"Ocidentalizando" a China?

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Ao que parece, Obama nem sempre se interessa por tudo que Jintao tem a dizer…

Quem diria que reality shows e filmes estadunidenses poderiam ser considerados como nocivos? Quem diria que interessar por fofocas de um “Big Brother” de vez em quando, emocionar-se com as surpresas da competição de cantores como “American Idol” ou mesmo impressionar-se com o realismo e qualidade dos efeitos gráficos de “Avatar” estaria diminuindo o nível de “cultura” da população?

Bom, na verdade, alguns até diriam isso por aqui, mas nada a ponto de o governo criar barreiras e impedimentos de acesso a essas mídias de massa. Enquanto no Brasil vemos a expansão desses programas e filmes, na China, não é bem assim que a banda toca. Não é novidade para ninguém que o governo do partido Comunista exerce censura sobre as mídias. Todavia, o controle atual não parece satisfazer o presidente, Hu Jintao, que em artigo para a revista comunista, Seeking the truth, afirmou que deve haver mais esforços para evitar a “ocidentalização” do país.

As medidas que seguiram ao artigo, no início do ano, bloquearam cerca de 2/3 dos programas de canais fechados chineses, que se pareciam demais com seus similares ocidentais, e incentivam a produção de filmes e programas que fortaleçam a matriz cultural chinesa. O que significa que não vai mais se ver nenhum “Ídolos” chinês por aí!

A ideia é simples e segue uma mesma fórmula que lembra aquela da Revolução Cultural das décadas de 1960 e 1970. Suprimir toda manifestação que tenha origem ocidental e incentivar a produção nacional da indústria cultural, mais enfocada em temas que fortaleçam o “ideal socialista” do governo. O problema é que hoje as dificuldades para um controle mais estrito parecem ser maiores.

É difícil negar que muitos programas e filmes transmitem o tal “american way of life”, como coloca Clovis Rossi, em um interessante artigo à Folha de S. Paulo do dia 5 de janeiro. E para além do estilo de vida, eu também acrescentaria que, particularmente os filmes, transmitem uma ideia implícita de nações amigas e inimigas, já que insistem em incluir referências à Rússia e, ao mais novo queridinho do cinema, o Irã. Essas menções, por mais sutis que sejam, causam um efeito significativo no imaginário da população.

Ao mesmo tempo, parece complicado resistir a essa indústria cultural. A China está a caminho de tornar-se a maior economia do mundo e os jovens do país estão conseguindo driblar os bloqueios impostos à internet. Os valores ocidentais tem de fato crescido no país. Afinal, vivemos uma era de grande conexão, de globalização que, para todos os efeitos, aparece para bem e para mal.

Um cenário como esse leva a um paradoxo de difícil resposta e difícil previsão. Até que ponto a maior economia do mundo conseguirá continuar resistindo à cultura ocidental? Não gosto de futurologia, mas podemos levantar duas hipóteses, diga-se de passagem, completamente opostas, sobre o ciclo que a China está seguindo. A primeira seria o crescimento virtuoso, em grande medida possibilitado por um governo restrito, continuar garantindo o sufocamento da cultura ocidental no país, já que, ao passo que todos estão cada vez mais dependentes da terra do meio, poucos e poucas vezes se arriscam a questionar o regime. A segunda se daria justamente de forma oposta. Por a China estar adquirindo uma posição econômica cada vez mais importante, não conseguiria seguir por muito tempo com esse projeto de grande censura aos programas de entretenimento ocidentais, já que há necessidade de ampliar seus canais de conexão com o e ganhar mais prestígio internacional.

Bom, apesar de ser difícil enxergar para além dessa neblina da indústria cultural chinesa, temos uma certeza: não veremos nenhum Big Brother chinês nos próximos meses!


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Coreia do Norte: entre imagens e incertezas

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O que mais vale na política? A personalidade do líder, a construção de sua imagem ou as políticas por ele adotadas? Essa é uma pergunta bem capciosa porque há sempre um universo de outras variáveis a serem analisadas e, até poderíamos dizer, que esses três aspectos são essenciais em todo ambiente político. Agora, vamos reformular a questão. Qual desses aspectos mais pesa na política norte-coreana?

