Crise institucional?

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Emitir opinião sobre a crise venezuelana é como escolher entre pular na frigideira ou no fogo. Críticas ao governo serão recebidas como subserviência ao imperialismo e ao capital. Defender o governo é visto como esquerdismo cego e ignorância de violações a direitos humanos e políticos. Como tudo na vida, o extremismo prejudica a análise, então que tal tentarmos uma análise mais ampla?

Quais os problemas da Venezuela? Basicamente, hiperinflação (quase 70% ao ano, a maior do mundo), câmbio desvalorizado (e caótico, com mercados oficial, paralelo e negro) e um problema grave de abastecimento (de papel higiênico a preservativos). A oposição bota a culpa no governo. O governo, na oposição e em uma possível conspiração internacional. Como é de se esperar, os dois lados tem sua parcela de culpa. De fato, o governo parece ser o maior responsável – mais do que a falta de carisma ou liderança de Maduro, a herança do bolivarianismo de promover benefícios sociais e controle estatal dos fatores produtivos está finalmente tendo seu preço com fuga de capital e escassez de bens de consumo (exemplos não faltam na história comprovando o efeito desse tipo de medida) em uma economia dependente de exportação de commodities. Sem contar o problema da corrupção e gerenciamento inadequado. Por outro lado, parte da oposição provavelmente quer se valer do desgoverno para alcançar objetivos políticos – a única solução para Maduro agora seria fazer as pazes com o setor privado, mas parte dele aparentemente se recusa a negociar com o governo.

O resultado dessa rixa é uma oposição ativa (lembrando que Maduro foi eleito por uma margem estreita de votos) e protestos que levam a uma reação violenta do governo há mais de um ano. Aqui não tem como negar a culpa de Caracas – por mais que os supostos “inimigos do regime” (uma expressão que geralmente não aparece em democracias) estejam conspirando para derrubar governos e criar instabilidade, não é correto ou aceitável a supressão de direitos, prisões arbitrárias ou a morte de manifestantes em confrontos desiguais com forças públicas. Sem uma imprensa que não seja governista, fica difícil contestar a visão do governo sem recorrer aos testemunhos dos próprios opositores, que relatam histórias de perseguição e intolerância.

E eis então que os EUA entram na parada. Criticando veementemente essas violações, na semana passada Obama autorizou sanções contra autoridades venezuelanas. Isso apenas esquenta as discussões, com o ultraje por uma “intervenção” norte-americana em assuntos domésticos. Esse tema vai longe, com a questão da soberania e da suposta “responsabilidade” internacional em defender direitos humanos. Mas vamos nos limitar ao seguinte fato: os EUA são o maior parceiro comercial da Venezuela, e a Venezuela é um dos maiores exportadores de petróleo para o Tio Sam. O interesse norte-americano parece bem claro: estabilidade na Venezuela significa suprimento de petróleo. E para a Venezuela é mais importante ainda a manutenção de boas relações com Washington. Por isso, de certo modo os EUA exageram com as sanções – isso realmente trará estabilidade? Ao mesmo tempo, a resposta de Maduro, que obteve autorização do parlamento para governar por decreto em situações de segurança nacional comprometida (um critério vago, que pode incluir de uma invasão dos EUA ao combate de protestos) gera um desbalanço institucional completo, com a hipertrofia do executivo, um legislativo acuado e o judiciário nas mãos do governo. Para um governo que se defende como uma democracia por conta das eleições e da representatividade, pouco se vê do equilíbrio de poderes.

Interesses egoístas, gerenciamento ineficiente, influência externa desastrosa… a crise venezuelana não prece ter um fim tão próximo. Mas independentemente da responsabilidade (que não pode de modo algum ser creditada a um ou a outro sem ignorar uma complexa cadeia de problemas), quem paga a conta é bem sabido, nas filas dos mercados e sofrendo bordoadas da polícia nos protestos.


