A perpétua prisão afegã

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Caros leitores, como sabemos, a Casa Branca anunciou ontem o novo plano para o Afeganistão: uma nova proposta para a reconstrução do país e mais uma quimera norte-americana.

Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos armaram o Afeganistão para conter a ameaça soviética. Hoje, quase duas décadas após a queda do Muro de Berlim, o Afeganistão tornou-se a ameaça do seu patrocinador. E, neste cenário de ameaças difusas e confusas, o Paquistão adentrou ao rol das preocupações norte-americanas.

A sensação do momento nos discursos de segurança nacional do governo norte-americano é o terrorismo. Termo que também se figurou na agenda dos predecessores de Obama. E conter o terrorismo tem sido sinônimo de inventar guerras contra inimigos sem face e contra países que supostamente abrigam fantasmas.

Pobre Afeganistão! Do passado glorioso à ruína. No desfiladeiro de Hindu Kush, caíram os mongóis liderados por Gengis Khan, mas a armadilha não serviu para os soviéticos e para os norte-americanos. Nem para o Taleban. As lembranças heróicas da bravura afegã explodem junto com as minas espalhadas por todo o território e escoam junto com as drogas que atravessam suas fronteiras. A glória se reduziu à areia. Hoje, o país tem de receber ajuda de um governo invasor que intervém sob os auspícios da reconstrução política, da disseminação da liberdade e da democracia pelo mundo. Combate-se a Al Qaeda e o Taleban ao mesmo tempo em que civis são mortos.

Fazendo alusão a uma postagem anterior: até o mendigo da esquina já sabia que a intervenção dos Estados Unidos no Afeganistão só resultaria em bagunça. Quase oito anos após a primeira incursão, obteve-se uma ampla coleção de tentativas frustradas de eliminar a Al Qaeda e de reconstruir o país. E o resultado? Uma desaprovação de 51% da população norte-americana com relação à “Guerra” do Afeganistão, a permanente necessidade de ajuda externa, a emigração afegã pelo mundo, dentre outras desgraças. E a solução milagrosa? Enviar mais 4.000 militares com a finalidade de treinar as forças armadas e policiais afegãs. Que diferença isso faz?

Obama acaba de assumir uma guerra que não era sua – como se veiculou na mídia européia -, e da qual não era partidário. O Paquistão também. O país pediu o fim imediato do bombardeio norte-americano contra insurgentes em solo paquistanês.

Mais um complexo quadro moldado pela arrogância e prepotência dos Estados Unidos sob a insígnia da segurança nacional. Mais um motivo de descontentamento no Paquistão e mais tristeza no Afeganistão.

Se para John Keegan todas as civilizações tem origem na história da guerra, cabe-nos perguntar: quantas guerras o Afeganistão tem que travar para se tornar uma civilização, para se estabelecer genuinamente como um país? Por enquanto, tudo o que lhe resta é seguir confinado em prisão perpétua…

E não deixem de ouvir nossos podcasts! links ao lado.


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Ele não sossega…

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Há um tempo ele causou um estardalhaço no mundo ao anunciar que tinha testado armas nucleares. Ficou bravo ao fazerem um bloqueio marítimo que impediu a chegada dos mimos que tanto gostava, entre os quais caviar de esturjão e duas (isso mesmo, sempre em duplas) modelos suecas (isso mesmo, suecas). Agora ele ataca novamente, com caviar, modelo e tudo o que tem direito. E mais, reeleito com 100 % dos votos, nem mesmo o presidente Lula, no alto do bolsa família, seria reeleito assim, só o Saddam… É ele mesmo, Kim Jong-Il.

Pobre daqueles que pensaram que ele tinha sossegado ao ter o país retirado do eixo do mal pelo então presidente Bush ao aceitar um acordo em que desistia de seu programa nuclerar…

Eu, pessoalmente, não acredito que um país pobre como a Coréia do Norte tenha intenções boas em investir em armamentos nucleares enquanto o povo morre de fome. Do mesmo jeito que tenha minhas dúvidas quando um Aiatolá sentado no petróleo e que tem, portanto, energia de sobre, diz que vai investir em energia nuclear para fins pacíficos… Enfim, não vou entrar necessariamente nesse mérito.

