Intervenções humanitárias desumanas?

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Na Líbia, a guerra em andamento permanece como uma incógnita e já começou a rolar o boato da transição: pode mudar qualquer coisa, exceto Kadafi. É o que desejam os governistas, não os rebeldes. E os interventores, o que querem? Numa eventual saída do coronel, a Uganda já lhe ofereceu refúgio. Mas, não muito longe dos atuais focos de conflito – e também em conflito –, está a Costa do Marfim.

[Acompanhem nossos outros posts sobre a situação na Costa do Marfim: 1 e 2. Lembrando também que este ano o The Economist trouxe um “apelo” para não nos esquecermos deste país. Confiram aqui.]

Lembram-se do que aconteceu nas últimas eleições do país? O presidente perdeu, mas continuou no poder, recusando-se a admitir a vitória de seu opositor, mesmo reconhecida pela comunidade internacional. Resultado diferente não se poderia imaginar: Alassane Ouattara e seus aliados vem tentando depor Laurent Gbagbo, e, há duas semanas, contam com o apoio da ONU, em particular, da França. Outra vez, a imposição da vontade passa a ser conduzida por meio de ações militares. Outra vez, o argumento é para proteger os civis e evitar uma carnificina. A lembrança da Líbia de imediato vem à mente.

Em pouco mais de duas semanas, duas intervenções são nutridas basicamente pelos mesmos motivos e conduzidas da mesma forma (militarmente): a favor da parte “mais fraca”, os rebeldes líbios ou os vitoriosos oposicionistas costa-marfinenses. Duas intervenções em prol da humanidade, com um senso quixotesco de moralidade e altas doses de interesses próprios. Em um interessante artigo, George Friedman contestou o sentido “imaculado” das intervenções humanitárias, que são pretensamente neutras e acabam decidindo o destino das nações, para bem ou para mal. Para o autor, não quer dizer que os fins dessas intervenções não sejam benignos e morais, mas que eles não são alcançados, cedendo lugar para os interesses, os quais são mais duradouros.

O que começou como uma intervenção, sob o pretexto de proteger vidas humanas em perigo e evitar um derramamento de sangue elástico, pode se degenerar numa guerra civil conturbada. No caso da Costa do Marfim, a situação uma hora fala que se rende, outra, fala que não. Daí, são inevitáveis as memórias dos confrontos sangrentos de 2002-204, que levou a uma missão de paz (UNOCI), pois se estima que os próprios aliados de Ouattara já tenham cometido 800 assassinatos, enquanto que Gbagbo promete vencer. Na Líbia, até os civis que eram supostos proteger acabaram “acidentalmente” mortos nas manobras da OTAN.

Particularmente, em ambas as intervenções, chama também a atenção o protagonismo francês, talvez como uma válvula de escape para mitigar o crescimento da direita no país ou vender aviões para o Brasil. De maneira mais geral, José Fiori, em entrevista à Folha de São Paulo ontem, trata de um novo colonialismo na África – principalmente da porção norte –, capitaneado pelos norte-americanos e europeus, buscando recursos estratégicos, com a primazia do petróleo.

Paradoxalmente, nestes dois casos, as intervenções humanitárias são desumanas. A moral se sustenta com as armas e os interesses, com a promessa de lucros. As pessoas morrem, líderes caem e os países ficam à mercê de um destino que lhes pertence. O fim da moral e a pura prevalência do interesse é uma mera questão de tempo.


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Delenda est Tunisia

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Há algumas semanas, quando comentava sobre a agitação no norte da África, uma das conseqüências pouco comentadas e de grande impacto seria o fluxo de imigrantes fugindo do caos na região. Os mais preocupados com isso seriam a França e, principalmente, a Itália, que está logo ali, a alguns quilômetros do outro lado da fuzarca mediterrânea. Pois é, dito e feito: Berlusconi já está pedindo por meio de acordos, em alto e bom som, que a Tunísia tome medidas para impedir a chegada desenfreada de imigrantes ilegais à bota.

