Gerenciar riscos para evitar desastres

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Vanuatu

Um dos piores desastres socioambientais da história do Pacífico Sul atingiu o arquipélago de Vanuatu neste final de semana. Muitos de nós talvez nunca tenhamos ouvido falar de Vanuatu até hoje, mas trata-se de um país formado por cerca de oitenta ilhas na Oceania e que está absolutamente devastado após a ruidosa passagem do ciclone Pam.

Mapa Vanuatu

Com ventos de mais de 300 km/h, o impacto do desastre ainda está sendo avaliado, mas dezenas de vítimas fatais já são contabilizadas pelas Nações Unidas. Existe a certeza, contudo, de que é crítico o isolamento do país após a passagem do ciclone que afetou o fornecimento de energia elétrica, o acesso à água e aos alimentos, além de ter provocado destruição física das construções, principalmente na capital Port Vila.

A Cruz Vermelha da Nova Zelândia estima que mais de 100 mil pessoas tenham sido direta ou indiretamente afetadas pelo desastre, o que torna urgente o apoio humanitário à população local, liderado pelos vizinhos Austrália e Nova Zelândia no momento.

Desastres socioambientais são passíveis de acontecerem (e até previsíveis) em diversas regiões do mundo, o que faz parte de uma realidade que não podemos controlar. Contudo, o debate deve se voltar justamente à construção de resiliência principalmente nos locais mais vulneráveis para que o impacto possa ser reduzido ao máximo.

Coincidentemente, está acontecendo essa semana em Sendai, no Japão, a Terceira Conferência Mundial em Redução de Riscos de Desastres, coordenada pelas Nações Unidas e fruto de amplo diálogo com Governos, iniciativa privada e sociedade civil sobre o tema.

A importância do assunto é inegável já que as estatísticas demonstram que, desde 2005, mais de 700 mil pessoas morreram e cerca de 1,7 milhão de pessoas foram afetadas por desastres no mundo. No âmbito intergovernamental, o principal objetivo do encontro é aprovar um novo marco de ação, atualizando Quadro de Ação de Hyogo no contexto pós-2015.

Mais que gerenciar o desastre em si, a prioridade deve ser gerenciar os riscos de desastres, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Redução de Risco de Desastres (UNISDR). De fato, situações de desastre como a que está sendo vivida em Vanuatu deixam clara a necessidade de prevenção e gestão de riscos para evitar ou, pelo menos, minimizar o impacto das catástrofes desse gênero na vida daqueles que mais sofrem suas consequências.


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E que venha 2015…

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Never give up

Em sua essência, a palavra “Natal” nos remete à ideia nascimento, vida. Nesta véspera de uma data tão simbólica, vale uma reflexão justamente sobre as vidas ceifadas ou prejudicadas durante o ano de 2014 devido a crises humanitárias, nas mais diversas localidades, vítimas das mais diversas tragédias. Tragédias estas que, advindas notadamente de desastres socioambientais ou conflitos políticos, possuem como consequência comum o custo humano envolvido. As cifras de mortos, feridos, refugiados, deslocados atingem níveis alarmantes e elevam as necessidades de financiamento de organizações humanitárias a montantes nunca antes vistos na história.

No início de dezembro, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou um apelo para 2015 no valor de aproximados 16 bilhões de dólares, em benefício de pelo menos 57 milhões de pessoas que se encontram em situação de extrema vulnerabilidade (veja o apelo aqui).

Algumas crises podem ser destacadas pela sua gravidade e seu enorme impacto social no ano de 2014, dentre as quais a crise na Síria, que completa quase quatro anos e devido à qual praticamente dois terços de toda a população do país se encontra em situação de necessidade de assistência humanitária. Os milhões de refugiados, principalmente nos países vizinhos, mas também pelo mundo afora (inclusive no Brasil), deixam claro que o problema não se restringe apenas à realidade síria, mas já alcançou níveis regionais e globais de intensa preocupação.

