Quem é vivo aparece…

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…e no caso da Coreia do Norte é uma boa notícia. A fim de desmentir boatos que circulam há semanas sobe seu estado de saúde, o líder do país, Kim Jong-un fez uma aparição pública esta semana para mostrar que está firme e forte na condução da nação. A questão é que o herdeiro da dinastia Kim estava sumido há quase 40 dias e não compareceu a eventos políticos importantes, o que causou todo tipo de especulação (especialmente dos sul-coreanos) sobre todo tipo de sinistro que pudesse ter acometido o grande líder, de um golpe militar a problemas de saúde graves, e até mesmo a morte. Na verdade, essa possibilidade ainda não está descartada – há que diga que seja um sósia roliço…

Naquele mundo à parte da realidade que existe no país asiático, o que se sabe é que Kim apareceu de bengala e parece ter a saúde fragilizada. Em essência, a confirmação de sua permanência é uma boa notícia, pois o marechal de 31 anos já demonstrou reiteradas vezes ser um líder bem mais ponderado que seus antecessores (o que o colocaria em choque com os mais conservadores e radicais do partidão). Kim Jong-un, de educação ocidental, pode ser o fiel da balança quando pensamos na relação da Coreia com sua vizinha do sul e as potências ocidentais.

Apesar dos disparos e eventuais escaramuças, atitudes recentes como a liberação da entrada de familiares separados desde a época da guerra da Coreia, e reuniões militares de alta patente reforçam a noção de que nunca antes os países estiveram tão perto de chegar a um consenso sobre seu conflito congelado. Apesar da bravataria e testes de mísseis, a possível retomada do “six-party talks”, a negociação com os EUA, Rússia e outros países sobre o programa nucelar norte-coreano é um sinal extremamente louvável de que se pode vislumbrar uma solução pacífica para a questão.

Ainda persistem temores, especialmente do Japão, além de rusgas pontuais como o problema da libertação de três americanos presos por espionagem, mas não era possível pensar nesse tipo de aproximação clara quando Kim Jong-Il estava no poder. Cercada em mistério pela censura oficial, o que dá para saber sobre a Coreia do Norte é que Kim Jong-um tem um impacto positivo nas relações internacionais do país, e a sua permanência deve ser, de certo modo, comemorada.


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Democracia, pero no mucho

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O mundo se volta para China esperando a reação de Beijing aos protestos em Hong Kong.  Iniciados nesse fim de semana, à moda dos protestos de ocupação europeus e nos EUA, pequenas multidões se aglomeravam em espaços públicos pedindo por democracia. Apesar de nem chegar perto da truculência de 1989 (mesmo por que o governo da região é autônomo), a polícia honconguesa fez o que qualquer polícia do mundo faria e chegou atirando gás nos manifestantes. A reação, como qualquer massa de manifestantes no mundo faria, foi de se aglomerar ainda mais em protesto à violência policial. O resultado é que hoje temos 80 mil pessoas nas ruas e uma incógnita.

A razão de tudo isso são as eleições do governante da ilha. Desde que deixou o domínio inglês, Hong Kong funciona num modelo de “um país, dois sistemas”, com uma autoridade semiautônoma na ilha e funcionando no capitalismo de mercado. Um dos pequenos benefícios disso era a capacidade de escolher os próprios governantes. Nisso a China não mexe – mas neste ano, porém, resolveram que é o governo central quem vai escolher os candidatos, possivelmente limitando aos amigos de Beijing. Ou seja, o povo de Hong Kong vai escolher seus líderes – mas entre os escolhidos pela China. E isso enfureceu a massa.

Agora o governo insular fica em uma encruzilhada. Tem de reprimir os protestos pois ainda é assunto de sua responsabilidade, e trazer Beijing para este cenário seria preocupante, sem contar que desagradar o governo central seria ainda pior. Por outro lado, angariar a insatisfação da população sem atender às demandas pode resultar em ainda mais protestos e a coisa sair do controle. Sem contar que Hong Kong tem uma transparência muito maior que outras partes da China para a mídia internacional, então os resultados podem ser catastróficos. A própria China já se move no sentido de tentar abafar o caso, seja para evitar intrusão estrangeira, seja para que o exemplo não espalhe ideias estranhas para outras regiões menos satisfeitas do país, mas qualquer repressão mais pesada pode ter o efeito inverso e espalhar ainda mais insatisfação como quase todas as revoltas do mundo nos últimos 3 anos demonstraram.