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Novo ano, nem tão novo discurso

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Nesta semana em que se completa mais um ciclo presidencial, a expectativa do que poderemos esperar nos próximos quatro anos vem em grande parte do discurso na posse de Dilma Rousseff, ocorrida ontem. Como esperado, o foco principal foi dado a questões de cunho doméstico, especialmente as mais controvertidas como reforma política e combate à corrupção, mas com especial atenção dada aos problemas da economia. E as relações internacionais com isso?

Do discurso de Dilma, podemos traçar dois pontos principais ligados a relações internacionais, justamente a questão da economia e, de maneira breve (e preocupante), a política externa. Parte de sua fala foi dedicada à questão da necessidade de retomada do crescimento e o temido ajuste de contas públicas. A crise mundial de 2008 não bateu por aqui, mas o problema que era dos europeus naquele momento agora é nosso: como ajeitar as contas sem que o povo pague com benefícios sociais incompatíveis? Basta ver a discussão que rendeu o ajuste nas condições para obtenção do seguro-desemprego (ocorrido no começo da semana) que podemos esperar um ano turbulento, e cheio de protestos, caso esses ajustes sejam feitos como o esperado. Ao mesmo tempo, a retomada do crescimento depende de fatores dos dois lados, dentro e fora, como a alta do dólar (que culpa do aquecimento da economia norte-americana) quanto dos famosos gargalos de desenvolvimento (com problemas de infraestrutura acumulados que agora cobram seu preço para o país). O desafio é grande, especialmente numa semana em que grandes parceiros comerciais do Brasil (e do Mercosul), Argentina e Venezuela, admitem oficialmente que estão em recessão e mostram um cenário sombrio para 2015 no continente.

Isso nos dá o gancho para o segundo ponto – a política exterior. Quem nos acompanha sabe que a diplomacia de Dilma foi no mínimo tímida, em comparação a Lula. As poucas linhas dedicadas ao tema, reforçando o compromisso com o Mercosul e os mercados regionais (em crise) e com a dedicação nas relações Brasil-EUA (abaladas há algum tempo) mostram que a possibilidade de mudança nessa área é pouca, e preocupante. A atenção a crises domésticas, somada a perda de recursos para o MRE (que faz transparecer uma crise existencial no Itamaraty), leva a crer que mais uma vez a política externa será um tema secundário no governo Dilma. Mesmo o relativo sucesso do BRICS pode não ser suficiente para alçar o Brasil àquela posição de protagonismo almejada por tantos anos na época de Lula. Se isso era viável ou não, é outra história, mas o ímpeto não parece o mesmo. A indicação do novo Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, embaixador de carreira em Buenos Aires e Washington, ou seja, um nome extremamente competente, é um bom sinal, já que se trata de uma das poucas escolhas técnicas de Dilma, mas até aí o ex-ministro Patriota também era, e o contexto não leva a crer que vá haver mudanças significativas nesse setor – seria muito mais uma indicação para evitar danos maiores que para buscar novidades em nossa política externa.

2015 está aí, com a novidade e a esperança que sempre acompanha o ano-novo, mas o sinal de alerta está ligado para o Brasil. Cautela e prudência são as palavras-chave para este novo governo, que em face de perturbações domésticas cada vez mais marginaliza oportunidades e importantes questões internacionais.


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Hora de acabar?

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Se o final da Guerra Fria não tem exatamente um ponto definido, ele geralmente é considerado como o desmantelamento do chamado “Segundo Mundo”. Mas isso sempre carrega um asterisco nos livros. Para alguns países, aquele conflito tecnicamente não teria acabado, especificamente para Cuba e Coreia do Norte, os dois principais bastiões da resistência do modelo de economia planificada. Por isso chama a atenção o noticiário dessa semana, em que de um lado finalmente tivemos um avanço histórico que pode literalmente significar o fim da tensão entre EUA e Cuba, enquanto a Coreia do Norte apronta de novo e fortalece cada vez mais posição de isolamento.

