Visão 2020

Por

Quando se fala sobre Ruanda, inevitavelmente a primeira lembrança que nos vem à tona é a do genocídio ocorrido no país em 1994, o qual marcou tristemente a década pela brutalidade dos atos cometidos de uma luta étnica que beira o inexplicável, o inenarrável.

Às vésperas de completarmos 20 anos desse triste marco histórico, a verdade é que Ruanda busca se reerguer e alcançar o desenvolvimento nacional para ser lembrada de outra forma, recriando a história de um povo que luta para crescer e arquivar em um passado (cada vez mais) distante a violência e o desgaste causado pelo genocídio.

No ano 2000, o governo lançou o projeto “Visão 2020”, cuja principal meta é viabilizar a transformação do país em uma economia baseada em tecnologia, espelhando-se no exemplo asiático de Cingapura. O projeto “Um laptop por criança” inclui-se neste contexto, iniciado há cinco anos pelo governo com o apoio de Organizações Não-Governamentais, e impactando hoje aproximadas 400 escolas do país (foto). Aproximar a tecnologia ao processo de aprendizado infantil é uma meta ousada, mas que certamente renderá frutos para muito além de 2020.

Visualizar a forma como esse processo está alcançando Ruanda reflete claramente os benefícios e as facilidades da era das telecomunicações em que as ferramentas existentes podem (e devem) ser utilizadas para beneficiar as sociedades.

Para uma sociedade ainda predominantemente rural, o processo começa na base. Avaliar o impacto das novas tecnologias e pensar em como “urbanizar” o país de forma sustentável, aliando esse processo ao esperado crescimento econômico e à melhora nas condições sociais da população é um objetivo amplo, mas de extrema importância e que os ruandeses almejam atingir gradualmente.

No curto prazo, o plano visa à promoção da estabilidade econômica e à redução da dependência de ajuda externa; no médio prazo, espera-se transformar a economia agrária em uma economia baseada em conhecimento (“knowledge-based economy”); e, por fim, para o longo prazo o objetivo é de apoiar uma classe média produtiva, incentivando o empreendedorismo. [Confira a íntegra do plano aqui.]

Os desafios são muitos e existem não apenas em Ruanda, mas em todo o continente africano, com cada país vivendo momentos distintos de desenvolvimento social, com maior ou menor dependência de ajuda externa nos dias atuais. Fato é que o programa em questão representa uma estratégia interessante do governo ruandês, inspirado por uma visão estratégica de longo prazo, possibilitando que Ruanda se destaque nas manchetes internacionais por razões muito distintas daquelas dos idos de 1994 que nunca deveriam ter ocorrido… 


Categorias: África, Assistência Humanitária, Direitos Humanos


Um processo imprevisível

Por

A ONU faz muitas coisas boas, mas geralmente é taxada de incompetente quando não consegue agir de maneira mais incisiva em certas questões (alô, Conselho de Segurança). O problema fica pior quando, num dos casos mais importantes de sua história recente, a organização sofre um contragolpe por causa de imprevistos, e que diz muito sobre sua atuação. 

Mas o que está acontecendo? Senhoras e senhores, a ONU está sendo processada! E não é por nenhum ditador que se sentiu lesado ou algo do tipo, mas por cidadãos do Haiti, o país mais pobre do mundo. O grande problema é que existem indícios de que a epidemia de cólera que assola o país (e já matou mais de 8 mil pessoas) teria sido trazida por soldados nepaleses, integrantes da missão. Apesar de ser um país com mais problemas que se possa imaginar, a cólera não era um deles – estava erradicada na ilha há mais de 100 anos. Porém, com a devastação da guerra e, principalmente, do terremoto de 2010, a falta de condições mínimas de saúde fez com que a doença de espalhasse. 

Temos vários lados para analisar essa questão. Primeiro, a legitimidade do processo. Afinal, existe um dano, mas é claro que a ONU não teve a intenção. Trata-se de uma epidemia “culposa”? E como a ONU vai ser obrigada a pagar as indenizações bilionárias, já que o tribunal é norte-americano? É possível processar uma organização internacional? 

Mas talvez o mais importante seja o impacto nas próprias missões da ONU. O efeito imediato foi a redução do efetivo da missão no Haiti. Mas há outros problemas, como a composição do efetivo. Geralmente, missões de paz têm tropas enviadas por países que querem algum prestígio (alô Brasil) ou que apenas querem ter algum tipo de treinamento ou uso prático para suas tropas (como o Japão). 

No caso, a missão do Haiti tem vários países envolvidos, a maioria sul-americanos, e o envio de soldados nepaleses parece se encaixar nesse fator político. Vindos de um país com cólera endêmica, para um país arrasado, é a receita para o desastre. A ONU já tem uma comissão estudando o caso (e diz que não vai pagar indenização alguma), mas comprovando-se ou não a culpa da instituição para a volta da epidemia, a mancha na imagem fica ainda mais negativa. Somado ao estigma da falta de ação, está agora o de que a ONU pode efetivamente piorar uma situação que já era ruim. Nessa década onde missões foram contestadas, surgem denúncias de abusos por tropas de paz e a própria eficácia do modelo está em xeque, o caso da cólera do Haiti se põe como mais um desafio à modernização e adaptação da ONU aos novos tempos.