A persistente crise entre Israel e Palestina, cuja amplitude constitui um dos maiores impasses internacionais das últimas décadas, ocasionou um dos mais sangrentos combates na Faixa de Gaza esse ano: durante 50 dias, as notícias de bombardeios, vítimas e refugiados, notadamente palestinos, foram diárias. A trégua atual, infelizmente, ainda não traz uma perspectiva duradoura de solução para o conflito.

Também alcançando nível global, a crise humanitária na África Ocidental advinda do surto epidêmico do vírus Ebola tem demonstrado claramente a incapacidade internacional em lidar com uma emergência de saúde pública deste porte. Com quase 20 mil pessoas infectadas e 7 mil mortos segundo as últimas estimativas oficiais, o impacto da crise – principalmente nos países mais afetados (Guiné, Libéria e Serra Leoa) – foi subestimado por um período muito longo de tempo até que medidas condizentes com as necessidades começassem a ser tomadas.

A República Centro-Africana, o Sudão do Sul e o Iraque, países fragilizados e com conturbado histórico de conflito político integram a lista de crises cuja gravidade é visível, porém que se prolongam indefinidamente, já que a solução envolve um complexo jogo de poder e interesses em que o custo humano não se enquadra como uma das variáveis. A Ucrânia, país europeu, também integra a lista e sofre hoje uma situação de crise de destacadas proporções.

As secas no Chifre da África, notadamente na Somália, bem como na América Central (Guatemala, El Salvador, Honduras), trazem à tona o tema da insegurança alimentar e nutricional em contextos de impossibilidade de produção local de alimentos. As crianças, que constituem um dos grupos mais vulneráveis nas sociedades, se veem destacadamente afetadas, com índices de má-nutrição que alcançam tristes recordes.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 2014 foi um ano “devastador” para as crianças. A estimativa é de que 230 milhões de crianças vivam atualmente em áreas de conflitos armados, sendo que aproximadamente 15 milhões estão sofrendo consequências diretas nas principais crises mencionadas.

Com perspectivas tão “sombrias” para o ano vindouro no que se refere às crises humanitárias, celebrar a vida parece uma realidade ainda muito distante para milhões de pessoas no mundo, infelizmente. Esperemos que 2015 possa contrariar as expectativas negativas e trazer consigo esperança: esperança de que novos caminhos para o diálogo e para a cooperação internacional se abram e de que a paz se torne, mais que um desejo, uma realidade…


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Escravidão moderna

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Fonte: BBC.CO.UK

Fonte: BBC.CO.UK

O Brasil tem, hoje, aproximadamente 155 mil pessoas vivendo em condições de trabalho escravo. No mundo a estimativa é de cerca de 35 milhões de homens, mulheres e crianças, meio por cento da população global, que se encontram na mesma situação. Esses dados foram divulgados pela organização não governamental (ONG) “Walk Free Foundation” em seu “2014 Global Slavery Index”.

Por “escravidão moderna” entende-se o envolvimento de uma pessoa que controla ou possui outra tendo como resultado a privação da liberdade desta última. Trabalho forçado, exploração sexual, tráfico de órgãos e servidão absoluta são alguns dos exemplos práticos que entraram nos resultados em questão. De mais notório, a pesquisa chegou a dois resultados principais. Em primeiro lugar, pelo fato da mesma ter uma metodologia mais específica e apropriada, viu-se que a escravidão moderna em 2014 aumentou em relação ao ano passado. E, em segundo, constatou-se positivamente na maioria dos países, dentre os 167 analisados, a existência de leis e regras específicas no combate à escravidão. Todavia, suas implementações permanecem escassas e fracas.

Em torno de 60% da escravidão moderna está situada em cinco países: Índia, China, Rússia, Paquistão e Uzbequistão. Mauritânia, na África, lidera o ranking com sua “escravatura hereditária” de 4% do total da população. Na América, o Haiti é o país com o pior número e o México é o que apresenta o maior índice absoluto de escravos com aproximadamente 267 mil pessoas exploradas. Do lado oposto está o continente europeu como um todo, representando somente 1,6% dos 35 milhões de escravos modernos.