Nem é necessário aprofundar muito a discussão sobre a incrível reaproximação de Cuba e EUA após meio século de rompimento diplomático. O gradual e controverso processo de distensão entre a ilhota e o gigante significa muitas coisas, de jogar uma pá de cal no conflito ideológico nas Américas à possível revisão do embargo americano. Isso não virá sem desafios, com insatisfação de ambos os lados, especialmente do norte-americano, mas significa um freio à retórica antiamericana que se tornou bastante popular por estas bandas e se apoiava, em parte, na inimizade de Washington com Havana, bem como à retórica anticomunista que as direitas exaltadas que pipocam pelas redes sociais e em partidos radicais. O mundo se mostra um lugar bem mais complexo que qualquer maniqueísmo ideológico, e felizmente prevalece o bom senso naquele que pode ser o grande legado de Obama para a história após dois governos conturbados.

O que destoa completamente da Coreia do Norte. O país, único não-signatário do TNP que busca abertamente desenvolver capacidade nuclear para usos militares, surge em meio à polêmica da invasão dos servidores de um estúdio norte-americano que estava prestes a lançar um filme de conteúdo sensível – uma comédia em que o enredo se baseia na tentativa de assassinato do presidente norte-coreano. O grupo de hackers que ameaçou as distribuidoras e salas de cinema que exibissem o filme, além de vazar alguns filmes inéditos e roubar dados de fornecedores e clientes, não assumiu diretamente estar ligado a qualquer governo mas fontes dos EUA confirmam a participação de Pyongyang, onde a guerra cibernética é uma realidade e um esforço concentrado do Estado.  Estando ligado aos ataques ou não, o governo norte-coreano continua a vociferar contra os países do Ocidente e mobilizar capacidades como resposta à ameaça de levar o país ao TPI levantada pela ONU por violações contra direitos humanos. O cuidado com que se trata a situação da Coreia do Norte, que levou inclusive à suspensão da exibição do tal filme, mostra que nessa parte do mundo ainda persiste uma lógica de enfrentamento de base ideológica. Mantendo o isolamento e uma política agressiva, a Coreia do Norte parece andar na contramão da história e conta nos dedos seus aliados.

É óbvio que dizer que a Guerra Fria persiste é um exagero. Há quem veja as tensões crescentes com a Rússia como sinal de algo dessa natureza, mas mesmo assim não tende a sair do campo econômico. A aproximação dos EUA com Cuba é mero indicativo de que aquela situação aberrante simplesmente não se encaixa no sistema internacional moderno e já passara da hora de ter sido resolvida. A exceção mesmo é o caso único da Coreia do Norte, naquela região em que persiste um “microcosmo residual” da Guerra Fria, nas palavras de Barry Buzan, em que a inserção do poder atômico faz com que os cálculos políticos sejam diferenciados do que se pratica em outras partes do mundo e o conflito de viés ideológico se mantenha congelado no tempo.


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Adeus, Chespirito! Olá, América do Sul!

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Nunca é demais recordar uma figura que marcou a infância e a adolescência – e até mesmo os anos adultos – de todos nós: Roberto Bolaños. Um gênio que traduziu o humor na inocente simplicidade do cotidiano de uma vila. Um herói atrapalhado, nem por isso ingênuo, cujo maior ato foi elevar a cultura latino-americana, muitas vezes marginalizada, ao imaginário popular mundial. Um eterno transeunte que continuará despertando, sem querer querendo, nossos risos mais irreverentes. Chaves, Chapolin, entre outros personagens clássicos, representam o espírito de um povo tropical, às vezes desajeitado, mas sempre alegre, em busca de melhores condições de vida.

É comum encontrar analogias entre a turma do Chaves e países da América Latina, por exemplo, a Chiquinha como a Venezuela ou Cuba, porque se acha independente e arruma confusão com todo mundo. Entre o tributo e a análise, este texto também é uma tentativa de interpretar às transformações da América do Sul, em específico, ocorridas nestes últimos anos à luz de um seriado infantil que tantos nos inspirou. Diferente de outras comparações, pretende-se, aqui, tratar os personagens como pessoas normais – e não como países – que compõem o rico cotidiano desta região.

