Onde está Snowden?

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Bom, na verdade, já se sabe. Enquanto no Brasil estamos ocupados com ludopédio e protestos, o mundo assiste a mais um roteiro de filme de espionagem da vida real. Nesse lapso de pouco mais de duas semanas, enquanto as ruas do Brasil fervilhavam, o ex-agente da CIA Edward Snowden pôs fogo na política norte-americana quando vazou dados para jornais sobre o sistema de monitoramento de dados de comunicação, incluindo conversas e dados pessoais, mantido pelo governo dos EUA. 

Pois é, a fonte anônima dos jornais que revelaram o escândalo não ficou nessa condição por muito tempo. Assim como no caso de dados vazados do Wikileaks, logo se descobriu quem fora o responsável e o jovem agente com cara de nerd passou a frequentar as manchetes de todo o mundo. Aliás, falando em Wikileaks e a volta dos que não foram, temos muitas similaridades, e esse caso acabou por trazer a organização novamente para o noticiário. 

Os membros do Wikileaks apoiam declaradamente Snowden. O ocorrido mostra muita semelhança com o vazamento de documentos secretos há alguns anos, feito também por um jovem supostamente bem-intencionado (o soldado Bradley Manning – que por sinal está sendo julgado, acusado de traição e pode pagar caro pela aventura). E assim como o criador do Wikileaks, Julian Assange, que viveu uma peripécia se escondendo na embaixada do Equador (e ficando lá até hoje) enquanto espera asilo político, Snowden viajou o mundo – literalmente. Fugindo do Havaí, foi para a China, supondo que teria alguma proteção. Se deu mal, por que Pequim não quer azedar relações com Washington e logo teve de se escafeder de Hong Kong para ficar num aeroporto na Rússia, esperando seu próximo destino. 

Apesar de mostrar não ter intenções de entregar Snowden, nada garante que os russos vão proteger o ex-agente. O Equador já não parece muito inclinado a se meter em mais confusão com o Tio Sam como antes. Não surpreendentemente, a Venezuela aparece como uma opção viável, mas de todo modo Snowden tem a maior potência militar do mundo em seu encalço, e a julgar por seu possível “amadorismo”, não deve ir longe a não ser que consiga ter a sorte de Assange e se encastelar numa embaixada. 

Se é um espião ou não (como muita gente está acusando), não dá pra saber. Snowden dá a impressão de ser uma pessoa bem-intencionada que acabou trocando os pés pelas mãos e tendo um impacto inimaginável. A crítica pesada contra esse programa veio em má hora para Obama, que está às turras com o Congresso e de cabeça cheia com a economia. Pela primeira vez em muitos anos a política externa está tendo um peso relativamente menor na agenda doméstica da política norte-americana, e o foco nesse tipo de assunto desgasta o presidente da mudança. 

Se Snowden vai ser pego ou não, é um mistério (e pode ser que não seja feito muito esforço para isso). Mas, espião ou não, desastrado ou bom samaritano, o fato é que ele causou um tumulto além das expectativas. Mais do que alertar seus concidadãos sobre uma situação de violação a direitos individuais, o ex-agente conseguiu acender um debate inflamado, se tornou o homem mais procurado do planeta, e pode ter um grande peso não apenas na discussão do momento, mas nos rumos das próximas eleições e até mesmo nas relações dos EUA com países que venham a aceitar o asilo. Nada mal.


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Sobre patos e tanques

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Patos amarelos no lugar de tanques. Essa foi uma das formas que internautas encontraram para, driblando a censura, relembrar uma data que marcou tristemente a história chinesa em termos de direitos humanos. Ontem completaram-se 24 anos desde o massacre ocorrido na Praça da Paz Celestial (Tiananmen) e esta foi uma das maneiras de disseminar o assunto nas redes sociais na China.

O número de vítimas do massacre, na verdade, nunca foi confirmado (sendo estimado em cerca de 4 mil mortos e 60 mil feridos por certas fontes) e qualquer recordação pública deste acontecimento é ainda hoje refreada pelo governo, assunto tabu mesmo mais de duas décadas depois. Tanques de guerra (!) – hoje ironizados pelos patos amarelos, inspirados na obra de um artista holandês que fez sucesso em Hong Kong recentemente – foram enviados pelo Partido Comunista para reprimir protestos inéditos por liberdade e democracia.

Protestos estes pacíficos que, iniciados por universitários, reivindicavam mudanças, maior transparência e liberdade a nível nacional. Sua repressão e as informações sempre nebulosas por parte do governo neste sentido demonstram que o gigante chinês ainda encontra no respeito aos direitos humanos sua maior fraqueza.

