Cooperar é bom!

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Está lá nas diretrizes brasileiras de política externa: fomentar o desenvolvimento e promover a cooperação técnica entre países do sul e/ou instituições internacionais. No dicionário, cooperação significa colaboração, prestação de auxílio para um fim comum ou solidariedade. Meu enfoque, aqui, é falar um pouco especificamente sobre a tipologia técnica, mas mesmo assim é importante observar que a cooperação é um modelo de negociação internacional caracterizada pela troca mútua de experiências entre as partes. 

De maneira geral, o objetivo da cooperação é fazer com que todos os atores envolvidos tenham ganhos satisfatórios. A relação mútua e não competitiva entre dois ou mais agentes sociais, políticos ou econômicos – principalmente Estados e organizações internacionais – caracterizam a chamada cooperação internacional. Designadamente, a cooperação técnica internacional (CTI) corresponde à troca de tecnologias, know-how e experiências vindas de um lado mais desenvolvido e direcionadas para outro que apresenta certa deficiência em determinada área. 

No Brasil, o órgão responsável pelas diretrizes da CTI é a Agência Brasileira de Cooperação (ABC). Criada em 1987, seu nascimento teve como objetivo principal aperfeiçoar e coordenar todas as ações de cooperação técnica existentes entre o Brasil, outros países e organismos internacionais. O órgão é vinculado ao Ministério de Relações Exteriores (MRE) e, desde 1996, faz parte de sua Secretaria-Geral. Embora, teoricamente, a CTI possa ser realizada por estados federados, municípios, conselhos federais e organizações não-governamentais, é visível que a ABC é o órgão máximo e tenta centralizar as ações sob sua supervisão. Como disse no começo, acaba por ser uma política de governo e de política externa central.

Resumidamente, a CTI divide-se em duas frentes: horizontal/vertical e bilateral/multilateral. A cooperação horizontal é promovida entre o Brasil e os países em desenvolvimento, a vertical é estabelecida somente entre o Brasil e países mais desenvolvidos. A bilateral, como o próprio nome diz, é realizada entre dois países e a multilateral entre mais de dois países tendo o possível adendo de uma instituição internacional, destacando-se a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). 

Recentemente, sobressaíram as iniciativas de cooperação entre o Brasil e a África. Quênia, Angola, Moçambique e África do Sul são alguns exemplos de sucesso da parceria com nosso país. A CTI ganhou reconhecimento nos últimos tempos e vem sendo um importante instrumento da política externa brasileira. Pode-se dizer que ela é uma das poucas iniciativas que realmente “tornam o mundo um lugar melhor pra se viver”. É um meio termo entre diplomacia e realismo político. 

PS: Algumas destas temáticas tratadas neste texto foram desenvolvidas, com maior aprofundamento, pelo Setor Governamental da Empresa Júnior de Relações Internacionais da UNESP/Franca e estão no Caderno de Estudos Internacionais Aplicados a Localidades (CEIAL). Para ter acesso a esta publicação e saber mais sobre o conteúdo, clique aqui.


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Ciclo "humanitari-ático"

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“Efeito CNN” é o nome dado a um fenômeno tipicamente moderno nas Relações Internacionais: com o avanço das telecomunicações nos últimos anos, considera-se que a exposição de um acontecimento na mídia tem o poder de provocar respostas massivas dos diversos atores – especialmente os Estados – a eventos globais. Esta exposição midiática faz com que (direta ou indiretamente), os atores se sintam pressionados a “mostrar serviço”, especialmente em relação a questões humanitárias.

No dia de hoje, George Clooney foi o principal responsável por trazer à tona a (complexa) questão sudanesa, ao ser preso após um protesto com demais ativistas em frente à embaixada do Sudão em Washington. Com os dizeres “Sudão: Pare com as armas de fome em massa”, os manifestantes chamaram a atenção para a atual crise humanitária envolvendo o Sudão do Sul.

