O lugar mais radical e interessante na Terra?

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Há cerca de uma semana, me deparei com um artigo interessante. O seu título: Poderia ser o Equador o lugar mais radical e excitante da Terra? Segundo a autora, uma correspondente do jornal britânico “The Guardian”, alguns elementos recentes deste país indicam um novo paradigma para o desenvolvimento. Muito do que foi construído através da vontade política do governo teve de subjugar condições econômicas incertas. Ainda assim emergiu um novo modelo.

Muito do que é comentado no artigo remete a temas já tratados aqui no blog, entre eles cabe ressaltar: a instabilidade política, os problemas econômicos que levaram a dolarização e a forte desigualdade social. Além disso, um outro fator (relegado pela autora) teve grande influência no Equador de hoje. Refiro-me à corrupção, dando ensejo a cenas tragicômicas, como ousadas tentativas de fuga do país ou mesmo ex-presidentes acionando a Corte Interamericana dos Direitos Humanos contra seu próprio país. Nem mesmo a Junta de Salvação Nacional, constituída em 2000 com participação militar, foi capaz de efetivamente salvar o país.

O martírio, pelo menos o político, parece ter terminado. O governo atual é o mais estável dos últimos tempos, fundado em uma nova constituição e com índices de aprovação acima dos 70%. Muitas são as críticas ao presidente Correa, internas e, por vezes, externas. Contudo, é inegável que houve uma melhora sensível em diferentes aspectos. No artigo em questão são citados fatores que promoveram melhoras, como o aumento das receitas advindas da extração de petróleo e dos impostos para empresas privadas, assim como a expansão dos gastos públicos. Podemos ainda destacar os investimentos sociais (que dobraram) e a diversificação dos parceiros comerciais. Como conclusão, a autora toma o exemplo equatoriano como inspiração, uma vez que, para ela, o resto do mundo poderia aprender muito com este experimento em curso no país.

Resta saber, qual a direção da revolução cidadã? O aumento da arrecadação pública possibilitou a expansão de programas e políticas que visam o bem-estar da população. São iniciativas que interministeriais baseadas em objetivos claros. Um ponto segue indefinido. Haverá uma continuidade democrática no Equador? Caso Rafael Correa projete sua permanência no poder por vários mandatos consecutivos, tal como Chávez na Venezuela, certamente fortalecerá as vozes que afirmam haver um plano de poder pessoal em andamento. Uma decisão errada, neste sentido, pode ameaçar o conquistado até agora e devolver o país para aquele cenário de instabilidade. Quem sabe Correa não encontre um sucessor tão ou mais aprovado que ele mesmo. Dilma, sucessora de Lula, parece ser um exemplo a ser considerado.


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Post do Leitor

Post do Leitor – Cairo Junqueira

[Pessoal, abaixo está um interessante texto sobre o aniversário de São Paulo e algumas reflexões sobre a cidade, proposta pelo nosso leitor, Cairo Junqueira. Lembrando a todos os leitores que gostariam de postar na Página Internacional, basta que nos enviem textos para o e-mail [email protected]. Aproveitem a leitura!]


São paulo. 458 anos e outros números


Durante meu período como coordenador do Setor Governamental da ORBE, a Empresa Júnior de Relações Internacionais da UNESP/Franca, recebi em mãos uma publicação intitulada “Discover a Green City – A guide to one of the world’s largest cities” que tratava sobre as iniciativas locais para a inserção internacional da capital paulista. Para tanto, achei interessante pegar alguns dados da publicação e esquematizar um pequeno texto em comemoração à data mencionada no título.

São Paulo festejou seu 458º aniversário como a maior cidade brasileira e a sétima maior do mundo, com uma população na casa dos 11 milhões e 200 mil. Possuindo um Produto Interno Bruto (PIB) estimado em 388 bilhões de dólares, também está no ranking das dez cidades mais ricas, lideradas por Tóquio, Nova Iorque e Los Angeles, respectivamente.

