Gafe norte-americana

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Associar o nome “Bush” com a ideia de “gafe” em uma mesma frase talvez não seja exclusividade do dia de hoje, mas fato é que a situação em questão foi especialmente desagradável.

No dia em que Nelson Mandela, depois de três meses internado em estado crítico, deixou o hospital em Pretória para receber cuidados domiciliares, foi divulgado um comunicado de imprensa de George Bush pai em que expressa suas condolências pelo falecimento do líder sul-africano

De responsabilidade de seu porta-voz, chamado Jim McGrath, o comunicado homenageava Mandela ao dizer que ele “foi um homem de grande coragem moral que mudou o curso da história em seu país”, lamentando sua morte. A gafe foi rapidamente percebida pelo porta-voz, que se desculpou pelo “erro estúpido”, tentando justificar-se ao afirmar que informações do jornal “The Washington Post” foram mal interpretadas. Pouco, contudo, pode ser feito em relação às consequências de palavras já ditas – e publicamente divulgadas.

Este acontecimento sugere duas reflexões diferentes. Em primeiro lugar, fato é que o estado de saúde instável de Mandela, com seus 95 anos, preocupa. Sua volta pra casa não transparece a melhoria esperada por todos, visto que seu tratamento continuará intensivo e foi revelado que o ex-presidente sofre de complicações múltiplas.

Entretanto, nada justifica a gafe de McGrath e, consequentemente, de Bush pai. E a segunda reflexão é efetivamente sobre o papel dos assessores e dos porta-vozes. Estes são os principais responsáveis por toda a comunicação e pela forma como a informação chega, por um lado, aos assessorados e, por outro, ao público em geral. Trata-se de uma função cuja importância é poucas vezes reconhecida no dia-a-dia, mas imediatamente visível em caso de erros e problemas – talvez como todas as funções, aliás, mas mais facilmente midiatizada e com consequências negativas proporcionalmente mais impactantes.

Seguem, pois, as expectativas pela melhora do herói Mandela, lamentando o erro crasso do porta-voz norte-americano e esperando que mensagens de condolências como esta desacertadamente divulgada não sejam necessárias tão cedo… 


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Já vi esse filme antes

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O roteiro é típico da maioria dos golpes militares – em nome da “manutenção da ordem”, e por vezes com algum tipo de justificativa constitucional, as Forças Armadas derrubam o governo vigente e instalam um período de transição que acaba se tornando permanente. Isso é o que estivemos vendo no Egito nos últimos um ano e meio, e nessa semana assumiu o tom de brutalidade que se espera de um governo que funciona pela força. Relatos de violência, repressão armada, prisões arbitrárias e assassinatos contra membros da Irmandade Muçulmana em acampamentos de protesto no Cairo dão conta de 150 a 200 mortos e algo em torno de 1000 feridos em apenas um dia. 

No Egito, o exército sempre esteve junto ao poder. Quando ficaram insatisfeitos com Hosni Mubarak, foi pelo seu apoio (ou falta de repressão) que o país pôde experimentar um dos poucos “sucessos” da Primavera Árabe (que já está mais para um “Inverno”). Como abutres, se mantiveram no controle até que as eleições fossem realizadas e no fim das contas nunca largaram o osso. Acontece a mesma coisa que se passou com Mubarak nesse exato momento – Mursi foi derrubado por não ter apoio dos militares, mas agora o país está dividido. Todos (ou a maioria) queriam Mubarak fora; agora, os militares têm seu apoio, mas Mursi também – justamente aquela parcela da população que o colocou no poder, por meio de eleições! 

O papel do ex-presidente é fundamental. Dependendo do ângulo de visão, ele pode ser entendido como um visionário ou como um desvairado. Para alguns, seu papel seria semelhante ao de um Chávez árabe que não deu muito certo – com uma base popular forte e ideias contraditórias, mas que não funcionou justamente por não ter as Forças Armadas nas mãos e pela onda de protestos contra suas políticas. Para outros, poderia ser uma espécie de Mandela para a região – um homem que trouxera paz de modo democrático e por mais que houvesse contestação não chegou a revidar violentamente contra os críticos. A região perde um ilha de estabilidade com sua saída, de um modo ou de outro, e a defesa de seu retorno poderia ser a única saída para um Egito pacífico. 