Em primeiro lugar, uma observação geral sobre o contexto. Entre o fim dos anos 1990 e início da década passada, diversos governos ditos de esquerda ascenderam em praticamente toda a América do Sul, sendo a maior exceção a Colômbia. Sem entrar no mérito se isso ocorreu ou não devido à falência do projeto neoliberal, com base nos preceitos do Consenso de Washington (1989), é possível encontrar uma característica comum entre os líderes ascendentes: a exemplo de Bolaños, todos eles simplificaram os discursos e conseguiram chegar a todas as classes sociais. A erradicação da pobreza e da fome e a redução das desigualdades, previstas na maioria das constituições sul-americanas, tornaram-se o objetivo síntese de um projeto político relativamente simples. Um projeto que propôs enfrentar ferozmente uma realidade histórica negligenciada. Não foi difícil, assim, convencer os habitantes desta vila humilde de que tantos Chaves e Chiquinhas também deveriam ter condições de adquirir a bola quadrada de Quicos.

Houve a inversão de uma fórmula consagrada neste período: o bolo precisa ser repartido conforme o crescimento, não depois de pronto. Trata-se de um crescimento distributivo, às vezes aquém do que se espera, mas que contribua para a melhoria dos indicadores sociais. Daqui para frente, dificilmente as sociedades sul-americanas aceitarão crescer sem inclusão social, independentemente das políticas econômicas adotadas. Convém ainda ressaltar que esse crescimento, embora tenha sido favorecido pela elevação dos preços das commodities, foi alimentado pelo trabalho e aumento de renda. Muitos Seu Madrugas, que antes faziam bicos – engraxate, marceneiro, vendedor de pipoca, etc. –, conquistaram um emprego formal. Muitas Donas Florindas, que já desfrutavam de alguma renda, resolveram abrir um restaurante. Muitos Seu Barrigas compraram mais imóveis, muitos professores Girafales ensinaram mais alunos, muitos viajaram para Acapulco, enfim, muitas pessoas passaram a fazer parte de um processo, ainda incipiente, de transformação social, ao se desprender de mazelas históricas.

O problema é que as lideranças esquerdistas emersas na década passada tinham um discurso claro e simples para quando o Chaves não comia sanduíche de presunto. Agora, ele come. E não quer só o sanduíche. Também quer torta, bolo, churros, pirulito, etc. Mais do que isso, ele quer andar de bicicleta, pegar um ônibus para ir ao parque, deixar de morar em um barril. Há uma ampliação da “nova classe média” – ou, como dizem os críticos, dos “novos proletários” – que modificou seu pleito: da universalização do acesso a serviços básicos para a qualidade desses serviços. Esta nova condição, ainda não sedimentada, é o grande desafio das políticas públicas das próximas décadas, sem deixar de lado o enfrentamento dos desafios históricos. Há um clamor por mudanças na população, eventualmente consubstanciada por uma nova orientação em seus governos, que já se percebe nos pleitos eleitorais apertados – Brasil e Uruguai são os casos mais recentes.

Uma era se encerra, outra começa. A primeira, humorística, a segunda, política. Roberto Bolaños tornou-se o guardião de uma era para a cultura latino-americana e compreendeu, de forma inocente, o que a Ciência Política, Sociologia, Filosofia, entre outros campos do conhecimento, tentam explicar até hoje: a natureza dessa gente americana dos trópicos. Ela é imperfeita e desastrada, por definição, mas feliz e esperançosa, por convicção. E é essa gente bronzeada, como compôs o sambista Assis Valente, que hoje mostra o seu valor. Não contente apenas em ser parte de um processo de transformação social, quer ela ser condutora da própria transformação, o que pode iniciar novos episódios na vila sul-americana.


