Há um ano...

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Há um ano, assim como hoje, boa parte da discussão na Página Internacional se focava no Oriente Médio – mas não na Síria, que ainda era apenas um país cheio de protestos violentos, e não em uma guerra civil; a bola da vez era a Líbia (se bem que seria mais “norte da África”, mas enfim). Meio que num clima de ressaca, após a intervenção de países europeus, Kadaffi entocado em algum buraco (e com razão, como descobriu alguns meses depois), o destino do país estava nas mãos dos revolucionários. 

Hoje, com Kadaffi sendo apenas mais um nome escrito com sangue nas páginas da história, e a situação controlada pelo conselho de transição, a Líbia já passou até por eleições parlamentares (coisa que nem se sonhava no começo de 2011), mas isso não significa que as coisas estejam totalmente pacificadas. A perseguição a ex-aliados de Kadaffi é algo comum (o bom e velho revanchismo que infecta toda e qualquer revolução), com atentados e assassinatos (o mais recente foi um carro-bomba que estourou matando um ex-oficial de segurança do antigo regime), a instabilidade política é visível, e existe um risco muito grande de sectarismo religioso. Grupos islâmicos como a Irmandade Muçulmana, e mesmo radicais, como os salafitas, não obtiveram muitas cadeiras no congresso (quando conseguiram) e estão enveredando pelo caminho da panfletagem e mesmo da ação direta (como a derrubada de bibliotecas). Num ambiente instável, todos sabem que é um pulo para que protestos e desavenças virem algo maior, especialmente quando falamos de religião. 

Enquanto isso, relembrávamos os dez anos dos atentados de 11 de setembro. Não há muito o que se comentar disso – é um daqueles eventos cruciais da história humana, e seus efeitos ainda estão se desenrolando. Mas é interessante notar como a memória continua viva – inclusive com a aproximação das eleições presidenciais dos EUA. Se Obama está enfrentando muitos problemas em casa, com a dificuldade em cumprir promessas de campanha e a economia dos EUA esfriando, um de seus maiores trunfos está ligado a essa data funesta, pois foi ele o presidente que pegou o bandidão responsável. Foram os SEALs que fuzilaram o barbudo indefeso, mas é Obama que entra pra história como o presidente que pegou Osama Bin-Laden – e isso vale muito para os norte-americanos. 

Por fim, uma comemoração muito especial para o blog: anunciávamos o lançamento oficial do livro, que ocorreu no dia 11 daquele mês. É uma etapa importante de nossa história particular, e nunca é demais agradecer aos leitores e amigos que tornaram essa conquista possível. Para quem não viu, ou quer relembrar, confira aqui a postagem especial do lançamento!

E vamos que vamos pessoal, postando e relembrando…


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Eleições e desafios

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No tradicional tema das segundas-feiras, hoje falamos das eleições, agora em Angola. Nesse fim de semana, o país passou pela primeira eleição presidencial após a guerra civil de 2002, e apenas a terceira desde a independência de Portugal em 1975. Talvez o mais interessante de tudo isso é que pela primeira vez (que me lembre) vamos falar de uma eleição que transcorreu… numa total normalidade? 

Pois é, nada da carga simbólica como as eleições no Iraque e no Sudão, ou o clima de marmelada como na Rússia, ou a tensão como as do Egito. Existem denúncias de problemas (como eleitores cadastrados mas sem o nome nas listas) e a oposição reclamando da credibilidade do pleito. Mas, até o momento, os observadores internacionais disseram que tudo transcorreu bem, a eleição foi legítima e pelo jeito o atual presidente José Eduardo dos Santos foi reeleito com mais de 70% dos votos. Claro que isso não veio de um modo fácil. 