Categorias: Américas, Assistência Humanitária, Defesa, Direitos Humanos, Organizações Internacionais


Prêmio discordante

Por

Peso na consciência é uma coisa complicada, especialmente se você tiver criado um dos explosivos mais potentes e perigosos da humanidade. Foi assim que Alfred Nobel, o criador da dinamite, resolveu gastar alguns dos seus milhões que ganhou com a invenção para tentar se redimir com a humanidade e premiar grandes invenções, pesquisas, ou simplesmente pessoas que ajudassem o ser humano a ser um pouquinho melhor. Nascia o prêmio Nobel, que está sendo entregue em sua edição 2013 nesse mês de outubro. 

Os prêmios científicos são muito interessantes, mas geralmente o mais chamativo é um bem subjetivo, o tal Nobel da Paz. Muita gente já ganhou esse de um modo bem contestável (basta lembrar do Obama em 2009, que continua massacrando gente com drones, ou indo mais atrás, Ted Roosevelt, aquele do ursinho de pelúcia e do “Big Stick”, que ganhou o prêmio pela mediação na guerra russo-japonesa), mas parece que esse ano a concorrência está boa. A principal aposta é na menina paquistanesa Malala Yousafzai, aquela que levou um tiro na cabeça por criticar o Taleban e defender escola para todos. Parece justo – mesmo por que o Taleban continua ameaçando ela de morte após sua quase milagrosa recuperação. Mas outros candidatos são um pouco mais controversos, como… o presidente russo, Vladmir Putin. Esse mesmo, o homem que prende ativistas, tem dezenas de denúncias de opressão e violação de direitos humanos contra e que vende armas para o ditador favorito da mídia atual. Sua indicação seria justamente por seu papel na mediação do conflito da Síria (apesar de absolutamente nada ter sido alcançado de concreto, fora o tênue compromisso de remover as armas químicas de lá). 

Não seria novidade – muitos desses prêmios são para acordos de paz. Claro que, geralmente, são para acordos já finalizados (com exceção do histórico prêmio de 1994, e que com a morte de Rabin deu no que deu). Mas o Nobel a Paz, o mais prestigiado deles, está ficando meio desacreditado nos últimos anos. Obama em 2009, a União Europeia ano passado, parece até piada. A indicação (e até uma possível vitória) de Putin seria basicamente um escolha de politicagem. Digamos que o controverso prêmio de Obama em 2009 abriu um precedente e agora Putin pode ser “recompensado” por sua busca de trazer a Rússia novamente a um primeiro plano. 

O prêmio Nobel, no fim das contas, não tem muita utilidade prática, mas é cheio de simbolismo, e essa desvirtuação não deixa de ser um pouco lamentável. Claro que, para quem não liga muito para o assunto, sempre temos o divertido IgNobel, que faz o contrário e premia pesquisas e pessoas que não contribuíram em nada para o progresso da humanidade. Em 2013, o IgNobel da paz foi para Alexander Lukashenko, presidente de Belarus, que tornou proibido bater palmas em público. Putin vai ter que se esforçar pra ganhar disso.


Categorias: Ásia e Oceania, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Europa, Organizações Internacionais, Política e Política Externa


Homens ao mar, e à própria sorte

Por

Hoje está repercutindo o naufrágio de um navio de refugiados do Quênia e da Eritreia, em que cerca de 90 pessoas morreram. Não se sabe a causa, mas a história é familiar – embarcações geralmente malcuidadas e superlotadas que trazem refugiados buscando melhores condições de vida, como as folclóricas lanchas cubanas rumo a Miami, mas muito comuns especialmente partindo do norte da África e cruzando o Mediterrâneo em direção a França, Itália e Grécia. Nesse caso, a ação da guarda costeira italiana em salvar os náufragos foi louvável, já que nem sempre isso acontece. 

A recusa sumária a refugiados é considerada infração do direito internacional. A Grécia, por exemplo, já teve problemas envolvendo denúncias recentes de estar desviando barcos de refugiados da Síria. Porém, a grande dificuldade nesses casos acaba sendo a precariedade da embarcação e a quantidade de pessoas que buscam uma nova condição de vida. 

O problema fica mais grave quando o refugiado parte para uma aventura ainda mais arriscada, como clandestino. Várias histórias de horror envolvem a morte de pessoas nessa situação, como a do navio MC Ruby, que até virou filme, em que refugiados ganeses foram mortos em 1992 pela tripulação ucraniana para que não pagassem a multa de trazer clandestinos para um porto europeu. Mas não precisa ser necessariamente um privilégio de países africanos – em 1996 o caso do Maersk Dubai trouxe algo semelhante, mas eram refugiados romenos que foram atirados em alto-mar pelo comando taiwanês do navio (e que resultou na revolta e denúncia da tripulação filipina, que acabou protegendo e salvando outro clandestino da morte). 

