Gerenciar riscos para evitar desastres

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Vanuatu

Um dos piores desastres socioambientais da história do Pacífico Sul atingiu o arquipélago de Vanuatu neste final de semana. Muitos de nós talvez nunca tenhamos ouvido falar de Vanuatu até hoje, mas trata-se de um país formado por cerca de oitenta ilhas na Oceania e que está absolutamente devastado após a ruidosa passagem do ciclone Pam.

Mapa Vanuatu

Com ventos de mais de 300 km/h, o impacto do desastre ainda está sendo avaliado, mas dezenas de vítimas fatais já são contabilizadas pelas Nações Unidas. Existe a certeza, contudo, de que é crítico o isolamento do país após a passagem do ciclone que afetou o fornecimento de energia elétrica, o acesso à água e aos alimentos, além de ter provocado destruição física das construções, principalmente na capital Port Vila.

A Cruz Vermelha da Nova Zelândia estima que mais de 100 mil pessoas tenham sido direta ou indiretamente afetadas pelo desastre, o que torna urgente o apoio humanitário à população local, liderado pelos vizinhos Austrália e Nova Zelândia no momento.

Desastres socioambientais são passíveis de acontecerem (e até previsíveis) em diversas regiões do mundo, o que faz parte de uma realidade que não podemos controlar. Contudo, o debate deve se voltar justamente à construção de resiliência principalmente nos locais mais vulneráveis para que o impacto possa ser reduzido ao máximo.

Coincidentemente, está acontecendo essa semana em Sendai, no Japão, a Terceira Conferência Mundial em Redução de Riscos de Desastres, coordenada pelas Nações Unidas e fruto de amplo diálogo com Governos, iniciativa privada e sociedade civil sobre o tema.

A importância do assunto é inegável já que as estatísticas demonstram que, desde 2005, mais de 700 mil pessoas morreram e cerca de 1,7 milhão de pessoas foram afetadas por desastres no mundo. No âmbito intergovernamental, o principal objetivo do encontro é aprovar um novo marco de ação, atualizando Quadro de Ação de Hyogo no contexto pós-2015.

Mais que gerenciar o desastre em si, a prioridade deve ser gerenciar os riscos de desastres, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Redução de Risco de Desastres (UNISDR). De fato, situações de desastre como a que está sendo vivida em Vanuatu deixam clara a necessidade de prevenção e gestão de riscos para evitar ou, pelo menos, minimizar o impacto das catástrofes desse gênero na vida daqueles que mais sofrem suas consequências.


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A desumanidade nossa de cada dia

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Broimp

 

A selvageria das execuções do grupo Estado Islâmico chama a atenção do mundo. Quando decapitações (nenhuma exclusividade deles, a propósito) não eram chocantes o suficiente, a imolação do piloto jordaniano causa comoção e uma reação de países ocidentais clamando pelo confronto ao grupo e da Jordânia executando terroristas convictos prisioneiros (mesmo não tendo, a rigor, nada a ver com o ISIS). É a improdutiva lei de Talião, pura e simples.

Por que isso chocou tanto? Na história da humanidade, se existe uma coisa que o ser humano demonstra saber fazer muito bem é matar uns aos outros. Decapitações são até benevolentes quando comparados a outros métodos de execução, e mesmo queimar gente viva não parece tão cruel. Entre outros, por exemplo, destaco o “necklacing” africano (em que um pneu cheio de óleo é colocado ao redor de uma pessoa e ateado fogo para que queime lentamente), a morte por animais selvagens nas arenas romanas, fervura (com a pessoa mergulhada em óleo ou água fervente e virando um pastel humano), evisceração (arrancar órgãos de pessoas vivas, especialmente o coração), empalação (atravessar com uma estaca de baixo para cima, famosa por conta de um certo Vlad Tepes, o lorde romeno que inspirou o Drácula de Bram Stoker) e, possivelmente o mais aterrador, aquele chamado escafismo, praticado pelos persas (em que uma pessoa é largada em um barco, besuntada em mel e nos próprios dejetos, para que seja devorada por aves, insetos e vermes num suplício que duraria mais de uma semana).

