Conversas com o futuro

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Se, em nossa coluna “Há um ano”, olhamos para trás, que tal olharmos para frente? Que tal conversarmos com o futuro? Não pelo prazer da futurologia, mas para a avaliação dos caminhos a serem trilhados pelo mundo.


Não é novidade para ninguém que, atualmente, estamos presenciando um mundo em constante mudança e movimento. Mudanças que, até pouco tempo atrás, pareciam improváveis e outras que estão se consolidando cada vez mais. Analistas de relações internacionais ou não, todos nós, expectadores de acontecimentos globais, estamos nos perguntando: afinal de contas, que momento vivemos e para onde vamos?

Há pouco tempo, o Luís Felipe escreveu sobre os Estados Unidos. Dificilmente alguém poderia dizer que o país seria tão afetado pela atual crise financeira. Tampouco poderia dizer isso sobre a Europa. Ambos foram. Os principais pólos do poder mundial estão se desgastando, comprometendo o exercício da hegemonia econômica e política. Esse fato abre espaço para os países emergentes – China, Rússia, Brasil, Índia, Indonésia, etc. – se reposicionarem no mundo e suscita a indagação sobre se esses países irão ocupar a lacuna deixada pelos Estados Unidos e Europa em relação ao gerenciamento da ordem internacional. Se sim, que tipo de ordem teremos; se não, como lidar com esses países, quando emersos e então (provavelmente) potências?

Muitos estudos (ver, por exemplo, a publicação do National Intelligence Council) estão sendo realizados para poder compreender o futuro que há de vir. De maneira geral, os cenários oscilam entre a cooperação e o conflito, questionando o resultado dessa interação entre o declínio das tradicionais potências e a emersão de novas “potências” (se, de fato, quiserem assumir este status). Ademais, o rearranjo mundial deve levar em consideração questões que, até o momento, tem figurado de maneira marginal na agenda internacional. O terrorismo é importante, como demonstrou recentemente o atentado na Noruega (vejam o post do Álvaro e mais informações aqui), mas não é determinante. Se o terrorismo permanecer como a força gravitacional que rege a agenda mundial, milhões (se não bilhões) de pessoas estarão condenadas à miséria, fome e escassez de água, xenofobias e fundamentalismos serão fomentados, isso para não falar sobre outras questões, como meio ambiente, narcotráfico, tráfico de armas, etc.

Os Relatórios de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) (link desses relatórios), os relatórios do Banco Mundial e de diversas outras organizações apontam as questões tratadas acima como riscos diversos, que vêm sendo negligenciados. Riscos muito mais “reais” do que o terrorismo ou guerras. Riscos que matam silenciosamente e podem desencadear conflitos. A “favelização” está se tornando o principal fenômeno do século XXI (vejam este impressionante relatório, intitulado “The challenge of slums”). Há chineses e indianos que precisarão comer. Africanos morrerão por alguma doença antes mesmo que balas ou facões milicianos e tribais lhes atinjam. Esses riscos também despertam a atenção porque, em geral, ocorrem nos países pobres e nos emergentes.

Ora, pessoal, a conversa com o futuro é extensa, impossível de ser exaurida neste post. O objetivo aqui é convidá-los a refletirem a respeito do momento em que vivemos e pensarmos no futuro. Na próxima semana, traremos alguns dados importantes que ilustram as transformações em curso. Lembremos que as relações internacionais, diferentes dos diamantes, não são feitas para a eternidade; tampouco os países, diferentes dos periquitos ou dos ursos, não são monogâmicos e destinados a estabelecerem interações para todo o sempre. O poder muda e a interpretação do que é importante e do que deixa de ser varia. O mundo está mudando rapidamente e nossas mentes devem acompanhar esse processo de mudança.


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A Argentina e seus mistérios

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A Argentina é um país com muita história pra contar. O nosso vizinho platino está em voga na mídia nas últimas semanas, por conta do torneio de futebol continental que lá acontece. E, além do fato do melhor jogador do mundo não conseguir render na sua seleção nacional como faz em seu clube na Espanha, existem muitos mistérios rondando aquelas bandas…

Hoje, 18 de julho, faz 14 anos que houve o ataque à AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), o maior atentado da história da América Latina, com mais de 80 mortos, e até hoje sem solução (veja um artigo interessante sobre o tema aqui). Nenhum grupo reivindicou a autoria do ataque (o que é atípico), ninguém foi preso, não se sabe nem qual foi o explosivo (e como foi) usado no ataque. As especulações sobre a motivação do ataque vão de vingança política contra o presidente Menem ao bom e velho terrorismo fundamentalista islâmico contra uma das maiores (e mais vulneráveis) comunidades judaicas do mundo. Trata-se de um assunto que nunca caiu no esquecimento, mas a falta de provas e falhas na investigação o condenam a ser para sempre uma fonte de teorias conspiratórias.