A cada três eventos realizados no nosso país, dois acontecem em São Paulo. Ela é a 24ª no ranking mundial de cidades por eventos de negócios internacionais e recebe cerca de um milhão e 600 mil turistas estrangeiros todo ano. Ainda assim, detém a maior frota de helicópteros e a maior rede de iluminação pública mundiais. Na Avenida Paulista, em horário de pico, passam cerca de 4 mil carros e pouco mais de 200 ônibus.

A capital é um exemplo clássico de cidade-global: tem uma completa rede de empresas que prestam serviços especializados e que dinamizam suas estruturas internacionalmente. Embora em número reduzido, comparado com outras cidades brasileiras, participa ativamente de redes de cidades, as quais são um meio de organização e coordenação descentralizada destes atores para fortalecerem suas atividades internacionais. Exemplos são a Rede Metrópolis e a Rede Mercocidades, aquela composta por cidades com mais de um milhão de habitantes e esta representante da estratégia mais usada no Cone Sul para a inserção externa de atores subnacionais.

Articula-se, também, através dos Fóruns de Secretários e Gestores Municipais de Relações Internacionais (FONARI) e possui uma Secretaria Municipal de Relações Internacionais (SMRI) desde 2001, responsável por projetar a cidade mundialmente e estabelecer contatos e convênios com os mais variados atores internacionais. Entretanto, inúmeras vezes, fica à mercê da burocracia pública e, com as mudanças de governo, acaba por retardar as iniciativas que vão ao encontro dos fatos mencionados acima. Inúmeros são os comentários benéficos sobre a gestão da Marta Suplicy no que tange à “internacionalização paulistana”, mas isto mudou com as diretrizes dos prefeitos mais recentes.

O que está em pauta, atualmente, é a promoção da capital como “cidade verde”. Sediou a reunião do C40 (Climate Leadership Group) no ano passado e tem buscado observar o que fazem outras cidades para o aumento da sustentabilidade ambiental. Amsterdã, na Holanda, é pioneira no uso da bicicleta como transporte diário e para o trabalho; Johannesburgo, na África do Sul, tem corredores de ônibus com baixo nível de poluição; São Francisco, nos Estados Unidos, destina apenas 20% do lixo para aterros sanitários; e os exemplos não param por aí…

Baseando-se na máxima liberal, no campo das Relações Internacionais, de que os ambientes interno e externo são inseparáveis, ainda faltam ajustes para ratificar, de fato, a inserção internacional de São Paulo. É óbvio que a capital enfrenta problemas de transporte, de infraestrutura e de urbanismo. Mas é gratificante ver como a maior cidade do país se firmou nos últimos anos, sendo um dos cartões postais brasileiros.

O enfoque, agora, é a Copa do Mundo e a possível realização da EXPO em 2020, considerada o terceiro maior evento mundial em termos econômicos. Com uma área de 1.500 km², densidade demográfica de 7,4 mil habitantes/km² e um orçamento municipal de cerca de 28 bilhões de reais; São Paulo, composta por 5 regiões, 31 subprefeituras, 96 distritos e 58 zonas eleitorais, tem muito a crescer e muito a ensinar para o restante das cidades brasileiras. Mesmo com seus pontos negativos, a capital paulista é um espelho dos brasileiros, tanto nacional, quanto internacionalmente.

Parabéns, São Paulo!


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Viajando

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Ahmadinejad fez um tour pela América Latina na semana passada. E não, ele não estava de férias. Foi um “turismo” diferente, conhecido no jargão da diplomacia como “giro diplomático”. Pela quinta vez, o presidente iraniano vem ao “novo mundo” e, dessa vez, sem parada no Brasil. Visitou a Venezuela, a Nicarágua, Cuba e o Equador. Todos eles países que, no plano discursivo, colocam-se contra a política externa estadunidense.

