Há um ano...

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Há um ano

Ao revisitar os textos que foram publicados há um ano no blog, três temas merecem destaque. O primeiro e mais triste deles foi o post de luto pela tragédia de Santa Maria, ocorrida na madrugada de 27 de janeiro de 2013. Com um saldo final de 242 jovens mortos e mais de 600 feridos, o incêndio na boate “Kiss” configura uma das mais graves tragédias na história recente brasileira e mais um exemplo de que a justiça é morosa e ingrata com aqueles que esperam o desenrolar de seus processos.

Um ano depois, sob homenagens e protestos, os familiares das vítimas se queixam de impunidade ao perceber as dificuldades nos trâmites processuais que deixam dúvidas sobre a possibilidade real de punição dos responsáveis pelo desastre. Será que daqui a um ano a situação será muito diferente? Espera-se que sim, avalia-se que possivelmente não.

Outro tema de destaque envolvia os altos níveis de poluição na China, já que o tamanho das partículas do ar no país estava 20 vezes superior ao recomendado pela Organização Mundial de Saúde para um período de 24 horas. Um ano depois, nada mudou – muito pelo contrário (alguém surpreso?).

Pesquisas do início deste ano apontam que a poluição da China pode ser vista do espaço (!) e, ironicamente, que se comprova sua influência negativa na qualidade do ar da costa oeste dos Estados Unidos (!!). Sim, a poluição dos produtores chineses cruza o Pacífico (literalmente) e prejudica seus próprios consumidores norte-americanos… é a globalização em todos os seus sentidos.

Por fim, esse é o período em que tradicional e anualmente ocorre o Fórum Econômico Mundial, em Davos. Enquanto no ano passado o assunto ainda era a “sobrevivência do euro” e as medidas necessárias à sua salvaguarda, tal como apontado em nosso post de 2013, esse ano o tom já foi um pouco diferente.

Com a valorização do euro, aparece a ameaça contrária (mas nem por isso positiva) de deflação (ideia associada a períodos de recessão, processo inverso à inflação, entenda melhor aqui), tal como declarado pela diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Davos. Já o presidente do Banco Central Europeu refutou o grau de criticidade da declaração, garantindo estar preparado para gerenciar a situação. A ver como a moeda europeia se comporta frente aos novos desafios à sua estabilização…

Postando e relembrando, esta é a nossa Página Internacional!


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"No rape"

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“No rape”. Frase curta, mas de impacto gigantesco na Índia e no mundo inteiro. Há um ano, o caso de estupro coletivo de Jyoti Singh Pandey chocou o mundo e mobilizou as indianas na luta contra esse crime tão sério quanto repugnante em qualquer localidade, cultura ou credo.

Jyoti foi a jovem estudante de medicina que sofreu violência sexual por parte de seis homens ao voltar de ônibus do cinema, acompanhada de seu namorado que também foi agredido, mas sobreviveu. Após dias internada, ela não resistiu e tornou-se mais uma vítima dessa prática pavorosa que tem como fim não o prazer, mas apenas a humilhação e a expressão de poder e superioridade.

Em uma sociedade ainda patriarcal e machista como a indiana, infelizmente as vítimas são, muitas vezes, consideradas culpadas pela violência vivida. É a deplorável lógica de que, mesmo ao exercerem seus direitos básicos de “ir e vir” do modo e no horário que lhes convier, vestidas como igualmente lhes convier tal como qualquer cidadão livre, as mulheres “estão pedindo” para serem violentadas. Lógica ilógica que garante a perpetuação de uma cultura de violência em um país com histórico já manchado pelo sangue de tantas vítimas inocentes.

Após a triste história de Jyoti, o número de registros de casos de estupro na Índia aumentou, revelando que a mobilização ampliou a coragem das vítimas em denunciar – trazendo a verdade à tona e contribuindo para um processo de reeducação que deveria envolver a base da sociedade. Processo, entretanto, que se vê em face de um tradicionalismo por vezes extremado que ainda torna as mulheres vulneráveis às mais cruéis práticas no dia-a-dia.