Lembrando um pouco de história, Santos é presidente há mais de 30 anos, e encarou a guerra civil que durou de 1975 a 2002, entre o seu partido, o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), e a Unita (União para Independência Total de Angola). O interessante de Angola é que, após o fim da guerra, os dois lados enveredaram para a política, abandonando as armas (na medida do possível) de uma maneira muito mais efetiva que, por exemplo, no Sudão ou no Congo. Em meio a crises no continente, Angola é um paraíso de estabilidade, com uma economia que crescia a passos largos (média de 17% entre 2002 e 2008) e é um dos maiores produtores de petróleo da África. E muito disso certamente se deve à estabilidade política – principalmente, talvez, à morte de Jonas Savimbi, o líder da Unita, o que finalmente possibilitou o acordo de paz entre as partes. 

Nem tudo são flores, é claro. Alguns observadores internacionais questionam a possibilidade de haver eleições realmente livres no país, e que a presença “onipresente” do governante afeta a percepção de fora. Há ainda denúncias de repressão e irregularidades no pleito, além da constatação de que o crescimento econômico é desigual. Isso é claro – o país freqüenta rankings nada louváveis de pobreza da população e de corrupção. Talvez o maior problema seja, ainda, a dependência do petróleo, que deixa a economia angolana à mercê das cotações internacionais e alvo de interesses estrangeiros, como os da China e até mesmo do Brasil. Um censo será realizado ano que vem (o primeiro desde 1970), e aí será possível avaliar de um modo mais objetivo quais as verdadeiras condições sócio-econômicas da população. 

A situação de Angola mostra essa necessidade de manter um crescimento sustentado após anos de crise. Para continuar florescendo essa condição econômica favorável (e, quem sabe, para haver a redistribuição dessas vantagens para a sociedade como um todo), estabilidade política é essencial. E nesse quesito, por mais que haja problemas, o país parece estar mostrando uma importante solidez, com uma nova geração superando finalmente o estigma da guerra, e focando na disputa – mas apenas política.


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Cadê as RI na África?

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Desde o primeiro momento, já gostaria de dizer que o post de hoje é mais um exercício de reflexão do que qualquer outro tipo de entendimento. Em algum momento da graduação, principalmente para estudantes de Relações Internacionais, ou até mesmo para pessoas que assistem simplesmente aos telejornais ou leem jornais de média qualidade, os temas relacionados à África (normalmente) ficam em segundo plano. 

Não quero dizer que ninguém se interessa pelo estudo político, social, econômico e cultural da África. Até porque o número de estudos brasileiros sobre o continente vem aumentando consideravelmente nos últimos anos. O meu ponto de vista reside no fato destes trabalhos sempre serem quantitativamente inferiores comparados com outras localizações. E ainda bem que qualitativamente isto é diferente. 

Eu, por exemplo, não estudo África. Interesso-me mais pela América do Sul e Europa. Não me perguntem o motivo, pois talvez não saberei responder o porquê de escolher estes universos de pesquisa. Creio que isto representa uma série de causas. Grade de disciplinas dos cursos, falta de know how de alguns professores sobre estes temas, desinteresse por parte dos alunos, falsa realidade apresentada por jornais baratos e por aí vai. 

Mas, então, cadê as RI na África? Quando falo “na África” quero dizer dentro do continente e como isso se transpassa para estudos fora dele. Li, recentemente, um texto que aborda esta questão e é intitulado “África: ensinando RI onde isso não deveria estar” (tradução própria). Vejamos alguns pontos fortes que confirmam a precariedade teórica desta área de estudos por lá. 

Primeiro, os trabalhos envolvendo as RI africanas surgiram em 1977 na Nigéria. Isto mesmo, 1977! Se nós consideramos as RI ocidentais como recentes, imagine aquelas então. Segundo, a falta de financiamento e a instabilidade política dificultam o desenvolvimento acadêmico. Há uma nítida diferença entre teoria e prática na África. Terceiro, as teorias clássicas (o Realismo, por exemplo) predominam nos países. É daqui que parte a questão: Como estudar as RI africanas sem uma abordagem multidisciplinar? Como falar de uma teoria que coloca o Estado enquanto ator unitário em um continente muitas vezes sem Estados considerados soberanos? 

Os três pontos mencionados se referem à realidade das relações internacionais dentro da África. Contudo, na minha opinião, isso tem influência direta para com os estudos “externos” que analisam o comportamento de alguns países ou até mesmo do continente como um todo. Se houvesse uma teoria de RI africana, com toda certeza pesquisadores de outras localidades se interessariam mais com aquela realidade local.

