Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento

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A Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento é um assunto que tem alcançado repercussão crescente em nossa agenda de relações internacionais. O lançamento, há uma semana, de relatório com dados relativos ao ano de 2010 a esse respeito só evidencia a forma como o tema já pode ser considerado uma prioridade para as diretrizes nacionais de política externa.

Em primeiro lugar, é importante considerar que o que se entende por cooperação em termos gerais faz parte de uma estratégia brasileira que existe há muito tempo, desde a década de 1950. Contudo, até 2005, é bastante difícil distinguir entre as modalidades desta cooperação, tornando a análise complicada, já que as definições de cooperação técnica e cooperação humanitária, por exemplo, muitas vezes se confundem nesse período.

A partir de 2006, importantes são os esforços de institucionalização e aprimoramento na promoção dessa cooperação por parte do governo. A criação, por exemplo, do Grupo de Trabalho Interministerial sobre Assistência Humanitária Internacional naquele ano reflete, por um lado, a relevância do tema e, por outro, a falta de mecanismos internos devidamente articulados para a necessária coordenação que se espera de um país com participação cada vez maior nesse cenário.

A dificuldade em termos de transparência e sensibilização do tema em meio à sociedade civil também é grande. Em 2010, foi lançado pela primeira vez um balanço oficial a respeito dos investimentos em cooperação promovidos pelo governo entre 2005 e 2009, com dados e informações orçamentárias agrupadas em um só relatório.

O que se entende por cooperação, neste relatório, foi sistematizado em cinco grandes áreas: (1) assistência humanitária; (2) bolsas de estudo para estrangeiros; (3) cooperação técnica, científica e tecnológica; (4) contribuições a organizações internacionais e bancos regionais; e (5) operações de paz. (Todas as informações se encontram disponíveis no primeiro relatório de balanço aqui.)

A metodologia do relatório ainda precisa ser aperfeiçoada e melhorias ainda para evitar informações desencontradas em relação aos valores são necessárias. Mas a iniciativa em si merece, sem dúvida, mérito no avanço para tornar transparentes os investimentos brasileiros nesta área.

Com o lançamento do segundo relatório da mesma série (só que relativo a 2010) há uma semana, o principal questionamento é o fato de este material estar sendo disponibilizado com mais de dois anos de atraso (!), o que foi justificado por questões de acertos metodológicos. Com um aumento de quase 100% em relação aos recursos investidos na mesma área durante os anos anteriores, 2010 representou um ápice em termos de cooperação – principalmente devido aos esforços brasileiros no Haiti. (Veja o novo relatório e todos os investimentos em cooperação no ano de 2010 aqui.)

Desde então, o pico jamais foi alcançado novamente, mas os dados recentes ainda não se encontram totalmente disponíveis, o que deve ocorrer, segundo previsões otimistas, ainda antes do final deste ano.

Pode-se certamente afirmar que a cooperação para o desenvolvimento tem alcançado patamares inéditos e que sua importância para a agenda brasileira é crescente. Contudo, a necessidade de aperfeiçoamento das metodologias utilizadas para o monitoramento e a prestação de contas dos projetos também é nítida e os esforços neste sentido têm começado a ser empreendidos muito recentemente.

Isto reflete a importância de se desenvolver a área de cooperação para o desenvolvimento, revelando à sociedade civil e à comunidade internacional todo o potencial e o impacto das ações brasileiras realizadas de forma objetiva e transparente, tal como deve ser qualquer ação governamental. 


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Melhore, Mandela

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Melhore, Mandela. Melhore porque sua contribuição para a construção de uma sociedade baseada na igualdade racial ainda não está encerrada, apesar de já ter sido esplêndida. Melhore porque seu ativismo e seu exemplo político ainda emanam vida, muita vida em seus 95 anos quase completos. Melhore porque o mundo ainda não está preparado pra se despedir de você, herói sul-africano, herói internacional.