Essas histórias mostram o pior que o ser humano pode fazer. Basta lembrar que a maior tragédia náutica da história foi o afundamento de um navio alemão na 2ª Guerra Mundial, o Wilhelm Gustloff, com mais de 10 mil refugiados alemães a bordo e torpedeado impiedosamente por um submarino soviético. Isso passa pela crueldade para com os refugiados, desde o interesse econômico (de evitar uma multa e impedir a entrada de novas pessoas em uma economia em crise) e pela própria origem da migração: quando pessoas querem fugir para países com a economia mal das pernas como a Itália, a Grécia, ou mesmo países em situação de conflito como o Iraque (para onde muitos sírios estão indo), significa que a coisa está feia. 

O trágico é imaginar a contraposição entre as condições cada vez mais rígidas de controle de entrada e as dificuldades progressivamente maiores que esses imigrantes buscam devido à piora da situação de vida em seus países de origem. Não basta sobreviver a essa verdadeira epopeia de viajar em condições terríveis, uma verdadeira epopeia – essa é apenas a primeira etapa de um processo longo de aceitação, reconstrução, ou no pior dos casos de deportação, para recomeçar tudo do zero. O drama dos refugiados é uma questão de segurança internacional, sob diversos aspectos, e a tendência é que esse tipo de tragédia se repita, infelizmente.


Categorias: África, Assistência Humanitária, Defesa, Direitos Humanos, Economia, Europa, Paz, Segurança


Pessoas da Síria, vergonha de mundo

Por

Há 7 meses escrevia meu primeiro texto para o blog. Na época, como ainda não havia escrito nada, pensei em publicar o assunto que mais me incomodava. E nenhum outro tinha tanta força de tirar o sono do que o tráfico internacional de pessoas, mais precisamente o tráfico de mulheres. Não somente por ser um dos atos mais asquerosos existentes, mas também por ter certeza que ele não seria eliminado à curto prazo.

Afirmava na época que embora houvesse uma enorme tentativa por parte das forças policiais e jurídicas de diversos países para coibir essa forma de crime, ele só se fortalecia com o tempo. Mas então qual seria o segredo do sucesso dessa prática? Hoje o crime mais rentável do mundo. E concluí que isso ocorria precisamente por ser executado contra pessoas de “menor importância”, que não eram valorizadas por governos e sociedades.

A única coisa que faltava naquele texto era um cenário que na prática demonstrasse a relação entre crimes hediondos contra a humanidade e a falta de valorização de certos grupos, o que legitimava tais ocorrências. Agora surge a Síria, que infelizmente pode servir como um bom exemplo.

O país que passa por uma guerra nos últimos meses entre governo e oposição. Conflito que já matou mais de cem mil pessoas, segundo estimativas. De um lado, Bashar Al Assad. De outro, rebeldes, muitos deles financiados pelas potências ocidentais. Uma massa heterogênea de pensadores, políticos, pacifistas e terroristas, digna das complexidades presentes nos conflitos do Oriente Médio.

A guerra corria sem novidades, até a ocorrência de um ataque químico, ao qual o ditador sírio é acusado de ser o mandatário. A denúncia de que haveriam mais armas desse tipo em poder de Assad, que inclusive poderiam ser descarregadas não só contra os rebeldes, mas contra os inimigos da Síria, e coloque-se aí Israel e EUA, ligou o sinal de alerta de Obama e das potências europeias. Agora, passado algum tempo, estamos prestes a ver uma intervenção americana no país.

Feita a exposição inicial da situação, proponho um processo de desconstrução do que ocorreu nas últimas semanas, colocando os excluídos sírios, até aqui invisíveis, no papel central da discussão. Por que a não ser que tenha ficado louco, nada do que acabei de dizer, embora realmente esteja ocorrendo, faz sentido. Há hoje, uma guerra que matou 100 mil pessoas, e Obama só agora propõe uma intervenção, se utilizando de um discurso moralista, do tipo: “as potências não podem se calar diante dessa tragédia.”

Como justificar que após 100 mil mortes omitidas, ou pelo menos “pouco impactantes”, mil e quatrocentas vidas sejam tão mais importantes? A ponto de fazer o presidente ficar tão inconformado e buscar justificar um ataque à Síria. Seria necessária um grande poder de discurso, de persuasão. E para os EUA é o que não falta.

Obama é astuto, ele conhece os caminhos da compaixão humana. Ele fala em 1400 mortos e logo acrescenta, “boa parte crianças”. E afirmo que no dia em que as análises de discursos políticos não se limitarem ao que foi dito, mas também ao que foi omitido, o tom moralista e heroico de Obama após os ataques químicos tem muito a dizer sobre por que ocorrem atrocidades que passam batidas, como guerras e  o tráfico de pessoas. E agora explico.

Quando Obama fala em mortes de civis, e em sua maioria crianças, ele faz um contraponto entre os milhares de mortos em guerra. Primeiro, por que na guerra existe um “lado mal”, e para esse lado a morte não deve ser lamentada. Segundo, que há a ideia de que os que morreram pelo lado correto, se sacrificaram pela “guerra justa”. Por último, uma constatação: a maioria dos que morreram em combate são homens adultos. “Soldados”. Menos valorosos que crianças.

