Gritos abafados?

Por

Estamos acostumados aos protestos no noticiário internacional, especialmente no caso das revoltas do Oriente Médio. A turbulência na Síria continua, com um novo capítulo agora com a presença de um enviado da ONU/Liga Árabe para negociações com Assad. No Egito, a nova Constituição parece ter sido aprovada mas ainda vai render muito descontentamento e protestos por causa de irregularidades no referendo e o teor controverso da lei. Agora, o que espanta mesmo é o que está rolando na Índia, com uma revolta generalizada por causa de um estupro coletivo

Revolta na Índia parece coisa do passado. O país é atípico, se livrou da dominação da Inglaterra com a “desobediência civil”, e por causa do sistema de castas e da religião, não existem protestos por causa da miséria ou coisa do tipo (como foi, por exemplo, nos países da “primavera árabe”). Por isso soa muito estranho esse caso. Após uma jovem ter sido estuprada em um ônibus e espancada até quase morrer, estouram manifestações violentas e multidões tomam as ruas de Nova Déli, cobrando proteção das autoridades. Claro que a polícia revida do jeito que todos nós conhecemos, ainda mais com a visita do presidente da Rússia marcada para essa semana (em que vão fechar acordos milionários para a compra de helicópteros e caças). 

O fato é que a Índia está somando o pior de dois mundos: a população feminina está basicamente encolhendo como na China (pela preferência tradicional por filhos homens, infanticídio de meninas e abortos clandestinos) e o número de estupros está explodindo como na África do Sul (aumento de 875% nos últimos 40 anos!). Isso num país com população enorme e carência de serviços fundamentais para a maioria.  

Existe uma relação entre pobreza e criminalidade, mas no caso do estupro sempre pesa o fator cultural. Na África chega a ser uma arma de guerra, e no caso da Índia parece ser um elemento de reafirmação de identidade masculina (e falta de caráter, diga-se de passagem) ou qualquer bobagem do gênero. Enquanto isso, quem sofre são as indianas, mais uma vez em situação de risco. Por isso chega a ser uma surpresa positiva o fato desses protestos por justiça, em um país que passa a impressão de “acomodação” (com todo respeito à cultura e tradição local) com relação a questões sociais. Não vamos pensar em termos de “revolução”, mas parece que pode estar havendo uma mudança importante para o povo indiano.


Categorias: Ásia e Oceania, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Polêmica, Política e Política Externa


Crescei e multiplicai-vos

Por

Em épocas de massacres em escolas e guerras civis intermináveis, vamos falar de vida. Bom, pelo menos não de vida em si, mas de populações, já que pra que haja um país deve haver pessoas nele. Na semana passada, o presidente da Rússia, Vladmir Putin, fez o seu primeiro discurso à nação desde a reeleição, e além das cutucadas de sempre na política exterior dos EUA, abordou alguns problemas mais corriqueiros de lá. O principal deles, a retração da população, que caiu quase 10 milhões de pessoas desde o fim da URSS. Putin pediu para que a população não perca a unidade, e advertiu que sem força de trabalho o país pode ir à ruína. É um caso bem complicado, já que a imigração para lá é quase nula, e o país não está em condições das melhores quando falamos em economia. A solução é ter muitos russinhos, que possam levar o país nas costas mais pra frente.

A situação é bem parecida (se não pior) no Japão. Semana passada, por exemplo, o general Colin Powell deu uma entrevista uma emissora japonesa, em que comentou sobre o fato de ser muito importante para as novas gerações de lá que deixem um pouco os quadrinhos e tecnologia de lado para que assumam a tarefa de produzir e levar o país adiante. A pergunta em específico era sobre os “herbívoros”, jovens que passam mais tempo em casa cuidando de sua vida do que procurando garotas, mas fica a mensagem – num país com taxa de natalidade negativa, população idosa crescente e imigração mínima, é imperativo que haja um esforço para um novo “baby boom”. 

São problemas que afetam menos os países com muita variedade de recursos e populações enormes, como Brasil, China e EUA, mas já se pode pensar num alerta. O Brasil, por exemplo, está com sua pirâmide etária se estabilizando e taxas de natalidade diminuindo. Antes exportávamos mão-de-obra, mas agora temos gente vindo de todos os lados, e nos dois extremos, de latino-americanos fazendo serviços de baixa renda (ou, pior ainda, em regime semi-escravo), a muitos europeus fugindo da crise e assumindo vagas de alto desempenho (como engenheiros) pela falta de gente qualificada aqui. 