A pergunta continua difícil de responder. E essa é uma dúvida que tem sido exaltada após a morte do líder do país, Kim Jong il. O sucessor, indicado já há algum tempo, Kim Jong un, tem despertado incertezas entre especialistas, comentaristas, políticos e fofoqueiros mundo a fora. A inexperiência política e a falta de familiaridade do povo norte-coreano com o novo líder emergem como fatores de questionamento sobre a capacidade de Jong un, de governar o país e manter estável um regime estritamente fechado que é a Coreia do Norte.

Atualmente a Coreia do Norte é uma ilha distante e única em um mar de informações compartilhadas e interconexões que caracteriza nosso mundo contemporâneo. E, pela dificuldade de se obter informações sobre o regime, temos também problemas para analisar de maneira concisa essa realidade. O pouco que sabemos sobre a situação da população é por meio de estimativas de O.N.G.s, como a Anisita Internacional que estima a morte de quase um terço da população de fome desde o fim da União Soviética.

Por outro lado, esse bloqueio de informações oficiais também é um importante indicador. Sabe-se que, à imagem e semelhança de governos comunistas anteriores, os líderes norte-coreanos sobrevivem por meio intensa propaganda nacional exaltando suas características quase divinas e, paralelamente, por uma severa censura (a morte de Kim Jong il foi apenas publicada pelo governo dois dias após o ocorrido!).

Isso dito, retomemos à pergunta do início do texto. Qual aspecto mais valeria na situação norte-coreana? Desses três, do que se tem acesso até o momento, pode-se dizer que os dois primeiros são extremamente destacados. Destarte, não seria descabido ressaltar o questionamento: se foi possível construir a imagem de dois deles anteriormente, Kim Sung il, o primeiro presidente da recém separada Coreia do Norte de 1972 a 1994, e Kim Jong il, de 1994 a 2011, por quase 20 anos a fio para cada um deles, será que não seria possível construir outra?

O incondicional apoio do gigante chinês é um aspecto que não se pode descartar. Há até quem diga que a China poderia “adotar” a Coreia do Norte como outra de suas províncias frente a um líder menos expressivo. O teste de mísseis norte-coreanos detectado pelos radares da Coreia do Sul talvez seja uma mensagem de boas vindas de Kim Jong um dizendo que ali não haverá espaço para incertezas. Bom, esse foi um mero exercício de reflexão. Deixemos que o tempo dite os caminhos desse país. Disso tudo, talvez a única certeza é que o Tio Sam e China vão observar bem de perto esse desenrolar de eventos.


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Quirguistão: novos capítulos

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Este país localizado na Ásia Central, por incrível que pareça, já foi tema de alguns posts aqui na Página Internacional. A sua estabilidade volta ao noticiário, na forma de uma esperança reacendida. Desta vez, as eleições presidenciais foram finalizadas com a vitória do primeiro-ministro, Almazbek Atambayev. A ele será incumbida a difícil tarefa de conseguir finalizar a transferência de poder pacificamente, o que não ocorreu desde a independência do país em 1991.

Para alguns, o Quirguistão pode ser um país invisível, pouco conhecido e de pequena relevância no cenário internacional. Contudo, as tensões advindas ainda da guerra fria, as acirradas cisões étnicas, o referendo que estabeleceu o parlamentarismo e as reações da sociedade civil mantiveram o país sob os holofotes internacionais. Seu caráter estratégico, marcado pelo constante interesse de Rússia e Estados Unidos, contrasta com a sua fragilidade estatal e institucional. O recém-eleito iniciará seu governo com denúncias de irregularidades durante o dia da eleição.

Atambayev, um bem-sucedido empresário, promete trazer prosperidade e estabilidade para sua nação. Outra promessa, por outro lado, desperta expectativa internacional: o fechamento da base militar norte-americana, localizada na capital Bishkek. Ao contrário dos seus vizinhos (Uzbequistão, Cazaquistão e Tadjiquistão), onde sobreviveram governantes fortes, o Quirquistão viu poucos rastros de estabilidade. Porém, é justamente debaixo das ruínas de seus problemas recentes que reside a esperança do seu florescimento democrático.