E, de fato, não estamos preparados e nem devemos nos preparar. Após mais uma internação preocupante (pela quarta vez desde dezembro do ano passado), por conta de uma infecção pulmonar, Mandela passa bem e se recupera, a um mês de completar 95 anos de vida. A data do seu aniversário é, na verdade, reconhecida pela ONU como o seu próprio Dia Internacional, em homenagem a tudo que Mandela construiu e representou em sua luta – ou melhor, representa em um mundo ainda carente de diálogo inter-racial e paz em tantas localidades em conflito.

Se a história de Mandela marcou a luta contra a segregação racial no século XX, desde o fim do apartheid muitos desafios em termos de igualdade racial permanecem não apenas na sociedade sul-africana, mas em todo o mundo. Ainda é, infelizmente, mito dizer que não existe racismo no Brasil, por exemplo, assim como ainda há muito que ser discutido para que eliminemos a discriminação nos mais diversos âmbitos da sociedade.

Se, segundo suas próprias palavras, “o que conta na vida, não é o quanto se viveu, mas a diferença que fizemos para a vida dos outros”, a certeza de que este líder fez e faz a diferença no mundo é clara. Por isso e por tudo o mais, melhore, Mandela, melhore, por favor.


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Sobre patos e tanques

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Patos amarelos no lugar de tanques. Essa foi uma das formas que internautas encontraram para, driblando a censura, relembrar uma data que marcou tristemente a história chinesa em termos de direitos humanos. Ontem completaram-se 24 anos desde o massacre ocorrido na Praça da Paz Celestial (Tiananmen) e esta foi uma das maneiras de disseminar o assunto nas redes sociais na China.

O número de vítimas do massacre, na verdade, nunca foi confirmado (sendo estimado em cerca de 4 mil mortos e 60 mil feridos por certas fontes) e qualquer recordação pública deste acontecimento é ainda hoje refreada pelo governo, assunto tabu mesmo mais de duas décadas depois. Tanques de guerra (!) – hoje ironizados pelos patos amarelos, inspirados na obra de um artista holandês que fez sucesso em Hong Kong recentemente – foram enviados pelo Partido Comunista para reprimir protestos inéditos por liberdade e democracia.

Protestos estes pacíficos que, iniciados por universitários, reivindicavam mudanças, maior transparência e liberdade a nível nacional. Sua repressão e as informações sempre nebulosas por parte do governo neste sentido demonstram que o gigante chinês ainda encontra no respeito aos direitos humanos sua maior fraqueza.

No último domingo, faleceu o prefeito de Pequim à época, o qual foi um dos principais responsáveis pela brutalidade na repressão aos protestos, condenado à prisão por crimes de corrupção. Mudam-se os indivíduos, mas não a influência do Partido Comunista no país. A influência que ontem foi responsável por tantas mortes após reivindicações pacíficas hoje tenta de todas as formas invisibilizar as memórias deste acontecimento trágico, evitando o reconhecimento de sua importância.

A verdade é que os esforços governamentais parecem levar a um efeito contrário, indesejado pelo governo, de motivar os estudantes de hoje a buscarem novas formas de manifestação, tornando o assunto, de alguma forma, cada vez mais visível para as sociedades chinesa e internacional. Grandes patos amarelos que representam a ironia de um regime que ainda comanda uma gigantesca potência sem o devido (e necessário) respeito aos direitos humanos de sua população. 


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Existem limites?

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A mais nova atrocidade cometida no contexto dos conflitos na Síria chegou às manchetes essa semana e levanta uma questão: existem limites? Em uma situação de conflito interno que talvez já tenha ultrapassado todos os limites de violência e de vítimas inocentes que poderíamos supor existir em pleno século XXI, este caso vem para impressionar pela crueldade do ato – que por si só já é motivo de sobra para enorme repulsão – mas, paradoxalmente, pode trazer o debate a um nível diferente, em que (mais do que) urgente é a tomada de decisões para evitar situações parecidas.

Para quem não viu nos noticiários dos últimos dias, o caso em questão se refere ao rebelde sírio da cidade de Homs, identificado como Abu Sakkar, que foi filmado arrancando o coração (ou o fígado, segundo outras fontes) de um soldado sírio já morto e mordendo tal órgão. Trata-se de uma situação de tamanha degradação humana que não é necessário visualizar o vídeo em si para imaginar a cena (apesar de este estar disponível no YouTube).