Não sei se podemos dizer que o Egito está se tornando uma espécie de Síria 2.0, já que as condições são bem diferentes, mas o resultado está parecido. O país ruma para uma guerra civil (ou pior, um massacre), e tende a espalhar incertezas e instabilidade, pulverizando o já estremecido equilíbrio de poder na região. O apoio à Irmandade Muçulmana vai trazer radicais para a cena? O exército vai continuar recebendo mesada milionária dos EUA após essa violência toda? Há algumas semanas uma postagem daqui se perguntava qual seria o papel das Forças Armadas nesse “novo” Egito pós-Mursi. Ainda é difícil precisar se vão assumir o controle como estiveram ensaiando desde a saída de Mubarak, ou se vão abrir espaço para algum títere. Mas, de todo modo, parece que está sendo um belo de um papelão.


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Ultrapassando Mandela

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Nos últimos dias, tive contato com alguns dados recentes feitos por um programa de cooperação cientifica em sociologia entre China, Brasil, Índia, Rússia e África do Sul, do professor Tom Dwyer, do departamento de sociologia da UNICAMP. Nos próximos posts, tentarei compartilhá-los, junto a informações de pesquisas recentes, que dão conta da situação social atual desses países tão em moda, por formarem o grupo dos BRICS. 

E começo fazendo uma análise da importância desses novos estudos, tomando por base a África do Sul atual, pós Nelson Mandela, certamente um dos grandes líderes construídos durante o século XX. O homem considerado o principal ator na luta contra a segregação racial e o racismo na África do Sul e no mundo, o que por si só o coloca como grande símbolo de outras batalhas contra grandes injustiças. Sua história é impressionante. Passou décadas trancafiado na prisão, junto a seus companheiros, onde permaneceu são e convicto de suas ideias, aquém da cadeia e das acusações por terrorismo. Saiu dela e foi alçado a presidência de um país que era governado pela minoria branca, que havia institucionalizado o regime jurídico de segregação racial conhecido como Apartheid. 

Mas Mandela aparentemente não guardava mágoas. Dentro de seu governo, as leis que sustentavam o regime morreram. Mas as principais vitórias foram segurar o ímpeto dos mais radicais de seu partido, que defendiam a cobrança violenta dos débitos construídos durante o antigo regime, e também respeitar a oposição, parte dela ainda racista, que dominava a imprensa com mensagens reacionárias. A indiferença e a tolerância com esses grupos foi o próprio combustível para o enfraquecimento deles. A sua vitória foi o início de um novo tempo, em que ao menos seria possível imaginar construir um país coeso. 

Como todos os líderes muito envolvidos em suas batalhas, Mandela sempre soube que aquilo, em contrapartida a ser o final de uma luta, era apenas o início. Uma nação se construía, mas não uma nação bela, espontaneamente livre de seu passado. Se na maioria das vezes os tribunais não cobram os crimes prescritos, o futuro de uma sociedade sim. A África do Sul saiu do Apartheid como um país pobre em desenvolvimento, com forte desigualdade social e racial e assim continuou. 

Não existem milagres nas mudanças sociais. E não seria na África do Sul a primeira vez. Rasgadas as leis, acabada a desigualdade jurídica, sobra a social. Sobre a construção das nações modernas, estão escondidas as marcas que garantiram a sua própria formação. A África do Sul foi baseada na própria sociedade de segregação. Ainda hoje é, quando observamos que grande parte dos negros não saiu de bairros pobres como o famoso Soweto. Se Mandela se transformou em mito, os sul-africanos vivem na realidade.