Nosso país não enfrenta um envelhecimento avançado como o do Japão, nem uma retração catastrófica como a da Rússia, e não precisa que o governo incentive as pessoas a ter filhos, mas ao mesmo tempo parece estar chegado ao limite da sua produção de força de trabalho, e já atrai imigração há algum tempo, mas sem ter uma economia madura o suficiente pra demandar isso. É uma perspectiva preocupante. Não precisamos de uma anomalia populacional como China ou Índia, mas as lições de Rússia, Japão e até mesmo da Europa como um todo podem mostrar ao Brasil como o planejamento familiar é um fator importante para a manutenção de um país em condições economicamente viáveis.


Categorias: Ásia e Oceania, Brasil, Economia, Europa, Política e Política Externa


O jogo dos blocos

Por

Não, o título do post não se faz alusão aos coloridos blocos de Tetris que marcaram certamente a infância de muitos que estão lendo este post. Os blocos a que me refiro são na verdade os grupos multilaterais criados por Estados com objetivos comuns que, assim como em um jogo de Tetris, procuram se complementar entre si em busca de vantagens comuns, formando o complexo quebra-cabeça das relações internacionais.

Encontros multilaterais são sempre alvo de textos no blog (o mais recente refere-se à recém-realizada Cúpula Ibero-americana de Chefes de Estado e de Governo, leia aqui) e o fato é que a coordenação entre países com interesses comuns (políticos, econômicos, etc.) tende apenas a melhorar suas condições de competição em relação ao contexto internacional como um todo. E os países asiáticos entendem muito bem essa lógica.

Na reunião da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) que acontece essa semana, uma proposta parece ganhar forças: a criação do que seria o maior bloco econômico mundial (!), com a bagatela de 3,5 bilhões de consumidores. O possível novo bloco deverá se chamar Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP), incluindo os 10 países já membros da ASEAN, além do Japão, da Coréia do Sul, da Austrália, da Nova Zelândia, e dos gigantes Índia e China. Hoje esse grupo de países responde por um terço do comércio e da produção econômica do mundo inteiro.

Muitas discussões ainda deverão ser realizadas para que este bloco comercial se concretize efetivamente como tal, mas a perspectiva é de que isto ocorra já em 2015. Superar diferenças entre os países-membros em prol da criação de um bloco de tamanha importância parece ser uma estratégia comum neste grande jogo de interesses internacionais. O “encaixe perfeito entre as peças” é o objetivo sempre almejado, mas esta “perfeição” certamente não pode ser vista na realidade assim como no jogo. Com interesses e conjunturas específicas a cada momento histórico, as negociações multilaterais sempre reservam grandes incertezas e instigam o debate constante.

A propósito, estas negociações da RCEP acontecem ao mesmo tempo em que um diálogo para a criação do Acordo da Associação Transpacífico (TPP), outro projeto de área de livre comércio, mas desta vez entre os Estados Unidos e outros dez países (dentre os quais não se encontra o gigante chinês). Coincidência?

Cada qual em sua área de influência, o que se percebe é que os países avaliam constantemente a possibilidade de se aliar uns aos outros em busca de vantagens competitivas: esta é a tônica do jogo. 


Categorias: Ásia e Oceania, Organizações Internacionais, Política e Política Externa


Mudanças e continuidades

Por

Na mesma semana, as duas maiores economias do mundo estão politicamente agitadas com eleições presidenciais. Cada qual a seu modo, ambas determinam o curso político dos próximos anos e exercem influência sobre as relações internacionais em geral.

De um lado, vemos abertamente que o fenômeno Obama (o qual enfrentou mais dificuldades do que esperava) conseguiu se reeleger sob o logo “Forward” (algo como “Seguindo em frente”). O apelo aos cidadãos para irem às urnas, já que o voto é facultativo por lá, foi enorme e o resultado acirrado mostra que cada voto conta, especialmente em um sistema eleitoral tão complexo como o estadunidense (entenda melhor aqui).