Evidente que qualquer visita do polêmico Ahmadinejad já agrega interesse, mas, essa, em específico, destaca-se pelo contexto no qual está inserida. Contexto esse no qual a pressão internacional sobre o Irã nunca foi tão grande. O seleto condomínio das grandes potências tem ampliado consideravelmente as sanções internacionais contra o país com o intuito de impedir a ampliação de seu programa nuclear que julgam ser para fins bélicos. Os países da União Europeia adotaram mais medidas coordenadamente, os Estados Unidos unilateralmente e ainda acirrou-se a pressão para que outros países façam mais.

Enquanto isso, do outro lado, o Irã deu claros sinais que o aumento de sanções seria um tiro que sairia pela culatra (o Japão, por exemplo, já tem mostrado os limites das sanções). Ahmadinejad buscou mostrar que os grandes prejudicados com a redução de seu comércio seriam as próprias potências ocidentais quando especulou-se sobre um possível fechamento do estreito de ormuz, principal rota de transporte de petróleo mundial. A despeito de a diplomacia iraniana afirmar que o país jamais teve a intenção de impedir a rota de petróleo, é interessante notar como esse xadrez de sanções internacionais funciona em um mundo tão interligado. Basta que se concentre em apenas um objetivo que logo se pode ver cercado e em xeque.

Em um contexto de grandes pressões, além de tentar se defender delas como pode, nada mais natural do que o Irã buscar fortalecer os laços com os países que possuem uma perspectiva ideológica semelhante. E, da mesma forma, a facilidade que o Ahmadinejad tem de se aproximar da América Latina pode significar que, politicamente, o Tio Sam tem visto sua influência diminuir na região (para um artigo sobre isso, clique aqui). Já a não vinda para o Brasil dá indícios que a postura da Dilma é bem diferente da de Lula em se tratando de Irã e Ahmadinejad não se sente confortável de tratar de alguns assuntos com o governo brasileiro mais (não há tensões, anda apenas diferente…).

Como disse antes, uma viagem do presidente iraniano à América Latina sempre chama a atenção. Dado o contexto, essa muito mais. Não foi a primeira vez que ouvimos de sanções e de visitas do governo do Irã, nem será. Enquanto o Ahmadinejad e o Tio Sam tiverem com que barganhar, essa novela irá longe…


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Post do Leitor

Post do Leitor – Cairo Junqueira

[O leitor Cairo Junqueira mais uma vez nos brinda com um interessante texto. Desta vez escreve sobre a política externa brasileira para 2012 e as relações com Cuba. Vale a pena a leitura! Aproveitamos a oportunidade para lembrar que todos podem postar na Página Internacional, basta que enviem seus textos para contato @paginainternacional.com.br]


Brasil e Cuba: o retrato do multilateralismo

Nem bem o ano começou e a agenda diplomática brasileira já iniciou seus trabalhos envolvendo a futura ida da presidente (ou presidenta, como quiserem) Dilma Rousseff a Cuba. O Ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, esteve em Havana nos dias 16 e 17 deste mês e conversou com o Chanceler Bruno Rodríguez sobre os caminhos das relações bilaterais dos países no ano que se segue.

Desconheço os acordos e as histórias existentes entre o Brasil e os cubanos, mas meu enfoque neste post é outro: o multilateralismo brasileiro na prática. Em meio ao cenário internacional atual, com os rumores das eleições norte-americanas, a tensão existente na política externa norte-coreana e a tímida comemoração dos dez anos do euro, nosso país mantém seu enfoque e reafirma seus ideais.

Isso não quer dizer que estamos nos desvinculando ou colocando em segundo plano estes aspectos citados acima, muito pelo contrário. O principal ponto é justamente verificar como o Brasil continua com a sua postura de multilateralidade bastante nítida nestas reuniões em Cuba, uma vez que é um país ímpar nas relações internacionais, seja devido ao seu sistema político interno, à sua estrutura social e urbana ou até mesmo à sua posição geográfica e diplomática.