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Problemas de primeiro mundo

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Há algumas semanas tivemos um post sobre eleições e suas consequências. Uma das mais importantes mencionadas era justamente a que ocorrerá amanhã nos EUA, a chamada eleição do “midterm”, quando os eleitores fazem a escolha do Legislativo. Após os eventos da última semana, não tem como não traçar um paralelo com o Brasil.

A impopularidade crescente de Obama por conta da economia e deslizes na política externa podem ter seu preço, com a possibilidade real de os Republicanos tomarem a maioria no Senado (atualmente dos Democratas por seis cadeiras) e expandirem seu domínio na Câmara. Com isso Obama corre o risco de herdar um país ingovernável por dois anos, em que o Congresso terá o poder de barrar quaisquer medidas que desejar e abrir caminho para a oposição nas eleições presidenciais de 2016.

Ora, o que vemos no Brasil? Na semana passada o governo aumentou a taxa básica de juros (indo contra sua propaganda eleitoral) e está em queda de braço com o Congresso por conta da rejeição de um decreto sobre comitês populares. Apesar de ser uma das medidas que efetivamente trariam mais participação política ao cidadão (e satisfazendo a tal “sede de mudanças políticas”), deve ser rejeitado um pouco por obra da oposição (ainda mordida pela derrota na última semana) e um pouco por uma revolta de partidos da base aliada (que querem colher os frutos do apoio no pleito).

Não se trata de uma discussão ideológica, mas política. O que importa não é o conteúdo do ato administrativo, mas o resultado da sua rejeição, visto como danoso ao governo. As situações de Brasil e EUA, nesse momento, são relativamente parecidas. Claro que não podemos igualar a situação de um bipartidarismo de facto como o americano com a farra de 28 partidos que elegemos em 2014. E enquanto Obama está à própria sorte, Dilma ainda tem maioria no Congresso, mas com uma margem de manobra extremamente reduzida comparando aos governos anteriores. Contudo, considerando que governo e oposição se aglomeram em torno de dois partidos, temos algo similar, com a grande diferença sendo a existência daquele monólito chamado PMDB, sempre pronto a agradar qualquer um dos lados em troca de bocados políticos (e que, de certa maneira, faz a coisa toda funcionar já que possibilita a maleabilidade que inexiste no modelo bipolarizado norte-americano).

Na verdade isso é comum a quase todos os sistemas políticos que se proponham a ser democráticos. Mas Obama e Dilma terão anos visivelmente complicados daqui em diante, com um Legislativo arredio e de certo modo interessado apenas nas consequências para o próximo ciclo eleitoral. Podemos dizer que enfrentamos “problemas de primeiro mundo”, mas não no sentido usual de algo frívolo ou que não se compara aos problemas mais graves de países empobrecidos. E quando a atividade política deixa de ser um meio para o bem da comunidade (com a replicação de discursos dicotômicos e emperramento da máquina pública) e se torna um fim em si mesma, seja de perpetuação no poder ou de busca pelo mesmo, a sociedade perde como um todo.


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Indignação à mexicana

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Existe muita indignação com o grupo Estado Islâmico pelo modo ultrajante pelo qual elimina seus opositores e prisioneiros, degolando pessoas em pleno século XXI. Mas o ultraje deveria ser muito maior quando se pensa que muito mais pessoas sofrem esse destino, ou pior, bem ali no quintal do Tio Sam, por obra dos carteis de narcotraficantes mexicanos.

Desde 2010 temos notícias escabrosas de covas coletivas cheias de pessoas decapitadas, sejam imigrantes ilegais ou pessoas com dívidas do tráfico. Mas parece que foi preciso um novo grau de crueldade para que a indignação internacional finalmente fizesse com que o mundo volte os olhos para a situação do México. Há algumas semanas, estudantes de uma escola rural participavam de um ato em prol de melhorias na educação no estado de Guerrero, e logo veio a repressão policial. Nada de novo, infelizmente, mas o desfecho foi trágico – levados em camburões, 43 estudantes estão desaparecidos até hoje, apesar de dezenas de cemitérios clandestinos e corpos carbonizados terem sido encontrados. A suspeita é de que o governo esteja envolvido com um cartel criminoso e tenha enviado os estudantes para os traficantes realizarem seu trabalho sujo.