Em termos numéricos, os casos de estupro aumentaram em 70% nos últimos dois anos no país (apesar do endurecimento de leis para crimes sexuais em março deste ano, o qual não foi acompanhado pela celeridade nos tribunais…), enquanto o turismo, notadamente feminino, caiu em aproximados 25% devido à sensação de insegurança generalizada.

Não que a violência sexual seja um problema exclusivo da Índia, pelo contrário. Contudo, casos como o de Jyoti sensibilizam a mídia devido ao grau de violência envolvido e especialmente considerando seu padrão de vida de classe média, mais próximo da cultura ocidental que boa parte dos casos de vítimas indianas.

“No rape”. Que esse seja um dos desejos em nossos anseios por um 2014 mais bonito, menos violento e em memória daquelas(es) que já sofreram qualquer tipo de violência sexual, na Índia ou em qualquer outra parte do mundo. 


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O preço do inevitável

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Na semana com o noticiário tomado pelo desastre do tufão nas Filipinas, fica a perplexidade por conta da força impossível de ser contida da natureza e pela perda incalculável de vidas humanas. Infelizmente, é quase impossível deter esse tipo de tragédia, e condições sociais menos privilegiadas geralmente resultam em hecatombes como essa, com número oficiais computando mais de 4 mil mortos, mas com estimativas na casa das dezenas de milhares. 

É possível até fazer uma ligação com a questão do desenvolvimento. O vencedor do prêmio Nobel Amartya Sem dizia que desenvolvimento é o mesmo que provisão de liberdades básicas (como o direito de ir e vir, participação política, a liberdade de poder se alimentar plenamente, etc.). Na sua visão, não é necessário que se tenha dinheiro para ser “desenvolvido” em alguns casos, mostrando como mesmo em países ricos temos minorias com qualidade de vida ruim comparada a certas populações de países pobres. Mas, sem querer contrariar um pensador desse calibre, há casos em que dinheiro ajuda muito, e basta comparar a tragédia das Filipinas com o que aconteceu no Japão em 2011. 

O nível de destruição foi parecido nos dois países (que têm até uma configuração parecida, sendo arquipélagos e tudo mais), apesar de haver um componente dramático no caso japonês por conta do vazamento radioativo, mas as dificuldades após a tragédia lá foram um pouco menores, pois a logística funcionou melhor, e o acesso das equipes de resgate foi mais rápido. Nas Filipinas, por mais que haja uma certa preparação e que o país seja atingido regularmente por eventos desse tipo (o Hayian nem é considerado o pior desastre de sua história pra ver como a coisa é feia), a infraestrutura foi abalada e o acesso é restrito, com falta de alimento e água, cadáveres pelas ruas e riscos à saúde dos sobreviventes. Em ambos os casos houve ajuda internacional, mas um fator primordial acaba sendo aquilo que havia antes do desastre, e nem temos como comparar a infraestrutura do Japão com a das Filipinas. 

No fim das contas, é mais um daqueles desastres que entra na conta dos países em desenvolvimento, onde o número de vítimas (com exceção e casos excepcionais) é sempre maior do que em países desenvolvidos enfrentando situações semelhantes, e essa realidade de disparidade econômica tem efeitos reais quando ocorre o inevitável.


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Jeitinho da China

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Digamos que é o que acontece quando colocamos o jeitinho brasileiro num negócio da China. Trocadilhos e piadinhas à parte, essa expressão parece servir bem para um caso curioso. Isso por que a China se tornou um dos maiores consumidores de carne brasileira do mundo.

Mas espera aí… eles não embargaram a compra de carne daqui por causa de uma denúncia de casos de vaca louca? Sim, a China não compra mais carne bovina daqui. É aí que entra o jeitinho. Oficialmente, o maior comprador não é a China, e sim Hong Kong.

A região administrativa faz parte da China, mas tem governo próprio, então faz o que bem entende no comércio com o Brasil. E toda aquela carne que compram (um negócio bilionário) vai para o continente, sem nenhum tipo de empecilho. A China continua batendo o pé e prorrogando ao máximo a suspensão do embargo iniciado no ano passado; ao mesmo tempo, o mercado chinês continua sendo um mercado em expansão (e considerado até estratégico) para nossos produtores. 

