De volta ao declínio norte-americano

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Quando o assunto é a distribuição de poder no mundo, os Estados Unidos logo surgem como a superpotência. A indubitável capacidade militar, econômica e de influência cultural ainda o colocam no lugar mais alto do pódio na disputa de maior poderio mundial. Contudo, desde 1970, que o país se preocupa com seu declínio relativo. Defrontando-se com a emergência de alguns países asiáticos, a recuperação econômica do Japão, e a recuperação da Europa, para alguns, o Tio Sam deveria ditar melhor as regras do jogo e manifestar-se como uma potência hegemônica para estabilizar o jogo mundial. 

Em outra oportunidade, no blog, o Giovanni escreveu um ótimo texto sobre o tema, apontando um pouco sobre o debate atual. Esse tema do declínio está longe de se esgotar. O que o torna mais interessante é a possibilidade de observarmos nos eventos recentes, nas manifestações da mídia e da população e de pensadores, a preocupação com a manutenção do poderio estadunidense, de uma maneira mais subjetiva ou de mais explícita. 

Vamos, então, dar uma olhada em apenas duas das manifestações (implícitas e explícitas) sobre o declínio norte-americano, na mídia e no governo. 

A preocupação com o nível de desemprego e com o crescimento da economia é onde podemos observar bem essa questão. Os Estados Unidos tem, ao longo dos anos, sido vistos pelos próprios norte-americanos como gestores da ordem global. Com uma economia que produz um quarto do PIB do mundo, o papel do país é inegável. Contudo, se alguns se alegram com o mau desempenho da economia americana, Richard N. Haass, do Council of Foreign Relations (um pensador bastante envolvido com o governo, diga-se de passagem) defendeu que se é possível ver uma mão invisível nas questões econômicas, nas questões geopolíticas uma mão invisível levaria ao caos. A China, Rússia ou as potências emergentes não poderiam aceitar os custos na gestão da ordem e a ausência dos Estados Unidos não seria um bom resultado para todos os países. Para ele, os EUA deveriam recuar um pouco, colocar sua casa em ordem para depois retornar à gestão do mundo. Essa é uma tendência que também já havia sido apontada no blog sobre isso. E a preocupação com o declínio está aí muito bem manifesta. Por mais que se saiba que o Tio Sam tem um poder inegável, a procura de ressaltar que somente os EUA podem gerir a ordem é uma resposta à possibilidade de novas potencias interessadas nesse papel, leia-se, principalmente, a China. 

Isso leva à segunda preocupação, nesse caso, de cunho geopolítico. A emergência da China como potencia geopolítica e militar preocupa o Tio Sam. Depois de, como apontou o prof. Héctor Saint-Pierre em uma de suas aulas, o desvio estratégico de mais de uma década com o foco no terrorismo, os EUA retomam com a preocupação que se relaciona com sua existência política. Pude perceber isso na palestra sobre as grandes potências e a acomodação de interesses, no dia 04/04/2013, durante o congresso da International Studies Association. A resposta dos professores John Mearshimer (clique aqui e confira parte de seu pensamento na coluna teórica) e Joseph Nye Jr. (clique aqui para mais sobre seu pensamento) foi mais negativa. O primeiro apontou que era questão de tempo até os EUA desviarem sua grande estratégia para a Ásia e se preparem para a contenção da China. Nye Jr., por outro lado, defendeu que era preciso a aproximação comercial, econômica e cultural com o país e deixar o lado militar para a última opção. Contudo, a contenção militar não poderia ser descartada. A publicação do relatório anual do Pentágono para o Congresso, de 2013, mostra um pouco disso, com suas várias referencias à China e, principalmente, uma acusação de que o governo chinês estaria por trás de tentativas de espionagem pela internet, também conhecida como cyberwar. 

Ainda há uma terceira manifestação do declinismo na mídia. O principal exemplo é New York Times, que tem feito um grande lobby pela intervenção na Síria. O jornal apontou em sua mais recente pesquisa de opinião sobre as ameaças do país que a não-intervenção no conflito interno sírio era o retorno à situação de isolacionismo. Ora, Stephen Walt já criticou bem esse aspecto mas não mencionou sua relação com o medo do declinismo. Nesse caso, como no primeiro, há a preocupação de que a falta de atuação externa do Tio Sam leve à perda de poder. Há também a mesma noção de que os EUA devem gerir a ordem internacional e, portanto, devem também intervir militarmente para impor a paz quando necessário.

O declinismo norte-americano é um tema que está incutido na sociedade dos EUA e, mesmo com seu status confortável, em termos de poderio, o medo de perder lugar ainda se faz constante no imaginário da população. Precisaríamos de mais tempo e mais espaço pra trabalhar melhor essas manifestações, mas acredito que deu pra dar mostrar um pouco como isso se dá. Entre o medo de declinar, os problemas internos e potenciais intervenções externas, os EUA trilham para o futuro.


