A continuidade

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O tempo humano é curioso. Períodos que nos parecem longos representam na verdade um piscar de olhos para o planeta. É tudo uma questão de percepção. Deve ser por isso que mesmo com o desenrolar dos fatos, nas relações internacionais, pareça que nada muda. São raras as inflexões e cujos fatos tendem a depender de processos longos – e exemplos disso não faltam essa semana. Parece que nada muda.

Muitos devem estar fartos da cobertura do resgate dos mineiros chilenos, que apesar de trazer grande alívio aos que se compadeciam do drama das vitimas, veio acompanhada de um tsunami midiático (tecnicamente, estamos fazendo parte disso ao comentar mais uma vez sobre o assunto… ah, a ironia). Entre mensagens de esperança e humanidade, fica a crítica implícita às más condições de trabalho dos mineiros – no mesmo dia do resgate, um mineiro chileno morreu em acidente noutro local. Ora, esse tipo de sinistro não é exclusividade do Chile; na China, por exemplo, já há um novo caso de desabamento causado por uma explosão de gás metano – só que sem expectativa de resgate para os desaparecidos e com mais de 30 mortes confirmadas. Pois é, nem tudo são flores nesse ramo, ainda mais em um país em que só no ano de 2009 morreram quase 3000 pessoas em acidentes de mineração (segundo os números “oficiais”; quantos mais não devem ter morrido na obscuridade…). Esse quadro de degradação das condições de trabalho, extremo no caso dos mineiros, mas que é comum a muitas ocupações, não parece que vai mudar em curto prazo, mesmo com a comoção causada pelo resgate.

Poderíamos citar outros exemplos, como a China dar indícios de já estar orquestrando a sucessão de Hu Jintao (a exemplo de sua vizinha, a Coreia do Norte, com o roliço filho de Kim Jong-Il), ou o fato de Israel praticamente defenestrar os esforços de negociações pela paz com os Palestinos ao prosseguir com a política de assentamentos e construção de casas. Cada um ao seu modo, são exemplos de como pode ser difícil, nas relações humanas, promover alterações em determinados comportamentos, que não exijam um processo lento e por vezes imperceptível de adequação. E, por mais que o tempo passe, pode ser que não vejamos a conclusão de muitos desses processos.


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Prêmio de consolação

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Finalmente, Liu Xiaobo soube que foi laureado com o prêmio Nobel da Paz de 2010. O ativista chinês, preso, soube do ocorrido por meio de sua esposa e teria dedicado o prêmio aos que pereceram nos protestos da Praça da Paz Celestial em 1989. O Nobel é um legado do criador da dinamite, preocupado com o uso militar de sua invenção mais famosa e explosivos derivados, que criou a instituição responsável pelos prêmios como forma de “limpar” sua reputação futura, agraciando aqueles que fariam grandes coisas pela humanidade. A premiação em si acaba sendo discutível em diversos aspectos – notavelmente o de Literatura, sempre polêmico; mesmo a premiação do Obama ano passado foi surpreendente de certo modo. Ora, Liu não é diferente: tem opositores inclusive entre os ativistas chineses (muitos dizem que não mereceria ganhar, ou que havia outros mais merecedores), e certamente teve sua premiação mais pelo que simboliza do que por suas atividades em si.

De fato, essa premiação não teve outra função que a de levar à reflexão sobre os direitos humanos na China, (basta ver a repercussão mundial) e, por conseguinte, até que ponto o crescimento econômico vai ser sustentado nas bases políticas atuais. É uma discussão até meio batida, pois os chineses são sempre esguios e persuasivos quando se entra nesse mérito. Vê-se que a economia chinesa encontra-se em um patamar aterrador de simplicidade e volúpia, com os ventos do livre mercado impulsionando uma nau de capitão rígido, cruel quando necessário e ligeiramente despreocupado com o bem estar de seus marujos, mas que consegue moldar a vontade destes sem questionamento (quando há subversivos, são silenciados eficazmente), extraindo o seu melhor e com vistas a um destino utópico. A China combina as duas facetas que fazem seu Estado avançar impetuosamente, uma economia dinâmica com política totalmente controlada, favorecendo enormemente seu crescimento e assombrando os países democráticos com seu modelo antípoda e aparentemente exitoso.