Claro que uma pressão política não faz mal e o vice-presidente Temer já está na China para, entre outras coisas, negociar a liberação da venda (que parece pouco provável). Aqui vemos algumas das grandes contradições dos BRICS, os países que buscam parceria e alguma coesão em nível internacional, mas quando são confrontados com questões de sobrevivência básica como o mercado de commodities, começam a chutar a canela uns dos outros. 

Enquanto isso, a China não compra a carne brasileira. Mas continua comprando (mesmo por quê o mercado cresce demais por lá, e não podem depender de extravagâncias como carne de cachorro). E continuamos vendendo. Haja jeitinho…


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Uma Sombra a Cada Oito

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Quando uma pessoa é questionada sobre quais são os cinco ou dez maiores problemas existentes no mundo, ela provavelmente não vacile em responder a fome como um deles. Entre os problemas globais, a solução para fome só seria tão popular do que a o estabelecimento da Paz Mundial, tanto no discurso de concursos de beleza quanto nas discussões política. Também distante do nosso imaginário e da mídia, que o torna popular, o problema da fome continua a ser uma das maiores tragédias humanas.

Desde 1992 a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) tem realizado, entre muitos outros projetos, a confecção de relatórios anuais que mapeiam a fome no mundo. Em todos esses 21 anos de dados a humanidade tem apresentado uma evolução continua rumo ao fim do problema no futuro. Mesmo assim ainda temos um total de 896 milhões de famintos atualmente, um número enorme, mesmo sendo 17% menor do que era indicado nos anos 90 do século passado.

A evolução da diminuição da fome tem sido causada principalmente pela América Latina e a Ásia. Nesses continentes, a evolução econômica dos países emergentes, junto a uma crescente diminuição da desigualdade, tem feito com que obtivessem os melhores resultados de melhoria de vida para a população faminta. Se o Mundo todo estivesse no mesmo ritmo desses países, o número de famintos no mundo poderia ter recuado até 50% nos últimos 20 anos, índice muito maior do que foi visto.

Mas por que a fome, mesmo cultivando uma grande preocupação mundial, tem se apresentado um adversário difícil de ser vencido? Talvez essa questão possa ser respondida com o caso da África Subsaariana, o local no mundo mais atingido pela fome. Expor causas que justifiquem a realidade de pobreza e fome nesse continente não caberiam em uma coleção de livros, quanto mais em uma postagem. Mas podemos pegar alguns aspectos atuais do continente para entender por que este permanece nessa situação.

Na África, não só temos o maior número de famintos como a maior desaceleração na diminuição de pessoas que saem dessa situação anualmente. Tal cristalização da fome, em contrapartida a rápida melhora do quadro em outros locais do mundo, tem alarmado a todos. Nem mesmo os países emergentes da África parecem ter força para anular a fome. O simples movimento de crescimento econômico não é suficiente no continente. 

A incapacidade da economia para solucionar o problema por si só é facilmente explicável. No caso de países como o Congo Belga, a riqueza é compartilhada apenas por uma minoria da elite nacional e magnatas estrangeiros. Já na Nigéria, a situação é bastante exemplar. Sua capital Abuja, fabricada exclusivamente para a elite política e econômica do país, ostenta grandes obras de infraestrutura e uma riqueza quase inigualável entre as capitais africanas. No entanto, os interiores do país continuam afundados na miséria e fome.

Diante desse cenário, até mesmo o aumento da produção agrícola, o maior desenvolvimento da história da África, e consequentemente da oferta de alimento, não tem sido suficiente. A FAO considerava esse fator como crucial a uma menor quantidade de famintos. Infelizmente, os resultados ficaram distantes do esperado. Isso pode ter ocorrido graças a grande concentração do desenvolvimento, restrito apenas às capitais e áreas urbanas.

A verdade é que a África expõe uma dura realidade: no mundo a desigualdade na divisão de recursos e de alimento é tão grande, que mesmo em um planeta que produz mais do que o suficiente para a alimentação diária de toda a população, quase 1 bilhão de pessoas passam fome. 

Mas para outros especialistas a culpa da falta de evolução do combate á fome na áfrica não diz respeito apenas a desigualdade. Os grandes índices de natalidade deram nova voz a teorias Neomalthusianas, que afirmam por meio de uma simples conta entre o alimento disponível e superpopulação, que a não redução da fome é originada pela falta de controle de natalidade.