No último domingo, faleceu o prefeito de Pequim à época, o qual foi um dos principais responsáveis pela brutalidade na repressão aos protestos, condenado à prisão por crimes de corrupção. Mudam-se os indivíduos, mas não a influência do Partido Comunista no país. A influência que ontem foi responsável por tantas mortes após reivindicações pacíficas hoje tenta de todas as formas invisibilizar as memórias deste acontecimento trágico, evitando o reconhecimento de sua importância.

A verdade é que os esforços governamentais parecem levar a um efeito contrário, indesejado pelo governo, de motivar os estudantes de hoje a buscarem novas formas de manifestação, tornando o assunto, de alguma forma, cada vez mais visível para as sociedades chinesa e internacional. Grandes patos amarelos que representam a ironia de um regime que ainda comanda uma gigantesca potência sem o devido (e necessário) respeito aos direitos humanos de sua população. 


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Quem tem medo?

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Quem tem medo da Coreia do Norte? Há alguns dias tivemos uma postagem inspirada que comenta bem sobre o aspecto histórico e do papel desse país pitoresco no mundo. Pois bem, o que vemos hoje é, possivelmente, a maior possibilidade de o conflito na península ser retomado desde o armistício dos anos 50, então vamos falar de aspectos mais pontuais – e de por que mais uma vez as ameaças da Coreia do Norte são fogo de palha. 

O estopim disso tudo foram o teste nuclear e o lançamento de foguete no começo do ano. Parte daquela estratégia usual deles de mostrar presença pra seu vizinho do sul. As tecnologias são complementares quando pensamos num ICBM, o mundo inteiro ficou horrorizado com a possibilidade, os EUA irritados com mais uma violação às proibições de testes e com isso até a China apoiou mais uma rodada de sanções. O drama foi que dessa vez esse aperto em Pyongyang coincidiu com as tradicionais manobras de treinamento militar dos EUA & amigos, fazendo com que viessem mostrar os dentes mais perto ainda. Ameaça de fulminar os EUA, arrasar a Coreia do Sul e o Japão, o mesmo papo de sempre. Possível? Sim. Provável? Não.

A Coreia do Norte tem um dos maiores exércitos regulares do mundo. Se entrar em guerra com qualquer país pode causar estrago, especialmente na Coreia do Sul (quem mais tem a perder, de modo realista, num caso de conflito). O problema e que não vão se sustentar por muito tempo caso a coisa esquente pra valer – o equipamento do país é muito datado (sério, estão usando equipamento da época… da Guerra da Coreia!), e suprimentos são algo complicado por lá sem apoio chinês. É difícil estimar a reação dos combatentes, mas fora uma ala ultranacionalista inflamada pela cúpula do Partido, que deve querer lutar até o amargo fim, a maioria dos soldados comuns não é dada a esse tipo de heroísmo. Se os EUA realmente tomarem parte na briga, a derrota VAI ser uma questão tempo.

“Mas Álvaro, o Iraque era muito mais fraco, e olha o que aconteceu!”. Bom, no Iraque estávamos falando de uma guerra bastante irregular, com envolvimento de civis e regras de engajamento nebulosas. O governo norte-coreano é muito centralizado, e em caso de derrota é muito possível que o resto da estrutura desmorone sem a pressão do Estado.

“Mas e a bomba atômica?!”. É simples – não vai rolar. Só foram usadas bombas dessas pra valer no fim da Segunda Guerra, quando ninguém ia peitar os EUA por isso. Questões morais à parte, hoje a situação é diferente – quem usar esse tipo de arma vai atrair quase que toda a opinião pública mundial contra si. Estados não são como grupos terroristas, que não têm nada a perder. Se atacar a Coreia, até a China vai intervir na situação. E se ousar riscar a pintura de um navio norte-americano, ai de Pyongyang. A reação a um evento dessa magnitude não pode resultar em outra coisa que não seja a destruição (moral, política e prática) do Estado norte-coreano. Além disso, e o mais importante de tudo, apesar dos testes, a capacidade de alcance nuclear real da Coreia do Norte ainda é desconhecida, e muito provavelmente exagerada nas declarações. Explodir uma bomba embaixo da terra é uma coisa, colocar num míssil e atingir o outro lado do oceano, outra bem diferente. 

