Desafio norte-coreano

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Após uma gafe diplomática (!) por parte da organização dos Jogos Olímpicos que chamou a atenção dos noticiários internacionais em relação à Coréia do Norte, este recluso país asiático volta às manchetes atuais não pelo emblemático tema dos testes nucleares, mas por estar sofrendo gravemente com desastres naturais. Tratam-se das piores cheias da história do país que desafiam ainda mais a resiliência da população norte-coreana, afetando diretamente milhares de cidadãos e agravando a crônica situação de escassez de alimentos.

O fato é que, após um forte período de secas, o país vem sofrendo com recentes inundações que já provocaram a morte de mais de 100 pessoas, deixando ainda dezenas de milhares desabrigadas. Os prejuízos em relação aos campos aráveis levam à possibilidade de mais uma crise alimentar (o que já aconteceu duas vezes durante a década de 90), nesse país no qual cerca de surpreendentes dois terços (!) da população passam fome, segundo relatórios recentes da ONU.

No poder como “líder supremo” desde o final do ano passado após a morte de seu pai, o jovem Kim Jong-un herdou uma responsabilidade política de seguir com o regime comunista neste que é considerado um dos países mais “fechados” do mundo atual. Oito meses depois daquele momento inicial de incertezas que permeou a sucessão (veja post publicado no blog aqui), o que se percebe é uma Coréia do Norte relativamente (ok, que se sublinhe o “relativamente”!) mais disposta ao diálogo multilateral.

Apesar de ainda preliminares e incertas, análises já demonstram as diferenças de abordagem existentes entre Jong-un e seu pai (leia mais aqui). Nesta semana, o pedido de apoio das Nações Unidas para o auxílio às vítimas das cheias no país revela uma abertura antes improvável em se tratando do regime norte-coreano. 

Contudo, a eterna polêmica nuclear (e várias outras polêmicas mais: veja exemplos aqui e aqui), a falta de investimentos em esforços de prevenção de catástrofes (ou amenização de suas consequências), a pobreza extrema e o descaso em relação a uma população que sofre com os malefícios de um regime fechado em pleno século XXI levam a uma relativização do otimismo no que se refere a esse posicionamento político.

Solicitar ajuda abertamente aos mecanismos multilaterais internacionais não deixa de já ser uma iniciativa válida, mas é claro que não basta para garantir efetivamente o bem-estar a longo prazo da população norte-coreana em geral… este desafio é muito mais amplo e complexo, com certeza.
 


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Quando o bem na verdade faz mal…

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Quando falamos de Assistência Humanitária, a visão de “fazer o bem” parece absolutamente intrínseca. E, de fato, assim deve(ria) ser. Acontece que, frequentemente, ao pensarmos fazer o bem, podemos estar, na verdade, mais prejudicando que ajudando uma comunidade em crise. A perspectiva de um “colonialismo humanitário” infelizmente não é descartada nos dias de hoje. 

Todas as atividades de ação humanitária possuem como objetivo principal aliviar o sofrimento humano em situações de urgência. Trata-se de oferecer os meios de sobrevivência e promover o bem-estar a comunidades que por si próprias, em um dado momento, não possuem condições de construir esses meios devido a fatores extremos. Até aí, tudo muito claro. 

Entretanto, dois aspectos negativos recorrentes nesse processo devem ser ressaltados. Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que o que se considera “assistência humanitária” deve se resumir ao curto prazo, com intervenções diretas por parte de Organizações Não-Governamentais ou Organizações Internacionais. A partir do momento em que essa etapa de urgência se estende indeterminadamente – sem ser seguida pela construção local de estratégias de desenvolvimento a longo prazo – o bem que se acredita estar promovendo na verdade pode ser prejudicial à sociedade em questão. 

