México: entre o novo antigo e a diferente

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Felipe Calderón, atual presidente do México, pouco tem a oferecer de positivo para a candidata de seu partido a sua sucessão. Não surpreende, uma vez que o país teve a economia fortemente atingida pela crise de 2008, chegando inclusive a uma retração de 6,1% no ano seguinte. Antes fosse só isso, mas não é. Além disso, as tentativas de reinstalar o poder estatal frente os cartéis de droga culminaram no aumento da taxa de homicídios. Até o início de 2012, chegou-se a quase 50.000 mortes relacionadas ao crime organizado durante o governo de Calderón. Neste contexto, justifica-se a sua baixa popularidade.

A partir dos eventos recentes, passou-se a discutir não só a guerra contra o narcotráfico, apoiada em grande medida pela ONU e no caso mexicano pelos Estados Unidos; mas também a continuidade política no país, lembrando a aproximação das eleiçõespresidenciais. Quando a candidata do partido do atual presidente, Josefina Vázquez Mota, cria um slogan de campanha na qual se denomina “diferente”, já é possível imaginar que distanciar-se de Calderón lhe renderá melhores frutos que aproximar-se. O principal concorrente e líder das intenções de voto, Enrique Peña Nieto, terminou recentemente seu mandato com governador do maior estado do país e representaria a volta de seu partido (PRI) ao poder depois de 12 anos.

Peña tem seus próprios fantasmas para se preocupar. O PRI, que governou o México por mais de 70 anos, atravessou seus últimos anos no poder com a reputação de corrupção contrastando com seus primórdios vinculados as causas nacionalistas. Assim, a volta deste partido ao poder traria consigo figuras controversas. As fragilidades dos principais candidatos, tanto Peña como Vázquez, tampouco serviu para fomentar um caminho alternativo. Andrés Obrador, segundo colocado na eleição de 2006, viu sua rejeição crescer de forma significativa após as alegações de fraude e protestos em relação à vitória de Calderón. Mesmo assim, Obrador segue próximo de Vázquez nas pesquisas. Peña ainda possui uma confortável vantagem de quase 15 pontos percentuais sobre a candidata governista.

Apesar de tudo, o presidente Calderón ainda poderá ajudar a candidata de seu partido. Primeiro, trazendo seu exemplo: uma vitória nas últimas semanas em 2006, embora tenha iniciado a corrida eleitoral atrás. Segundo, dividindo a atenção da mídia nos momentos mais marcantes da campanha de Peña. Entre as recentes cartadas lançadas estavam: a visita do Papa, uma reunião do G-20 e a quase captura do traficante mais procurado do país. Vázquez não reclamará destas intervenções. Afinal, talvez esta seja uma das únicas vantagens de ter seu nome vinculado de alguma forma ao atual mandatário. De resto, melhor ser “diferente” mesmo. Uma possível vitória dela significaria uma vitória também para as disputas entre gêneros, na medida em que este é ainda um tema carente de maiores discussões no país.

As frases dos principais candidatos ajudam a terminar de montar o cenário eleitoral. Para Vázquez: “Yo voy a ser una presidenta con falda, pero eso sí, con muchos pantalones” (Eu serei uma presidenta de saia, mas isso sim, com muita atitude). Já Peña: “Me conoces, lo voy a cumplir”(Você me conhece, vou cumprir meu compromisso). Entre os temas por entrar na agenda, muito possivelmente estarão a guerra contra o narcotráfico (mais o seu financiamento externo) e as tão faladas legalização de algumas drogas e a descriminalização do tráfico. Por mais atitude o compromisso que tenha o eleito, o desafio não será nada fácil. Cabe agora ao povo mexicano escolher entre o novo antigo, Peña, e a diferente, Vázquez.  


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A colcha de retalhos dos BRICS

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Basta uma nova reunião dos BRICS se iniciar para que comecemos a pensar sobre o que de fato o bloco representa. Primeiro, há de se dizer que BRICS é um conceito antes de se tornar um bloco. Em 2001, o economista Jim O’Neal, da Goldman Sachs, utilizou o termo pela primeira vez em seu trabalho “Building a Better Global Economic BRICs”. O conceito referia-se a uma projeção de que Brasil, Rússia, Índia e China poderiam ser até 2050 as cinco maiores economias do mundo. Agora, como bloco, os BRICS existem desde 2009 (a África do Sul foi convidada a participar em 2011), e começaram as reunir-se para discutir o…a…bom, sabe-se lá exatamente o que. 