E não precisamos ir tão longe! Existe uma análise interessante que mostra que as ações da Coreia do Norte visam a causar o terror na do Sul. Acho que o foco aqui deve ser o oposto. Kim Jong Un precisa marcar terreno no meio dos burocratas nacionalistas, e que maneira melhor de fazer isso que ameaçar a maior potência militar do mundo? Kimzinho é um cidadão do mundo (na medida do possível). Ele certamente conhece melhor a situação de fora que seu pai, e a posição da Coreia nele. O país só tem a perder em caso de conflito (que diabos, até mesmo a Coreia do Sul é um parceiro vital pra economia do país!), e apenas a ganhar caso mantenha essa situação de dissuasão mútua na região, tentando manter esse blefe atômico com as potências. Jogando as cartas na mesa, perde tudo. 

Ok. Racionalmente, não deveria acontecer um ataque. Porém… e SE acontecer o pior? Não dá pra saber o que se passa na cabeça dos líderes e generais norte-coreanos. Lutar até a morte? Sim, mas podemos até começar a especular num terreno pantanoso de mirabolantes conspirações, em que Kim, um homem que conhece os “prazeres” do mundo exterior, incita o país à guerra para que os radicais nacionalistas sejam consumidos pelo fogo, o Estado desmorone e finalmente possa entrar no século XXI com a ocupação/intervenção/ajuda de outros países, fazendo à força uma reforma que seria impossível de dentro… Um vilão para o mundo, mas herói improvável em longo prazo. Já pensou? Não duvide de nada quando falamos desse país.


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BRICS: além da ficção?

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Nesta semana, em Durban, na África do Sul, foi realizada a V Cúpula dos BRICS. Intitulada “BRICS e África: Parceria para o Desenvolvimento, Integração e Industrialização”, debateu-se desde a promoção do desenvolvimento inclusivo e sustentável até contribuições para a paz e a segurança internacionais. Merece destaque, no contexto de crise europeia e de estagnação da economia mundial, a iniciativa de se criar um banco dos BRICS para financiar obras de infraestrutura nesses países. 

Isso significa que o acrônimo, já que não é propriamente um bloco ou organização, está avançando institucionalmente? Não. Por enquanto, os números impressionam. O PIB combinado dos BRICS atingiu 15 trilhões de dólares em 2012, o que representa a 21% do PIB mundial (em valores nominais), e o comércio entre seus países alcançou 282 bilhões de dólares no ano passado (em 2002, esse montante era de aproximadamente 27 bilhões de dólares). 

Qualquer análise de relações internacionais, hoje, leva em consideração a projeção mundial dos BRICS. Estudos prospectivos, como os do National Intelligence Council, tratam da emersão de um arranjo multipolar global, com os Estados Unidos menos dominantes e a ascensão, sobretudo, de China, Rússia e Índia, em que as instituições e estruturas tenderão a se adaptar à nova configuração geopolítica. Nesse sentido, melhorar a coordenação entre os países dos BRICS é questão chave para o futuro. 

Mas é também um ponto problemático. E, aqui, peço licença ao leitor para me intrometer no texto. Com base na experiência pessoal, pois fiz parte da delegação do Brasil em uma das reuniões preparatórias para a atual cúpula – III Reunião de Altos Representantes Responsáveis pela Segurança Nacional dos BRICS, 10 e 11 de janeiro de 2013, Nova Délhi –, penso que os BRICS ainda são uma ficção, uma narrativa imaginária sobre uma realidade (ainda) inexistente. Parafraseando o historiador britânico E. H. Carr, os interesses espreitam os bastidores da política internacional: o que realmente se quer nunca é dito explicitamente. 

A reforma das instituições de governança global (ONU, FMI, Banco Mundial, etc.) é traço marcante dos discursos dos BRICS. Na reunião de que participei, ouvi, com entusiasmo e em tom uníssono, de todos os representantes a necessidade e urgência de se realizar essa reforma. À noite, durante o jantar, disse a diplomatas sul-africanos e indianos que, enquanto Rússia e China não declararem apoio à inclusão de Brasil, Índia e África do Sul no Conselho de Segurança da ONU, persistirá a abstração discursiva. 

E por que não o fazem? Por razões históricas e circunstanciais, sob a ótica inextricável da luta pelo poder. China e Rússia disputam a mesma zona de influência, seja na eurásia, seja na África. China e Índia permanecem sobre a sombra do conflito fronteiriço pelo Tibete do Sul. Dois exemplos para ilustrar essa situação: os altos postos diplomáticos, na Índia, são ocupados por especialistas em China e, em diversos fóruns ou reuniões mundiais, é preciso negociar separadamente com chineses e indianos, como no caso da Conferência da União Internacional das Telecomunicações que ocorreu no ano passado, em Dubai, nos Emirados Árabes. Além disso, à medida que a população dos dois países superar a pobreza, haverá maior pressão sobre recursos hídricos, energéticos e alimentícios, tanto interna quanto externamente, e a rivalidade sino-indiana poderá agravar-se. 

