, bem como os ataques terroristas em áreas de risco, tem criado complexas situações de risco nos últimos tempos.

Segundo Florian Westphal, representante do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, o maior desafio da atualidade nesta área é encontrar o equilíbrio entre resolver as necessidades humanitárias como organizações neutras que normalmente trabalham sem proteção armada e, por outro lado, assegurar um nível mínimo de segurança para as equipes.

Apesar dessa triste constatação, o supracitado relatório da OCHA reconhece ainda que os esforços humanitários continuam sendo realizados, buscando-se alternativas aos possíveis impedimentos existentes. Afinal, “The humanitarian principles of humanity, neutrality, impartiality and independence do matter


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Guerra sem fim

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Nos idos de 2003, eu estava no colegial e uma das minhas ocupações de intervalo era (vai entender…) ir à biblioteca e debater com alguns colegas as notícias do jornal do dia. O tema recorrente e que mais rendeu conversas animadas foi, claro, a invasão dos EUA ao Iraque naquele ano. Era primeira vez que para nós, aquele pessoal da geração do fim dos anos 80, se via todo o poder militar dos EUA em ação efetivamente (na I Guerra do Golfo éramos muito novos), e a conclusão era unânime: os EUA iriam destroçar tudo e acabar com a guerra em questão de semanas. O tempo foi passando, vieram as baixas, o “fogo muy amigo”, a tenacidade dos iraquianos, e no fim das contas todo mundo envolvido nessa conversa já terminou a universidade e a guerra foi acabar apenas na semana passada, com a transferência da posse do último quartel dos EUA no país para forças locais, e a saída definitiva dos últimos contingentes no dia 31 de dezembro.

Traçar conseqüências desses nove anos de ocupação é algo complicado e que vai demandar muito tempo – mesmo por que os efeitos, na região e no mundo, ainda vão reverberar por muitos anos. Afinal, o que deu errado para os EUA? Passar por cima da ONU (tornando a guerra impopular em qualquer lugar que não fosse os EUA)? A demora em encontrar Saddam? Ou em encontrar as tais armas de destruição em massa (que não foram vistas até hoje)? Uma guerra ancorada em mentiras, meias verdades e ignorância não poderia ter outro resultado. Se formos pensar em termos numéricos, foi um sucesso militar, já que morreram cerca de 5 mil norte-amercianos (e algumas centenas de aliados) contra mais de 100 mil iraquianos. A proporção de 1 pra 20 não está nada mal (apesar da maioria desses 20 serem civis que não tinham nada a ver com o conflito, mas enfim…). Mas, um país deixado em ruínas, com um arremedo de democracia imposta, é uma tragédia humana (bem representada nessa charge), bem documentada e do conhecimento de todos, e o saldo principal dessa guerra. Aliás, a guerra acabou para os EUA – mas prossegue o desafio diário de conviver com a incerteza e a morte para os próprios iraquianos.

E nem entramos no tema da incursão do terrorismo no país, coisa que não existia antes e foi uma importação do conflito…

Já na região, o drama é um pouco pior para os EUA. Eles removeram um inimigo em potencial, mas conservador, e conseguiram com isso fortalecer um inimigo declarado e radical, o Irã. O problema é que, desde o começo do século, o balanço de poder na região era uma espécie de triângulo, com a rivalidade entre Arábia Saudita, Iraque e Irã. Os sauditas toleravam Saddam pois era sunita e mantinha o Irã, radical e anti-monárquico, ocupado – dos males, o menor. Com a saída do seu partido Baath de cena e a ascensão de representantes xiitas, a aproximação do Iraque com o Irã é natural e deixa os sauditas de cabelos em pé. Na verdade, a movimentação na região dá a entender que os países mais interessados em um eventual ataque ao Irã (e que estão fazendo campanha de todos os modos para engatar uma ação nesse sentido) são as monarquias tradicionais do Golfo, e não Israel. Se estamos à beira de um conflito maior na região, no que pese a petulância iraniana em espezinhar a comunidade internacional com suas idas e vindas no programa nuclear, boa parte dessa instabilidade se deve às aventuras de George W. Bush no Golfo e a quebra desse balanço numa das regiões mais instáveis do mundo.