As intenções do Itamaraty para com o país são visíveis: relacionamento bilateral, integração regional, cooperação técnica internacional e infraestrutura. São temas centrais da nossa política externa, bem como do nosso papel emergente. O estágio contemporâneo do multilateralismo brasileiro mescla a reciprocidade entre países hegemônicos e em desenvolvimento, sem deixar de lado aqueles considerados “terceiro mundistas”.

O aspecto plural de nossas relações exteriores é mais benéfico que a bipolaridade e representa a autodeterminação nacional. Começar 2012 com a visita a Cuba não é algo escolhido aleatoriamente. Para mim representa, e muito, o novo contexto internacional e o novo papel que o Brasil vem desempenhando na política mundial. Parece que nosso país quer dizer o seguinte: “estamos de olho em tudo e em todos”.


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O Haiti é aqui?

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“Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui.” […]

Os versos acima, eternizados por Caetano Veloso no início da década de 1990, refletem uma implícita crítica social e uma literal discussão que tem se destacado nas últimas semanas. Dois anos após o terremoto que devastou o país, constata-se a maior imigração haitiana para o Brasil desde o século XX. Desta forma, o assunto entra na pauta nacional e causa diversas reações.

O fato é que o terremoto que atingiu especialmente Porto Príncipe, a capital haitiana, há dois anos foi a “cereja” de um “bolo” que nunca encontrou o “ponto certo” – como nossas avós diriam (veja interessante post antigo no blog à época do terremoto aqui). A catástrofe natural que assolou o país foi de um nível de destruição tão alto que talvez só não seja superado pelo nível de incapacidade estrutural (notadamente do governo) em lidar com a situação que se seguiu.

Incapacidade que, segundo o atual governo – cujo mandato se iniciou em maio do ano passado –, foi herdada de governos anteriores. A afirmação não é falsa (pelo contrário!), mas é notável como tal herança parece multiplicar-se ao invés de desfazer-se com seus sucessores, assombrando um sofrido país e provocando inquietudes diversas.

Dada uma situação ainda em ruínas no país, a imigração tem sido considerada a única saída para muitos nacionais. E o equivalente ao tradicional “sonho americano” para os haitianos é, apesar do complicado acesso geográfico, o “sonho brasileiro”. Com a entrada recente (e em sua maior parte irregular) de aproximadamente 4 mil haitianos no Brasil, o assunto merece, sem dúvida, atenção especial.

Cidades amazônicas, especialmente Tabatinga (Amazonas, foto inicial do post) e Brasiléia (Acre), têm concentrado os imigrantes haitianos que chegam com a esperança de recomeçarem suas vidas em um país do qual a ideia de crescimento parece ser indissociável no momento. A noção de que esse crescimento acelerado é paradoxalmente acompanhado de desigualdades internas ainda extremas não parece indispor os haitianos a essa busca por uma recomeço em terras tupiniquins. O Haiti é aqui?

A concessão de vistos humanitários tem ocorrido aos haitianos que chegam, mas o governo anunciou ontem uma restrição a esse número mensal de vistos, almejando controlar o fluxo de imigração. Medida polêmica, já que a não aceitação do visto pode acarretar em deportação para o Haiti, onde a missão de reestabelecimento da paz da ONU (MINUSTAH) ainda é liderada pelo próprio Brasil. O Haiti é aqui?

A preocupação é complexa e envolve os âmbitos humanitário, político e mesmo econômico, devendo constituir pauta importante da viagem diplomática de Dilma ao Haiti, programada para o começo de fevereiro. As consequências da imigração irregular demonstram que muito ainda deve ser feito no Haiti para que os cidadãos não mais se sintam tentados pelas propostas de coiotes de ilegalmente entrar no Brasil, muitas vezes sob condições desumanas. E, é claro, muito ainda deve ser feito no Brasil para que possamos, efetivamente, afirmar que não, o Haiti não é aqui…


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Falklands ou Malvinas?