Índia e Rússia também se envolvem em um jogo delicado, em que ambos tentam conter e contrabalancear o poder chinês e, ao mesmo tempo, o do outro. Na área de defesa, o governo indiano evita a dependência de produtos militares russos promovendo, adicionalmente, acordos com Estados Unidos e Europa. Brasil e China são fortes competidores e travam disputas nas áreas financeira e comercial, particularmente no chamado entorno estratégico brasileiro, envolvendo a América do Sul e a África. Há, ainda, iniciativas unilaterais, como a proposta de resolução russa encaminhada à Assembleia Geral da ONU para regulamentar o espaço cibernético, que não contam, necessariamente, com o apoio integral dos BRICS – o Brasil é contrário. 

Os BRICS devem seguir, em curto e médio prazos, como um acrônimo e ponto. Ele representa um agregado de características similares e de diferenças silenciosas, ao qual se acrescentam os interesses velados. Os ganhos são muito mais comerciais do que políticos, e os problemas de institucionalização e de falta de coordenação de alto nível permanecem como um entrave para avançar em sua consolidação. Por isso, a ficção dos BRICS é, na verdade, sua realidade: muita imaginação, pouca ação.

[Postagem do colaborador Giovanni Okado]


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Alheia à ordem

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Era uma vez um mundo. Um mundo que havia sofrido tanto com horrores de guerras que decidiu mudar. Optou por tornar-se um lugar onde as fronteiras existiam apenas formalmente e os princípios do direito internacional, do desarmamento e da paz regeriam a todos. Um lugar sem problemas aparentes, mas que, caso houvesse alguma tensão internacional, logo viria a mão amiga de uma organização apátrida e apartidária, as Nações Unidas, para resolvê-la. Assim, todos viveriam felizes para sempre em uma comunidade internacional regida pela força do direito e dos valores da humanidade. 

Um cenário muito bonito, de fato. Mas logo veríamos que haveria de ser construído e motivado por alguém, alguma grande potência internacional, em um esforço conjugado do restrito condomínio dos poderosos. Que, do ideal, dos princípios morais e valores criados, também surgiriam mais conflitos, difíceis de se justificar plenamente dentro dessas normas. Como resultado surgiriam países isolados que não aceitariam as mudanças no cenário; sendo, portanto, produtos rejeitados desses mesmos princípios. E nosso mundo perfeito rui, trazendo-nos de volta à realidade do mundo em que vivemos. 

Dos muitos exemplos de que temos por aí desse tipo de produto, a Coreia do Norte é o mais latente. Aquele mais escancarado. Uma ditadura, que se diz comunista, isolada do mundo, questionando a ordem liberal criada pelos EUA (e consentida por todos os demais), e vivendo presa nos tempos de uma guerra que viu seus últimos tiros há praticamente 60 anos. Não soaria tão estranho e incompreensível os testes nucleares e de mísseis e nem mesmo a cultura bélica do país. Como disse em outro post, eles são a mais comum forma de afronta à moral e aos bons costumes internacionais. É difícil ser determinista a ponto de dizer que tudo o que acontece lá foi resultado da ação do Tio Sam e da Guerra Fria. Mas dá para falar que esses dois eventos tiveram uma influência na construção do que a Coreia do Norte é hoje.  

Anteriormente, sob a tutela da União Soviética, era muito mais simples para o país manter um programa nuclear (muito embora se tenha confirmação da cooperação nuclear entre a URSS e a Coreia do Norte durante a Guerra Fria). Foi somente a queda do muro de Berlim e a volta à pauta do debate sobre desarmamento e não-proliferação para além das grandes potências que mostrariam o quão isolada o país de fato estava. A Rússia e a China, antigos aliados do bloco comunista, ainda defenderam a “auto-determinação” da Coreia do Norte e aceitaram os questionamentos do país na ONU. Até um certo limite. 

O resultado de cada movimento fora do aceitável pela ordem seria as sanções lentamente aprovadas no Conselho de Segurança e aquelas particulares de cada potência. A população passaria a sofrer com a falta de alimentos e abastecimento, e o governo vociferaria contra as potências, intensificando seu espírito belicoso em um ciclo quase sem fim. Assim, as cartas do isolamento foram dadas. 