O saldo é negativo para todos, dentro e fora do Iraque – inclusive para o Obama, que tinha a retirada como promessa de campanha e só conseguiu viabilizar isso depois de mais da metade de seu mandato. Mas, vendo pelo lado positivo, pior que está não fica, e pelo menos não é um Afeganistão – intervenção que começou antes, está a todo vapor até hoje e não tem previsão de terminar.


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Há um ano...

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Em dezembro de 2011, o blog estava a todo vapor, e não era pra menos. Estava em curso a inédita operação de ocupação do morro do Alemão, e discutíamos a funcionalidade dessa operação militar. Uma postagem bastante crítica discutia, mais do que a presença do exército nas ruas, a própria função dessa Força, e como no Brasil está havendo gradualmente uma “desvirtuação” de sua função original. Por falta de uso ou acomodamento, o fato é que esse é um processo bastante atrativo para os governos estaduais (que se livram do custo de operação policial e em caso de fracasso podem jogar a culpa toda no exército). E isso prossegue, com os exemplos mais famosos, a ocupação do Alemão completando um ano, e a recente da Rocinha a perder de vista. Isso me faz me perguntar: em vez de usar o exército, por que não equipar melhor a polícia? Afinal, a justificativa é que o exército é melhor preparado (em termos de aparato) para essa situação de “combate”, uma vantagem contra os criminosos que geralmente a polícia não consegue ter. Não seria mais barato, por exemplo, em vez de colocar o exército lá, dar tanques para a PM? (E nem me venham dizer que é loucura, a SWAT dos EUA tem…). Piadas à parte, continuamos com as tropas enfrentando bandidos e tapando buraco de estrada em vez de patrulhar a fronteira.

Dias depois, comentávamos a questão da confiança entre os países, com o exemplo do caso (então recente) da Wikileaks, falando de transparência e outros temas relativos à diplomacia. Um ano depois, o que temos? A Wikileaks faliu e seu dono está enjaulado, mas o estrago parece perdurar – mesmo na Europa, onde tudo era perfeito, a crise de confiança faz com que ninguém queira arcar com o peso da integração e salvar a Zona do Euro. Não vamos dizer que a crise européia é culpa da Wikileaks, claro, mas percebe-se que há algo de diferente no ar no ambiente de negociação internacional, e isso mudou no último ano…

Por fim, um último post tratava das possíveis diferenças entre os perfis diplomáticos dos governos Lula (então em seu final) e Dilma (uma grande expectativa). Após um ano, ainda é bem difícil traçar um perfil definitivo sobre o atual governo, mas percebem-se grandes diferenças em alguns temas com relação ao anterior. Me parece que a diplomacia de Lula era bem mais “espetaculosa”, enquanto a de Dilma é mais discreta. Talvez isso se dê por conta do perfil dos ministros da pasta em cada gestão: com Celso Amorim, o Itamaraty era bem mais ativo, em sua busca incessante (e até mesmo obsessiva?) pela vaga no Conselho de Segurança da ONU, enquanto o atual, de Antonio Patriota, é bem mais pragmático e articulador. Ou, nas palavras de um conhecido, Amorim é o cara que atirava pra todos os lados com uma metralhadora, enquanto Patriota parece ser um atirador com um rifle de precisão. Exageros à parte, parece descrever bem a situação… Aliás, é interessante ver como, na atual gestão do Ministério da Defesa, Amorim parece bem mais comedido que em seus tempos de chanceler.

É isso aí pessoal, postando e relembrando.