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E o Ano Novo começa com uma antiga reivindicação dos nossos hermanos argentinos: a soberania das Ilhas Malvinas (ou Falklands, para os britânicos). Na semana de comemoração (?) dos 179 anos de ocupação do território pelo Reino Unido, ocorrida em 1833, a recente decisão do Mercado Comum do Sul (Mercosul) de proibir a presença de barcos com a bandeira das Malvinas em seus portos alcança ainda mais repercussão.

Depois de o Brasil, o Uruguai e, obviamente, a Argentina acordarem tal proibição (o Paraguai não tem litoral) no final do ano passado, agora o Chile também entra na lista dos apoiadores diretos. As iniciativas de isolamento das ilhas têm gerado preocupação no meio diplomático britânico, o qual considera sem justificativa o prejuízo do sustento da colônia.

A necessidade de retomada das negociações acerca da soberania das Malvinas vem sendo constantemente exposta há anos pelo governo argentino, sem que os britânicos cedam em aspecto algum. Em fóruns multilaterais, a importância deste diálogo já foi reforçada pelos países-membros do Mercosul, da União de Nações Sul-americanas (Unasul), da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), da Cúpula de Países Sulamericanos e Países Árabes (ASPA), da Cúpula de Países Sulamericanos e Africanos (ASA), do Grupo dos 77, entre outros mais… contudo, nenhum mecanismo foi ainda capaz de provocar a mobilização do governo inglês neste sentido.

É claro que, para os ingleses, não se trata apenas de uma região estratégica do ponto de vista geográfico nas Américas, mas também – ou principalmente – do ponto de vista político-econômico: a exploração dos recursos naturais locais (petróleo!) e a realização de atividades militares nas ilhas, por exemplo, deixam claro alguns dos motivos pelos quais o país da Rainha permanece intransigente. (Confira aqui um interessante post já publicado no blog a respeito.)

Segundo a chancelaria argentina, apenas uma solução pacífica, mas definitiva, a essa disputa pela soberania das ilhas acarretará o fim de “[…] uma anacrônica situação, incompatível com a evolução do atual mundo pós-colonial”. Enquanto isso não acontece, meios diversos vem sendo adotados pela Argentina e seus parceiros, tal como esta polêmica decisão de fechamento dos portos brasileiros, uruguaios, chilenos e argentinos às embarcações das Malvinas (aguardemos suas consequências!).

O mundo “pós-colonial” em que vivemos enfrenta ainda muitos desafios internacionais, sendo a luta pela soberania das Malvinas um dos mais conhecidos e complicados. Por um lado, há a indisponibilidade britânica ao diálogo que pode acarretar a perda de um território de grande relevância geopolítica na atualidade. Por outro lado, a pressão sul-americana vem sendo promovida das mais variadas formas possíveis.

Entretanto, mesmo após quase dois séculos, a disputa não parece ter um fim próximo. Pelo menos não enquanto o Reino Unido não enxergar uma contrapartida à altura para ceder e conceber que as Falklands sejam, oficial e finalmente, as Malvinas argentinas…


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Post do Leitor – Cairo Junqueira

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[Este é um post elaborado por Cairo Junqueira graduado em Relações Internacionais pela UNESP de Franca e mestrando em Relações Internacionais pela UnB. O texto versa sobre os projetos de integração regional na América do Sul. Lembrando que todos podem participar e enviar textos para nós! Basta que nos mandem uma mensagem no e-mail [email protected]]

Cadê a Integração Regional?


Recentemente, vi no site da Federação de Câmaras de Comércio e Indústria da América do Sul (FEDERASUR) e na própria Página Internacional, notícias sobre a criação da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), que tem como objetivo resolver os problemas de integração entre 33 países da região. Como venho observando e estudando já há algum tempo esta temática, achei interessante fazer uma pequena análise sobre as tentativas de fomento de processos integracionistas no subcontinente para refletir sobre qual é o patamar de interação e cooperação entre o Brasil e outros Estados.