 

Vídeo que mostra como se reforça a visão de inimigo e da guerra no país…


E a Coreia do Norte tornou-se “o estranho”. Essa condição levou o país a um caminho muito particular.  Mesmo depois da Guerra Fria, continuou a se focar na construção de um inimigo externo. Levou isso às últimas consequências. Assustou o mundo quando denunciou ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear em 2003 e é bem sucedida em passar aos norte-coreanos a ideia de que a guerra está cada dia mais próxima. Assim, o belicismo tornou-se o recurso para unir a população e impedi-la de opor ao regime. Ele só diminui quando a coisa aperta economicamente.

Um recurso que o governo usa bastante. Praticamente a cada década os líderes fazem questão de confirmar a posição do país de excluído e a soar os sinos da guerra, contra a Coreia do Sul e os Estados Unidos. Foi assim em 1994, em 2003, em 2009. Não poderia ser diferente em 2012 e 2013. É um ciclo vicioso. Apesar de previsível e compreensível, as ações da Coreia do Norte não deixam de assustar as potências. Porque quando o assunto é armas nucleares, nunca se sabe se o tal ciclo pode se romper e passar para o conflito…


Todas essas condições históricas parecem ter dado pouca escolha política à Coreia do Norte. Ou ela abandona completamente o regime ou continua nesse ciclo vicioso, de belicismo e pressão econômica. Por essas e outras que assim vive, e sobrevive, a Coreia do Norte: alheia à ordem internacional.

[Para uma interessante análise sobre a ameaça do discurso norte-coreano, clique aqui. Para mais sobre a crise atual: 1, 2, 3, 4, 5]


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O fim do mundo

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Poucos acontecimentos chamaram tanto a atenção da mídia e do público globais quanto à sucessão papal. Para a surpresa de muitos, e após um rápido conclave, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi eleito o novo Sumo Pontífice. Logo em seu primeiro pronunciamento, o papa Francisco (nome adotado) disse, em tom de brincadeira, que seus irmãos cardeais foram buscá-lo quase ao “fim do mundo”. Por fim do mundo, leia-se qualquer domínio fora da Europa. Esse é o ineditismo mais marcante: o término de 1.300 anos de exclusividade do papado europeu. 

Por trás dos holofotes da escolha histórica do novo papa, está em curso um processo de reordenamento global. As ditas grandes potências carregam o ônus da construção da ordem internacional posterior à 2ª Guerra Mundial, cada vez mais desgastada, e as ditas potências emergentes, àquelas do “fim do mundo”, procuram aumentar sua influência nas principais decisões globais, contestando a velha – e, ao mesmo tempo, atual – ordem ainda vigente. 

Será que o “início do mundo”, ao qual se acrescentaria o Estados Unidos, ditarão os princípios, valores, normas, práticas e costumes que orientarão e regularão as relações internacionais no século XXI? Que papel exerce e exercerá o “fim do mundo”, particularmente os países emergentes, na política mundial? Barão do Rio Branco sentenciou que o século XX seria o século dos Estados Unidos. Dito e feito. Muitos analistas, hoje, afirmam que o século XXI pertencerá à China. Mas não será exclusivo do gigante asiático. É provável que haja uma maior distribuição de poder entre os países, porém, ainda assimétrica, variando de acordo com suas dimensões: militar, econômico, cultural, etc. Essa multipolaridade deve ser mais competitiva, uma vez que potências tradicionais e novas travarão disputas, em princípio verbais, pela redefinição da ordem internacional vigente. O ponto de partida parece ser a reforma das instituições multilaterais, notadamente a ONU, o FMI e o Banco Mundial. 

O mundo atravessa uma grave crise, mais do que financeira, de governança. Faltam lideranças e soluções mundiais representativas e equilibradas. Não é por acaso que figuras como Chávez, Ahmadinejad e King Jong-un se projetam. Assim como não é por acaso que a democracia e o estado de bem-estar social europeus são colocados em xeque. Exemplo mais recente é a Itália. Quando o uso da força aparece como solução viável, falta o controle sobre seu emprego e seus resultados, como se observou na Líbia. Além de todos os problemas já debatidos, um dos fatores que explica o baixo crescimento do comércio mundial, em 2011, conforme relatório da OMC, foi a intervenção nesse país, que provocou a diminuição da oferta de petróleo e a consequente elevação do preço do barril. 

E os países emergentes? Para não se limitar a revistas ou noticiários, destaca-se que o último relatório de desenvolvimento humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), recentemente publicado, é intitulado “A ascensão do Sul: o progresso humano em um mundo diverso”. Outra publicação da PwC Economics, muito interessante, fez projeções sobre o mundo em 2050. A estimativa é que, entre 2011 e a metade deste século, as economias emergentes cresçam 4% ou mais por ano, enquanto as economias avançadas cresçam 2% ou menos por ano. A tendência é que Nigéria, Vietnã, Índia e Indonésia estejam na dianteira desse processo. 