Desdobramentos internacionais à parte, talvez a grande lição disso tudo… seja para o Brasil. A uma semana das eleições nacionais, onde insatisfação com os rumos da política se tornam piada, fúria retórica vazia ou indiferença, a revolta do povo honconguês diz muito sobre espírito cívico, sem apelar às bobagens do nacionalismo ou da violência.


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Troca de parcerias

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O mundo dá voltas, e como todo bom Realista tradicional diria, o inimigo de hoje pode ser o amigo de amanhã – desde que com um adversário em comum. Exemplo clássico disso foi a Guerra Fria, quando os Aliados da II Guerra Mundial, EUA e URSS, após darem a devida sova na Alemanha, passaram a se rivalizar na ausência de um mal maior. Pois bem, os EUA passam por isso de novo neste exato momento. E em duas frentes.

Enquanto Obama autoriza seus caças a bombardearem posições do ISIS no Iraque, a OTAN suspende as ações de cooperação com a Rússia, em um claro sinal de descontentamento que remete à rusga de Moscou com Washington. Ambos os casos revelam como as dificuldades da política internacional fazem os parceiros desse jogo mudarem de lado sem aviso.

No caso da Rússia, é pedra cantada faz um bom tempo. Várias análises demonstram que Bush e Obama tentavam se aproximar de Putin enquanto o governante russo dava de ombros e se empenhava em projetos de fortalecimento interno e projeção regional. Deu no que deu, como vemos nos posicionamentos opostos na Ucrânia e na Síria. Especialmente na Ucrânia, onde o apoio velado aos separatistas faz com que um dos grandes aliados estratégicos dos EUA (lembrem que não é apenas o lado europeu – a Rússia tem grande peso no lado do Pacífico, onde fervem as águas entre Japão e China, e os EUA tem todo o interesse do mundo na estabilidade da região) acabasse se vendo do lado oposto numa disputa política intrincada e perigosa. A cereja do bolo foi o asilo concedido ao ex-analista da NSA Edward Snowden, que agora pode vir a se tornar um cidadão russo (uma baita ironia, diga-se de passagem).

No caso do Iraque, a consequência é ainda mais incrível. Se no caso da Rússia a aproximação pós-Guerra Fria está virando um descontentamento, a intervenção norte-americana pode ser o elemento que faltava para trabalhar em conjunto com ninguém menos que o centro do “Eixo do Mal” de Bush filho. Podemos retomar a culpa pela origem do ISIS na ação norte-americana desde 2002 e definir que qualquer ação no Iraque não será menos que resolver um problema que eles próprios criaram, mas a organização radical tem a capacidade de polarizar quase todo mundo contra eles, incluindo Al-Qaeda e o Irã. Os EUA não estão dispostos a mandar tropas depois do trabalho que Obama teve para retirá-las, mas o enfraquecimento do ISIS pode vir a significar uma ação efetiva do Irã para reduzir a instabilidade e dar suporte ao governo local, seu aliado.

As implicações são muitas, chegando até mesmo ao conflito da Síria (onde os EUA estão se tornando inimigo dos dois lados), logo pensar em uma ação conjunta de fato de EUA e Irã parece improvável. Porém, indiretamente, pode ser um rumo interessante para os EUA que Teerã ajude a manter a estabilidade da região, e a lenta reaproximação após a eleição de Hassan Rouhani tornou factível o que antes era impensável. No mundo da geopolítica, o pragmatismo é uma virtude.


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A defesa (re)nascente

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Esta semana foi histórica para o Japão. O país historicamente marcado pelo espírito de combate e que por algumas décadas se empenhou em um militarismo imperial que acabou se mostrando suicida para depois da Segunda Guerra Mundial ser transformado em uma potência pacífica, aprovou uma emenda constitucional que flexibiliza o uso da força pelas suas Forças de Auto Defesa (ou SDF).

Calma, isso ainda não significa que o Japão vai poder disputar as ilhas Senkaku no braço. A emenda, que já estava no ar há algum tempo, adicionou algumas condições bem específicas para o conceito de “autodefesa coletiva”. Segundo a constituição do país, suas forças armadas devem ser usadas especificamente para a defesa do território nacional, e nada mais, sem poder usar a força para resolver qualquer conflito fora do arquipélago. Agora, com a mudança, caso algum aliado do Japão esteja em risco, e com o Japão na mesma situação, pode haver alguma ajuda – por exemplo, abatendo mísseis norte-coreanos lançados contra a costa oeste dos EUA.