Por outro lado, nesse fim de semana houve uma revelação que acabou com outro mistério: exames de DNA mostraram que os herdeiros do maior jornal da Argentina não são filhos de desaparecidos políticos. A Argentina pode ter tido uma das ditaduras mais truculentas da América do Sul, com seu score de mortos e desaparecidos na casa das dezenas de milhares (só pra comparar, no caso do Brasil, por mais controversos que sejam os números, não se chega na casa dos 500), mas não eram malvados o suficiente pra matar criancinhas. O que ocorria muitas vezes com filhos de mulheres presas ou mortas em centros de detenção clandestinos era o envio para famílias simpáticas ao regime – mais de 104 crianças foram identificadas nessa situação até hoje. Com essa revelação, cai por terra mais uma teoria da conspiração que ligaria o grupo midiático mais poderoso do país a interesses políticos – e atualmente em uma rixa com Cristina Kirchner.

Não sei se o ataque à AMIA vai ter explicação, algum dia. Mas, em um país com um invejável senso de investigação e participação política, onde a justiça mandou a anistia catar coquinho e quase todos os ex-ditadores pararam na cadeia, não é surpresa que cada vez mais possamos ter esse tipo de mistério revelado.


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Post do leitor – Danillo Alarcon

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[Hoje temos uma postagem muito oportuna e especial do nosso colega Danillo Alarcon, graduado em Relações Internacionais pela Unesp-Franca e mestrando também em Relações Internacionais pela UnB, sobre a emancipação do Sudão do Sul. Aproveitem! E lembramos que se quiserem escrever para o blog, basta mandar o texto para o e-mail da Página Internacional – [email protected], fiquem à vontade para participar]

É bom chamar o síndico: al-Bashir e seu novo vizinho

O cenário internacional está em constante mudança. A imagem congelada do mundo que temos nos mapas e globos que ornamentam bibliotecas e escolas não dá conta deste processo, e a atualização é constante. Neste início do século XXI, algumas mudanças são consideráveis dentre as quais a criação de Estados como o de Montenegro, o de Kosovo, o de Timor-Leste e mais recentemente o do Sudão do Sul. A criação de um novo Estado suscita um bom número de questões importantes, desde o seu reconhecimento à própria forma como este foi criado. Este artigo tem, assim, por objetivo enfrentar algumas questões referentes à situação no Sudão do Sul, recém criado a partir da divisão do antigo Sudão.

A primeira consideração a ser feita é em relação à própria forma como esse novo Estado, com capital em Juba, foi criado. Um referendo foi adotado para tal consulta. Apesar da influência internacional pressionando para a aceitação deste tipo de meio político, Cartum – agora capital do ‘novo’ Sudão – respeitou e reiterou seu compromisso com os resultados obtidos em janeiro de 2011. Omar Al-Bashir, atual presidente do Sudão, demonstrou que a voz e os anseios do povo são dignos e passíveis de serem ouvidos, onde quer que se esteja. Ponto para as teorias democráticas neste quesito.

A influência estrangeira em assuntos internos de determinados países é o segundo elemento a ser ressaltado. O Estado hodierno não é este ente ‘mágico’ que muitos acreditam ser – indivisível, inviolável e insuperável. Aliás, quanto mais dependente economicamente, mais vulnerável se torna um Estado. Esta situação é, contudo, aplicada aos grandes países, que agora tem acesso às reservas de petróleo do Sudão do Sul, sem passar pelo empecilho “Omar al-Bashir”. Ou seja, a criação do novo Estado ressalta também a situação de emergência em que se encontram os consumidores de produtos advindos do petróleo.