É claro que a pujança econômica não é um indicativo absoluto de poder. Ela é apenas um exemplo de que o predomínio euro-americano nas relações internacionais é coisa do passado. Em mundo mais multipolar e assimétrico, os países emergentes, ainda que não adentrem – por repulsão ou opção – ao seleto grupo das grandes potências mundiais, serão indispensáveis à redefinição da ordem internacional. À semelhança da frase da presidente Dilma sobre o combate a miséria, pode-se dizer que “o fim mundo é apenas o começo”. E abrir aquele sorriso acolhedor e esperançoso de Jorge Mario Bergoglio, porque ainda não se sabe o que representa esse começo…

[Post elaborado pelo colaborador Giovanni Okado] 


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Você conhece Ordos?

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Avenidas vazias na cidade de Ordos, na China.

Fonte: Time.com


Não, não. Não é algum lugar da Terra Média d’O Senhor dos Anéis. Muito menos o nome de um dos sete reinos de “Game of Thrones”. Até hoje eu nem sabia da existência de Ordos. Sim, é uma cidade e ela não é mera ficção. Ordos está localizada na Mongólia interior, ou seja, na China. Começou a ser construída em 2003 e foi projetada para abrigar mais de um milhão de habitantes. Hoje, em 2013, comporta apenas trinta mil pessoas. É uma cidade fantasma! 

Há relatos sobre a existência de algumas dezenas de cidades abandonas por diversos motivos. Pripyat, na Ucrânia, tornou-se inabitada em virtude da explosão nuclear de Chernobyl e Craco, na Itália, foi desabitada em 1975 em razão de um intenso terremoto que abalou toda estrutura física da mesma. Há ainda outros exemplos de lugarejos tomados pelo tempo, principalmente por causas econômicas. Mercados escassos de mineração, fim de reservas fósseis e assim por diante acabaram por desabitar cidades inteiras. Mas Ordos é diferente. 

E por que? Porque ela é uma cidade moderna e bem planejada. Em matéria publicada na revista Carta Capital da semana passada (ano XVIII, número 735), a colunista Janaína Silveira diz que lá há museu, biblioteca, montadora de carros, aeroporto, centro de exibições… Apenas com a visualização de algumas fotos é possível observar a grandiosidade do projeto. Distritos vazios, avenidas sem movimento e monumentos com cavalos (símbolos da cultura mongol) em praças desocupadas podem ser vistos no site do jornal “Time”.

Ao contrário das outras cidades fantasmas, Ordos nem chegou a ter uma população numerosa. Todavia, o motivo da sua construção é bem fundamentado: a região é rica em carvão, petróleo e gás. Sozinha possui 150 bilhões de toneladas de carvão mineral, um sexto de todas as reservas chinesas. E é este o principal motivo de ter trazido esta notícia ao blog. Com esta onda em prol do desenvolvimento de energias sustentáveis e renováveis, não seria um “tiro no escuro” dos chineses? As perspectivas variam bastante, alguns acreditam que sim, mas outros preveem um futuro de bonança para a cidade. 

Em Pequim, os reflexos da poluição são sempre visíveis. Pessoas estão andando com máscaras nas ruas em dias nos quais é impossível até observar os grandes prédios cobertos por uma densa camada de fumaça. Os níveis de poluentes na capital foram considerados perigosos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Grande parte da pujança econômica chinesa e do seu elevado crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) advém das amplas indústrias e do uso irrestrito de combustíveis fósseis.

Juntando-se a isso, Ordos também é exemplo da bolha imobiliária do país. Interessante, não? Olhando a foto acima, daria um bom cenário para as gravações do “The Walking Dead”.


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Névoa cinzenta

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As palavras poluição e China – frequentemente vistas na mesma frase – têm ilustrado as manchetes internacionais nos últimos dias. Os níveis altíssimos de poluição em Pequim voltaram a assustar, obrigando empresas aéreas a cancelarem voos e moradores a ficarem em casa para se protegerem da impressionante névoa cinzenta…

Para se ter uma ideia, o tamanho das partículas do ar estava 20 vezes superior ao recomendado pela Organização Mundial de Saúde para um período de 24 horas… com uma visibilidade de apenas 200 metros nas ruas, o pacote do governo com medidas para conter a poluição atmosférica (prometido há duas semanas) se faz mais do que urgente.

