Volta ao mundo em 80 dias

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Julio Verne que me perdoe mas hoje a volta ao mundo que interessa não é a de Phileas Fogg. Muito menos de alguém com a vida fácil e rotineira desse típico personagem inglês. A viagem que chama atenção é a da famosa blogueira e ativista política cubana, Yoani Sanchéz, que, após 20 tentativas, e praticamente 7 anos depois, finalmente conseguiu deixar o país para um tour pelo mundo. 

Convites de interessados em entrevistas, filmes e palestras não faltaram. Faltava mesmo era boa vontade do regime castrista de deixar uma das maiores dissidentes políticas do país sair zanzando por aí. A última autorização de saída negada foi em 2012 quando o cineasta brasileiro Dado Galvão convidou Yoani para a estreia do documentário “Conexão Cuba Honduras”, que contava com entrevistas e participações da blogueira. Até o visto brasileiro já se tinha, e, aos 45 do segundo tempo, ela foi impedida novamente de sair. 

Essa atual viagem somente foi autorizada em virtude da reforma imigratória que, no início de fevereiro “facilitou”, digo, diminuiu um pouco a grande complicação burocrática, para se deixar o país. Exigências como a de uma carta-convite e do pagamento da autorização de saída foram abolidas, apesar de o governo poder manter seu veto a quem lhe interessar. Mas, a despeito das inúmeras dificuldades (muitos, incluída a própria blogueira, apontaram que ainda há muitas barreiras proibitivas), Yoani conseguiu. 

E o primeiro país que decidiu encaminhar-se foi o Brasil. Após uma breve escala no Panamá chegou hoje a Salvador. Foi recebida calorosamente por alguns e em meio a protestos por outros. O mais interessante foi sua reação frente aos protestos que acusavam de estar ligada à CIA e à espionagem estadunidense. Disse que gostaria muito que em seu país as pessoas pudessem se manifestar livremente e sem serem punidas, e que era um banho de pluralidade e democracia. Uma frase imponente que destaca bem o tema que vai levantar nos próximos meses: a liberdade de expressão. 

Com esse acontecimento histórico, posso levantar alguns pontos e hipóteses interessantes sobre os dias que virão. 

A vinda de Yoani é sim um interessante reflexo de um regime que lentamente vai se abrindo e que é sempre teve “dificuldades” de lidar com a dissidência política. As reformas anunciadas por Raúl Castro, incluída a imigratória, apontam para uma mudança gradual na qual o caráter é um distensão sem que se perca o controle político em muitos aspectos. Ao mesmo tempo, quando autorizou a saída da blogueira, o governo deveria já ter em mente o aumento da pressão e exposição que Cuba terá nos noticiários nos próximos dias. 

Pressões externas nunca foram o problema para o país que desde o anos 1960 está excluído da maior parte dos organismos internacionais e ainda sofre sanções de diversos países. Mas, por outro lado, deixar Yoani zanzando por aí talvez seja um sinal estratégico de inflexão na postura externa. O tempo dirá melhor se algumas dessas hipóteses de fato se confirmam ou se é tudo mera especulação provinda de um ato impensado. 

Em sua volta ao mundo, nos próximos 80 dias, Yoani vai trazer o tema da liberdade de expressão e dos direitos humanos de volta ao centro da pauta. O governo cubano terá que dar seus pulos frente a qualquer aumento de pressão, algo que nunca foi um problema. E o Tio Sam se deleitará com esses temas na agenda internacional. Entre protestos e abraços, com certeza, serão 80 dias intensos.


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Revisando…

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Revisar as práticas de Direitos Humanos por parte dos países é uma proposta ousada e bastante abrangente nos dias de hoje. Com este amplo objetivo na esfera multilateral, foi criada há cinco anos a Revisão Periódica Universal (RPU) por parte do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

A ideia é exatamente promover uma revisão periódica (a cada quatro anos e meio) de todos os Estados-membros da organização com a contribuição da sociedade civil e um diálogo interativo por parte dos demais países a respeito de recomendações, críticas ou reconhecimento de boas práticas. [Para entender melhor a estrutura e as fases distintas da RPU, leia aqui e aqui.]