O Sudão do Sul, país criado em julho do ano passado (tema já abordado no blog aqui e aqui), enfrenta uma situação delicada em termos de refugiados devido aos conflitos entre o Exército Sudanês e o Movimento para a Libertação do Povo do Sudão do Norte na região que faz fronteira com o Sudão – especialmente nos estados de Kordofão do Sul e Nilo Azul. O número de refugiados no Sudão do Sul chega a 100 mil e as condições mínimas para o oferecimento de auxílio humanitário não são evidentes…

Segundo a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF), os desafios logísticos para chegar aos refugiados são imensos, principalmente agora com a proximidade da estação de chuvas na região. Garantir o acesso aos serviços básicos (água, alimentos, etc.) é a prioridade.

Diante deste contexto de crise generalizada na região, o esforço hollywoodiano de George Clooney visa atrair a atenção da mídia, o que não basta por si só, mas que constitui uma etapa importante em termos de mobilização de recursos e esforços diplomáticos para atividades humanitárias. O “Efeito CNN”, apesar de por vezes contestado no sentido de estar atrelado aos próprios interesses da indústria de comunicação em geral, costuma se provar “eficiente” em termos práticos.

A lógica é, basicamente, a seguinte: quando eu vejo, eu me comovo. Quando eu me comovo, eu me mobilizo pessoalmente e faço pressão para que os demais se mobilizem. Se há mobilização da opinião pública, há a tendência de articulação política e de financiamento para o desenvolvimento de projetos. Se há articulação para fins de resolução de conflitos e se os projetos são financiados e colocados em prática, há a esperança de mudança ou, pelo menos, de alívio temporário de uma situação de crise.

Desta forma se cria uma espécie de relação que liga – cada vez mais – as atividades humanitárias à influência midiática, em um complexo ciclo “humanitari-ático” em meio ao qual o caso do Sudão/Sudão do Sul se mostra apenas como mais um exemplo dentre os muitos vivenciados no contexto internacional recente…


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First!

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Após o saldo de aproximadamente 19 milhões de mortos na Primeira Guerra Mundial, ocorrida entre 1914 e 1918, viu-se que era necessário acabar com este cenário e caminhar para um contexto em que era imperioso combater crimes de guerra. Mesmo assim, como é do conhecimento da maioria, em 1939 tomou forma outro conflito de proporções gigantescas: a Segunda Guerra Mundial. Com cerca de 60 milhões de mortos, era fato que novamente algo deveria ser feito para por fim ao aumento da proporção bélica de destruição. Foi neste cenário, em 1945, que surgiu a Organização das Nações Unidas (ONU), a qual colocou logo no início do primeiro capítulo de sua “Carta” o objetivo de manter a paz e a segurança internacionais, bem como desenvolver relações amistosas entre as nações. 

Mas, infelizmente, várias ocasiões mostraram o contrário. Crimes de genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade ocorreram em números pequenos, contudo, o suficiente para causar preocupação e provocar mudanças. Foi assim em Camboja, Bósnia, Kosovo, Ruanda e Darfur, lugares em que a limpeza étnica, o ataque à população civil ou o intenso massacre fizeram parte de suas histórias recentes. 

Em 2002 surgiu uma esperança, foi criada a primeira corte penal permanente de Direito Internacional: o Tribunal Penal Internacional (TPI). Mesmo não fazendo parte dos órgãos especiais principais da ONU, conhecidos como “main bodies”, o TPI logo ganhou reconhecimento e estabilidade. Cresceram as restrições ao uso da força e valorizou-se o Direito Humanitário, parecendo que fora indispensável todo o século XX de guerras mundiais e conflitos internos para tal constatação. 