Por outro lado, vemos (ou melhor, não vemos) o processo eleitoral chinês começando. A cada 10 anos (e não 4, como nos EUA), e sob sigilo total, o poder político é transferido na China durante um congresso fechado do Partido Comunista. Xi Jinping é o nome que deverá assumir o poder. Em um processo eleitoral sobre o qual pouco se sabe, Jinping (sobre o qual tampouco se sabe muito em termos de posicionamento político) parece ser o nome com mais provável aceitação.

Obama reassume o poder com a promessa de continuidade, mas também de renovação. Em meio a uma crise econômica da qual aos poucos a superpotência norte-americana está se recuperando, é latente a busca pela unidade política em um país com profundas diferenças ideológicas (vide toda a luta política entre republicanos e democratas durante as campanhas presidenciais) para a aprovação de futuras medidas de âmbito nacional.

Enquanto isso, em uma China que cresce economicamente a uma taxa de impressionantes 10% ao ano, o desafio maior é o combate às desigualdades sociais (150 milhões de chineses ainda vivem com menos de 1 dólar por dia). A situação de marginalização dos mais de 200 milhões de migrantes que saíram nos últimos anos do campo para trabalhar nas cidades também é clara, além das sempre mencionadas deficiências em termos de direitos humanos no país.

Acompanhar o processo eleitoral da China e dos Estados Unidos significa também acompanhar o impacto que a eleições de seus candidatos exerce sobre as relações internacionais. Em um mundo cada vez mais interligado, é maior do que nunca a responsabilidade dos líderes que assumem os desafios nacionais e internacionais dessas duas superpotências, tão diversos e ao mesmo tempo tão similares entre si. 


Categorias: Ásia e Oceania, Estados Unidos, Política e Política Externa


Nada de novo na Síria

Por

Nunca falta o que se falar da Síria. Muito provavelmente por que essa é uma guerra que não vai terminar tão cedo – há pouco tempo, por exemplo, nem conseguiram manter um frágil cessar-fogo por conta de um feriado islâmico. E boa parte disso por culpa da desorganização dos rebeldes contra o governo de Bashar al-Assad, que sem unidade fragmentam a luta e se enfraquecem. Nessa semana, aliás, a oposição está se reunindo em Doha pra ver se consegue dar um jeito nisso. Muito improvável, diga-se de passagem, e o futuro do conflito parece cada vez mais prolongado. 

Na verdade, o que podemos pensar para o futuro? Acabou de se confirmar o que todo mundo já sabia: a Rússia vende armas para a Síria por conta de acordos da época da URSS. A justificativa é a de ajudar a proteger a Síria de ameaças externas – leia-se, EUA e amigos – e não de tomar parte de um dos lados. E por que a Síria estaria se sentindo ameaçada de intervenção? Justamente por usar essas armas contra os opositores. O ciclo se fecha e vai depender bastante do resultado das eleições nos EUA. Tem ainda o problema do conflito se espalhar, uma possibilidade cada vez mais real. A situação mais crítica é na Turquia, que já anda às turras com a Síria por conta dos refugiados e escaramuças na fronteira, e ainda mais com os problemas de atentados internos por conta do PKK (um grupo terrorista curdo), falta pouco para a coisa estourar. O Líbano seria a segunda pior opção, mas as rachaduras internas e o apoio da França parecem que vão esfriar essa possibilidade. 

Mas talvez o mais preocupante seja a notícia de que a fronteira de Israel estaria sendo visitada por tanques sírios. Pra quem não se lembra, Israel ficou com um território ao sul da Síria após a Guerra dos Seis Dias de 1967, e nesse fim de semana tanques sírios apareceram nessa zona desmilitarizada. Nada grave, mas traz duas perspectivas preocupantes. A primeira, de que “dê a louca” em alguma das facções de oposição (nunca se sabe o que se passa na cabeça de grupos tão variados), ou que Assad jogue por terra as negociações por causa da guerra civil e até resolva disputar novamente a posse da região. Trazer Israel pro samba significa a segunda preocupação, pois o país ainda está em guerra com a Síria, tecnicamente, e a negociação da posse das colinas é uma das barganhas de Israel para afastar a Síria de Irã e grupos hostis como o Hezbollah. Esse pessoal todo envolvido no conflito transforma um barril de pólvora numa bomba de napalm. E a depender do resultado das eleições dos EUA (ou não), isso traz o Tio Sam pra parada. E junto  acabarão vindo China e Rússia do outro lado. Imaginem só. 