E por que eu digo que são homens adultos? Primeiro, por que a Síria é um dos países mais machistas do mundo. Logo, a mulher está pouco representada no espaço público, ainda mais durante guerras. Segundo e mais conclusivo, digo isso por ter lido alguns dados, que dão conta de uma migração de mais de 2 milhões de refugiados sírios, em sua maioria mulheres e crianças.

Se a necessidade da guerra justifica a morte de milhares de “soldados” dentro da Síria, a falta de importância dos refugiados justifica a omissão dada a esse problema. São milhões de crianças, e logo muitas delas serão traficadas, ou utilizadas em trabalhos desumanos. Milhares de mulheres que começam a sofrer a mesma ameaça. O tráfico de pessoas e a prostituição forçada dependem e sempre foram muito eficazes em recrutar esse mar de refugiados que se forma a cada conflito. É assim no mundo todo, será assim na Síria.

Voltando ao discurso de Obama, o ouvimos dizer que “nós (EUA) faremos uma intervenção na Síria, por que é inconcebível que um país descumpra um tratado internacional”. Pelo que sei, Obama não é professor de política internacional, muito menos de sociologia. O público dele não é uma sala de estudiosos, mas sim o cidadão americano. Quando ele direciona o discurso para estes, ele não pode justificar suas ações lendo bulas, mas exercendo uma argumentação que alimente o senso de justiça da população. Que legitime o ataque por esse ser algo correto a se fazer, e apenas isso.

Mas não. Obama usa somente um discurso legalista para justificar a invasão. Mais e ainda pior: ele dá importância a um fato sobre os outros. Obama está praticamente dizendo que “o que justifica a nossa intervenção é o uso de armas químicas”. Em outro ponto ele traz para mais próximo a ameaça dessas armas, dizendo que elas “põe em perigo os EUA e toda a comunidade internacional”. Fala completa, cidadão convencido ou não, há um outro discurso: o do silêncio.

Nele, Obama está dizendo: “armas químicas são perigosas, inclusive para nós. Queremos a queda do ditador e para isso financiamos os rebeldes. As 100 mil mortes até aqui dessa guerra não foram suficientes para realçar nossa compaixão, ou mudar nossa política. Os milhões de refugiados, que logo morrerão, ou pior, se tornarão escravos, sexuais ou não, não tem tanta importância. Por isso atacaremos, mesmo que o ataque piore ainda mais todo o cenário para a população comum”. E governos e homens como Obama não se importam mesmo. Para diminuir o peso da crítica que faço sobre eles, afirmo que sei que não são os únicos omissos. São parte da maioria.

Por isso mesmo essa semana discutiremos novamente a intervenção ou a votação do Congresso americano. Será tema principal até o poder de destruição das possíveis bombas, como funcionam, como são construídas. E no mesmo momento estarão passando pelas fronteiras milhares de mulheres, que logo serão exploradas graças a esse cenário de desgraça. Inclusive pelo tráfico internacional de mulheres. Quem sabe algumas delas até nos clubes de Miami, bem próximas a Obama. Algo terrível. Mas que de forma impressionante sempre permanece como problema de última prioridade.

Alguns podem dizer que meu texto é utópico. Afinal como Obama poderia ser responsabilizado por essa situação, ou mesmo como lutaria para terminar com um problema mundial tão complexo? Eu também faço esse tipo de pergunta, mas para uma outra situação: como uma intervenção de Obama poderia trazer democracia e paz na Síria? Essas ideias já passaram por Iraque e Afeganistão.  Em todos os casos, a “democracia” cobrou mais vidas do que deveria. O presidente dos EUA “acredita” que pode levar soluções a conflitos, mas não move um dedo para para discutir a situação de refugiados, os milhares de mortos de uma guerra em que ele é um dos financiadores, ou o florescimento do tráfico de pessoas, que ficará ainda mais forte com essa nova “leva” de refugiados sírios.

Agora, uma questão pessoal. Quantas armas químicas são necessárias para igualar o caminho de dor e desilusão causada pela bomba formada por guerras, milhões de refugiados e o sistema internacional de tráfico de pessoas?  Mas aparentemente esse problema segue fora de pauta, por vezes relembrado aqui e ali, esporadicamente. Retratos obscuros da marcha dos crimes contra seres humanos pouco valorizados, refugiados, traficados, entre outros. Seres humanos invisíveis.


Categorias: Assistência Humanitária, Conflitos, Direitos Humanos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica


O dilema de Obama

Por

Fonte

O Protocolo de Genebra, o primeiro documento que trata do uso de armas químicas, foi acordado há mais de 80 anos. Desde então, o mundo parecia caminhar para uma progressiva eliminação do seu uso. Por outro lado, a Cruz Vermelha, na celebração dos 80 anos do tratado internacional, apontava o aumento do número de agentes potencialmente perigosos e a ampliação dos atores com acesso a esse tipo de recurso como elementos que amplificavam os riscos existentes.   