Conforme disse anteriormente, é uma cadeia de vícios. Pergunte para alguém: “Quer fazer um intercâmbio para algum país europeu ou para a África?” Nem preciso falar qual será a maioria das respostas. Veja, também, o que vem acontecendo no próprio Itamaraty. As embaixadas brasileiras e consulados em alguns países africanos estão com cargos vagos porque, assumindo tais vagas, os profissionais demoram mais tempo para progredir na carreira. 

E não estou “tacando pedra pra todo lado”. É uma culpa minha, inclusive, pois nunca me foquei em estudos internacionais africanos. Só acho que a carapuça serve para muita gente… Sumariamente, a África precisa de um novo fôlego interno para desenvolver as suas próprias Relações Internacionais! Como consequência, o interesse de outros acadêmicos irá crescer vertiginosamente. Para quem tem vontade em fazer pesquisa e não sabe ao certo o que estudar, tente a África! Para quem curte RI e ainda não entrou na graduação, tente desenvolver esta área. Tem campo de estudo e será de extrema importância para as RI daqui dez, vinte ou trinta anos.


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O desafio do Mali

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No dia em que os holofotes se voltam para a Rússia, o gigante que faltava ser admitido na Organização Mundial do Comércio, vale a pena destacar um fato importante, mas talvez não tão destacado, do outro lado do globo. Um novo governo provisório foi formado no Mali, no norte da África.

Para entender a importância deste fato, é preciso dizer que o Mali, país africano que já foi considerado modelo de democracia para o continente, sofreu há exatos 5 meses um golpe militar que depôs o governo vigente, aumentando enormemente o nível de instabilidade política e territorial no país. [Veja o histórico dos principais acontecimentos desde o golpe aqui.]

A independência do norte do Mali – também conhecida como região de Azawad – é reivindicada pelo povo tuaregue por meio do Movimento Nacional de Libertação de Azawad, que luta por esta região do Saara há centenas de anos [leia mais a respeito aqui]. Paralelamente – e dada a fragilidade política – o grupo radical islâmico Ansar Dine, ligado à Al-Qaeda, reivindica poder e influência na área e no país. Polêmicas envolvendo o recrutamento de crianças nestes conflitos já vieram à tona, gerando preocupação internacional.

Estes dois grupos distintos lutam entre si, mas possuem como inimigo comum o governo central. E foi esta fragilidade que supostamente motivou o golpe militar – enfraquecendo, paradoxalmente, ainda mais a democracia no país. As consequências regionais e internacionais deste fato também devem ser remarcadas. [Entenda melhor o caso por meio dos artigos disponíveis aqui e aqui.]

Assim, a formação de um governo provisório no início da semana renova a esperança nacional pela volta de segurança e paz no país, evitando um conflito generalizado. O desafio do Mali é grande: restaurar a unidade política, lidar com as reivindicações territoriais e buscar a estabilidade no país são etapas de um longo e complexo processo. Para voltar a ser considerado modelo de democracia no futuro, o Mali ainda deve percorrer um longo caminho, cujos primeiros passos parecem, finalmente, estar sendo dados. Resta saber como serão os próximos… 


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Alguém está vendo?

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Publicidade é a alma do negócio, diz o ditado popular, e nada é mais verdadeiro em política internacional. Não vamos confundir com propaganda, que tem um cunho muito mais político, de manipulação, e o pessoal confunde com “publicidade” de um jeito assustador. Mas hoje vamos falar de publicidade mesmo – ou melhor, da falta dela. Enquanto o noticiário internacional se esbalda com a guerra civil na Síria e o morno debate da eleição presidencial dos EUA, temos um monte de questões que passam como nota de rodapé (quando passam). Você sabia que Cuba está passando por uma epidemia de cólera? Ou que o Tribunal Penal Internacional sentenciou pela primeira vez um condenado por crimes contra a humanidade? Ou que o Congo está se tornando uma nova Ruanda? 