Desde o inicio dos encontros que as reuniões do bloco geram a mesma reação que acabei de manifestar. São países que apenas convergem por serem grandes potências econômicas emergentes e não possuem grande agenda comum. Não se sabe se os interesses podem ser os mesmos no campo político, econômico, social ou ambiental, já que isso ainda é muito nebuloso ao bloco. É possível apontar, no mínimo, uma vez que esses países se posicionaram de maneira extremamente oposta. A China é um dos focos dos discursos políticos brasileiros de “guerra cambial”, apesar de o Brasil não explicitar tanto isso publicamente. A Rússia e China vetaram as resoluções do Conselho de Segurança sobre a Síria que Índia e Brasil foram a favor. Nas negociações da Rodada Doha, em 2008, Brasil e Índia encontrava-se em espectros diametralmente opostos e foi também o voto indiano que prejudicou as ambições brasileiras. 

Apesar desse cenário, a reunião da última semana agregou muito interesse. Principalmente pela proposta indiana de criação de um Banco de Desenvolvimento dos BRICS e a possibilidade de o bloco convergir, pela primeira vez, em um ponto específico, o apoio à candidatura da nigeriana Ngozi Okonjo-Iweal para a presidência do Banco Mundial (que já era apoiada pela África do Sul). E, como já ocorreu nas últimas reuniões, as expectativas superaram a prática. A declaração final (clique aqui para conferir)não mostrou nenhuma ação concreta nesse sentido e mais pareceu uma colcha de retalhos, na qual cada país conseguiu emplacar assuntos que eram mais importantes para si e todos tiveram uma posição consensual nos moldes generalistas da Assembleia Geral das Nações Unidas (prezar pela Segurança e paz internacionais, buscar uma solução pacífica para os conflitos no Oriente Médio…). 

Essa resolução, a alguns, significa que o bloco está fadado ao fracasso e que não há nenhuma expectativa de convergências no longo prazo. Todavia, também pode significar que, como toda colcha de retalhos, possui uma linha condutora que segura os retalhos juntos. No caso dos BRICS, a linha seria a da busca por uma estrutura da economia mundial diferente daquela que vem mantendo-se desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não seria o caso de ser excessivamente otimista, mas de ser um pouco mais paciente. Blocos normalmente partem de um interesse comum ao se unir. Os BRICS se uniram para depois buscar um interesse comum. 

Seria essa uma fórmula errônea para a formação de blocos? Não há como dizer. Apesar de o grupo ser extremamente divergente, seu ineditismo seria uma das razões da falta de articulação. Não há outro bloco com a característica de ter poucos membros e, praticamente, um de cada continente. Bom, mas se os BRICS querem de fato consolidar-se, será preciso muito mais do que manterem-se somente pela linha. É preciso que sejam vistos como colcha. 


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De bobos e mentirosos

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Ontem foi o primeiro de abril. Na tradição original, é uma data em que celebra o “dia dos tolos”. A ideia é pregar peças nos incautos, e tem origem na Europa, quando houve a oficialização do 1º de Janeiro como início do ano-novo. Até então, em muitas partes da França isso ocorria em abril, e quando houve a mudança muita gente zombava dos desavisados. Algo como um tipo de rivalidade provinciana. Como isso descambou para um dia em que as pessoas atiravam peixes umas nas outras, é um mistério, mas da França a coisa ganhou o mundo e virou o “dia da mentira” em muitos lugares, inclusive no Brasil. 

É uma data relativamente universal, e se formos pensar, existe muita mentira (e tolos…) nas relações internacionais. Há as grandes mentiras, que mexem com países e causam guerras (lembram do Vietnã?). Hoje, por exemplo, completam-se 30 anos da Guerra das Falklands. E essa foi cheia de peças e tolices. A Argentina inventando um conflito para desviar a atenção da crise do regime militar, esperando o auxílio norte-americano (uma grande pegadinha do TIAR), ou a catástrofe militar que foi a campanha, enviando soldados inexperientes e comandantes incompetentes. 