 

Mapa da Escravidão Moderna de 2014 (Fonte: Walk Free Foundation)

Mapa da Escravidão Moderna de 2014 (Fonte: Walk Free Foundation)

 

Especificamente sobre o Brasil, nosso país melhorou em relação ao ano passado, tendo saído da 94ª para a 143ª posição na escala da pesquisa. A ONG ainda deu destaque para políticas nacionais como a PEC do Trabalho Escravo e o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. Em contrapartida, afirmou que ainda é baixa a identificação de vítimas decorrentes de abuso sexual no território nacional.

Interessante notar que houve uma proporcionalidade direta entre instabilidade política de determinados Estados e a vulnerabilidade da população para com a escravidão moderna. Obviamente, conflitos civis e/ou guerras religiosas enfraquecem a perenidade de leis domésticas, cujos objetivos centrais, no caso aqui retratado, são garantir a liberdade individual. O Brasil melhorou, a Europa mantém a dianteira, mas a discrepância permanece e, cada dia mais, será necessário o trabalho de interdependência entre os atores governamentais e não governamentais. E é aqui que se deve destacar o trabalho da “Walk Free Foundation”.

PS: Para ter acesso direto ao “The Global Slavery Index 2014”, clique aqui.


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Economia doente

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A epidemia de ebola na África, que ocupa as manchetes por causa das mortes e da instabilidade política, já está migrando para outro setor do noticiário – a extensão da epidemia, a longa duração e a quantidade de pessoas afetadas já pode causar impactos reais na economia dos países afetados.

Economia em si é algo ligado diretamente às causas dessa epidemia, da falta de condições sanitárias e de profilaxia que levam ao alastramento do vírus, à ganância das indústrias farmacêuticas que deixam de lado o tratamento de doenças tropicais como malária já que, dificuldades inerentes do combate a viroses à parte, não rendem lucros como remédios para calvície ou outros problemas mais urgentes para o primeiro mundo. Porém, aqui falamos de consequências reais e imediatas. Ao longo das semanas de epidemia, seguindo o rastro de mortes (milhares a cada semana) se seguiram a retirada de empresas, investimentos, redução ou completa suspensão da operação de linhas aéreas e problemas de produção, desabastecimento e saques. Apesar do auxílio externo, países como Guiné, Serra Leoa e Libéria terão sua economia afetada em médio prazo por conta dos efeitos imediatos e a recuperação pode levar muito tempo já que não existem estimativas confiáveis de quando a doença será controlada. Nesse caos, Serra Leoa chegou à medida extrema de decretar uma quarentena nacional por três dias na tentativa de identificar mais facilmente as pessoas afetadas.  O perigo de expansão da doença para outros países, especialmente a Nigéria, acima de tudo é um risco humanitário, mas que pode piorar a situação econômica da região.

Historicamente, não é nenhuma novidade. Na esteira da Primeira Guerra Mundial, a crise da Gripe Espanhola causou ainda mais prejuízos econômicos no mundo – e mudou até mesmo a política do Brasil já que vitimou o presidente eleito Rodrigues Alves em 1919. Nem precisamos dizer o resultado da Peste Negra na Europa durante a Baixa Idade Média. Porém, a crise do ebola se assevera por conta das condições de propagação da doença e pelo fato de serem economias que apesar dos pesares conseguiam manter uma taxa de crescimento estável nos últimos anos. Com isso, o ebola vai conseguir o feito de ser uma doença que não apenas afeta os humanos, mas também está adoecendo as próprias nações .


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O dilema Israel-Palestina

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Gaza

Nos estudos de relações internacionais, um tema bastante conhecido nas análises da Teoria dos Jogos envolve o chamado “dilema do prisioneiro”, uma grande situação de incerteza, em que a confiança no “outro” se torna a base para negociações que visem otimizar os resultados para todos os envolvidos. Contudo, essa vertente teórica baseia-se na lógica de que os atores envolvidos são racionais e procuram a todo momento maximizar seus ganhos e minimizar suas perdas, com frequência independentemente do “outro” na negociação (veja mais sobre essa teoria em nossa coluna “Conversando com a Teoria”).