Isso serve para aliviar a barra dos radicais? De modo algum. Mas por que causa tanta indignação? Polícias do mundo todo cometem atos de tortura que, se não causam a morte, são tão dolorosos ou degradantes quanto os mencionados. Prisioneiros em campos de concentração nazistas passaram por horrores indescritíveis antes das câmaras de gás. Pessoas pobres sofrem privações e fome que são uma violência inadmissível no século XXI. O problema em si não é o modo como as execuções ocorrem, mas como são divulgadas. A tortura policial ocorre às escondidas. A tortura nazista é parte dos livros de história e da memória dos sobreviventes (apesar de ser uma das causas para o fortalecimentos dos regimes de Direitos Humanos, inegavelmente). Os miseráveis são “invisíveis” nas periferias e sarjetas. Mas as mortes do ISIS? Circulam pela internet e fazem parte do cotidiano do noticiário. É claro que o ultraje resultante é maior.

Geralmente, a morte como pena serve como punição exemplar. Lembrem da casa do Tiradentes sendo demolida e o terreno salgado, para humilhar sua descendência e mostrar para o resto do povo como seria ruim se revoltar contra a Coroa de novo. As mortes do ISIS seguem esse padrão de mensagem? Aparentemente, nem tanto. “Aceitem nossas condições, libertem nossos colegas, reconheçam nosso califado, senão…”.

Não importa como a morte ocorre – poderia ser um fuzilamento, enforcamento, o que importa é a ideia de haver pessoas sendo mortas como uma moeda de barganha com a comunidade internacional. Em menor escala, é o que ocorre quando países negociam a troca de espiões capturados ou cidadãos presos – mas sem que, geralmente, essas vidas estejam em risco. Mesmo quando são pessoas condenadas à morte, como no recente caso dos brasileiros presos na Indonésia, a causa da pena capital é relacionada ao próprio indivíduo, não sendo uma ameaça a seus Estados de origem. O caso do ISIS é inovador no sentido que praticamente está havendo uma negociação de sequestro internacional com um grupo que almeja se tornar um Estado, quebrando todas as “regras” que os próprios Estados seguem, e que de maneira indireta consegue um pouco de sua intenção justamente pelo reconhecimento recebido e a importância que a questão consegue na política e mídia internacionais. O emprego de métodos não-convencionais e chocantes é apenas uma ferramenta, e não o objetivo da execução em si.

Mortes horríveis, vidas desperdiçadas de todos os lados. Mais que a obtenção de resultados políticos, o caso das execuções do ISIS reforça, uma vez mais, o velho argumento realista de que o ser humano, em geral, não presta mesmo.


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Falando em corrupção…

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Filipinas

O ano de 2015 começa para o Papa Francisco em uma importante viagem ao continente asiático, passando pelo Sri Lanka e pelas Filipinas. Depois de ter visitado o Sri Lanka e canonizado o primeiro santo do país, beato Joseph Vaz, hoje o Papa fez seu primeiro discurso desde a chegada às Filipinas, criticando principalmente a corrupção que vem sendo denunciada no país.

As Filipinas se situam em uma zona geográfica especialmente sensível, constantemente sujeita a tufões, ciclones e tsunamis, ainda mais em um contexto de mudanças climáticas em que as pessoas se encontram cada dia mais vulneráveis. No final de 2014, o país enfrentou o tufão Hagupit/Ruby, que havia sido previsto inicialmente com ventos de aproximadamente 300 quilômetros por hora, em região próxima àquela que foi atingida, no final de 2013 pelo tufão Haiyan/Yolanda que levou consigo a vida de pelo menos sete mil pessoas.

Se a força da natureza não pode ser controlada, os meios para reduzir o impacto de seus danos na vida das pessoas pode (e deve) ser tema de discussão de governos e da população civil. Esforços de prevenção se mostram, invariavelmente, muito mais eficazes que medidas para remediar os danos já causados.

Para tanto, deve haver engajamento político e planejamento estratégico de longo prazo, evitando esforços duplicados e falta de coordenação local. Se hoje em dia contamos com tecnologia suficiente para prever a chegada de eventos naturais tal como tufões com tempo hábil para a tomada das medidas necessárias, não existe explicação razoável para um desastre de grandes proporções que não envolva a falta de vontade política em trabalhar para que ele não aconteça.

Por outro lado, após a ocorrência de uma tragédia de grandes proporções como em que a mobilização internacional como o tufão Haiyan/Yolanda em 2013, chocantes foram as denúncias de que apenas aproximados 20% dos recursos alocados (em montante que soma milhões de dólares) teria sido alocado pela Defesa Civil do país em benefício das vítimas até setembro do ano passado, nove meses depois do desastre. Esta situação demonstra o despreparo/desinteresse de um governo diante de um quadro em que, além dos feridos e das vítimas fatais, centenas de milhares de pessoas se veem desabrigadas e absolutamente vulneráveis a novos desastres.