O líder não só dividiu a história, mas parou o tempo no qual discutimos o país. Quando se discute fora da África do Sul do Apartheid, se discute o passado. Faltam análises sobre o presente. Um país com índice de Gini como um dos mais altos do mundo, de 0,593, ainda extremamente desigual. Com falhas no sistema de seguridade dos trabalhadores, bairros de negros inteiros feitos de madeira. O racismo ainda presente. 

Na África do Sul, o Soweto ainda é o exemplo de bairro dos negros do país, muitos anos depois do fim da segregação jurídica. Restam os muros garantidos pela estratificação social, cristalizada no país além do que se pode destruir com novas leis. E isso não ocorre só na terra de Mandela, mas também em outras sociedades. Nas sociedades dos BRICS. 

Resta romper outros muros, entre eles o do mito Mandela e da visão pausada no momento da vitória contra o Apartheid, para que se possa ter uma visão de como é a Africa do Sul internamente nos dias atuais, a realidade do “novo Brasil”, a “China desenvolvida” ou a “Rússia democrática”, fora das questões diplomáticas e do comércio internacional. Essas analises servirão para reafirmar ou contestar o modo como vemos o momento dessas nações internamente.


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Melhore, Mandela

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Melhore, Mandela. Melhore porque sua contribuição para a construção de uma sociedade baseada na igualdade racial ainda não está encerrada, apesar de já ter sido esplêndida. Melhore porque seu ativismo e seu exemplo político ainda emanam vida, muita vida em seus 95 anos quase completos. Melhore porque o mundo ainda não está preparado pra se despedir de você, herói sul-africano, herói internacional.

E, de fato, não estamos preparados e nem devemos nos preparar. Após mais uma internação preocupante (pela quarta vez desde dezembro do ano passado), por conta de uma infecção pulmonar, Mandela passa bem e se recupera, a um mês de completar 95 anos de vida. A data do seu aniversário é, na verdade, reconhecida pela ONU como o seu próprio Dia Internacional, em homenagem a tudo que Mandela construiu e representou em sua luta – ou melhor, representa em um mundo ainda carente de diálogo inter-racial e paz em tantas localidades em conflito.

Se a história de Mandela marcou a luta contra a segregação racial no século XX, desde o fim do apartheid muitos desafios em termos de igualdade racial permanecem não apenas na sociedade sul-africana, mas em todo o mundo. Ainda é, infelizmente, mito dizer que não existe racismo no Brasil, por exemplo, assim como ainda há muito que ser discutido para que eliminemos a discriminação nos mais diversos âmbitos da sociedade.

Se, segundo suas próprias palavras, “o que conta na vida, não é o quanto se viveu, mas a diferença que fizemos para a vida dos outros”, a certeza de que este líder fez e faz a diferença no mundo é clara. Por isso e por tudo o mais, melhore, Mandela, melhore, por favor.


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O nó congolês

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O leitor que percorreu o noticiário ontem certamente se deparou com a notícia do brasileiro convidado, pela ONU, para exercer o posto de Force Commander da maior missão de paz da organização, a MONUSCO. Trata-se do general Santos Cruz, cujo histórico fala por si mesmo. E como anda a República Democrática do Congo (RDC), futuro destino do chefe militar brasileiro? 

O país é um caos completo faz tempo. Desde os idos de 1994, quando a massa de refugiados de Ruanda importou o conflito hutus x tutsis pro antigo Zaire, a guerra escalou, trouxe junto quase toda a vizinhança, incluindo Angola, Uganda e Zimbábue, e resultou na invasão que derrubou o presidente Mobuto, em 1997, criando a RDC. Claro que o conflito (dentro e fora) não acabou e em 1999 a ONU mandou sua missão de paz original (MONUC) para garantir o cessar-fogo e checar o desarmamento dos dois lados do conflito. Em 2010 a missão mudou de nome, virando a atual MONUSCO, com a função de agregar “estabilização” a suas funções. 