Muitos tunisianos já enfrentavam o perigo da travessia antes da revolução que derrubou o ditador Ben Ali para escapar das taxas galopantes de desemprego; com a crise que sucedeu a queda, aumentam as incertezas e o número de barcos atravessando ilegalmente o Mediterrâneo – assim como as mortes. E essa vai ser o padrão em muitas áreas adjacentes aos países da “primavera árabe”, destino de desempregados egípcios, refugiados líbios e tantos outros. As portas de entrada são muitas, de Gibraltar à Grécia. E cedo ou tarde vai deixar de ser um incômodo na Itália para ser um problema europeu por completo. Afinal, os problemas naquela região parecem não ter fim, com mortes no Iêmen, a crise líbia e a instabilidade no Egito e Tunísia. Alguns teóricos modernos colocam as migrações como um dos grandes desafios da segurança internacional do século XX, especialmente na Europa, e parece que esse vai ser um teste decisivo para o Velho Mundo.

Por fim, não deixa de ser irônico notar que na Tunísia se encontrava antigamente a cidade de Cartago, alvo da cobiça e invasões romanas na antiguidade, e que hoje ocorre o inverso, de lá partindo os atuais “invasores” do território italiano…


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Jishin, Kaminari, Kaji, Oyaji

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Segundo o provérbio japonês, quatro são as coisas que um japonês deve temer: Jishin, Kaminari, Kaji, Oyaji (tradução literal: Terremoto, Trovão, Incêndio e Pai). Apesar de a sociedade japonesa não se caracterizar mais pelo patriarcalismo, de certa forma (e infelizmente) o provérbio se confirmou hoje: o Japão enfrentou o maior terremoto já ocorrido no país (e um dos maiores ocorridos no mundo desde 1900), seguido de um tsunami com proporções trágicas.

Abalos sísmicos menores foram registrados posteriormente em conseqüência do terremoto na região e grandes ondas no Pacífico chegaram também à América, mas sem maiores danos. No Japão, as mortes decorrentes desta tragédia somam centenas, com prejuízos a milhares. Mensagens de lamento e apoio, bem como ações de assistência humanitária do mundo inteiro começam a chegar ao governo japonês, desde os grandes aliados norte-americanos – que possuem mais de 50 mil homens por lá –, até o governo brasileiro – país onde a colônia japonesa é bastante expressiva.

Este acontecimento nos leva a reflexões diversas, na medida em que os desastres naturais de grandes proporções têm se mostrado freqüentes no contexto atual e demonstram a urgência das discussões de caráter ambiental e humanitário: a mobilização internacional neste sentido é a única forma de serem alocados recursos e esforços para a prevenção e, se necessário, o socorro em situações de crise tal como esta. Contudo, aguardar avanços das cúpulas internacionais neste âmbito não parece uma perspectiva muito animadora…

Ainda uma outra reflexão é pertinente: a possível relação entre os regimes políticos e os desastres naturais e suas conseqüências. Em artigo da Foreign Affairs disponível aqui (sugestão do colaborador Giovanni Okado), o autor afirma que os governos não podem evitar o acontecimento de desastres naturais, mas podem sim se preparar para estes e minimizar seus efeitos para a população. Diante dos recentes terremotos no Haiti e no Chile, são perceptíveis grandes discrepâncias em que o argumento supracitado se aplica de forma coerente, relacionando os regimes políticos de cada um dos países e seus investimentos sociais.

Sabe-se que o Japão é um país rico e que tem implementado políticas preventivas no que tange a tragédias humanitárias e ambientais, possuindo os meios para minimizar as (inevitáveis) conseqüências sociais de desastres naturais como o de hoje. Resta-nos, desta forma, oferecer o apoio necessário em âmbito governamental para que a tragédia no país seja superada e, então, buscar a promoção de meios para que as reflexões expostas sejam aprofundadas a cada dia no cenário internacional.