Agora, em 2012, o ano entra para a história com o primeiro veredito de julgamento dado pelo TPI. O congolês Lubanga Dyilo (foto) foi considerado culpado por recrutar crianças menores de 15 anos para lutar em conflitos étnicos no Congo. Sua pena ainda não foi estabelecida, talvez tenha que cumprir 30 anos de prisão ou, até mesmo, ter decretada a prisão perpétua. A juíza Sylvia Steiner, a única brasileira que faz parte da corte, afirmou: “Um tribunal forte, embora não resolva o problema do crime, manda a mensagem de que os criminosos vão ser punidos”

É algo a ser comemorado, mas muitas dúvidas ainda são colocadas quando se fala da legitimidade da corte. Somente 120 países ratificaram seu estatuto e este número poderia ser maior. Circula atualmente, na internet, um vídeo sobre Joseph Kony, acusado de crimes contra a humanidade em Uganda. Independentemente da veracidade das informações, quem julga indivíduos, e não Estados, é o próprio TPI. Com a grande repercussão do “viral” nas mídias sociais, quem sabe Kony será o segundo da lista.


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Post do Leitor

Post do Leitor – Jéssica Monteiro

[Pessoal, recebemos um interessante de Jéssica Monteiro sobre a questão dos refugiados no mundo atual. Vale a pena conferir e refletir sobre um tema ainda pouco abordado nas Relações Internacionais. Lembrando que todos podem postar na Página Internacional, basta que nos enviem um texto para [email protected]. Boa leitura!]

Em busca de um abrigo

Em 2011, ano em que a Convenção de 1951 sobre o Estatuto dos Refugiados completou 60 anos, foi divulgado pela Agência da ONU para refugiados (ACNUR) um relatório sobre a situação dos mesmos pelo mundo. Segundo ele, há cerca de 25,2 milhões de pessoas protegidas pelo ACNUR e aproximadamente 4,82 milhões de pessoas sob a égide da UNRWA, que é a agência da ONU que cuida dos refugiados palestinos. Dados do relatório revelam que os países em desenvolvimento acolheram perto de 80% dos refugiados do mundo.

Entretanto, as estimativas são de que esses números aumentem. No Norte da África, Primavera Árabe fez com que muitos buscassem abrigo em países vizinhos ou atravessassem o Mediterrâneo ilegalmente de barco (pagando cerca de 1500 euros) para chegar até a Europa. Esse fato pôs em questão o chamado Acordo de Schengen, pois muitos dos refugiados africanos chegavam à costa italiana e de lá iam rumo a outros países como, por exemplo, a França.

Dentre os países que mais acolheram refugiados estão Paquistão e Irã que receberam a maior parte dos afegãos. A Síria, antes dos últimos acontecimentos, também estava incluída nesse grupo, acolhendo grande parte dos iraquianos que fugiam da guerra e do caos que se instalou no país logo após a invasão da Coalizão. Contudo, o conflito político que atinge o país resultou em uma massa de pessoas fugindo, principalmente para o Líbano, da violenta repressão comandada pelo governo sírio.

Outros países, como os que se encontram no chamado Chifre da África (Quênia, Somália, Djibuti e Etiópia), também enfrentam sérios problemas com os refugiados. A Somália, que já foi tratada no blog diversas vezes, passa por uma crise política que, aliada à seca que castigou a região, culminou com um quadro de extrema miséria que fez com que houvesse uma fuga acentuada do país. Apesar da declaração da ONU sobre o fim da crise de fome, a situação para os somalis ainda não é nem um pouco estável.

A maioria das pessoas foge para o país vizinho, o Quênia, onde está instalado o maior campo de refugiados do mundo, que recentemente completou 20 anos, o campo de Dadaab (aqui e aqui), que, por sinal, está congestionado. Segundo Elena Estrada, assessora para assuntos humanitários dos Médicos Sem Fronteiras: “As condições estão abaixo dos padrões humanitários internacionais mínimos. Os refugiados têm acesso escasso à água, comida, itens não-alimentares e abrigo. Não existem latrinas, fazendo da defecação a céu aberto a única opção, e assim aumentando o risco de disseminação de doenças, particularmente nesse grupo vulnerável que já está fugindo de guerra há anos”.

Há, nas várias partes do globo, muitos países que passam por problemas que originam essa situação de refúgio. O Brasil mesmo vem recebendo uma grande quantidade de haitianos e de colombianos. Outros países africanos e asiáticos que não foram citados também recebem diversas pessoas fugitivas de conflitos em seus países.