Essas duas últimas estão relacionadas. O tal condenado é Thomas Lubanga, um líder de milícia congolês que mandava crianças para a morte nos idos de 2002-2003. Foi o primeiro julgamento em que saiu uma sentença (de 30 anos), em que vítimas puderam testemunhar pessoalmente contra o réu, e o primeiro em que se conseguiu fazer uma acusação formal contra o uso de crianças-soldado. Como marco, uma vitória simbólica, mas muito pouco perto do que a realidade apresenta por lá. Na semana passada, muita gente ficou chocada com o relato de Marie Nzoli, que mostrou como a situação das mulheres é difícil na região, e que o espectro do conflito ainda paira por lá. Nessa semana começa uma reunião da União Africana em que o tema é justamente o crescimento desses conflitos, mas entre a discussão dos líderes na sala com ar condicionado e as camionetes com guerrilheiros fuzilando a população, estuprando as mulheres e roubando crianças, há um abismo. 

 A questão é, por que esse tipo de notícia passa longe do noticiário convencional, espremido em 10 ou 20 segundos no jornal do almoço. Talvez seja para não chocar demais o espectador brasileiro, que já enfrenta desgraça demais no cotidiano, certo? Afinal, não tem como fazermos nada pra impedir esse tipo de massacre tão distante. É fácil julgar a mídia, dizer que não mostra por que não dá retorno, mas se formos pensar com frieza, realmente, por mais cruel que pareça, não há muito mesmo a fazer – a não ser que você seja um consumidor regular do mercado de diamantes, um dos motores desses conflitos, e resolva boicotar essa indústria diabólica, em qualquer lugar do mundo, mas não acho que seja o caso. O que podemos fazer? Denunciar, dar voz aos que não têm, e pressionar nossos próprios governantes (pra boicotar comércio, essas coisas). 

Mas, é pouco, e aqui entra o TPI. Não é nada animador saber que os responsáveis pela tragédia que se aproxima (ou já está acontecendo) vão ser julgados (se forem) apenas num futuro distante. Mas, essas primeiras vitórias do TPI são um recado aos violadores, de que já não estão 100% impunes, e uma esperança, ainda que pequena, de que no futuro seja uma instituição forte o suficiente para dissuadir esse tipo de massacre. Vai ser uma publicidade negativa danada, podem ter certeza, mas enquanto isso, o Congo e tantas outras nações em crise continuam no rodapé.


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Uma eleição representativa

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Postagem rápida sobre a Líbia. O país saiu um pouco do noticiário com a morte de Kadafi e a matança na Síria, mas na semana passada tivemos lá mais uma vez um importante desdobramento da “primavera árabe” (se bem que esse termo já caiu em desuso, por que como temíamos não deu em nada de prático na maioria dos países…). 

São eleições para um congresso geral, que vai coordenar o governo (lembrem que o conselho atual é temporário), definir primeiro-ministro e elaborar uma constituição. Lindo, maravilhoso, mas aconteceu exatamente como se previa antes da queda de Kadafi: as rivalidades tribais e falta de coordenação fazem com que o resultado seja uma roleta russa. Pra ter uma ideia, havia 142 partidos registrados para a eleição, e era literalmente impossível saber quem poderia levar. O resultado ainda não saiu, mas já tem sua cota de problemas, como ataques de milícias, mortes, o provável esquema de manipulação de votos, e a insatisfação de algumas regiões com a questão de representação. Isso por que o povo da região de Benghazi acha que merece mais vagas por ter levado a revolução nas costas, enquanto Trípoli vai ter mais vagas por ser mais populosa. 