A questão econômica é deveras importante, e é destacada como a terceira questão aqui analisada. O novo Estado congrega ao longo de sua fronteira norte boa parte das reservas de recursos naturais que antes pertenciam ao todo. Há inclusive uma zona fronteiriça que ainda está sendo contestada pelas duas partes. De um lado, há um enorme potencial para um conflito, entre dois Estados independentes, ou seja, não mais seria uma guerra civil. Isso poderia acarretar a influência de outros atores e fatores na possibilidade de um conflito. Do outro, existem possiblidades de cooperação, pois a estrutura para exportar e submanufaturar os produtos extraídos no sul, estão no norte. O interessante é que há possibilidades de escolhas, e o resultado disso só virá com o tempo. Além desta questão, deve-se ressaltar o peso que haverá de ter a China no novo país criado, já que no Sudão de al-Bashir ela é a grande investidora.

O quarto ponto ressaltado está relacionado às dificuldades ainda sentidas pelo ser humano em conviver com o diferente. Um dos fatores que motivou a divisão dos dois países foram as diferenças religiosas e étnicas. O sul é majoritariamente cristão e animista, enquanto que o norte é islâmico. Como o próprio termo já ressalta, cada novo país é “majoritariamente” uma coisa ou outra, o que reascende a preocupação de todos para com a situação criada nos novos países, e atenção deve ser dada ao trato das minorias em cada lado da fronteira. Além do mais, a situação no ‘novo’ Sudão não é nada animadora para boa parte da população que vive na região de Darfur, e nem mesmo para o Sudão do Sul, onde convivem mais de 60 etnias, com potencial para severas divergências.

A divisão de um país, devemos ressaltar, não cria somente um outro país, pois o Estado original deixa de existir para dar lugar a duas ou mais entidades. Essa pode ser a chance para um novo começo, mas “enquanto o mundo continua parolando”, nem o Sudão nem o Sudão do Sul têm reais condições de proporcionar boas condições de vida para sua população, quanto mais de assegurar a paz entre si, Al-Bashir continua sendo o mesmo facínora de antes da divisão e movimentos de resistência continuam causando muitos problemas nos dois lados da fronteira. Há, claro, motivos para comemorar, mas há muito trabalho a fazer, e neste quesito, os atores internacionais – quaisquer que sejam (outro Estados, organismos internacionais, ONGs, indivíduos, etc) – têm deixado muito a desejar.


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Um senhor respeitável

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Há algumas semanas estávamos comemorando os 20 anos de democracia na Rússia. Pois bem, hoje temos um aniversario ainda mais expressivo, o do nonagenário Partido Comunista Chinês. Ao contrário da democracia surgida com o fim da União Soviética, que anda meio mal das pernas, o governo de Pequim (não me venham com Beijing) está firme e forte como nunca. Mas é um aniversario sem ter muito que comemorar.

A economia chinesa, até segunda ordem, vai bem, obrigado. Claro que tem o problema da inflação, mas nada que não se consiga contornar. Acho que é o que podemos chamar de males do crescimento… Agora, se nos últimos anos a economia se abriu, as expectativas de abertura política parecem diminuir à medida em que o partido envelhece.

Havia uma esperança de abertura com a sucessão de Hu Jintao, mas com a provável ascensão de Xi Jinping em 2012, considerado conservador, vai persistir a o padrão de atuação política atual e truculência no trato com os insatisfeitos. Com medo dos efeitos da “primavera árabe”, o governo chinês aumentou a repressão e passa esse aniversário no vermelho, literalmente, reforçando símbolos dos “bons tempos”. É a boa e velha propaganda em seu sentido original, de difusão política. Enquanto isso, aumentam incertezas e continuam pipocando os que protestam contra a corrupção e abusos.

Governos opressores não duram para sempre – nessa mesma semana, por exemplo, começa o julgamento dos últimos 4 líderes vivos do Khmer Vermelho (o então governo comunista do Camboja, que foi responsável pela morte de cerca de 2 milhões de pessoas, e é o caso mais absurdo e truculento de como os regimes comunistas lidavam com seus cidadãos). É pouco provável que haja um novo massacre da Praça da Paz Celestial, mas vai ser gradualmente mais difícil a esse governo, cada vez mais fechado e defensivo, que continue a manter os ânimos apaziguados sem que ocorra algum incidente mais grave.

Além do mais, um país não pode viver só de uma economia pujante, e se essa degringolar, aí a coisa fica feia. O partido continua firme, e ainda vai fazer muitos aniversários. Mas, até quando?