A situação do México já era considerada calamitosa há muito tempo do ponto de vista humano – mais de 10 mil mortos na “guerra” contra o narcotráfico desde a década passada. Porém, o aumento da violência escancara uma realidade comum até mesmo ao Brasil – a participação de agentes da lei no crime, mas de maneira muito mais profunda. Denúncias de militares eliminando civis são exemplares não apenas de despreparo das forças de segurança, mas de um governo em que a corrupção e o crime se imiscuem com o Estado.

O que mudou para que esse caso causasse tanta comoção? Talvez o fato de serem apenas estudantes, jovens lutando por seus direitos. Ou o fato de que, estando desaparecidos, ainda haja uma esperança, por menor que seja, da possibilidade de resgate. O fato é que a conivência de setores do Estado para com essa violência está gerando uma onda de protestos pelo mundo, inclusive no Brasil, além de reprimendas oficiais da OEA e da ONU. E claro, apesar da reação do governo federal, inflamou os protestos no próprio México, se espalhando da região para o país todo.

Fora o aspecto humanitário, acima de tudo, este ocorrido deixa uma importante informação sobre os protestos – desde a tal Primavera Árabe de 2011, quase todos os protestos que ocorrem ao redor do mundo estão tendo, em certo grau, uma repressão violenta. Do Bahrein à Ucrânia, de Hong Kong ao México, o desejo de mudança parece não ser compreendido pelos governantes, sob o risco de inadvertidamente fortalecerem o próprio movimento que visam a debelar. Esperamos que seja o caso do que está acontecendo no México.

 


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E lá vai o Evo…

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E não é apenas o Brasil se encontra em ano decisivo de escolha presidencial: também nossa vizinha Bolívia esteve hoje em dia de votações para presidente, senadores e deputados. Contudo, ao contrário das inesperadas reviravoltas em território brasileiro, o pleito boliviano se passou com certa tranquilidade – pesquisas indicam vitória de Evo Morales no primeiro turno.

Possivelmente com aproximados 60% dos votos, temos um Evo que vai garantindo um terceiro mandato, até 2020, à revelia do que antes se previa na própria Constituição do país. Com um perfil, no mínimo, polêmico, considerado “autoritarismo populista e pragmático” por alguns analistas, talvez estejamos visualizando a abertura de um precedente para sua continuidade no governo – aspecto que não representa, de fato, uma boa prática ao sistema político sul-americano, favorecendo a permanência no poder por tempo indeterminado.

Entretanto, com resultados claros na redução da pobreza extrema durante seu governo, aliado a um alto crescimento econômico (na expressiva faixa de 5%), Evo abre caminho para seguir na liderança da Bolívia demonstrando-se estável no poder e protagonista de medidas alinhadas com as necessidades sociais. Apesar de o caminho ser longo, não se pode subestimar o potencial de crescimento da Bolívia, cuja administração pública certamente merece crédito pelas medidas adotadas até o momento.

No que se refere ao Brasil, principal parceiro comercial da Bolívia, laços “de confiança”, apesar de “distantes”, dão o tom da relação durante o governo de Dilma, que não chegou a visitar seu homônimo boliviano, além de ter vivenciado a crise com a “fuga” do ex-senador e opositor ao governo de Evo Roger Pinto. A situação desencadeou a mudança do nome do chanceler brasileiro, porém o solicitante de refúgio no Brasil ainda é esperado em sua terra para julgamento pelo governo…

Se eleições normalmente nos remetem a momentos de inflexão e mudança, na Bolívia o clima é, todavia, de continuidade. Avaliação positiva em alguns aspectos, negativa em outros, somente o que se pode afirmar com segurança é que lá vai o Evo… até onde, será?