Para eles, os africanos teriam que ter menos filhos. No entanto, a própria evolução da agricultura, que abriu uma nova oferta alimentar, e os altos índices de mortalidade da população, alavancada por males como a própria fome e a AIDS, tem jogado por terra essa teoria. Há menos pessoas, mais alimentos, e o problema persiste. A questão parece ser mais de falta de acesso ao alimento do que propriamente de escassez. Caímos então em uma complexa relação de cause e consequência causada pelo tipo de organização política e de desigualdade histórica na África, um problema social dos mais complexos existentes.

Abaixo, um vídeo bastante didático para a compreensão do mapa atual da fome e a questão da produção de alimentos versus a desigual distribuição: 

 

Na virada do século XXI, a Cúpula Mundial sobre a Alimentação definiu que o número de famintos no mundo em 2015 deveria ser de 498 milhões de pessoas, o que representaria uma diminuição de 60% no número de famintos desde que a FAO iniciou o seu projeto de relatórios anuais sobre a fome, em 1992. No entanto, faltando apenas 2 anos para o tempo limite da meta, ainda estamos com um número total de 846 milhões de pessoas famintas, quase o dobro do esperado. Ainda pior, tivemos uma baixa diminuição nos índices, em média apenas 20 milhões de pessoas por ano, o que leva a crer que estamos desacelerando na solução do problema.

A grande evolução econômica dos emergentes da América Latina e Ásia foi o grande combustível da evolução para um mundo sem fome. No entanto, nesses países o número de famintos é cada vezes mais baixo, os impossibilitando de prosseguiram como a grande vanguarda de combata a fome. Em contrapartida, a África Subsaariana, depois de anos de recuperação, parece se chocar contra os muros que  a impedem a um desenvolvimento mais veloz. A atenção estará voltada para a solução desse mal nesse local específico nos próximos anos.

Sintomaticamente, a ONU define a fome como “o maior problema solucionável da humanidade”. Enquanto tivermos pessoas vivendo nessas condições, teremos uma sombra permanente a nos rondar. Atualmente, há ainda muitas delas, uma em cada oito pessoas. Tomara que a situação em que vivem e as soluções para ela não sejam tragadas também por essa sombria escuridão.

 


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Prêmio discordante

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Peso na consciência é uma coisa complicada, especialmente se você tiver criado um dos explosivos mais potentes e perigosos da humanidade. Foi assim que Alfred Nobel, o criador da dinamite, resolveu gastar alguns dos seus milhões que ganhou com a invenção para tentar se redimir com a humanidade e premiar grandes invenções, pesquisas, ou simplesmente pessoas que ajudassem o ser humano a ser um pouquinho melhor. Nascia o prêmio Nobel, que está sendo entregue em sua edição 2013 nesse mês de outubro. 

Os prêmios científicos são muito interessantes, mas geralmente o mais chamativo é um bem subjetivo, o tal Nobel da Paz. Muita gente já ganhou esse de um modo bem contestável (basta lembrar do Obama em 2009, que continua massacrando gente com drones, ou indo mais atrás, Ted Roosevelt, aquele do ursinho de pelúcia e do “Big Stick”, que ganhou o prêmio pela mediação na guerra russo-japonesa), mas parece que esse ano a concorrência está boa. A principal aposta é na menina paquistanesa Malala Yousafzai, aquela que levou um tiro na cabeça por criticar o Taleban e defender escola para todos. Parece justo – mesmo por que o Taleban continua ameaçando ela de morte após sua quase milagrosa recuperação. Mas outros candidatos são um pouco mais controversos, como… o presidente russo, Vladmir Putin. Esse mesmo, o homem que prende ativistas, tem dezenas de denúncias de opressão e violação de direitos humanos contra e que vende armas para o ditador favorito da mídia atual. Sua indicação seria justamente por seu papel na mediação do conflito da Síria (apesar de absolutamente nada ter sido alcançado de concreto, fora o tênue compromisso de remover as armas químicas de lá). 