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Disputando a liderança…

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Brasil x México. Não, não estamos falando da última final olímpica no futebol masculino, em que nossos vizinhos mexicanos levaram a melhor. A disputa agora é em outro campo: trata-se da batalha pela liderança da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Fato é que a OMC se tornou conhecida há anos pelas dificuldades nas negociações da Rodada Doha – a qual começou em 2001, mas se encontra travada desde então especialmente devido às políticas protecionistas de Estados Unidos, Índia e China, que dificultam qualquer tipo de consenso (leia mais aqui e aqui). Aliás, consenso é palavra-chave pra essa organização, já que a não-aceitação por parte de qualquer um de seus 159 países-membros impede que qualquer medida seja adotada.

Por consenso também funciona, portanto, a eleição do Diretor-Geral da organização. Eleição que é feita a portas fechadas e em estilo gradual (como um “paredão”, em que os candidatos são eliminados aos poucos, ao final de três rodadas). Nove candidatos iniciaram a disputa, cinco seguiram bem cotados para a segunda rodada (inclusive aquela que poderia ser a primeira mulher a ocupar o cargo, a indonésia Mari Pangestu) e dois permanecem no páreo até o final de maio.

São eles: o mexicano Hermínio Blanco e o brasileiro Roberto Azevêdo. Ou seja, a vitória já é latino-americana (fato inédito!), o que representa (ou reforça) a importância que a região está assumindo no cenário das organizações internacionais – desde que a OMC foi criada, em 1995, é a primeira vez que dois candidatos de uma mesma região disputam este cargo entre si na fase final.

A um mês do final das eleições, as perspectivas ainda se apresentam bastante incertas. Em termos de orientação econômica, o mexicano parece agradar mais àqueles de pensamento liberal (no caso os EUA e os países desenvolvidos em geral), enquanto o nosso Embaixador possui uma visão mais desenvolvimentista, menos crente na liberalização do comércio como solução (a qual agrada principalmente o BRICS, os países africanos e emergentes).

Em intensa campanha pelo mundo afora, Roberto Azevêdo encontra-se bem avaliado para se tornar o primeiro brasileiro a assumir um cargo de tamanha importância em organizações internacionais. Cargo que representa por si só um desafio, já que as negociações não andam há anos e as decisões na OMC são tomadas por consenso, o que reduz a margem de manobra de seu Diretor-Geral.

Contudo, apostando no potencial de negociação de Azevêdo – Representante Permanente do Brasil na OMC em Genebra desde 2008 e extremamente habilidoso como diplomata – a conquista deste cargo representaria um marco importante para a política externa do país, a qual alça voos antes nunca imaginados. Carregado de responsabilidades, é claro, como qualquer cargo de liderança, o posto de Diretor-Geral do maior foro internacional de negociações comerciais vislumbra, efetivamente, a possibilidade de uma liderança brasileira. A ver durante as próximas semanas se nesta nova disputa com os mexicanos, em outros campos, a “vitória” será verde e amarela… 

 


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Colorando

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Para manter a tradição das segundas-feiras, hoje falamos, novamente, de eleições. Na semana passada, o tema foi o pleito venezuelano, com um interessante post do leitor. Nesta, o Paraguai foi a bola da vez.  

Em certa medida, as eleições seguidas nesses dois países vieram a calhar para nossas análises, palpites e fofocas políticas sobre América do Sul. Afinal, antes do “golpe de cavalheiros” que, em menos de 24 horas, e com um mínimo direito de autodefesa, tirou Fernando Lugo do governo, a grande tensão mercosulina era entre os dois países. De um lado, o congresso paraguaio, último parlamento do Mercosul que restava para aprovar a proposta de entrada da Venezuela ao bloco, opunha-se veementemente. De outro, o falecido Hugo Chávez, com seu tom de discurso político sempre polêmico, também não plantava boas sementes e expectativas para os buscavam colher apenas estabilidade e tranquilidade. 

Ora, mas será que o pleito paraguaio, no contexto da morte de Chávez e da eleição de Maduro, poderia alterar esse cenário? 

Comecemos do começo. Do plano interno e das eleições. A vitória do empresário Horacio Cartes é bem representativa para o Paraguai. Primeiro, significa o retorno do Partido Colorado, que governou o país por seis décadas. Segundo, porque fecha o ciclo do capítulo de Fernando Lugo da história recente da presidência paraguaia, como aquele que deixou um legado social interessante, mas não o que a população esperava; e o que sofreu o “golpe de cavalheiros” de seu vice, Federico Franco e do congresso paraguaio. Cartes obteve um total de 45,8%, seguido do candidato, Efraín Alegre, do Partido Liberal, com um total de 36,9% dos votos, de Mario Ferreira, da Aliança Nacional, e de Aníbel Carrilo, da Frente Guaçu (partido de Lugo), com, respectivamente, 5,96% e 3,43%. Vale notar que, os “cavalheiros” do Partido Liberal e do congresso conseguiram boicotar a exposição midiática do candidato de Lugo que não foi convidado para os debates presidenciais. 