Entre as lembranças que ajudaram a fortalecer o repúdio a esses armamentos estão: o uso na Guerra do Vietnã pelos Estados Unidos e os ataques de Saddam Hussein aos curdos. Na sequência do Protocolo de Genebra, foi-se além com a celebração de convenções complementares relativas às armas químicas e armas biológicas. Como exemplo do efeito devastador, ainda em 2012 os norte-americanos continuavam esforços de descontaminação no Vietnã, décadas depois dos ataques com um mistura de herbicidas (o agente laranja). 

Pois bem, mas por que estas armas são tão tenebrosas? Nesta semana um professor francês, ex-membro da organização Médicos sem Fronteiras, elucidou a questão. Perguntado sobre a diferença entre armas químicas e convencionais, respondeu que as últimas são empregadas para a conquista de pontos estratégicos e o uso é flagrante, enquanto as primeiras têm como objetivo aterrorizar a população e não se percebe de imediato qual a origem do ataque. Isto talvez valide, por exemplo, relatos que médicos que prestaram socorro aos bairros de Damasco atingidos tenham igualmente sido contaminados, muitos sem saber.  

Com estas imagens em mente, somadas ao cômputo de vítimas do mais recente evento (mais de 1000, segundo John Kerry), Obama medita sobre eventuais caminhos possíveis. A sombra da intervenção sob pretextos falsos no Iraque implicou certa cautela e oposição da população. Daquela vez, havia a “coalition of the willing”, com uma importante participação britânica. Agora, os britânicos estão fora. Hollande, presidente francês, inicialmente falou em punir Assad e já apresenta sinais de arrefecer os ânimos. Sobrou para o Obama, agora sem coalizão internacional, mas com indícios mais sólidos que o pretexto para intervir é válido. 

O Brasil segue com seu posicionamento de que a solução para a questão da Síria deveria surgir de negociações. Causa estranheza para muitos, mas em questão de Direitos Humanos a diplomacia brasileira defende que soluções devem vir do âmbito multilateral. África do Sul também se manifestou contrária a uma ação militar. O Conselho de Segurança da ONU não chega a um acordo, o Irã ameaça retaliar, Israel se prepara para um transbordamento do conflito para suas fronteiras, enquanto a opinião pública norte-americana é contra a punição militar à Síria. Assim, Obama ficou em uma situação desconfortável, afinal deixaram todos os riscos com ele.  

Caso o plano seja levado adiante, mesmo circunscrito à punição pelo uso de armas químicas por Assad e sem tropas americanas no terreno, será que passará sem resposta da Síria? Outra questão, estabelece-se então a linha do tipo de armamento que não se deve utilizar, mas como fica a crise humanitária? O objetivo não parece ser destituir Assad, a comunidade internacional continuará assistindo de longe a continuidade da guerra? Por fim, recuar igualmente seria temerário, especialmente depois de discursos inflamados em defesa de uma eventual resposta pautada em princípios humanitários. Em todos os cenários, o ônus cairá no colo do Obama. Ele traçou a linha vermelha, ele viu a repetição de ataques desafiando o limite que estabelecera e provavelmente atacará sozinho (sem coalizão e sem anuência das Nações Unidas). 

Update: Obama decidiu atacar. Contudo, quer a autorização do Congresso. No final das contas, ele quer dividiro ônus com alguém. Nada mais justo, considerando os exemplos recentes de crises decorrentes de ações internacionais.  


Categorias: Assistência Humanitária, Conflitos, Direitos Humanos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


O caminho para a destruição

Por

Desde 1994 a ONU tem um trauma. A falta de capacidade em evitar o genocídio em Ruanda e o modo como o mundo todo descobriu aquele massacre feito na base do facão é sempre a primeira justificativa quando se pensa em alguma resposta mais dura a crises humanitárias. Hoje, vemos a Síria em guerra civil e evidência lamentável do uso de armas químicas. A chamada “opinião pública” mundial clama por ação, e parece que Reino Unido, França e possivelmente os EUA estariam buscando uma resposta conjunta que pode sim render uma ação armada. 

Existe muita ironia em tudo isso. Basta lembrar a intervenção na Líbia. A ONU aprovou uma zona de exclusão aérea (por muito menos que o uso de armas químicas), o conflito se acirrou e hoje o país não tem governo. O resultado da intervenção, no fim das contas, é contestado e muita gente culpa os países ocidentais pelo aumento substancial das mortes e instabilidade que dura até hoje no país. 

O caso da Síria é bem diferente, em quase todos os sentidos, a favor e contra a intervenção. A favor, existem evidências do uso de armas químicas (a questão é saber exatamente de que lado), um sangrento prolongamento das hostilidades e, principalmente, o recurso ao conceito da “responsabilidade de proteger” (que a ONU trouxe lá no meio dos anos 2000 e visa justamente evitar esses genocídios), que já tem efeitos práticos na missão da ONU no Congo (que hoje tem um “braço armado” capaz de revidar às ameaças contra a população, coisa inédita). Contra, é claro, temos um elemento político. China e Rússia são totalmente contra uma intervenção de qualquer natureza, por diversos motivos – e alguns são bem pragmáticos, como o fato de não se saber exatamente ainda qual dos lados usou as armas, e defender a permanência de Assad por simplesmente não ser possível prever como seria instalado um novo governo caso ele seja derrubado, ou como isso afetaria a estabilidade da região. Há também a crítica dos “interesses escusos” das potências (que já vimos na Líbia), em que a defesa dos direitos humanos vira uma desculpa para o bom e velho imperialismo versão século XXI. E vozes na própria ONU ainda defendem que o caminho das negociações seria ainda a melhor opção. 