E o que pode frear a economia chinesa? O colapso de um desses pilares – ou uma mudança radical na economia, como uma bolha estourando ou eventos cataclísmicos, ou uma mudança política, com abertura democrática que faria ruir esse Estado onipresente. O primeiro ponto parece o mais fundamental (e viável), mas pelo rumo que as coisas tomam é muito difícil que algo dessa natureza ocorra em futuro próximo. Já o segundo é o mais improvável, e de modo paradoxal o que potencialmente traria mais impactos reais à sociedade chinesa. A existência de discordâncias com o regime de Pequim é incontestável, e independentemente de sua legitimidade ou reconhecimento perante o governo, demonstram que há insatisfação. Seria questão de tempo até que maiores parcelas da população fiquem inquietas e se tornem “subversivos”? É difícil até quantificar.

É curioso reparar que o prêmio IgNobel da Paz de 2010 (sátira do Nobel, que elenca contribuições não tão importantes da ciência à humanidade…) tenha sido dado a pesquisadores que comprovaram a popular crença de que xingar em alto e bom som durante momentos de dor faz com que esta diminua. Assim como Liu e tantos outros dissidentes, espero que um dia cidadãos chineses possam vociferar contra seu regime para aplacar seus sofrimentos, sem o risco do pelotão de fuzilamento.


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O Timor Leste é um sucesso?

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Felizmente podemos dizer que sim. Qual seria a razão?

Mais um dos lugares esquecidos que aparecem de vez em quando, é considerado por muitos o caso de maior (senão o único) de sucesso de uma intervenção da ONU. Antiga colônia portuguesa, foi dominado pela Indonésia até 1999 quando lutou por sua independência e a conseguiu, porém o país restante estava praticamente desprovido da infraestrutura governamental e até mesmo do conhecimento operacional necessário para a gestão de um país.

Bem resumidamente, a ONU  sob a liderança do grande Sérgio Vieira de Melo (e de quem o seguiu) foi capaz de estabelecer processos mínimos de governança e construir a infra-estrutura necessária para que um dia o Timor possa andar com as próprias pernas e parar de depender da ajuda internacional. Mesmo após uma guerra civil fazer o país ter que recomeçar tudo mais uma vez, a missão continua com resultados expressivos, além de uma política de transição e gestão do conhecimento visando a saída da ONU.

Claro que ocorreram vários problemas e erros por parte das Nações Unidas (como não poderia deixar de ser…) mas pode-se dizer que o saldo é positivo. Mas porque o Timor deu certo se outros deram tão errado? Apresentarei alguns pontos, quem quiser contribuir com comentários está mais do que convidado!

Kosovo está na área vital para a produção energética europeia. O Haiti é assolado por desastres naturais, presença de tráfico de drogas, que é um dos crimes que o mundo não quer realmente combater. O Tibet – está dentro da China. Chade e Sudão ainda tem problemas étnicos, culturais, religiosos e políticos entre eles, minando qualquer grande sucesso das ações internacionais. Já o Timor Leste está na ponta da Indonésia, um dos quintais do “Ocidente”. Não tem expressivas jazidas minerais como o Oriente Médio muito menos é berço das grandes religiões mundiais. Ou seja, aos olhos de quem possui o poder, o Timor Leste pouco importa.

Em função da sua pequena importância estratégica, a ganância internacional não fincou lá suas garras tão fortemente, permitindo que aqueles que desejavam consertar a triste situação do país pudessem trabalhar da melhor forma possível. Além disso, as missões da ONU no Timor tinham e tem como característica a escuta atenciosa das demandas locais: se no Iraque os EUA enfiaram goela abaixo uma ideia de “democracia”, o Timor sempre foi consultado e suas particularidades levadas em questão. Contudo, isso não vem da burocracia estrita e clássica da ONU, mas sim das pessoas que lá trabalham. Para comprovar isso, ao invés de ter que exclusivamente garantir a segurança nacional, a UNMIT (atual missão da ONU no Timor Leste) possui como foco a estabilização política e a construção de estruturas governamentais capazes de gerir o país quando a ONU sair.