Talvez o mais interessante disso tudo seja ver como esses povos que estavam sob ditaduras e governos longevos geralmente se animam muito com a perspectiva de uma democracia representativa. O comparecimento parece ter sido de mais de 80% dos líbios em condição de votar, um número expressivo demais pra uma eleição que não era compulsória e para quem não votava há mais de 60 anos. Foi assim no Iraque, no Afeganistão, e na Tunísia. E, provavelmente, em qualquer país que passe por um processo assim. Mas por que existe essa “mística” da democracia? A ideia de um governo igualitário, ou que finalmente represente o interesse da maioria, é uma coisa fabricada pelas elites e lideranças regionais, ou realmente surge naturalmente? Algo como a simples oposição ao processo anterior? Talvez seja isso – de algum lugar, a população tem essa percepção de que se não participarem agora, podem e vão ficar para trás quando o governo for formado de fato. Seja o que for, cientistas políticos do futuro vão ter um caso de estudo muito interessante.


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Enquanto isso, na Guiné-Bissau…

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No momento em que todas as atenções estão voltadas para a Europa com a recente eleição do presidente francês e o início de uma Cúpula G-8 que deve ser marcada pelo debate sobre austeridade versus crescimento (leia post no blog a respeito aqui), a situação política da Guiné-Bissau, em contrapartida, enfrenta um momento delicado. 

Este país africano sofreu, há cerca de um mês, um golpe militar às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais. A interrupção do legítimo pleito democrático representou o sucesso de um golpe que já foi tentado antes e que, infelizmente, tem sido recorrente desde a independência do país. A forte censura às atividades de comunicação desperta indignação popular e nos mostra a todos o quão frágeis podem ser as estruturas políticas, mesmo na atualidade. 

A nomeação de um Presidente e um Primeiro-Ministro de transição no país foi um dos elementos-chave das discussões dos últimos dias por parte da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). Com o prazo de um ano para formar um governo de coalizão, esta iniciativa vem sendo, entretanto, contestada por partidos e organizações sociais de oposição ao golpe que defendem a necessidade de novas eleições presidenciais… 

A ONU, por sua vez, aprovou hoje uma Resolução do Conselho de Segurança a este respeito. O objetivo: a realização de um “processo eleitoral democrático”, mas sem exigir a volta do governo deposto. Mesmo com a aprovação desta resolução, uma real vontade política por parte da ONU (ou dos organismos internacionais em geral) é duvidosa. Ultrapassar o nível das aparências para alcançar o nível da efetividade política não é um processo simples e o limiar entre intervenção legítima e atentado à soberania nacional também nem sempre é claro. 

A situação se torna ainda mais complicada quando se percebe a rede de narcotráfico que certamente está ligada diretamente às origens das motivações golpistas na Guiné. Para uma real efetividade nas ações, é preciso “cavar mais fundo”. Resta saber apenas quem protagonizará esta difícil empreitada e de que forma esta deve/pode ser promovida.


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A saga continua…

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E continua a saga das eleições presidenciais no Egito. Passado mais de um ano após a renúncia de Hosni Mubarak, o país ainda encontra-se sob os auspícios das Forças Armadas. Desde as eleições parlamentares, começaram a ser realizadas no final de novembro e estenderam-se até o início de março, que a situação não anda lá muito bem (para mais sobre esse tema no blog, clique aqui e aqui)

De protestos em protestos, caminhamos para outro embate violento entre os militares e a população na última sexta-feira. Tudo começou no dia 02, quando manifestantes islâmicos acampavam a frente do ministério da Defesa e foram surpreendidos por agitadores que atentaram contra eles violentamente. A demora de ação da polícia e dos militares levou a população a questionar se, como no violento jogo de futebol no início de fevereiro, o governo não teria algum envolvimento. 

Assim, a odisseia tem chegado a momentos decisivos. Acirraram-se os protestos contra os militares, para que o governo seja entregue aos civis o mais breve possível. No dia 04, novos manifestantes dentre eles membros da Irmandade Muçulmana, percorreram um longo trajeto, iniciado na emblemática “Praça Tahir” e concluído no ministério da Defesa, sob a exigência de um governo civil antes de Julho (prazo estipulado pelos militares). O resultado não foi lá muito positivo. O que se viu foi muita violência entre representantes das Forças Armadas, manifestantes e a polícia, resultando em 296 feridos, 170 presos, 3 dias de toque de recolher, 1 morto e o futuro do ideal de controle civil sobre os militares, incerto. 