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Um mundo em lotação: a esperança

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Enfim, chegamos à última postagem sobre os 7 bilhões de habitantes do planeta Terra e suas repercussões. Desde já, é preciso ressaltar que esta discussão não deve ser encerrada aqui, e sim prosseguir entre vocês, leitores, e seus familiares, amigos, namorados(as) e demais conhecidos, com a finalidade de produzir novas e instigantes reflexões. Afinal de contas, este é um tema que interessa a todos nós e nos permite, com muita atenção, prospectar o futuro e delimitar nossas escolhas, a bordo de uma astronave que tentamos pilotar, como canta Toquinho em sua Aquarela.


Acompanhamos, ao longo das postagens que cobriram esta temática, desafios hercúleos, dados intrigantes (alguns revoltantes) e perspectivas de mudança diminutas. Ficamos, sim, desolados. Mas a vida é uma caixinha de surpresas, como diria Joseph Climber, personagem interpretado pela companhia teatral Melhores do Mundo, e o que se deseja, ao fim e ao cabo destas postagens, é transmitir uma mensagem esperança. A humanidade, embora seja uma família estranha, detém amor profundo.

O potencial humano não pode ser subestimado nunca. E, muitas vezes, ele é encontrado nas coisas mais simples. Uma mãe faz o possível e o impossível para sobrevivência de um filho, um filho faz o possível e o impossível para cuidar do pai doente e assim por diante. Vejamos um exemplo. Em uma palestra em 2005, o ex-comandante da Force Commander da MINUSTAH, o General-de-Divisão Augusto Heleno Ribeiro Pereira, exaltou o amor próprio do povo haitiano, pois em se tratando de um país pobre e com freqüente falta de energia, as pessoas sempre andavam bem vestidas, limpas e com as roupas bem arrumadas. Com tantas coisas para se preocuparem, tanta tragédia acontecendo, lá estavam os haitianos valorizando-se e sorrindo.

Nestas sombrias eras de escassez, de duas escassezes mais especificamente, uma que priva o mundo de seus recursos, outra que priva as pessoas de suas ideias, assistiremos a vivificação de muitos Fabiano’s de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e de muitos Severino’s, de João Cabral de Melo Neto. Os primeiros adaptam-se ao meio, os segundos retiram-se do meio. Água, alimentos, energia, entre outros recursos, não duram para a eternidade, e a má gestão deles pela comunidade internacional exacerba problemas, desloca pessoas, alimenta tensões e costura um frágil tecido social, materialmente distinto e culturalmente diversificado. Essas personagens já encontram seus dramas reais, como demonstra o Relatório do Fundo de Populações das Nações Unidas (UNFPA) sobre a situação da população mundial em 2011, e já articulam mudanças, despertam sonhos e sustentam a esperança.

Nossas personagens reais e seus congêneres responderão as escassezes, talvez com protestos que culminem em ciclos de violência, talvez com o diálogo pacífico que termine em processos negociados. Riqueza não é tudo. Uma vida digna que nos permita ser felizes, sim. Para isso, não importa se o país é rico ou pobre, democrático ou autocrático, se as pessoas forem privadas de direitos que lhes são inerentes, elas sairão às ruas e os protestos de 2011 exemplificam bem isso. Por enquanto, as pessoas enrolam-se em suas bandeiras, mas, no futuro, pode ser que se abracem em nome da bandeira da humanidade, independentemente de pátrias e territórios. Outra vez, poderíamos retomar a poesia de Melo Neto, em sua estrofe final: “E não há melhor resposta/que o espetáculo da vida:/vê-la desfiar seu fio,/que também se chama vida,/ver a fábrica que ela mesma,/teimosamente, se fabrica/vê-la brotar como há pouco tempo/em nova vida explodida.”

Por trás de cada número, há uma possibilidade e uma potencialidade. Há uma esperança. É certo que enfrentaremos grandes dificuldades quando uma nova aurora nascer, mas tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, diria Tom Zé. A incerteza, nas palavras do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, é o hábitat natural da espécie humana, e as nossas vidas, quer queiramos ou não, são obras de arte, o que exige estabelecer desafios difíceis de confrontar e escolher alvos e padrões de excelência muito além do nosso alcance. É preciso tentar o impossível. A esperança não é necessariamente a última que morre, e sim a primeira que vive: é o que acreditamos e esperamos que determinam nossas escolhas. E lembremos, para encerrar, uma canção chilena de Violeta Parra, intitulada La esperanza: “Não pode nem o mais extravagante/passar em indiferença/se brilha em nossa consciência/amor pelos semelhantes.”