É esperançoso ver que mesmo após a guerra civil e as tentativas de assassinato, o Timor Leste continua sua longa e árdua caminhada rumo ao desenvolvimento e está cada vez mais próximo de uma – relativa – independência dos organismos internacionais. O triste é perceber que isso só é possível em função de sua pouca relevância…

PS: Gostaria de agradecer ao Diogo Souto Maior pela apresentação e conversa que inspirou esse post.


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Dois gigantes sem condomínio

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Condomínio foi um termo comumente empregado na vigência da Guerra Fria. Designava um ordenamento no qual os países de todo o globo permaneciam ao lado de um dos condôminos, Estados Unidos ou União Soviética, e, assim, coexistiam. Na Ásia, poder-se-ia verificar similitude do condomínio bipolar, não fosse o autonomismo chinês e a inteligência inventiva nipônica, ainda que, em grande medida, apoiada pelos norte-americanos. Adicionalmente, a emersão dos tigres asiáticos (Coréia do Sul, Singapura, Hong Kong e Taiwan) também evitaram uma fria polarização na porção mais oriental do continente. Embora os gigantes – um comunista, o outro capitalista – não tenham constituído um condomínio sub-regional, não se supõe, de modo algum, a ausência de rivalidades e competição sino-japonesas.

Na classificação de Marcos Aguinis, autor de O atroz encanto de ser argentino, há quatro tipos de países. O Japão pertence a uma categoria exclusiva, qual seja de um país que tinha tudo para dar errado e deu certo. A China, por sua vez, seria uma exceção que tende a se confirmar, à semelhança do Japão, ou um país da primeira categoria, que teve tudo para dar certo e deu certo. Fato é que, por enquanto, observa-se que a China deixou de ser apenas o milenar “império do meio” – raiz etimológica do nome – para se tornar um império global. O Japão não se apequenou perante as suas extensões territoriais e também alcançou o mundo. Enquanto este investiu na produção de bens de elevada tecnologia e adentrou os países, aquele se dedicou à produção (ou replicação?) de bens de consumo em massa e atingiu as esquinas.

Do ponto de vista econômico-comercial, Japão e China tanto se lançaram a conquista do mercado asiático individualmente, quanto cooperativamente, através de arranjos regionais, como em acordos com a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) ou na Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (APEC). No plano político, as divergências são acentuadas. Não por causa dos sistemas políticos, imbuídos de ideologias diferentes, mas em decorrência de mágoas históricas – a ocupação japonesa da Manchúria nos anos 1930 – que repercutiram nos sistemas de educação, nas desconfianças militares e geopolíticas traduzidas na prática da espionagem e na não-aceitação do Japão como membro permanente do Conselho de Segurança, pleito do G-4.

O mais recente episódio que ilustra as rivalidades entre ambos foi a colisão entre dois navios da Guarda Costeira japonesa e um barco de pesca chinês. Aparentemente, o que era um acidente se tornou um incidente diplomático, que envolveu desde a prisão do capitão chinês, passando pela retaliação chinesa ao bloquear a exportação de minerais raros para o Japão, até o pedido de compensação do prejuízo por parte do último. Por que tanto alarde? Será que não é uma questão de orgulho ferido? Não faz tanto tempo, a China se tornou a segunda maior economia do mundo (aqui), ultrapassando o PIB japonês, posição que o Japão sustentava desde 1968, quando superou a Alemanha Ocidental. (Vejam notícias e análises sobre os acontecimentos aqui, aqui, aqui e aqui)

Segue, então, os dois gigantes asiáticos, sem condomínio e nem plena harmonia. Entre a cooperação e a rivalidade, China e Japão caminham para o cumprimento de seus respectivos destinos, de modo que um permanece atento as ações do outro.


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Laços de petróleo

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Existe um famoso dizer popular que exalta o trabalho como forma de desenvolvimento de muitas qualidades do indivíduo. Este, por sinal, é muito conhecido e muito utilizado como forma de incentivar massas e pessoas ao labor: o trabalho enobrece o homem.