O presidente, frente aos desafios inerentes à sua função, terá que lidar com grupos da sociedade civil e outras lideranças políticas, ambos munidos de liberdade para operar, discutir preocupações e levar às ruas suas demandas. Com relação ao âmbito externo, há implicações para a estabilidade regional, na medida em que o país é parte da rota para contrabandear drogas para o Oeste e poder virar alvo de militantes islâmicos em busca novas bases. O país está também perto de China e Rússia.

Mia Couto, importante escritor moçambicano, defende:

“A esperança é a última a morrer. Diz-se. Mas não é verdade. A esperança não morre por si mesma. A esperança é morta. Não é um assassínio espetacular, não sai nos jornais. É um processo lento e silencioso que faz esmorecer os corações, envelhecer os olhos dos meninos e nos ensina a perder a crença no futuro”. (E se Obama fosse africano?, Mia Couto, 2009) 

Não parece ser o caso. A esperança segue viva e em pauta no Quirquistão.


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Segredos bem guardados…

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Existem dois elementos que geralmente rendem boas histórias para livros e filmes: aventuras em terras estrangeiras (como ser preso por tráfico na Tailândia ou se tornar confessor de um jovem Dalai Lama no Tibet) ou enfrentar problemas em terreno hostil (como ficar preso a uma rocha ou nos destroços de um avião). Os alpinistas norte-americanos Josh Fattal e Shane Bauer vão ter bastante o que contar pois sua história envolve esses dois aspectos – eram eles os prisioneiros norte-americanos que estavam no Irã há dois anos, acusados de espionagem, e libertados neste fim de semana.

Tudo começou com uma confusão com relação à localização do grupo de alpinistas (que incluía uma terceira pessoa, Sarah Shourd, que foi libertada ano passado), que teriam se perdido na fronteira com o Iraque e acabaram parando inadvertidamente em território iraniano em meados de 2009. Esse engano (até que se prove o contrário) se tornou para esses três jovens uma experiência vívida da parcialidade do regime jurídico iraniano. Isolados do mundo, julgados com base em mentiras absurdas e encarcerados sob condições deploráveis, em meio aos gritos de outros presos sendo torturados. O relato desses rapazes é assustador e mostra uma faceta irônica da situação – segundo consta, todas as vezes que reclamavam do tratamento, os guardas os lembravam de como os norte-americanos tratavam seus presos em Guantánamo e Abu-Ghraib.

E assim chegamos ao tema principal do texto de hoje. Não é segredo pra ninguém que quase todos os governos do mundo mantêm ou mantiveram, em maior ou menor grau, algum tipo de repressão política. Porões de ditadura, prisões secretas, campos de trabalho forçado. Cada localidade tem sua variedade de como lidar com prisioneiros políticos (uma “justificação” para se livrar daqueles que incomodam o regime). Como lidam com isso, depende da situação política ser favorável ou não. Mesmo as democracias não estão livres disso! Obama confirmou a existência de prisões secretas e o previu o fechamento destas e de Guantánamo, mas no fim das contas essa continua aberta, e as outras… quem sabe. O Irã obviamente usava os jovens como uma moeda de troca valiosa com os EUA, e sua libertação teria sido um aparente movimento para atrair a simpatia ocidental. Ou teria sido o mero desmoronamento de uma acusação infundada que se tornara insustentável? Ou o valo estratégico dos reféns acabou? É difícil saber.