Assim, nesse cenário pós-golpe que Cartes reergueu a hegemonia do Partido Colorado. Uma espécie de mudança para uma velha continuidade…Tenta agora desvincular sua figura do governo do ditador Alfredo Stroessner (1958-1988) e das irregularidades que praticou durante o período. O perfil empresarial de Cartes também agrada os brasiguaios, em geral, donos de terras e agricultores que conseguiram ir para o Paraguai durante a ditadura no país. Esse pode ser um fator que ajude na estabilidade com esse grupo, algo Lugo não conseguiu no massacre tido como justificativa para seu impeachment. 

No plano externo, parece que há um potencial de mudança. Primeiro porque o Brasil já tomou a dianteira (que logo vai lhe render críticas de setores da imprensa paraguaia, como já ocorreu em editoriais do jornal ABC Color) e condicionou o retorno do Paraguai ao Mercosul à aceitação da Venezuela como membro pleno. Não se sabe se é juridicamente possível uma postura dessa, pois parece que o Brasil está querendo dizer que é o chefe do clubinho do mercosulino, mas o discurso diplomático é esse. 

Por outro lado, já com a legitimidade  do Uruguai e da Argentina, provinda dos observadores da Unasul, Parlasul e OEA, Cartes aproveitou para dar indicativos de que se diferenciará de Franco na atuação externa. A morte de Chávez e a eleição de Maduro podem ajudar o novo presidente paraguaio na pressão do congresso; pois, diferentemente do Brasil, no Paraguai, o Executivo tem muito menos força do que o Legislativo. Então, convencer e negociar com o parlamento em temas polêmicos é algo essencial pra quem quer governar. Ainda, como já mostrei em outro post, a adesão da Venezuela um parceiro comercial, um novo país com mais oportunidades, e não com um governo específico, algo que poderia, de certa forma, ser benéfico para o Paraguai. 

Bom, qualquer resposta que buscássemos dar agora seria provisória ou mero exercício de reflexão. Por isso, aproveito para convidar a todos a refletir sobre essas mudanças de governo na região, pois, apesar de termos possibilidades de mudanças, as continuidades ainda falam alto. E, assim, enquanto o Paraguai, mais uma vez, volta-se para o Colorado, o Mercosul aguarda, esperando que nada dê errado…


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Post do Leitor

Post do Leitor – Maria Eduarda Ferreira Cabral

[A leitora Maria Eduarda Ferreira Cabral nos brindou com uma interessante reflexão sobre as eleições venezuelanas. Confiram a seguir! Lembrando a todos que quiserem postar na Página Internacional, que basta enviar um texto para [email protected] ! Boa leitura]

A luta continua!


Finalmente, saiu o resultado das eleições venezuelanas! E a novidade que todos já sabiam, mesmo com a queda que vinha sofrendo na última semana, Maduro venceu. Em seu discurso de vitória a promessa de continuar com as políticas do antecessor. Mas quanto tempo será que o chavismo aguenta sem Chávez? 

Com uma vitória apertada, de 1,6 pontos percentuais de diferença, ficou claro que a população sabe que, apesar da indicação de Chávez, o ex-motorista não é Chávez. Com essa pequena vantagem, de pouco mais de 200.000 votos, a pressão sob Nicolas Maduro será grande. A oposição não irá aceitar o resultado facilmente, Capriles já começou a se manifestar e a Espanha, aparentemente, também irá entrar na briga. Apesar de ter se apoiado no seu antecessor, ficou claro, no decorrer das campanhas eleitorais, que Maduro não tem o mesmo carisma, e não irá conseguir unir, sem maiores problemas, os grupos discrepantes que fazem parte do chavismo. 


Obviamente é esperado que o novo presidente continue com políticas públicas de assistencialismo para manter cativo a si a parte da população miserável que necessita do dinheiro vindo do petróleo para ter saúde, moradia e alimentação. Todavia, nessa eleição a população aparentou estar mais preocupada com a corrupção – já impregnada no país desde antes de Chávez entrar no poder -, a alta criminalidade, lacunas nos serviços, a ineficiência do governo estatal de controlar o câmbio, de manter a inflação controlada, de conseguir atrair investimentos para o país… A lista de insatisfações é longa. 


Os tempos mudaram. A Venezuela de 1998, com uma situação política que favorecia a valorização do Estado, inexiste atualmente. É inegável que Chávez trouxe diversos benefícios para o país, mas as políticas socialistas, de nivelar por baixo, não estão mais servindo. A luta do chavismo para se manter continua… Por quanto tempo?


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E eu com isso?

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Muitas foram as discussões com relação às eleições na Venezuela, mas, afinal, que diferença faz para o Brasil? 

Hugo Chávez estreitou nossas relações bilaterais. Começou com Fernando Henrique Cardoso, consolidou-se com Lula. Na sua segunda fase ganhou novos contornos decorrentes de afinidades preexistentes entre ambos governos. O que continua, tendo como exemplo o apoio de nosso ex-presidente a Maduro.   

Brasil e Venezuela convergiram que havia uma necessidade de mudança no sistema internacional vigente. As divergências acumularam-se quanto a escala e os meios para atingir esta mudança. A diplomacia presidencial, de Lula e Chávez, ajudou a destacar as diferenças.   