Não seria novidade – muitos desses prêmios são para acordos de paz. Claro que, geralmente, são para acordos já finalizados (com exceção do histórico prêmio de 1994, e que com a morte de Rabin deu no que deu). Mas o Nobel a Paz, o mais prestigiado deles, está ficando meio desacreditado nos últimos anos. Obama em 2009, a União Europeia ano passado, parece até piada. A indicação (e até uma possível vitória) de Putin seria basicamente um escolha de politicagem. Digamos que o controverso prêmio de Obama em 2009 abriu um precedente e agora Putin pode ser “recompensado” por sua busca de trazer a Rússia novamente a um primeiro plano. 

O prêmio Nobel, no fim das contas, não tem muita utilidade prática, mas é cheio de simbolismo, e essa desvirtuação não deixa de ser um pouco lamentável. Claro que, para quem não liga muito para o assunto, sempre temos o divertido IgNobel, que faz o contrário e premia pesquisas e pessoas que não contribuíram em nada para o progresso da humanidade. Em 2013, o IgNobel da paz foi para Alexander Lukashenko, presidente de Belarus, que tornou proibido bater palmas em público. Putin vai ter que se esforçar pra ganhar disso.


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O Gigante sem amigos

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Algumas nações levam consigo a crença na predestinação. Povos que teriam qualidades capazes de dominar o destino, caminhando eternamente em uma imutável estrada rumo ao sucesso. Os EUA e sua igualdade que o levaria a se tornar a hegemonia mundial, a terra das oportunidades. A possibilidade do “sonho americano”. O Brasil e sua fama de “o país do futuro”, slogan desgastado do ufanismo brasileiro, são alguns dos exemplos. 

Outros países também compartilham desse sonho. A Rússia, cujo símbolo de predestinação, ou de maior força perante as outras nações é um urso mal encarado, está nesse grupo de fieis da superioridade. E de certo ponto de vista, o destino parece ter contribuído para que essa ideia permanecesse durante séculos.

Fazendo um exercício de volta ao passado, poderíamos nos lembrar qual é o primeiro momento em que ouvimos falar do país, ainda na escola? Certamente leitores com melhor memória se lembrarão do fracassado ataque de Napoleão, vencido pelos russos e pelo seu inverno. De certa forma, a Rússia naquele momento ainda era um país agrário e atrasado. Insignificante, mas com certa sorte em surgir do nada como central no que vinha ocorrendo na Europa.

E assim seguiu a Rússia, sem grande destaque, até a Revolução de 1917. Com ela veio o socialismo e o país se transformou em portador máximo do “espectro que rondava o mundo”. Foi exatamente esse espectro que chamou a atenção e brotou o ódio da Alemanha na Segunda Guerra Mundial contra o país. Após sofrer diversos massacres e contando novamente com o inverno, a Rússia seguia sua predestinação de ter papel central.

Mas foi na Guerra Fria no pós-guerra que pudemos notar uma certa predestinação da Rússia, além do papel central nas decisões do mundo, já estabelecido. Era o isolamento político. O país parecia fadado à ele. Após o fim do muro que separava os dois pólos, percebia-se que a imagem do país sofria danos até diante de seus parceiros soviéticos, sendo ela acusada de forte exploração e imperialismo, e já no fim do regime comunista, de uma forte necessidade de manter o território pela custasse o que custar. E normalmente o custo era alto.

O fim da Guerra Fria não apagou as mágoas de seus vizinhos, muitos deles flagelados pelo decadente sistema socialista e o abuso do poder central russo, em manter por tempo mais do que necessário, a dominação de um sistema caindo aos pedaços. A Rússia havia aprendido a se tornar imperialista de forma dura, aumentando sua influência de forma pouco inteligente comparada ao sorriso amigo dos EUA, sua potência antagonista.

E assim chegamos aos dias de hoje, em que o país sofre com sua falta de competência em construir pontes. O fim da União Soviética não finalizou o medo de dispersão dos diversos territórios do Império. Há pelo menos 37 áreas de instabilidade dentro do país. Conflitos internos que por vezes assumem tons dramáticos, com ataques terroristas de grupos separatistas seguidas de respostas polêmicas do governo central. 