O pulo do gato acontece esse ano, com a resolução 2098, que cria uma inédita brigada de intervenção, com a finalidade de agir em defesa dos cidadãos e autorizada a neutralizar de modo ativo grupos armados. Serão 3 batalhões de infantaria, um de artilharia e um de operações especiais e reconhecimento, composto na maioria por soldados de países africanos. Desse modo, a missão de paz do Congo vai se tornar a maior da ONU, ultrapassando a do Sudão, assim que os 3.000 homens da brigada de intervenção forem para lá. Também continuará sendo a 2ª mais custosa, perdendo apenas para o Sudão. Seja pela presença da ONU cada vez mais “sofisticada”, seja pela gradual influência dos vizinhos no conflito (e haja vizinhos), vê-se que a situação no Congo é desesperadora. 

A própria criação dessa brigada contrasta com o mandato da missão original. Em 2010, a ideia era garantir segurança de pessoal e dos direitos da população. Hoje, a ONU parece reconhecer que a coisa está fugindo do controle (só agora?) e o caso do Congo está complicado o suficiente para exigir uma inédita ação pela força. Qual o problema aqui – o modelo de missão anterior que não funcionou, a situação do país que não colabora, interesses mais obscuros ou uma mistura de tudo isso? 

Aproveitando o comentário feito sobre a postagem de ontem, a pergunta inevitável é: até que ponto a RDC é soberana? Marcado por um duopólio irregular do emprego da força, divido entre facções rebeldes – com destaque para o M23 – e as Forças Armadas que não cumprem, de cara, o requisito mínimo para se tratado como Estado. Há um anacronismo: os soldados cometem as mesmas violações de direitos humanos, notadamente o estupro, que os rebeldes. Assim, como é possível acreditar no governo congolês? Como se sentir seguro e acreditar que o Estado zela pelos direitos de seus cidadãos? 

Não podemos deixar de considerar a influência de fora, especialmente de Ruanda, que financia o M23. O problema nunca vai ser resolvido se deixarem de lidar com essa interferência externa. Mas analistas de relações internacionais não perderiam seu tempo e, apressadamente, lançariam seus conceitos: o Congo é um “estado falido”, deve-se adotar a “reconstrução do estado” (nation building). Tomadores de decisão de todo o mundo, no conforto de seus escritórios, evocariam a tal da “responsabilidade de proteger”. Tudo isso constitui uma assemblagem acadêmico-conceitual para conferir eufemismos a algo simples, já dito por Krasner: a soberania, em essência, se tornou uma hipocrisia organizada. Desde a era vestfaliana, acentuando-se no século XX, a soberania foi violada, seja pela força, seja pela diplomacia, mas, ainda assim, prevalece como um princípio constitutivo das relações internacionais, ajustando-se a cada caso. Talvez o Congo seja o caso mais extremo dessa realidade, com um Estado à mercê de interesses diretos e indiretos de fora e resultando em um conflito permanente. 

Um país dilacerado pela guerra há quase 20 anos, que sofre com interferência estrangeira (do comércio de mercado de minerais preciosos à presença física de tropas), conflitos étnicos compartilhados com quase todos os vizinhos, onde o estupro é uma vergonhosa realidade cotidiana – empregado como uma arma de guerra e de opressão – e no qual a ONU finalmente parece tomar uma atitude mais dura, que pode representar tanto um novo paradigma de atuação quanto a possível falência do sistema. Esse é o novo desafio do general Santos Cruz, e uma nova, e talvez definitiva, esperança para aquela nação sofrida.


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BRICS: além da ficção?

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Nesta semana, em Durban, na África do Sul, foi realizada a V Cúpula dos BRICS. Intitulada “BRICS e África: Parceria para o Desenvolvimento, Integração e Industrialização”, debateu-se desde a promoção do desenvolvimento inclusivo e sustentável até contribuições para a paz e a segurança internacionais. Merece destaque, no contexto de crise europeia e de estagnação da economia mundial, a iniciativa de se criar um banco dos BRICS para financiar obras de infraestrutura nesses países. 