O fato é que a oposição só vai negociar quando Assad sair, e isso não vai ocorrer tão cedo. Os lados vão continuar conversando por meio das balas, e o killscore desse jogo macabro batendo novos recordes, na casa de 36 mil mortos até o momento. Isso só na Síria – imaginem se a coisa se espalhar.


Categorias: Ásia e Oceania, Conflitos, Defesa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Segurança


As histórias da história

Por

Faz algum tempo assisti um filme muito bom, chamado Ip Man (que no Brasil saiu como “O grande mestre”). Mais do que um excelente filme de kung-fu (que conta a história do mestre de Bruce Lee), é uma visão crua daquele período conturbado do final dos anos 30, quando o Japão invadiu parte da China até o final da Segunda Guerra. Nesse filme chinês, a visão dos japoneses não podia ser pior: são cruéis e trazem miséria e sofrimento. Quando pensamos do outro lado, em filmes japoneses os chineses são tacanhos ou traiçoeiros. A questão é que nenhum dos lados admite sua parcela de culpa em problemas do passado, e ao mesmo tempo não deixam de mostrar o “outro lado” com a pior imagem possível. Falamos disso inclusive há algumas semanas aqui no blog quando comentávamos sobre a questão das ilhas em disputa no mar da China. 

E o que isso tem a ver com História? Bom, é a questão da parcialidade. Não é simplesmente tratar de revisionismo, como reconhecer os erros do passado ou pensar de um modo diferente, mas como o entendimento dos fatos é muito influenciado pela percepção de cada pessoa. E não são apenas eventos, mas também pessoas que entram nessa brincadeira. Vejam só o caso da morte do Hobsbawm, coisa recente. A polarização das reações foi impressionante, só havia praticamente dois tipos de comentários: os que endeusavam o autor como um dos maiores (se não o maior) pensadores do século XX, e os que festejavam a partida de mais um marxista maquiador de totalitarismos. Ao pensarmos na bibliografia de alguém, temos que pesar fatores como o contato, e o modo como foi reproduzida sua história particular. Ignorar as contribuições de um grande autor é tão lamentável quanto fazer vista grossa aos seus deslizes históricos – sendo que o “julgamento” sobre a vida de Hobsbawm acabou se confundindo com o de sua obra. Não estamos falando de buscar um meio-termo ou ficar em cima do muro, mas o fato é que objetividade é uma coisa complicada, e o ser humano tende a escolher “um lado”. É isso, inclusive, que os pensadores da Teoria Crítica defendem, que seria impossível “produzir” conhecimento sem subjetividade, mas isso é discussão pra outra hora. 

E claro que isso afeta as relações internacionais. Na verdade, é uma via de mão dupla. Vamos voltar pro caso de China e Japão: essas rusgas históricas estão aí há anos, e não vão ter solução tão cedo (isso SE forem ter). Um monte de fatores determina a visão de cada lado, e é preciso uma mudança muito impactante para que algum deles reveja sua posição. A certeza é que a história influencia as ações dos agentes, e suas ações influenciam o “fazer” da história. Imaginem isso em escala mundial, com todos os eventos que afetam esse nosso mundo interligado. Qual vai ser a versão dos fatos atuais que ficará para o futuro? Nesse cabo-de-guerra, quem vai estar “certo”?


Categorias: Ásia e Oceania, Cultura, Polêmica


Quem sair fecha a porta

Por

Quando falamos de política externa dos EUA na última década, todos estão cansados de dizer que eles tinham duas pedras de tropeço, as guerras do Iraque e do Afeganistão. Enquanto Obama já conseguiu se livrar da primeira (mal e mal e deixando um abacaxi que mais parece um porco-espinho pra trás), ainda restam promessas e uma trilha de cadáveres na segunda. Mas não devemos esquecer que essa é uma empreitada em que os EUA não estão sozinhos – o Reino Unido e diversos países europeus estão envolvidos nesse consórcio da OTAN,e essa semana está havendo uma importante novidade pro desfecho desse conflito. 