Na prática, é uma medida que não muda quase nada – o conceito empregado é uma variação do já consagrado ideal da “segurança coletiva” nascido do presidente Wilson quase 100 anos atrás e alicerce do funcionamento da ONU. Nesse sistema, ninguém pode atacar ninguém. Se algum de nossos amigos for atacado, absolutamente todos devem ajuda-lo, e quem atacou está obrigatoriamente errado. Claro que na prática não funciona bem assim, mas a ideia está aí faz tempo e a emenda japonesa não é nenhum ovo de Colombo.

Porém, essa mudança ainda que sutil tem um efeito moral e simbólico fundamental. Como dito acima, é a primeira vez em décadas que o Japão mexe no ponto mais característico da sua constituição, e que é considerado um dos fatores mais benéficos para seu desenvolvimento. A justificativa, é claro, são as ameaças dos vizinhos, com o debate sobre as ilhotas com a China ou o programa nuclear norte-coreano. Mas isso é uma ameaça de fato? Nos últimos anos Japão e China mantinham uma certa aproximação (ainda são grandes parceiros comerciais), especialmente nas reuniões da ASEAN, e até mesmo suspendeu sanções contra a Coreia do Norte por “bom comportamento”. Essa medida, de fato, pode ter o efeito contrário – no bom e velho paradoxo da segurança, quem pode se sentir ameaçado são os vizinhos do Japão, que ainda tem contra si um passado imperial e violento sobre o sudeste asiático. A medida foi criticada duramente na região, especialmente, é claro, na China.

Todavia, o maior impacto ainda é interno. Boa parte da população não aprova as mudanças (o pacifismo se tornou um valor querido pelos japoneses), e uma flexibilização mais radical é literalmente impossível. Com isso, a medida do premiê Shinzo Abe parece ser uma prova de força contra a oposição em um país dividido politicamente e em crise moral. Basta ver notícias recentes, como a da parlamentar que foi ofendida durante um discurso sobre políticas de natalidade por um colega do Legislativo e resultou em um pedido de desculpas público do agressor, ou do constrangedor choro de um vereador corrupto, flagrado torrando o erário em resorts e soltou o berreiro. Há alguns anos o Japão enfrenta instabilidades política e uma insatisfação crescente com seus governantes, e a busca por mais segurança (no sentido de estabilidade, indo justamente a um dos pontos mais sensíveis da política internacional, que é a Defesa), pode ser uma arriscada aposta de Abe.


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Imagem da Semana

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China 2014

A imagem dessa semana é marcante: trata-se do registro do 25º aniversário do massacre da Praça da Paz Celestial, na China. No último dia 04 de junho, milhares de pessoas se reuniram nas ruas de Pequim para exigir liberdade e democracia relembrando as vítimas de repressão (em sua maioria estudantes) durante os protestos de 1989 na Praça da Paz Celestial.

Uma multidão (estimada em 100 mil pelo governo, 180 mil segundo outras fontes) se reuniu nesta data simbólica e fica o registro da imagem impactante dos milhares de pontos luminosos nas ruas, 25 anos depois da consagrada imagem do homem desconhecido enfrentando os tanques de guerra do governo

China 1989


Há um ano...

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Relogio

Há um ano, o blog comentava o grupo BRICS, composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, cuja V Cúpula anual acabava de se realizar na Índia. Em uma análise crítica e construída com base em argumentos concretos (vale a pena rever aqui), apresenta-se uma reflexão sobre a real efetividade do BRICS no atual contexto internacional. Acrônimo que reúne países de inegáveis proporções estratégicas, de que forma lidar com as lutas de poder em diferentes âmbitos multilaterais (Contexto de Segurança, por exemplo) para consolidar um grupo de tamanho potencial?

Fica a pergunta no ar, em um ano em que a Cúpula será “atrasada” para realizar-se em Fortaleza, logo após a final da Copa do Mundo. Diante do impasse internacional envolvendo a anexação da Crimeia pela Rússia, o BRICS tem se mostrado um fórum em defesa do diálogo e da não exclusão dos russos do G-20 (tal como já ocorreu com o G-8/G-7). De que forma o bloco evoluirá, pouco se pode presumir, porém fato é que o papel da Rússia poderá definir rumos diferenciados de construção e embate político entre grandes potências mundiais (emergentes ou não) diante de alianças e enfrentamentos.