Isso significa que o acrônimo, já que não é propriamente um bloco ou organização, está avançando institucionalmente? Não. Por enquanto, os números impressionam. O PIB combinado dos BRICS atingiu 15 trilhões de dólares em 2012, o que representa a 21% do PIB mundial (em valores nominais), e o comércio entre seus países alcançou 282 bilhões de dólares no ano passado (em 2002, esse montante era de aproximadamente 27 bilhões de dólares). 

Qualquer análise de relações internacionais, hoje, leva em consideração a projeção mundial dos BRICS. Estudos prospectivos, como os do National Intelligence Council, tratam da emersão de um arranjo multipolar global, com os Estados Unidos menos dominantes e a ascensão, sobretudo, de China, Rússia e Índia, em que as instituições e estruturas tenderão a se adaptar à nova configuração geopolítica. Nesse sentido, melhorar a coordenação entre os países dos BRICS é questão chave para o futuro. 

Mas é também um ponto problemático. E, aqui, peço licença ao leitor para me intrometer no texto. Com base na experiência pessoal, pois fiz parte da delegação do Brasil em uma das reuniões preparatórias para a atual cúpula – III Reunião de Altos Representantes Responsáveis pela Segurança Nacional dos BRICS, 10 e 11 de janeiro de 2013, Nova Délhi –, penso que os BRICS ainda são uma ficção, uma narrativa imaginária sobre uma realidade (ainda) inexistente. Parafraseando o historiador britânico E. H. Carr, os interesses espreitam os bastidores da política internacional: o que realmente se quer nunca é dito explicitamente. 

A reforma das instituições de governança global (ONU, FMI, Banco Mundial, etc.) é traço marcante dos discursos dos BRICS. Na reunião de que participei, ouvi, com entusiasmo e em tom uníssono, de todos os representantes a necessidade e urgência de se realizar essa reforma. À noite, durante o jantar, disse a diplomatas sul-africanos e indianos que, enquanto Rússia e China não declararem apoio à inclusão de Brasil, Índia e África do Sul no Conselho de Segurança da ONU, persistirá a abstração discursiva. 

E por que não o fazem? Por razões históricas e circunstanciais, sob a ótica inextricável da luta pelo poder. China e Rússia disputam a mesma zona de influência, seja na eurásia, seja na África. China e Índia permanecem sobre a sombra do conflito fronteiriço pelo Tibete do Sul. Dois exemplos para ilustrar essa situação: os altos postos diplomáticos, na Índia, são ocupados por especialistas em China e, em diversos fóruns ou reuniões mundiais, é preciso negociar separadamente com chineses e indianos, como no caso da Conferência da União Internacional das Telecomunicações que ocorreu no ano passado, em Dubai, nos Emirados Árabes. Além disso, à medida que a população dos dois países superar a pobreza, haverá maior pressão sobre recursos hídricos, energéticos e alimentícios, tanto interna quanto externamente, e a rivalidade sino-indiana poderá agravar-se. 

Índia e Rússia também se envolvem em um jogo delicado, em que ambos tentam conter e contrabalancear o poder chinês e, ao mesmo tempo, o do outro. Na área de defesa, o governo indiano evita a dependência de produtos militares russos promovendo, adicionalmente, acordos com Estados Unidos e Europa. Brasil e China são fortes competidores e travam disputas nas áreas financeira e comercial, particularmente no chamado entorno estratégico brasileiro, envolvendo a América do Sul e a África. Há, ainda, iniciativas unilaterais, como a proposta de resolução russa encaminhada à Assembleia Geral da ONU para regulamentar o espaço cibernético, que não contam, necessariamente, com o apoio integral dos BRICS – o Brasil é contrário. 

Os BRICS devem seguir, em curto e médio prazos, como um acrônimo e ponto. Ele representa um agregado de características similares e de diferenças silenciosas, ao qual se acrescentam os interesses velados. Os ganhos são muito mais comerciais do que políticos, e os problemas de institucionalização e de falta de coordenação de alto nível permanecem como um entrave para avançar em sua consolidação. Por isso, a ficção dos BRICS é, na verdade, sua realidade: muita imaginação, pouca ação.