Engrandecer os indivíduos é sim um objetivo muito nobre. E soaria até nobre demais se os chineses dissessem que até hoje se importam com as ilhas desabitadas de Diaoyu – cuja tradução ao pé da letra de seu nome significaria Plataforma pesqueira – pelas possibilidades de pesca da região e, portanto, de trabalho para sua população.

Os leitores podem estar se questionando o porquê digo isso. Bom, pode-se dizer essas ilhas são vetores de disputas históricas entre Japão, China e Taiwan e estão bem em pauta atualmente. E, digamos que, foi uma das razões por trás do atual rompimento diplomático chinês com o Japão.

De modo geral, as ilhas eram consideradas, há um tempo, como parte da então província chinesa de Taiwan, e era base pesqueira para chineses. Todavia, com a eclosão da 2ª Guerra Mundial, o Japão tomou diversos territórios chineses, inclusive as famigeradas ilhas de plataforma pesqueira.

Até que em meados dos anos 1970, uma comissão das Nações Unidas (Comissão Econômica e Social para a Ásia e o Pacífico – CESPAP) divulgou a existência de largas jazidas de petróleo na região.

Digamos que isso renovou os ânimos da China, do Japão e de Taiwan por busca da soberania da ilha. Oficialmente, a ilha está sob soberania japonesa. Contudo, isso não significa que os outros dois Estados aceitem pacificamente a decisão.

As investidas japonesas por investigações e impedimentos de navios pesqueiros chineses na região ainda hoje, mais de 58 anos depois dos acordos entre China e Japão, ainda provocam certo desconforto tanto nas populações quanto nos governos chineses e taiwaneses (para mais informações sobre o assunto, clique aqui).

Pode-se então ver que há uma questão muito maior por trás de uma rusga por pedido de investigação de navios pesqueiros. Há um desenrolar histórico e interesses geopolíticos também. Se o trabalho enobrece o homem, no caso, parece também que o petróleo enobrece os Estados. . .


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Papai mandou

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Imagine-se no posto de um líder de uma nação e/ou Estado. Foram grandes as decisões que os líderes mundiais tiverem que tomar no decorrer da história. Tais escolhas levaram países a catástrofes, guerras ou ao esplendor econômico, político e social. Portanto, nada mais justo que cada novo líder tenha a plena aprovação popular, tal qual a confirmação da classe política, não? A Coréia no Norte, notadamente um dos países mais fechados do mundo, possivelmente está consolidando um processo de transição em sua principal liderança. A sua maneira, é claro. Mas, a partir das indicações extra-oficiais, com a aprovação chinesa – atual maior aliado norte-coreano.

Não há confirmação oficial. Contudo, o estado de saúde de Kim-Jong-il somado a recentes movimentações em Pyongyang dão um forte precedente a rumores de sucessão no país. O primeiro passo, neste sentido, seria a conferência do Partido dos Trabalhadores (na versão norte-coreana), um grande evento de celebração popular acompanhado de intensa publicidade oficial e de uma grande parada militar. A expectativa era que a reunião, a terceira do gênero depois do término da Segunda Guerra Mundial, indicasse ou posicionasse o sucessor do atual líder perante os membros do Partido. Na década de 1980, um procedimento similar foi adotado para a nomeação de Kim-Jong-il.

Uma questão curiosa é que, ao contrário de outras sucessões hereditárias, o escolhido seria o terceiro filho do líder norte-coreano. Em uma entrevista na BBC, um especialista afirmava que este seria o filho mais “apresentável” entre as três opções que tinha o mandatário norte-coreano. O primogênito seria notoriamente um playboy, ao passo que o segundo seria “afeminado” demais. Por estes motivos, a opção seria pelo filho mais novo, Kim Jong-un, educado na Suíça, poliglota e com menos de 30 anos. As versões, mesmo na impressa internacional, são variadas sobre esta questão. The Economist, por exemplo, aponta outros fatores para defender a mesma decisão. Como não há versão oficial, os rumores se espalham, tratando mais de confundir do que esclarecer.