Afinal, se o provérbio japonês inicialmente apresentado no post fosse atualizado diante do contexto mundial da atualidade, certamente a lista de “coisas a serem temidas” aumentaria de forma considerável…


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Jogando pelas regras

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Agora é pra valer – após a morte de centenas (milhares?) de cidadãos, pelas mãos de mercenários ou sob o fogo de aviões de combate, o malvado ditador Kadafi não escapará do punho da justiça internacional! Mesmo com suas bravatas e seu país em uma guerra civil informal, a aguardada resposta internacional está a todo vapor e tende a consolidar a pressão sobre o ditador no que mais aflige a essa classe de governantes: o bolso. Nada de invasões ou coisa parecida (os norte-americanos parecem ter aprendido algo nos últimos 9 anos…): EUA e UE já estão com as sanções prontas, incluindo proibição de viagens, embargo de armas e fechamento de espaço aéreo. Com a chancela do CS, a ONU já clama por ações concretas – e o promotor Luis Moreno-Ocampo, do Tribunal Penal Internacional, aquele que conseguiu emitir um mandado de prisão contra o presidente do Sudão, já prepara a papelada de acusação de crimes contra a humanidade. A isso se somando a conquista pela oposição de cada vez mais territórios, parece que Kadafi não terá muita saída a não ser se tornar o mártir que tanto vocifera.

Mas até que enfim os Amigos da Justiça resolveram agir hein? Estranho, pois imagino que não seja de hoje que Kadafi trate com essa delicadeza seus súditos. Foram necessárias tantas atrocidades para que a comunidade internacional agisse? Ou é apenas uma resposta a essa coisa do momento, a tal “Primavera Árabe”? Um pouco de cada. A verdade é que todos estão caindo sobre Kadafi com paus e pedras pelo fato de ele ter “violado” as regras do jogo internacional. Vejam bem, a um ditador pode ser tolerado pela comunidade internacional, desde que seja útil ou não atraia muita atenção para si. O caso da Arábia Saudita é o mais notório: o rei Abdullah não é o maior entusiasta da democracia, mas quando começaram os protestos, eis que o dinheiro jorrou e os ânimos populares foram acalmados. A monarquia autoritária prossegue, não mancha sua imagem com o sangue de inocentes (ao menos às vistas…) e continua amicíssima dos EUA. Esse parece ser, por sinal, o destino de boa parte dos governos autoritários da região: o temor de levantes e desgaste com a comunidade internacional simplesmente faz com que optem por algumas reformas ou agrados que aliviem as tensões sociais. No jogo internacional, as rodadas ao bem demoradas, mas até quando funcionará? Quem sabe.

O fato é que Kadafi já não era o governante mais bem-quisto no Ocidente, seu regime é notório financiador do terrorismo e muitos países não hesitariam em retirá-lo do poder por bem ou por mal – só lhes faltava a oportunidade, dado que há muitos interesses conflitantes, especialmente de empresas, na região. Todavia, Kadafi fez a gentileza de oferecer-lhes não apenas essa chance, mas de fazê-lo com o aval da comunidade internacional e sob a bandeira da defesa dos direitos humanos, e provavelmente é um caminho sem retorno.


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A ausência difícil de preencher

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A fome não é muito exigente. Ela busca apenas ser contentada. Como, não importa. Essas sentenças são derivadas do pensamento de um antigo filósofo romano que inspirou a muitos: Lúcio Aneu Seneca. E de fato, não é preciso muito para dar aquilo que a fome quer, que nada mais é que uma ausência. E dar ausência é simples, dar nada é fácil.

Tão simples que ainda hoje, mesmo com os grandes avanços no campo da ciência e tecnologia ainda nos vemos satisfazendo-a constantemente. E de que modo satisfazemos a fome? Por incontáveis motivos. Instabilidades políticas, crises alimentares, Estados corruptos com baixa eficácia no serviço às populações, e assim por diante.

Outros fatores como as crises alimentícias – de origens diversas – e econômicas acabam por complicar ainda mais esse problema. E é muito difícil de superar tais crises, pois elas detêm caráter cíclico. E o ano de 2011 parece ter sido afetado por esses catalisadores da fome. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentaçã (FAO), em seu famoso relatório Food Outlook, anunciou que teme uma grave crise alimentar esse ano, com forças muito superiores àquela vivenciada em 2008. As grandes catástrofes climáticas que têm se alastrado pelo mundo tem complicado, e muito, a vida dos produtores.