Pregando o diálogo entre os povos e a importância da união, a sétima viagem internacional do Papa Francisco está sendo também marcada por uma enfática crítica à desigualdade, à corrupção e aos desvios de verbas. Dada a gravidade do problema e, principalmente, das consequências para as pessoas mais pobres e suscetíveis a desastres, esperemos que o tema não seja exclusivamente parte de discursos, mas sim da prática dos governos…


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Imagem da Semana

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Wherearethey

E a imagem da última semana de 2014 não poderia ser mais triste e ao mesmo tempo intrigante. No ano em que já havia sido registrada a queda de dois voos da companhia Malaysia Airlines, mais uma tragédia aérea foi registrada.

O avião da companhia AirAsia Indonésia (filiada à companhia malaia AirAsia) caiu no trajeto entre a Indonésia e Cingapura, com 162 pessoas a bordo. Destroços do avião e corpos de vítimas estão sendo encontrados na região, sendo que condições meteorológicas e falhas de autorização se enquadram, até o momento, como elementos que podem explicar o motivo da queda, ainda incerto.

A imagem acima, idealizada por artista na praia de Golden Sea, na Índia, faz alusão específica também ao voo MH370, sem dúvida a catástrofe mais misteriosa do ano passado: em março, o avião simplesmente desapareceu no trajeto entre Kuala Lumpur e Pequim com 239 pessoas a bordo sem que, até o momento, nada tenha sido localizado ou explicado. Além disso, em julho, o voo MH17 também da companhia Malaysia Airlines foi abatido ao sobrevoar área de guerra entre Rússia e Ucrânia, vitimando 298 pessoas. Tristes tragédias que marcaram o ano de 2014, infelizmente…


Oriente esquentando

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coreia

Fim de ano costuma ser uma época bem parada no noticiário internacional – a não ser quando ocorre uma calamidade como a que completou 10 anos no dia hoje, com o tsunami monstro que varreu o Oceano Índico e matou quase 300 mil pessoas em 2004. Felizmente, não temos uma catástrofe dessas para comentar, mas 2014 ainda vai ser quente nessa última semana graças, é claro, à Coreia do Norte e sua insistência em fazer manchetes.

Um pouco em continuidade ao post da semana passada, vou retomar o que diz Barry Buzan sobre aquela região do estremo Oriente – é um “microcosmo residual” da Guerra Fria. Basicamente, por culpa da Coreia do Norte, já que a China está muito mais para parceira que adversária dos EUA. Se os eventos da semana passada deixam claro que Cuba deve deixar um dos postos restantes de inimizade com os EUA, resta à Coreia do Norte fazer oposição ao grande Satã – pelo menos, sob o viés político-ideológico. E se trata de uma oposição indireta, já que suas maiores preocupações são o Japão e a Coreia do Sul, com os EUA como inimigos “por tabela”.

Como foi divulgado ontem, o polêmico filme de comédia sobre um plano de assassinato do líder norte-coreano foi lançado nos EUA e pela internet. Basicamente, o estúdio dá uma banana aos grupos de hackers que ameaçaram as distribuidoras e salas de cinema que exibissem a obra, em nome da liberdade de expressão (e após ouvir bronca da Casa Branca por conta do cancelamento). Pyongyang não reconhece a autoria dos ataques mas repreende oficialmente o conteúdo do filme (compreensivelmente), assim como, adivinhem só,  Rússia e China. Até agora, nada de ruim aconteceu, mas a repercussão pode vir a galope, já que a expectativa de retomada das negociações sobre o programa nuclear norte-coreano (o “six-party talks”) era grande para 2015 e pode ir pro vinagre rapidamente. Para piorar, a internet do país ficou fora do ar por quase 9 horas e há suspeitas de que seja retaliação dos EUA. Ou não.

Enquanto isso, os EUA firmam um acordo com Coreia do Sul e Japão para manter vigilância sobre o vizinho comunista. A intenção clara é de dissuasão – a vigilância e troca de informações sobre Pyongyang serve para deixar o recado que a Coreia do Norte está isolada. Trata-se de um acordo estranho, já que aproxima rivais históricos (Japão e Coreia do Sul) sendo visto com desconfiança por ambos. No fim das contas, numa situação delicada, fortalecer os laços com os principais adversários da Coreia do Norte pode ser visto como uma jogada ainda mais agressiva por parte dos EUA e piorar ainda mais a situação. Nessa queda de braço política que está se tornando midiática, o risco é a ruína de todos os progressos atualmente paralisados com relação ao esforço de não-proliferação nucelar na região…


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Hora de acabar?