O que se tem, portanto, é que, no grande tabuleiro de decisões, “trair” predomina sobre “cooperar”, pois a opção “trair-trair” representa a solução dominante mais proveitosa, independentemente da decisão do outro. Entretanto, trata-se de um “equilíbrio ineficiente”, já que a opção “cooperar-cooperar” é a que de fato potencializa os resultados para ambas as partes. (Entenda melhor o dilema aqui.)

O tema central da discussão é, portanto, a confiança. Ocorre que diante de situações de crise, esse tema representa, de fato, aquilo que mais dificilmente se logra garantir, justamente porque as partes envolvidas se negam a “dar o primeiro passo” no sentido de acreditar no outro, arriscando-se a ponto de permitir possíveis perdas.

O histórico conflito entre Israel e Palestina representa um dos mais complexos cenários de incerteza e falta de confiança mútua que resulta em dramáticas consequências para vítimas inocentes. O embate atual, que já completa praticamente um mês, figura entre os mais sangrentos da história na região e reflete uma nítida situação em que a culpa é de todos, mas, assumidamente, de ninguém – sendo os civis os principais afetados diante de uma comunidade internacional que assiste passivamente a uma situação dita “incontrolável”.

O terceiro ataque a uma das escolas mantidas pela Agência das Nações Unidas para Refugiados Palestinos (UNRWA), ocorrido neste domingo e caracterizado como ato criminoso pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, retrata o descontrole que se está criando nesta zona de conflito. O número de deslocados pelo conflito remonta a mais de 440 mil, segundo a UNRWA, superando toda a estrutura existente para apoio humanitário aos afetados. O vídeo do porta-voz da agência desabando em lágrimas em plena transmissão televisiva ao vivo é extremamente tocante.

O governo de Israel afirma não mirar propositalmente em prédios civis, mas reitera que o grupo extremista Hamas se “esconde” em locais de grande concentração de inocentes – atribuindo a culpa pelos mortos e feridos ao próprio grupo. Já o Hamas nega qualquer acusação neste sentido, reafirmando que seus ataques se justificam como legítima defesa e em nenhum momento são proporcionais àqueles perpetrados pelos israelenses.

Talvez nunca se descubra efetivamente “quem começou”, mas será que a pergunta realmente a ser feita é mesmo esta? Em uma situação de incerteza como a que se vive no momento, o dilema do prisioneiro se aplica perfeitamente para analisar a falta de confiança e a busca pelo resultado “mais seguro”, independentemente do custo humano envolvido, que Israel e o Hamas vêm alastrando.

Enquanto as duas partes não visualizarem o cessar-fogo e as negociações como a “solução ótima” para o conflito, a opção “trair-trair”, infelizmente, vai continuar predominando. Diante do fracasso do cessar-fogo proposto para ontem (previsto para durar 72h, mas que durou efetivamente apenas 1h30), as negociações entre as partes no Egito saem absolutamente prejudicadas. Iniciativas diplomáticas possuem, por consequência, cada dia menos credibilidade e a desproporcionalidade gigantesca entre as partes em termos de organização militar e infraestrutura tornam os palestinos cada dia mais vulneráveis.

Em respeito às vítimas de ambos os lados, mas especialmente daquele mais frágil, e em apoio aos civis que se encontram em situação de risco absoluto no território palestino, a principal pergunta que deverá ser respondida nos próximos dias é quem, de fato, dará o primeiro passo para cooperar e reconhecer que o ganho coletivo pode representar maiores ganhos individuais também…


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E o fantasma ressurge…

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Somália
E o fantasma da fome ressurge na Somália – o que não significa que ele tenha, de fato, desaparecido totalmente em algum momento, mas desde 2011 não se via tão assustador como agora…

Há exatos três anos, a crise no Chifre da África levou a uma situação catastrófica em que mais de 250 mil pessoas morreram – especialmente crianças menores de 5 anos, faixa etária mais vulnerável a esse tipo de situação. Calamidade pública que gerou (e sempre gera) comoção internacional momentânea, porém pouca mobilização para soluções duradouras.