Alegando a política de Hamurabi de “olho por olho, dente por dente”, a justificativa (se é que se pode chamar assim) de Sakkar é de que foram encontradas imagens gravadas no celular do soldado de abusos sexuais cometidos anteriormente por este. É claro que nenhum julgamento é fácil e que o conflito sírio é muito mais complexo e envolve muito mais interesses que se possa imaginar, mas a brutalidade deste ato parece trazer o debate para um nível diferente.

Um crime de guerra de tal repercussão cometido por um rebelde em um contexto de conflito armado que perdura desde março de 2011 e que já causou aproximadas 80 mil mortes (ou 120 mil, de acordo com outras fontes), além de mais de um milhão de refugiados (mapa interativo sobre a situação dos refugiados aqui) e milhões de deslocados parece (ou pelo menos deveria) ser o estopim para que os esforços pela paz sejam redobrados, triplicados, multiplicados por todas as menores chances de se alcançar um diálogo entre governo e rebeldes pelo final da violência no país.

Uma Conferência de Paz está sendo proposta pelos Estados Unidos e pela Rússia para junho, mas informações relativas à possibilidade de não comparecimento do governo sírio já foram divulgadas, alegando riscos à soberania do Estado… será?

O rebelde “canibal” alega não estar arrependido de sua atitude, mas líderes do maior grupo rebelde da Síria garantem que ele será punido por sua conduta, sugerindo que, sim, existiriam limites à crueldade e que a indignação seria compartilhada por todos os lados. Com tamanha crueldade ele agiu (e quem saberia dizer quantos outros combatentes, rebeldes ou partidários do governo têm agido sem serem filmados?), mas também com crueldade ele será provavelmente punido, e de enorme crueldade (mas talvez não tão midiatizada) milhões de inocentes estão sofrendo, em incontáveis dramas anônimos e particulares…

A comunidade internacional se comove, se choca e se revolta. Contudo, ainda assistimos impotentes a uma carnificina que aflige a população síria e cuja perspectiva de solução ainda parece estar longe de ser alcançada no plano político. Existem, pois, limites? 


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150 anos de Cruz Vermelha

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Há 150 anos, ninguém talvez pudesse imaginar que a iniciativa de um homem de pensar em formas para aliviar o sofrimento humano em situação de conflito armado proporcionaria as bases para a criação de uma organização de porte inigualável no mundo inteiro.

No dia 08 de maio comemora-se o Dia Mundial da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, ao relembrar-se a data de nascimento de Henry Dunant, seu principal fundador. Este suíço foi levado pelo acaso a vislumbrar os horrores da batalha de Solferino em 1862, na Itália, o que o fez perceber que os feridos e as vítimas de guerras não recebiam o suporte mínimo necessário à sua dignidade enquanto seres humanos.

Não por acaso, entretanto, ele posteriormente relatou sua experiência e idealizou a proposta de uma instituição que, em sua neutralidade, pudesse proteger os civis das consequências nefastas de conflitos e desastres. O Movimento Internacional da Cruz Vermelha aí se delineava – pelas ruas de Genebra e pelos meios políticos suíços em que este lograva difundir seus ideais.

Sendo por muitos considerado o pai do “humanitarismo moderno”, foi no ano de 1863 que Dunant viu os primeiros frutos de sua mobilização, alcançando apoio político para tornar real o seu projeto. “Tutti fratelli” (“todos irmãos”, em italiano) se tornou uma mensagem aos poucos internacionalmente reconhecida, já que aqueles afetados por um conflito armado deixariam de ser julgados pelas bandeiras que defendessem, passando apenas a tornar-se indivíduos em situação vulnerável, precisando de apoio.