Diante disso, não se pode esquecer o papel das organizações humanitárias, que é indispensável para levar ajuda a essas pessoas que tanto necessitam. Essas organizações enfrentam enormes desafios perante um panorama mundial caótico e complexo. Assim, independente do país, é fato que há um problema e que ele tem que ser resolvido. Quantos mais terão que deixar suas casas em busca de segurança, de um lugar digno para se viver?


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Mulheres de Angola

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Na tradicional canção “Mulheres de Atenas”, Chico Buarque e Augusto Boal se utilizam de metáforas para demonstrar a importância da luta feminina contra a submissão a regras patriarcais, na época da ditadura militar brasileira. Em um contexto bem diferente, mas em meio ao qual por vezes os desafios das mulheres continuam ainda enormes na busca pela igualdade, hoje se comemora o Dia da Mulher Angolana.


Essas Mulheres de Angola – com seus gostos, vontades, sonhos e qualidades – desde o período colonial são protagonistas no ambiente familiar, já que os homens angolanos eram inevitavelmente separados de suas casas devido ao tráfico de escravos e, posteriormente, ao sistema de trabalho forçado nas plantações. [Veja aqui artigo detalhado em relação ao tema.]

Dadas tais influências históricas, o papel da mulher na sociedade angolana merece atenção destacada. A Organização da Mulher Angolana (OMA), por exemplo, foi oficialmente criada em 1962, vinculada ao partido do Movimento Popular para Libertação de Angola (MPLA). Com o objetivo de lutar contra a discriminação e a violência de gênero por meio do fortalecimento da voz das mulheres, a OMA constitui hoje uma das organizações feministas conhecidas no país e comemora seu 50º aniversário esse ano.

Dez anos após o fim da longa guerra civil angolana, as mulheres – e todos os cidadãos, aliás – se esforçam na (re)construção diária da democracia e do desenvolvimento deste país africano, demonstrando que o processo de pacificação está avançando a passos largos. Em sua primeira visita oficial a Angola nos últimos dias, Ban Ki-moon reforçou ainda a importância do país para as Nações Unidas. [Para curto e interessante vídeo a respeito dos “10 anos de paz” em Angola, clique aqui.]

Reconstruir o país é tarefa árdua e longa, mas possível, sendo que o amplo envolvimento das comunidades locais é essencial. E, em meio a esse processo, as Mulheres de Angola devem ser, literalmente, exemplos a serem mirados…


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Dois problemas, nenhuma solução

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Uma vez me falaram que a Nigéria era uma das potências africanas. Abuja, segundo os mesmos, era uma capital pulsante e dinâmica, talvez um dos principais indícios de um continente em rota ascendente. Há números para corroborar esta visão, o seu PIB cresceu 8,4% em 2010, 7% em 2009 e 6% 2008. Contudo, nem tudo fica ao alcance da visão sob a ótica meramente numérica. O crescimento econômico, como em outros incontáveis casos, não se transformou em melhorias sociais significativas, muito pelo contrário. A corrente de desigualdade, pobreza extrema e marginalização só aumentou, em proporção maior que a dos índices da economia.

Na verdade, apesar da ressalva anterior, os números vão voltar para tentar nos ajudar a entender o cenário. Para o Banco Mundial, 80% da riqueza gerada pelo petróleo no país fica nas mãos de 1% de sua população, quadro ainda mais grave quando lembramos que as exportações do combustível representam 40% do PIB nigeriano. A situação é ainda mais crítica no norte do país, predominantemente povoado por muçulmanos. Não houve transição, mas uma ruptura de modelo econômico, o baseada no petróleo substituindo o pautado na agricultura e manufatura, culminando no encerramento de atividades industriais tradicionais. Este quadro é ainda mais intenso no norte.