Se uma comunidade, depois do momento crítico de urgência, ao contrário de ser incentivada a “pescar”, continuar “recebendo o peixe” por um tempo indeterminado, cria-se um eixo de dependência indevido. E tem-se, portanto, um novo colonialismo em vista, o chamado “colonialismo humanitário”. Assunto ainda bastante debatido, saber o exato momento em que projetos de cunho desenvolvimentista devem ser postos em prática nem sempre é evidente. Um planejamento amplo e bastante próximo às comunidades afetadas é essencial para evitar graves problemas futuros.

E, finalmente, um segundo aspecto a ser destacado é o conceito que Christian Dupuis define como “body count mentality”. Segundo este médico belga com extensa carreira humanitária (leiam seu mais conhecido e breve artigo em inglês aqui), ao subestimar as capacidades locais no âmbito médico, por exemplo, crianças que sofrem de lábio leporino no Vietnã são utilizadas como “cobaias” de médicos europeus sem grande experiência prática. Impulsionar a medicina local (frequentemente subestimada), ao contrário, exigiria quantias de investimento bastante menores com um impacto futuro enormemente maior. [Somente para se ter uma ideia clara dos custos: uma operação de lábio leporino por um médico estrangeiro no sudeste asiático custa US$ 1000; a mesma operação feita por um cirurgião local custa US$ 80.] 

E por que ainda hoje a opção com custo x benefício mais interessante é frequentemente deixada em segundo plano? Exatamente pela perspectiva quantitativa de “body count”. Treinar os cirurgiões locais, neste caso, é um processo muito mais lento que trazer estrangeiros para oferecer os mesmos serviços. Grandes doadores, governos e demais detentores de fundos baseiam-se na relação quantidade de beneficiados x tempo para avaliar a efetividade de um projeto. Relação que se mostra perversa em boa parte das situações. 

Compreender a complexidade de interesses que se escondem (ou às vezes não) por trás da ideia de “fazer o bem” é essencial para que sejam promovidos, efetivamente, resultados coerentes com esta intenção inicial – e não apenas baseados em interesses internacionais desconectados das realidades locais afetadas. 


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Uma festa do barulho

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O rojão de São João vem mais cedo na Coréia do Norte. Semana que vem eles comemorarão o centenário do nascimento de Kim Il-sung, o pai do falecido Jong-Il e que governou o país de 1948 a 1994. Para isso, nada melhor que fogos de artifício, incluindo um foguete levando um satélite de observação a ser lançado muito provavelmente na data do aniversário. O Japão e os EUA querem participar da festa e trazem os seus próprios mísseis, esperando para derrubar o brinquedo coreano caso eles inventem de mudar a rota do espaço para o chão – especialmente se for solo japonês ou sul-coreano. 

É um caso muito curioso, e até meio complicado de avaliar. Por um lado, desde que Kim Jong-um ascendeu ao poder, parece que a Coréia do Norte tem agido de modo a evitar problemas e meio que aliviar a pressão sobre os vizinhos, inclusive com a promessa de encerrar seu programa nuclear (em troca de comida!). Além disso, por acordo internacional todos os países têm direito a um programa espacial pacífico, e ao que parece, segundo especialistas, é esse o caso. 

Por outro lado, se há duas coisas que andam de mãos dadas são foguetes e mísseis. Basta lembrar que um dos homens que tornou a ida à Lua possível, Wernher von Braun, antes de ser trazido pro lado de cá do Atlântico, fez também os mísseis V-2 que os nazistas lançavam sobre a Inglaterra (antes disso, o máximo que os EUA tinham em matéria de foguete eram os que Robert Goddard lançava no quintal de sua casa). Não adianta reclamar, é a mesmíssima tecnologia, e os EUA e Japão afirmam de pé junto que esse lançamento é um teste balístico disfarçado, o que violaria resoluções do Conselho de Segurança e a promessa de suspender o programa nuclear. Por fim, é complicado medir as intenções de um país com um nacionalismo inflamado (ainda mais por conta da data), que tem armas nucleares e um exército regular menor apenas que os da China, EUA e Índia. O menor erro de cálculo pode causar uma queda acidental (ou não…) e causar uma catástrofe diplomática naquela região. 