Também há muitas mentiras (ou equívocos?), como o jogo de empurra-empurra diplomático. Ao pé da letra, a soberania é inglesa, por ocupação efetiva. Por outro, é algo escorado pela ocupação com força e uma “soberania” dos habitantes meio que artificial. Até eu que sou mais bobo quereria permanecer como súdito inglês em vez de uma república sul-americana relativamente instável. O fato é que ninguém tem uma resposta efetiva, os dois lados têm sua razão, e se a resposta fosse fácil a ONU não estaria recomendando o diálogo entre as partes pra resolver a pendenga. Quem é o bobo nessa história? Talvez quem fique se estressando com um assunto que muito provavelmente não vai causar um conflito armado tão cedo e que vai se arrastar ainda por muitas décadas de diplomacia. 

Mas também tem quem se aperte por conta das pequenas mentiras. Quem diria, por exemplo, que um plágio maroto na época em que defendia seu doutorado faria com que o presidente da Hungria, Pal Schmitt, tivesse que renunciar. A lógica é simples – se ele foi desonesto com idéias, quanto mais com o cargo mais importante do governo… Num momento em que o país tenta se recuperar da crise européia, são essas pequenas mentiras e segredos (pensem no caso Strauss-Khan, ou das festas animadas de Berlusconi) que perseguem e, num efeito cascata, mostram como o indivíduo tem sua cota de importância na vida internacional… 

Por mais que seja uma brincadeira, essa é uma data bastante significativa. Existem muitas mentiras que movimentam as relações internacionais. Ou meias-verdades. São poucas as vozes pela verdade absoluta, como o Wikileaks, que recebeu o prêmio de ser perseguido e fechado. Mas também existem muitos tolos, e a história certamente trata de desmascará-los com o tempo…


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Vai um livro aí?

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A vida moderna certamente oferece muitas comodidades. Entre elas, talvez uma das principais, seja a possibilidade de comprar diversos produtos sem sair do conforto de casa.  Pois bem, o governo argentino decidiu inovar. Não bastasse outras tentativas de dificultar importações, como no caso da carne suína brasileira, agora se tentou agregar barreiras a livros e revistas.

Imaginem a situação: um cidadão argentino compra um livro advindo do exterior e é obrigado a retirar seu pedido no aeroporto de Ezeiza, localizado a 35 kilômetros de Buenos Aires, após pagar devidamente uma taxa imposta. Em outro cenário, as editoras se veriam obrigadas a contratar um despachante, na medida em que o processo na aduana para materiais impressos seria o mesmo aplicado a mercadorias, digamos, mais complexas. O mais intrigante é que o mercado editorial argentino é composto por quase 80% de livros importados. Desta forma, o impacto se faria sentir de forma imediata.

Segundo a versão oficial, no entanto, criou-se o novo procedimento com o intuito de proteger a saúde dos hermanos. Buscava-se limitar a difusão de livros com conteúdo de chumbo superior a 0,06%. Para outros, a verdade reside na tentativa de aumentar a produção editorial nacional e impedir a saída de dólares do país rumo ao exterior. No final das contas, já revogou-se o procedimento que obrigaria os argentinos a buscarem seus materiais literários no aeroporto, tal qual fazemos com nossos amigos e familiares. Segue somente a preocupação com o chumbo nos livros.  

Tudo isso justamente na Argentina, cuja capital possui mais de 1000 livrarias. Bom, diante do risco químico dos livros deve ser melhor mesmo não ler nada. Melhor esperar uma solução nacional, a qual muito possivelmente deve estar a caminho. Ironias a parte, desta vez foram longe demais. A tentativa de controlar a cultura, a expressão do pensamento e a arte – sob o formato literário – nunca poderia funcionar. Muito menos na Argentina, que, a despeito de todas as crises recentes, se defende através da cultura e se orgulha do nível educacional de sua população. Melhor que o desatino durou poucos dias, o que será que eles esperavam?   


