Briga de casal

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Bin Laden se foi, mas continua a guerra ao terror. Se foi Bush que cunhou o termo, é Obama (favor não confundir com Osama…) que carrega o fardo hoje, e a morte do líder da Al Qaeda é apenas um marco simbólico. Nisso tudo, emerge a figura do Paquistão como peça-chave nessa empreitada. Mas, é uma peça que está em xeque.

O Paquistão é o que poderíamos chamar de aliado improvável dos EUA. Durante o processo de “remoção” do Taleban do Afeganistão, se tornou o grande aliado dos EUA na região (e essa foi a única razão para isso, já que os países teriam muito mais razoes pra discordar). As coisas iam bem, até que o jogo da política (leia-se: parar o avanço chinês) aproximou Washington das pretensões da Índia na ONU. Ora, isso é algo que indispõe o Paquistão com os EUA, que agora se vêm em uma espécie de triangulo amoroso atômico.

E a morte do Osama? Causou uma espécie de crise conjugal. O esperado é que, com a perda da liderança, haja uma relativa debandada e enfraquecimento da Al Qaeda. Mas, como isso tudo ocorreu no quintal de Islamabad, ocorre um crise de confiança quanto ao Paquistão, que vai ter duas tarefas: provar que não tinha nada a ver com a ocultação de Osama e lidar com a contenção de suas perturbações internas (que vão de jihadistas internos aos que condenaram a ação norte-americana). Essa crise pode ainda retardar a saída das tropas norte-americanas do Afeganistão enquanto não houver certeza quanto aos problemas na região. Em resposta, o Paquistão afirma que vai intensificar o combate ao terror e ajudar os EUA enquanto puder.

Na última semana, disse que a morte de Osama era um evento que “mudava muito sem mudar nada”. Talvez para os EUA, mas não para o Paquistão. Foi algo relativamente pequeno, mas que já começa a mostrar suas repercussões. O constrangimento do Paquistão pode azedar de vez suas relações com os EUA, abrindo caminho para estes irem de encontro às pretensões indianas. Resta saber como o protagonista desse incômodo jogo vai mover suas peças.


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O Primo Chinês

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E inicia-se a contagem regressiva para uma das mais importantes viagens internacionais do governo Dilma, de fato a primeira de grande peso estratégico para o país: sua visita à China. A apenas dois dias da chegada de nossa presidente em território chinês, começa-se a pensar por que vias anda essa relação entre os dois países.

Os números mentem muito pouco. A importância da China para o Brasil é muito grande. Atualmente, com um comércio bilateral rendendo, com base nos resultados de 2010, mais de 54 bilhões e com essa balança pesando para o Brasil com aproximadamente uns 5,4 bilhões, o país já é o primeiro parceiro comercial brasileiro. Mas seria essa parceria tão profícua quanto parece?

O que é isso que os números não dizem? As estatísticas absolutas não falam algo que Eça de Queiróz captura muito bem em sua obra, o Primo Basílio. Luísa, uma jovem fragilizada que na ausência de Jorge, seu marido, logo se envolve em aventuras românticas com seu primo recém chegado na cidade, Basílio, depositando no Paraíso, (o lugar onde se encontravam) a maior parte de suas expectativas. Em curto prazo, a jovem sentia-se muito feliz e via reacender uma nova paixão. As consequências de longo prazo que não eram bem consideradas…

E Queiróz não poderia dizer melhor sobre essa relação entre Brasil e China. “O paraíso” do comércio bilateral entre os dois países tem garantido ao governo brasileiro uma elevada rentabilidade. Entretanto, uma análise mais acurada mostra que podemos cometer um erro parecido com o de Luísa.