O que se percebe com clareza é que esses norte-americanos tiveram muita sorte – afinal, sua detenção era uma das principais chantagens contra o país mais poderoso do mundo. Assim enfrentaram, até onde se sabe, julgamento severo e injusto (que custa a vida de muitos em locais como a China e a Tailândia) e prisão insuportável mas saíram relativamente ilesos (ao menos, fisicamente). Por outro lado, quantos prisioneiros políticos como eles estão tendo menos sorte em países de governos mais truculentos, pelo mundo todo. Vamos tomar o exemplo dos países da tal Primavera Árabe… Basta pensar no Iêmen: o presidente Saleh está de volta e fala em transição do poder, mas persistem os choques e as mortes em confrontos com forças policiais. É impossível saber o número exato de mortos – quanto mais de presos, que ficarão sabe-se lá quanto tempo em algum porão até conseguirem sair (SE saírem). E mesmo onde as revoltas parecem ter sido exitosas (como na Líbia), se descobrem segredos cada vez mais aterrorizantes: a bola da vez é a cova coletiva de Kadafi, descoberta pelos revolucionários perto de Trípoli, com as ossadas de mais de 1200 pessoas mortas em protestos contra o regime nos anos 90. É tão ruim quanto (ou pior) do que as valas encontradas nos genocídios balcânicos da mesma época.

O alívio de ver os jovens aventureiros sãos e salvos (independentemente de sua origem ou de como foram pegos – não deve haver terror semelhante ao da impotência ante um sistema todo contra você) contrasta com a angústia de saber que tantos outros estão por aí em condição semelhante ou pior. E descobertas como essa da Líbia, ao mesmo tempo em que são assustadoras, um verdadeiro choque de realidade quando tomamos conhecimento desse tipo de evento, é benéfico que se desacobertem esses abusos. Fica a incerteza.


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O show é dos senhores!

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No estudo da história das Relações Internacionais, uma das vertentes mais tradicionais (e que já levou muita pedrada, mas ainda é muito utilizada) é a chamada “história diplomática”. Basicamente, é o estudo da história de um país com foco nas figuras do homem de Estado (de diplomatas a governantes) e seus feitos. Eu imagino que os historiadores do futuro que venham a estudar nosso período vão ter um prato cheio pra lidar com os protagonistas que temos hoje em dia.

O cara da moda é o Kadafi. Não bastava ter seu país estar em conflito civil, com intervenção estrangeira e seu paradeiro ainda ser um mistério, enquanto continua bradando aos seus leais seguidores que mantenham a resistência aos insurgentes. Na semana passada, descobriram em um de seus suntuosos bunkers ocupados pelos rebeldes um álbum de fotos e recortes de… Condolezza Rice. Aparentemente o líder líbio nutre uma admiração excessiva pela antiga secretária de Estado dos EUA, e mesmo que ressurja e tome de volta o país em uma espécie de virada épica, as páginas da história não vão ter clemência ao relatar sua “paixão adolescente”.

Por outro lado, há outros que estão um pouco fora de cena. Lembram do Kim Jong-Il? Pois é, depois de tanto espernear com seu programa nuclear e chamar a atenção do mundo, vieram uns árabes abusados e roubaram os holofotes da Coreia do Norte no palco internacional. No momento, deve estar de tocaia, aguardando para seu retorno triunfal à cena internacional enquanto o país tenta driblar as sanções e ganhar uns trocados de maneira criativa, como trapacear em jogos on-line.

Há também os que andam sumidos, por bons motivos, como Hugo Chavez (que certamente vai voltar com mais força que nunca); e há os que estão achando ótimo esse sumiço. Quando começou a intervenção da Líbia, se falava muito de Sarkozy e Berlusconi, os maiores interessados na ação. Mas claro que, um com problemas econômicos e políticos, outro com judiciais, a mudança do foco para a desastrada, apesar de apaixonada, ação dos rebeldes líbios caiu como uma luva: se não para amenizar as críticas, ao menos para desviar o mau-olhado da imprensa. Falem bem, falem mal, NÃO falem de mim…

E há os que navegam na incerteza. No Japão, a saída anunciada há tempos de Naoto Kan e consumada na sexta-feira abre espaço para Yoshihiko Noda, ministro das finanças e que promete arrocho fiscal pra sanar a economia do país e bancar a reconstrução após o desastre do começo do ano. Nos EUA, o esforçado mas desgastado Obama parece ter contornado momentaneamente os problemas com o Congresso e sua organização para enfrentar a chegada do furacão Irene (com um saldo de 19 mortos até o momento) são vitórias quando comparadas, pelo menos, a circunstâncias semelhantes enfrentadas pelo seu antecessor.