Trata-se de um processo longo e complexo, dividido em diversas etapas. Essa semana se iniciará mais uma rodada de revisões – um dos “ciclos” desse processo durante o qual uma lista de países serão avaliados pelos demais com base em relatórios preparados anteriormente pelo próprio país, pela ONU e por determinados stakeholders (ONGs). Durante o ciclo de duas semanas de reuniões que se aproximam, países como França, Israel e o atualmente comentado Mali estarão no centro do debate. [Para ver o histórico de revisões e quais serão os países avaliados nesta sessão, clique aqui.]

O Brasil foi avaliado em 2008 e novamente no ano passado, tendo recebido uma série de recomendações especialmente em relação às condições do sistema penitenciário, exploração sexual infantil, e o desenvolvimento em geral da situação dos direitos humanos no território nacional.

O caráter participativo da RPU pretende reforçar o papel do Conselho de Direitos Humanos da ONU no aperfeiçoamento das práticas internacionais de respeito à dignidade humana. Os desafios ainda são grandes em cada um dos países (em alguns certamente maiores que em outros…) e o caráter recomendatório de todo esse processo pode significar uma dificuldade aos mais críticos, mas o espírito de construção coletiva na defesa dos direitos humanos não deixa de estar em pauta. A ver durante os próximos dias quais serão as recomendações e comentários em relação aos países avaliados, revisando suas práticas…


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Era uma promessa, mas…

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Estava dando uma olhada em alguns sites de notícias internacionais e me deparei com uma interessante matéria na seção de opiniões do jornal “The New York Times”. Intitulado “Death of a Prisoner”, a acadêmica Laura Poitras nos mostra um vídeo e uma reportagem sobre a recente morte de Adnan Farhan Abdul Latif. Não o conhecia, mas foi aí que surgiu a descoberta do mesmo estar preso na Prisão de Guantánamo desde 2002 acusado de ter ligações com o Taleban. 

Nas palavras de Latif, seu desejo era morrer ao invés de permanecer nas condições em que se encontrava. Precárias qualidades de vida, falta de comida e dias e dias na solitária são alguns dos exemplos citados e mostrados no vídeo. Foi morto ainda em Setembro de 2012 e seu corpo foi enviado com o número #156 ao Iêmen, no Golfo Pérsico, meses mais tarde. 

Depois veio uma surpresa na mesma reportagem: atualmente há 166 presos em Guantánamo, sendo que 157 não foram acusados por crime algum. E as incoerências continuam a todo vapor. Não preciso me ater a falar ou repetir sobre algo já há muito conhecido. Guantánamo é uma vergonha do século XXI. 

Quando assumiu a presidência dos Estados Unidos em 2009, uma das primeiras atitudes “publicitárias” de Obama foi encorajar o fechamento da prisão. Agora, em 2013, mais precisamente no próximo dia 20 deste mês, será completado o 11º aniversário de transferências de prisioneiros para a baía. Não por coincidência, também será a data oficial de reeleição do democrata. 

Era uma promessa, mas… Guantánamo continua a ser a pedra no sapato de Obama. Previsões para a prisão ser fechada? Não existem! A própria Anistia Internacional (AI) tem apelado diretamente à presidência norte-americana para por fim ao que sempre será o calcanhar de Aquiles dos direitos humanos. Para um país dito democrático, liberal e respeitador dos princípios morais internacionais, a Prisão de Guantánamo prova o contrário. 

A meu ver, Obama é o exemplo claro de que mudar um país e, por conseguinte, a política internacional, é mais difícil do que parece. Esperava-se muito dele. Entretanto, quanto maior a expectativa, maior a frustração. Quem não cuida da própria casa, perde voz com seus vizinhos. Sinais dos novos tempos…


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Drama árabe

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75 anos de diferença. O casamento (frustrado) de uma menina de 15 anos com um saudita de 90 anos mereceu a atenção da mídia essa semana, trazendo novamente à tona a injusta situação a que são submetidas mulheres/meninas no Oriente Médio em pleno século XXI.