Isso porque, apesar dos números, o Brasil exporta preponderantemente produtos agrícolas e importa dos chineses um volume muito grande de produtos manufaturados. Para os primeiros, o preço não cresce muito, enquanto para os segundos em razão da inovação tecnológica, os preços tendem a aumentar bem mais. Outra complicação é o fato de muitas indústrias brasileiras instaladas na China (como a Embraer) não conseguirem produzir tanto quanto desejariam precipuamente por restrições do governo local (apesar de indicativos de tentativas de amenizar a situação). Os números escondem a contribuição dessas relações para um tímido, porém possível, processo de desinstalação de indústrias alguns setores (para mais clique aqui e aqui), já que compensaria mais importar do que produzir.

Uma situação delicada e muito cara aos projetos de crescimento do Brasil. Ao que tudo indica, o governo está ciente disso e dentre os objetivos de Dilma e sua comitiva de quase 300 empresários, a tentativa de diversificação desse comércio e melhoria de suas condições são relevantes temas a serem tratados no encontro. Mesmo assim, é importante manter os olhos abertos para as relações com o “Primo Chinês” para que o longo prazo não nos cause embaraços semelhantes ao de Luísa, enquanto nosso Basílio continuará em sua vida de ávido crescimento e comércio sem grandes preocupações…


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Tibete sem Dalai?

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É possível imaginar o Tibete (“o teto do mundo”) sem a liderança de Dalai Lama (“o oceano de sabedoria”)? Em termos espirituais, efetivamente não. Porém, esta é a situação atual em termos políticos: a solicitação de Tenzin Gyatso para retirar-se das funções políticas do Tibet foi aceita hoje por seu Parlamento, em Dharamsala, local do exílio tibetano na Índia.

Tenzin Gyatso é o 14º Dalai Lama da História, denominação concedida à principal autoridade do budismo tibetano (visto como a própria reencarnação de Buda). Líder espiritual e político, sua luta pela autonomia do Tibete o tornou conhecido pela comunidade internacional e lhe rendeu inclusive o Prêmio Nobel da Paz, em 1989. Envolvido politicamente nas questões do Tibete há mais de 60 anos, seu afastamento deve ser visto como um marco histórico. Uma nova era de lutas deve se iniciar sob uma nova liderança política.

O Tibete constitui um dos principais impasses territoriais das Relações Internacionais modernas, envolvendo o gigante chinês. A disputa histórica pela região tibetana remonta ao início do século XX, sendo que sua independência nunca foi reconhecida pela China. Os interesses na região são de caráter geopolítico e estratégico, envolvendo desde as riquezas naturais locais até as ambições imperiais seculares chinesas.

Há anos que a independência efetiva da localidade não tem sido cogitada (apesar de sempre sonhada) pelos tibetanos e por Dalai Lama, sendo que as pacíficas reivindicações têm se voltado principalmente para a busca de maior autonomia religiosa e cultural. Aspectos que as autoridades chinesas se recusam a aceitar minimamente. Existe a estimativa de que o número aproximado de tibetanos mortos durante as décadas de conflitos com o governo chinês chegue a 1 milhão, sendo que o auge dos protestos ocorreu no ano de 1959 e foi relembrado em 2008.

Em 1959, Dalai Lama e a maior parte dos tibetanos foram forçados a deixar a região, exilando-se no norte da Índia, em Dharamsala. E foi lá que Dalai hoje renunciou às suas funções políticas ao alegar preocupação a longo prazo com o Tibete, considerando que as responsabilidades oficiais devam ser transmitidas a um novo primeiro-ministro eleito diretamente e com poderes mais amplos.

Foi divulgado que o Parlamento tibetano hesitou em aceitar tal renúncia, temendo o enfraquecimento da causa tibetana. Contudo, certamente o Tibete ficará apenas sem o político Dalai, mas não sem seu grande e carismático líder Dalai, símbolo da busca pela paz na região e por melhores condições de vida ao povo tibetano. Motivação para que o Tibete seja ouvido em seus anseios. Símbolo da busca efetiva por ser a mudança que se quer (e se espera) ver no mundo…


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O preço da liberdade?

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Antes de liberdade e igualdade, poderíamos ter pão e carne?