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Se o final da Guerra Fria não tem exatamente um ponto definido, ele geralmente é considerado como o desmantelamento do chamado “Segundo Mundo”. Mas isso sempre carrega um asterisco nos livros. Para alguns países, aquele conflito tecnicamente não teria acabado, especificamente para Cuba e Coreia do Norte, os dois principais bastiões da resistência do modelo de economia planificada. Por isso chama a atenção o noticiário dessa semana, em que de um lado finalmente tivemos um avanço histórico que pode literalmente significar o fim da tensão entre EUA e Cuba, enquanto a Coreia do Norte apronta de novo e fortalece cada vez mais posição de isolamento.

Nem é necessário aprofundar muito a discussão sobre a incrível reaproximação de Cuba e EUA após meio século de rompimento diplomático. O gradual e controverso processo de distensão entre a ilhota e o gigante significa muitas coisas, de jogar uma pá de cal no conflito ideológico nas Américas à possível revisão do embargo americano. Isso não virá sem desafios, com insatisfação de ambos os lados, especialmente do norte-americano, mas significa um freio à retórica antiamericana que se tornou bastante popular por estas bandas e se apoiava, em parte, na inimizade de Washington com Havana, bem como à retórica anticomunista que as direitas exaltadas que pipocam pelas redes sociais e em partidos radicais. O mundo se mostra um lugar bem mais complexo que qualquer maniqueísmo ideológico, e felizmente prevalece o bom senso naquele que pode ser o grande legado de Obama para a história após dois governos conturbados.

O que destoa completamente da Coreia do Norte. O país, único não-signatário do TNP que busca abertamente desenvolver capacidade nuclear para usos militares, surge em meio à polêmica da invasão dos servidores de um estúdio norte-americano que estava prestes a lançar um filme de conteúdo sensível – uma comédia em que o enredo se baseia na tentativa de assassinato do presidente norte-coreano. O grupo de hackers que ameaçou as distribuidoras e salas de cinema que exibissem o filme, além de vazar alguns filmes inéditos e roubar dados de fornecedores e clientes, não assumiu diretamente estar ligado a qualquer governo mas fontes dos EUA confirmam a participação de Pyongyang, onde a guerra cibernética é uma realidade e um esforço concentrado do Estado.  Estando ligado aos ataques ou não, o governo norte-coreano continua a vociferar contra os países do Ocidente e mobilizar capacidades como resposta à ameaça de levar o país ao TPI levantada pela ONU por violações contra direitos humanos. O cuidado com que se trata a situação da Coreia do Norte, que levou inclusive à suspensão da exibição do tal filme, mostra que nessa parte do mundo ainda persiste uma lógica de enfrentamento de base ideológica. Mantendo o isolamento e uma política agressiva, a Coreia do Norte parece andar na contramão da história e conta nos dedos seus aliados.

É óbvio que dizer que a Guerra Fria persiste é um exagero. Há quem veja as tensões crescentes com a Rússia como sinal de algo dessa natureza, mas mesmo assim não tende a sair do campo econômico. A aproximação dos EUA com Cuba é mero indicativo de que aquela situação aberrante simplesmente não se encaixa no sistema internacional moderno e já passara da hora de ter sido resolvida. A exceção mesmo é o caso único da Coreia do Norte, naquela região em que persiste um “microcosmo residual” da Guerra Fria, nas palavras de Barry Buzan, em que a inserção do poder atômico faz com que os cálculos políticos sejam diferenciados do que se pratica em outras partes do mundo e o conflito de viés ideológico se mantenha congelado no tempo.


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Hong Kong acordou?

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Nesta semana acabou de maneira bastante insatisfatória (pelo menos para os que protestavam) o movimento de “ocupação” nas ruas de Hong Kong, pedindo por reformas no sistema eleitoral e que acabou se expandindo para outras áreas como desigualdade de renda e segurança. O tráfego foi restabelecido e mais de 200 manifestantes foram presos, com seus acampamentos destruídos pela polícia da cidade.