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Ladrão… que rouba ladrão?

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Enquanto o mundo presta atenção no Oriente Médio e suas agitações, vamos um pouco mais ao sul de lá, mais especificamente no Chifre da África. Já falamos da Somália aqui no blog esse ano. O tema foi, como muitos devem saber (e é o modo que a mídia mais mostra o país africano), a crise de desabastecimento e a fome decorrente. Mas a Somália também anda conseguindo destaque nos jornais com outro assunto, que é o ressurgimento da pirataria em suas águas, rota marítima obrigatória entre Ásia e Europa.

A história é conhecida: pequenos barcos rápidos abordam cargueiros e exigem resgates aos governos. Claro que os países civilizados, nobres e justos, não deixam isso barato e enviam navios de guerra pra protegerem suas frotas mercantes. Afinal, não é como se a OTAN tivesse coisa melhor para fazer. E o tratamento dedicado aos criminosos varia de acordo com o humor e a origem da marinha. Se os piratas têm sorte, podem ser presos por franceses, que dão até comida para os maltrapilhos. Agora, se tiverem o azar de encontrar os russos… (Talvez uma herança truculenta herdada da URSS? É famoso o caso de um navio ucraniano em que africanos clandestinos foram mortos friamente para que a companhia não pagasse uma multa ao chegar na Europa. Virou até filme.)

É claro que a pirataria tem muito a ver com a crise e a fome naquele país. E boa parte da culpa, adivinhem, é de outros países e causada por um fator que quase ninguém conhece por esses lados: a falta de controle do Estado sobre o mar por lá. A equação é simples: barcos pesqueiros de diversas nacionalidades (europeus, chineses, japoneses…) praticam toda sorte de pesca ilegal e irregular nos mares somalis, sem serem incomodados; acabam os cardumes, o principal recurso alimentar do país é esgotado e uma forma de sobrevivência milenar de comunidades pesqueiras é destruída. Com isso, muitos adotam a solução extrema de partir para o crime, e como em qualquer lugar do mundo, o lucro dessa “vida fácil” faz com que grandes “lordes” piratas enriqueçam astronomicamente e mantenham o ciclo funcionando – um negócio tão lucrativo que acabou com as rixas entre clãs, tão comuns na África. Ser pirata virou status e uma ocupação comum por lá. E a coisa ainda fica pior – depois do tsunami de 2004 (aquele que causou estragos cataclísmicos na Ásia) descobriu-se que o mar da Somalia também virou um depósito aberto de lixo nuclear e tóxico. Como se as coisas já não estivessem ruins por lá…

Você pode ver um chocante e breve documentário sobre o tema aqui. E esse é apenas mais um dos casos em que as questões que chegam aos nossos ouvidos não contam a história toda. Pense no que ouvimos sobre esse tema. Fome na Somália? Claro que é resultado de governos ruins e guerra civil, o de sempre na África. Pirataria? Um óbvio crime contra o comércio internacional, uma barbaridade, que deve ser combatida com medidas “extremas” pra não sair do controle. Mas são apenas peças de um quebra-cabeça muito maior, em que seus efeitos são cíclicos e alimentam a miséria e a corrupção, sob vista grossa dos governos ocidentais. Não se pode defender o crime dos piratas, mas ao mesmo tempo é lamentável ver a que situação se chegou naquele país e difícil não sentir pena dos que acabam enveredando por essa vida (claro que não se precisa sair do Brasil pra entender essa lógica… é a globalização da miséria). Nisso quem perde, é claro, é o lado mais fraco, com a Somália sendo roubada, massacrada e, o pior de tudo, ignorada.


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Um mundo em lotação: os Adams vêm aí!