O anti-liberalismo e anti-imperialismo chavistas defendiam uma transformação mais profunda, um novo modelo de desenvolvimento. Neste sentido, coexistiriam a “pátria chica” com a “pátria grande” (referência a integração latino-americana). Com o tempo, surgiram novas alianças regionais e mesmo globais (algumas controversas).  Sua lógica foi predominantemente conflitiva.  

O Brasil, por outro lado, buscou a conciliação. Nossa diplomacia sentava-se à mesa dos grandes, enquanto criticava o sistema pautado neles. Ganhou espaço, muito decorrente de sua consolidação econômica. Não foi mais possível alijar o Brasil dos grandes debates. Expandiram-se os contatos diplomáticos, nossas iniciativas e consequentemente nossa interlocução.  

Desta forma, foi nossa maior virtude e nosso maior pecado. De um lado, fomos criticados por não tomar partido claro de ninguém. Uma ambiguidade possivelmente intencional. Já que assim, por outro lado, mantivemos nossa capacidade de mediar e consolidamos nossa capacidade de interlocução. Afinal, o Bush – o diabo para Chávez – podia discutir com Lula a Venezuela, ao passo em que os venezuelanos seguiam vendo Lula como irmão.    

A alternativa do chavismo tem forte apelo, é inegável. Para o Brasil, foi ambivalente na medida em que postou-se como contraponto às possibilidades de consolidar nossa liderança regional; mas serviu para destacar o fato de sermos um vetor importante (talvez o único) para a comunidade internacional lidar com a Venezuela e seus aliados políticos e ideológicos, ou seja, sermos na prática o melhor projeto de líder regional.  

E agora, Maduro ou Capriles? Maduro, deve seguir caminhos similares ao seu padrinho, mantendo as parcerias comerciais estabelecidas e paulatinamente diminuindo a interação com países não alinhados. Cabe esperar se seria mais moderado com relação aos temas internacionais. Capriles, por sua vez, indicou sua afinidade com o modelo de Lula, o que poderia pressupor mais conciliação e menos conflito na esfera internacional.  

O processo em marcha por influência de Chávez e pelo surgimento de lideranças nacionais que defendem maior peso ao controle estatal está consolidado. Estas entram em atrito com a diplomacia brasileira de negócios, levando grandes empresas e projetos aos vizinhos. Não faria sentido somente trocar o comando (e a nacionalidade) dos grupos dominantes, não? Ainda assim, o apoio de Lula pode indicar uma simpatia do nosso governo com a continuidade na Venezuela. A linha primordial que nos difere foi traçada, mas a conciliação brasileira continuará à prova no Mercosul e na Unasul. Dependerá da herança deixada por Chávez.  

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Petróleo e Chávez: as eleições na Venezuela

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A participação do petróleo no debate público venezuelano é antiga. Seus impactos também. Já na Grande Depressão, discutia-se a questão dos ingressos advindos do óleo natural. Naquela época, a solução foi um novo sistema de royalties. Além disto, deste país saíram 60% do suprimento das forças aliadas durante a Segunda Guerra Mundial. Desta dinâmica decorre o fato do país ter incrementado o nível de vida de sua população, aumentado suas reservas e os rendimentos reais dos trabalhadores no pós-Guerra.  

Voltando a um período mais recente, posterior a redemocratização do país (1958), a pujança petroleira teve continuidade. A criação da OPEP, em 1960, foi elemento fundamental. Os choques impostos por esta organização, em 1973 e 1979, foram o motor dos avanços internos e externos. No primeiro âmbito, os benefícios sociais eram tangíveis, o crédito aos empresários farto e a inflação estava controlada. No cenário internacional, a Venezuela pode engajar-se no movimento dos não-alinhados e no chamado terceiro-mundismo.  

Contudo, a prosperidade durou pouco. Na década de 1980, o quadro inverteu-se em parte devido ao impacto na demanda por petróleo decorrente da desaceleração econômica mundial. A Venezuela viu o desemprego fortalecer-se, os investidores abandonarem o país e sonho petroleiro ser interrompido. Os venezuelanos não estavam acostumados aos sacrifícios que viriam. Frente este cenário, Chávez comandou uma tentativa fracassada de tomar o poder. Sua figura, a partir de então, tornou-se onipresente. Mais antigo e recorrente na vida venezuelana só mesmo o petróleo.  

Com sua chegada ao poder, pelo via democrática, Chávez pode colocar em prática sua revolução. Conforme debatido à exaustão por analistas, sua linha pautou-se na redistribuição da riqueza gerada pelo petróleo. Para os seus defensores, inaugurou uma era que levaria os interesses de seus cidadãos ao comando, contra grupos (nacionais e estrangeiros) que agiriam em favor próprio. Para seus críticos, representa um governo que monopoliza meios de comunicação, busca perpetuar-se e fragilizou a economia do país.  