Pensando que na última vez em que um protesto dessa magnitude aconteceu contra o governo chinês ele ficou conhecido como “massacre”, até que o desfecho não foi tão ruim, mas o fato é que tais protestos não alcançaram nenhum dos objetivos. O governo chinês não cedeu às pressões, o governo local continua sujeito às decisões do partido e a propaganda estatal reafirma a noção de “um país, dois sistemas”.

Ao mesmo tempo, esse fracasso aparente esconde um grande sucesso. Primeiro, o mero fato de que o governo não pôde passar com tanques por cima dos manifestantes como se faria outrora, pela característica peculiar do governo de Hong Kong, tornou possível um tipo de protesto que não se vê mais na China continental. O impacto na vida diária dos cidadãos, e as demandas apresentadas, despertam uma noção de participação e reivindicações que incluiu a sociedade como um todo. O esvaziamento do movimento, seja pela ações mais violentas (como tentativa de invasão de prédios públicos), seja pelo transtorno por falta de transporte, não vão apagar a forte impressão que esse movimento trouxe, chegando a mobilizar dezenas de milhares de pessoas. As lideranças parecem acreditar que isso é apenas uma “retirada” estratégica, e que os protestos retornarão com força em algum momento no ano vindouro.

E agora começa a guerra de ideias. Os manifestantes têm reivindicações, o governo perdeu apoio, Beijing se preocupa. O desfecho disso tudo, se causará uma revolução silenciosa e progressiva na sociedade da ilha, ou se descambará para um conflito mais agudo, dependerá do quanto a China estiver disposta a ceder para a manutenção de sua “joia” ou intimidar e suprimir definitivamente as demandas. Mas do modo como afetou a ilha por completo, a chance de que seja um evento isolado é praticamente descartada e abre uma nova perspectiva para o futuro de Hong Kong.


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Onde há fumaça…

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Enquanto a Agência Espacial Europeia faz história no espaço, aqui na Terra tivemos uma notícia tão surpreendente quanto a expectativa do pouso de uma sonda em um cometa longínquo. O que antes parecia impossível abismou a comunidade internacional, de um jeito positivo, quando EUA e China declararam um esforço conjunto para, entre outras modalidades de cooperação, reduzir as emissões de gases estufa pela primeira vez na história.

Quem acompanha o noticiário internacional sabe das motivações por trás da recusa em assumir os compromissos do protocolo de Kyoto, a base para o esforço global em reduzir os problemas de mudanças climáticas. Os maiores responsáveis pelas emissões sempre foram contrários às reduções “arbitrárias” que danificariam seu crescimento econômico. Por isso a surpresa com o anúncio, mas existe muito mais por trás dessa cooperação (nem tão) inusitada.

Primeiro, os países ainda não entraram no esforço “global” por assim dizer. Quando necessário, quiseram adequar suas reduções aos próprios termos, ou seja, à revelia da comunidade internacional. Não se trata de intransigência, mas pragmatismo – fica o recado para o mundo de que algo precisa ser feito, e será, mas do jeito que os gigantes quiserem. O fato de China nem estabelecer um teto para essa meta, mas apenas dizer que vai reduzir as emissões até 2030, bem vago mesmo, é indicativo disso. Ao mesmo tempo, é histórico por ser o primeiro movimento claro e oficial de ambos em direção a políticas ambientais mais sustentáveis, mas as expectativas podem não corresponder à realidade quando for necessário avaliar os resultados de tais políticas.

E claro que existe um jogo político. O anúncio das metas de redução veio em um grande pacote de cooperação sino-americano, que passa por acordos econômicos e militares. Isso se deu após uma reunião de cúpula dos países asiáticos, e Obama acabou tendo algumas conversas breves e pouco amistosas com Putin por ocasião disso. A relação gélida com Moscou contrasta com a aproximação clara de Washington com Beijing, eleito como o grande rival e parceiro na região nos últimos anos. Mais do que uma novidade bem vinda para o cenário ambiental, essa declaração conjunta pode significar uma mudança drástica mas já em curso nas relações de poder daquela região do mundo.


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Déjà vu

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Para um mundo que passou o século XX acostumado a ver EUA e Rússia (então com outro nome) se bicando, não parece nada de novo ver o pé em que estão as relações entre os dois países hoje. O que começou com um imbróglio diplomático por conta do asilo russo ao analista da CIA Edward Snowden virou uma crise internacional por conta dos eventos na Ucrânia no começo do ano. O cancelamento de visitas entre os líderes foi seguido pela exclusão russa do G8 (que voltou a ser G7 mesmo, sem +1) e troca de farpas, que pelo andar da carruagem não terá fim tão cedo.