Outro tema discutido no blog era a (sempre polêmica) Coréia do Norte, persistindo “alheia à ordem internacional”. Diante do uso de recursos bélicos contrapostos a pressões econômicas, vemos um país perpetuar práticas de abusos contra os direitos humanos de seus cidadãos em suas mais diversas formas. Com a recente aprovação total (!) nas urnas legislativas, Kim Jong-un segue com a ditadura que manda um recado claro para a ONU “cuidar de sua vida” (!!!) em meio a debates sobre crimes contra a humanidade cometidos no país… ano após ano, apenas a gravidade das acusações parece aumentar.

Por fim, fomos brindados com uma interessante (e atemporal) reflexão sobre diferenças culturais e religiosas e a forma como reagimos a elas. Vale a releitura!

Postando, relembrando e refletindo, este é o propósito do “Há um ano…” na nossa Página Internacional!


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O que deu errado?

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O que deu errado na Turquia? A exemplo do BRICS, o país tem participação em seu próprio acrônimo, o MIST (junto com México, Coreia do Sul e Indonésia), como uma possível ilha de crescimento e futuro econômico. Mas ironicamente essa esperança parece se dissipar em uma névoa nos últimos dois anos, com crise econômica e um abalo político sem precedentes que transformou a imagem do primeiro ministro Recep Erdogan de um líder progressista em um tirano. Duas notícias dessa semana podem explicar um pouco dessa decadência.

Vendo de fora, há pelo menos dois fatores que explicam a importância de Ankara no cenário regional – sua relação com Israel e com a Síria. Após o ataque à flotilha de ajuda humanitária em 2010, as relações com Israel azedaram e a coisa esfriou apenas no ano passado com pedido de desculpas do premiê Netanyahu. E a Turquia é um dos principais interlocutores do processo de paz com os palestinos, então a situação não vai tão mal hoje. O problema mesmo é com a Síria – antigo aliado, mas que após o início dos conflitos com Assad se tornou inimigo com o apoio de Erdogan a grupos opositores – muitos deles extremistas. A guerra civil síria resulta em conflitos de fronteiras (com eventos como a possível derrubada de um avião sírio reportada nesta semana) e o principal fator de instabilidade, a fuga maciça de refugiados para o lado turco da fronteira. Estima-se algo em torno de 750 mil (mas pode chegar a  um milhão) de sírios no país vizinho, criando pressões internas além das que o governo já enfrentaria normalmente (como a questão curda). E isso tudo pra não falarmos do seu papel nas negociações com o Irã – apesar de o acordo costurado junto ao Brasil não ter vingado em si, ainda são países vizinhos, e um reage aos espirros do outro.

Mas aqui entra o segundo ponto – o apoio de Erdogan a grupos extremistas é sintomático da sua posição ideológica. A Turquia se orgulha de ser um Estado laico (desde os tempos do “pai fundador”, Ataturk), e Erdogan gradualmente aplicou uma agenda islâmica, que foi a raiz dos conflitos  em sua administração, somada ao atrito com o exército e denúncias de corrupção generalizada. E como todo governante que concentra poderes em um sistema corrompido, Erdogan retalia os inimigos com força. Nesta semana, se valeu de um dos grandes recursos clássicos dos líderes autoritários, literalmente, calar a voz da oposição, com a proibição de serviços como Twitter e Youtube. Censura descarada. A justificativa é para evitar “revelações” que poderiam causar guerra com a Síria (algo indesejável mas não impensável no momento), mas fica claro que é um “sacrifício” bem oportuno para a situação.

Talvez o grande ponto de crise seja o próprio Erdogan – não é um excêntrico como Kim Jong-un (que alegadamente baixou um decreto obrigando os cidadãos a usar cortes de cabelo aprovados pelo governo), mas gradualmente caminha para o caminho do autoritarismo (se já não tiver chegado lá). No mínimo desanimador, já que a vibrante democracia turca fazia com que se apostasse muito em sua liderança e estabilidade para esse cenário de crise. Com o sonho de ingressar na zona do Euro praticamente enterrado, temos um país em crise econômica acentuada e convulsionando politicamente. A esperança de mudança para esse quadro pode vir nas eleições do próximo domingo, em que vamos saber se surgirá uma nova liderança capaz de colocar o país nos trilhos ou se o impetuoso líder atual continuará aprontando.