E o cenário não parece divergir muito daquilo prospectado quando observamos os preços das commodities dispararem e largas discussões sobre como proceder emergirem. Apesar de ainda não termos atingido uma crise alimentar, se o passar do tempo acompanhar a inação, a situação pode agravar-se muito.

Propostas não faltam. O governo francês propôs, durante a reunião do G-20 no final de janeiro, a criação de um estoque internacional de alimentos administrado pela FAO, com o intuito de controlar os preços internacionais das commodities. A ONU já propôs estoques regionais de grãos para evitar maus momentos de colheita.

Uma crise alimentar no ano de 2011 agravaria ainda mais a situação econômica vivenciada na União Europeia e ampliaria muito a fome em países que não possuem divisas suficientes para importar esses alimentos com altos custos. O momento de discussão é agora. Se um cenário como esse estiver para emergir, são necessários diálogos profundos acerca das medidas para evitá-lo que, mesmo sabendo que isso nem sempre acontece, deveriam estar na primeira pauta da agenda internacional. Isso porque uma crise dessa magnitude gera fome, e a fome é uma das únicas questões que afetam a agenda econômica, de segurança e social de todos os Estados simultâneamente.

Esperemos que 2011 preencha mais ausências do que contemple as ambições desse fenômeno minimalista e fatal que assola a humanidade há muitos anos.

[Para uma interessante série de reportagens sobre o assunto, clique aqui, aqui, aqui, aqui e aqui]


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Uma vez mais…

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Uma vez mais, os desastres naturais ocupam as manchetes do início de ano. Claro que a desgraça doméstica ocupa uma porcentagem muito maior na nossa mídia, e não poderia deixar de ser diferente, com mais de 600 mortes e milhares de desabrigados. Contudo, parece que a natureza resolveu causar no mundo todo, das tempestades de neve em Nova Iorque às enchentes que cobrem uma área igual à da Alemanha e França somadas na Austrália. Isso abre uma série de questionamentos.

A quem culpar? É justo falar apenas da natureza? O elemento da imprevisibilidade e a força das intempéries são, claro, o elemento principal dessas catástrofes. Por ouro lado, também é muito fácil culpar as pessoas e os governos. No fim das contas, a responsabilidade pode ir de elementos que vão do aquecimento global à ocupação irregular de terrenos. É uma questão tão ampla que acaba sendo impossível determinar exatamente um motivo principal, e a prevenção se torna impossível sem que seja necessário aplicar um plano muito ambicioso e complexo para sanar esse emaranhado de possíveis causas. A única coisa perceptível (e até mesmo um lugar-comum nesse tipo de discussão), no fim das contas, é que pra variar são os mais pobres que pagam o pato.

É fácil comparar tragédias desse tipo ocorridas em países com governabilidade distinta. Basta vislumbrar a reação do Chile e do Haiti aos terremotos que os castigaram ano passado: o Chile já está recuperado, enquanto o Haiti sofre com revoltas, eleições problemáticas, epidemia de cólera e a volta da praga Baby Doc, que roubava dinheiro de ajuda humanitária. Um artigo interessante mostra que existe uma relação perceptível entre corrupção e fragilidade democrática e o número de mortes em desastres naturais.

Outro ponto é o da percepção. Vejam as inundações na América do Sul. A Colômbia enfrenta uma catástrofe de dimensões semelhantes, ou até mesmo piores que as do Brasil – as chuvas torrenciais dos últimos meses, até o momento, causaram menos mortes, mas já arruinaram produção agrícola e deixaram mais de 2 milhões de pessoas desabrigadas. Situação semelhante ocorre na Venezuela. Se esse tipo de notícia passa como nota de rodapé por aqui, quanto mais nossas enchentes devem ser exibidas em alguns segundos do noticiário internacional nos EUA ou Europa, como se fosse algum tipo de incômodo passageiro num mundo distante – enquanto as inundações na Austrália tomam grande parte de seus noticiários.