Muitos seriam os posts necessários para detalhar o histórico e a importância desta organização e de seu principal fundador. Talvez seja, por ora, suficiente apenas ressaltar que, 150 anos depois, o ideal de uma pessoa propiciou a mudança da realidade de milhões, sejam estas vítimas dos vários conflitos que foram vivenciados no mundo inteiro; voluntários que descobriram sua vocação de ajudar através de uma instituição que lhes proporciona segurança e garantia de imparcialidade; Estados que têm trabalhado pelos princípios do Direito Humanitário Internacional; ou apoiadores em geral que tornam a credibilidade da Cruz Vermelha amplamente reconhecida pelo mundo afora.

A noção de que o uso da força deve ser regulado mesmo em momentos de guerra (que pressupõem situações extremas), acompanhado por um espírito de proteção dos direitos humanos tornam esse dia importante no contexto internacional. Sendo celebrada em todo o mundo, a data reconhece o trabalho já realizado nesta área e relembra os Estados e indivíduos das obrigações assumidas nas mais diversas situações atuais de conflito, reconhecendo o impacto positivo dos esforços de assistência humanitária e de promoção da dignidade humana em todas as circunstâncias…


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O nó congolês

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O leitor que percorreu o noticiário ontem certamente se deparou com a notícia do brasileiro convidado, pela ONU, para exercer o posto de Force Commander da maior missão de paz da organização, a MONUSCO. Trata-se do general Santos Cruz, cujo histórico fala por si mesmo. E como anda a República Democrática do Congo (RDC), futuro destino do chefe militar brasileiro? 

O país é um caos completo faz tempo. Desde os idos de 1994, quando a massa de refugiados de Ruanda importou o conflito hutus x tutsis pro antigo Zaire, a guerra escalou, trouxe junto quase toda a vizinhança, incluindo Angola, Uganda e Zimbábue, e resultou na invasão que derrubou o presidente Mobuto, em 1997, criando a RDC. Claro que o conflito (dentro e fora) não acabou e em 1999 a ONU mandou sua missão de paz original (MONUC) para garantir o cessar-fogo e checar o desarmamento dos dois lados do conflito. Em 2010 a missão mudou de nome, virando a atual MONUSCO, com a função de agregar “estabilização” a suas funções. 

O pulo do gato acontece esse ano, com a resolução 2098, que cria uma inédita brigada de intervenção, com a finalidade de agir em defesa dos cidadãos e autorizada a neutralizar de modo ativo grupos armados. Serão 3 batalhões de infantaria, um de artilharia e um de operações especiais e reconhecimento, composto na maioria por soldados de países africanos. Desse modo, a missão de paz do Congo vai se tornar a maior da ONU, ultrapassando a do Sudão, assim que os 3.000 homens da brigada de intervenção forem para lá. Também continuará sendo a 2ª mais custosa, perdendo apenas para o Sudão. Seja pela presença da ONU cada vez mais “sofisticada”, seja pela gradual influência dos vizinhos no conflito (e haja vizinhos), vê-se que a situação no Congo é desesperadora. 

A própria criação dessa brigada contrasta com o mandato da missão original. Em 2010, a ideia era garantir segurança de pessoal e dos direitos da população. Hoje, a ONU parece reconhecer que a coisa está fugindo do controle (só agora?) e o caso do Congo está complicado o suficiente para exigir uma inédita ação pela força. Qual o problema aqui – o modelo de missão anterior que não funcionou, a situação do país que não colabora, interesses mais obscuros ou uma mistura de tudo isso? 

Aproveitando o comentário feito sobre a postagem de ontem, a pergunta inevitável é: até que ponto a RDC é soberana? Marcado por um duopólio irregular do emprego da força, divido entre facções rebeldes – com destaque para o M23 – e as Forças Armadas que não cumprem, de cara, o requisito mínimo para se tratado como Estado. Há um anacronismo: os soldados cometem as mesmas violações de direitos humanos, notadamente o estupro, que os rebeldes. Assim, como é possível acreditar no governo congolês? Como se sentir seguro e acreditar que o Estado zela pelos direitos de seus cidadãos? 