O fato é que o problema na Coréia do Norte não é necessariamente eles terem o armamento nuclear. Tudo bem que é caro construí-lo, o investimento em tecnologia nuclear é muito alto. Mas, não adianta se ter uma bomba dessas debaixo da cama. Aliás, perto de si é que não se quer esse tipo de artefato nunca.

O problema é quando se tem um míssil capaz de carregar uma ogiva nuclear, principalmente quando esse míssil é de longo alcance. Porque será que quando o Irã consegue testar um míssil eles gravam, colocam no youtube, vai pra TV e os EUA ficam doidos, principalmente no tempo do Bush e de suas doutrinas de segurança?

No caso da Coréia do Norte, míssil suficiente para atingir os EUA, a Coréia do Sul, Japão, enfim… o suficiente para colocar mais mais lenha na fogueira de uma região com 4 potências nucleares e problemas demais com que se preocupar.

E há com o que se preocupar, sim, pois há uns tempos atrás a Coréia do Norte fez um teste com outro míssil que passou por cima do Japão antes de cair no mar. Quer ameaça maior do que essa? É mole? É mole mais sobe, como diz o macaco simão, e no caso do míssil sobr mesmo, o duro é onde ele vai cair…

Portanto, é isso que está acontecendo por lá nessa semana. O tal do Kim Jong-Il inventou que quer testar um satélite. Os serviços de espionagem da Coréia do Sul dizem que, na verdade, ele quer testar um míssil. E pra complicar ainda mais, é óbvio que não querem deixar ele fazer o teste, que ocorreria bem na época em que EUA e Coréia do Sul estão realizando um exercício militar por lá, olha que coincidência!

Tanto que se cogita, inclusive, que, ao anunciar essa semana que não daria mais segurança ao aviões que sobrevoassem seu espaço aéreo, a Coréia do Norte deixou o espaço aéreo do país limpinho pra lançar o que queria propositalmente, já que as empresas aéreas foram obrigadas a refazer as rotas.

Resumindo, a situação por lá está tensa. A Coréia do Norte está até ameaçando de guerra quem derrubar o tal satélite-míssil… O povo está, como se diz por aqui, de cabelo em pé.

Aliás, o ditador por lá também está de cabelo em pé… clique aqui

Pra descontrair um pouco, olha essas fotos” que eu achei do cara pela internet… o povo gosta dele!

Dançando tango

Em Thriller

Fazendo uma ponta em Heroes

Vestido de matrix

E, pra terminar, pego em uma hora não muito boa…

Até mais!


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Levanta o topete, bate no peito e diz que tem moral…

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[Olá, pessoal. Por favor, comentem! Quem quiser fazer um post: envie um e-mail para [email protected] E, se você gostou da Página Internacional, ajude a divulgar!]

A Exame dessa semana trouxe um artigo do J. R. Guzzo (quem quiser ler clique aqui), chamado: “Não adianta rezar a Santo Obama”.

Como sempre, esse cara é demais, escreve muito bem, e o próprio título do seu artigo já denuncia o que ele escreve. Não adianta ficar esperando que o pacotão do Obama resolva todos os problemas da economia. Uma frase me chamou a atenção: “Aconteceu apenas o que acontece quando se espera um milagre: o milagre não veio”.

De fato, quem esperava que o Obama, com uma canetada, resolvesse tudo, no mínimo, lascou-se. A coisa lá tá preta, e não vai se resolver assim tão logo.

Os EUA tem dois problemas hoje. O primeiro é o déficit orçamentário. Em palavras simples, o governo tem gastado muito mais do arrecada. E o novo orçamento do Obama vai aumentar esse rombo pra 12% do orçamento no ano que vem. Na CBN nesta sexta, o economista Carlos Auberto Sardenberg falou do assunto. Segundo ele, o normal é um país ter um déficit de 3 -4 % do PIB, e qualquer outro país do mundo já estaria quebrado com o rombo que os EUA têm.