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Uma receita para os "brasiguaios"

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Hoje daremos uma receita que, se seguida à risca, é capaz de resultar em um “delicioso” contencioso fronteiriço. O primeiro passo é pegar um grande tema polêmico em qualquer lugar do mundo. Para nosso caso, vamos escolher a questão agrária. Logo após, é preciso adicionar dois países vizinhos com um histórico de conflitos. Aqueça os dois países com uma pitada de concentração de terras e agronegócio. Não se esqueça de incentivar a imigração com mais oportunidades ao agronegócio, ampliar ainda mais a má distribuição de terras e dedicar uma grande parcela significativa do PIB de um dos países aos produtos primários. Deixe repousar durante algumas décadas, salpique algumas medidas que impeçam a compra de terras por estrangeiros e uma proposta de reforma agrária. Sirva gelado, mas lembre-se que o sabor será sempre quente. 

Apesar de muito pertinente para muitos países, essa breve e jocosa analogia gastronômica, refere-se a um caso muito específico, o do Brasil e Paraguai. Há muito, a questão agrária e os “brasiguaios” tem sido um tema recorrente nas relações bilaterais entre os dois países. Na década de 1960, quando o Paraguai era controlado pela ditadura de Alfredo Stroessner, viveu-se um período de incentivo à imigração pela possibilidade de compras de terras por estrangeiros. Foi aí que começou a história dos “brasiguaios”, brasileiros que adquiriram essas terras no Paraguai a um preço relativamente baixo. 

Uma parcela relativamente alta do PIB paraguaio depende do agronegócio (aproximadamente 20%), mais especificamente da produção de soja. Há quem diga que é responsável por quase 80% dessa produção. Dito isto, já dá pra imaginar o bafafá que existe entre os “carpeiros” (os sem-terras paraguaios) e os produtores rurais. Mais ainda com os “brasiguaios”. Questões como a rivalidade histórica entre os dois países, as diferenças étnicas e os sentimentos de nacionalismo paraguaio são alguns ingredientes que tornam essa receita um contencioso binacional. 

Como dissemos em nosso “como fazer”, basta que se salpique uma nova legislação que proíba a compra de terras por estrangeiros, realizada em 2005, e uma nova de reforma, em 2009, para que a situação se inflame ainda mais. E, como se não bastasse essa mistura toda, o polêmico e religioso presidente paraguaio, Fernando Lugo, resolver demarcar todas as terras para prosseguir com seu projeto de reforma e ver se há alguma irregularidade. Isso foi o estopim recente para que os “carpeiros” ocupassem as terras dos “brasiguaios” e desenrolasse uma grande confusão nas últimas semanas. 

O acirramento dessa questão tem provocado uma reação nos parlamentares brasileiros. Todavia, a diplomacia brasileira ainda não se manifestou publicamente sobre o problema. Esse é um tema que, como mostramos na receita, não se resolve unilateralmente. Envolve história, xenofobia, problemas internos do Paraguai e muitos outros fatores. Talvez a diplomacia do Brasil tenha andado em cascas de ovos e está com medo de espatifar a casca dos assuntos internos do vizinho. Em contrapartida, talvez fosse interessante, se é que o governo já não tem feito isso às escuras, uma maior negociação mais acirrada entre os dois lados. Uma pressãozinha do Brasil não faria mal a ninguém. Mas aí vem à tona de novo as ambições de nova inserção no mundo e a necessidade de apoio regional… Enfim, a questão ainda é bem complexa. E em uma receita com ingredientes desse tipo, somente mudando os ingredientes para se obter um resultado diferente.

P.S.: Confiram aqui sobre um suposto possível plano militar do Brasil para intervir no Parguai revelado pelo Wikileaks.


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Duas faces diferentes, uma mesma moeda

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Há muito que as questões de Segurança e de Defesa perfazem a agenda diplomática entre Brasil e Estados Unidos. Mas não é sempre que os movimentos recentes dessa agenda são compostos por eventos que, de certa forma, surpreendem ou fazem parte daquele seleto grupo dos temas polêmicos. Bom, assim foram os últimos dias, nos quais podemos observar duas questões dessa natureza que merecem ser comentadas. 

A primeira dessas questões é a respeito do TNP (Tratado de Não-Proliferação Nuclear), assunto que sempre traz muito pano pra manga. O Brasil ratificou o tratado somente em 1998, em um momento em que estava assinando e ratificando muitos grandes acordos internacionais que havia deixado para trás nos tempos de ditadura. Mas ainda não ratificou o protocolo adicional. Assinado em 1997 esse documento garantiria inspeções muito mais amplas, possibilitando à AIEA avaliar qualquer lugar que possa ter trabalhos que se relacionem com energia nuclear. Entre especialistas e comentadores da área, o protocolo ainda divide muitas opiniões (clique aqui e aqui para conferir algumas delas). Entre o governo brasileiro e estadunidense também, tendo sido esse um dos grandes focos de divergência entre os dois países. 