Não podemos deixar de considerar a influência de fora, especialmente de Ruanda, que financia o M23. O problema nunca vai ser resolvido se deixarem de lidar com essa interferência externa. Mas analistas de relações internacionais não perderiam seu tempo e, apressadamente, lançariam seus conceitos: o Congo é um “estado falido”, deve-se adotar a “reconstrução do estado” (nation building). Tomadores de decisão de todo o mundo, no conforto de seus escritórios, evocariam a tal da “responsabilidade de proteger”. Tudo isso constitui uma assemblagem acadêmico-conceitual para conferir eufemismos a algo simples, já dito por Krasner: a soberania, em essência, se tornou uma hipocrisia organizada. Desde a era vestfaliana, acentuando-se no século XX, a soberania foi violada, seja pela força, seja pela diplomacia, mas, ainda assim, prevalece como um princípio constitutivo das relações internacionais, ajustando-se a cada caso. Talvez o Congo seja o caso mais extremo dessa realidade, com um Estado à mercê de interesses diretos e indiretos de fora e resultando em um conflito permanente. 

Um país dilacerado pela guerra há quase 20 anos, que sofre com interferência estrangeira (do comércio de mercado de minerais preciosos à presença física de tropas), conflitos étnicos compartilhados com quase todos os vizinhos, onde o estupro é uma vergonhosa realidade cotidiana – empregado como uma arma de guerra e de opressão – e no qual a ONU finalmente parece tomar uma atitude mais dura, que pode representar tanto um novo paradigma de atuação quanto a possível falência do sistema. Esse é o novo desafio do general Santos Cruz, e uma nova, e talvez definitiva, esperança para aquela nação sofrida.


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Regulamentando…

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O comércio mundial de armas não é assunto novo. Trata-se de um negócio que movimenta 70 bilhões de dólares por ano, envolve interesses geopolíticos e estratégicos internacionais e tem como consequência um número elevado de vítimas inocentes.

Pela primeira vez, e após muitas tentativas, foi finalmente aprovado na Assembleia Geral da ONU um tratado sobre o tema. Ontem foi um dia histórico para as negociações multilaterais, em que – após o fracasso na busca do consenso semana passada – o tratado passou com 154 votos a favor, 3 contra (dos polêmicos Irã, Síria e Coreia do Norte) e 23 abstenções.

Em termos gerais, não se trata de regulamentar o uso doméstico de armas, mas de atrelar a exportação de armamentos ao necessário respeito aos direitos humanos. Se os Estados o ratificarem, estarão assumindo a responsabilidade de não exportarem armas convencionais se tais armas porventura violarem embargos ou promoverem atos de genocídio, crimes contra a humanidade ou crimes de guerra. Além disso, o tratado também contempla a proibição de exportação de armas convencionais que possam vir a ser usadas em ataques contra civis ou escolas e hospitais, por exemplo.

Apesar de não controlar a questão das armas no plano interno, o tratado exorta o estabelecimento de regulamentações nacionais de controle da transferência de armas convencionais, partes e componentes, além de recomendar que a negociação de armas seja também regulamentada. O tratado deverá começar a ser ratificado em junho, com a expectativa de entrada em vigor ainda antes do final do ano.

Muito ainda precisa ser feito neste âmbito no plano interno* e o assunto com certeza ainda está começando a alcançar a atenção desejada no plano internacional. A dificuldade em alcançar consenso é diretamente proporcional aos intere$$es envolvidos, tornando o debate polarizado no cenário internacional como um todo.

A força de um texto aprovado pela Assembleia Geral está certamente ainda longe de promover um nível de regulação rigoroso aos Estados, mas a conquista no plano multilateral** a partir deste tratado é inegável. Ao trazer o tema à tona na agenda, a política de respeito aos direitos humanos é fortalecida e o questionamento – com maior legitimidade e força internacional – sobre o comércio de armas em situações de violações visíveis de direitos humanos por parte de organizações da sociedade civil é possibilitado.

 

*Apenas para se ter uma ideia da situação no que se refere às vítimas: 2000 pessoas são mortas por armas de fogo a cada dia no mundo. No Brasil, O número de mortes por armas de fogo aumentou 346,5% de 1980 a 2010, segundo informações de estudo divulgado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos e pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais. Entre 2004 e 2007, os 12 maiores conflitos do mundo causaram a morte de 167.574 pessoas. No mesmo período, 192.804 (!) mortes por armas de fogo foram registradas no Brasil.