As revoltas no mundo árabe continuam dando corda para o noticiário internacional. Nessa última semana, com o aval do CS da ONU, países aliados encabeçados por França, Reino Unido e EUA passaram a fazer valer uma “no-fly zone” na Líbia, para evitar que Kadafi continuasse a massacrar os insurgentes (e civis) com aeronaves. Até onde se sabe, parece que sua força aérea já foi, se não destruída, enfraquecida o suficiente para garantir a segurança dos cidadãos.

Ora, chegamos ao ponto principal dessa revolta – e de todas as que andam acontecendo na região: são marcadas pela participação popular, de variados modos, mas o que se pode esperar de suas conseqüências para o povo? Afinal, mais do que derrubar ditadores e instaurar a democracia, os seus protagonistas estarão sendo contemplados?

No Egito e Tunísia, onde o furor já passou, a coisa não parece muito melhor – o Egito tem um momentâneo (e, quem sabe, contínuo?) poder castrense, enquanto na Tunísia houve uma divisão de poder entre partidos incluindo antigos aliados do ditador deposto. Já na Líbia, apesar do que possa parecer, os países aliados não estão atacando para derrubar Kadafi ou coisa parecida – e nem podem fazer isso! Apenas estão cumprido uma vaga resolução da ONU para proteger a população de seu próprio governante. Ou seja, estão dizendo que quem deve fazer o trabalho são os próprios líbios. Se vai dar certo ou não? Mistério. O que importa é que líbios continuam morrendo diariamente (pelas tropas de Kadafi? Ou mesmo pelas bombas ocidentais?).

A coisa está pior em outros países da região, como no Iêmen. Lá, o presidente teve de destituir partes do governo e perdeu apoio de generais e outros políticos após o massacre de civis em protestos. Se a perda de vidas nesses processos de democratização acaba sendo inevitável nesse contexto de choque, o problema é não ter a certeza de que o resultado final atingirá os objetivos esperados pelo povo.

Os protestos continuam, na Síria, Iêmen, Bahrein e outros países. A violência, também. Com a incerteza dos resultados nos casos de “sucesso” e a aparente falta de evolução nos que estão ocorrendo agora, o futuro dessas revoluções é, no mínimo, nebuloso, e não se tem nem democracia, nem melhora de condições em um horizonte próximo para esses povos. Seria exagero se pergutar se não seria um preço muito alto pela democracia?


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Energia nuclear em questão

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“A energia nuclear é uma forma boa, limpa e segura de se gerar energia, e pode ser usada em larga escala”. Esta é a opinião do cientista James Lovelock, famoso por polemizar em seu meio a respeito da geração de energia a partir de fontes nucleares. Em certa medida, seus argumentos são válidos e defendidos por muitos, já que a energia nuclear efetivamente não gera gases de efeito estufa, não compromete áreas de reservas naturais e demonstra um potencial financeiro e científico elevado para que o enriquecimento de urânio ocorra.

Contudo, esta discussão vem à tona no momento em que um dos principais efeitos negativos da geração de energia nuclear é visível após os desastres naturais que assolaram o Japão: a contaminação radioativa. Os níveis de radiação estão comprovadamente altos em um raio de 30 quilômetros da usina de Fukushima Daiichi, no Japão. O terremoto da semana passada danificou os reatores dessa usina, cuja responsabilidade é da empresa Tokyo Electric Power Co.

A situação, que já constitui um cenário de crise nuclear, se encontra no nível cinco de uma escala internacional de risco (o nível sete é o máximo, alcançado no caso de Chernobyl, em 1986). Jatos d’água estão sendo lançados nos reatores para resfriá-los, evitando que a disseminação das partículas radioativas se intensifique na localidade; porém, a opção de enterrar esses reatores está sendo cogitada pela primeira vez, demonstrando a gravidade da situação.