O Reino Unido vai levar o caso ao Conselho de Segurança, pedindo ações rígidas, mas qualquer medida nesse tom será barrada por Rússia e/ou China. Esse “travamento” na ONU vai acabar levando à ação unilateral, seja individualmente, seja por meio da OTAN, ou coisa do tipo. A movimentação já existe, com navios e porta-aviões de prontidão na região, e as evidências dos ataques químicos acabam sendo um marco do “ponto sem retorno”. Algum dos lados do conflito fez algo abominável para a sociedade internacional, e na visão das democracias ocidentais uma ação precisa ser tomada. Mas o quê vai ser feito? Uma invasão com tropas e tudo mais? Uma zona de exclusão aérea? Bloqueio naval? Qualquer opção vai render um banho de sangue para os dois lados e potencialmente tornar ainda mais letal o conflito. E não significa necessariamente que a intervenção vá ter sucesso. 

De qualquer jeito a reação será negativa. Em caso de intervenção, mesmo que milagrosamente dê certo e acabe com o conflito, vai haver protestos contra imperialismo, denúncia de interesses escusos e possivelmente desestabilização da região como um todo (o Irã pode fazer alguma bobagem, retaliação sino-russa, e por aí vai). Caso nada seja feito, mais uma vez a ONU perderá credibilidade por não ter evitado uma tragédia. A única solução que evitaria qualquer desfecho negativo seria a pacificação pela negociação, mas levando em conta quem está lutando, e o ponto a que chegaram as coisas, esse caminho é agora um sonho.


Categorias: Ásia e Oceania, Assistência Humanitária, Conflitos, Defesa, Direitos Humanos, Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Polêmica, Política e Política Externa, Segurança


10 anos depois

Por

Na última segunda-feira, dia 19 de agosto, comemorou-se o Dia Mundial da Ação Humanitária, em homenagem àqueles que dedicam suas vidas ao trabalho humanitário nas mais diversas situações de necessidade no mundo, recordando especialmente os trabalhadores que perderam (e ainda perdem) suas vidas no trabalho.

A data foi criada pelas Nações Unidas no ano de 2008, relembrando o triste atentado de 19 de agosto de 2003 em Bagdá, no Iraque, durante o qual 22 funcionários da ONU faleceram e mais de 150 ficaram feridos. Neste dia o Brasil e o mundo lamentaram a morte do brasileiro Sérgio Vieira de Mello, então chefe da missão no Iraque, funcionário de grande reconhecimento e possivelmente cotado para assumir o Secretariado-Geral desta organização à época (interessante documentário sobre sua vida e legado disponível aqui).

10 anos depois, vemos que as condições de trabalho humanitário no mundo têm se tornado cada vez mais difíceis, com crises que impressionam pela quantidade de vítimas, pela dificuldade de acesso da ajuda e, frequentemente, pela imobilidade internacional diante dos grandes interesses político-econômicos em jogo. Uma Síria especialmente preocupante nos provoca hoje reflexão sobre as condições de trabalho humanitário no mundo. Quantos Sérgios anônimos não perdem a vida diariamente na realização de seu trabalho? Quanto ainda deve ser feito para garantir a proteção daqueles que escolheram a proteção dos mais vulneráveis como opção de vida?

Incertezas ainda rondam o atentado ao Iraque em 2003 (leia aqui artigo de Carolina Larriera, companheira de Sérgio Vieira de Mello também presente no momento do atentado) e aceitar esse contexto político de interesses obscuros talvez seja uma das tarefas mais difíceis para qualquer pessoa envolvida com cooperação humanitária. Os ideais se veem confrontados com uma realidade muito menos gentil, mas diante da qual não se pode deixar de acreditar na possibilidade de fazer a diferença em sociedades afetadas pelas mazelas de conflitos armados e desastres socioambientais.

Que este marco de 10 anos desde o atentado em 2003 possa de alguma forma nos lembrar do que já passou, nos fazer questionar o que ainda não está claro, nos inspirar pelo exemplo de tantos – mas especialmente de Sérgio Vieira de Mello – e nos mostrar que os caminhos a seguir ainda estão sendo traçados e que devem respeitar sempre os princípios humanitários para aqueles que sofrem e também para aqueles que trabalham para minimizar este sofrimento.

[Em meio às homenagens ao Dia Mundial da Ação Humanitária, a campanha anual da ONU tem como conceito “transformar palavras em ações”, incentivando as pessoas a completarem a frase “O mundo precisa de mais…” para que as palavras sejam financiadas pela iniciativa privada em prol das ações humanitárias que estão se desenvolvendo hoje no mundo. Veja mais aqui e participe aqui.] 