Eis que os Estados Unidos indicou mudar sua posição sobre o tema. O tio Sam, ao invés de pressionar o governo brasileiro, defendeu que agora podemos demorar o quanto for preciso para aderir ao protocolo. Uma mudança interessante, mas um pouco repentina em se tratando de política internacional (os EUA já virem indicando isso desde o final de 2011) e podemos nos perguntar o porquê dela. Será que os EUA estariam nos dando certo crédito por nossa nova inserção ou será que apenas viram que era contraproducente ficar insistindo em um ponto tão controvertido como esse e que uma insistência poderia até prejudicar outras negociações estratégicas? A segunda opção parece mais plausível, mas não se sabe ao certo o que motivou a mudança. Apenas podemos dizer que isso encerra uma tensão entre os dois países que vinha se arrastando há alguns anos e legitima a liberdade de não aderir ao protocolo que o governo brasileiro vinha exigindo (veja aqui mais sobre o protocolo). 

Enquanto isso, quase que nos mesmos dias, temos nossa segunda questão surpreendente e/ou polêmica nas negociações de armamentos entre os dois países. O governo estadunidense cancelou a compra de 20 Super Tucanos ao país, referentes a um total de US$ 355 milhões, surpreendendo o governo brasileiro (clique aqui para conferir a nota oficial). Segundo os EUA, foi algum problema na documentação e não nos produtos brasileiros. Mas bastou esse anúncio para a Boeing (responsável pela produção de um dos aviões que estão competindo no projeto de compra de caças da Força Aérea brasileira, o F-18 Super Hornet) rapidamente enviar responsáveis para o Brasil para negociar. Não há como negar uma ligação entre esses dois eventos. Mesmo porque Dilma já indicou que quer finalizar essa compra no primeiro semestre desse ano e represálias brasileiras agora poderia significar sair da disputa. 

Os últimos dias foram agitados para as questões de Segurança e Defesa das relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos. Para bem ou para mal, houve mudanças e agitações. Apesar de ambas resultarem de um processo, vieram ao público de maneira repentina e por tratarem de temas sensíveis acabam por ser dois lados de uma mesma moeda. Em outras palavras, uma pode não ter afetado a outra diretamente, mas, com toda certeza, serão consideradas daqui pra frente quando os dois países forem negociar Segurança novamente.


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Post do Leitor

Post do Leitor – Tiago Pedro Vales

[Pessoal, hoje apresentamos um post escrito por Tiago Pedro Vales, mestre pelo programa de pós-graduação em História da UNESP, acerca da crise na União Europeia. O texto se torna ainda mais interessante pelo fato de o autor atualmente residir em Lisboa e, portanto, está vivenciando a crise de perto. Lembrando que todos podem participar da Página Internacional, basta enviar textos para [email protected]


Crise…

A crise econômica do velho continente tem ocupado boa parte dos noticiários mundo afora. Mais do que isso, tem deixado muita gente preocupada. Os Estados tem se esforçado para encontrar uma solução mas, no entanto, é difícil atender a todos os interesses, principalmente quando se fala em um bloco de países como a União Europeia, que guarda dentro de si discrepâncias enormes quando se trata de desenvolvimento econômico. 

De um lado está a todo-poderosa Alemanha (PIB atual de US$ 3,3 tri), atualmente a quarta economia do mundo e, por outro, uma série de países que, mesmo somados, tem economias pouco expressivas, como Portugal (US$ 228 bi), Grécia (US$ 301 bi) e Romênia (US$ 161 bi) que dividem um mesmo banco central. Este tem o desafio de formular políticas monetárias que sejam viáveis desde a Finlândia ao Algarve. Tarefa bastante ingrata, é verdade, e que, segundo alguns, é a causa da crise. 

Não é só entre ricos e pobres que se dividem os interesses na União Europeia. Dentro do “alto clero” (Alemanha, França e Reino Unido) há interesses divergentes que por vezes impedem a aplicação de medidas que evitariam ou solucionariam crises como a atual. Ainda assim, a União Europeia serve de exemplo de integração regional e desenvolvimento econômico a todos os blocos que assim pretendem ser. 