Muitos governos passaram e pouco mudou, ao menos não para melhor. As refinarias da Nigéria quase não funcionam, deixando o país na constrangedora situação de ter de importar quase a totalidade do combustível refinado que consume, apesar de ser o maior exportador africano de petróleo. Somam-se a isso os subsídios que mantêm o preço do combustível acessível para sua população. Na prática, não surpreende que a receita gerada não resulte em grandes benefícios sociais. Ao mesmo tempo, um seleto grupo enriquece com este contraditório comércio. Goodluck Jonathan, presidente da Nigéria, assumiu o posto pensando em modificar este quadro. O primeiro passo foi dado: os subsídios supracitados foram extintos, o que economizaria ao erário cerca de sete bilhões de dólares por ano. Nada mal, não?

Tudo mal. Afinal, este era o único benefício percebido pela população por viver em país rico em petróleo. Uma série de protestos, greves e manifestações obrigou o governo a mudar o que havia determinado. A sua agenda de reforma, iniciada há menos de um ano, sofreu um golpe duro, na medida em que o fim dos subsídios não durou mais de oito dias. Mesmo assim, antes este fosse o único problema de Jonathan. Desde 2009, espraiaram-se e intensificam-se confrontos entre o grupo Boko Haram e a polícia. As atividades terroristas da organização expandiram-se, atingindo a capital Abuja e manchando as comemorações do último natal. Dois ataques recentes ganharam maior atenção, o primeiro na sede da polícia e o segundo no escritório das Nações Unidas no país.

Enquanto isso, o governo endurece sua mão repressora, tanto no confronto com manifestantes contrários ao fim dos subsídios, quanto no combate ao Boko Haram. Tal fato fica evidente no orçamento para 2012, no qual 20% dos gastos estão reservados para a segurança e defesa. O problema não parece ser religioso, uma vez que grupos terroristas não representam os islâmicos como um todo. Por outro lado, o radicalismo ganha terreno frente a uma população carente de serviços e oportunidades. Neste sentido, focar na segurança tende a acirrar as disputas e intensificar a insatisfação popular. Tudo indica que aquela economia planejada com o corte dos subsídios seria menor que os novos gastos para conter a expansão da violência. Para piorar, os Estados Unidos crêem que o Boko Haram possa estar colaborando com o Al-Qaeda e o Al-Shabab. A Nigéria, no final das contas, ainda não é aquela potência que parecia (e poderia) ser. 


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País dividido…

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Como o Raphael comentou na postagem da semana passada, há cerca de um ano um dos temas que mais despertava atenção para discutirmos era a criação do Sudão do Sul. Dito e feito, em 2011 surgiu o mais novo Estado africano, mas com menos de um ano de existência já parece ter batido um recorde nada invejável.

Lembram da Síria? Sim, aquele país em que o ditador não liga a mínima para a presença de observadores da Liga Árabe (que já não está servindo de muita coisa faz algum tempo, mas não deixa de ser legítima), enquanto seu serviço secreto paga para gangues armadas chacinarem a população revoltada e mantém prisões subterrâneas onde sabe-se lá o quê é feito com os opositores amordaçados. Pois bem, a ONU reconhece que mais de 5 mil pessoas morreram lá por conta dos conflitos, ao longo de mais de 10 meses, desde o ano passado.

Bem, no Sudão, conseguiram chegar perto dessa marca, 3 mil mortos, e com mais de 50 mil refugiados junto, mas em apenas uma semana de conflito. Oficialmente, a extensão dos danos, assim como o número exato de mortos, não são claros, mas têm origem em tensões étnicas e conflitos tribais. É um Estado sendo posto à prova e falhando miseravelmente… Teria sido muito prematura essa mudança de governo? Ou já era algo de se esperar? Falta o apoio internacional? Sequestro de mulheres e crianças se somam a fome e miséria em um cenário de crise humanitária desesperadora. Enquanto isso, as coisas não são melhores no Sudão original – tudo indica que o país esteja rumando para mais uma guerra civil, com opositores clamando por uma derrubada pacífica e rápida do longevo Omar al-Bashir (algo bem difícil de se esperar de um ditador que tem no seu currículo o genocídio de Darfur e não vai largar o osso tão cedo após mais de 20 anos no poder…), e escaramuças periódicas com o vizinho do sul. E isso pra não entrarmos na questão de Darfur, que ainda rende muitas mortes e conflitos incessantes (o último, devido à morte de um líder rebelde).