Pois é, pessoal. Acontece que uma parte desse buraco ocorria nas contas correntes dos EUA. Ou seja, a grosso modo, eles importavam muito mais produtos do que exportavam. E foi exatamente isso que ajudou a puxar o crescimento do países que criaram um modelo chamado export-led. Ou seja, se industrializaram pensando em exportar. É óbvio que não vou me aprofundar muito nisso, mas os principais países dessa lista são Japão, Alemanha e China. Opa, mas essas não são as maiores economias do mundo depois dos EUA? São, sim, e aí reside o problema.

Com o Great Crash, como Roger Alpert chama a crise na edição de Jan/Fev da Foreign Affairs, esses países serão duramente afetados, uma vez que orientaram suas economias para a exportação, sobretudo para os EUA, que com eles mantinham um déficit. Agora a situação mudou. O Brasil, nesse rolo todo, obviamente se lasca também, porque vinha aproveitando a bonança do comércio internacional exportando commodities agrícolas e minerais para esses países todos.

O segundo problema a que eu me refiro é a taxa de poupança dos EUA. Ela está muito baixa, isso porque o governo, através da política que agora acabou, incentivava o consumo e o crédito farto. Por isso, a grosso modo, ao invés de poupar as pessoas se individavam.

Esses problemas parecem que não se resolverão tão cedo. A poupança não vai aumentar agora porque a tendência é que falte dinheiro. Além disso, o pouco dinheiro deve ser usado para o consumo básico. A questão do déficit, o orçamento do Obama já diz tudo, está aumentando. Com relação ao déficit em contas correntes (importa mais que exporta), por razões óbvias já está diminuindo. Assim, as perspectivas de melhora são pequenas, e não há Santo Obama que dê jeito nisso.

Mudando um pouquinho, mas ainda no mesmo tema, vocês devem estar acompanhando também a choradeira do Brasil reclamando do protecionismo dos EUA. Pois é, de fato eles estão sendo protecionistas, mas acho engraçado o governo que diz que o protecionismo deve diminuir, esses tempos tenha tentado voltar as defuntas licenças prévias de exportação… Elas só não ressucitaram porque a pressão foi enorme.

Agora vai ter a reunião do G-20 na Inglaterra e o Brasil já começou a querer levantar o topete de novo. Lula disse essa semana que o Brasil é o único país do mundo com moral pra lidar com a crise e que vai deixar isso claro na reunião do G-20. Por favor, né?! Não vou me delongar sobre isso, mas, por exemplo, o nosso senado até agora não se reuniu seriamente uma vez, não votou nenhuma medida anti-crise e o povo lá está brigando mesmo por conta da direção das Comissões. Sobre o executivo, há mais lero-lero do que ação prática. Autorizaram empresas com faturamento de até 600 mil reais a usarem o dinheiro do fundo para exportação mas não aumentaram a receita do fundo, aí fica difícil, né? Essa semana saiu outro indicador que mostra que o governo não cumpriu com o meta do superávit primário. Ou seja, está gastando mais do que deveria, mais do que está planejado, e não é com medidas anti-crise, não. Gasta com pessoal, com viagem de prefeito, enfim. Enquanto o Brasil estava bem economicamente e arrecando muito com impostos, isso não era problema, vamos ver agora. Isso é ter moral? Nem aqui nem na China.

Aliás, o Brasil está levantando o topete mesmo, o Amorim quis até indicar alguém para ser representante do comércio dos EUA… Além do mais está ameaçando os EUA de entrar na OMC. Por favor, né. Depois de torrar milhões de dólares com um processo na OMC por causa do algodão, que o Brasil ganhou, até hoje não teve coragem de aplicar o direito anti-dumping contra os EUA. Agora quer ameaçar? O Brasil teve muito tempo durante o governo Lula pra fechar um acordo comercial com os EUA (não estou falando da ALCA), como muitos países fizeram, inclusive o Uruguai, contrariando as regras do Mercosul. Mas não fechou nada nem com os EUA nem com nenhum outro país apostando na rodada Doha que até o mendigo da rua sabia que não ia dar em nada. Os EUA vão respeitar todos os acordos comerciais na Buy American… E a gente não tem nada com eles. A única coisa é o SGP (Sistema Geral de Preferências), que é unilateral e isenta alguns produtos de tarifa de exportação, mas ele vence esse ano e estão querendo tirar o Brasil.