**Vale a pena a refletir sobre a consideração de Mauricio Santoro, Analista da Anistia Internacional, de que “hoje é mais fácil exportar uma arma real do que uma de brinquedo, por que a exportação de um brinquedo é regida por diversas leis comerciais, o que não ocorre com a venda de armas convencionais”… 


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O respeito e as diferenças

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Esse post é apenas uma reflexão sobre diferenças culturais e religiosas e os ideais que nomeamos como igualitários e formadores de uma tolerância para vivermos em paz em um mundo plural. 

Coreia do Norte, Islamismo e a Direita americana. Marcos Feliciano ou Bolsonaro. Nas discussões tanto da política nacional como da internacional, figuras como essas sempre aparecem cumprindo os mais múltiplos papéis. Com suas diferenças, em uma característica se parecem: são os personagens que desafiam as ideias mais comuns do que se prega no ocidente como caminho para um futuro melhor.

No post de ontem do blog, fomos apresentados a ideia criada de um mundo sem conflitos, fabricado no que seria o último pós guerra da história. Verdade ou não essa ideia, ainda mais após as diversas batalhas e massacres que estiveram envolvidos os maiores defensores de que vivemos em um mundo de paz, como os EUA, sempre houveram os antagonistas à Ordem estabelecida, nos dois sentidos da palavra. Mas não somente no conflito entre países que se espalham ideias totalizadores, de inserção, e seus críticos. 

As diferenças culturais, por exemplo, atravessam todos os comportamentos do ser humano individual ou de grupos específicos, menores que a população de países e seus governos. Assim, se formam as mais diferentes práticas e visões de mundo, muitas delas apenas importantes para a maioria como fato curioso. Mas como sentimos as diferenças quando elas vão contra aqueles comportamentos que incontestavelmente vemos como ideais? A maior parte do tempo isso se passa desapercebido, até que nos deparamos com alguma ação que achamos bizarra. 

Nessa semana tivemos dois exemplos disso. O primeiro, um estupro coletivo na Índia contra uma turista. Tudo ainda observado pelo marido impotente.É certo que na Índia o estupro é considerado crime, mas se torna um fato bastante comum em um país extremamente dominado pela vontade dos homens. Um exemplo disso é também o costume bastante comum no país de casamentos arranjados entre homens e crianças de apenas oito anos de idade. Em outro momento da semana, soubemos do apedrejamento de um homossexual condenado na Somália,  legitimado pela lei do país como punição ao crime de se manter relações com o mesmo sexo. Diante disso, como deve se comportar a população ocidental esclarecida, as organizações e os governos defensores da igualdade e ditos contrários ao preconceito? 

Durante pelo menos a primeira metade do século XX, a ideia de que os valores deveriam ser impostos foi bastante comum. As críticas a intervenção, ao imperialismo e ao ocidentalismo fizeram com que surgisse um outro grupo: os defensores da autonomia de cada cultura. Até que ponto podemos influir em outra cultura? Para esse grupo em basicamente nada. Todas as mudanças de posturas e revoluções deveriam ser feitas pela própria população. Como se cada qual fosse dono do seu nariz.

O grande exemplo está entre as feministas do não envolvimento em relação aos outros. As mulheres lutam pelas mesmas bandeiras no mundo como se fossem um grupo só, ou cada grupo de mulheres, dependendo da cultura, da cor ou do extrato social devem lutar pelas suas próprias melhorias? Essa discussão chega ao seu limite de radicalismo ao vermos a questão da mulher em culturas que, por exemplo, exigem a cirurgia do clitóris na infância, para que a mulher não tenha nenhum prazer sexual durante a vida. Parte das feministas defenderam que um país assim deveria ser “liberto” de tais ideias. Outras, já enxergaram que parte do papel da mulher nessa sociedade é o de sofrer essa cirurgia, e que se retirassem delas essa marca, elas seriam completamente engolidas pela cultura, párias, seres sem identidade. Entretanto, Bolsonaro também não defendeu a continuação do papel tradicional da mulher como algo bom a sua felicidade? O que desejamos e defendemos para os nossos equivale aos outros?