A indisposição interna dos rebeldes chegou à capital, com polêmicas ações do governo como a lei anti-lobby gay do governo. Decisões que, além de comprometer a popularidade do governo com parte da população, afastam o país de alguns setores sociais do ocidente. Mais do que isso, criam o que cientistas políticos gostam de chamar de “agenda negativa” sobre um governo. Até mesmo o beijo entre competidoras no pódio acirrou os ânimos dos críticos. A quem se dispõe a compreender a sociedade do espetáculo, conhece como esses tipos de acontecimentos são determinantes atualmente. 

Problemas que levam a  próxima sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas à total contestação. A forte oposição da população ao governo e à recorrentes críticas internacionais. A corrupção durante a época socialista e ascensão de diversos bilionários, ligados à mafia e herdeiros de gigantes estatais, colocam em dúvida até mesmo a existência de algum resquício de democracia no país.

Nos BRICS, a Rússia também não é capaz de selar nenhum acordo de cooperação ou que transforme essa sigla em de fato um bloco útil. Inclusive, é um dos pilares da falta de possibilidades de uma ação conjunta entre países de tão diversa cultura e aparentemente tão inaptos em traçar relações que não sejam unilaterais. 

Agora eis que a Russia se coloca como ator principal na crise formada pela guerra civil da Síria. Como um dos principais parceiros do país, tenta de todas as formas deslegitimar o possível ataque americano ao país, com constantes falas na mídia e na ONU. Enquanto a situação segue para o iminente ataque, o país tenta barganhar mais poder decisório deslocando tropas no mediterrâneo. Tudo para proteger seus interesses e de um dos seus parceiros. Mas como sempre, o país demonstra seu destino de caminhar sozinho, enquanto mostra claramente a sua distância, em todos os aspectos, com o país árabe e seu isolamento total no Conselho de Segurança. O poder de veto se tornou com o tempo voto vencido com a falta de apoio que o país carrega na organização.

E muitos poderão perguntar: e o apoio da China, constante, no Conselho de Segurança da ONU? Não seria um forte parceiro? Sabemos que a China só defende interesses que sejam bem claramente seus. No mais, é outro lobo solitário no cenário internacional, que tem parceiros mais pela necessidade do que pela afinidade. Com a Rússia seria o mesmo.

O Gigante parece mesmo fadado a uma cíclica posição de destaque, para o bem e para o mal. Só mais forte do que a predestinação à ocupar um papel central no mundo, parece sua capacidade de se colocar como antagonista de outras potências e isolada politicamente. Se fosse uma pessoa, seria acusada de anti-social. E o destino prega peças engraçadas para confirmar sua dificuldade. Basta relembrar a ironia da Segunda Guerra Mundial, em que a Rússia se uniu ao “time dos Aliados”, mesmo sem nada em comum além da ameaça de Hitler. Depois disso, tais aliados sempre se transformaram em inimigos. Ironias até na nomenclatura de alianças de guerra, traçadas pelo destino de um país sem amigos.


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O caminho para a destruição

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Desde 1994 a ONU tem um trauma. A falta de capacidade em evitar o genocídio em Ruanda e o modo como o mundo todo descobriu aquele massacre feito na base do facão é sempre a primeira justificativa quando se pensa em alguma resposta mais dura a crises humanitárias. Hoje, vemos a Síria em guerra civil e evidência lamentável do uso de armas químicas. A chamada “opinião pública” mundial clama por ação, e parece que Reino Unido, França e possivelmente os EUA estariam buscando uma resposta conjunta que pode sim render uma ação armada. 

Existe muita ironia em tudo isso. Basta lembrar a intervenção na Líbia. A ONU aprovou uma zona de exclusão aérea (por muito menos que o uso de armas químicas), o conflito se acirrou e hoje o país não tem governo. O resultado da intervenção, no fim das contas, é contestado e muita gente culpa os países ocidentais pelo aumento substancial das mortes e instabilidade que dura até hoje no país. 