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"Comer, comer…

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É o melhor para poder crescer.” Toda mãe deve ter dito isso para seu filho. O mundo também disse isso para seus países, só não esperava que uns comessem tanto a ponto de não deixar nada ou quase nada para os outros. Agora, a indigestão ataca os que comeram demais e a carência, aqueles que pouco comeram. Desnecessário dizer que quem não come, não cresce, e que quem come mal, cresce mal.

Alimentação. Um tema sensível, delicado e escondido atrás das envelhecidas cortinas do poder que adornam as relações internacionais. Soa até exagerado, mas os alimentos podem imprimir novas dinâmicas em um mundo acostumado a ver o que as armas, o dinheiro e o prestígio permitem enxergar. Lester Brown é quem dá o recado, em um artigo muito interessante, intitulado “A nova geopolítica dos alimentos”. Para Brown, os alimentos se tornaram o “condutor oculto da política mundial”, deixarão um rastro de crises e viveremos em tempos de escassez.

Não é difícil perceber o que está causando isso: a população está aumentando. Mais pessoas precisam comer, o que não significa que essa necessidade será atendida. Sem dúvidas, Malthus gostaria de se pronunciar no século XXI. O aumento populacional fatalmente provoca uma pressão sobre a produção. Os preços sobem e não querem mais descer: a Organização das Nações Unidas para Agriculta e Alimentação (FAO, na sigla em inglês) acredita que eles se manterão elevados em 2012 e uma ONG britânica calcula que dobrarão até 2030. (Acompanhem os preços e a demanda.) Resultado: as pessoas empobrecem e passam fome. A estimativa é que, em 2010, havia 925 milhões de pessoas subnutridas, o que equivale a praticamente um sexto da população mundial – quase todas (88%) na Ásia e na África Subsaariana. (Vejam os relatórios da FAO de 2008 e 2010 sobre a insegurança alimentar.)

Além disso, a questão dos alimentos perpassa uma série de outras questões: escassez de água, biocombustíveis, revoltas e terras estrangeiras. As práticas excessivas de irrigação estão levando ao esgotamento dos lençóis freáticos. No caso dos biocombustíveis, o investimento em grãos acaba acompanhando o preço do petróleo, pois este conduz à procura por fontes alternativas, sobretudo, o álcool produzido pelo milho ou pela cana-de-açúcar. Alguns também associam as causas da ‘primavera árabe’ com a inflação, principalmente no Egito e na Síria, onde ela atingiu dois dígitos. Por fim, uma prática pode estar se tornando cada vez mais comum: o arrendamento de terras no estrangeiro, de maneira a cultivar produtos para suprir as necessidades dos países que as arrendam. Arábia Saudita, China e Coreia do Sul lideram esta modalidade; o destino é a África.

Os alimentos podem estar afetando as relações internacionais e pouca atenção é dada a isso. Não é exagerado dizer que os conflitos futuros, inter ou intra-estatais, podem ser travados por terras ou por comida. A China não vai resolver o seu problema populacional matando seus chinesinhos de fome e o Congo tem de lidar com 69% de sua população subnutrida (Confiram este mapa de subnutrição). Os egoísmos nacionais podem voltar com tudo, uma vez que os países podem preferir alimentar seus cidadãos à custa da subnutrição em outros países. Os egoísmos individuais devem se acirrar na medida em que se prefira investir no luxo de poucos – o combustível para o carro – em detrimento à vida de muitos. Isso são apenas alguns pontos de uma intensa discussão que poderia se estender para meio ambiente, direitos humanos, etc.

Conclui-se, finalmente, que a lógica é simples, come-se para viver, e não apenas por comer. Não é à toa que a gula é considerada um dos sete pecados capitais. Não é à toa que devemos verificar importantes mudanças no curso das relações internacionais em um curto espaço de tempo.


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20 anos com corpinho de 90…

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Nesse fim de semana a Rússia fez 20 anos – ao menos, sua democracia, pois em 1991 era eleito Boris Yeltsin e terminava o sombrio período do desmoronamento da União Soviética. Indícios de uma era de paz e prosperidade pós-comunismo? Nem tanto, pois a primeira coisa que fizeram foi invadir a Chechênia, e repartir todo o aparato estatal entre oligarquias misteriosas que encheram as listas de “mais ricos do mundo” de magnatas russos.