Neste domingo, estarão frente a frente Maduro, herdeiro de Chávez; e Capriles, líder escolhido pela imensa coalização opositora. Estes descrevem a disputa como uma luta entre Davi e Golias. Aqueles, preferem adotar a defesa que trata-se de dar continuidade ao conjunto de princípios deixado por Chávez. A vantagem, nas recentes pesquisas, segue confortável em favor dos governistas. O principal perigo talvez nem seja o opositor, mas a abstenção.  

Em um país de altos e baixos, que viveu o melhor e o pior em termos econômicos, depender do petróleo mostrou seus lados bons e ruins no decorrer de sua história. Mesmo ganhando o herdeiro oficial, os desafios econômicos serão grandes e caberia uma reflexão de como enfrentá-los. Caso contrário, Maduro precisará mais do que recados enviados por “passarinhos” pelo seu padrinho político, terá de refinar seu exercício de mediunidade para explicar ao povo venezuelano como o Comandante faria para reavivar a economia. Ele não descansa, nem morto.  

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"Esta velha é pior que o caolho"?

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A diplomacia é repleta de frases indesejadas e conversas sem o dito teor diplomático por debaixo dos panos. Se tudo o que estivesse escrito ou fosse dito viesse a público, o mundo estaria repleto de problemas e contenciosos por aí. Na América do Sul, a declaração recente do presidente uruguaio, José Mujica, sobre a presidente argentina, Cristina Kirchner, é exemplo claro. 

Sem saber que seu microfone estava ligado, e que tudo era transmitido ao vivo pela internet, disse “se para conseguir algo na Argentina tem que se apoiar um pouquinho no Brasil, esta velha é pior que o caolho”. O mal-estar diplomático foi quase imediato. Mas é nessas horas, que a diplomacia baixa a guarda, que se percebe, de fato, o que os governantes pensam. No caso específico da Argentina, fica essa pergunta no ar. 

Por que Cristina é pior do que seu marido para o Uruguai? 

Bom, vamos lá, tentar responder essa pergunta. Economicamente, as barreiras alfandegárias recentes que o governo argentino tem imposto aos seus parceiros de bloco continuam a prejudicar o comércio entre os vizinhos. Basicamente o protecionismo aparece pelas licenças de exportação não-automáticas contra países do Mercosul, e isso já é uma grave violação do protocolo de Ouro Preto, de 1994. 

Em números, para além do manifesto prejuízo comercial, há outro agravante para o país. Enquanto a Argentina é o terceiro principal destino das exportações do país, com 5,7% do volume total exportado em 2012, o Uruguai não se encontra nem entre os dez primeiros países importadores do governo argentino em 2012. 

Da mesma forma, encontra-se somente no nono lugar entre os destinos das exportações argentinas, atrás de parceiros nem próximo dos sul-americanos, como Canadá, Alemanha e os Países Baixos. Os bloqueios dos últimos anos não fizeram com que a Argentina retraísse suas exportações para o país. Pelo contrário, de 2011 para 2012, o governo argentino conseguiu um aumento de 2,0% para 2,4% do total. Já no Uruguai, as exportações para o país dos Kirchner caíram de 8,3% para 5,7%, um número bem significativo. 

Pensando um pouco melhor nesses números, é possível ver o quão assimétrica é essa relação entre hermanos. Por sinal, protecionismo intra-bloco é até lucrativo. Na assimetria, o governo de Mujica perde muito mais com barreiras alfandegárias, e a redução da entrada de seus países na Argentina, do que os Kirchner. E retaliações do Uruguai quase não surtiriam efeito. 

É aí que entra o Brasil. Como disse o presidente uruguaio, “temos que se apoiar um pouquinho no Brasil”. De fato, eles tem. Isso porque somente o grande verde-amarelo e o grande dragão chinês se repetem como principal destino das importações e exportações de Argentina e Uruguai. O Brasil é o maior parceiro para ambos. O que significa que, ou deve-se aproximar da China para que ela se envolva mais diretamente nessas negociações ou do Brasil. Como é pouco provável uma participação mais incisiva do governo chinês, cabe ao brasileiro esse papel de pressão.

Bom, dá pra ver que as ações recentes de Cristina são complicadas para o Uruguai. Agora por que pior? Dizer “pior” já significa que antes era ruim… Pois bem, já foi assunto aqui no blog o contencioso das “papeleras”. 

 

Resumidamente (para mais clique aqui para ler o post), em 2003, o Uruguai foi acusado pela Argentina de violar o tratado de uso do rio homônimo por ter instalado indústrias de celulose próximas a ele. O resultado desse bafafá regional foi um prejuízo grande para o governo uruguaio, uma tensão de mais de meia década, e, em 2010, sua condenação na Corte Internacional de Justiça. 

Com esse comentário despretensioso de Mujica, dá pra dizer algumas coisinhas sobre o porque da piora do marido para a mulher. Primeiro, com Néstor Kirchner, o prejuízo era mais localizado. Agora, é generalizado. Segundo, anteriormente, o governo uruguaio precisava mais de uma arbitragem internacional do que do apoio de terceiros, pra resolver o problema. Agora, depende unicamente das pressões e posicionamentos de um terceiro, o Brasil, que infelizmente para Mujica, tem sido muito brando nas críticas, e parece estar mais preocupado com o longo do que com o curto prazo. Há o mecanismo de solução de controvérsias do Mercosul, mas fica a dúvida se de fato seria vinculante em um caso desses, de baixo interesse brasileiro. 