Números desanimadores para um país recém saído de um regime autoritário e em busca da tão sonhada democracia. De um lado, os militares afirmam que se planejassem um golpe de Estado, já o teriam feito há tempos. Mesmo porque não chegariam até aqui para só um ano depois realizar o golpe. De outro, os civis acreditam que os militares já estão se acostumando com o poder e a violência com que tem reagido aos protestos pró-democracia seriam o maior exemplo disso. Não é a primeira vez e nem a última que veremos militares no poder com dificuldades de lidar com manifestações civis e demandas populares. 

Mesmo porque as doutrinas militares denotam justamente o oposto do questionamento e diálogo, a subordinação e respeito à ordem estabelecida. Até o momento tem-se seguido o cronograma de eleições fixado no ano passado (clique aqui para conferir novamente). Há até certa divisão da intenção de voto da população entre os candidatos, Amre Moussa (ex-secretário da Liga Árabe), Abdelmoneim Abdul Futuh (islamita moderado) e Mohammed Mursi (representante da Irmandade Muçulmana), e que, diga-se de passagem, mal sabem suas atribuições, pois ainda não há uma Constituição no país. 

O cenário é complexo e inusitado. A maior parte dos egípcios ainda vive a ansiedade de construção do país pós-revolução e, não sem fundamento, teme que não seja desenvolvido um arcabouço significativo de controle civil sobre os militares. Protestos são uma boa forma de testar os limites da democracia que a Junta Militar pretende implantar. O governo já fala de nova constituição antes mesmo do novo presidente assumir (já houve alguns avanços no parlamento). Será que buscarão limitar o poder dos chefes de Estado ou manter a autonomia militar? Muita água ainda irá rolar sob os desertos egípcios.


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E no Sudão – de novo…

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A tradição das postagens de segunda-feira é comentar sobre eleições, e podíamos discorrer bastante sobre o Sarkozy escondendo seu relógio e seu provável fracasso no segundo turno francês. Mas, como o mundo não pára, estamos com uma crise bastante grave acontecendo em outra parte do mundo. E não são os coreanos do sul e do norte exibindo mais e mais foguetes uns pros outros e se jurando de morte, mas a possibilidade de um conflito entre Estados bastante real. 

Nas últimas semanas, o Sudão e o Sudão do Sul trocaram farpas. O pomo da discórdia é uma região petrolífera na fronteira, Heglig, que está sob disputa: é do Sudão, mas o Sudão do Sul clama ter a posse. O resultado foi uma invasão meio malfadada, que rendeu um monte de bombardeios, a morte de mais de 1200 soldados e a retirada estratégica das tropas do sul. Não houve declaração formal de guerra, mas está se encaminhando pra começar o primeiro conflito entre Estados diferentes na África desde o final da década de 90 – e, salvo engano, um dos poucos dessa natureza que vai estar acontecendo no mundo. 

O grande problema não é a região de Heglig isoladamente – essa situação parece ter sido contornada, apesar do morticínio, já que os EUA e a ONU chegaram para fazer aquela pressão e pedir pro pessoal ir à mesa de negociação. Mesmo a China, que manda e desmanda por aqueles lados, não tem nada a ganhar com um conflito desses. O problema é o resto da fronteira. Ainda há inúmeros campos petrolíferos e cidades que podem virar objeto de disputa, e a possibilidade de um conflito generalizado (que, muito provavelmente pode se espalhar pra países vizinhos, seja pela participação direta – mandando tropas – seja indireta – recebendo refugiados, por exemplo) é muito grande. 

Temos um país criado recentemente, com um governo instável, e que está com o brio ferido por essa derrota. Por outro, um país que sofreu uma fratura territorial enorme, grande instabilidade interna, que corre o risco de perder áreas economicamente importantes, e com um histórico nada pacífico. Ao contrário das Coreias, que estão no discurso ainda, os Sudões já foram às vias de fato, e a possibilidade de conflito não é apenas enorme, como apenas uma questão de tempo para que ocorra de fato, infelizmente. Se as negociações vingarem e a coisa esfriar, vai ser uma surpresa muito grata. 