E é essa justamente a questão: todo ano esse tipo de notícia se repete, pelo mundo inteiro. E as pessoas se acostumam. É sabido que muitos morrerão e pouco se faz. Nos países mais pobres (e propensos à corrupção/democracia frágil), esse filme será repetido indefinidamente enquanto não houver a solução das mais variadas vicissitudes sociais, que vão de habitação a corrupção política – e isso não tem prazo para ocorrer… Enquanto isso, nos países mais abastados, seus problemas são suficientes, cada um na sua, e a falta dessa percepção global dos problemas pode levar a agravar o quadro atual. Debater e (quiçá) reverter as mudanças climáticas? A existência de refugiados climáticos? Fome pela destruição de áreas agrícolas? Uma hora esse tipo de situação sairá do controle. E quando uma atitude for tomada, poderá ser tarde demais.


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Comemoração internacional

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[Post rápido, apenas para registrar uma data marcante para as Relações Internacionais, o Dia Internacional dos Direitos Humanos.]

10 de dezembro. Nesta data, há 62 anos, no âmbito da Assembléia Geral das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi aprovada. Desta forma, eis que se comemora no mundo inteiro esta data como o Dia Internacional dos Direitos Humanos, em memória a este feito tão marcante no cenário internacional.

Neste ano, a homenagem foi voltada especialmente aos ativistas de Direitos Humanos, aqueles cujo trabalho se mostra “fundamental para conseguir liberdade, paz, desenvolvimento e justiça em qualquer lugar do mundo”.

Sabe-se que a discussão acerca de temas nesta esfera envolve muitos aspectos, de forma que se pode, em certa medida, questionar até que ponto esta comemoração efetivamente reflete as atuais condições no contexto internacional. O caso Sakineh, cuja polêmica tem predominado na mídia internacional nos últimos tempos, constitui um exemplo desta afirmação. Enquanto determinadas fontes acreditam que esta questão não se trata de Direitos Humanos, a repercussão desta situação tem demonstrado o quanto a temática humanitária ainda pode se desenvolver na sociedade internacional em geral…


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Polêmica chinesa

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China. Paz. Prêmio. Direitos Humanos. Comunidade internacional.

A probabilidade de estas palavras comporem uma mesma frase parece remota, não? Bom, mas eis que: um indivíduo da China foi eleito para receber o Prêmio Nobel da Paz por sua atuação em prol dos Direitos Humanos no país, mobilizando a comunidade internacional neste sentido.

Este período por si só surpreende os leitores mais atentos. O que não surpreende, contudo, é o fato de que este indivíduo, no caso Liu Xiaobo, é um dissidente chinês que será impedido de receber o prêmio em questão. Este cumpre pena em seu país por subversão, após ter liderado o manifesto “Carta 08” (disponível em inglês aqui), o qual reivindica reforma política e o respeito aos Direitos Humanos na potência oriental. Um trecho marcante desta carta, que causou imenso descontentamento ao governo chinês, é o seguinte:

[…] “The Chinese people, who have endured human rights disasters and uncountable struggles across these same years, now include many who see clearly that freedom, equality, and human rights are universal values of humankind and that democracy and constitutional government are the fundamental framework for protecting these values”. […]

Vale ressaltar que Liu Xiaobo foi também um dos líderes dos protestos estudantis contra o governo chinês na Praça da Paz Celestial, em 1989, os quais constituem também um marco na luta por Direitos Humanos na China.

Desta forma, diante do panorama apresentado, a comissão organizadora do Prêmio Nobel concedeu neste ano a Xiaobo um dos prêmios mais aguardados pela comunidade internacional – o Prêmio Nobel da Paz – em homenagem a seus esforços políticos e humanitários. Infelizmente, entretanto, Xiaobo, que está preso na China, não poderá receber o prêmio e nem será formalmente representado nesta ocasião, já que o governo da China tem tratado esta questão no âmbito da “segurança nacional”, impedindo simpatizantes e familiares de chegarem à Noruega, onde o prêmio será entregue nesta sexta-feira.