Ou, pelo menos, pra fim da participação britânica nessa guerra. Segundo o secretário de Defesa, o país deve retirar boa parte dos soldados até 2013 e possivelmente a retirada total até 2014. Mais do que impopularidade, parece ser uma questão de custos: assim como na maioria dos países que não são os EUA, quando o dinheiro falta a primeira coisa que o governo faz é apertar o cinto e cortar gastos de defesa. E o Reino Unido está num ambiente nada favorável a manter aventuras na Ásia Central custeadas pelo contribuinte. 

Mas pesa sim o fator “popular”. Na última semana fuzileiros britânicos foram acusados de matar um inocente em combate. Não chegou a ser como o caso do americano que massacrou dezenas de civis, mas mostra como as tropas já chegaram àquele ponto em que existe uma pressão psicológica sobre os indivíduos, e uma notícia dessas não pega nada bem na maliciosa imprensa inglesa. Não está ajudando nada um escândalo envolvendo tráfico de influência por parte de ex-oficiais, que estariam favorecendo empresas em concessões para as forças armadas violando a legislação inglesa. Isso estourou deixando o governo com mais uma dor de cabeça financeira e midiática. 

Mais do que os gastos financeiros e em vidas humanas, fica a sensação de perplexidade com relação ao desfecho desse conflito. Se os EUA e amigos deixarem o Afeganistão, do modo como está, não apenas não vão ter removido completamente o Taleban (ideia original disso tudo) como deixarão um ambiente regional altamente instável. A coisa transbordou e agora se fortaleceu o Taleban no vizinho Paquistão, e a situação, se não parece pior do que era em 2001, não parece melhor. Pra se ter uma ideia, uma menina de 14 anos, defensora dos direitos das mulheres, virou alvo oficial do Taleban (com nota e tudo mais) e sofreu um atentado. Baleada, em estado grave, está finalmente sendo transferida, ironicamente, para a Grã-Bretanha. A saída dos principais atores ocidentais desse conflito não vai ser o fim dos combates ou da instabilidade. O veredito final sobre essa guerra vai ser mais fácil de emitir no futuro, mas é aparente o fracasso.


Categorias: Ásia e Oceania, Conflitos, Defesa, Europa, Paz, Segurança


Ameaça silenciosa (ou silenciada?)

Por

A China: esse gigante econômico e político que vem desafiando, cada vez mais intensamente, a supremacia ocidental nas relações internacionais. Um país ainda envolto em muita obscuridade, onde muito do que acontece internamente não recebe atenção internacional, e vice-versa. A questão do tráfico de crianças chinesas pode certamente entrar nesta análise.

Questão delicada, a qual constitui hoje uma das maiores ameaças silenciosas (ou silenciadas?) aos cidadãos comuns deste gigante país oriental. As cifras são incertas em relação à quantidade de crianças vítimas deste tráfico humano: diz-se que o número pode oscilar entre 10 mil e várias dezenas de milhares (!) por ano. E, ao contrário do que seria esperado, o problema só parece aumentar…

Segundo os dados oficiais do governo (confiáveis?), em 2011 foram encontrados mais de 8 mil crianças traficadas. Recentemente, o governo também anunciou a prisão de mais de 800 pessoas acusadas de tráfico de crianças. Ainda, uma proposta governamental para restringir as regras no processo de adoção de crianças (mais aqui) foi apresentada com o mesmo intuito de combater essa onda de tráfico humano.

Entretanto, segundo informe sobre tráfico humano deste ano publicado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, a China não cumpre totalmente os requisitos mínimos para a eliminação do tráfico humano, tampouco dando provas de que esforços neste sentido estão sendo empreendidos.

Fato é que a gravidade do problema ainda é clara. O governo apenas divulga dados oficiais com números de crianças resgatadas (e não sequestradas), e as organizações internacionais em geral tampouco têm se mobilizado para exigir detalhes a respeito de um tema assim tão delicado envolvendo a poderosa China. Daí se percebe que esta ameaça considerada como “silenciosa”, na verdade também tem sido “silenciada” por todos os que teriam condições de oferecer maior atenção ao tema.

As principais razões para o tráfico de crianças na China podem ser elencadas como as seguintes: para se vender a famílias que não têm filhos; para casamentos arranjados; para prostituição; e para o trabalho forçado. A polêmica política de um filho por casal existente nesse populoso país também pode ser considerada um fator impulsionador para o chamado “negócio com bebês”, os quais são “comercializados” mesmo internacionalmente.