Trago uma definição pouco convencional para o conceito liderança:

Estar no poder é como ser uma dama. Se você tiver que lembrar às pessoas que você é, você não é. (Margaret Thatcher)

Não seria justamente o oposto da Coréia do Norte? Um país que organiza uma convenção política para discutir a liderança no país, acompanhada por demonstrações militares e nenhuma transparência internacional. Qual seria o impacto de um líder jovem na Coréia do Norte? Lembrando também que tratamos de um país fortemente sancionado por organizações internacionais e com um programa nuclear obscuro. Sucessão não necessariamente gera mudança. O mesmo vale para o poder, que não significa automaticamente ter autoridade sobre seu povo. Se a liderança é uma habilidade que pode ser adquirida, este seria o caso norte-coreano, já que Kim Jong-um nunca exerceu uma posição pública, foi entrevistado ou mesmo fotografado.

Como tudo que se escreve sobre a Coréia do Norte, há a possibilidade de que esta discussão torne-se obsoleta ou se comprove irracional. As recentes visitas de Kim-Jong-il a China e a convenção do Partido dos Trabalhadores serviram de combustível para aclamações de mudança – nem que seja somente de líder e não de posicionamento político. Um líder pode estar sendo construído. Não se discute, no entanto, que a transição estará mais baseada no consentimento do antecessor do que propriamente convencimento de seu povo. Afinal, quando há uma parada militar do lado de fora do auditório da convenção política na qual se trata da sucessão política, fica mais evidente que o espaço para a menção ao debate é extremamente limitado ou mesmo inexistente.

 


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Vivendo e dialogando

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Se dizem por aí que a propaganda é a alma do negócio, pode-se sugerir que o diálogo é a alma das Relações Internacionais. Por ocasião desta semana, China e África do Sul deram mais um passo no sentido do aprofundamento de tal reflexão.

A parceria estratégica entre estes dois Estados – anunciada como polivalente, já que compreende 28 áreas de cooperação – demonstra o diálogo político que chineses e sul-africanos pretendem estreitar nos próximos tempos.

A primeira visita de Jacob Zuma, presidente sul-africano, ao gigante asiático (juntamente com mais de trezentos homens de negócios), terminou ontem com um saldo positivo para ambos os lados – uma dúzia de contratos comerciais foram assinados em várias áreas, tais como defesa, cultura, transporte ou turismo, por exemplo.

Quando questionado a respeito do risco de continuidade do neocolonialismo na África por vias chinesas, o Ministro do Comércio da África do Sul sugeriu que a resposta ao Ocidente deveria ser: “olha quem está falando”

O que pode ser chamado de “diálogo dos que chegaram depois” na verdade demonstra uma realidade cada dia mais presente no cenário internacional: o diálogo inter-estatal com vistas à cooperação estratégica. Vivendo e aprendendo, dialogando e crescendo, assim parece que segue a vida na Política Internacional, especialmente entre os países em desenvolvimento acelerado.


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Ásia: a região do futuro?

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Um dos principais elementos das Relações Internacionais, desde seus primórdios, é o poder. Não importa a forma – seja econômico, político ou militar – cada agente no Sistema Internacional, essencialmente me refiro a Estados, baseia suas escolhas nos principais pólos de poder. Neste contexto, qualquer estudante em sua vida escolar terá contato com a história de grandes Impérios (unipolaridade), a bipolaridade na Guerra Fria, ou mesmo a ascensão de uma possível ordem multipolar, na qual não haveria centros de poder absolutos.  

Ser o agente mais poderoso em um momento não é garantia de proeminência permanente. Todo o Império que se preze um dia viu sua própria derrocada, por problemas internos ou pelo surgimento de agente com mais recursos e capacidade de gerar influência nos demais. Recém começado o século XX, é amplo o debate sobre um novo foco de poder, a China, e a débâcle do atual país de maior poder, os Estados Unidos. É inegável que nos últimos 30 anos, a Ásia – não somente a China, mas em especial este país – melhorou a qualidade de vida de sua população e atingiu um crescimento econômico constante e dinâmico, quando não acelerado. 

O modelo de desenvolvimento da região foi enfocado em diversificar exportações e prover o mundo com uma imensa quantidade de produtos asiáticos, dos mais diversos. Grandes empresas multinacionais também identificaram uma grande oportunidade na região, estabelecendo bases de seus sistemas produtivos em países que ofereciam incentivos fiscais, legislação ambiental não rigorosa e uma mão-de-obra abundante e barata. Assim, a Ásia conseguiu talhar um novo posicionamento frente ao Sistema Internacional, e ver países como Japão, no final do século XX, mais China e Índia, atualmente, como agentes de decisão internacional, não mais meros expectadores nas instituições internacionais.  