Em verdade, nos últimos dias o governo chinês tem liderado um boicote ao prêmio em si, chegando mesmo a afirmar que o comitê organizador é formado por “palhaços”. Nesta linha, 19 países já confirmaram que não estarão presentes na entrega do prêmio, dentre os quais podem ser destacados, além da China, a Rússia, a Arábia Saudita, o Paquistão, o Iraque e o Irã, por exemplo. Para contornar a situação, o governo chinês até criou seu próprio Prêmio Confúcio da Paz

A polêmica se alastra e muito ainda deve ser feito para que o trabalho em prol dos Direitos Humanos na China venha a ser efetivo, de forma que a transparência possa, um dia, caracterizar as ações do governo chinês. A indicação de Liu Xiaobo ao Nobel da Paz certamente contribui para que o debate neste sentido aflore em meio à comunidade internacional, exortando todos os atores à reflexão acerca do fato de que a magnitude desta potência oriental se sustenta sobre bases, no mínimo, questionáveis no que tange à noção de respeito à humanidade.


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Água, o fator humano

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Quanto tempo uma pessoa vive sem comida? E sem água?

Para a primeira pergunta, em torno de oito semanas. Para a segunda, menos de uma semana. Obviamente, há outros fatores que devem ser considerados, o que leva os especialistas a afirmar que o período pode variar de acordo com a condição de cada pessoa. Mas, em termos gerais, é senso comum concordar com tais assunções.  

Quando estudamos as grandes guerras mundiais ou conflitos armados, logo vinculamos sua origem as mais diversas causas. Para ficarmos com alguns exemplos, cito: comércio, território, prestígio, fontes de alimentação, fontes energéticas, enfraquecimento de um rival, entre outros. No entanto, o recurso mais básico para a vida humana é a água. Como se encaixa este fator nos conflitos e disputas internacionais? 

Já em 1995, o então vice-presidente do Banco Mundial, Ismail Serageldin, alertava a comunidade internacional, “as guerras do próximo século serão vinculadas ao acesso à água”. Um dos focos principais de disputa (em grande medida regionais) são justamente as fontes de água junto às áreas fronteiriças. Tomando um exemplo na América do Sul, a Bacia do Rio Prata apresenta um potencial risco para um conflito futuro entre Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai. Ao passo em que, o Nilo e o Tigres/Eufrates são regiões atualmente em disputa e/ou negociação.  

Conflitos que emergem em disputas por fontes de água são causa constante de violência e conflitos a nível interno. Tomando em conta ainda que, de acordo com o pesquisador Eriksson, entre 1998 e 2004 mais de 80% dos conflitos armados foram internos e não regionais ou internacionais, pensar uma política internacional mais sólida para a água ganha ainda mais importância. Em um mundo em que cerca de 1 bilhão de pessoas não têm acesso a água limpa, mais de 2 milhões de pessoas morrem anualmente de causas vinculadas a falta de saneamento e água potável e 1 terço da população mundial vive em regiões com grande dificuldade para aceder a fontes de água, é evidente que água deveria ser uma prioridade nas discussões da comunidade internacional.  

A maior parte dos países que vivem sob grande estresse nessa temática está localizada na Ásia e África, especialmente em regiões rurais. Uma pobre estrutura institucional, um parco desenvolvimento econômico-social e o descaso da comunidade internacional servem como um intensificador, colocando estas regiões na beira do colapso interno. Garantir a sobrevivência é a tarefa mais elementar do ser humano, por isso nos alimentamos e buscamos fontes de água, quando o risco é iminente a tarefa toma o rumo “matar ou morrer”, literal em alguns casos.  

Tanto se fala de interdependência a nível internacional. O aquecimento global e as finanças internacionais são os exemplos comumente utilizados. Contudo, a água é também parte da agenda. Regiões fragilizadas institucionalmente e com problemas de acesso e fornecimento de água podem representar um grande risco de instabilidade regional e internacional. Afinal, antes de território, comércio, prestígio, fontes energéticas e alimentares, qualquer ser humano necessita de água limpa para consumo.  