Há muitas críticas acerca dos planos de recuperação em Portugal e Grécia, principalmente. Por conta das condições e reformas exigidas em troca de ajuda financeira, os países tiveram de cortar drasticamente seus investimentos em todas as áreas. Suspenderam direitos, cortaram salários, aumentaram impostos, despediram funcionários públicos, entre outras medidas que, ao menos por enquanto, não tiveram o resultado esperado. Em Portugal, nove meses depois dos acordos com a troika (Banco Central Europeu + Comissão Europeia + FMI) pariu-se uma taxa de desemprego que está chegando aos 20%, ou 35% entre os jovens (20 a 25 anos). A expectativa é que essa taxa aumente ao menos até meados de 2012. 

A crise europeia, no entanto, é diferente das crises do passado no Brasil e América Latina. Há tempos que os europeus, de forma geral, superaram alguns problemas sociais que ainda estão presentes no cotidiano brasileiro. Pelo menos por enquanto, a crise ainda não corroeu a boa qualidade de vida que os Estados europeus conseguem oferecer aos seus cidadãos. Por enquanto não há índices inflacionários tão altos, ou seja, não há inflação como houve e há na América Latina (ou pelo menos o Banco Central Europeu não a quer, mesmo que for para resolver a crise), há desemprego, mas também há alternativas (mesmo que sejam a migração para países da União Europeia menos afetados pela crise ou ainda em direção a países emergentes). De fato, o primeiro-ministro português, Passos Coelho, encorajou seus cidadãos a migrarem. Há portugueses pedindo emprego em call centers brasileiros. O consumo de bens não duráveis tem caído, um efeito colateral esperado, já que se tem, ao menos em Portugal, aumentado os impostos e cortados os salários. Mesmo assim, não há um mal social generalizado e sim dificuldades. 

Não se pode, no entanto, minimizar alguns casos extremos. Por exemplo, portugueses estão “rifando” a própria casa para poder sobreviver. Espanhóis estão migrando ilegalmente às suas antigas colônias em busca de oportunidades. Mais chocante ainda, casais gregos estão doando os próprios filhos porque não têm como sustentá-los. Mas isso, por enquanto, são casos extremos. Façamos votos que não se torne a regra.


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Mais uma vez, Malvinas.

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A disputa pelas Malvinas já chegou até as barras de endereço dos sites de notícias ingleses

As Malvinas são argentinas. As Malvinas não são argentinas. Essas são duas frases que temos ouvido muito nos últimos trinta anos. Normalmente, uma muito próxima da outra e proferidas por pólos opostos. Ainda hoje, essas ilhas são um tema importantíssimo na política do país. Pode-se dizer que, em certa medida, foram determinantes para o fim da ditadura militar. No início dos anos 70 já se desenvolvia um pequeno processo entre os políticos para uma transição para a democracia mais controlada pelos militares. Mas a guerra, a última tentativa do regime se segurar acabou mexendo muito com o moral da população e levando a quebra de todo apoio.

O regime militar acabou. A guerra das Malvinas também. A questão, todavia, perdura. Por quê? Será que de fato Cristina Kirchner e a trupe de sua diplomacia têm alguma esperança de que o governo britânico irá abdicar às ilhas? Se entendem isso ou não, é difícil dizer. Mas que acreditam na importância do tema para o país e para seus eleitores, não há dúvida alguma. É um daqueles temas, como educação no Brasil, que todo político tem a obrigação de tratar. E, por isso, nunca passa despercebido.

Próximo do aniversário de 30 anos da guerra, estamos vendo uma tensão diplomática entre a Grã-Bretanha e a Argentina. Observa-se um lado falando, o outro retrucando e, pela primeira vez, a ONU dizendo que vai mediar. Sim, isso mesmo. É a primeira vez que um governo argentino aceita a mediação das Nações Unidas para tentar atingir um acordo nesse tema. Essa tensão toda se intensificou quando Kirchner acusou a Grã-Bretanha de militarização da região, pois houve um exercício militar que chegou a envolver até mesmo o príncipe William. Depois, na Assembleia da ONU, a Argentina até mesmo acusou os ingleses de terem armas nucleares na região. Cameron e sua diplomacia negavam tudo e ainda complementavam que não há acordo sobre a soberania das Malvinas.