A nova Ásia para as próximas duas décadas, segundo Stephen Roach em um Podcast da consultoria McKinsey, estará muito mais baseado em desenvolvimento a partir de seu mercado interno do que no modelo utilizado nos últimos 30 anos, pautado em exportações. Uma região que produziria mais para seu próprio consumo que para o mundo. Sua grande fortaleza seria justamente os mais de três bilhões de pessoas que vivem na região. Roach ainda lança a possibilidade de formação de uma Pan-Ásia, integração centrada na China como promotora de desenvolvimento regional, com países como Coréia do Sul, Taiwan e Japão desenvolvendo o mercado chinês como prioridade, ante aos Estados Unidos e União Européia. 

O desafio seria mudar a estrutura do foco atual – fortemente externo – para suas próprias fronteiras, levando a uma maior sinergia e consequentemente maior integração regional. Contudo nem tudo são flores. Primeiro, não se pode pensar Ásia unicamente com a China como porta de entrada, a região tem temáticas, prioridades tendências muito além das próprias chinesas. Há disputa territorial entre China e Índia; grande influência ocidental na Coréia do Sul, Vietnã e Japão; uma Índia cada vez mais dinâmica e influente, entre outros. A The Economist, inclusive defende que a disputa da China é antes com a Índia no plano regional do que com os Estados Unidos no plano global. Independente desta questão, a Ásia – ainda mais Índia e China – para ter ainda maior importância nas decisões internacionais, necessita conciliação e cooperação regional primeiro.


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Vazamentos

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E Obama conseguiu mais uma dor de cabeça com um vazamento. Não, não tem nada a ver com o Golfo do México. E na verdade, não é uma dor de cabeça exatamente nova, visto que o Afeganistão já era um desafio tremendo quando foi parar na Casa Branca. Mas, com o vazamento de documentos secretos das operações no país asiático, criou-se um constrangimento não só para os EUA, mas para outros países atuantes na coalizão como o Paquistão.

O causador dessa celeuma foi o site Wikileaks, que ganha notoriedade por sua busca até as últimas conseqüências do ideal da imprensa livre, e que ficou famoso recentemente devido a revelações bombásticas sobre fuzilamento de civis no Iraque. Os documentos divulgados (mais informação aqui) não são exatamente secretos, mas encontram-se na categoria dos que não deveriam vir a público tão brevemente: incluem informações provenientes de embaixadas, oficiais de inteligência e até mesmo soldados, entre outros, revelando datas e locais específicos da maioria das ações que envolveram o uso de força letal pelas tropas norte-americanas no período entre 2004 e 2010. Há também outros tipos de informação como relatos de corrupção e participação de tropas paquistanesas no auxílio de insurgentes, e até ligações com a Al-Quaeda. Os dados vazados apenas confirmam do que já se suspeitava há muito, das falhas e dificuldades enfrentadas pela coalizão, mas a comparação com as declarações “oficiais” acerca do conflito é assustadora. Mortes acidentais de civis são re-classificadas como de insurgentes, e há até relatos de “esquadrões da morte” (quem diria, tão corriqueiros no Brasil!) que caçam lideranças insurgentes sem amparo judicial nem ligar de passar por cima de alguns cadáveres civis pelo caminho. Apesar da falta de corroboração jurídica, o criador do site é enfático ao dizer que há sinais evidentes da prática de crimes de guerra.

A Otan se calou, os EUA relataram seu descontentamento com o vazamento e o Paquistão contesta a veracidade de algumas informações, mas o estrago já está feito. O Paquistão já não é um mar de rosas, e Washington deve encarar o clamor contra uma empreitada cada vez mais impopular e que aparenta não ter fim. E mais ainda está por vir, com a promessa da liberação de mais 15 mil novos documentos secretos em tempo hábil.