Condições sociais e políticas desfavoráveis em um país de triste histórico contencioso se somam a condições climáticas de seca que tornam crônico o problema da fome na região. Hoje foi divulgado comunicado por parte de vinte Organizações Não-Governamentais (ONGs), dentre as quais Action Contre la Faim e World Vision, segundo o qual a Somália se encontra à beira de uma nova crise de proporções similares àquelas de 2011.

Segundo as ONGs em questão, hoje existem mais de 300 mil crianças subnutridas e 2,9 milhões de pessoas que necessitam de meios de subsistência na Somália. Dados estarrecedores se considerarmos a população total do país, que é de aproximadamente 10,5 milhões de somalis.

Ainda é triste perceber que aqueles especialmente vulneráveis não se refizeram completamente da crise de 2011, com grandes possibilidades de reincidir em uma situação crítica se o quadro não se alterar nos próximos meses.

Se concordamos que a ajuda internacional não pode se perpetuar nos países, é nítido que esta também não pode deixar de existir em casos extremos como solução paliativa que impulsione a criação dos meios locais de desenvolvimento futuro. É preciso que se evitem novos laços de dependência nos dias atuais, porém não se pode negar que apoiar a população somali no atual momento representa uma demanda humanitária urgente e justificada em prol de níveis mínimos de segurança alimentar e nutricional na vida de milhares de pessoas.

Para que esse “fantasma” de fato se torne lenda, é preciso, entretanto, muito mais: criar estruturas localmente sustentáveis e que promovam o desenvolvimento com bases sólidas, desvinculando a imagem de país eternamente dependente de ajuda humanitária para fortalecer capacidades produtivas locais e, por consequência, livrar o país de (recorrentes) catástrofes de tamanha proporção.


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E a história se repete…

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Ban ki-moon Sudao do Sul

Há algumas décadas, imagino que não seria utópico pensar que, no ano de 2014, as ideias de genocídio e crimes contra a humanidade constituiriam marcas de um passado distante, refletindo expectativas em relação a um novo contexto internacional em que tais situações não mais seriam identificadas ou, se identificadas, facilmente combatidas.

Como tragédia ou farsa, já ouvíamos de Marx que a história se repete e, infelizmente, é o que vemos hoje acontecendo no Sudão do Sul. Este que é o mais novo país do mundo, cuja independência do Sudão ocorreu em julho de 2011 e configurou a esperança de solução para uma guerra civil duradoura em que sudaneses, ao sul e ao norte, sofreram aos milhões, tornando-se refugiados ou vítimas fatais de um conflito do qual não escolheram fazer parte.

Com uma geografia privilegiada em relação a reservas de petróleo, esse benefício se tornou a maior fonte de recursos (95% da economia do país) e, ao mesmo tempo, de hostilidades na região. Unindo esse elemento econômico às tensões étnicas que insistem em assolar o continente africano como um todo, mas hoje especialmente o Sudão do Sul, vimos um país nascer, porém já iniciar sua história com massacres e mortes. Despreparo de um país recém-criado em lidar com a situação? Corrupção política? Escasso apoio da comunidade internacional? Talvez todos esses elementos juntos ou nenhum deles sejam capazes de explicar a situação. [Reveja post de 2012 no blog a esse respeito aqui.]

Em um contexto como tal, fato é que nem o Sudão nem o Sudão do Sul puderam ainda vislumbrar o conceito de estabilidade nos últimos anos. Desde dezembro de 2013, contudo, uma situação cada vez mais crítica se alastra no Sudão do Sul sem que alcance os noticiários internacionais, em repetição de história já antes contada, como em Ruanda, há exatos vinte anos.

Tudo (re)começou no final do ano passado quando o ex- vice-presidente Riek Machar foi acusado pelo presidente Salva Kiir de uma tentativa de golpe de Estado, refletindo uma crise política enraizada em diferenças étnicas. O presidente Kiir é da etnia Dinka, predominante no país, enquanto Machar pertence à etnia Lou Nuer. [Mais informações aqui.] Desde 2011, conflitos étnicos têm sido constantes entre as comunidades, exacerbando-se nos últimos cinco meses e levando as Nações Unidas a alertarem a respeito da possibilidade de genocídio no país, além dos inúmeros crimes contra a humanidade cometidos por ambas as partes em conflito.