Tome-se por exemplo a proibição da venda de um modelo de celular em território russo a partir do ano que vem. Existe uma justificativa técnica, de adequação à legislação russa, mas a exemplo da China, que mantem rigoroso controle sobre sistemas de informação, não seria o caso de limitar a “presença” norte-americana em seu território? Aqui entramos num terreno de especulação, mas a coincidência é inegável.

E no nível protocolar, as consequências podem ser bem mais nefastas. Moscou já disse, por exemplo, que não vai participar da cúpula bianual sobre segurança nucelar de 2016, justificando que prefere participar das reuniões semelhantes no sistema ONU por intermédio da AIEA. Mas é claro que sendo uma reunião proposta pelos EUA e a ser realizada na cidade de Obama, fica claro que há outras motivações. A aproximação com a Sérvia, que tem um passado recente de relação complicada com a Europa e os EUA também indica uma busca por consolidação de esfera de influência e mesmo afrontamento aos aliados ocidentais.

Ao mesmo tempo, o país enfrenta uma crise – a exemplo do Brasil, a economia enfrenta problemas, desvalorização cambial, e a queda no preço de commodities, sua tábua de salvação nos anos de crise. Além disso, as sanções impostas a empresas russas por causa da crise na Ucrânia causam perdas consideráveis. Resta saber se nesse ambiente conturbado prevalecerá o discurso do interesse nacional ou o pragmatismo tão necessário para a distensão e o retorno a relações amigáveis e mutuamente benéficas para os dois gigantes da política internacional. No aniversário dos 25 anos da queda do muro de Berlim, símbolo da Guerra Fria e de todo aquele processo de bipolaridade, os mesmos protagonistas se vêm em lados opostos e com uma nova barreira a ser vencida.


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Ambiente inóspito

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Quem navega a internet sabe que a Austrália é famosa pela fauna bizarra e letal, inglês com sotaque e gírias indecifráveis e por usarem as cores do Brasil nos esportes apesar de sua bandeira ser azul e vermelha. Nesta semana, o país vem ao noticiário com notícias bem chamativas – e polêmicas.

Primeiro, foi o primeiro país a fechar oficialmente as portas a cidadãos do oeste africano afetados pela epidemia de ebola. A medida, com a intenção de evitar o contágio do vírus no país, é polêmica pois vai contra instruções da própria OMS (Organização Mundial de Saúde) e os fatos – apesar do pânico, o número de pessoas infectadas fora da África não chega a uma dezena. A paranoia deu certo (como mostrou bem o caso suspeito que mobilizou o Brasil há umas duas semanas), e quase todos os países estão tomando medidas preventivas e de isolamento satisfatórias quando há suspeitas. A chance de uma epidemia em outros continentes é remota. E negar vistos é considerada uma atitude grave no cenário internacional – claro que os países podem escolher quem pode ou não entrar, mas na maioria, desde que tenha o visto, a circulação de pessoas é livre. Negar esse direito equivale à privação de um direito universal, e definitivamente não é uma medida que ajuda na luta contra a epidemia, pois significa que o envio de pessoal australiano para ajudar nas áreas afetadas (onde números oficiais contam mais de 5 mil mortos mas estimativas chegam a quatro vezes mais) também fica proibido.

Segundo, o país está endurecendo leis contra terrorismo. Pode parecer uma coisa positiva, mas a exemplo do Ato Patriota de Bush há acusações de ser uma justificativa para ameaçar direitos civis, discriminar indivíduos de religiões específicas e “imunidade civil” para agentes da lei – o que poderia liberar geral, por exemplo, a prática de tortura, à sombra do Estado. Desnecessário dizer que isso revoltou defensores de direitos civis e organizações islâmicas pelo mundo. Isso vem no momento em que a Austrália se junta à coalizão internacional contra o ISIS, e a medida que tem como objetivo “proteger” o país pode ter o efeito oposto, trazendo atenção internacional e ódio daqueles a que se dirige. Basta ver o que aconteceu no Canadá semana passada para entender que não é nada impossível uma ação desta natureza em um país aparentemente pacífico e longe da carnificina do Oriente Médio.

Essas duas notícias mostram um pouco de intransigência – o governo conservador do premiê Tony Abbott mostra claramente que, em momentos de crise, uma guinada conservadora pode ser a medida considerada mais segura pelos governos para preservar sua integridade. Porém, os resultados são os mais adversos possíveis.


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