[Postagem do colaborador Giovanni Okado]


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Futebol na África: o melhor e o pior do continente

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Algo que sempre me fascinou foi buscar vínculos entre esportes e relações internacionais. Na maioria das vezes, este exercício exige um tanto de imaginação e outro tanto de adaptação. As intersecções são sombrias na maioria das vezes, apesar da influência de fatores políticas em diversos eventos esportivos. Podemos tomar como exemplo a rivalidade nas Olimpíadas durante a Guerra Fria ou mesmo a tentativa de capitalizar nas conquistas esportivas por governos totalitários. Pode-se inclusive pensar o futebol como um mecanismo de soft-power brasileiro.

Neste fim de semana, chega ao fim a maior competição de futebol entre nações da África. Na final estão Nigéria e Burkina Faso. Apesar das dificuldades já apontadas, o futebol africano é um excelente campo para obter um pouco do melhor e do pior deste continente fascinante. Afinal, quando é que temos a oportunidade de ouvir falar de Burkina Faso? Dentro de campo, os esportistas africanos mostram talento, fato corroborado pelos que jogam nas maiores ligas do mundo. Fora dele, no campo político-social, ressurgem questionamentos antigos.

Algumas histórias são marcadas pela superação, como a Zâmbia (campeã de 2010) que homenageou sua maior geração de futebolistas, vitimada por um acidente aéreo, na véspera da partida final. Outras histórias, no entanto, demonstram um pouco do que o continente ainda tem de pior, como no ataque à seleção de Togo antes da competição também de 2010.  Além disto, em outro exemplo negativo, o torneio deste ano foi obrigado a uma mudança de última hora da sede, a impossibilitada Líbia deu lugar à África do Sul.

Enquanto a Nigéria, finalista no futebol, aproxima-se do posto de maior economia continental e sua ministra de finanças prevê a chegada de nações africanas ao rol dos países em desenvolvimento; as divisões internas, o choque de visões pós-primavera árabe e o avanço do radicalismo ainda apontam para outras necessidades. À medida que melhore sua produtividade, aumente o fluxo de investimentos estrangeiros, intensifique avanços estruturais; a África verá questões mais fundamentais voltarem à pauta mais um vez. Nem a emergente Nigéria escapa de problemas internos, sob a bandeira do Boko Haram.

Neste ano houve ainda uma última coincidência. O Mali, assolado por uma grave crise, disputa na tarde deste sábado o terceiro lugar na Copa das Nações Africanas. Quem sabe o recente bom presságio esportivo, não fortaleça o desejo de o país reencontrar um pouco de estabilidade. Caso torne-se uma distração, características de outras interações futebol-política, poderemos ver mais do que há de pior no continente. O futebol ainda é um pano de fundo interessante, com indícios de grandeza do continente. Torçamos pelo melhor. 


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Os males de Mali

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A próxima moda do noticiário de intervenções armadas vai ser o Mali. O que surpreende um pouco já que a coisa estava feia por lá desde o ano passado (e pouco se comentou por essas bandas). Como havia comentado em outro post, o Mali se tornou uma espécie de mini-Afeganistão, com grupos islâmicos radicais ligados à Al Quaeda tomando a porção norte do país e com tudo levando a crer que formariam um novo santuário terrorista. Pra evitar maiores problemas, a ONU deu um aval tácito a uma intervenção e só faltava alguém para sujar as mãos. Quem se voluntariou foi a França, que justificou a ação com base em “estar em guerra com o terrorismo” (já não vimos isso antes?) e o fato de o Mali ser uma ex-colônia, o que incorreria nesse “dever” histórico de ajuda. Claro que tem outros interesses por trás, e a França não se faria de rogada pra fazer propaganda bacana dos Rafale. 