Segundo a imprensa chinesa, o preço (!!!) estimado de uma menina varia de 3.700 a 6.200 euros, enquanto um menino custa em torno de 8.700 a 10.000 euros. Estimar o preço de uma vida humana parece parte de um próspero negócio chinês, em que a crueldade de se tirar uma inocente criança de sua rotina para inseri-la neste tráfico, bem como o eterno sofrimento dos pais, não são elementos considerados.

A esperança de encontrar estas crianças perdidas certamente não deixa de existir durante toda a vida dos pais. Contudo, a realidade mostra que, cada vez mais, este gravíssimo problema vem sendo silenciado por todas as instâncias que efetivamente poderiam contribuir para esse processo… 


Categorias: Ásia e Oceania, Polêmica


Águas turbulentas

Por

Com os olhos voltados (e não sem razão) para os protestos da comunidade islâmica ao redor do mundo contra o desastrado filme caseiro feito nos EUA que ofende a meio mundo (ou algo como um quarto dele), fica em segundo plano uma outra onda de protestos, um pouco menos violenta, mas que ocorre numa escala enorme e pode sim desembocar em algo mais sério. Quem presta atenção ao noticiário vai perceber que está havendo uma grande agitação na China, e parece que as relações entre o Império do Meio e o Japão estão azedando de vez. 

Quando falamos no extremo Oriente, a disputa política e histórica não se restringe a China e Japão. As Coréias, Indonésia, e tantos outros países se envolvem em uma disputa histórica sobre territórios e reparações, com o passado de guerras e massacres que ocorreram por lá. Revanchismo é a palavra de ordem, e mesmo um punhado de pedras no meio do oceano como as ilhas Senkaku/Diaoyu gera uma discussão danada. O causo é que o Japão está com essas ilhotas, perto de Okinawa (ao sul da China, perto de Taiwan), e a China alega que são suas. O Japão “alugava” três dessas ilhas de uma família, e agora comprou oficialmente por alguns bilhões de ienes, o que gerou revoltas e protestos na China contra esse “ultraje” à soberania chinesa. Pra ver como a coisa tá feia, até mesmo Taiwan reclama soberania sobre o arquipélago. 

Vez ou outra os países mandam navios pra região, e o problema é quando eles se encontram, justamente o que acontece agora, com China e Japão querendo mostrar quem tem soberania sobre as ilhas. Isso quando não são ativistas malucos (de ambos os lados) invadindo as ilhas e protestando com suas bandeiras. O resultado disso? Multidões nas ruas (o que é MUITO quando pensamos em China), depredação, ataques a carros de montadoras japonesas (até com relatos de motoristas agredidos gravemente) e mesmo o fechamento de fábricas no continente. A tensão é muito grande, e mesmo com a possibilidade de confronto sendo remota, não deixa de ser descartada. Se tem algo que pode servir de estopim para conflito, é justamente essa questão da soberania. 

Tem uma racionalidade nisso tudo? Os governos se estapeiam por conta disso há anos, mas por que a população urbana chinesa está tão interessada na posse de umas ilhotas, sem qualquer valor estratégico (fora indícios vagos de reservas de petróleo e gás nas redondezas) e desertas desde a década de 1940? Como falei lá em cima, é um misto de revanchismo histórico a uma mentalidade de “não esquecer”. Livros escolares (tanto no Japão quanto na China) contam a história de massacres e ocupações ao seu modo, vilanizando ou suavizando o papel de cada país e trazendo pras novas gerações os traumas do passado. Não é uma questão de quem está certo ou errado, mas de como é percebido o “outro” – e a vontade (ou não) de deixar o passado, recente ou distante, para trás. A China e o Japão ensaiam aproximações há alguns anos, inclusive no campo militar. Há visitas diplomáticas e de alto escalão, anúncio de Livro Branco de Defesa (um documento que, explicando de modo bem simplista, mostra as intenções de cada país no setor de Defesa e serve geralmente para “acalmar” os vizinhos), entre outras coisas. Mas, basta um evento aparentemente despropositado (e pequeno) como esse para que as coisas voltem à estaca zero, e até mesmo retrocedam. 