Em 20 anos, o que conseguiram? 3 presidentes, uma certa melhora em níveis de vida, crises econômicas, alguns atritos com países vizinhos, o direito de sediar uma Copa do Mundo… Bem parecido com o Brasil pós-1988 não? Fora o número de presidentes, o Brasil e a Rússia passaram por poucas e boas desde que adotaram formalmente a democracia. Qual a diferença primordial? A Rússia ainda tem muita influência na política mundial. Não apenas por sua cadeira permanente herdada da URSS no Conselho de Segurança da ONU e as centenas de ogivas nucleares em sua posse (ainda a segunda reserva destas em número no mundo; vale lembrar uma antiga piada: os EUA disseram à URSS que tinham um arsenal nuclear capaz de destruir o mundo 10 vezes, ao que os soviéticos respondem que se quisessem seu arsenal bastava para fazê-lo uma única vez…), mas pela capacidade de influência na região e mesmo na Europa. Basta ver como decisões da UE ou da OTAN sempre levam em consideração as possíveis reações russas.

Por isso podemos dizer que a Rússia tem um corpo de 90 anos – afinal, muito de seu poder e instituições são herdeiros diretos da URSS, e se criou uma situação paradoxal. Se a China é um país comunista atípico, “capitalizado”, ao mesmo tempo a Rússia é uma democracia consolidada, mas ao mesmo tempo “ditadorizada”, com eleições livres, oposição organizada e afins, mas onde opositores são marginalizados e eliminados sumariamente, o Estado é truculento e sua burocracia é rígida, centralizada, e serve aos interesses de um hiperpresidencialismo. Nas mãos de Putin e Medvedev, ficou bem claro nas entrelinhas de seus projetos políticos o desejo pela nova ascensão da Rússia como potência mundial, e para isso o Estado precisaria de mão forte. Há até mesmo quem diga que as recentes rixas entre os dois sejam uma mirabolante manobra planejada por Putin para mostrar que existe dissonância interna e legitimar sua eventual terceira vinda ao poder.

Teorias da conspiração à parte, o fato é que a democracia russa cambaleia, fragilizada ao longo de 20 anos de tratamento de choque. E o irônico é que, enquanto persistir essa estrutura vertical e robusta de poder político centrado, essa nova e sui generis democracia russa ainda vai fazer muitos aniversários…


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Em terras holandesas…

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Enquanto os jogadores de futebol da Holanda chegam ao Brasil e se ambientam sob muitos holofotes para o (aguardado) jogo amistoso contra a seleção brasileira amanhã, eis que, por sua vez, na Holanda desembarca (finalmente) Ratko Mladic para ser julgado pelo Tribunal de Haia por genocídio e crimes contra a humanidade. [O apelo futebolístico dominando, tal como usual, os noticiários nacionais ao mesmo tempo em que um marcante momento histórico é escrito internacionalmente no que se refere à justiça internacional.]

Apenas para contextualizar, o ex-general sérvio Mladic era, desde 1995 e até poucos dias atrás, um dos criminosos de guerra mais procurados da Europa, com acusações dentre as quais se destacam o massacre de mais de 8 mil muçulmanos em Srebrenica e o cerco a Sarajevo, durante a Guerra da Bósnia, entre 1992 e 1995. (Para mais informações, veja aqui e aqui.)

Tal como o colaborador Luis Kitamura apresentou há poucos dias em seu interessante post, fica no ar o questionamento acerca da existência de uma justiça internacional realmente efetiva, considerando – ainda hoje – a impunidade de tantos seres humanos que, no decorrer da história, espalharam o ódio e a desgraça nas mais variadas situações e deixaram mais do que clara sua falta de humanidade.

O próprio Mladic viveu 16 anos foragido, supõe-se que com ajuda da própria sérvia e mesmo de outros países. Após todo esse tempo, sua prisão traz à tona a reflexão acerca da importância da imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade: estes são imprescritíveis (ou seja, não possuem tempo limite para serem julgados) exatamente porque não se pode esperar que as pessoas que estão em um Estado em guerra (ou que compactuam com a situação dominante) julguem a si mesmos de forma idônea, especialmente em relação a crimes deste nível.