Bom, resumindo, pensando pelo ponto de vista do próprio Uruguai, Mujica até tinha razão…

[Os dados foram retirados do Brasil Global Net. Confira  aqui, aqui e aqui]


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O respeito e as diferenças

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Esse post é apenas uma reflexão sobre diferenças culturais e religiosas e os ideais que nomeamos como igualitários e formadores de uma tolerância para vivermos em paz em um mundo plural. 

Coreia do Norte, Islamismo e a Direita americana. Marcos Feliciano ou Bolsonaro. Nas discussões tanto da política nacional como da internacional, figuras como essas sempre aparecem cumprindo os mais múltiplos papéis. Com suas diferenças, em uma característica se parecem: são os personagens que desafiam as ideias mais comuns do que se prega no ocidente como caminho para um futuro melhor.

No post de ontem do blog, fomos apresentados a ideia criada de um mundo sem conflitos, fabricado no que seria o último pós guerra da história. Verdade ou não essa ideia, ainda mais após as diversas batalhas e massacres que estiveram envolvidos os maiores defensores de que vivemos em um mundo de paz, como os EUA, sempre houveram os antagonistas à Ordem estabelecida, nos dois sentidos da palavra. Mas não somente no conflito entre países que se espalham ideias totalizadores, de inserção, e seus críticos. 

As diferenças culturais, por exemplo, atravessam todos os comportamentos do ser humano individual ou de grupos específicos, menores que a população de países e seus governos. Assim, se formam as mais diferentes práticas e visões de mundo, muitas delas apenas importantes para a maioria como fato curioso. Mas como sentimos as diferenças quando elas vão contra aqueles comportamentos que incontestavelmente vemos como ideais? A maior parte do tempo isso se passa desapercebido, até que nos deparamos com alguma ação que achamos bizarra. 

Nessa semana tivemos dois exemplos disso. O primeiro, um estupro coletivo na Índia contra uma turista. Tudo ainda observado pelo marido impotente.É certo que na Índia o estupro é considerado crime, mas se torna um fato bastante comum em um país extremamente dominado pela vontade dos homens. Um exemplo disso é também o costume bastante comum no país de casamentos arranjados entre homens e crianças de apenas oito anos de idade. Em outro momento da semana, soubemos do apedrejamento de um homossexual condenado na Somália,  legitimado pela lei do país como punição ao crime de se manter relações com o mesmo sexo. Diante disso, como deve se comportar a população ocidental esclarecida, as organizações e os governos defensores da igualdade e ditos contrários ao preconceito? 

Durante pelo menos a primeira metade do século XX, a ideia de que os valores deveriam ser impostos foi bastante comum. As críticas a intervenção, ao imperialismo e ao ocidentalismo fizeram com que surgisse um outro grupo: os defensores da autonomia de cada cultura. Até que ponto podemos influir em outra cultura? Para esse grupo em basicamente nada. Todas as mudanças de posturas e revoluções deveriam ser feitas pela própria população. Como se cada qual fosse dono do seu nariz.

O grande exemplo está entre as feministas do não envolvimento em relação aos outros. As mulheres lutam pelas mesmas bandeiras no mundo como se fossem um grupo só, ou cada grupo de mulheres, dependendo da cultura, da cor ou do extrato social devem lutar pelas suas próprias melhorias? Essa discussão chega ao seu limite de radicalismo ao vermos a questão da mulher em culturas que, por exemplo, exigem a cirurgia do clitóris na infância, para que a mulher não tenha nenhum prazer sexual durante a vida. Parte das feministas defenderam que um país assim deveria ser “liberto” de tais ideias. Outras, já enxergaram que parte do papel da mulher nessa sociedade é o de sofrer essa cirurgia, e que se retirassem delas essa marca, elas seriam completamente engolidas pela cultura, párias, seres sem identidade. Entretanto, Bolsonaro também não defendeu a continuação do papel tradicional da mulher como algo bom a sua felicidade? O que desejamos e defendemos para os nossos equivale aos outros?

Quando o que achamos errado ocorre em nossa sociedade ficamos indignados. Quando ocorre em outras, qual deve ser nossa reação? Até qual ponto podemos nos posicionar a realidade de outros povos? Em certo ponto, existe algum novo valor que deve ser universal?