Curioso reparar como não temos no momento líderes que estejam com aceitação acima da média ou 100% de bem com a imprensa. Pode ter sido um mês excepcionalmente ruim, mas provavelmente é a época de crise que não ajuda muito na criação dos mitos…


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Há um ano...

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Há um ano o blog tratava de alguns assuntos que mantém sua atualizade mesmo hoje. Parece chavão, mas deve ser uma das provas de como a evolução do processo internacional é lenta e gadual…

No dia 9 de agosto, comentávamos sobre os 65 anos das bombas atômicas lançadas sobre o Japão na II Guerra Mundial. O final do texto falava um pouco desse pesadelo nuclear ainda ser uma ameaça real e até mesmo absurda no mundo de hoje. Ironia do destino, ou um presságio funesto, no ano seguinte o Japão se vê assolado novamente por esse terror, claro que por razões bem diferentes, mas que ainda assim mostra como a energia nuclear pode ser um tema controverso e que desperta debates apaixonados. Num momento, é a salvação da lavoura com o “fim” do petróleo, e até ambientalistas dão o braço a torcer; noutro, é desculpa pra radicais fazerem bombas atômicas ou uma ameaça latente nos reatores nucleares mal-administados…

No dia 10, comentávamos sobre as relações entre Colômbia e Venezuela. Com a saída de cena do combativo Uribe, havia a expectativa da reconciliação de seus líderes Chavez e Santos, encarada como um “espetáculo”, quase que planejada. Dito e feito: os países estão em bons termos novamente, e o espetáculo continua, agora com o tratamento médico de Chavez. Sua luta aguerrida e otimista contra o câncer acaba sendo uma mostra de tenacidade que tem tudo pra aumentar muito sua popularidade (já está confiante para as eleições de 2012), principalmente nesse contexto de crise em que a Venezuela se encontra.

Por fim, no dia 13, falávamos da “síndrome de Dom Quixote”, que nas Relações internacionais parece afetar muitos líderes mundiais, em que atitudes consideradas sem muito juízo na verdade são revestidas de interesses bem específicos. Os eventos recentes no Oriente Médio, em que vemos mandatários enviando suas forças armadas pra enfrentar civis, da Síria à Líbia, mesmo com a condenação internacional, mostram o quanto essa “loucura” parece estar preesente no dia-a-dia internacional.

É isso aí pessoal, postando e relembrando.


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66 anos depois…

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Há 66 anos, o mundo vivia um dos momentos mais paradigmáticos do século passado: os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki. Estes encerraram, por assim dizer, a II Grande Guerra e demonstraram tristemente ao mundo o poder bélico estadunidense. Tristemente porque essa demonstração ocorreu à custa de aproximadas 200 mil mortes – em sua maioria de civis – e esse acontecimento foi hoje novamente relembrado pelo povo japonês.

A imagem acima, eternizada contemporaneamente, torna visível a magnitude do impacto da bomba nuclear sobre Nagasaki, ocorrida há exatos 66 anos. Vale lembrar que essas ocasiões foram as primeiras (e únicas) em que bombardeios atômicos foram utilizados em conflitos internacionais. A proporção dos ataques foi tão grande e tão intensa que, durante décadas, as consequências da radiação foram sentidas pelo país. Ainda hoje os termos “Hiroshima e Nagasaki” são frequentes quando o assunto discutido envolve guerra e paz, e os meios utilizados durante aquela para se alcançar esta.

Há dois anos, quando questionados sobre os bombardeios atômicos em pesquisa nacional, a maioria dos norte-americanos se mostrou favorável à decisão de Truman. Não restam dúvidas de que os anos passam, mas o sentimento nacionalista extremado (e muitas vezes inconsequente) estadunidense permanece.