Bom, resumindo. A coisa está feia para os EUA, está feia para o mundo e para o Brasil também. Ao invés de fazer alguma coisa o governo só reclama e diz que o Brasil tem moral, o que a gente sabe que não tem.

PS.: As regras do Mercosul impedem que um país do bloco feche um acordo bilateral com outro país. Assim, o Brasil não poderia fechar sozinho um acordo com os EUA, mas poderia ter negociado acordos de preferência tarifária, por exemplo, como vem fazendo ao conceder isenções de impostos para muitos países…


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Afeganistão

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Essa semana, o presidente Obama anunciou a intenção de enviar mais tropas ao Afeganistão. Em visita ao Canadá, o novo presidente, inclusive, falou com o primeiro-ministro do país sobre a idéia dos canadenses de reduzirem suas tropas no Afeganistão até 2011.

Uai? Mas não era pro Obama estar tirando tropas do mundo afora ao invés de querer que mandar mais?

Temos de lembrar, no entanto, que o Obama prometeu tirar tropas do Iraque, e não do Afeganistão… E, atendendo a pedidos de que falemos mais da Ásia, vamos aproveitar este gancho para começar!

É claro que existem muitas razões de diversas ordens para que os EUA tenham interesse em não sair do Afeganistão por agora, e, sobre isso, fiquem a vontade para comentar. Eu, no entanto, até pra não tomar muito espaço e tempo, vou falar sobre dois aspectos que acho importantes, um de caráter geopolítico e outro, relacionado à segurança (não necessariamente no modo militar clássico).

Em primeiro lugar, vou levantar uma teoria geopolítica dos tempos da guerra fria que alguns julgam estar ultrapassada, mas que eu ainda penso que explique alguma coisa. Ela foi criada por um tal de Zbigniew Brezezinsky. Em linhas gerais, ele explica os conflitos na guerra-fria entre EUA e URSS nos seguintes termos: A URSS, enquanto potência terrestre, precisava se expandir para um mar quente. No entanto, no lugar mais perto que tinha, a China estava por lá e não deixava. Lembremos que os mares do norte da Rússia são frios.

Assim, restava aos soviéticos tentar avançar pela Coréia, Vietnã ou pela Índia, olhando um mapa isso fica bem claro. No caso da Coréia, houve conflitos, no Vietnã também, mesmo que indiretos. E, para chegar à Índia, tinha um Afeganistão no meio do caminho… Nestes lugares todos houve conflitos entre URSS e EUA, não é mesmo?

E, para os que ainda possam duvidar disso, o tal do Zbigniew Brezezinsky trabalhou no governo dos EUA naquele tempo (na época do Jimmy Carter), na área de defesa, então, é provável que tenham o ouvido por lá ou que sabia mais que outras pessoas…

Eu ainda acho que isso explica muito. Em termos geopolíticos, o Afeganistão representa um enclave importante bem no meio da Ásia, e sua estabilidade e até mesmo controle interessam a qualquer país que pretende manter-se como superpotência. Tanto que a Europa também está muito presente por lá em bases no Tadjiquistão…

E vale lembrar também que a Rússia não está morta… A China está por perto e tem duas potências nucleares por lá, Paquistão e Índia… Além do Irã, é claro…

Menos polêmico que isso, no entanto, está a questão das drogas. Esses dias saiu mais um relatório de drogas da ONU e, como sempre, o Afeganistão continua sendo um dos maiores produtores de papoula. Vale lembrar, e não vou entrar muito neste detalhe que é bastante óbvio, que a ‘cadeia produtiva da droga’ financia muitas das atividades terroristas e que, acredita-se, as bases de comando de muitas células estejam na fronteira do Afeganistão com o Paquistão, principalmente nos territórios do Baluchistão e do Wariristão.

Por isso, acabar com a farra do boi das drogas na região é muito importante para manutenção da segurança não só na região, mas no mundo todo. Além disso, EUA e Europa são os maiores destinos das drogas produzidas lá, que passam pelo Tadjiquistão (rota da seda) e Turcomenistão (rota da Turquia) para irem para os seus destino.

Pode parecer pouco significativo, mas a questão das drogas é muito importante por financiar atividades terroristas, além de estar ligada ao tráfico de drogas e de pessoas, e nem preciso falar que isso é extramamente importante.