O fato é que os ataques começaram na semana passada pra valer, com bombardeio a campos de treinamento e coisas do tipo. A expectativa é que a intervenção acabe em coisa de semanas, mas a julgar pelo histórico desse tipo de expediente é bom pegar uma cadeira pra ver o que vai rolar. Países como Reino Unido e EUA estão ajudando (novidade), o CS da ONU vai discutir o assunto nessa semana para dar respaldo e até mesmo tropas africanas (lideradas pela Nigéria) se preparam para entrar no Mali e conter a insurreição. 

É mais uma questão de manda quem pode, obedece quem tem juízo. Mesmo que haja problemas de legalidade na ação francesa (e toda aquela questão de soberania), quem vai impedir? A impressão que fica é de que a ação é “boa” pra todo mundo (que não seja a Al Quaeda), então tanto faz, nessa terra de ninguém da política internacional que é a África subsaariana (apesar de ficar na região do Saara…enfim, é aquele caos que todos conhecemos). Ironicamente, o único resultado concreto, até agora, foi a troca de uma possibilidade de ameaça pela certeza dela, já que os grupos que tomaram a região anunciaram que a França está atacando o Islã, e vão revidar. Sacrebleu!


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O retorno dos Faraós?

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Os faraós são figuras emblemáticas do antigo Egito. Eram reis tidos como divindades cujos poderes eram ilimitados e inquestionáveis. Personagens importantes desse período da história, ainda pairam sobre o imaginário popular pelos filmes fantasmagóricos e programas sobre múmias ou por seus legados para essas sociedades. 

Mas há quem tema o retorno dos Faraós. Apesar de ser difícil que algum deles levante de seus sarcófagos, é fácil pensar que alguém almeje os poderes que eles tinham. E é justamente por isso que o Egito tem passado desde a última quinta-feira. Após o atual presidente, Muhamed Mursi, ter tido um papel importante na retomada do diálogo entre Israel e Palestina, parece que tentou usar um pouco desse capital político dentro de seu país para atingir a qualidade de um faraó moderno. 

No dia 22, publicou um “senhor” decreto. Sem muitos rodeios, seu texto dizia que ninguém poderia questionar decretos baixados pelo presidente. O judiciário perdia poder e o presidente tornava-se a autoridade absoluta, como que um novo Faraó. A justificativa para isso era acelerar o processo constitucional do país. Desde a queda de Mubarak que o país tem patinado sobre golpes brancos e disputas entre grupos opositores, seja por medidas do antigo Conselho Superior das Forças Armadas, seja por medidas do próprio presidente. E, em meio a esse fogo cruzado, o Congresso já havia sido fechado e a Assembleia Constituinte revogada anteriormente (para mais sobre isso no blog clique aqui, aqui e aqui). 

A medida causou um grande bafafá no país e dividiu opiniões. Os opositores, que já temiam pela influência religiosa da Irmandade Muçulmana sobre Mursi, ocuparam a Praça Tahir para protestar em favor do Estado laico e da democracia. Outros opunham-se por recear o surgimento de um “Mubarak de barba”, pois Mursi é só o sexto presidente egípicio em 72 anos de independência do país e, como o atual governante, o ditador deposto também havia entrado no poder pela via legal. 

O maior dos protestos deu-se ontem. Estima-se que haviam mais de 200.000 pessoas na praça. Houve violência, confrontos com a polícia e pelo menos 100 pessoas feridas no Cairo. As preocupações não são sem fundamento. Contudo, por outro lado, a justificativa de Mursi, de neutralizar temporariamente todos os poderes para acelerar os objetivos da revolução (a Constituição), também tem. Mesmo porque já havia indicativos de que o judiciário planejava barrar o atual Assembleia Constituinte. Mursi também utilizou-se desse “decreto dos decretos” para além de neutralizar o legislativo, indicar nomes que lhe apetecessem. Os juízes que estavam no poder, a despeito de não declararem, muitos acreditavam que ainda tinham certas lealdades a Mubarak e ao Conselho Superior das Forças Armadas. 