Hoje, ao relembrar o impacto dos bombardeios e o recente desastre na usina nuclear de Fukushima, o prefeito de Nagasaki lançou o seguinte questionamento: “Por que esta nação que tem lutado durante tanto tempo pelas vítimas da bomba, uma vez mais vive com temor à radiação?”. Novamente a polêmica sobre as vantagens e desvantagens da utilização da energia nuclear vem à tona, e deve ser destacado o discurso sobre a necessidade de redução da dependência japonesa no que se refere à energia nuclear, nos dizeres do próprio Primeiro-Ministro do Japão.

Reviver a história é necessário e relembrar as vítimas destes ataques fulminantes ao Japão é natural e importante para que, diante dos desafios globais, os riscos de utilização da energia nuclear (especialmente em termos bélicos) estejam sempre vivos em nossas memórias. O que se deve evitar é repetir os mesmos erros e as mesmas perspectivas unilaterais de análise internacional para que, 66 anos depois, efetivamente tenhamos todos evoluído a partir das experiências históricas, quaisquer que tenham sido estas…


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Há um ano...

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Nas Relações Internacionais, uma coisa puxa a outra. Há (cerca de) um ano, duas postagens da Página Internacional se referiam ao tema do Oriente Médio e seus problemas intermináveis. No dia 6, Giovanni comentava exatamente sobre esse aspecto de déjà vu quando analisamos a questão da paz na região, então pautadas na negociação com os EUA em um misto de ceticismo e esperança. Em seguida, no dia 10, Luis Felipe comentava sobre as negociações e como não frutificaram. A conclusão (como era de se esperar) foi de que o processo de paz na região estava muito longe de se concretizar…

Vamos transpor essa questão para outra região, não menos conturbada? O Afeganistão e seus vizinhos estão em situação igual ou pior à do Oriente Médio, sem vislumbrar uma saída próxima. Com Bin Laden morto, os EUA estão se retirando o mais rápido possível, e deixam o abacaxi dos insurgentes para o próprio governo afegão. E os problemas não se restringem às suas fronteiras.

O mais imediato é o Paquistão. As suspeitas de colaboração interna ao terrorista por lá e o mal-estar que se seguiu à operação dos SEALS está causando muitos problemas no até então maior aliado dos EUA na região. Estes vão cortar um bom naco da ajuda militar que prestavam ao Paquistão, tudo indica que a violência no país aumentou desde que se deu a eliminação do homem mais procurado no mundo, e já se diz que seu sucessor teria dado as caras em regiões isoladas, o que obviamente tende a piorar a questão.

Outro em maus lençóis é o Quirguistão. Com o fim das operações no Afeganistão, existe uma grande probabilidade de que seja fechada a base norte-americana no país (o principal ponto de abastecimento dos EUA para as missões em território afegão), que além de gerar alguns atritos com a Rússia é uma grande fonte de renda para o país, com o aluguel e taxas administrativas. A perda dessa fonte de renda seria por demais danosa a um país ainda imerso no caos da reconstrução após a turbulência política do ano passado, e onde acusações de impunidade e violência são constantes.

A solução de conflitos no Oriente Médio parece um problema sem fim, mas do jeito que as coisas andam não vamos ter um quadro muito diferente nessa região montanhosa da Ásia, nem daqui a um ano, nem um futuro próximo…


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Um senhor respeitável

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Há algumas semanas estávamos comemorando os 20 anos de democracia na Rússia. Pois bem, hoje temos um aniversario ainda mais expressivo, o do nonagenário Partido Comunista Chinês. Ao contrário da democracia surgida com o fim da União Soviética, que anda meio mal das pernas, o governo de Pequim (não me venham com Beijing) está firme e forte como nunca. Mas é um aniversario sem ter muito que comemorar.

A economia chinesa, até segunda ordem, vai bem, obrigado. Claro que tem o problema da inflação, mas nada que não se consiga contornar. Acho que é o que podemos chamar de males do crescimento… Agora, se nos últimos anos a economia se abriu, as expectativas de abertura política parecem diminuir à medida em que o partido envelhece.