O casamento infantil é uma prática relativamente comum no Oriente Médio, especialmente na Arábia Saudita, país que não estabelece idade mínima para as bodas (seguindo esta lógica, mesmo um bebê pode se casar!). O caso dessa semana reacende o debate sobre as “noivas meninas” nas redes sociais que têm se tornado cada vez mais comuns por lá, desafiando, por assim dizer, o tradicionalismo do país.

A menina de 15 anos em questão – “vendida” por sua família ao seu (idoso) marido pela bagatela de 17 mil dólares (!) – não soube lidar com a pressão e fugiu em sua noite de núpcias, retornando para a casa dos pais. O indignado marido exige agora a menina ou seu dinheiro de volta

De fato, esses casamentos forçados possuem frequentemente uma justificativa financeira, já que, na patriarcal sociedade saudita, as filhas são “propriedades” do pai, que tem o poder de decisão sobre seu casamento (o qual pode ser fonte de fortunas).

Essa tradição não é nova no país, nem tampouco a promessa do governo de adotar uma idade mínima para os casamentos – em resposta à pressão (?) internacional a este respeito. Contudo, em meio à própria monarquia saudita, o histórico de casamentos com jovens meninas é longo e parece estar longe de ser condenado.

Há tempos as práticas patriarcais sauditas parecem ultrapassar qualquer limite de respeito aos direitos humanos. Hoje, a diferença é que a facilidade de comunicação internacional por meio das redes sociais possibilita uma maior propagação da repugnância a estes casos condenáveis. Contudo, até onde vai o poder da mídia? Por mais que seu papel seja importante, frequentemente esta não se mostra capaz de promover mudanças práticas no plano político – especialmente porque as polêmicas ilustram manchetes por períodos muito curtos de tempo.

Em uma sociedade marcada pelo conservadorismo como no caso da Arábia Saudita, enquanto se aguarda o cumprimento de antigas promessas do governo, muitas “noivas meninas” continuam, infelizmente, a verem seu futuro determinado por casamentos forçados com homens que possuem quatro, cinco ou mesmo seis vezes sua própria idade…


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A nova Guerra Fria?

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O século XX foi marcado pela disputa política e ideológica entre os Estados Unidos e a União Soviética. Os dois países lideravam dois grandes blocos que representavam modelos de vida diferentes. A princípio, o Tio Sam tinha o foco na expansão de sua ideologia, enquanto que, a URSS preocupada igualmente com isso, também tinha ganas de conseguir mais territórios. Mas em uma coisa os dois quase nunca divergiam: a busca de denegrir a imagem do outro, construir signos negativos vinculados ao seu rival tanto pela mídia, filmes e propaganda até por leis e decretos. 

Desde os anos 1990 que as relações entre Rússia e os EUA estavam estabilizadas. Apesar de algumas divergências política e da existência daqueles sentimentos anacrônicos resultado da Guerra Fria, as relações bilaterais iam bem. Acontece que os últimos dias de 2012 trouxeram uma pequena mudança a esse estado de coisas. Uma troca de farpas causada por leis destinadas diretamente aos russos e americanos, promulgadas nos dois países, estremeceram as relações políticas entre os dois países

Tudo começou com o governo estadunidense aprovando uma lei referente a um problema interno da Rússia, o caso de Sergei Magnitsky. O advogado russo que rendeu nome à nova lei, foi preso em 2009 e acabou morrendo alguns dias antes de que completasse um ano na prisão, tempo em que poderia ser mantido em cana sem julgamento. O caso rendeu um grande bafafá internacional naquele ano, pois, a despeito de o governo russo apontar que ele faleceu em virtude de doença, as organizações internacionais de direitos humanos diziam que foi devido a maus tratos e violações de D.H. por oficiais da polícia russa. 

Bom, agora, 3 anos depois, os Estados Unidos resolveram retaliar os suspeitos de envolvimento no caso por meio de uma espécie de “lista negra”. O Ato Sergei Magnitsky, aprovado pelo congresso em Junho e pelo senado em Dezembro, pune os oficiais russos suspeitos de envolvimento no caso, dificultando-os de obter o visto e contas bancárias em bancos americanos. É de se esperar que o governo russo não veria com bons olhos o ato e, rapidamente, as retaliações vieram. 