Segundo informações da ONU, 716.500 pessoas foram deslocadas no interior do Sudão do Sul desde dezembro, e 166.900 tornaram-se refugiadas em países vizinhos, mesmo com a presença de uma Missão da ONU no país (UNMISS). Números expressivos que levaram Ban Ki-moon (foto) e John Kerry (sempre ele) a mediarem um “Acordo para reduzir a crise no Sudão do Sul” na sexta-feira, com o compromisso de Kiir e Machar em assumirem um cessar-fogo que permitisse o apoio humanitário às vítimas.

Menos de dois dias depois de o acordo ter sido saudado internacionalmente, já foram registrados novos conflitos na cidade de Bentiu, estratégica pela produção de petróleo, e as partes se culpam mutuamente pelo reinício das hostilidades e pelo fiasco no diálogo.

À beira de uma epidemia de fome que pode vitimar 50 mil crianças (!) em um horizonte de poucos meses e se tornar uma das mais graves crises no continente africano em comparação com as últimas décadas, dizer que a situação demanda uma ação urgente é pouco. Entretanto, a perversa mistura de motivações e interesses políticos, econômicos e étnicos traduz uma situação de instabilidade em que a comunidade internacional se faz incrédula, ao mesmo tempo que impotente/indiferente diante de tamanha violência que se repete na região…


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Explicar o inexplicável

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O que significa o rapto de mais de 200 meninas de uma escola na Nigéria? E dizemos rapto no seu sentido verdadeiro, de abdução com fim libidinoso, e não como se diz equivocadamente por aí quando se referem a sequestros.

Provas de que a humanidade não merece o ar que respira existem aos montes no noticiário internacional, mas a notícia dessa semana despertou uma repulsa poucas vezes vista anteriormente. Países com EUA e China, que tecnicamente não têm nada a ver com o assunto (pelo menos, de maneira direta) estão ajudando o governo da Nigéria com informações de inteligência e imagens de satélites. Então existe comoção. É algo inadmissível. Mas o que significa?

Será que representa a opressão feminina em uma sociedade machista? Especialmente na África e na Ásia persistem padrões mais claros de patriarcalismo. Não que isso não aconteça do lado de cá do Atlântico, mas por aquelas bandas a coisa é escancarada. E o anúncio do líder do grupo responsável pelo rapto de que as meninas serão vendidas como esposas para líderes e ricaços nos países vizinhos fortalece essa mensagem. Mas na Nigéria os problemas são mais profundos. Os alvos não são apenas mulheres – há relatos de escolas atacadas, em que todas as vítimas massacradas eram meninos. A opressão de gênero parece ser mais uma consequência de uma estrutura maior.

Seria religião o problema? O tema tem sua cota de responsabilidade pelo sangue derramado no país, mas o radicalismo de grupos como o Boko Haram é rejeitado pela grande maioria dos muçulmanos mundo afora. Não chega a ser representativo de um conflito sectário maior, como o que está rolando na República Centro-Africana.

Será então que o problema é a falência do governo? Notícias do dia mostram haver evidências de que o governo sabia da iminência dos ataques mas não conseguiu de organizar a tempo. E protestos por uma atitude mais eficiente do governo no resgate foram respondidos à maneira dos ditadores truculentos, com a prisão de líderes manifestantes sob a acusação de estarem patrocinando a instabilidade do Estado. E não vamos esquecer da pobreza, que é a fonte de recrutas para esses grupos, bem como possivelmente a fonte da maioria dos males do mundo.