É necessário distinguir “integração” e “integração regional”. Para Walter Mattli (1999), a primeira corresponde simplesmente a uma ligação voluntária, no campo econômico, entre dois ou mais países. Já a segunda faz jus à promoção de normas em comum, regulamentações e políticas para determinada região. Sendo assim, aqui cabe a primeira reflexão: existe realmente um processo de integração regional no subcontinente?

O MERCOSUL, há alguns anos, era a “menina dos olhos” dos seus membros e modelo a ser seguido pelos outros países. Mostrou, excessivamente, seu caráter econômico e deixou em segundo plano outras temáticas que são necessárias para o estabelecimento de uma unidade regional. A verdadeira integração regional, comparando-se com a União Europeia, por exemplo, vai muito além da Zona de Livre Comércio ou do estabelecimento de uma Tarifa Externa Comum (TEC); ela dá ideia de uma comunidade, de uma identidade entre diferentes países em busca de seus desenvolvimentos mútuos.

Pois então veio a União de Nações Sul-Americanas (UNASUL), a qual, segundo comentários avulsos, seria o Conselho de Segurança da América do Sul! Opiniões à parte, seu cenário mostra-se positivo, porque ela está tentando incluir nas agendas estatais outras iniciativas viáveis à integração regional. Basta ver nos noticiários que suas propostas vão desde o aumento da infra-estrutura até o estabelecimento de uma rede de comunicações na América do Sul, da ampliação do comércio até a criação de uma Corte Penal.

São estes alguns fatores que dão destaque à UNASUL: ela busca promover na nossa região o que o MERCOSUL não conseguiu. É claro que não posso generalizar em nenhum momento, são organizações distintas, com pesos políticos diferentes e instituições ímpares, mas vocês repararam como a União ofuscou as ações do Mercado Comum?

Mas, para mim, a maior importância da UNASUL foi trazer a Venezuela para o cerne do debate. Li, também recentemente, no livro “Inserção Internacional: formação dos conceitos brasileiros” do Amado Luiz Cervo (2008), abro parênteses para indicar a leitura, que este país tem papel vital para a integração regional sul-americana. A tão almejada coesão regional não existirá sem o eixo Buenos Aires-Brasília-Caracas.

Bem verdade, volto à CELAC. O seu diferencial é promover o diálogo na região e, evidentemente, fazer isso sem a participação dos Estados Unidos e do Canadá. Tal fato promove identidade ao bloco, condição primordial para a unidade regional, mas será que ela não minimiza a “voz” política da região? Talvez não, pois foi desenvolvida como parceira do Grupo do Rio, o qual é um fórum de decisões políticas que estabelece contato com diferentes esferas internacionais, dentre elas a própria União Europeia, a União Africana e a CEI.

Por fim, escrevi estes breves parágrafos não para fazer inúmeras afirmações, mas sim para indagar a respeito da integração regional na América do Sul e no Caribe. A história é bem mais longa. MERCOSUL, UNASUL e CELAC são iniciativas contemporâneas na nossa região e são traços característicos deste processo que merecem ênfase em qualquer discussão sobre regionalismo. Nem ficção, nem realidade, a nossa integração regional parece estar inserida em um divisor de águas. As ações são múltiplas, o que falta é institucionalização e concretização das mesmas. O cenário é favorável e o diálogo torna-se pragmático.


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Impunidade diária

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Impunidade é um conceito que pode ser definido em três palavras: falta de punição. Infelizmente as ações para combater esse delito não são tão simples quanto sua definição. E quando se trata do caso da Colômbia, há que se reconhecer a atualidade e a amplitude gigantesca deste problema no que se refere às guerrilhas e ao sistema de paramilitarismo criado para combatê-las.