Há de se convir que existe um dilema ético quanto à divulgação desses documentos. Eram papéis secretos de um governo, e não importa qual tenha sido a intenção dos que forneceram os documentos ao site, se forem descobertos não devem esperar menos que a pena capital. É o que se espera quando a declaração do governo afirma que o vazamento põe em risco a vida de combatentes norte-americanos e a segurança nacional. Mas o site acredita que as informações não trazem perigo e a divulgação das restantes dependerá da situação da segurança no Afeganistão.

O interessante disso tudo não é a revelação em si, mas o modo como a informação está fluindo. Houvesse um Wikileaks à época da invasão do Iraque, teria sido revelada a inexistência de armas de destruição em massa mais cedo? A metodologia de trabalho dessa fonte ainda pode parecer muito controversa a alguns – afinal, optar-se-á pela liberdade de informação como ética universal ou pela soberania do Estado em controlar informação estratégica pelo bem da nação? Não importa qual seja o julgamento, o fato demonstra a importância dos fluxos computacionais na propagação de informação como verdade inconteste nos dias de hoje, e os Estados devem adequar-se a esta realidade em que a verdade pode fluir livremente, quando os meios são bem-direcionados. O resultado dessa divulgação pode, por exemplo, ser uma mudança de percepção da opinião pública, mas o que importa realmente, segundo o criador do site, Julian Assange, é que haja a compreensão do que ocorre no conflito e a mudança de postura política dos envolvidos. O povo afegão aguarda ansiosamente por isso.


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Como caminha o mundo…

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Quem ainda se lembra de Zelaya, presidente deposto de Honduras por um suposto golpe militar no ano passado? Provavelmente todos, mas para ter certeza de que ninguém irá esquecê-lo, ele voltou à tona: sem o menor pudor, agora culpa os Estados Unidos pelo golpe e quer porque quer voltar ao país, sustentando um discurso de que apenas a convocação de uma Constituinte pode conduzir a uma nova concertação política. Em outras palavras, ele quer voltar a ser presidente. O atual governo hondurenho não gosta nada dessa idéia e muito menos do “intervencionismo” de Chávez – que considerava Zelaya um importante aliado na disseminação de seu projeto bolivariano, a ALBA, pela América Central -, recusando o reconhecimento de Porfírio Lobo como o presidente legítimo do país.

E a Coréia do Norte? O país acabou de se safar da acusação de ter cometido um ato terrorista contra o navio sul-coreano em março e agora cuida da situação interna, mais especificamente da sucessão de Kim Jong-il. Recentemente, o seu filho, Kim Jong-un, foi eleito para a Assembléia Popular Suprema, o Parlamento norte-coreano. Mal foi eleito e já se começa a ensinar canções sobre o “Kimzinho” nas escolas primárias do país.

O Oriente Médio, outra vez mais, avança para o futuro. O chanceler israelense, Avigdor Lieberman, decretou que não há a possibilidade para se criar um Estado palestino até 2012, meta fixada pelos negociadores internacionais. Não bastasse negar isso, ainda foi sarcástico ao dizer que é uma previsão otimista tal negação. Os Estados Unidos colecionam mais uma frustração, já que haviam enviado um representante do governo, George Mitchell, para avançar nas negociações com os israelenses e então se depararam com o imoblismo de Israel.

Os norte-americanos colecionam também mais frustrações no Afeganistão (vejam o também o post do Raphael). A luta contra o Taleban deve se intensificar. O general David Petraeus, substituto de McChrystal, anunciou o recrudescimento das iniciativas contra os insurgentes, prorrogando uma guerra invencível. Por outro lado, dentro do seu território, os Estados Unidos obtiveram um sucesso, ou melhor, puderam matar as saudades dos idos tempos da Guerra Fria e dos filmes de James Bond: prenderam dez espiões russos no país. Tal questão obviamente está gerando um incidente diplomático. A Rússia já considerou essa acusação infundada.

Com tantos embaraços, o mundo caminha pesado, o que muitas vezes impede o seu progresso. Talvez por isso desenvolva os movimentos de rotação e transação, de modo a mudar as estações, meses, dias, horas, segundos, mas continua descrevendo a mesma órbita, deixando muitas coisas no mesmo lugar…


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