 Esse lançamento é uma óbvia provocação, mas até que ponto a paranóia do “teste disfarçado” tem validade? Após tantos avanços (e parecer que o impasse do programa nuclear tem solução, e que a própria Coréia do Norte dá sinais disso), eles vão mesmo dar esse passo pra trás? Duvido. A mensagem de Pyongyang parece ser a de que “temos a tecnologia, então não pisem na bola”. Mas, quando falamos do regime mais fechado do mundo, tudo é possível, então vamos ver o resultado da festa do próximo fim de semana…


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China in (and out of the) box!

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Como será o mundo em 2030? A China desejará expandir seu domínio somente na Ásia ou em todo o mundo? Os Estados Unidos ficarão imunes a isso? Qual a probabilidade de haver uma mudança na balança de poder mundial? Haverá uma transição de poder rumo à China ou o Sistema Internacional continuará imutável? São estas e outras questões que, há anos, estão sendo respondidas com relativo sucesso. Mas a dúvida ainda permanece… 

De duas, uma: a ordem internacional sofrerá grande transformação ou continuará sendo a mesma. Não há meio termo! A China prosseguirá com seu crescimento econômico e suas reformas internas até alcançar o patamar dos EUA, isso já é um fato consumado. Entretanto, e depois? E quando falamos em gastos militares e segurança internacional? Como sustentar uma “dupla hegemonia” nas relações internacionais? O mundo tem espaço para dois gigantes novamente? O segundo gigante vermelho, levando-se em consideração que a União Soviética foi o primeiro, está lidando com um novo tipo de status quo jamais presenciado por outra potência em ascensão no mundo. 

Para facilitar o debate, e como vocês, leitores, já estão familiarizados com as perspectivas neorealista e neoliberal tratadas no blog na seção “Conversando com a Teoria”, há dois possíveis campos de análise quando se fala na forte promoção internacional chinesa e, consequentemente, nas transições de poder mundiais. A perspectiva realista de John Mearsheimer pontua como será o choque de lideranças entre EUA e China. Por outro lado, a visão institucionalista (e, em partes, liberal) de John Ikenberry analisa as possibilidades de continuidade da balança de poder que tomou forma na última década do século XX, logo após a Queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim da União Soviética em 1991. 

Sendo assim, o primeiro cenário será a total mudança do ordenamento internacional, havendo forte desavença entre os chineses e os norte-americanos para ver qual potência seria a única grande hegemonia mundial. Para Mearsheimer, o futuro não será tão bom, pois logo que a China tiver uma economia maior que a dos EUA, concentrará seus esforços em gastos militares. Maior destaque, ainda, reside na sua seguinte afirmação: o comportamento chinês será semelhante àquele da União Soviética durante o período bipolar. Desta forma, o país asiático não conseguiria sustentar seu crescimento de forma pacífica por muitos anos e teria potencial bélico para competir com os norte-americanos. A dominação começaria na Ásia e depois se expandiria para o resto dos continentes. É a perspectiva da guerra direta. 

Contrariamente, o segundo cenário consistirá na manutenção do atual ordenamento internacional, no qual haverá a continuidade do poderio dos países ocidentais juntamente com o adendo dos interesses chineses. Para Ikenberry, a política norte-americana e dos seus aliados durante a Guerra Fria e na década de 1990 alterou as dinâmicas da alternância de poder na ordem mundial e isso terá impacto direto no papel da China enquanto potência em ascensão. Levando-se em consideração as capacidades econômicas e militares dos países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – composta, majoritariamente, por países do Ocidente, com destaque para os EUA e os europeus), os chineses não terão condições de fazer frente a este montante; sendo assim, se acomodarão e integrarão a atual ordem internacional. Como os EUA fortaleceram a institucionalização do sistema, mudá-lo seria bastante custoso e difícil. É a perspectiva da continuidade e da cooperação. 