“Impunidade” é ainda o nome de um documentário extremamente esclarecedor em relação a esse tema (disponível aqui, mas com legendas apenas em francês). Lançado em 2005 (ainda durante o governo Uribe), o documentário tem por objetivo, segundo seu diretor, “dar cuenta de la historia de miles de víctimas de los paramilitares en Colombia, con las que, hasta el día de hoy, el Estado está en deuda en cuanto a justicia, verdad, garantías de no repetición y reparación”.

E certamente o trabalho realizado neste filme não poderia ser mais elucidativo e impressionante. Considerada ainda nos dias de hoje como um dos países que mais sofrem com violência no mundo, a Colômbia enfrenta uma desigualdade extrema em sua população, o que motiva o surgimento de movimentos armados para lutarem contra as minoritárias elites nacionais que controlam os rumos da maioria da população sem acesso ao desenvolvimento. As Farc são a guerrilha mais conhecida, dentre várias outras.

Apesar do ideal quixotesco, os métodos empregados pelas guerrilhas colombianas são, ao contrário, bastante questionados pela propagação da violência, sendo que sua extinção tem sido um objetivo político constante dos últimos governos nacionais. No entanto, em meio a tal luta contra a desigualdade, muitos outros problemas sociais surgem por consequência, dentre os quais o (menos noticiado) paramilitarismo merece atenção destacada.

Dado que o Estado não foi capaz de reprimir a criação de guerrilhas com seus instrumentos tradicionais, uma minoria de grandes empresários e políticos colombianos que concentram a maior parte dos recursos financeiros (e, consequentemente, “controlam” direta ou indiretamente o Estado, o narcotráfico e a economia) passou a financiar grupos paramilitares com este objetivo nos últimos anos. A polêmica alcança até familiares do ex-presidente Uribe e políticos de grande notoriedade no país.

Estes paramilitares atuam “paralelamente” ao Estado e não enfrentam diretamente os guerrilheiros, mas exterminam militantes de esquerda ou camponeses sob o pretexto de cumplicidade com as Farc. Em termos realistas, uma quantidade enorme de inocentes é assassinada ainda nos dias de hoje sem qualquer motivo real, apenas para justificar o dinheiro recebido…

Trata-se de um terrorismo moderno e pouco publicizado, já que os Estados Unidos possuem interesses estratégicos em relação à Colômbia, apoiando o governo e aquiescendo com a situação vigente. Muitos líderes paramilitares foram inclusive extraditados para os Estados Unidos acusados de narcotráfico antes mesmo de responderem por massacres cometidos na Colômbia, o que demonstra uma legislação condescendente com os crimes.

Com uma situação real de mais de 50.000 desaparecidos e 4 milhões de deslocados internos em decorrência do paramilitarismo, ocorre, pois, que a Colômbia de hoje sofre com uma chocante cultura de violência e impunidade. Segundo um analista colombiano, a política do país “está más tomada por la mafia y la corrupción que nunca”. A criação de guerrilhas e o combate a estas por meio do paramilitarismo são duas faces cruéis de um mesmo desafio colossal em seu impacto e complexidade para a Colômbia. Buscar o progresso deve pressupor, antes de mais nada, o combate a essa impunidade diária que assola o país de forma tão extrema.


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E fez-se a Celac…

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E fez-se a Celac… após mais de um ano de concertação política, com a primeira edição da Cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (Celac), encerrada ontem na Venezuela, este novo organismo regional de promoção do multilateralismo foi oficialmente criado. Ao todo, 33 países de toda a América Latina e o Caribe compõem o grupo, diferenciando-se, desta forma, das demais organizações regionais que não possuem esse grau de abrangência, à exceção da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Aliás, há quem descreva a Celac exatamente como uma “OEA sem Estados Unidos e Canadá”. Em termos práticos, é isso mesmo. Somando-se às iniciativas multilaterais já existentes (Unasul, Comunidade dos Países Andinos, Grupo do Rio, Mercosul e Alba), a Celac promete impulsionar ainda mais o processo de integração regional. As semelhanças culturais, linguísticas e históricas entre a maior parte dos países-membros (dos quais o Brasil talvez seja o que mais se difere) tornam o processo de integração “auto-justificável”, em um momento histórico no qual o fortalecimento das alianças dita o tom das Relações Internacionais.