Crianças que buscam educação, para superar a pobreza e as deficiências de um Estado ausente. Grupos radicais que agem à revelia do mesmo e destroem potencialidades em cada uma dessas vítimas. A questão é a busca pela educação, e o problema se constrói como se isso fosse algo errado! O que choca nessa caso é justamente a proximidade da situação. Pode-se contestar o meio como isso é feito, mas os programas de inclusão no Brasil, por exemplo, servem para tentar evitar esse tipo de “erosão” social. Pode ser que nem todos que leem estas linhas estejam em fuga de suas casas, amontoados em caminhões e dividindo espaço com cadáveres como na RCA (onde, por sinal, a coisa está MUITO pior que na Nigéria), mas a maioria conhece a história de alguém esforçado, que trabalha e faz algum curso noturno para ter um diploma técnico para tentar um padrão de vida melhor. É uma situação mais próxima, e por isso ainda mais revoltante que qualquer relato de combates ou mortes. Sem contar o lado da violência e humilhação de gênero, que causa asco na sociedade (ou deveria, haja visto a repercussão daquela famosa pesquisa equivocada do IPEA como vimos há pouco tempo). O rapto dessas meninas na Nigéria tem muito significado, mas principalmente, nos mostra a aparente impotência e incredulidade contra a ignorância que parece ser a única característica verdadeiramente comum no gênero humano, além da violência, seja com raptos na Nigéria, linchamentos no Brasil, ou atirando bananas na Espanha.


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1994, 20 anos depois

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Ruanda
1994, 20 anos depois. Há exatas duas décadas, o horror se iniciava em um país africano, até então, do qual pouco se sabia ou se procurava saber. O pequeno território de Ruanda se tornou palco de um dos maiores massacres da década de 1990 – um genocídio que, em aproximados 100 dias, levou à morte cerca de 800 mil inocentes, marcando tristemente e para sempre a história de um país e do mundo inteiro.

Tentar entender o genocídio de Ruanda em poucas linhas não é tarefa fácil, dada a complexidade histórica de um país cujas marcas da colonização europeia deixaram raízes profundas, influenciando na própria diferenciação étnica entre “hutus” e “tutsis”, origem social e política de toda a violência que seria presenciada anos depois.

A (ainda obscura) queda do avião do presidente Habyarimana, hutu, em 06 de abril de 1994 desencadeou uma situação de instabilidade política e rejeição à minoritária, mas historicamente dominante no poder, etnia tutsi que definiu os traços de um genocídio – sinônimo de extermínio de todo um povo ou grupo étnico – como ainda não se havia (ou nunca se deveria ter) visto no mundo pós-Guerra.

Em linhas gerais, e para além de todo o atentado contra a humanidade que Ruanda vivenciou, fica o registro histórico da incapacidade internacional em (re)agir à situação. Passividade, inoperância, inconsequência… não há conceito que traduza a postura de uma comunidade internacional cujo choque diante das imagens ruandesas provocou talvez muita indignação retórica, mas pouca ação prática em um país onde as Nações Unidas já possuíam o mandato de proteger civis, mas se abstiveram de sua nobre missão, diante de claro desinteresse político na crise.

Sob o lema “Lembrar, unir e renovar”, o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, incitou há semanas o debate sobre as lições aprendidas pós-Ruanda no seio da organização, a qual reconhece ter pouco ou nada feito diante da situação no país. Hoje, no “Dia Internacional para Reflexão do Genocídio de 1994 em Ruanda”, celebrou-se uma memória ainda muito viva, talvez pela experiência de seu próprio presidente, Paul Kagame, cujo envolvimento na morte do presidente Habyarimana ainda é questionado, bem como sua influência na escalada da violência na vizinha República Democrática do Congo, talvez pela ferida que segue contrapondo colônia e colonizadores tanto tempo depois de sua emancipação. Farpas políticas trocadas por Ruanda e França ainda trazem a polêmica “Operação Turquesa” ao centro do debate…

Diante de um país que prospera crescentemente nos indicadores econômicos e sociais, fato é que parece inconcebível constatar que, há vinte anos, se iniciava o massacre de aproximadamente 10 mil (sim, 10 mil!) tutsis e hutus moderados por dia (sim, por dia!) em um horizonte de três infindáveis meses. Cada ser humano sendo muitos, o número total de vítimas ultrapassa qualquer soma. Não há palavras para justificar ou compreender motivação genocida como aquela vivida em Ruanda, semeada por tantos anos, e com consequências tão desumanas.

Fica apenas um sentimento misto de luto, memória e culpa, aliado à necessidade de que tanto sofrimento desabroche finalmente em frutos de paz e convivência fraterna entre indivíduos, povos e sociedades.