Com taxas de câncer de pulmão crescendo assustadoramente no decorrer da última década e os atuais níveis alarmantes de poluição, o governo tem até aconselhado a população a reduzir as atividades realizadas ao ar livre (!).

Acontece que a situação vivenciada atualmente pela China não é nova, e crises parecidas já ocorreram nos Estados Unidos (1948), na Bélgica (1930) e na cidade de Londres (1952). Daí foi criado o termo “smog das palavras inglesas para fumaça (smoke) e neblina (fog). Nestas oportunidades, as crises contribuíram para a criação de medidas contra a poluição, muitas vezes consequência direta do processo de industrialização acelerada.

Se quiser, a superpotência chinesa certamente tem condições de enfrentar o problema que pode mesmo representar um obstáculo ao crescimento econômico do país. Sendo o segundo maior emissor de gases de efeito-estufa no mundo, a redução das emissões de dióxido de carbono depende de muita vontade política para que compromissos ambientais sejam assumidos. Enquanto isso não acontece, tem até chinês vendendo ar puro em lata contra a poluição… qual sabor você preferiria: “Taiwan pós-industrial” ou “Tibete fresco”? […]


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Afronta aos bons costumes internacionais

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A Coreia do Norte atacou de novo. Não, não houve nenhum ataque a um território concreto. Já basta a Guerra da Coreia que jamais teve um fim oficial decretado. O que houve foi outro claro atentado à moral e aos bons costumes das relações internacionais. Uma provocação à ordem estabelecida, à liderança dos Estados Unidos e, consequentemente, ao regime de não-proliferação nuclear. 

Ontem o país anunciou que fará outro teste nuclear em breve e defendeu que continuará com o lançamento de foguetes e mísseis de longo alcance. A declaração publicada pela agência estatal KCNA não veio do nada. Coincidência ou não, ocorreu dois dias após a resolução do Conselho de Segurança sobre novas sanções econômicas contra o país, no último dia 22. A resolução foi referente ao bafafá de 12 de dezembro do ano passado, quando a Coreia do Norte fez um teste de lançamento de foguete apontado pela Coreia do Sul e pelos Estados Unidos como um míssil balístico disfarçado, e não um meio de colocar satélites em órbita. 

E tão cedo quanto as declarações foram proferidas, seus efeitos já foram sentidos. Os Estados Unidos reagiram. Medo e disposição foram as palavras mais ouvidas. Medo das ogivas nucleares e de testes de mísseis balísticos bem sucedidos; pois, como já anunciou Kim-Jong-un, o Tio Sam seria o alvo principal. Disposição em agir com todas as medidas cabíveis. Nem mesmo uma invasão foi descartada. 

Isso nos faz pensar. Refletir que no mundo atual é muito difícil bater de frente com uma superpotência militar como os Estados Unidos, apoiada no sistema ONU. Por mais injusto que o regime de não-proliferação nuclear seja (pois o TNP garante que os países que já tem a bomba não precisem se livrar dela, enquanto que os que jamais tiveram não podem tê-la) aqueles que não aderiram a ele sofrem pressões constantes da ONU. Para conseguir afrontar essa superpotência, nem que seja com uns latidos um pouco mais altos, parece que se precisa de alguns pré-requisitos. Ter uma capacidade militar capaz de assustar o Tio Sam e sua trupe, ou seja, uma bomba nuclear e/ou armas químico-biológicas. Ser um regime fechado e isolado politicamente o suficiente para não se deixar influenciar demais por sanções do Conselho de Segurança e de órgãos regionais. 

A Coreia do Norte possui ambas as características. Acima de tudo, o governo norte-coreano fez questão de concentrar todas as forças em ameaçar diretamente os Estados Unidos. Uma situação intrigante, que remonta um pouco o caso do programa nuclear do Irã. Sanções econômicas no geral surtem pouco efeito. O isolamento político do país permite certa blindagem contra elas. A menos que toquem no calcanhar de Aquiles do país, no caso, o fornecimento de alimentos. 

Mas qual o objetivo internacional principal dessa política externa caótica? É difícil dizer. Minha aposta ainda é a do início do texto. Afrontar a falsa moral e os bons costumes internacionais, a ordem injusta estabelecida. Para tanto, o país buscaria afetar a balança de poder militar da Ásia e no mundo, tornando-se outro no seleto grupo de países com ampla capacidade nuclear e de mísseis balísticos. Agora se o país está perto ou não e se é apenas um cachorro que late demais e não morde é outro ponto complicado. Na dúvida, os EUA se preparam.


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A nova Guerra Fria?