Mas a dúvida ainda permanece… conforme foi afirmado no primeiro parágrafo do presente texto. Em termos econômicos, as previsões são mais factíveis e corretas, todavia, quando se fala em questões de segurança, torna-se mais complicado afirmar, com absoluta certeza, como será o mundo daqui vinte ou trinta anos. A China já está aumentando sua influência na Ásia e vem fomentando seu papel enquanto “hegemonia regional”. Resta saber se ela ficará somente “in the box”, ou seja, no próprio continente, ou “out of the box”, expandindo seus ideais ao restante do mundo.


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A colcha de retalhos dos BRICS

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Basta uma nova reunião dos BRICS se iniciar para que comecemos a pensar sobre o que de fato o bloco representa. Primeiro, há de se dizer que BRICS é um conceito antes de se tornar um bloco. Em 2001, o economista Jim O’Neal, da Goldman Sachs, utilizou o termo pela primeira vez em seu trabalho “Building a Better Global Economic BRICs”. O conceito referia-se a uma projeção de que Brasil, Rússia, Índia e China poderiam ser até 2050 as cinco maiores economias do mundo. Agora, como bloco, os BRICS existem desde 2009 (a África do Sul foi convidada a participar em 2011), e começaram as reunir-se para discutir o…a…bom, sabe-se lá exatamente o que. 

Desde o inicio dos encontros que as reuniões do bloco geram a mesma reação que acabei de manifestar. São países que apenas convergem por serem grandes potências econômicas emergentes e não possuem grande agenda comum. Não se sabe se os interesses podem ser os mesmos no campo político, econômico, social ou ambiental, já que isso ainda é muito nebuloso ao bloco. É possível apontar, no mínimo, uma vez que esses países se posicionaram de maneira extremamente oposta. A China é um dos focos dos discursos políticos brasileiros de “guerra cambial”, apesar de o Brasil não explicitar tanto isso publicamente. A Rússia e China vetaram as resoluções do Conselho de Segurança sobre a Síria que Índia e Brasil foram a favor. Nas negociações da Rodada Doha, em 2008, Brasil e Índia encontrava-se em espectros diametralmente opostos e foi também o voto indiano que prejudicou as ambições brasileiras. 

Apesar desse cenário, a reunião da última semana agregou muito interesse. Principalmente pela proposta indiana de criação de um Banco de Desenvolvimento dos BRICS e a possibilidade de o bloco convergir, pela primeira vez, em um ponto específico, o apoio à candidatura da nigeriana Ngozi Okonjo-Iweal para a presidência do Banco Mundial (que já era apoiada pela África do Sul). E, como já ocorreu nas últimas reuniões, as expectativas superaram a prática. A declaração final (clique aqui para conferir)não mostrou nenhuma ação concreta nesse sentido e mais pareceu uma colcha de retalhos, na qual cada país conseguiu emplacar assuntos que eram mais importantes para si e todos tiveram uma posição consensual nos moldes generalistas da Assembleia Geral das Nações Unidas (prezar pela Segurança e paz internacionais, buscar uma solução pacífica para os conflitos no Oriente Médio…). 

Essa resolução, a alguns, significa que o bloco está fadado ao fracasso e que não há nenhuma expectativa de convergências no longo prazo. Todavia, também pode significar que, como toda colcha de retalhos, possui uma linha condutora que segura os retalhos juntos. No caso dos BRICS, a linha seria a da busca por uma estrutura da economia mundial diferente daquela que vem mantendo-se desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não seria o caso de ser excessivamente otimista, mas de ser um pouco mais paciente. Blocos normalmente partem de um interesse comum ao se unir. Os BRICS se uniram para depois buscar um interesse comum. 

Seria essa uma fórmula errônea para a formação de blocos? Não há como dizer. Apesar de o grupo ser extremamente divergente, seu ineditismo seria uma das razões da falta de articulação. Não há outro bloco com a característica de ter poucos membros e, praticamente, um de cada continente. Bom, mas se os BRICS querem de fato consolidar-se, será preciso muito mais do que manterem-se somente pela linha. É preciso que sejam vistos como colcha. 