Uma das premissas constantes do discurso do deputado federal Bolsonaro, o maior acusado de homofobia no Brasil, é a “liberdade de expressão” a que  estamos sujeitos como desculpas ao seu ódio. Portanto, devemos “engolir” tudo o que o congressista fala como aceitável pela sua premissa ou devemos e podemos contestar suas ideias e opiniões? Até qual ponto medimos uma liberdade pela outra? E assim, até qual ponto medimos que uma cultura diferente é apenas destoante, contrastante da nossa e que deve ser aceita pelo discurso de pluralidade, ou deve ser negada por não se enquadrar a valores que por tanto tempo lutamos?  Contudo, é muito mais fácil quando nos deparamos com informações sobre as meninas islâmicas aceitarem que naquela cultura aquelas são as suas crenças, e não criticar como sendo esses costumes uma afronta aos direitos das mulheres. O mesmo poderia ser pensado a respeito de Marcos Feliciano e os evangélicos conservadores que se colocam totalmente contra aos direitos homossexuais? Ou o ocidente perdeu a cultura, somos agora superiores próximos à sociedade perfeita, e devemos ser pacientes com as superstição e crenças de massa? 

Como expectadores nos tornamos impotentes e prudentes diante de um fato desses, e chegamos a admitir que esse costume das mulheres islâmicas é um habito cultural, o que seria impensável se essa mesma violação dos direitos de uma mulher acontecesse nas nossas fronteiras culturais. O que esquecemos é que até pouco tempo atrás tínhamos costumes que hoje consideramos repugnantes. A discussão entre a existência de valores universais para esses pontos é um posicionamento que deve recair em nossa geração, e seremos nós que teremos que tomar alguma posição, quanto a aceitá-las ou negá-las totalmente. Tanto no discurso da câmara, a pensamentos de uma religião ou as práticas de outros povos. Lembrando que essa discussão não tem significado de intervenção ou de contestação de uma cultura inteira, mas sim das ideias que defendem cada uma dessas, isoladamente. Façamos uma reflexão!


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Alheia à ordem

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Era uma vez um mundo. Um mundo que havia sofrido tanto com horrores de guerras que decidiu mudar. Optou por tornar-se um lugar onde as fronteiras existiam apenas formalmente e os princípios do direito internacional, do desarmamento e da paz regeriam a todos. Um lugar sem problemas aparentes, mas que, caso houvesse alguma tensão internacional, logo viria a mão amiga de uma organização apátrida e apartidária, as Nações Unidas, para resolvê-la. Assim, todos viveriam felizes para sempre em uma comunidade internacional regida pela força do direito e dos valores da humanidade. 

Um cenário muito bonito, de fato. Mas logo veríamos que haveria de ser construído e motivado por alguém, alguma grande potência internacional, em um esforço conjugado do restrito condomínio dos poderosos. Que, do ideal, dos princípios morais e valores criados, também surgiriam mais conflitos, difíceis de se justificar plenamente dentro dessas normas. Como resultado surgiriam países isolados que não aceitariam as mudanças no cenário; sendo, portanto, produtos rejeitados desses mesmos princípios. E nosso mundo perfeito rui, trazendo-nos de volta à realidade do mundo em que vivemos. 

Dos muitos exemplos de que temos por aí desse tipo de produto, a Coreia do Norte é o mais latente. Aquele mais escancarado. Uma ditadura, que se diz comunista, isolada do mundo, questionando a ordem liberal criada pelos EUA (e consentida por todos os demais), e vivendo presa nos tempos de uma guerra que viu seus últimos tiros há praticamente 60 anos. Não soaria tão estranho e incompreensível os testes nucleares e de mísseis e nem mesmo a cultura bélica do país. Como disse em outro post, eles são a mais comum forma de afronta à moral e aos bons costumes internacionais. É difícil ser determinista a ponto de dizer que tudo o que acontece lá foi resultado da ação do Tio Sam e da Guerra Fria. Mas dá para falar que esses dois eventos tiveram uma influência na construção do que a Coreia do Norte é hoje.  

Anteriormente, sob a tutela da União Soviética, era muito mais simples para o país manter um programa nuclear (muito embora se tenha confirmação da cooperação nuclear entre a URSS e a Coreia do Norte durante a Guerra Fria). Foi somente a queda do muro de Berlim e a volta à pauta do debate sobre desarmamento e não-proliferação para além das grandes potências que mostrariam o quão isolada o país de fato estava. A Rússia e a China, antigos aliados do bloco comunista, ainda defenderam a “auto-determinação” da Coreia do Norte e aceitaram os questionamentos do país na ONU. Até um certo limite. 

O resultado de cada movimento fora do aceitável pela ordem seria as sanções lentamente aprovadas no Conselho de Segurança e aquelas particulares de cada potência. A população passaria a sofrer com a falta de alimentos e abastecimento, e o governo vociferaria contra as potências, intensificando seu espírito belicoso em um ciclo quase sem fim. Assim, as cartas do isolamento foram dadas. 

 

Vídeo que mostra como se reforça a visão de inimigo e da guerra no país…


E a Coreia do Norte tornou-se “o estranho”. Essa condição levou o país a um caminho muito particular.  Mesmo depois da Guerra Fria, continuou a se focar na construção de um inimigo externo. Levou isso às últimas consequências. Assustou o mundo quando denunciou ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear em 2003 e é bem sucedida em passar aos norte-coreanos a ideia de que a guerra está cada dia mais próxima. Assim, o belicismo tornou-se o recurso para unir a população e impedi-la de opor ao regime. Ele só diminui quando a coisa aperta economicamente.