Além do mais, a região também tem muito petróleo, não o Afeganistão, mas principalmente o Uzbequistão e quem está perto do que interessa a todo mundo por lá, principalmente a China.

Por isso, em termos estratégicos, é uma besteira deixar o Afeganistão atolando por lá, não é mesmo? E é muito difícil que a OTAN saia de lá tão logo…

[Bom, sobre as notícias de domingo, o projeto está abortado, já que ninguém respondeu!]

[Aguardo comentários da Andrea, principalmente, que esteve comigo representando o Tadjiquistão na Conferência de Cooperação de Shangai sobre este tópico!]


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Será que a Rússia vai?

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Obama vai fazer uma proposta daquelas irrecusáveis à Rússia, daquelas que ninguém pensa duas vezes em aceitar.


Pois bem, ele quer convencer os russos a, juntamente com os Estados Unidos, reduzir os arsenais nucleares em 80%, segundo o jornal “The Times”.

Olha que beleza, Rússia e Estados Unidos juntinhos, diminuindo as armas nucleares, que beleza, o mundo mais seguro, tudo maravilhoso.

Sinceramente, por melhores que sejam as intenções de Obama, eu duvido muito que isso vá pra frente. Por um motivo óbvio. Nem vou entrar aqui em discussões acerca de teorias de relações internacionais. O fato é que quem olha pra Rússia, que vê as atitudes da Rússia, quem sequer já ouviu falar da Rússia, sabe que eles podem até aceitar formalmente um acordo desse tipo, mas não vão cumprir nunca.

Pra se ter uma idéia, quando a Rússia quer renegociar os preços do gás que vende à Europa, simplesmente se corta o fornecimento do gás, milhares de pessoas morrem de frio nos países que dependem dessa fonte de energia (o frio por lá é bravo), até que os europeus aceitem as exigências da Rússia.

Quer mais? Há um tempinho atrás, após um incidente diplomático com a Inglaterra que levou às expulsões mútuas dos embaixadores, a Rússia simplesmente enviou um avião com capacidade de carregar ogivas nucleares que sobrevoou Londres por um tempo. Até hoje a Inglaterra busca explicações.

O que mais se pode esperar de um país que tem (no caso tinha, porque Putin hoje é primeiro ministro mas já está mexendo os pauzinhos pra voltar à presidência) um presidente que passa o tempo a “salvar” jornalistas de tigres.

Mas o caso não é só a Rússia. Os Estados Unidos não vão cumprir um acordo desse tipo nunca. Primeiro porque o tema “segurança nacional”, por mais desgastado que esteja, ainda é muito caro para eles. Segundo porque Obama vai ter que passar este acordo pelo Congresso, e caso haja um ataque ou qualquer falha de segurança, enfim, nenhum congressista vai querer pagar o pato.

Aliás, Obama já tem recebido críticas sobre as políticas de segurança. Alguns políticos dizem que o país pode ser alvo novamente de um ataque. Enfim…

Mas até que o Obama está certo, porque o acordo sobre redução de armamento nuclear entre os Estados Unidos e a então União Soviética, herdado pela Rússia, está pra vencer em 2011 e, em negociações, a gente sabe que a primeira oferta nunca é a que vai ser fechada. Portanto, os 80% é um valor alto pra ser reduzido depois. E os EUA precisam de um acordo de controle de armas com a Rússia, pra, pelo menos no campo diplomático, dar uma segurada neles…

Neste caso, qualquer concessão vale, melhor abrir mão de alguma coisa e pelo menos ter o compromisso formal de que a Rússia não vai investir em armamento do que deixar tudo correr solto.

E os EUA tem um trunfo. Obama diz que pode rever a decisão sobre a implantação do tal escudo anti mísseis. E isso os Russos querem. Neste caso, vai do poder de negociação do pessoal por lá…

Bom, só pagando pra ver…


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Cuspindo no prato que come…

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[Este post manifesta minha opinião (Alcir Candido, já que este blog tem outros autores). Ou seja, sinta-se a vontade para comentar diretamente a este respeito…]

Nada melhor do que um post bem polêmico para se começar um blog, certo?