Desta forma, mesmo depois de tantos anos, espera-se que a justiça seja feita em Haia, na Holanda, e que as famílias das vítimas de Mladic possam sentir-se, no mínimo, “consoladas” de alguma forma diante do julgamento daquele que liderou tantas atrocidades em episódios que mancham de sangue a história européia recente.


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A Justiça Internacional

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A genialidade e a inventividade humana parecem não conhecer limites. No decorrer da história outra faceta dessa mesma característica assombrou populações, ensejou ódio e perpetrou atos antes impensáveis. Infelizmente, o mesmo homem que por meio de diversas inovações moldou a vida moderna, também apresentou ao mundo conceitos como limpeza étnica, Holocausto e genocídio. Como esquecer massacres contra civis? Como acreditar na justiça frente crimes que permaneciam irresolutos e vozes nunca atendidas?

A crueldade contra a vida humana, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, não era acompanhada por sistemas formais de justiça no âmbito internacional. Em verdade, muitos dos crimes então cometidos criaram um precedente para sistemas que garantissem o reconhecimento e o respeito aos direitos humanos. A Segunda Guerra Mundial foi sucedida por diversos tratados, convenções e reuniões internacionais com o fim de regulamentar tal questão. Passamos de um sistema que tratava os direitos humanos como intrínsecos à conduta humana para um corpo regulatório formal, no qual tais direitos eram estabelecidos e reconhecimentos pela comunidade internacional.

O cerco aos países membros das Nações Unidas, contudo, não foi suficiente para assegurar o fim de condutas lesivas de governos contra populações civis. A inexistência de guerras que envolvessem um grande número de países não arrefeceu o ritmo do desrespeito aos direitos humanos. Foram diversos os conflitos de âmbito regional que chocaram a comunidade internacional, ao mesmo tempo em que seus fóruns eram incapazes de vencer a batalha entre direitos humanos e direitos dos Estados, no sentido de conduzir ações que impedissem genocídios e crimes contra a humanidade.

O estabelecimento, com amplo apoio da comunidade internacional, do Tribunal Penal Internacional (TPI) através do Tratado de Roma veio como mais um passo para o fortalecimento do sistema internacional para os direitos humanos. Desta vez, o objetivo era trazer líderes de grupos (estatais ou não); que tenham perpetrado crimes de guerra, genocídios ou crimes contra a humanidade; a um julgamento baseado do direito internacional. Os alvos da ação do TPI são líderes não levados a sistemas nacionais de justiça considerados justos, notadamente países de institucionalidade fragilizada. Portanto, a comunidade internacional idealmente contará com tratados e convenções definindo o sistema internacional para os direitos humanos ao mesmo tempo em que terá mecanismos que garantam o fim da impunidade de Estados e líderes com o advento das cortes e tribunais internacionais.

Por se tratar um sistema colaborativo, no qual há forte dependência da cooperação com os estados membros, o TPI ainda enfrenta desafios colossais para levar à justiça seus acusados. As boas intenções ainda não encontraram mecanismos que as corroborem. Um exemplo claro disso é a possibilidade de extradição de Mladic para Haia (Holanda, onde está sediado o TPI) somente 16 anos após o fim da Guerra da Bósnia. Existe ainda a forte oposição dos Estados Unidos, que chegou a ser um ativismo contra o sucesso do estabelecido via Tratado de Roma, representada pela a afirmação de John Bolton, um importante diplomata norte-americano durante o governo Bush:

“Um grupo de países reza pelo fim do governo Bush e a eleição de um sucessor que assine novamente o Tratado de Roma. Haverá um dia frio no inferno antes que isso aconteça.”(em tradução livre) 

Será possível uma justiça internacional realmente efetiva?

Para mais: 1,2,3


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Vejam só…

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Lembram de quando o Osama morreu? (Ok, é apenas uma pergunta retórica…) Uma das conseqüências previstas seria uma explosão nacionalista dos norte-americanos que viria junto de uma alta sensacional na popularidade do presidente Obama. Dito e feito. Esse exemplo mostra como algumas conjunturas internacionais afetam o cenário interno, e isso pode estar acontecendo um pouco na França.

Quem acompanha o blog sabe que o presidente francês andou cometendo uns deslizes e com umas dores de cabeça bem desagradáveis, dentro e fora de casa. Crise política e baixa popularidade colocam em xeque sua administração e comprometem sua reeleição. Contudo, dois fatos dessa semana podem dar um novo fôlego a Sarkozy.