Prestem atenção – vendo de maneira superficial, temos 3 focos diferentes de conflitos e crises humanitárias, em uma região que era um único país há pouco mais de um ano! O que tiramos disso tudo? Bem, primeiramente, vemos que o tempo passa, o tempo voa, e nada muda naquela região da África subsaariana – seja na Somália ou no Sudão, expectativa de melhora em curto prazo é praticamente zero. Fome, miséria e falta de governança, com governos corruptos e/ou incapazes somados à ignorância internacional, parecem ser algo endêmico e que gera conflito.

Enquanto isso, a criação do Sudão do Sul, em que se esperava haver a possibilidade de finalmente conter a guerra civil que existia há décadas, serviu apenas para reduzir a escala do conflito e limitar seus participantes – sem que se diminuíssem a crueza dos combates e o sofrimento humanitário. Por fim, uma ligação curiosa e irônica entre os casos da Síria e do Sudão – o chefe da criticada e, até o momento, pouco efetiva missão de observadores é um aliado de al-Bashir e procurado pelo TPI por ser um dos criadores das milícias “janjaweed”. Com essa experiência, não é de se espantar que a missão de observadores não esteja dando muitos frutos…


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Ladrão… que rouba ladrão?

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Enquanto o mundo presta atenção no Oriente Médio e suas agitações, vamos um pouco mais ao sul de lá, mais especificamente no Chifre da África. Já falamos da Somália aqui no blog esse ano. O tema foi, como muitos devem saber (e é o modo que a mídia mais mostra o país africano), a crise de desabastecimento e a fome decorrente. Mas a Somália também anda conseguindo destaque nos jornais com outro assunto, que é o ressurgimento da pirataria em suas águas, rota marítima obrigatória entre Ásia e Europa.

A história é conhecida: pequenos barcos rápidos abordam cargueiros e exigem resgates aos governos. Claro que os países civilizados, nobres e justos, não deixam isso barato e enviam navios de guerra pra protegerem suas frotas mercantes. Afinal, não é como se a OTAN tivesse coisa melhor para fazer. E o tratamento dedicado aos criminosos varia de acordo com o humor e a origem da marinha. Se os piratas têm sorte, podem ser presos por franceses, que dão até comida para os maltrapilhos. Agora, se tiverem o azar de encontrar os russos… (Talvez uma herança truculenta herdada da URSS? É famoso o caso de um navio ucraniano em que africanos clandestinos foram mortos friamente para que a companhia não pagasse uma multa ao chegar na Europa. Virou até filme.)

É claro que a pirataria tem muito a ver com a crise e a fome naquele país. E boa parte da culpa, adivinhem, é de outros países e causada por um fator que quase ninguém conhece por esses lados: a falta de controle do Estado sobre o mar por lá. A equação é simples: barcos pesqueiros de diversas nacionalidades (europeus, chineses, japoneses…) praticam toda sorte de pesca ilegal e irregular nos mares somalis, sem serem incomodados; acabam os cardumes, o principal recurso alimentar do país é esgotado e uma forma de sobrevivência milenar de comunidades pesqueiras é destruída. Com isso, muitos adotam a solução extrema de partir para o crime, e como em qualquer lugar do mundo, o lucro dessa “vida fácil” faz com que grandes “lordes” piratas enriqueçam astronomicamente e mantenham o ciclo funcionando – um negócio tão lucrativo que acabou com as rixas entre clãs, tão comuns na África. Ser pirata virou status e uma ocupação comum por lá. E a coisa ainda fica pior – depois do tsunami de 2004 (aquele que causou estragos cataclísmicos na Ásia) descobriu-se que o mar da Somalia também virou um depósito aberto de lixo nuclear e tóxico. Como se as coisas já não estivessem ruins por lá…