O caso da Síria é bem diferente, em quase todos os sentidos, a favor e contra a intervenção. A favor, existem evidências do uso de armas químicas (a questão é saber exatamente de que lado), um sangrento prolongamento das hostilidades e, principalmente, o recurso ao conceito da “responsabilidade de proteger” (que a ONU trouxe lá no meio dos anos 2000 e visa justamente evitar esses genocídios), que já tem efeitos práticos na missão da ONU no Congo (que hoje tem um “braço armado” capaz de revidar às ameaças contra a população, coisa inédita). Contra, é claro, temos um elemento político. China e Rússia são totalmente contra uma intervenção de qualquer natureza, por diversos motivos – e alguns são bem pragmáticos, como o fato de não se saber exatamente ainda qual dos lados usou as armas, e defender a permanência de Assad por simplesmente não ser possível prever como seria instalado um novo governo caso ele seja derrubado, ou como isso afetaria a estabilidade da região. Há também a crítica dos “interesses escusos” das potências (que já vimos na Líbia), em que a defesa dos direitos humanos vira uma desculpa para o bom e velho imperialismo versão século XXI. E vozes na própria ONU ainda defendem que o caminho das negociações seria ainda a melhor opção. 

O Reino Unido vai levar o caso ao Conselho de Segurança, pedindo ações rígidas, mas qualquer medida nesse tom será barrada por Rússia e/ou China. Esse “travamento” na ONU vai acabar levando à ação unilateral, seja individualmente, seja por meio da OTAN, ou coisa do tipo. A movimentação já existe, com navios e porta-aviões de prontidão na região, e as evidências dos ataques químicos acabam sendo um marco do “ponto sem retorno”. Algum dos lados do conflito fez algo abominável para a sociedade internacional, e na visão das democracias ocidentais uma ação precisa ser tomada. Mas o quê vai ser feito? Uma invasão com tropas e tudo mais? Uma zona de exclusão aérea? Bloqueio naval? Qualquer opção vai render um banho de sangue para os dois lados e potencialmente tornar ainda mais letal o conflito. E não significa necessariamente que a intervenção vá ter sucesso. 

De qualquer jeito a reação será negativa. Em caso de intervenção, mesmo que milagrosamente dê certo e acabe com o conflito, vai haver protestos contra imperialismo, denúncia de interesses escusos e possivelmente desestabilização da região como um todo (o Irã pode fazer alguma bobagem, retaliação sino-russa, e por aí vai). Caso nada seja feito, mais uma vez a ONU perderá credibilidade por não ter evitado uma tragédia. A única solução que evitaria qualquer desfecho negativo seria a pacificação pela negociação, mas levando em conta quem está lutando, e o ponto a que chegaram as coisas, esse caminho é agora um sonho.


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Briga de gente grande

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A Guerra Fria pode não ter sido a melhor coisa pro mundo em sua época, mas podemos dizer que realmente fosse um fenômeno de compreensão bem mais fácil. Na dúvida, se ocorria algum problema no cenário internacional, a possibilidade era de que remetesse de algum modo à rivalidade entre EUA e URSS. E aquela rivalidade que teria sumido junto com a União Soviética nos anos 90 pode estar escondida por aí, ter um capítulo novo e ser bastante relevante no cenário caótico contemporâneo. 

Contrariando algumas expectativas (inclusive minhas), o fujão Edward Snowden acabou conseguindo seu asilo temporário… na Rússia! Qual o seu destino (ficar por lá, buscar asilo num país sul-americano ou o que for) é um mistério, mas a consequência imediata foi um choque nas relações entre Moscou e Washington. Obama ia visitar Putin… mas já cancelou a viagem. Ainda assim vai participar da reunião de cúpula do G20, em São Petesburgo, mas vai ser um daqueles encontros bem constrangedores. 

O fato é que a Rússia sempre trocou farpas com os EUA faz algum tempo, em questões pontuais. Vale sempre lembrar a questão do escudo de mísseis da OTAN, cria americana que quase levou a Rússia às vias de fato. Ou a famosa questão da lista Magnitski (uma “lista negra” feita por Washington que congela bens e impede a entrada nos EUA e países europeus de alguns cidadãos russos supostamente envolvidos em violações de Direitos Humanos e na morte do jurista homônimo), considerada uma afronta na Rússia. Isso para ficar nos problemas mais famosos.

Ao mesmo tempo, a relação entre os países é importante de um ponto de vista positivo. As negociações para redução de armas estratégicas passam diretamente pelos detentores dos maiores arsenais nucleares do mundo. Os países colaboram ativamente com relação ao combate a terrorismo. Mas é o suficiente para garantir uma aproximação mais sólida? Eventos como esse asilo do Snowden parecem mostrar que não. 