Este contexto remonta a um questionamento básico: a geração de energia nuclear compensa os riscos de sua implementação? Sabe-se, por meio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) – órgão da ONU que fiscaliza questões relativas à tecnologia nuclear – que aproximadamente 14% da energia gerada no mundo é nuclear, constituindo-se esta na terceira maior fonte energética existente (e o Japão é um dos países que possui o maior número de reatores, depois dos Estados Unidos e da França).

Além da preocupação com a produtividade energética em si, pode-se argumentar que, muitas vezes, os Estados prezam pela energia nuclear (a despeito de outros tipos renováveis/não-poluentes de geração de energia) ao avaliarem aspectos político-estratégicos nas Relações Internacionais. Com vistas à ampliação de seu poder relativo e ao seu crescimento em termos de influência no cenário inter-estatal, investimentos financeiros altíssimos são direcionados à tecnologia nuclear.

Entretanto, desastres do porte deste ocorrido no Japão reforçam a necessidade de cautela e promovem o debate a respeito, sendo que a Europa já repensa investimentos nessa área – especialmente considerando a baixa aceitação da sociedade civil em geral neste âmbito. Assim, não fica tão difícil perceber o porquê de Lovelock ser considerado polêmico em sua acalorada defesa da geração de energia nuclear que, se por um lado pode ser “boa, limpa e segura”, por outro pode ser extremamente danosa em vários sentidos.


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Há (quase) um ano

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Este é um post diferente – não é um “Há um ano” propriamente dito, mas se escora num texto de março de 2010. Em “O mundo dá voltas”, abordávamos a questão da governança analisando o caso das eleições do Iraque e do (então) recente terremoto no Chile. O primeiro caso era um surpreendente caso de “despertar” político enquanto o segundo era o oposto, a decaída de uma sociedade relativamente estável no caos por conta de um evento extremo.

Parece muito apropriado trazer essa questão novamente com o drama do Japão. No caso, poderíamos traçar um paralelo quanto à reação dos cidadãos face à tragédia – talvez não caiba comparar a escala dos desastres, mas algumas de suas implicações. No Chile, houve muito caos, saques e crimes. No Japão, até onde se sabe, parece estar havendo mais organização e um admirável auto-controle de seu povo. A tristeza é contida, mas o pânico parece ser mais por conta dos estrangeiros. Talvez por causa dos japoneses estarem “acostumados” às tragédias assim (lembrem-se que mesmo a contaminação nuclear eles já conhecem muito bem…), somando-se à sua costumeira disciplina, enquanto no Chile o pânico era fruto da escala inédita do desastre. No Japão, o temor do desabastecimento faz os produtos sumirem das prateleiras – mas não há saques; são todos comprados, e parece que se tenta seguir um rumo comum da vida, o quanto antes, em meio à devastação.

Por outro lado, há coisas que não mudam. Nem vamos entrar nos méritos da questão líbia, em que a esperança de uma revolução legítima contra o ditador Kadafi parece cada vez mais fadada ao destino da guerra civil e sem prazo pra ser resolvida. Outros casos dramáticos estão se desenvolvendo à sombra da tragédia nipônica – especialmente na Costa do Marfim e no Sudão. O primeiro está à beira de uma sangrenta guerra civil, com protestos pacíficos sendo reprimidos e operações militares sendo realizadas contra o presidente que não que largar o osso Gbagbo. Já no segundo, o processo de independência do sul parece cada vez mais atrapalhado e conturbado por escaramuças, problemas na província de Abyei (cujo plebiscito de intgração ao sul ou ao norte está suspenso indefinidamente) e o eterno caos de Darfur. Na África, a política dificultada por questões tribais e étnicas e temperada pela ganância internacional parece seguir um rumo pré-definido, em que sempre ficam em desvantagem a segurança e a paz de seus habitantes.