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Já apresentamos a situação do mundo na atualidade e os possíveis desdobramentos críticos para o futuro. Se, por si mesmo, os dados apresentados em outros posts chamam muito a atenção, imaginem quando adicionamos o crescimento populacional. Inevitavelmente, despertamos mais inquietações. Os Adams vêm aí… Pandandandan!

São sete bilhões de pessoas no mundo. Por vezes, uma família estranha, que a surpresa é tamanha, cheia de artimanhas, parecida de outro mundo, mas com amor profundo e sem parar um segundo. Sim, os Adams vêm aí! Este jingle, por certo, é uma representação simples, e muito boa, da humanidade vivendo em um planeta lotado, neste século XXI.

Ora, vejamos, inicialmente, por que o crescimento populacional é surpreendente, embora não destoe inteiramente das estimativas feitas. De acordo com os dados oficiais da Divisão de População do Departamento de Economia e Assuntos Sociais das Nações Unidas: “O rápido crescimento da população mundial é fenômeno recente. Há cerca de 2.000 anos, a população mundial era de cerca de 300 milhões. Foram necessários mais de 1.600 anos para que ela duplicasse para 600 milhões. O rápido crescimento da população mundial teve início em 1950, com reduções de mortalidade nas regiões menos desenvolvidas, o que resultou numa população estimada em 6,1 bilhões no ano de 2000, quase duas vezes e meia a população de 1950. Com o declínio da fecundidade na maior parte do mundo, a taxa de crescimento global da população tem decrescido desde seu pico de 2,0%, observado no quinquênio 1965-1970.”

Se isso já é surpreendente, vejamos os cenários futuros que advêm da chegada dos Adams ao mundo: 1) se a taxa de fecundidade se manter no atual patamar, em torno de 2,5, a população mundial chegará a 15 bilhões de habitantes em 2100; 2) se a taxa de fecundidade decrescer para 2,0, então, haverá 10,1 bilhões de habitantes; 3) se a taxa de fecundidade reduzir drasticamente para 1,6, então, a população mundial poderá diminuir para 6,2 bilhões de habitantes. O cenário mais realista é o segundo, e o terceiro é pouco provável: a diminuição da população só aconteceu em momentos de grandes calamidades, particularmente doenças, como a peste bubônica e a gripe espanhola na Europa. A não ser que o filme Contágio se converta em realidade, a população não deve diminuir, mas seu crescimento pode desacelerar.

O relatório do Fundo de Populações das Nações Unidas (UNFPA) sobre a situação da população mundial em 2011 apresenta considerações muito interessantes acerca do significado desses 7 bilhões de habitantes. Simultaneamente, estamos nos tornando uma população mais velha e mais jovem. Isso é paradoxal, mas é o que ocorre. Nos últimos 60 anos, a expectativa de vida saltou de 48 anos, no início da década de 1950, para 68, na primeira década do novo século, e a mortalidade infantil declinou de 133 óbitos para cada 1000 nascimentos, na década de 1950, para 46 em cada 1000, no período de 2005-2010. Pessoas com menos de 25 anos já compõe cerca de 43% da população mundial e, de acordo com uma reportagem do Valor, já nasceu a geração de pessoas que viverá 150 anos.

As pessoas fazem artimanhas para viver: migram em busca de melhores oportunidades ou se envolvem com atividades ilícitas, fazem a paz ou a guerra, sonham ou morrem. Em meio as suas escolhas, há desafios, choques culturais e, também, possibilidades. Na China, por exemplo, além da “política do filho único”, Shangai, com seus 20 milhões de habitantes, adotou a “política do cachorro único”: um Snoop por família. Alguns lugares estão e estarão lotados, outros, seguem e seguirão no esquecimento, como os rincões da África, nos quais predominam o que o geógrafo brasileiro Milton Santos chamou de “tirania das distâncias”, condenados a exclusão. Na China, também, a tentativa de controle populacional provoca choques culturais: há muitos jovens homens morrendo sem se casar. Isso, para a cultura chinesa, é perigoso, pois a vida espiritual é idêntica a vida terrena, e um homem solteiro pode ser um homem infeliz. Então, tornou-se hábito, e até mesmo um negócio, o casamento entre defuntos, mas a quantidade de mulheres é menor do que a de homens.