O interessante de tudo isso é ver a imagem atual dos países – e pode explicar muito as razões por trás da decisão de Moscou. Os EUA estão com a imagem muito arranhada: ataques com drones, indecisões na Síria, espionagem internacional e violação de privacidade por todos os lados… Mesmo iniciativas promissoras, como a possível retomada do processo de paz na Palestina, são eclipsadas por notícias negativas como a ameaça terrorista a embaixadas norte-americanas. E a Rússia não vai muito longe disso – o noticiário internacional não é muito favorável a eles também, indo das críticas às violações de direitos humanos à gozação pelas histórias de pescador (literalmente) de Vladmir Putin. 

Dando uma mão a Snowden, a Rússia parece querer mostrar uma imagem de defensora de liberdades, talvez com a intenção muito mais de mostrar uma imagem positiva do que de espezinhar os EUA mais uma vez. Enquanto isso, o nerd fujão que pôs o mundo em alvoroço passeia de taxi em algum lugar da Rússia…


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Vermelho de vergonha

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Caro leitor, se acha que a corrupção é ruim por aqui no Brasil… bom, digamos que não seja exclusividade nossa. Nos últimos anos, a China foi invejada pelo crescimento econômico e pujança, mas isso veio acompanhado de um legado bastante nefasto, que é como uma consequência indesejada dessa máquina que impulsiona o desenvolvimento de lá. 

Nessa semana, o ex-dirigente do Partido Comunista, Bo Xilai, foi formalmente indiciado por acusações de corrupção. Não foi pouca coisa – trata-se do maior escândalo de poder no país nas últimas décadas. Bo era não apenas um político relativamente novo, na mais alta esfera do poder chinês, e que mandava na maior cidade do país, mas também o rival direto de ninguém menos que o ex-primeiro ministro Wen Jiabao (que teve papel predominante na sua queda). Trocando em miúdos, um assessor de Bo se envolveu numa tentativa de asilo nos EUA no ano passado que acabou parando em uma investigação sobre o assassinato de um empresário norte-americano. Descobriu-se que a mentora havia sido a mulher de Bo, que já foi até condenada à morte pelo crime (mas teve a pena comutada para prisão perpétua), e a investigação foi parar em Bo e seus esquemas de abuso de poder e subornos. 

O que resulta de tudo isso? Primeiro, um potencial sucessor a cargos mais importantes sai de cena (literalmente, não é visto em público há mais de um ano) e deixa um cenário mais previsível quando houver um novo ciclo presidencial na China. Segundo, e mais sério, o risco econômico que essas denúncias podem acarretar. Por exemplo, temos uma grande empresa farmacêutica que foi pega em um esquema de propinas a oficiais e autoridades chinesas. Imediatamente a matriz tenta controlar os danos e chega até mesmo a se afastar da filial chinesa problemática. Pode dar lucro por lá, mas deixa uma imagem muito ruim fora do país. Mesmo a denúncia de Bo foi um choque para os mercados. 

O problema é que a corrupção praticamente faz parte da estrutura de poder na China (o país está ranqueado numa posição bastante ruim em índices de percepção de corrupção) e empresas que vão para lá levam isso em conta, pois resultam em gastos “por fora”. E isso em um país que precisa de taxas de crescimento anormais e começa a sofrer, com a necessidade de estímulos cada vez mais constantes, é um sinal bastante desanimador. 

Mas e a corrupção em si? A grande crítica à condenação de Bo é que se ele caiu em desgraça, quanto pior não fizeram aqueles que impulsionaram sua carreira. Quando serão pegos? Ou melhor, serão pegos? É possível enquadrar padrões morais ocidentais nessa sociedade de padrão único que é a chinesa atual? O fato é que os próprios dirigentes ficaram constrangidos pela denúncia, e devemos lembrar que política ainda se vale muito de prestígio. Por mais que haja restrições à expressão na China, as denúncias tiveram seu impacto na mídia, e uma população com níveis de vida cada vez melhores vão cobrar por bons serviços – e bons políticos, de um modo ou de outro. Este é apenas mais um desafio para o enorme quebra-cabeças que ainda é o futuro do Império do Meio.


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