Certíssimo! Pois bem. O presidente do Brasil, recentemente, conversando com o primeiro ministro da Índia, disse que não mais quer comer a sobremesa dos ricos, numa referência à próxima reunião do G8 e à falta de influência do Brasil nas decisões do grupo.


O ministro Celso Amorim, por sua vez, disse que só aceitará o convite do Japão, que organizará o evento, caso as exigências do Brasil sejam aceitas: “Já dissemos a nossa condição para participar”.

Detalhe. O convite do Japão ainda não saiu, sendo que não passa ainda de uma cogitação.

As condições das quais se referia o ministro Amorim estão relacionadas às mudanças na distribuição do poder global pelas quais tem passado o mundo desde a crise. O Brasil quer que esta ‘nova’ distribuição de poder seja levada em conta nas decisões do G8. Segundo os estrategistas do Itamaraty, os países emergentes têm mostrado nesta crise sua força e, por isso, devem ser levados em conta nas decisões das grandes potências.

Bom, agora vamos às impressões gerais:

Ora, o Brasil não é membro do G8, seria apenas um convidado. Portanto, porque quer ter influência nas decisões do grupo? Aliás, o Brasil e outros quatro emergentes têm sido convidados há pouco tempo para pequenas partes da cúpula, antes mesmo da crise.

Além disso, o Brasil tem sistematicamente levantado o topete para os países mais ricos. Isto tem feito parte de uma estratégia de cooperação chamada sul-sul. Ou seja, entre os países subdesenvolvidos.

Não se trata aqui de se entrar no mérito de discutir se o pleito brasileiro quanto ao fato de que devem os países ricos levarem mais em consideração os emergentes é legítimo. Isto é óbvio.

O que é estranho é que o Brasil cospe no prato que come. Faz exigências em uma reunião em que nem se sabe ainda se é convidado e levanta o topete para os países que são seus maiores parceiros comerciais (com exceção da Argentina e do Mercosul). Além disso, o Brasil tem batido sucessivos recordes em investimentos diretos estrangeiros, cuja origem está nos países ricos. Independentemente do fato de que estamos sendo colonizados pelos capitalistas ou não, é indiscutível que esses e outros fatos relacionados aos países ricos tem contribuído para a estabilidade econômica inédita pela qual passa o Brasil. (Não podemos nos esquecer que os próprios emergentes também ajudaram, como as importações de commodities pela China, mas isso não justifica uma postura hostil frente aos outros)

Aliás, esta estabilidade é que justamente tem contribuído para que o Brasil faça parte dos tais emergentes e possa querer levantar o topete para os países ricos.

Agora vamos à parte do Brasil benevolente. Este mesmo que se deixa bater pela Bolívia, pela Argentina, pelo Equador e agora também pelo Paraguai. O que o Brasil conseguiu desde que começou a querer formar (e a liderar, como se não bastasse) a ‘liga da justiça do sul’?

Bom, em primeiro lugar conseguiu reforçar ainda mais a fama de imperialista junto aos seus vizinhos. Conseguiu também perder todos os cargos em organizações internacionais que disputou (Tem perdido porque os vizinhos do sul não votam em nós, diga-se de passagem), conseguiu comprar gás mais caro da Bolívia, conseguiu arrumar picuinhas na OMC na rodada Doha e agora também vai pagar mais caro ao Paraguai pela energia comprada, fora o que uma tal construtora brasileira ganhou”’ no Equador…

Recentemente, em Brasília, após fracassar em uma negociação comercial com a Argentina (novamente) Amorim disse que os argentinos estavam certos em não aceitar a proposta brasileira e que, se ele fosse argentino, também não aceitaria… sem comentários…

E no que isso nos afeta? Em muito. É só falar que agora estamos gastando dinheiro que poderia ser investido em saúde pra comprar gás mais caro da Bolívia. Ou então, o tanto de dinheiro que deixou de ser gerado no comércio de serviços de construção civil no Equador. E tem muito mais que todos certamente se lembram.

Porque, então, não adotar uma postura cooperativa TAMBÉM com os países ricos? Não é preciso esfolar os vizinhos, mas ser capacho é demais. O que o Brasil tem ganhado com isso tudo? Ninguém sabe. E, mais uma vez, cuspimos no prato em que comemos (mesmo que só na sobremesa).


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