É triste ver como um caso bonito como o do Sudão do Sul (criado por referendo, uma autêntica demonstração de autodeterminação de um povo), que trazia tantas esperanças para resolver uma das crises humanitárias mais terríveis da história, esteja descambando para a guerra. Onde foi o erro, na delimitação das fronteiras? Era tão inevitável assim a possibilidade de conflito? Ou seria a mera presença do “excremento do diabo”, o petróleo, que a tudo corrompe? A esperança é a última que morre, mas no Sudão ela parece amordaçada.


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A colcha de retalhos dos BRICS

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Basta uma nova reunião dos BRICS se iniciar para que comecemos a pensar sobre o que de fato o bloco representa. Primeiro, há de se dizer que BRICS é um conceito antes de se tornar um bloco. Em 2001, o economista Jim O’Neal, da Goldman Sachs, utilizou o termo pela primeira vez em seu trabalho “Building a Better Global Economic BRICs”. O conceito referia-se a uma projeção de que Brasil, Rússia, Índia e China poderiam ser até 2050 as cinco maiores economias do mundo. Agora, como bloco, os BRICS existem desde 2009 (a África do Sul foi convidada a participar em 2011), e começaram as reunir-se para discutir o…a…bom, sabe-se lá exatamente o que. 

Desde o inicio dos encontros que as reuniões do bloco geram a mesma reação que acabei de manifestar. São países que apenas convergem por serem grandes potências econômicas emergentes e não possuem grande agenda comum. Não se sabe se os interesses podem ser os mesmos no campo político, econômico, social ou ambiental, já que isso ainda é muito nebuloso ao bloco. É possível apontar, no mínimo, uma vez que esses países se posicionaram de maneira extremamente oposta. A China é um dos focos dos discursos políticos brasileiros de “guerra cambial”, apesar de o Brasil não explicitar tanto isso publicamente. A Rússia e China vetaram as resoluções do Conselho de Segurança sobre a Síria que Índia e Brasil foram a favor. Nas negociações da Rodada Doha, em 2008, Brasil e Índia encontrava-se em espectros diametralmente opostos e foi também o voto indiano que prejudicou as ambições brasileiras. 

Apesar desse cenário, a reunião da última semana agregou muito interesse. Principalmente pela proposta indiana de criação de um Banco de Desenvolvimento dos BRICS e a possibilidade de o bloco convergir, pela primeira vez, em um ponto específico, o apoio à candidatura da nigeriana Ngozi Okonjo-Iweal para a presidência do Banco Mundial (que já era apoiada pela África do Sul). E, como já ocorreu nas últimas reuniões, as expectativas superaram a prática. A declaração final (clique aqui para conferir)não mostrou nenhuma ação concreta nesse sentido e mais pareceu uma colcha de retalhos, na qual cada país conseguiu emplacar assuntos que eram mais importantes para si e todos tiveram uma posição consensual nos moldes generalistas da Assembleia Geral das Nações Unidas (prezar pela Segurança e paz internacionais, buscar uma solução pacífica para os conflitos no Oriente Médio…). 

Essa resolução, a alguns, significa que o bloco está fadado ao fracasso e que não há nenhuma expectativa de convergências no longo prazo. Todavia, também pode significar que, como toda colcha de retalhos, possui uma linha condutora que segura os retalhos juntos. No caso dos BRICS, a linha seria a da busca por uma estrutura da economia mundial diferente daquela que vem mantendo-se desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não seria o caso de ser excessivamente otimista, mas de ser um pouco mais paciente. Blocos normalmente partem de um interesse comum ao se unir. Os BRICS se uniram para depois buscar um interesse comum. 

Seria essa uma fórmula errônea para a formação de blocos? Não há como dizer. Apesar de o grupo ser extremamente divergente, seu ineditismo seria uma das razões da falta de articulação. Não há outro bloco com a característica de ter poucos membros e, praticamente, um de cada continente. Bom, mas se os BRICS querem de fato consolidar-se, será preciso muito mais do que manterem-se somente pela linha. É preciso que sejam vistos como colcha. 


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