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Os confrontos esquecidos

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Central-African

Os distúrbios recentes na Ucrânia retiraram, por algum tempo, o foco do noticiário internacional da crise Síria. Agora que a situação parece “sob controle” (apesar de a anexação da Crimeia à Rússia trazer um abacaxi para o Direito Internacional e ser o prelúdio de uma complicada guerra econômica de sanções na Europa), podemos voltar a nos preocupar com as centenas de milhares de mortes na conta do senhor Basshar al-Assad e desafetos. Porém, aproveitaremos a postagem de hoje para mostrar que, se a situação Síria é ruim, temos muitos outros conflitos ainda piores rolando nesse exato momento.

A Somália, por exemplo, que apareceu mais por causa dos casos de pirataria em alto-mar que pela miséria que assola a nação há mais de 20 anos, está em guerra civil por quase todo esse tempo – o que não é nenhuma surpresa. A bola da vez é o conflito com extremistas islâmicos jihadistas, que trouxeram a novidade do atentado suicida a uma região já caracterizada pela brutalidade dos conflitos sectários africanos, com expedientes tradicionais como o estupro e a mutilação. Mais de 20 anos de guerra e corrupção arruinaram o país, considerado por muitos como um exemplo de Estado falido. Para piorar, ainda soma à sua contagem de corpos aqueles que não perecem no conflito, mas na travessia do Mediterrâneo, fugindo da situação desesperadora em que se encontram.

Um pouco ao sul, na República Centro-Africana, a violência aumenta. O conflito de natureza religiosa produz horrores como pessoas sendo atiradas em rios para serem devoradas por crocodilos ou crianças decapitadas. Mais uma vez, grupos islâmicos estão envolvidos, ao derrubarem o presidente no ano passado – porém, não são os “protagonistas”, já que sua violência serviu como justificativa a muçulmanos comuns pelo resto da população, o que tornou uma outrora pacífica convivência religiosa no mais sangrento conflito entre cristãos e muçulmanos no mundo de hoje. A França envia um contingente para auxiliar as forças de paz da União Africana, mas seu interesse é pontual (basicamente, espezinhar o interesse chinês na região) e apesar do discurso humanitário da União Europeia nenhum outro país europeu tenciona enviar tropas para conter a violência. O resultado é literalmente o risco de uma nova Ruanda, com um genocídio anunciado, mortes na casa de milhares e mais de um milhão (cerca de um quarto da população) de refugiados.

Agora, os campeões nesse “score” macabro são dois conflitos velhos conhecidos, do Afeganistão e do Iraque. Apesar de estarem mais em voga por causa da reação ao 11/09, essas guerras podem ter suas origens puxadas lá para a década de 80, já que ambos os países nunca experimentaram alguma estabilidade desde a invasão soviética ou a guerra com o Irã, respectivamente. O fracasso dos EUA em alcançar seus objetivos, com a retirada do Iraque e gradual abandono do Afeganistão, tornaram essas guerras “esquecidas” pela mídia, com a menção esporádica de algum atentado, mas que continuam a ocorrer diariamente. Mesmo desconsiderando o período histórico mais longo, estamos falando de conflitos onde o número de mortos pode chegar à casa dos milhões – e que, definitivamente, não estão encerrados: não passa uma semana sem o anúncio de algum atentado em Bagdá ou Cabul com dezenas de mortes. Existe até um site que faz a contagem dos mortos no Iraque desde a intervenção norte-americana.

Claro que, em termos de vidas humanas, qualquer guerra é negativa, sejam 100 ou 1 milhão de mortos. Porém, os casos apresentados (e são apenas alguns) mostram que, como sempre, o interesse da “opinião pública” internacional sobre os conflitos mostra um pouco do interesse dos grandes centros de poder da mundo – na Síria, onde há interesses de grandes potências em choque, se despendem recursos estratégicos e diplomáticos. Mas, como vemos, não parece ser o caso em um Estado falido, com interesse marginal de uma potência decadente, ou de fracassos da superpotência meio que jogados ara baixo do tapete.


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Apreensão e luto antecipado

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Drama queda avião
Desastres aéreos sensibilizam e repercutem internacionalmente de forma ampla, dada a quantidade de vítimas fatais, a incerteza sobre as causas desses desastres e o impacto no dia-a-dia de milhões de pessoas que dependem do transporte aéreo. Elementos que não se comparam ao drama vivido pelos familiares e amigos enquanto permanecem as incertezas sobre um caso assim…

Há quase 48 horas, o desaparecimento de um avião com 239 pessoas a bordo na Ásia aflige centenas de familiares dos passageiros – principalmente chineses, causando apreensão e um triste sentimento de luto antecipado no mundo inteiro.