Categorias: Assistência Humanitária, Brasil, Direitos Humanos, Organizações Internacionais


O retrato da indolência

Por

Fonte: New York Times


Ou negligência, se preferirem. Há tempos que o conflito na Síria vem levantando novos debates a respeito da morte incansável de milhares de civis. Muitos são os problemas apontados: uso excessivo de força por parte do governo de Al-Assad, falta de comprometimento das grandes potências, indiferença por parte da comunidade internacional, violação de direitos humanos e de tratados internacionais. Existem, ainda, indícios sobre o uso discriminado de armas químicas, conforme já apontei em outro texto aqui na Página Internacional. 

Sobre esse último ponto, um grande mistério vem rondando os noticiários esta semana. Em um vídeo divulgado pelo jornal “The New York Times” em matéria intitulada “Images of Death in Syria, but No Proof of Chemical Attack”, são vistos centenas de civis (crianças e adultos) sendo atendidas por conta de um suposto ataque químico perto da cidade de Damasco. Entretanto, as pessoas que auxiliam nos atendimentos não usam nenhum tipo de proteção. O ministro sírio al-Zu’bi disse que as imagens foram planejadas… 

Faltam provas, mas nem tanto. Sabe-se que o conflito interno na Síria já alcançou patamares inimaginados anteriormente. Obviamente que as mortes são as piores consequências, só que o principal problema é saber como os sírios reagirão a essa maré de má sorte. Falta o básico, falta qualidade de vida. A Organização das Nações Unidas (ONU) disse que existe cerca de um milhão de crianças refugiadas por causa dos combates. E isso tende a aumentar. 

Por falar em ONU, a organização vem mostrando sua fraqueza. Sempre fui uma pessoa que tem a seguinte opinião sobre os capacetes azuis: “Ruim com eles, pior sem eles”. Suas ações são louváveis em inúmeros eventos históricos e sua voz no cenário internacional é vital. Mas não podemos deixar de notar que sua presença na Síria deixa a desejar. Somente agora que a ONU pediu autorização ao governo sírio para investigar os ataques com armas químicas. 

Vai e vai rápido! Ban Ki-moon é uma excelente figura e conquistou seu espaço no cargo máximo. Tem grandes problemas nas mãos e um deles é a Síria. Não podemos culpa-lo por tudo. Boa porcentagem dessa “indolência” no país é decorrente da falta de vontade política das grandes potências. A França propôs o uso da força para combater os ataques químicos, Alemanha e Estados Unidos ficam com o rabo entre as pernas e passam a bola para a Rússia, “acusada” de enviar armas para Al-Assad e por aí vai. 

E o que fará, agora, Mister Obama? Conforme atestado por matéria da BBC, há um ano o presidente disse que, caso fossem utilizadas armas químicas na Síria, os Estados Unidos recalculariam sua posição. Será que os norte-americanos vão para o front de guerra? Difícil, heim! Iraque e Afeganistão mandam lembranças. 

O estágio atual da Síria é insustentável e, se assim permanecer, não continuaremos a colocar a culpa somente em autoridades nacionais. Falta força política da ONU e, mais impactante ainda, força de vontade das grandes potências. Se “indolência” é um termo feio e pesado, podemos colocar como sinônimo a “preguiça”. Obama e companhia dormem no ponto.


Categorias: Assistência Humanitária, Defesa, Direitos Humanos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Política e Política Externa, Segurança


Vamos falar sobre os Ciganos

Por

“A globalização aproximou todas as culturas”. Essa é uma das frases mais comuns que ouvimos em conversas descompromissadas do dia a dia. Em parte uma afirmação correta. Longe de imaginar o desconhecido de novos lugares, do “descobrimento de novas Terras e povos”, tudo se parece igual. Então começamos a pensar que o restou da diversidade de povos no mundo foram pequenas diferenças, o restante de singularidades que ainda os caracterizam. 

Como bons ocidentais, esquecemos populações inteiras, completamente distintas de nós. Esquecemos a África, minimizamos as superpopulações dos países asiáticos, reduzindo aos poucos imigrantes que conhecemos. Talvez tenhamos pontos em comum aos europeus. Copiamos em parte o modo de vida americano. Mas não temos ideia de quem é o camponês chinês, que representa cerca de 10% da população mundial. Como não o conhecemos e não fazem parte do nosso raciocínio de globalização, os esquecemos.

Mas não precisaríamos cruzar o mundo em busca de populações exóticas ou excluídas para encontrar exemplos desse tipo de esquecimento moderno. Poderíamos usar como exemplo o Brasil. E não falo de tribos indígenas ou povoados distantes, sem fácil conexão com a “civilização”. Fazemos o mesmo com quem vive em nossas cidades, por vezes são nossos vizinhos de bairro ou até mesmo de rua: os Ciganos. Uma junção de diversos povos nômades, compartilhando da mesma língua, o Romaní. 

Os ciganos são bastante peculiares. A maior parte da sua historia é baseada na exclusão de qualquer território pisado. E os territórios são muitos. Talvez os Ciganos tenham sido o primeiro exemplo de estereotipo da ficção literária e do imaginário popular. O grande retrato de um povo inferiorizado. Muito antes dos Nazistas publicarem em suas revistas caricaturas pejorativas de judeus, os Ciganos cumpriam papéis nessas publicações de assassinos, artistas de circo, piratas, farsantes, cartomantes, charlatões. Sempre pessoas a serem evitadas ou eliminadas. Diz-se que o ser humano, diante do medo do desconhecido, tende a cobrir o outro de véus. Uma boa metáfora aos muçulmanos, já literalmente vestidos da forma como os imaginamos ou desconhecemos. Melhor ainda para representar os ciganos. 