Em 18 de outubro, os EUA e a Rússia assinaram um acordo regulamentando a adoção internacional de crianças entre os dois países. O tratado que entrou em vigor em 1 de novembro desse ano, foi revogado pelo governo russo. No dia 26 de dezembro, o parlamento deu um “presente de Natal” para famílias americanas, proibindo a adoção de crianças russas por americanos. Apesar de causar divergências entre os próprios russos, rendendo comentários negativos do ministro das Relações Exteriores, e questionamentos de Putin, a nova lei foi aprovada pelo voto de 143 senadores, nenhum voto contra e 42 abstenções. A justificativa dos parlamentares foi fundamentada em denúncias de mortes de pequenos russos nas mãos de pais americanos por maus tratos. 

Todavia, a medida “anti-Ato Magnitsky”, em números, não passará sem efeitos para crianças e adolescentes que iriam ser adotados. Em 2011, 1000 crianças russas foram adotadas por cidadãos americanos e, desde 1999, esse número chega a 45000. Somente nesse final de ano, serão 46 crianças impedidas de obter um lar devido à disputa ideológica entre Estados Unidos e Rússia. Há ainda a questão de que muitos americanos adotam crianças com necessidades especiais. Proibidos de adotá-las, provavelmente, irão busca-las em países vizinhos como a Ucrânia e Georgia, deixando essas outras crianças desamparadas. 

O governo americano acusa a Rússia de violar tratados internacionais (como a Convenção sobre os Direitos da Criança) e passar para as crianças o ônus das dificuldades bilaterais entre os dois países. Todavia, se de um lado, a Rússia irá prejudicar inúmeras crianças e ainda complicar as relações bilaterais, de outro, os EUA, pelo Ato Magnitsky estariam igualmente violando o direito internacional ao intervir em assuntos internos russos. Há, ainda, o risco dessa lista se alargar e passar a complicar a vida de outros russos que não necessariamente tiveram envolvimento com o caso, como já é de se saber que o ocorreu com o Ato Patriota. 

Outra vez existe uma disputa ideológica entre a Rússia e os Estados Unidos. Dessa vez, os EUA defendendo seu novo estandarte, os Direitos Humanos, escudo sob o qual já cometeu inúmeras atrocidades; e a Rússia transferindo os problemas dessa disputa bilateral para aqueles que não tem a capacidade de se defender, as crianças. Esses seriam os germens para o despertar de uma nova guerra fria entre os dois países. Ou, seria somente a manifestação de que, para muitos, ela nem veio a acabar.

[Para mais: 1, 2, 3, 4]


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Gritos abafados?

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Estamos acostumados aos protestos no noticiário internacional, especialmente no caso das revoltas do Oriente Médio. A turbulência na Síria continua, com um novo capítulo agora com a presença de um enviado da ONU/Liga Árabe para negociações com Assad. No Egito, a nova Constituição parece ter sido aprovada mas ainda vai render muito descontentamento e protestos por causa de irregularidades no referendo e o teor controverso da lei. Agora, o que espanta mesmo é o que está rolando na Índia, com uma revolta generalizada por causa de um estupro coletivo

Revolta na Índia parece coisa do passado. O país é atípico, se livrou da dominação da Inglaterra com a “desobediência civil”, e por causa do sistema de castas e da religião, não existem protestos por causa da miséria ou coisa do tipo (como foi, por exemplo, nos países da “primavera árabe”). Por isso soa muito estranho esse caso. Após uma jovem ter sido estuprada em um ônibus e espancada até quase morrer, estouram manifestações violentas e multidões tomam as ruas de Nova Déli, cobrando proteção das autoridades. Claro que a polícia revida do jeito que todos nós conhecemos, ainda mais com a visita do presidente da Rússia marcada para essa semana (em que vão fechar acordos milionários para a compra de helicópteros e caças). 

O fato é que a Índia está somando o pior de dois mundos: a população feminina está basicamente encolhendo como na China (pela preferência tradicional por filhos homens, infanticídio de meninas e abortos clandestinos) e o número de estupros está explodindo como na África do Sul (aumento de 875% nos últimos 40 anos!). Isso num país com população enorme e carência de serviços fundamentais para a maioria.  