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Trigger Happy

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Apesar do que os noticiários mostram, o ser humano não teria uma inclinação natural à violência – ou, ao menos, a matar semelhantes a sangue-frio. Estudos interessantes mostram como, nas duas guerras mundiais, a maior parte das mortes ocorridas no front foram causadas por estilhaços de granadas ou por morteiros. Muitos soldados que saíam com os rifles em mãos simplesmente não conseguiam atirar em outros seres humanos. Os que conseguiam, era após muito tempo de farda ou aqueles que se chamam “natural born killers”, pessoas comuns que não têm essa dificuldade, beirando a sociopatia, mas sem serem consideradas anormais. 

O que isso tem a ver com política internacional? Bom, nesse fim de semana um sargento dos EUA acordou cedo, se dirigiu a uma aldeia no Afeganistão e chacinou 16 civis inocentes. A suspeita é de que tenha sofrido um colapso nervoso ou estivesse embriagado. A primeira opção parece mais plausível – pra quem está chocado com a notícia, saiba que no Vietnã rolava coisa muito pior.

Dessa história, tiramos duas coisas. Em primeiro lugar, esse tipo de ocorrência de “feliz ao gatilho” (expressão que vem do inglês e que se refere literalmente à pessoa que atira sem se preocupar muito com os alvos) faz pensar em como a própria situação do militar é uma coisa aterradora. Quando um homem se alista no exército ou é convocado para a guerra, todo o processo de treinamento serve pra que ele esqueça as convenções da vida em sociedade e se torne uma pessoa capaz de matar uma outra pessoa. A morte, aquilo que é repreendido e proibido na sua vida como civil, é em última instância o seu objetivo (seja para proteger o país ou sua própria vida) na carreira militar. E, quando se pensa que o soldado do outro lado é muito provavelmente alguém na mesma situação, não é de se admirar que haja tantos casos de stress pós-traumático, ou de como um conflito prolongado e tenso como no Afeganistão mexa com os nervos dos soldados. 

Segundo, as conseqüências dessa tragédia. Os EUA não estão com retirada programada do Afeganistão tão cedo (dizem até 2014, no mínimo), e essas mortes deram ao Taleban (ou o que sobra dele) um grande fôlego para incitar o ódio aos “invasores”. Além disso, é até complicado qualificar isso como crime de guerra, de modo que muitos afegãos do lado do governo (aliados dos EUA, tecnicamente) querem que o sargento seja levado a julgamento popular pelas leis de lá. Mesmo com os pedidos de desculpas oficiais, Obama está com (mais um) abacaxi nas mãos e tensões por todos os lados complicam a estadia dos EUA no Afeganistão (e aumentam o clamor por sua saída).


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De novo, Putin?

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Nas últimas eleições presidenciais russas, ocorridas agora no começo de março, Vladimir Putin conseguiu se eleger pela terceira vez e novamente ocupará o cargo mais alto da república. Seu primeiro mandato começou em 2000, foi reeleito e ficou na mesma função até 2008. Talvez fosse hora de parar, mas ele não saiu da cena política e, até o presente momento, figurou como primeiro-ministro.

Muitos pronunciaram que, na verdade, tal situação não proporcionaria uma mudança de governo no país, uma vez que Dmitri Medvedev, amigo partidário de Putin, seguiria as mesmas diretrizes propostas por este. Com a manutenção do mesmo panorama, Putin completará, em 2012, doze anos de vida pública na Rússia, sempre variando nos dois maiores cargos políticos e provocando a ira da oposição. A situação ficou tão crítica que o segundo colocado nas últimas eleições, o comunista Ziuganov, disse que o pleito não foi honesto e o Estado russo foi uma “máquina […] criminosa e corrupta”

Disseram que houve o chamado “voto carrossel”, no qual as pessoas escolhem o candidato quantas vezes quiserem, mudando apenas o lugar de votação. Lá as eleições não são informatizadas, não existe uma veracidade de informações e não há como saber, realmente, se tudo foi feito de maneira democrática e totalmente justa. E o que eu digo por “maneira democrática”? Atualmente, fala-se, e muito, sobre democracia. É governo democrático pra cá, falta de democratização pra lá e por aí vai. 