Todavia, o aceite de uma atuação da ONU na questão pode apontar para uma mudança de postura. Como já disse, é a primeira vez, em trinta anos, que isso ocorre. Por outro lado, é difícil vislumbrar no curto prazo uma resolução da disputa, já que ambos os lados colocam-se de maneira pouco flexível e, para os ingleses, não existe negociação. Da mesma forma, pode até ser que os argentinos estejam buscando alguém mais forte para legitimarem sua posição, nesse caso, a ONU. Além do que a atuação do órgão em tensões desse tipo nem sempre atingiu bons resultados na história, mas já é interessante o passar de “apontar os dedos” para uma possível negociação (note-se que, por enquanto, só dos argentinos). O mais interessante é notar a postura dos moradores da região das Malvinas, os kelpers. De origem inglesa, quase não há quem se identifique com a Argentina e, para eles, também não há o que negociar. Preocupam-se com os ganhos econômicos e agora temem um isolacionismo que possa vir do apoio do Mercosul à causa argentina (tema já tratado no blog anteriormente, confira aqui).

A raíz histórica da disputa das Malvinas já vem do século XIX. Há quem diga que os ingleses estiveram lá primeiro, há quem defenda que os argentinos estavam lá antes e há também os que dizem que a Inglaterra rompeu tratados internacionais para ocupar a região (clique aqui para ver essas posturas interessantes). Seja lá quem está correto de verdade, até que essa dita mediação da ONU ocorra, continuaremos a ouvir muito as frases “Malvinas são argentinas!” e “as Malvinas não são argentinas!”.


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As FARC, a Colômbia e um problema sem fim…

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[Pessoal, este é o primeiro post oficial do nosso novo colaborador, Cairo Junqueira! Porém, por motivos técnicos, hoje postaremos em seu lugar. Confiram esse polêmico debate!]


Tensas relações, falta de diálogo e inquietação social são velhas preocupações vividas pelos colombianos em relação às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Embora a grande mídia não tenha divulgado muitas notícias recentes sobre estes fatos, o grupo continua agindo constantemente no território e coloca em questão a eficiência das políticas adotadas pelos últimos governos acerca da segurança nacional.


Num primeiro momento, é importante dizer que a Colômbia é, e sempre foi, um país de contrastes. Durante as últimas décadas, tem apresentado os maiores índices de violência da região sul-americana, mas detém forte estabilidade econômica e política, haja vista que é a quarta economia da América Latina, estando atrás somente do Brasil, da Argentina e do México, e possui dois grandes partidos políticos que dominam o cenário nacional: o Liberal e o Conservador.

As FARC surgiram na década de 1960, mais precisamente em 1964, período em que também nasceram outras organizações contrárias à Frente Nacional (FN), a qual representava a alternância de poder dos dois partidos mencionados acima. Além das FARC, o Exército de Libertação Nacional (ELN) e o M-19 tinham como objetivo a oposição ao Estado colombiano. Posteriormente, a década de 1980 representou a mais convulsionada do país devido à irrupção do narcotráfico e, a partir de 1990, uma série de medidas governamentais tentou colocar fim ao chamado “caos social” colombiano.

Os presidentes César Gaviria (1990-1994) e Ernesto Pizano (1994-1998) apostaram na resolução pacífica com as guerrilhas, mas fracassaram. Consequentemente, começaram a surgir as organizações paramilitares, as quais são associações civis, armadas e sem vínculo com as forças militares nacionais. Com Andrés Pastrana (1998-2002), a experiência de desmilitarização também falhou e coube ao seu sucessor, Álvaro Uribe (2002-2010), a tentativa de minimizar os problemas do país.

Mesmo assim, no governo de Pastrana foi colocado em prática o Plano Colômbia, componente exclusivo para a luta contra o narcotráfico e os grupos armados. Baseando-se em inversão social, desenvolvimento alternativo e fortalecimento militar, o governo tinha como objetivo reduzir a produção de cocaína no país, mesmo que, para isso, precisasse fortemente do auxílio norte-americano. Para alguns especialistas, o plano fracassou na luta contra as drogas, contudo obteve sucesso no combate às forças contrainsurgentes.