Existe uma relação entre pobreza e criminalidade, mas no caso do estupro sempre pesa o fator cultural. Na África chega a ser uma arma de guerra, e no caso da Índia parece ser um elemento de reafirmação de identidade masculina (e falta de caráter, diga-se de passagem) ou qualquer bobagem do gênero. Enquanto isso, quem sofre são as indianas, mais uma vez em situação de risco. Por isso chega a ser uma surpresa positiva o fato desses protestos por justiça, em um país que passa a impressão de “acomodação” (com todo respeito à cultura e tradição local) com relação a questões sociais. Não vamos pensar em termos de “revolução”, mas parece que pode estar havendo uma mudança importante para o povo indiano.


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Realidade cruel

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Tráfico de pessoas. Em pleno século XXI, uma cruel realidade que recebe muito menos atenção do que deveria, se considerado o nível de sua gravidade. O relatório sobre o tema divulgado ontem pelo Organismo das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) referente ao período de 2007 a 2010 traz informações alarmantes: apenas em 2010, uma quantidade aproximada de 12 milhões de pessoas foram vítimas de trabalho forçado, exploração sexual e outras formas de tráfico humano. Segundo o relatório, 27% das vítimas durante este período foram crianças e 55% mulheres. [Confira aqui a íntegra do relatório “Global Report on Trafficking in Persons 2012”.]

A perversa ideia de indivíduos como produtos, tal como sugere a imagem no início do post, ainda faz parte da realidade internacional, apesar de ser um assunto constantemente negligenciado pela sociedade, como se tivesse se encerrado há séculos com a proibição do comércio negreiro. Fato é que a compra e venda de indivíduos ainda ocorre com intensidade elevada nos dias de hoje, especialmente em meio aos mais vulneráveis (mulheres e crianças).

Perceber, a partir dos resultados publicados neste relatório, que a incidência do tráfico para trabalho forçado duplicou em relação aos últimos quatro anos analisados demonstra uma incapacidade internacional de combater esse fenômeno que se intensifica com o passar do tempo, ao invés de ser eliminado.

Segundo as informações oficiais, a quantidade de crianças traficadas varia consideravelmente em cada região do mundo, passando de 16% na Europa e Ásia Central para 27% nas Américas; 39% no Sul e Leste Asiático; e elevados 68% no Oriente Médio e na África. Com uma amplitude de 132 países, a impunidade ainda é, contudo, um traço comum, ressaltando-se as grandes dificuldades de investigação e condenação por este crime.

Em termos realistas, o fator econômico ainda explica o motivo de permanência desta situação: segundo a Organização Mundial do Trabalho, cerca de 32 bilhões de dólares (!) são movimentados anualmente devido ao contrabando humano – valor que é superado apenas pelo tráfico de drogas.

Compreender o contexto atual de tráfico humano faz parte do processo de conscientização sobre a gravidade do problema. Contudo, esperar uma “resposta enérgica” das autoridades, como sugere o diretor do UNODC, para o combate efetivo deste tipo de crime parece ser um desafio muito mais difícil do que se possa imaginar…

 


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África em prantos

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O mundo está um pouco mais aliviado (ou menos preocupado) com o cessar-fogo entre Israel e o Hamas na faixa de Gaza. Pontos para o Egito, ou melhor, pro presidente Mohamed Mursi, que costurou essa frágil negociação e está se consolidando como um articulador regional mesmo que se mostrando cada vez mais um ditador (em versão light). Crianças voltam às escolas, foguetes param de zumbir pelos ares e o Oriente Médio parece (até o momento) escapa de mais uma guerra inútil. Tudo em paz, não? Digam isso pra África. Se um único conflito no Oriente Médio seria um desastre, na África está sobrando guerra. 

Vamos fazer uma contagem rápida. No Oriente Médio teríamos muito mais gente se envolvendo caso o conflito fosse às vias de fato, mas no fim das contas teríamos apenas um Estado envolvido no problema inicial, com Israel versus um grupo militar. Na África? Temos por cima guerras entre dois Estados (coisa meio démodé no resto do mundo) entre Quênia e Somália, Sudão e Sudão do Sul, além de problemas na Nigéria, Mali e Congo. Sem contar os agregados, como Ruanda, já temos 7 países em estado e guerra. Isso sem contar os que ainda se “recuperam” de ondas de violências anteriores, como a Costa do Marfim e a Libéria (onde as coisas ainda estão complicadas). Alguém viu cobertura disso no jornal? 