Na Rússia faltou participação efetiva da população, já que o voto não é obrigatório, a igualdade de voto não foi estabelecida, não houve entendimento esclarecido do eleitorado e faltou um programa de planejamento estatal. Enfim, eleições livres, justas e frequentes são condições básicas para o que chamamos de moderna democracia representativa, na qual a população escolhe os candidatos que ocuparão os postos políticos. É óbvio que isso é considerado um ideal para vários analistas e pesquisadores, seria extremamente benéfico ter igualdade de votos em qualquer situação, mas me parece que o mínimo necessário para isso não foi alcançado pelos russos. 

O fato é que a Rússia carrega o fardo do seu passado. Com o fim da União Soviética, reestruturou-se a política do país e o vasto território acabou por dificultar a presença do Estado nas mais diversas cidades. Sem o controle local, diminui-se a eficiência governamental e tudo isso culmina nas malfadadas eleições presidenciais. Interessante observar que a própria oposição aparece com roupas vermelhas e os velhos martelo e foice, símbolos do comunismo. Este discurso está ultrapassado e deve ser mudado, mas o que também deve ser colocada em prática é a alternância de poder. Independentemente do partido e da posição ideológica, os russos carecem desta prática há um bom tempo.


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E no front econômico…

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O Brasil está em confronto com o mundo – ao menos, foi o que parecia em declarações meio quentes emitidas semana passada. E não estamos falando da briga de comadres do Governo com a FIFA por conta dos atrasos pra Copa (apesar de já haver gente dizendo que isso pode ser um sinal de tirarem o evento do Brasil, o que já seria uma tragédia em si pela dinheirama que já rolou nos investimentos).

Na vedade, a guerra de fato é a cambial. A presidente Dilma criticou abertamente o fato de o Brasil estar sendo prejudicado pela inundação de dólares na economia mundial. A ideia é que o Brasil perde competitividade não por fatores internos (como era de praxe), mas pela concorrência desleal de fora. Com isso, o Banco Central faz o que pode pra diminuir a entrada de moeda estangeira e até a Alemanha entra na parada pra tranquilizar o Brasil.

A palvra-chave pra entender esse problema é “importação”. Com muito dólar circulando, especialmente na Europa pra ajudar os países a sanar a crise, a tendência é que a moeda nacional perca valor, tornando seus produtos mais competitivos fora. O problema é que isso está acontecendo de um jeito insano pelo mundo e o Real acaba sobrevalorizado, causando problemas pro produtor brasileiro. Mas dá pra se perguntar até que ponto a culpa é dos “outros” – e quanto dano realmente causam ao Brasil.

Não é todo mundo que ganha com essa guerra. A Alemanha, por exemplo, só está se beneficiando da baixa do Euro por ser uma situação atípica na Europa: Euro em baixa torna as exportações alemãs para o mundo mais competitivas (mesmo que perdendo espaço na própria UE). A confiança é tanta que o país chega a pegar empréstimos com juros negativos! Ou seja, eles pegam uma quantidade emprestada e pagam menos na hora de devolver… Porém, enquanto isso, o resto da Europa naufraga com o Euro despencando.

E a questão do câmbio pode não afetar muito esse aspecto de competitividade. A China, por exemplo, está reduzindo suas metas de crescimento e tentando cada vez mais reduzir a particupação de dólar em seus ativos. A ideia é aumentar o consumo intermo – e isso significa deixar sua moeda menos desvalorizada. E talvez diminuir a diferença de renda num país socialista que tem índice de Gini maior que o dos EUA capitalista. Mas, nesse caso, valorizar sua moeda não significa uma desvantagem real com relação a competidores.