O mistério envolvendo o desaparecimento do avião na rota Malásia-China persiste, já que foram encontradas manchas de óleo no oceano, mas ainda nenhum resquício de destroços do avião pôde confirmar as hipóteses. Em momento assim, mesmo a hipótese de terrorismo está sendo cogitada, já que aparentemente dois passageiros do voo embarcaram (!) com passaportes roubados, o que torna a situação ainda mais complexa.

Pensar que um avião de uma das maiores companhias aéreas asiáticas possa simplesmente sumir da rota em pleno ano de 2014 parece cena de filme hollywoodiano, mas, de fato, reflete um acontecimento real que, se confirmado, pode configurar-se no pior desastre aéreo do mundo na última década. Fica o registro de apoio do blog neste momento, bem como a expectativa de que o mistério se esclareça pela paz de todos os envolvidos.


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As reais imagens de Sochi

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Sochi Simbolo

Na última sexta-feira houve a abertura oficial dos Jogos Olímpicos de Sochi 2014, na Rússia. O que apareceu na televisão foi eloquente, bonito e alegre como normalmente são todas aberturas de grandes eventos. A delegação de doze atletas brasileiros foi saudada como carinho, a delegação estadunidense entrou ovacionada parecendo esquecer-se do boicote ocorrido em ocasião passada e a delegação russa fechou tudo com o “espetáculo de encher os olhos”.

Até aí tudo bem. No máximo divulgou-se que houve uma falha na abertura dos anéis olímpicos, porque o último deles permaneceu fechado e, adivinhem, representa o continente americano. Talvez tenha sido até proposital para as teorias da conspiração dizerem que o suposto erro representa os velhos tempos de Guerra Fria com o embate entre Estados Unidos e União Soviética.

Brincadeiras à parte, vamos às reais imagens de Sochi:

1) Corrupção

Somente uma parcela mínima da mídia divulgou que a olimpíada russa custou mais que o dobro da Copa de 2014 e Rio 2016 juntas, somando um valor não-oficial de 50 bilhões de dólares! Isso, inclusive, foi postado no texto “Imagem é tudo” aqui na Página Internacional. Segundo dados da ONG Fundação Anti-Corrupção, esse montante representa de 1,5 a 2,5 a mais do que o normal se comparado com outras olimpíadas de inverno. Em Pequim (2008) foram gastos 43 bilhões de dólares, em Vancouver (2007) 7 bilhões, em Londres (2012) aproximadamente 14 bilhões e no Rio de Janeiro (2016) estima-se um total de gastos/investimentos nessa ordem também de 14 bilhões de dólares.

2) Preconceito contra homossexuais

Em janeiro, o presidente russo, Vladimir Putin, disse publicamente que os visitantes gays que desejavam ir aos jogos de Sochi não deveriam temer o país, mas que os mesmos precisavam “deixar as crianças sozinhas”. Dias atrás a ONG Human Right Watch (HRW) publicou um vídeo em que são mostrados diversos ataques a gays e lésbicas no país. As imagens são revoltantes e diversas organizações acusam o governo conservador russo de perseguir os homossexuais e não investigar seriamente os ataques feitos contra os mesmos. Essa questão vai muito além das olimpíadas, mas até mesmo Thomaz Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) afirmou na abertura que os jogos são “festival de esportes que abraça a diversidade humana e sua grandiosidade”.

3) Exclusão social

Em matéria intitulada “Sochi tem o ouro. Vila ignorada tem a poeira”, o New York Times trouxe a notícia do total descaso do governo para com regiões vizinhas de Sochi, citando o caso do vilarejo de Akhshtyr, o qual é situado entre dois complexos esportivos dos jogos. Lá não há combustível, a qualidade da água é horrível e não existem estradas de escoamento ou que permitam a saída tranquila e viável dos moradores. As imagens podem ser encontradas no link da notícia e revelam o outro lado de Sochi, literalmente.

Cidade Sochi

Obviamente, a abertura dos jogos é legal de assistir e os esportes ganham uma nova roupagem nessas épocas. Entretanto, muito mais do que isso, é preciso atentar-se e aludir algumas questões que ficam “embaixo do tapete”. Era para eu ter escrito o texto da “Imagem da Semana” aqui na Página Internacional, mas acabei escrevendo sobre as reais imagens de Sochi que não aparecem na TV. Corrupção, preconceito e exclusão social são algumas delas.


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