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O século XX foi marcado pela disputa política e ideológica entre os Estados Unidos e a União Soviética. Os dois países lideravam dois grandes blocos que representavam modelos de vida diferentes. A princípio, o Tio Sam tinha o foco na expansão de sua ideologia, enquanto que, a URSS preocupada igualmente com isso, também tinha ganas de conseguir mais territórios. Mas em uma coisa os dois quase nunca divergiam: a busca de denegrir a imagem do outro, construir signos negativos vinculados ao seu rival tanto pela mídia, filmes e propaganda até por leis e decretos. 

Desde os anos 1990 que as relações entre Rússia e os EUA estavam estabilizadas. Apesar de algumas divergências política e da existência daqueles sentimentos anacrônicos resultado da Guerra Fria, as relações bilaterais iam bem. Acontece que os últimos dias de 2012 trouxeram uma pequena mudança a esse estado de coisas. Uma troca de farpas causada por leis destinadas diretamente aos russos e americanos, promulgadas nos dois países, estremeceram as relações políticas entre os dois países

Tudo começou com o governo estadunidense aprovando uma lei referente a um problema interno da Rússia, o caso de Sergei Magnitsky. O advogado russo que rendeu nome à nova lei, foi preso em 2009 e acabou morrendo alguns dias antes de que completasse um ano na prisão, tempo em que poderia ser mantido em cana sem julgamento. O caso rendeu um grande bafafá internacional naquele ano, pois, a despeito de o governo russo apontar que ele faleceu em virtude de doença, as organizações internacionais de direitos humanos diziam que foi devido a maus tratos e violações de D.H. por oficiais da polícia russa. 

Bom, agora, 3 anos depois, os Estados Unidos resolveram retaliar os suspeitos de envolvimento no caso por meio de uma espécie de “lista negra”. O Ato Sergei Magnitsky, aprovado pelo congresso em Junho e pelo senado em Dezembro, pune os oficiais russos suspeitos de envolvimento no caso, dificultando-os de obter o visto e contas bancárias em bancos americanos. É de se esperar que o governo russo não veria com bons olhos o ato e, rapidamente, as retaliações vieram. 

Em 18 de outubro, os EUA e a Rússia assinaram um acordo regulamentando a adoção internacional de crianças entre os dois países. O tratado que entrou em vigor em 1 de novembro desse ano, foi revogado pelo governo russo. No dia 26 de dezembro, o parlamento deu um “presente de Natal” para famílias americanas, proibindo a adoção de crianças russas por americanos. Apesar de causar divergências entre os próprios russos, rendendo comentários negativos do ministro das Relações Exteriores, e questionamentos de Putin, a nova lei foi aprovada pelo voto de 143 senadores, nenhum voto contra e 42 abstenções. A justificativa dos parlamentares foi fundamentada em denúncias de mortes de pequenos russos nas mãos de pais americanos por maus tratos. 

Todavia, a medida “anti-Ato Magnitsky”, em números, não passará sem efeitos para crianças e adolescentes que iriam ser adotados. Em 2011, 1000 crianças russas foram adotadas por cidadãos americanos e, desde 1999, esse número chega a 45000. Somente nesse final de ano, serão 46 crianças impedidas de obter um lar devido à disputa ideológica entre Estados Unidos e Rússia. Há ainda a questão de que muitos americanos adotam crianças com necessidades especiais. Proibidos de adotá-las, provavelmente, irão busca-las em países vizinhos como a Ucrânia e Georgia, deixando essas outras crianças desamparadas. 

O governo americano acusa a Rússia de violar tratados internacionais (como a Convenção sobre os Direitos da Criança) e passar para as crianças o ônus das dificuldades bilaterais entre os dois países. Todavia, se de um lado, a Rússia irá prejudicar inúmeras crianças e ainda complicar as relações bilaterais, de outro, os EUA, pelo Ato Magnitsky estariam igualmente violando o direito internacional ao intervir em assuntos internos russos. Há, ainda, o risco dessa lista se alargar e passar a complicar a vida de outros russos que não necessariamente tiveram envolvimento com o caso, como já é de se saber que o ocorreu com o Ato Patriota. 

Outra vez existe uma disputa ideológica entre a Rússia e os Estados Unidos. Dessa vez, os EUA defendendo seu novo estandarte, os Direitos Humanos, escudo sob o qual já cometeu inúmeras atrocidades; e a Rússia transferindo os problemas dessa disputa bilateral para aqueles que não tem a capacidade de se defender, as crianças. Esses seriam os germens para o despertar de uma nova guerra fria entre os dois países. Ou, seria somente a manifestação de que, para muitos, ela nem veio a acabar.

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