O aspecto mais delicado desta nova Comunidade talvez seja exatamente o seu teor naturalmente “anti-estadunidense”, buscando um posicionamento mais coerente dos países-membros frente ao gigante norte-americano. O presidente do Equador, Rafael Correa, já arriscou inclusive a afirmar que a Celac irá, “mais cedo do que tarde”, substituir a OEA… para o boliviano Evo Morales, por sua vez, a Celac é instrumento de libertação em relação à dominação imperial. Será?

Este aspecto não é unanimidade entre todos os membros e parece ser precipitado lançar previsões deste tipo sem que a organização realmente se prove eficiente na promoção do diálogo entre os 33 países que, para além das semelhanças históricas, possuem também muitas diferenças, especialmente em termos de interesses no cenário internacional. Contudo, se bem-sucedida, certamente a Celac possui todas as ferramentas para demonstrar a força da América Latina e do Caribe frente ao status quo baseado na dominação pelas potências tradicionais.

Com a assinatura de uma série de documentos nas áreas política, econômica e cultural neste final de semana, fez-se a Celac como o mais novo instrumento para o desenvolvimento comum da América Latina e Central. Esperemos, pois, que a criação deste espaço tenha sido apenas o primeiro de muitos feitos concertados entre os países-membros deste grupo regional – cuja abrangência e relevância são, certamente, colossais.


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Entre paradoxos e desafios globais

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O cenário internacional anda mesmo agitado ultimamente… agitado e repleto de paradoxos generalizados – e talvez inerentes à perspectiva de construção diária da história. Entre os destaques, temos que líderes importantes saem de cena, enquanto ameaças inquietantes são declaradas; e no mesmo momento em que se celebra o nascimento dos bebês que elevaram a população mundial a outro patamar, a morte de um líder polêmico gera euforia e também incertezas para toda uma região.

Trata-se da morte de Guillermo León Sáenz Vargas essa semana, mais conhecido como “Alfonso Cano”, que ocupava o mais alto cargo na direção das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Duro golpe para o grupo dos milhares de “guerrilheiros marxistas” e, em contrapartida, vitória para o presidente da Colômbia no âmbito político. Com o triunfo da “Operação Odisseia”, tal como foi chamada esta operação contra a organização, as FARC voltam ao centro da mídia e perdem uma importante liderança.

A opinião pública se agita, os demais países declaram seu apoio ao governo colombiano contra o grupo, mas este faz questão de demonstrar (de forma violenta, é claro) que as FARC continuam “ativas”, mantendo suas posições e seus modos de ação pouco apreciados… a retaliação dita o tom da resposta.

A queda de Alfonso Cano significa uma melhora no nível de segurança da população? Talvez sim. Mas mais provavelmente não. Produto de uma operação estratégica do governo unida ao acaso e (por que não?) à sorte, a operação foi um sucesso em si mesma, mas não representa (ainda, pelo menos) o verdadeiro fim da milícia, que continua a afligir a população com a revolta pela morte de seu último líder. [O que não exclui o fato de esta perda ter sido um grande baque para as FARC, atingidas em sua instância mais alta… demonstração de fragilidade?]

Urge, pois repensar o caminho da paz, avaliando a situação de inserção crescente da Colômbia nas discussões internacionais e salientando as características (paradoxais ou não) de um contexto global repleto de dúvidas, mas também de esperança de mudança. Os colombianos que o digam.


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