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O mundo às urnas

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Ontem tivemos eleições gerais no Brasil, e apesar do impacto tremendo disso na vida política nacional (e claro, internacional), vamos falar no dia tradicionalmente dedicado pelo blog a eleições, de outros escrutínios que acontecem pelo mundo. Ou melhor, aconteceram, pois em pelo menos dois países o fim de semana foi movimentado para seus eleitores como foi para os brasileiros.

Para pegar o gancho, na Bulgária, terra da família da atual presidente, as eleições legislativas mostraram a vitória do partido de centro-direita GERB. Porém, como parece ser a regra em países europeus em crise, o partido não obteve a maioria e encontrará dificuldades em se articular com os demais especialmente o Partido Socialista. O populista ex-primeiro ministro Boiko Borisov tem a ingrata tarefa de levar o país mais pobre da União Europeia (sim, até mesmo a Grécia tem renda por cidadão maior), em um ambiente de crise política e corrupção endêmica que se arrasta por quase 25 anos (desde o fim do comunismo) somado a uma crise bancária que ameaça seu principal banco e espanta o investimento estrangeiro.

Um pouco acima, na Letônia, as eleições parlamentares levaram o partido Harmonia à maioria e devem dar fim ao governo de coligação atual que já dura 9 meses. Assim como a Bulgária, o país se encontra na UE, e em situação delicada – mas pela presença do gigante russo ao lado. O Harmonia é um partido de tendências pró-Moscou, e com isso é esperado que recomece a haver uma influência significativa da política russa no país. Ao contrário da Ucrânia, porém, a Letônia é membro da OTAN, e uma interferência mais aguda como a que assola o celeiro da Europa desde o começo do ano é uma improbabilidade. Existe uma parcela significativa de russos étnicos no país, e o debate entre a manutenção dos laços com a Europa ou voltar a face a Moscou é um temor factível que pode resultar em divisões internas. Ou seja, problema a longo prazo.

Por fim, quando estivermos perto do segundo turno das eleições presidenciais aqui, lá nos EUA estarão ocorrendo as eleições do “mid term”, ou seja, do Legislativo. A decisão da composição da Câmara de Representantes (a Câmara dos Deputados deles) e do Senado contém a chave para o futuro do país, pois a distribuição dos partidos no Congresso vai definir se as políticas dos próximos dois anos vão render algo ou se um entrave político emperrará decisões vitais na área de Defesa e economia. Uma derrota republicana no Senado manterá um Congresso engessado e impopular, enquanto uma vitória poderá significar uma campanha de terror pela não-cooperação com as políticas de Obama e até mesmo definir as possibilidades reais de derrota democrata nas eleições presidenciais de 2016. E mesmo com essa eleição histórica a menos de um mês, o modelo de alistamento eleitoral voluntário mostra uma incrível taxa estimada de apenas 15% de eleitores interessados no assunto.

Logo teremos a chance de verificar o resultado desse evento, mas com estes exemplos fica aparente a situação de crise que a maior parte destes países enfrenta, de democracias consolidadas a novatos nesse clube pós-muro de Berlim.


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Perfumes revolucionários?

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Perfumes

Uma das notícias intrigantes da última semana havia sido o anúncio, por parte da empresa pública de cosméticos cubana Labiofarm, do lançamento de duas novas fragrâncias intituladas… Ernesto e Hugo. A dita “homenagem” ao cubano Ernesto Che Guevara e ao venezuelano Hugo Chávez chamou a atenção – não pelo tipo de fragrância ou pelo interesse dos amantes de perfumes pelo mundo afora, mas principalmente pelo impacto político de se transformar o nome dos líderes revolucionários comunistas em marcas para venda no mercado internacional…

Segundo o laboratório, a escolha dos títulos se deu após pesquisas junto ao público e as famílias de Che e Chávez teriam autorizado o uso de seus nomes para este fim. Nas palavras de Mario Valdés, diretor da área de investigação e desenvolvimento da Labiofarm, “Hugo tem notas cítricas e amadeiradas que dão uma expressão de masculinidade” e “Ernesto tem algo de essências frutadas com elementos de carvalho, que dá um sentido varonil” […]. Por mais que possa parecer irônico, os produtos foram efetivamente anunciados com previsão de lançamento no mercado no início de 2015.