Enfim, temos que levar em conta que esse afluxo de dólares está ajudando a estabilizar a economia. Gera problemas para o Brasil, mas é a opção que sobra em vez de uma economia que favorece competitividade nacional mas totalmente instável como na época grave da crise. É o bom e velho caso de escolher o remédio menos amargo…


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A única certeza é a incerteza

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A Coreia do Norte anunciou ontem, dia 29 de Fevereiro, o que poderá ser o início de um maior diálogo rumo à transparência nuclear do país. Além de suspender os programas nucleares, propriamente ditos, parar o enriquecimento de urânio e interromper o lançamento de mísseis de longo alcance, os norte-coreanos autorizaram a visita de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) no complexo de Yongbyon, onde se situa o principal centro de pesquisas e estudos envolvendo os temas citados acima.

Muito se falava no futuro da Coreia do Norte após a morte do seu líder Kim Jong-Il. Os rumores indicavam que Kim Jong-Un, seu filho mais novo, assumiria o cargo de “eterno presidente” e assim o fez. Na verdade, o Estado norte-coreano sempre manteve um regime fechado e isto dificulta, em vários aspectos, o conhecimento de sua política interna por parte do outros atores internacionais.

A incerteza para com o regime de Jong-Un é tamanha que ainda é cedo prever o quão importante será esta nova medida adotada em comum com as Nações Unidas (ONU) e os diplomatas norte-americanos. Isto é tão verdade que líderes japoneses e sul-coreanos denominaram “primeiro passo” à decisão de findar o programa nuclear do seu vizinho. Mesmo com notícias animadoras sobre uma possível mudança de paradigma da política exterior da Coreia do Norte, devemos manter a incógnita que sempre esteve ao lado do país.

Uma suposta trégua anunciada não toma o lugar de uma história de ameaças, tensões fronteiriças e conflitos diretos. Com o fim da Guerra da Coreia em 1953, houve um cessar-fogo e a criação de uma zona desmilitarizada no Paralelo 38º N, ou seja, teoricamente o embate teve seu final, mas a possibilidade de uma luta armada sobrevive ainda nos tempos atuais.

Em troca, o governo norte-americano enviará cerca de 240 mil toneladas métricas de alimentos, fato que evidencia a carência vivida pela Coreia do Norte em virtude de seu isolacionismo no sistema internacional. É isso, também, que torna o país cada vez mais imprevisível. São novos atores, novos temas e novos tempos. Talvez Jong-Un inaugure uma nova era para os norte-coreanos, todavia, o mais certo é a incerteza que perdura há quase sessenta anos. Todo desenvolvimento nuclear realizado até então permanecerá e o governo norte-coreano não abrirá mão dele.


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É ritmo de festaaa…

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Post rápido de feriadão. Nessa segunda-feira de carnaval, parece que apenas no Brasil se tem o que comemorar. A economia vai relativamente bem e o governo é reconhecido internacionalmente pela “limpeza” que vem promovendo nos ministérios (e pelo modo como está cada vez mais criando uma identidade própria, saindo da sombra dos governos Lula) e já há quem defenda a volta do Brasil pra ajudar a resolver o problema nuclear do Irã.


Já no mundo desenvolvido a coisa não anda tão bem. A coisa ficou feia no final do ano passado para boa parte dos países desenvolvidos, que tiveram retração no seu crescimento per capita. Vejam que não é uma situação tão ruim – há indícios de estabilização, e um crescimento pequeno ainda é um crescimento (aliás, isso é meio que uma norma pra países desenvolvidos, que já não têm muito onde crescer). Não chega a ser uma recessão (em que a economia encolhe, como deve acontecer na Itália, pra não falar da Grécia), e cada vez mais parece distante um quadro de depressão (quando a recessão sai do controle e mantém uma crise generalizada por muito tempo, estagnando a economia do mundo) que muitos analistas mais pessimistas previam.


Ainda assim, expectativas positivas não são garantias, e com os problemas específicos de cada país/região (como a crise deflacionária do Japão, o ciclo eleitoral dos EUA e o resgate à Grécia na UE), o sinal amarelo está aceso por aquelas bandas. Mas vamos deixar pra avaliar isso quando o carnaval desocupar as manchetes, certo?


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