Quando o que achamos errado ocorre em nossa sociedade ficamos indignados. Quando ocorre em outras, qual deve ser nossa reação? Até qual ponto podemos nos posicionar a realidade de outros povos? Em certo ponto, existe algum novo valor que deve ser universal?

Uma das premissas constantes do discurso do deputado federal Bolsonaro, o maior acusado de homofobia no Brasil, é a “liberdade de expressão” a que  estamos sujeitos como desculpas ao seu ódio. Portanto, devemos “engolir” tudo o que o congressista fala como aceitável pela sua premissa ou devemos e podemos contestar suas ideias e opiniões? Até qual ponto medimos uma liberdade pela outra? E assim, até qual ponto medimos que uma cultura diferente é apenas destoante, contrastante da nossa e que deve ser aceita pelo discurso de pluralidade, ou deve ser negada por não se enquadrar a valores que por tanto tempo lutamos?  Contudo, é muito mais fácil quando nos deparamos com informações sobre as meninas islâmicas aceitarem que naquela cultura aquelas são as suas crenças, e não criticar como sendo esses costumes uma afronta aos direitos das mulheres. O mesmo poderia ser pensado a respeito de Marcos Feliciano e os evangélicos conservadores que se colocam totalmente contra aos direitos homossexuais? Ou o ocidente perdeu a cultura, somos agora superiores próximos à sociedade perfeita, e devemos ser pacientes com as superstição e crenças de massa? 

Como expectadores nos tornamos impotentes e prudentes diante de um fato desses, e chegamos a admitir que esse costume das mulheres islâmicas é um habito cultural, o que seria impensável se essa mesma violação dos direitos de uma mulher acontecesse nas nossas fronteiras culturais. O que esquecemos é que até pouco tempo atrás tínhamos costumes que hoje consideramos repugnantes. A discussão entre a existência de valores universais para esses pontos é um posicionamento que deve recair em nossa geração, e seremos nós que teremos que tomar alguma posição, quanto a aceitá-las ou negá-las totalmente. Tanto no discurso da câmara, a pensamentos de uma religião ou as práticas de outros povos. Lembrando que essa discussão não tem significado de intervenção ou de contestação de uma cultura inteira, mas sim das ideias que defendem cada uma dessas, isoladamente. Façamos uma reflexão!


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Ota Benga e "Vem Sean Penn"

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A maioria dos que lerem este post certamente terá nascido no fim do século XX, provavelmente dos anos 80 em diante. Estarão mais do que familiarizados com a ideia de que o mundo está vivendo grandes mudanças, cada vez mais velozes. Em nosso próprio cotidiano, nas propagandas que vemos ou lemos, sempre há o anuncio de algo novo, ainda mais quando falamos em tecnologia. De forma geral, foi no século XX que as alterações pisaram no acelerador. Mudanças por vezes tão radicais, que não conseguimos enxergar como eram certas coisas anteriormente ao nosso tempo. Quero mostrar, por meio de dois exemplos, os impactos do século passado no comportamento humano.

As duas fotos do início do texto representam pessoas comuns, sem significado histórico. A primeira delas é de Ota Benga, um Pigmeu aprisionado no Congo Belga em 1904, e levado dois anos depois a um zoológico Humano nos Estados Unidos. “Zoológico Humano” é um termo que pode soar estranho a maioria, mas era um tanto comum a existência de um local onde pessoas consideradas “menos desenvolvidas” eram expostas como animais, na maioria das vezes para cientistas, aristocratas e curiosos. Visitavam os zoos uma nata dos mais abonados cidadãos dos países ricos. O costume era apenas um dos prenúncios do que ocorreria no primeiro quarto do século passado: o aumento do poder da teoria cientifica do Racismo e da Eugenia.