Somente na década de 2000, com Uribe, entrou em cena a “segurança democrática”, uma politica central de governo para tentar recuperar o controle territorial, debilitar os grupos irregulares e assegurar o controle de liberdades à população. Sumariamente, caracterizou-se como uma medida para fortalecer e aumentar a presença do Estado em todo o território nacional.

Foi este o legado deixado ao atual presidente, Juan Manuel Santos, como tentativa de dar maior suporte ao tão mencionado, nas Relações Internacionais, monopólio legítimo da força do Estado. Os desafios de Santos para com a Colômbia são inúmeros: resolução do conflito armado, consolidação do Estado de Direito, estabelecimento de uma maior conexão entre o governo central e os governos regionais, reavaliação das medidas antidrogas etc.

O cerne da questão é que as demandas colombianas, no que tange à ação de forças “antigovernamentais”, com destaque para as FARC, estão sendo resolvidas de forma parcial. O problema sem fim que mencionei no título vai muito além de medidas estatais para combater grupos revolucionários e paramilitares. A “segurança democrática” leva em consideração, também, uma maior participação popular e um maior diálogo entre esta e o governo. É isso que falta na Colômbia, mas deixemos para um futuro (talvez) não muito distante.


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Falar ou não falar? Eis a questão…

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Nos últimos dias foi realizada a primeira grande viagem internacional de Dilma em 2012. Desta vez, a presidente deu o ar da graça em Havana, a capital cubana. Como já tratado aqui no blog, esse encontro representou uma mostra da diversificação diplomática do governo e um reforço para agenda multilateral brasileira. Da mesma forma, possibilitou largos investimentos subsidiados em infra-estrutura no país e linhas de crédito brasileiras.

Todavia, não foi esse o tom da avaliação da mídia e dos dissidentes sobre a visita. Muitos dos jornais e revistas destacaram uma questão que sempre emerge quando o assunto é Cuba. E os direitos humanos? Nada diferente do que se imaginava ocorreu. Do que se sabe, a comitiva de Dilma não saiu da reunião com Raúl Castro mencionando publicamente as violações de direitos humanos ou mesmo tratando da morte de um dissidente cubano vinculada à sua greve de fome.

Mas e aí, falar ou não falar de direitos humanos no país? Eis a questão! Bom, sendo essa uma questão tão delicada e polêmica, sabe-se que o Itamaraty entende que esse não é o ponto principal de negociação desta vez. Talvez porque se tema que uma postura ideológica (aqui falo em termos de política externa, uma postura ideológica, de alinhamento por ideais, ou pragmática, de negociações com todos) nos remeta aos distantes tempos de Guerra Fria e impeça o procedimento de negociações que garantam capital político e, mais adiante, um status concreto de líder regional.

E se falássemos? Bom, ao que me parece, tudo depende de como poderia ser falado. No momento atual, de negociações bilionárias para a reconstrução do porto de Mariel, financiada pelo BNDES, talvez não fosse mesmo apropriada uma declaração pública no país. Todavia, um editorial da Folha de S. Paulo no último dia 28, indicou uma possibilidade interessante. Uma breve e singela menção antes de embarcar poderia não ser de todo ruim. O problema, como já disse, são os interesses e ambições da diplomacia brasileira. A ambição política de potência global com o apoio da América Latina e os interesses econômicos regionais podem estar atando as mãos do governo.

Apesar de toda essa discussão, já temos uma mudança. A concessão do visto de turista para a blogueira cubana Yoani Sánchez (o primeiro passo para que Cuba libere sua saída do país) já ocorreu. Essa já é a quinta vez que a blogueira pede visto brasileiro e, alguns poucos dias antes da viagem a Cuba, o Itamaraty concedeu a autorização.

Pode ser que haja mais coisas entre o céu e a diplomacia do que imaginam que sonha nossas vãs suposições ou a diplomacia brasileira está dando seu recado nas entrelinhas. Atualmente é difícil romperem-se posturas internacionais da noite para o dia dentro de um mesmo partido no poder. Já uma mudança gradual, parece ser bem possível. E a concessão do visto à cubana pode ser a indicação de que o Itamaraty não esteja ignorando os críticos do regime cubano, mas que apenas não está preparado para movimentos bruscos. Talvez essa seja “a breve declaração antes de embarcar…”.


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