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Os confrontos esquecidos

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Central-African

Os distúrbios recentes na Ucrânia retiraram, por algum tempo, o foco do noticiário internacional da crise Síria. Agora que a situação parece “sob controle” (apesar de a anexação da Crimeia à Rússia trazer um abacaxi para o Direito Internacional e ser o prelúdio de uma complicada guerra econômica de sanções na Europa), podemos voltar a nos preocupar com as centenas de milhares de mortes na conta do senhor Basshar al-Assad e desafetos. Porém, aproveitaremos a postagem de hoje para mostrar que, se a situação Síria é ruim, temos muitos outros conflitos ainda piores rolando nesse exato momento.

A Somália, por exemplo, que apareceu mais por causa dos casos de pirataria em alto-mar que pela miséria que assola a nação há mais de 20 anos, está em guerra civil por quase todo esse tempo – o que não é nenhuma surpresa. A bola da vez é o conflito com extremistas islâmicos jihadistas, que trouxeram a novidade do atentado suicida a uma região já caracterizada pela brutalidade dos conflitos sectários africanos, com expedientes tradicionais como o estupro e a mutilação. Mais de 20 anos de guerra e corrupção arruinaram o país, considerado por muitos como um exemplo de Estado falido. Para piorar, ainda soma à sua contagem de corpos aqueles que não perecem no conflito, mas na travessia do Mediterrâneo, fugindo da situação desesperadora em que se encontram.

Um pouco ao sul, na República Centro-Africana, a violência aumenta. O conflito de natureza religiosa produz horrores como pessoas sendo atiradas em rios para serem devoradas por crocodilos ou crianças decapitadas. Mais uma vez, grupos islâmicos estão envolvidos, ao derrubarem o presidente no ano passado – porém, não são os “protagonistas”, já que sua violência serviu como justificativa a muçulmanos comuns pelo resto da população, o que tornou uma outrora pacífica convivência religiosa no mais sangrento conflito entre cristãos e muçulmanos no mundo de hoje. A França envia um contingente para auxiliar as forças de paz da União Africana, mas seu interesse é pontual (basicamente, espezinhar o interesse chinês na região) e apesar do discurso humanitário da União Europeia nenhum outro país europeu tenciona enviar tropas para conter a violência. O resultado é literalmente o risco de uma nova Ruanda, com um genocídio anunciado, mortes na casa de milhares e mais de um milhão (cerca de um quarto da população) de refugiados.

Agora, os campeões nesse “score” macabro são dois conflitos velhos conhecidos, do Afeganistão e do Iraque. Apesar de estarem mais em voga por causa da reação ao 11/09, essas guerras podem ter suas origens puxadas lá para a década de 80, já que ambos os países nunca experimentaram alguma estabilidade desde a invasão soviética ou a guerra com o Irã, respectivamente. O fracasso dos EUA em alcançar seus objetivos, com a retirada do Iraque e gradual abandono do Afeganistão, tornaram essas guerras “esquecidas” pela mídia, com a menção esporádica de algum atentado, mas que continuam a ocorrer diariamente. Mesmo desconsiderando o período histórico mais longo, estamos falando de conflitos onde o número de mortos pode chegar à casa dos milhões – e que, definitivamente, não estão encerrados: não passa uma semana sem o anúncio de algum atentado em Bagdá ou Cabul com dezenas de mortes. Existe até um site que faz a contagem dos mortos no Iraque desde a intervenção norte-americana.

Claro que, em termos de vidas humanas, qualquer guerra é negativa, sejam 100 ou 1 milhão de mortos. Porém, os casos apresentados (e são apenas alguns) mostram que, como sempre, o interesse da “opinião pública” internacional sobre os conflitos mostra um pouco do interesse dos grandes centros de poder da mundo – na Síria, onde há interesses de grandes potências em choque, se despendem recursos estratégicos e diplomáticos. Mas, como vemos, não parece ser o caso em um Estado falido, com interesse marginal de uma potência decadente, ou de fracassos da superpotência meio que jogados ara baixo do tapete.


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