Ontem, contudo, o governo cubano se pronunciou por meio de nota no jornal estatal Granma, caracterizando como “irresponsável” o anúncio dos perfumes, proibindo sua fabricação sob a justificativa de que “os símbolos da revolução são e sempre serão sagrados”.

Discussões entre o governo cubano e suas empresas à parte, o episódio traz a particularidade de mostrar como importantes símbolos políticos podem ter sua imagem capitalizada por empresas que alcançam um nicho de mercado em ampla expansão. Quem nunca viu alguém usando uma camiseta com a clássica estampa de Che Guevara sem nada saber sobre sua história em si? A ideia de “revolução” se torna, cada dia mais, uma mera marca para ser comercializada em prateleiras pelo mundo afora enquanto a real importância política de figuras marcantes (ainda que polêmicas) parece se banalizar diante de aparências que maquiam a complexidade dos interesses políticos e econômicos em jogo…

[PS: Dois outros modelos femininos estavam também sendo produzidos pelo laboratório: Amalia, em referência a Amalia Simoni, importante nome feminino durante a Revolução Cubana, e Alba, em alusão à “Alternativa Bolivariana para as Américas”…]


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Peregrinação

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Religiosos do mundo todo realizam viagens a lugares místicos ou sagrados para seu credo com a intenção de se aproximar da respectiva divindade, cumprir alguma penitência ou simplesmente fazer turismo. Nos últimos dias a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, perfaz seu calvário em busca da solução para o poço de problemas financeiros que se tornou seu país.

Primeiramente, um encontro com o papa Francisco no sábado. Após a troca de presentes (incluindo uma pintura da onipresente Evita, de modo irônico a resgatar a fonte inicial dos problemas platinos, a praga do peronismo) ficou claro que, apesar das rusgas no passado, o papa demonstra apoio à presidente em suas reivindicações com esta oportuna passagem pelo Vaticano. Como visto há algumas semanas, a Argentina tenta em vão pagar sua dívida com credores internacionais, que impediram o repasse dos recursos por discordarem do valor dos juros. Talvez, mais que o apoio do “soft power” eclesial, Cristina precise de um milagre para dobrar Paul Singer, o líder dos credores.

Daí vem a segunda parte da sua peregrinação – em Nova Iorque, onde se prepara para a Assembleia Geral da ONU daqui a dois dias, Cristina teve reunião hoje com George Soros. Outrora um dos “vilões” da economia internacional (e apontado por muita gente como culpado pela crise asiática de 1997) o megainvestidor tem muito interesse na solução do impasse, já que é um dos credores favorável ao pagamento. Sua intercessão no “clube dos magnatas” pode vir a ser bem mais oportuna para a solução dos problemas de Cristina.

Porém, de nada adianta resolver a questão das contas quando permanece a crise doméstica. Há quatro dias foi aprovada (na verdade “ressuscitada”) uma lei que controla preços e taxas de lucro, semelhante a uma implantada na Venezuela no começo do ano. A tentativa desesperada de conter a inflação galopante (na casa de 40%) a expensas do setor privado pode resultar, assim como no país bolivariano, em desabastecimento e mercado negro. Mas isso não abala a presidente, que tem entre seus planos a inusitada (apesar da não inédita) ideia de mudar a capital de Buenos Aires para a pacata Santiago del Estero, no noroeste do país, com menos de 300 mil habitantes e longe de tudo – inclusive dos protestos. Afinal, se a ideia deu certo no Brasil, por que não? A cada dia o noticiário mostra que, com tais políticas, cada vez mais um milagre seja necessário dentro da Casa Rosada.


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