Um recurso que o governo usa bastante. Praticamente a cada década os líderes fazem questão de confirmar a posição do país de excluído e a soar os sinos da guerra, contra a Coreia do Sul e os Estados Unidos. Foi assim em 1994, em 2003, em 2009. Não poderia ser diferente em 2012 e 2013. É um ciclo vicioso. Apesar de previsível e compreensível, as ações da Coreia do Norte não deixam de assustar as potências. Porque quando o assunto é armas nucleares, nunca se sabe se o tal ciclo pode se romper e passar para o conflito…


Todas essas condições históricas parecem ter dado pouca escolha política à Coreia do Norte. Ou ela abandona completamente o regime ou continua nesse ciclo vicioso, de belicismo e pressão econômica. Por essas e outras que assim vive, e sobrevive, a Coreia do Norte: alheia à ordem internacional.

[Para uma interessante análise sobre a ameaça do discurso norte-coreano, clique aqui. Para mais sobre a crise atual: 1, 2, 3, 4, 5]


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O fim do mundo

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Poucos acontecimentos chamaram tanto a atenção da mídia e do público globais quanto à sucessão papal. Para a surpresa de muitos, e após um rápido conclave, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi eleito o novo Sumo Pontífice. Logo em seu primeiro pronunciamento, o papa Francisco (nome adotado) disse, em tom de brincadeira, que seus irmãos cardeais foram buscá-lo quase ao “fim do mundo”. Por fim do mundo, leia-se qualquer domínio fora da Europa. Esse é o ineditismo mais marcante: o término de 1.300 anos de exclusividade do papado europeu. 

Por trás dos holofotes da escolha histórica do novo papa, está em curso um processo de reordenamento global. As ditas grandes potências carregam o ônus da construção da ordem internacional posterior à 2ª Guerra Mundial, cada vez mais desgastada, e as ditas potências emergentes, àquelas do “fim do mundo”, procuram aumentar sua influência nas principais decisões globais, contestando a velha – e, ao mesmo tempo, atual – ordem ainda vigente. 

Será que o “início do mundo”, ao qual se acrescentaria o Estados Unidos, ditarão os princípios, valores, normas, práticas e costumes que orientarão e regularão as relações internacionais no século XXI? Que papel exerce e exercerá o “fim do mundo”, particularmente os países emergentes, na política mundial? Barão do Rio Branco sentenciou que o século XX seria o século dos Estados Unidos. Dito e feito. Muitos analistas, hoje, afirmam que o século XXI pertencerá à China. Mas não será exclusivo do gigante asiático. É provável que haja uma maior distribuição de poder entre os países, porém, ainda assimétrica, variando de acordo com suas dimensões: militar, econômico, cultural, etc. Essa multipolaridade deve ser mais competitiva, uma vez que potências tradicionais e novas travarão disputas, em princípio verbais, pela redefinição da ordem internacional vigente. O ponto de partida parece ser a reforma das instituições multilaterais, notadamente a ONU, o FMI e o Banco Mundial. 

O mundo atravessa uma grave crise, mais do que financeira, de governança. Faltam lideranças e soluções mundiais representativas e equilibradas. Não é por acaso que figuras como Chávez, Ahmadinejad e King Jong-un se projetam. Assim como não é por acaso que a democracia e o estado de bem-estar social europeus são colocados em xeque. Exemplo mais recente é a Itália. Quando o uso da força aparece como solução viável, falta o controle sobre seu emprego e seus resultados, como se observou na Líbia. Além de todos os problemas já debatidos, um dos fatores que explica o baixo crescimento do comércio mundial, em 2011, conforme relatório da OMC, foi a intervenção nesse país, que provocou a diminuição da oferta de petróleo e a consequente elevação do preço do barril. 

E os países emergentes? Para não se limitar a revistas ou noticiários, destaca-se que o último relatório de desenvolvimento humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), recentemente publicado, é intitulado “A ascensão do Sul: o progresso humano em um mundo diverso”. Outra publicação da PwC Economics, muito interessante, fez projeções sobre o mundo em 2050. A estimativa é que, entre 2011 e a metade deste século, as economias emergentes cresçam 4% ou mais por ano, enquanto as economias avançadas cresçam 2% ou menos por ano. A tendência é que Nigéria, Vietnã, Índia e Indonésia estejam na dianteira desse processo. 

É claro que a pujança econômica não é um indicativo absoluto de poder. Ela é apenas um exemplo de que o predomínio euro-americano nas relações internacionais é coisa do passado. Em mundo mais multipolar e assimétrico, os países emergentes, ainda que não adentrem – por repulsão ou opção – ao seleto grupo das grandes potências mundiais, serão indispensáveis à redefinição da ordem internacional. À semelhança da frase da presidente Dilma sobre o combate a miséria, pode-se dizer que “o fim mundo é apenas o começo”. E abrir aquele sorriso acolhedor e esperançoso de Jorge Mario Bergoglio, porque ainda não se sabe o que representa esse começo…

[Post elaborado pelo colaborador Giovanni Okado] 


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