Na Nigéria o problema é religioso e cultural, com choques de grupos extremistas contra a influência ocidental. No Congo, rebeldes com apoio de Ruanda conquistaram uma cidade importante e prometem destruir o presidente. No Mali, países africanos enviaram uma força conjunta pra retomar o norte do país, que foi tomado pela Al-Qaeda (isso mesmo…) e virou um mini-Afeganistão nos moldes da época do Taleban. Mas o pior de tudo são os conflitos entre Estados. O Quênia está mandando tropas para caçar terroristas dentro da Somália (que respondem com atentados), e os ataques na fronteira entre o Sudão e seu vizinho do sul são constantes. 

Isso tudo já é uma mostra de como a situação é complicada nessas, e mostram cada um do seu jeito as vulnerabilidades dos países africanos. O caso do Congo mostra o cinismo do Ocidente, que em geral faz vista grossa a regimes aliados que causam distúrbios – Ruanda está armando os rebeldes e ainda assim permanece recebendo auxílio militar de países como EUA e Inglaterra. O caso do Quênia mostra como a falência de um Estado (no caso, a Somália) torna o país um oásis para grupos armados e criminosos. No Mali, a expansão da Guerra ao Terror e seus piores resultados, com o fortalecimento de grupos antes inexpressivos e sua migração para países mais fracos, onde podem prosperar. E o mais trágico, com certeza, o da guerra interminável no Sudão, cuja separação foi considerada um caso e sucesso e uma esperança de paz na região, mas que por causa do excremento do diabo, vulgo petróleo, e a cobiça que gera na elites dos respectivos países, fez com que não houvesse progresso com relação à paz. 

São regiões do mundo em que o medo faz parte da vida de milhões de membros de etnias ou religiões minoritárias, o estupro faz parte do cotidiano de mulheres e meninas, e os soldados, muitas vezes meninos, são treinados para odiar a “outra parte” desde cedo e tem uma expectativa de vida que não chega aos 30 anos. Não existe uma “solução” para isso nem a longo prazo. A não ser ignorar ou fingir que não existem. E essa parece ser a solução dada pela mídia e governos ocidentais.


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Nuvens sombrias em Gaza

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Não teria como ser outro assunto – a sombra da guerra se espalha no Oriente Médio, com a Síria em convulsões e Israel atirando para todos os lados, literalmente. A nova onda de ataques com foguetes a território israelense valeu uma resposta absolutamente desproporcional que assombra o mundo desde a última semana. Em última instância, Israel não estaria “errado” ao retaliar ataques contra seu território e tentar desarmar os arsenais do Hamas. Mas quando se compara o grau de destruição causado por cada ataque, é cada vez mais difícil justificar qualquer tipo de apoio. 

Por hoje, vamos focar nas relações regionais – mesmo por que poderíamos ficar o dia todo aqui discutindo sobre a viabilidade do Estado palestino (a solução que acabaria com esse rebu) e como os radicalismos de ambos os lados jogam terra sobre isso. A diferença dessa nova onda de violência com relação à ultima, de 2008, é o fato de que Israel está cada vez mais isolado. 

Culpa da Primavera Árabe, em partes. O Egito, antiga liderança (e que ajudava Israel) agora está muito mais para o lado dos palestinos e do Hamas (primo distante da Irmandade Muçulmana que agora manda por lá). Temos o Qatar e a Arábia Saudita tentando aumentar sua influência mas sob suspeita aos olhos dos árabes (que temem qualquer elite que venha do Golfo). E por último, e mais importante, temos a Turquia. O país azedou as relações com Israel desde o ataque à flotilha de ajuda humanitária e cada vez mais tenta se consolidar como a potência regional em uma parte do mundo que carece de liderança nesse momento. O potencial econômico e militar para isso a Turquia tem, mas faltam elementos culturais, e mesmo os atritos como a fronteira com a Síria. Aliás, esse é um dos principais fatores que pesam na possibilidade de um conflito regional… 