Primeiro, a tão comentada detenção do diretor-geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn, nos EUA, por acusação de abuso sexual. Não bastasse ser o chefe de um dos organismos mais importantes do mundo, é também o favorito para as próximas eleições presidenciais na França, pelo partido socialista. Ao menos, era, pois as graves acusações – mesmo que eventualmente seja inocente, o que parece improvável dada sua folha corrida – e sua detenção certamente vão ter seu preço perante a ouriçada opinião púbica francesa. Mas esse é apenas um alívio em longo prazo para Sarkozy.

Muito mais interessante para o presidente deve ter sido o anúncio do mandado de prisão contra o ditador líbio Kadaffi emitido pelo promotor do Tribunal Penal Internacional, Luis Moreno Ocampo. Com isso, o ditador líbio vai fazer companhia ao até então solitário Omar Al-Bashir no rol de chefes de Estado com mandados de prisão contra eles. Se vai ser preso, é outra história – o sudanês anda pra lá e pra cá e nunca foi incomodado, quanto mais Kadaffi, que deve estar entocado em algum buraco.

Contudo, a França é o país que mais se esforçou e mostrou interesse na intervenção, e Sarkozy estava sendo muito criticado pela falta de resultados (e pela própria operação em si). Com a prova de que Kadaffi teria atacado civis deliberadamente e violado direitos humanos, uma “chancela” de um importante organismo internacional, a intervenção, mesmo que alvo de muitas críticas e contradições, tem um aspecto de justificação e mais uma vez diminui o peso das críticas sobre as costas do governo francês.

Parece que é a vez de Sarkozy contar com a sorte.


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Vai e vem

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Não poderíamos deixar de comentar sobre o assunto do momento, o inacreditável ataque à escola no Rio de Janeiro está mobilizando a mídia. Isso por que, como sempre, vamos dar o enfoque internacional à questão. A chacina desse atirador maluco pode lembrar desse tipo de massacre em outros países, e não apenas no celeiro dos serial killers, os EUA – nesse fim de semana mesmo ocorreu algo parecido em um shopping center na Holanda. Mas o foco é, na verdade, o tráfico de armas leves, em que o Brasil é um dos protagonistas mundiais.


Poderíamos entrar nos méritos do desarmamento doméstico – não deixa de ser uma medida importante (como uma pesquisa apontou, o controle da circulação de armas irregulares tem relação direta com a diminuição de assassinatos, na proporção de 18 para 1), mas o problema maior ainda é o tráfico ilegal de armas. Boa parte dessas são desviadas do comércio legalizado (há, inclusive, relatos de criminosos que se filiam como caçadores e esportistas para facilitar esse desvio), mas a maioria certamente vem do exterior através das nossas fronteiras pouco vigiadas. A grande ironia, no caso, é que grande parte dessas armas e (especialmente) munições que adentram o país tem origem… no próprio Brasil!


Não somos os maiores compradores de armas do mundo (esse mérito é da Índia atualmente), mas estamos entre os 10 maiores produtores e exportadores de munição e peças. A sacada é que vendemos esses “insumos” para o exterior (EUA e Europa) e eles retornam ilegalmente pela América do Sul. É um mercado bilionário, em que se destacam países “bonzinhos”, sem muita fama de militarização (como Bélgica, Espanha e Áustria), mas é a causa de cerca de 90% das mortes violentas entre civis pelo mundo. E são relações em que a relação pragmática entre comprador e vendedor é mantida até as últimas conseqüências. O caso mais recente e emblemático disso é a Líbia – o grupinho de amigos europeu que agora está às turras com Kadafi vendia boa parte das armas que ele usava contra os civis até poucos dias antes de sair a resolução da ONU contra o ditador. Negócios, negócios, amigos à parte.

O massacre da semana passada foi uma das coisas mais chocantes que aconteceu no Brasil recente, mas é só um exemplo cruel de um problema que vitima o mundo todo (algo em torno de duzentas mil vítimas por ano). O controle desse comércio macabro existe, mas é pouco eficaz, especialmente na parte da reentrada no país, e por isso se torna uma das maiores ameaças (e desafios) à segurança no século XXI.

Dois relatórios interessantes sobre o tema aqui e aqui.


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