[Mais Informações]

Acordos internacionais: 1

Água e conflitos: 1

Água e conflitos no Oriente Médio: 1,2,3


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Condenar ou não condenar, eis a questão

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O dilema shakespeariano da tragédia de Hamlet adentra aos domínios das relações internacionais. Volta à tona a questão dos direitos humanos no Irã no limiar entre a condenação e a não condenação. Muito embora já tenha sido aprovada uma resolução das Nações Unidas condenando os abusos contra os direitos humanos, em que pese a prática do apedrejamento, é preciso discutir o significado do ato de condenar ou não condenar. De um lado, a opção dos países desenvolvidos, do outro, a dos países em desenvolvimento (abstenção ou voto contrário). O Brasil se absteve.

De início, um ponto polêmico: atualmente, que legitimidade têm os países europeus e os Estados Unidos, baluartes de sociedades ocidentais avançadas, para questionarem o apedrejamento iraniano? Para não ser repetitivo, recordemo-nos dos posts do Álvaro e da Andrea, em que fazem uma belíssima análise comparativa entre a prática da pena de morte e o caso Sakineh. Ademais, convém-nos lembrar as violações de guerra cometidas pelo exército norte-americano no Iraque (escandalizados pelos vazamentos do Wikileaks), Guantánamo, Abu Ghraib e as avassaladoras ondas de preconceito que se espalham pela Europa. De maneira mais elucidativa, cita-se um trecho da entrevista da jornalista iraniana, ex-presa política no Irã, Roxana Saberi, concedida ontem à Folha de São Paulo: “Quando a América não é fiel a princípios sobre os quais foi fundada, então outros governos podem fazer disso uma desculpa para seu próprio comportamento.”

Não é de se admirar, portanto, que Ahmadinejad acuse o dito Ocidente pela politização dos direitos humanos, opinião bastante contundente. Mas, por outro lado, é inconcebível que o líder iraniano faça campanha para as mulheres se casarem com 16 anos e os homens com 20. O motivo? Quanto maior a população, maior a capacidade de resistir e pressionar esse mesmo Ocidente. Aí já é brincadeira! Esse pretenso confrontacionismo (até mesmo demográfico) não ajuda em nada: de um lado, o narcisismo ocidental combinado com uma visão ortodoxa dos direitos humanos, de outro, um nacionalismo de fachada para sustentar uma inalcançável imponência. E ai daquele que reclamar das escolhas políticas iranianas…

Para terminar, uma breve digressão a respeito da política externa brasileira – a qual podemos estender nos comentários. O chanceler Celso Amorim justificou a abstenção sob a insígnia de princípios diplomáticos consolidados – não-intervenção, não utilização de órgãos da ONU para a condenação de outros países, etc. –, acrescido de motivações políticas e instrumento de pressão ao Irã por trás da resolução. É fato também que em seu discurso na última Assembléia Geral da ONU, Amorim se posicionou a favor de “um tratamento não-seletivo, objetivo e multilateral dos direitos humanos”, “sem politização ou parcialidade, em que todos – ricos ou pobre, poderosos ou fracos – estejam sujeitos ao mesmo escrutínio” (ver discurso), que está consonante ao argumento de Ahmadinejad. Neste ponto, eu considero acertada a decisão do Brasil, porém, também atinente aos direitos humanos, no que concerne à libertação de presos políticos, nossa diplomacia parece uma metamorfose ambulante (vide as respostas do chanceler, quando perguntado sobre essa questão, em entrevista à Folha de São Paulo no dia 15/11/2010. Acompanhem a posição sobre Mianmar aqui e aqui).

Condenar o Irã per se, sem o devido tratamento da temática dos direitos humanos, é uma retórica cíclica. Enquanto os direitos humanos forem tratados como uma questão tópica, a la carte, que emerge quando surge um abuso daqui, uma prática estranha dali, e sob a égide ocidental, a comunidade internacional continuará exercendo o mero exercício de condenar, condenar e condenar…


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