Interessante que intactos aos diversos ataques que sofreram de todos os Estados em que viveram, permaneceram em comunidades bastante exclusivas, bem cristalizadas, defendendo a sua cultura e crenças. E durante décadas passaram distantes de obrigações impostas. Não como os Amishes ou índios, reconhecidos juridicamente como donos de terras, de uma própria lei, da liberdade e reconhecimento. Os Ciganos se mantiveram unidos sob fortes ameaças, entre a cruz e a espada.

 No Brasil, entre as antigas discussões que negaram a legitimidade do povo cigano, estava a afirmação de que “não eram um povo em si, mas sim várias populações que compartilhavam ‘apenas’ da mesma língua”. Que grande surpresa isso não representar um povo para as autoridades brasileiras, assim como de muitos outros países. Afinal, não seria o Brasil o maior exemplo de torre de Babel em que diversas culturas compartilham  a mesma língua, e apenas por esse motivo se formaram como sociedade?  

Assim, os ciganos foram lançados ao maior abismo possível da exclusão. Maior que o do ódio, como sofreram os judeus. Foram jogados ao esquecimento, à falta de identidade. Invisíveis, seguiram como alvos de todas as barbáries possíveis. Estiveram nos massacres das guerras desde o século X, nos êxodos de populações, na Segunda Guerra Mundial, sofrendo um holocausto tão terrível quanto qualquer outro povo odiado pelos alemães. Mas um holocausto esquecido, nunca noticiado. 

Sempre comparado a ratos, como uma população de uma raça ou cultura inferior. Sem uma Terra, sem lobby político, sem órgãos de Direitos Humanos atentos, sem defensores. Massacrados pela Direita, pela Esquerda, pelo Centro e por Comunistas. Também por Ditaduras e Regimes Democráticos. Vezes mais, vezes menos. Vezes sem direito à dignidade, vezes sem direito à vida.

Mesmo diante de uma situação bastante negativa, o que é interessante é que os ciganos por muitas vezes deram as costas a qualquer tipo de oportunidade de se misturar às populações dos países em que viveram. Não deixaram suas crenças e muito menos se prepararam para o mundo globalizado. A falta de escolaridade é uma das provas dessa afirmação. O analfabetismo veio bater forte no modo de vida cigana no mundo capitalista, jogando a população ainda mais na pobreza. O seu maior líder, autointitulado “rei dos ciganos”, Florín Cioaba, foi um dos primeiro a tentar modificar essa rebeldia contra qualquer tipo de instituição do Estado. Também aboliu o casamento de pessoas menores de 15 anos, muito comum em sua cultura. Pensou assim diminuir a exclusão Cigana no mundo moderno, a diminuição do preconceito contra seu povo. Esqueceu que não é nada moderna a segregação Cigana. 

A cultura, conhecida como anacrônica ao mundo atual e a obscuridade do modo de vida cigano fizeram com que se construísse a ideia de um povo negativo, mais uma vez. Logo, o cigano ganhou o papel moderno de único portador de fé em crendices, da ignorância, aquele retrato da mulher que faz leitura de mãos no centro decadente da grande metrópole. O que realçou ainda mais a visão de povo a ser ignorado. Diante de tantas populações nada esclarecidas, como a do Brasil, que desafiam o bom senso com discursos religiosos contrários ao relacionamento homoafetivo e mais recentemente, de forma absurda, contrários ao direito ao aborto em casos de estupro, o Cigano ainda se tornou a “antiguidade indesejada”, o bode expiatório do desejo progressista.

Distante da modernidade, do Estado, das elites e até dos “descolados”, os Ciganos permanecem esquecidos. Sofrendo massacres em parte da Ásia e leste europeu, excluídos no restante da Europa e nas Américas. Não saem em jornais, não há pesquisas acadêmicas sobre eles, nem história de seu povo. Não são incluídos em estudos nas escolas sobre migrações, muito menos lembrados em sua existência. Permanecem apenas no imaginário do artista de circo, da cartomante, da dançarina exótica.

Mas os Ciganos desafiam o silêncio e continuam a ser uma comunidade bastante restrita, mantendo laços de proximidade que protegem a sua cultura até mesmo da igualdade globalizante. E seguem às sombras, compondo o mais curioso retrato de povo do mundo globalizado.

Deixo alguns links para quem se interessou sobre o tema:

Embaixada Cigana no Brasil e um pouco de história desse povo.

Construção de muros anti-ciganos na Europa, exemplo muito comum da exclusão atual.

O Holocausto Cigano, ocorrido junto ao judeu pelos Nazistas, mas pouco noticiado.

Discussão sobre a exclusão Cigana da sociedade, dos noticiários e das pesquisas sociais e históricas.

O Cigano no mundo globalizado.


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Polêmica