Você pode ver um chocante e breve documentário sobre o tema aqui. E esse é apenas mais um dos casos em que as questões que chegam aos nossos ouvidos não contam a história toda. Pense no que ouvimos sobre esse tema. Fome na Somália? Claro que é resultado de governos ruins e guerra civil, o de sempre na África. Pirataria? Um óbvio crime contra o comércio internacional, uma barbaridade, que deve ser combatida com medidas “extremas” pra não sair do controle. Mas são apenas peças de um quebra-cabeça muito maior, em que seus efeitos são cíclicos e alimentam a miséria e a corrupção, sob vista grossa dos governos ocidentais. Não se pode defender o crime dos piratas, mas ao mesmo tempo é lamentável ver a que situação se chegou naquele país e difícil não sentir pena dos que acabam enveredando por essa vida (claro que não se precisa sair do Brasil pra entender essa lógica… é a globalização da miséria). Nisso quem perde, é claro, é o lado mais fraco, com a Somália sendo roubada, massacrada e, o pior de tudo, ignorada.


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Papéis invertidos?

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Deu no jornal: o Brasil está se tornando um pólo de atração de migrantes. Não que não tenha sido no passado recente (no contexto da América do Sul e África), sem contar o passado que moldou a formação étnica variada do país – a imigração é um fenômeno histórico por essas bandas. A questão é que agora, com a crise no Europa, quem está vindo pra são trabalhadores altamente qualificados que vêm suprir deficiências de mercado.

Parece chocante receber gente de países mais ricos, mas não é nenhuma novidade o Brasil acolher gente do primeiro mundo. No passado vinham italianos, alemães, japoneses, mas para trabalhar de modo mais humilde, plantando café, soja e arroz. Agora, quem está vindo vem ocupar cargos importantes na construção civil, ciência e tecnologia e engenharia (como no setor petrolífero, que faz a alegria de holandeses e ingleses). Não deixa de haver a migração mais tradicional, como os refugiados políticos e os que vêm de países mais pobres em busca de melhores condições. A situação levanta duas considerações.

A primeira, é uma constatação surpreendente: segundo dados do Ministério da Justiça (veja aqui), apesar da fama de receptividade do povo brasileiro, o país recebe uma porcentagem de pedidos de asilo humanitário (de gente fugindo de perseguição ou guerras) semelhante ao dos EUA mas tem uma taxa de aceitação muito menor que em países com notórios problemas de aceitação ou contestação de imigrantes, como a Itália. O Brasil deporta muito mais “ilegais” que países europeus, e isso é um mero demonstrativo de como essas políticas de refugiados como um todo estão em xeque no mundo todo – até mesmo aqui… Agora, seria demais imaginar que esses “indesejáveis” estão passando pelo mesmo processo que muitos brasileiros enfrentam/enfrentaram no passado indo para Europa e EUA? Seria exagero pensar que o crescimento econômico está tornando o Brasil internacionalmente “elitizado”?

E isso nos traz ao segundo ponto: a onda de imigração por empregos de alta capacitação, além de expor uma grave deficiência na educação nacional (e não estamos falando apenas de engenheiros e pessoal de Exatas, mas técnicos, e essencialmente a debilidade do ensino médio e fundamental), mostra que o mercado em expansão está sendo obrigado a trazer gente de fora para cumprir funções específicas. É evidente que não vamos nos tornar uma Europa que joga a culpa de muitos problemas econômicos nas costas de ondas de imigração do leste, Ásia e África. Mas, até que ponto esse tipo de situação persistirá, e o Brasil começará a investir de maneira decente para suprir esses nichos com força de trabalho nacional? Não estamos falando que os estrangeiros não tenham direito de trabalhar aqui, se pinta a oportunidade, ótimo para eles. Mas, por que não temos brasileiros nesse tipo de função, que seria facilmente “ocupável” se tivéssemos gente capacitada?