Não é impossível superar rivalidades históricas – pensem em Alemanha e França (que tiveram um passado tão ruim quanto, ou pior, que China e Japão). Mas parece que esses casos, com desejo de integração e benefícios comuns, são exceção no mundo moderno. As rixas são potencializadas pela capacidade de mobilização que a internet e outros meios propiciam, e no fim das contas, ninguém vai dar o braço a torcer. Fica a pergunta: a crise vai se escalando até o ponto sem retorno ou a diplomacia consegue esfriar as coisas até que a discussão volte à pauta sazonal? De todo modo, continua a ser notícia de rodapé com as embaixadas dos EUA nas manchetes.


Categorias: Ásia e Oceania, Conflitos, Economia, Política e Política Externa


C’mon and join us!

Por

A Rússia finalmente ingressou de modo formal na Organização Mundial do Comércio (OMC). Por Rússia lê-se “mais produtos agrícolas e recursos naturais” que entrarão de maneira mais facilitada nos mercados internacionais. O fim das negociações que começaram em 1995, ano em que foi realizada em Genebra a primeira reunião do Grupo de Trabalho para discutir este tema, terminou provisoriamente no último mês de Julho, quando o presidente (sempre ele!) Vladimir Putin assinou o documento final de adesão aprovado por todos os membros da organização. 

Mas foi ontem mesmo, dia 22 de Agosto, que a Rússia tornou-se o 156º membro da OMC! Normalmente, quando falamos de organizações e instituições internacionais, temos certo ceticismo aparente. Se perguntarem sobre o “poder” das Nações Unidas (ONU) perante os Estados Unidos, por exemplo, vamos balançar a cabeça de modo duvidoso e talvez nunca tenhamos uma resposta coesa para esta questão. E assim vai também em relação à União Europeia. Até que ponto podemos afirmar que os europeus do bloco abrem mão dos interesses dos seus países em prol de todos? 

Talvez a única instituição que promove uma resposta mais simples seja a própria OMC. Digo isso porque ela é um exemplo de organização que deu certo e vem aumentando seu rol de ações mundialmente. Vale lembrar que ela substituiu o “General Agreement on Tariffs and Trade” (GATT) em 1995 após a Rodada Uruguai e desde então aumentou consideravelmente a pluralidade de temas debatidos nas reuniões. Como todo mundo sabe, a Rodada Doha, iniciada em 2001, ficou estagnada por um longo período, todavia isto não retira o mérito da OMC. Veja abaixo, com dados da própria OMC de 2005, as principais rodadas da organização: 

Pois bem, e o que muda com a adesão da Rússia? Conforme disse nas primeiras linhas do texto, o país apresenta sua balança comercial baseada nas exportações de produtos agrícolas e minérios. Tem a maior reserva de gás natural do mundo, a segunda de carvão mineral e a oitava de petróleo. Em virtude do tamanho do território, exporta grandes quantidades de madeira e energia elétrica e possui intensa atividade na agricultura e pecuária. É visível como isso afetará o comércio mundial e nem precisamos de maiores explicações. 

Entretanto, mais do que uma mudança na OMC, parece haver um forte câmbio econômico interno na Rússia. Ela teve que abrir mão de uma série de acordos bilaterais realizados na última década e também terá que rever suas tarifas aduaneiras de importação. A partir de ontem o país está obrigado a seguir as provisões da OMC e, em virtude disso, terá que aplicar uma tarifa de no máximo 7,8% para os produtos importados

A meu ver, entusiasmando a OMC, creio que a entrada da Rússia trará benefícios a todos os países membros. A União Europeia já está dando pulos de comemoração, porque os russos são um dos seus principais parceiros comerciais. Reflexo dos novos tempos de certo “multilateralismo” nas relações internacionais. Pensar nesta conjuntura há cerca de 20 anos, logo após a queda da União Soviética (URSS), era algo praticamente utópico. 

PS: Amanhã, 24 de Agosto, Vanuatu se tornará o próximo membro da OMC! É um estado insular da Melanésia, na Oceania, e depende bastante da Austrália e da Nova Zelândia. Seu território tem cerca de apenas 12 mil km². A Rússia, por curiosidade, é 1.400 vezes maior.


Categorias: Ásia e Oceania, Economia, Organizações Internacionais