A década de 20 e de 30 não tardaria a expor a força de tais grupos. Órgãos políticos e científicos internacionais surgiram sob as asas dessas teorias. Entre as ciências que inicialmente caminharam juntas com os Racistas está a Demografia, que havia acabado de nascer. Fácil foi para esses grupos enxergarem no Nazismo a possibilidade de porem em prática o que achavam correto. Logo, o mundo receberia sua primeira versão moderna de inserção, a visão de um ser humano universal. Por incrível que pareça, uma das bandeiras do Nazismo era a universalidade. Porém, isso só seria alcançado se as pessoas de “Raças” menos desenvolvidas e deficientes físicos e mentais fossem caçados, quando não, exterminados.

A ascensão e a queda do Nazismo foi também a demonstração real das consequências de uma sociedade Eugênica e Racista. O fim da Segunda Grande Guerra também marcou a fundação de órgãos como a ONU e a refundação de tantos outros, antes sedimentados no Racismo. As mudanças no mundo foram muito além do surgimento de novas instituições. Também houve uma mudança comportamental das sociedades e de seus grandes líderes. A inserção de valores humanitários se transformou em uma bandeira mundial, defendida no campo da política internacional. Assim, o combate ao Racismo, o respeito aos deficientes e até mesmo o combate de ideias nocivas atuais, como os que querem a utilização de métodos contraceptivos forçados em pessoas de países pobres, tem forte oposição. A “tolerância” se transformou em tema central das discussões políticas internacionais, sendo recorrente no discurso de líderes e instituições de todos os tipos.

Assim, chegamos ao século XXI, no qual entre tantos outros exemplos, está o de Ariel Goldenberg, ator brasileiro com Síndrome de Down. Durante as últimas semanas se transformou em celebridade, enquanto buscava a realização do sonho de conhecer o ator americano “Sean Penn”. Como veem, Ariel é uma pessoa bastante comum, com sonhos bastante comuns. As notícias que seu nome aparece fazem partes dos sites de celebridades e de fofocas. Mas mesmo assim, o exemplo dele pode ser usado como reforço de que cada dia os esforços políticos e da sociedade fazem com que quebremos o preconceito ao que classificamos como diferentes. Algo que para alguns pode ser bastante comum, mas olhando para apenas cem anos atrás vemos o salto do comportamento humano sobre o tema.  Ariel e Ota Benga, o presente e o passado. Entre eles a história, que nos faz compreender a dimensão das mudanças humanas no último século, muito além da tecnologia.


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Comprometamo-nos!

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Pessoas que marcam o cenário internacional constroem suas trajetórias todos os dias. Através de suas obras, decisões e posicionamentos, delineiam o curso da história e reavivam a esperança de melhoras e mudanças positivas. Em um dado momento, porém, estas pessoas inevitavelmente nos deixam, perpetuando-se na forma de seus legados.

E ontem foi a exemplar trajetória de Stéphane Hessel que se eternizou, levando-nos a realizar merecidas homenagens póstumas. Após sobreviver aos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, este franco-alemão iniciou sua carreira diplomática, fortemente marcada pela defesa dos direitos humanos e de causas humanitárias. Um marco importante foi sua participação na elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, contribuindo, a partir daí, durante toda sua vida para o avanço dos direitos humanos pelo mundo.

Já ao final de sua vida, talvez uma de suas mais importantes contribuições tenha ainda ocorrido: seu livro “Indignai-vos!” (2010) foi um chamado à resistência dos jovens, uma forte crítica para que se indignem contra a situação atual de forte dominação do capital e das altas finanças econômicas. Este livro (disponível aqui), com cerca de quatro milhões de exemplares vendidos pelo mundo afora, foi a inspiração dos movimentos mundiais contra as injustiças sociais e econômicas, tal como os “Indignados” espanhóis.

Mais importante ainda que a indignação, seu chamado ao comprometimento dos jovens representa um esforço que deve ser perpetuado por todos nós, cada qual em seu contexto e através de seus instrumentos. Indignados e inspirados pela trajetória deste pensador, comprometamo-nos, pois, em busca de também fazermos a diferença em nossos próprios entornos sociais. 


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