Mais do que as discussões sobre guerras assimétricas ou a natureza de um Estado contra entes não-estatais, fica a perplexidade por conta do excesso de força. Isso por que não faz sentido que Israel comece um conflito desse tipo agora – e parece ainda mais despropositado clamar que reduzirão a outra parte “à idade média”. Se um conflito no Irã parece pouco vantajoso por causa das dificuldades logísticas, quanto mais contra todo mundo ao redor e com a opinião pública mundial ficando contrária a essa violência. Ascensão de ultra-conservadores ao poder? Saber que terão apoio dos EUA e fazer o que der na telha? Conspirações? O mundo fica de olho no que vai resultar das possíveis negociações no Egito, e na possibilidade de um cessar-fogo que evite um massacre ainda maior – e tomara que deem certo, já que a chance de invasão caso as negociações fracassem é iminente.


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O peso dos imigrantes.

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Obama está re-eleito, e vamos ter bastante o que falar dele nos próximos 4 anos. O homem mais poderoso do mundo está cheio de problemas pra resolver – a maioria no campo interno, especialmente a cambaleante economia dos EUA que está à beira de um abismo fiscal (corte de gastos e elevação de impostos programada para o começo de 2013). Fora, o presidente que ganhou um Nobel da Paz sem fazer nada (e em cujo mandato mais se matou gente com drones violando espaço aéreo estrangeiro e todo tipo de direito internacional) tem que lidar com a crise na Síria (onde não pode fazer muita coisa mas tem muito a perder num eventual transbordamento) e as provocações usuais do Irã. Isso pra ficar no que mais dá notícia, por que existem temas menores que passam até despercebidos, e um deles afeta os dois lados da política norte-americana, podendo influenciar até mesmo nas próximas eleições, que é a questão da imigração.

Obama teve um apoio enorme dos hispânicos nas eleições. O que surpreende, por que não apenas fracassou em tocar a reforma das leis de imigração (promessa do primeiro mandato), como nunca na história desse país se deportou tanta gente – mais de um milhão de pessoas em 4 anos, com o recorde anual de quase 400 mil em 2011. Mas como malandro é malandro, em junho suspenderam as deportações para imigrantes que chegaram crianças e moraram pelo menos 5 anos ininterruptamente, o que anistiou quase 1 milhão de pessoas e deu no que deu semana passada. Agora os partidos dos EUA tentam negociar o avanço da reforma dessa legislação, e Obama está com a faca e o queijo na mão para dar um jeito na regularização dos quase 12 milhões de ilegais, na maioria hispânicos. 

Existem, na verdade, 3 fatores para que essa reforma seja viável agora. Primeiro, as reformas influenciam muito mais os ilegais que já estão nos EUA (e fazem parte da vida política de lá) – para os que vêm de fora, deve continuar a vida dura e a dificultação da entrada. Segundo, mesmo com as pressões no México, especialmente por causa da matança do narcotráfico, o número de imigrantes indo para os EUA tende a diminuir com a economia como está, e isso pode reduzir a tensão e pressões sobre os grupos que já estão no país. E terceiro, os partidos dividem congresso (maioria republicana) e senado (maioria democrata); Obama não vai chegar a lugar nenhum com oposição de uma das casas, e essa é uma chance interessante de orquestrar uma cooperação ou diálogo para depois entrar nos temas mais sensíveis. 

Ficou a lição: os partidos parecem ter compreendido que a questão da imigração não passa pela exclusão, e que ser anti-imigrante (como a ala radical dos Republicanos) causa muito dano eleitoral. Isso traz um pouco a questão de que o próprio país foi construído por imigrantes (indígenas à parte), e essa imagem de “herança migratória” parece estar ganhando força nessa discussão. Obama deve ficar atento a isso tudo e reavaliar o draconismo de suas políticas de imigração – boa parte dos republicanos que estão cotados para 2016 são jovens, libertários e em sintonia com o voto hispânico. E o resultado das políticas que estão sendo discutidas agora vai definir quem essa parcela enorme de potenciais eleitores vai apoiar.


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