Se no ano passado podíamos afirmar que em termos de governabilidade o inesperado pode surgir de tragédias, os fatos recentes mostram que, via de regra, as conseqüências podem ser bastante previsíveis, para o bem ou para o mal…


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Jishin, Kaminari, Kaji, Oyaji

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Segundo o provérbio japonês, quatro são as coisas que um japonês deve temer: Jishin, Kaminari, Kaji, Oyaji (tradução literal: Terremoto, Trovão, Incêndio e Pai). Apesar de a sociedade japonesa não se caracterizar mais pelo patriarcalismo, de certa forma (e infelizmente) o provérbio se confirmou hoje: o Japão enfrentou o maior terremoto já ocorrido no país (e um dos maiores ocorridos no mundo desde 1900), seguido de um tsunami com proporções trágicas.

Abalos sísmicos menores foram registrados posteriormente em conseqüência do terremoto na região e grandes ondas no Pacífico chegaram também à América, mas sem maiores danos. No Japão, as mortes decorrentes desta tragédia somam centenas, com prejuízos a milhares. Mensagens de lamento e apoio, bem como ações de assistência humanitária do mundo inteiro começam a chegar ao governo japonês, desde os grandes aliados norte-americanos – que possuem mais de 50 mil homens por lá –, até o governo brasileiro – país onde a colônia japonesa é bastante expressiva.

Este acontecimento nos leva a reflexões diversas, na medida em que os desastres naturais de grandes proporções têm se mostrado freqüentes no contexto atual e demonstram a urgência das discussões de caráter ambiental e humanitário: a mobilização internacional neste sentido é a única forma de serem alocados recursos e esforços para a prevenção e, se necessário, o socorro em situações de crise tal como esta. Contudo, aguardar avanços das cúpulas internacionais neste âmbito não parece uma perspectiva muito animadora…

Ainda uma outra reflexão é pertinente: a possível relação entre os regimes políticos e os desastres naturais e suas conseqüências. Em artigo da Foreign Affairs disponível aqui (sugestão do colaborador Giovanni Okado), o autor afirma que os governos não podem evitar o acontecimento de desastres naturais, mas podem sim se preparar para estes e minimizar seus efeitos para a população. Diante dos recentes terremotos no Haiti e no Chile, são perceptíveis grandes discrepâncias em que o argumento supracitado se aplica de forma coerente, relacionando os regimes políticos de cada um dos países e seus investimentos sociais.

Sabe-se que o Japão é um país rico e que tem implementado políticas preventivas no que tange a tragédias humanitárias e ambientais, possuindo os meios para minimizar as (inevitáveis) conseqüências sociais de desastres naturais como o de hoje. Resta-nos, desta forma, oferecer o apoio necessário em âmbito governamental para que a tragédia no país seja superada e, então, buscar a promoção de meios para que as reflexões expostas sejam aprofundadas a cada dia no cenário internacional.

Afinal, se o provérbio japonês inicialmente apresentado no post fosse atualizado diante do contexto mundial da atualidade, certamente a lista de “coisas a serem temidas” aumentaria de forma considerável…


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Dragão inflado

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Recentemente, um termo que andava esquecido voltou às manchetes: o temor da inflação, que a maioria da geração dos anos 90 desconhece e que parecia derrotado indefinidamente, mas permanece à espreita em 2011 e traz dores de cabeça ao governo brasileiro – e a muitos países emergentes. Ok, não é uma crise de hiperinflação como nos bons tempos. Apenas um leve temor de que o governo não consiga cumprir a meta de inflação para o ano. É algo que parece pouco (as previsões são que exceda em 1 ou 2 por cento a taxa esperada, em um país que já teve inflação na casa dos milhares – pergunte aos seus pais), mas reflete uma situação própria dos países que se “safaram” da crise econômica recente.

Aliás, qual o problema da inflação? Basicamente, é um aumento dos preços causado pelo aumento do consumo que não é acompanhado pelo aumento da produção, típico em economias aquecidas. E a medida favorita dos governos para combatê-la é o aumento da taxa de juros (que diminui o consumo). Esse é o drama dos países que escaparam da crise: sua blindagem se deu justamente pela alta de preços de commodities e mercado interno aquecido; agora, pagam o preço, com inflação crescente e seus riscos inerentes, principalmente no que se refere à balança comercial. Esse é o temor da China, que depende de suas exportações mas ao mesmo tempo sofre internamente com seus efeitos.