Até quando um país que quer ser “grande” (e já diz há muito tempo por aí que é…) vai passar por uma situação dessas, tendo que importar mão de obra especializada e fechando a porta para quem precisa de asilo? Acho que deve ser um caso único no mundo, e não deixa de ser mais uma das inúmeras contradições (e, pra variar, coisas que se vê apenas por aqui) de nosso país…


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Quem manda no Oriente Médio?

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A festa junina já foi faz tempo, mas continuam a estourar rojões no Oriente Médio. No Irã, um depósito numa base militar explodiu e matou cerca de 30 pessoas – segundo a imprensa local, um depósito de mísseis, e descartando a hipótese de sabotagem (apesar da expectativa de ação militar iminente contra suas instalações nucleares e do histórico de eliminação de cientistas iranianos por serviços de inteligência estrangeiros). Já na Síria, continua a repressão, e se depender da Rússia não termina tão cedo: enquanto não houver sanções formais ao regime de Assad, os contratos de fornecimento de armas russas continuam. Nada mais pragmático, mesmo agora em que o país foi suspenso da Liga Árabe e as sanções parecem vir a galope.

Os dois casos estão relacionados por conta de suas implicações regionais. A Síria ser posta para escanteio é um sinal de enfraquecimento da Liga Árabe, a responsável pela negociação com Assad para cessar a repressão, e até então a principal força de coordenação política regional para os países islâmicos. Com esse insucesso, é aparente sua decadência (talvez iniciada quando Kadafi abandonou a organização procurando se mostrar muito mais africano que árabe), e a ascensão de outro grupo, que hoje está cada vez mais influente e, principalmente, com dinheiro no bolso, o Grupo de Cooperação do Golfo (ou GCC, da sigla em inglês).

Essa foi uma organização criada na época da Guerra Irã-Iraque, para resguardar as frágeis monarquias do Golfo Pérsico, que dependiam (e ainda dependem) muito dos EUA para sua segurança. Hoje, com as oscilações no preço do petróleo, a saída de cena do Iraque como potência regional e a riqueza refletida em exuberância dos pequenos emirados (Doha, Qatar, etc. – o chamado “Gulf Moment“), esse grupo, que antes não tinha quase nenhum efeito prático, está cada vez mais poderoso política e até mesmo militarmente (foram tropas do grupo que auxiliaram na repressão dos protestos no Bahrein, fato inédito para a organização). E qual seria a principal razão para o fortalecimento do GCC? Quem responder Irã ganha um doce.

O temor do programa nuclear e, acima de tudo, de uma turba xiita, que estenderia seus tentáculos sobre os países da região e ameaçariam as monarquias (adivinhem só, sunitas) faz com que sejam esses países os principais responsáveis pela campanha de “demonização” do Irã. Lembram do “Crescente Xiita“?Há até quem diga que são os países liderados pela Arábia Saudita os responsáveis por incitar EUA e Israel a fazerem seu “serviço sujo”, e os principais interessados na remoção de cena do Irã. Por mais que o Irã brade a destruição de Israel, realmente não faz sentido que haja uma dinâmica de conflito imediata entre eles – não com a questão palestina, muito mais urgente e próxima para Israel, ainda sem ser resolvida. E os EUA? São eles que querem conter o Irã? Ou estão apenas atendendo a pedidos sutis dos seus aliados do Golfo?

Ainda é cedo para dizer com certeza “quem manda” no Oriente Médio. Mesmo por que, algo assim nunca existiu que não fosse um império da Antiguidade. Temos que pensar, por exemplo, no atual papel da Turquia, que cada vez mais parece se alijar da Europa em crise e se aproximar dos países árabes para desempenhar um papel de liderança. Também seria muito simplista falar em “manipulação” de países. Mas, nesse ano de efervescência, o crescimento de uma organização conservadora (que já cogita chamar o Egito para sua órbita para evitar o fervor revolucionário pós-Mubarak) e sunita (que adoraria ver o Irã varrido do mapa) faz com que se perceba como há uma diversidade de interesses envolvidos dentro da própria região, e como suas dinâmicas podem ser complexas, surpreendentes, e acima de tudo, desconhecidas de grande parte da mídia Ocidental…


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