Havia uma esperança de abertura com a sucessão de Hu Jintao, mas com a provável ascensão de Xi Jinping em 2012, considerado conservador, vai persistir a o padrão de atuação política atual e truculência no trato com os insatisfeitos. Com medo dos efeitos da “primavera árabe”, o governo chinês aumentou a repressão e passa esse aniversário no vermelho, literalmente, reforçando símbolos dos “bons tempos”. É a boa e velha propaganda em seu sentido original, de difusão política. Enquanto isso, aumentam incertezas e continuam pipocando os que protestam contra a corrupção e abusos.

Governos opressores não duram para sempre – nessa mesma semana, por exemplo, começa o julgamento dos últimos 4 líderes vivos do Khmer Vermelho (o então governo comunista do Camboja, que foi responsável pela morte de cerca de 2 milhões de pessoas, e é o caso mais absurdo e truculento de como os regimes comunistas lidavam com seus cidadãos). É pouco provável que haja um novo massacre da Praça da Paz Celestial, mas vai ser gradualmente mais difícil a esse governo, cada vez mais fechado e defensivo, que continue a manter os ânimos apaziguados sem que ocorra algum incidente mais grave.

Além do mais, um país não pode viver só de uma economia pujante, e se essa degringolar, aí a coisa fica feia. O partido continua firme, e ainda vai fazer muitos aniversários. Mas, até quando?


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20 anos com corpinho de 90…

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Nesse fim de semana a Rússia fez 20 anos – ao menos, sua democracia, pois em 1991 era eleito Boris Yeltsin e terminava o sombrio período do desmoronamento da União Soviética. Indícios de uma era de paz e prosperidade pós-comunismo? Nem tanto, pois a primeira coisa que fizeram foi invadir a Chechênia, e repartir todo o aparato estatal entre oligarquias misteriosas que encheram as listas de “mais ricos do mundo” de magnatas russos.

Em 20 anos, o que conseguiram? 3 presidentes, uma certa melhora em níveis de vida, crises econômicas, alguns atritos com países vizinhos, o direito de sediar uma Copa do Mundo… Bem parecido com o Brasil pós-1988 não? Fora o número de presidentes, o Brasil e a Rússia passaram por poucas e boas desde que adotaram formalmente a democracia. Qual a diferença primordial? A Rússia ainda tem muita influência na política mundial. Não apenas por sua cadeira permanente herdada da URSS no Conselho de Segurança da ONU e as centenas de ogivas nucleares em sua posse (ainda a segunda reserva destas em número no mundo; vale lembrar uma antiga piada: os EUA disseram à URSS que tinham um arsenal nuclear capaz de destruir o mundo 10 vezes, ao que os soviéticos respondem que se quisessem seu arsenal bastava para fazê-lo uma única vez…), mas pela capacidade de influência na região e mesmo na Europa. Basta ver como decisões da UE ou da OTAN sempre levam em consideração as possíveis reações russas.

Por isso podemos dizer que a Rússia tem um corpo de 90 anos – afinal, muito de seu poder e instituições são herdeiros diretos da URSS, e se criou uma situação paradoxal. Se a China é um país comunista atípico, “capitalizado”, ao mesmo tempo a Rússia é uma democracia consolidada, mas ao mesmo tempo “ditadorizada”, com eleições livres, oposição organizada e afins, mas onde opositores são marginalizados e eliminados sumariamente, o Estado é truculento e sua burocracia é rígida, centralizada, e serve aos interesses de um hiperpresidencialismo. Nas mãos de Putin e Medvedev, ficou bem claro nas entrelinhas de seus projetos políticos o desejo pela nova ascensão da Rússia como potência mundial, e para isso o Estado precisaria de mão forte. Há até mesmo quem diga que as recentes rixas entre os dois sejam uma mirabolante manobra planejada por Putin para mostrar que existe dissonância interna e legitimar sua eventual terceira vinda ao poder.

Teorias da conspiração à parte, o fato é que a democracia russa cambaleia, fragilizada ao longo de 20 anos de tratamento de choque. E o irônico é que, enquanto persistir essa estrutura vertical e robusta de poder político centrado, essa nova e sui generis democracia russa ainda vai fazer muitos aniversários…


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