Para conter o temor do mercado, os governos agem, cada um ao seu modo. E isso sempre traz algumas surpresas no caso chinês, pois seu regime diferenciado permite jogar com regras um pouco diferentes. Diriam que por causa de seu comunismo? Muito pelo contrário, a China se sobressai justamente por ser o país onde o capitalismo de desenvolve de maneira mais selvagem no mundo – e sob a tutela do Estado. Para se ter uma idéia, já existe por lá o incrível arroz artificial (uma nutritiva mistura de batata-doce e plástico, a qual comer uma tigela equivale a ingerir um saquinho de supermercado). Assim, a China via de regra age como bem entende em termos econômicos, como alterar o câmbio artificialmente

A surpresa maior, contudo, é justamente um “despertar” ortodoxo que ocorre nesse momento: assim como no Brasil, no momento a China aumenta suas taxas de juros (e faz despencar as bolsas asiáticas). A China começa a jogar pelas regras como conhecemos, o que certamente é um sinal de alerta – ou algo estava dando errado em suas vantajosas políticas usuais, ou não sobraram opções. É interessante ver como as coisas funcionarão por lá a partir de agora: esse início de crise inflacionária pode significar alguma mudança de rumo mais normativa na economia chinesa? Mudanças que afetam a segunda maior economia do mundo transbordam pelo globo. E, assim, o duelo entre os dragões, o do Estado chinês e o da inflação, pode ser fundamental para determinar os rumos da economia mundial de agora em diante.


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Entre palavras de amor e ódio, há dependência

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Há muito se estima o papel que a China assumiria no sistema internacional. Uma população de aproximadamente 1,3 bilhões de habitantes e um crescimento do PIB que continua a surpreender qualquer um (ano passado atingiu 9,5%). Um dragão de extensão incomensuráveis e dimensões que parecem infinitesimais tem despertado um sentimento que os Estados Unidos de Obama não esperavam reviver desde uma adolescência muito remota, mistos de amor e ódio.

Como era de se esperar, a ascensão da China tem provocado certo desconforto no governo estadunidense, que alimenta uma pitada de ódio. Isso poderia ser atribuído às posturas divergentes referentes a direitos humanos e a conflitos (como a questão das Coreias) ou mesmo a uma apreensão quanto às capacidades militares não muito divulgadas – exaltada no teste nada escondido de caças furtivos durante a visita da comitiva estadunidense no dia 11.

Apesar de ser possível reconhecer uma conjunção de fatores que justifica essa postura estadunidense, o fato da China estar clamando sua posição no sistema internacional e não mais estar satisfeita como ser aclamada como nova potência, incomoda, e muito. Em artigo essa semana, a revista The Economist defendeu que o governo chinês tem agido de maneira irresponsável tendo sempre em vista o declínio do poderio estadunidense e que era preciso lembrar ainda que os Estados Unidos detenham um poder militar ainda não-equiparável.

O que a revista não considerou é que o poder econômico chinês seria capaz de solapar qualquer superioridade americana. Assim, o ódio rapidamente transforma-se em amor. A dependência estadunidense da China é tamanha que a pressão interna por um fim nas baixas taxas de câmbio é enorme. Estima-se que os investimentos dos EUA na China em 2010 foram de aproximadamente 60,5 bilhões, enquanto que os investimentos chineses nos Estados foram de apenas 4,4 bilhões. Uma diferença muito significativa para ser desconsiderada em qualquer cálculo estratégico.

Um cálculo que Obama não tem ignorado. Dois encontros bilaterais visando fortalecer a confiança entre ambos foram realizados em menos de duas semanas. O primeiro ocorreu no dia 11 e o outro foi realizado hoje entre Obama e Hu Jintao. Os temas não são novos: flexibilização do Yuan, uma postura mais rígida sobre direitos humanos e incentivos a investimentos estadunidenses na China.