Poderíamos, neste post, tratar de questões como: os países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos estão crescendo, em termos populacionais, mais rápido que os desenvolvidos, que aqueles ainda não passaram por uma transição demográfica, o problema da mão de obra, entre outras questões. Mas isso acompanhamos diariamente na mídia. O importante, aqui, é tentar pensar na situação em que o mundo se encontra e como essas pessoas, esses Adams que vem aí, vão se inserir nele. Na semana que vem, fecharemos a série sobre o crescimento populacional, com as lições que poderíamos depreender de tudo isso e quais a possibilidades para o futuro.


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Papéis invertidos?

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Deu no jornal: o Brasil está se tornando um pólo de atração de migrantes. Não que não tenha sido no passado recente (no contexto da América do Sul e África), sem contar o passado que moldou a formação étnica variada do país – a imigração é um fenômeno histórico por essas bandas. A questão é que agora, com a crise no Europa, quem está vindo pra são trabalhadores altamente qualificados que vêm suprir deficiências de mercado.

Parece chocante receber gente de países mais ricos, mas não é nenhuma novidade o Brasil acolher gente do primeiro mundo. No passado vinham italianos, alemães, japoneses, mas para trabalhar de modo mais humilde, plantando café, soja e arroz. Agora, quem está vindo vem ocupar cargos importantes na construção civil, ciência e tecnologia e engenharia (como no setor petrolífero, que faz a alegria de holandeses e ingleses). Não deixa de haver a migração mais tradicional, como os refugiados políticos e os que vêm de países mais pobres em busca de melhores condições. A situação levanta duas considerações.

A primeira, é uma constatação surpreendente: segundo dados do Ministério da Justiça (veja aqui), apesar da fama de receptividade do povo brasileiro, o país recebe uma porcentagem de pedidos de asilo humanitário (de gente fugindo de perseguição ou guerras) semelhante ao dos EUA mas tem uma taxa de aceitação muito menor que em países com notórios problemas de aceitação ou contestação de imigrantes, como a Itália. O Brasil deporta muito mais “ilegais” que países europeus, e isso é um mero demonstrativo de como essas políticas de refugiados como um todo estão em xeque no mundo todo – até mesmo aqui… Agora, seria demais imaginar que esses “indesejáveis” estão passando pelo mesmo processo que muitos brasileiros enfrentam/enfrentaram no passado indo para Europa e EUA? Seria exagero pensar que o crescimento econômico está tornando o Brasil internacionalmente “elitizado”?

E isso nos traz ao segundo ponto: a onda de imigração por empregos de alta capacitação, além de expor uma grave deficiência na educação nacional (e não estamos falando apenas de engenheiros e pessoal de Exatas, mas técnicos, e essencialmente a debilidade do ensino médio e fundamental), mostra que o mercado em expansão está sendo obrigado a trazer gente de fora para cumprir funções específicas. É evidente que não vamos nos tornar uma Europa que joga a culpa de muitos problemas econômicos nas costas de ondas de imigração do leste, Ásia e África. Mas, até que ponto esse tipo de situação persistirá, e o Brasil começará a investir de maneira decente para suprir esses nichos com força de trabalho nacional? Não estamos falando que os estrangeiros não tenham direito de trabalhar aqui, se pinta a oportunidade, ótimo para eles. Mas, por que não temos brasileiros nesse tipo de função, que seria facilmente “ocupável” se tivéssemos gente capacitada?

Até quando um país que quer ser “grande” (e já diz há muito tempo por aí que é…) vai passar por uma situação dessas, tendo que importar mão de obra especializada e fechando a porta para quem precisa de asilo? Acho que deve ser um caso único no mundo, e não deixa de ser mais uma das inúmeras contradições (e, pra variar, coisas que se vê apenas por aqui) de nosso país…


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