Como era de se esperar, não se destrava um impasse em apenas uma tarde. O diálogo já é um passo representativo na relação entre esses dois países e isso deve continuar sendo uma característica marcante para evitar maiores atritos. Uma relação que parece oscilar entre o amor e o ódio, na realidade oscila entre dependência e ódio, despertando sentimentos que os estadunidenses há muito pensavam estar esquecidos.

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Na dança da geopolítica mundial

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A reflexão final com o que o Álvaro encerra o post de ontem pode abrir o de hoje: a tolerância entre os povos na questão nuclear. O Irã deseja retomar as negociações sobre o seu programa nuclear com o grupo 5+1, composto pelos membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha, e aproveitar a oportunidade para envolver a Turquia, país que sediará reuniões nos próximos dias 21 e 22. A Índia, por sua vez, afirmou que aumentará a matriz energética nuclear de 2,5% para 25% nos próximos anos, e é o segundo país que recebe investimentos estrangeiros no setor, perdendo para China. As mesmas potências que condenam de um lado, apóiam de outro. Isso nos conduz a um olhar mais dilatado.

Não é novidade para ninguém que a geopolítica mundial está mudando. O declínio norte-americano – a priori, econômico – é capa da edição da Foreign Policy da primeira edição deste ano. O tema também ocupou grande espaço no noticiário, concomitante a ascensão de novas potências. Por certo, os compassos geopolíticos desenham novos círculos de influência já não tão globais, mas regionais, cujo cálculo da atuação deve levar em conta a geometria de outros poderes.

No caso iraniano, faz-se apologia à vitória das potências ocidentais e ao êxito esperado com a adoção de sanções. A solução negociada para com o Irã e o seu direito ao desenvolvimento de um programa nuclear pacífico pertencem ao ataúde da memória. O emprego da força, na vertente da pressão econômica, acrescenta outro fracasso para a coleção de insucessos de gerir uma nova ordem internacional à luz de uma estratégica de segurança internacional EUA-OTAN do pós-Segunda Guerra.

Na Índia, por sua vez, o programa nuclear não apenas é apoiado, como fomentado. Nas últimas visitas dos presidentes de Estados Unidos, França e Rússia, foram firmados importantes acordos de cooperação na área. Mas, afinal, por que essa diferença de tratamento quando Índia e Irã se parecem tanto? Os dois não ratificaram o TNP; a primeira tem arsenal nuclear, inclusive já testado, o segundo pretende desenvolvê-lo (embora não assuma e se já não tem); ambos têm fortes inimizades, Paquistão e Israel, respectivamente, e ambição por aumentar a influência regional.

Só que a Índia é bem vista pela comunidade internacional, o Irã, não. Em cenário prospectivo, a Índia pode se consolidar como potência, abandonando o adjetivo “emergente”. O crescimento econômico impressiona – no período de crise, a economia cresceu 6,7%, no ano passado, 8,5%, e a projeção é que cresça entre 9 e 10% este ano (aqui) –, mas as relações diplomáticas, sobretudo na vizinhança imediata, levantam desafios no horizonte político. Como lidar com a China em espaço de influência que também lhe é próprio? E as rivalidades com o Paquistão, que, por sinal, faz parte da estratégia ocidental de combate do terrorismo global? Como o Ocidente lidará com a Índia e o Paquistão simultaneamente? Do lado iraniano, mais marcado pelas polêmicas do que projeção concreta de poder, abre-se caminho para uma maior aproximação entre o país e a América Latina, bem como para a busca turca por influência no Oriente Médio.

Dos grandes assuntos globais, nascem oportunidades regionais. Nos vácuos de poder que se criam nessa geopolítica mundial em gestação e mutação, os países se articulam e se movimentam para encontrar o seu “novo” lugar, sem os encantos nacionalistas de outrora, mas de acordo com a realidade que se interpõe.


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