Bom, precisa-se aguardar até o fim da semana para sabermos se de fato os trabalhos da Assembleia Constituinte foram adiantados ou se tudo isso se trata do retorno de um novo faraó. Entretanto, pode-se ver que o processo recente do Egito dá uma lição de como a excepcionalidade tem sido usada indiscriminadamente na construção da democracia pós revolução. Primeiro, com a tomada do poder das Forças Armadas, a demora para se realizar as eleições e as dissoluções do parlamento e tentativa de limitar o poder do presidente. Depois, do próprio Mursi, de tentar neutralizar o judiciário para obter resultados políticos positivos. Espera-se que na infância da democracia egípcia, essa excepcionalidade não se torne normalidade…

[Para mais sobre: 1, 2, 3, 4, 5, 6 ]


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África em prantos

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O mundo está um pouco mais aliviado (ou menos preocupado) com o cessar-fogo entre Israel e o Hamas na faixa de Gaza. Pontos para o Egito, ou melhor, pro presidente Mohamed Mursi, que costurou essa frágil negociação e está se consolidando como um articulador regional mesmo que se mostrando cada vez mais um ditador (em versão light). Crianças voltam às escolas, foguetes param de zumbir pelos ares e o Oriente Médio parece (até o momento) escapa de mais uma guerra inútil. Tudo em paz, não? Digam isso pra África. Se um único conflito no Oriente Médio seria um desastre, na África está sobrando guerra. 

Vamos fazer uma contagem rápida. No Oriente Médio teríamos muito mais gente se envolvendo caso o conflito fosse às vias de fato, mas no fim das contas teríamos apenas um Estado envolvido no problema inicial, com Israel versus um grupo militar. Na África? Temos por cima guerras entre dois Estados (coisa meio démodé no resto do mundo) entre Quênia e Somália, Sudão e Sudão do Sul, além de problemas na Nigéria, Mali e Congo. Sem contar os agregados, como Ruanda, já temos 7 países em estado e guerra. Isso sem contar os que ainda se “recuperam” de ondas de violências anteriores, como a Costa do Marfim e a Libéria (onde as coisas ainda estão complicadas). Alguém viu cobertura disso no jornal? 

Na Nigéria o problema é religioso e cultural, com choques de grupos extremistas contra a influência ocidental. No Congo, rebeldes com apoio de Ruanda conquistaram uma cidade importante e prometem destruir o presidente. No Mali, países africanos enviaram uma força conjunta pra retomar o norte do país, que foi tomado pela Al-Qaeda (isso mesmo…) e virou um mini-Afeganistão nos moldes da época do Taleban. Mas o pior de tudo são os conflitos entre Estados. O Quênia está mandando tropas para caçar terroristas dentro da Somália (que respondem com atentados), e os ataques na fronteira entre o Sudão e seu vizinho do sul são constantes. 

Isso tudo já é uma mostra de como a situação é complicada nessas, e mostram cada um do seu jeito as vulnerabilidades dos países africanos. O caso do Congo mostra o cinismo do Ocidente, que em geral faz vista grossa a regimes aliados que causam distúrbios – Ruanda está armando os rebeldes e ainda assim permanece recebendo auxílio militar de países como EUA e Inglaterra. O caso do Quênia mostra como a falência de um Estado (no caso, a Somália) torna o país um oásis para grupos armados e criminosos. No Mali, a expansão da Guerra ao Terror e seus piores resultados, com o fortalecimento de grupos antes inexpressivos e sua migração para países mais fracos, onde podem prosperar. E o mais trágico, com certeza, o da guerra interminável no Sudão, cuja separação foi considerada um caso e sucesso e uma esperança de paz na região, mas que por causa do excremento do diabo, vulgo petróleo, e a cobiça que gera na elites dos respectivos países, fez com que não houvesse progresso com relação à paz. 

São regiões do mundo em que o medo faz parte da vida de milhões de membros de etnias ou religiões minoritárias, o estupro faz parte do cotidiano de mulheres e meninas, e os soldados, muitas vezes meninos, são treinados para odiar a “outra parte” desde cedo e tem uma expectativa de vida que não chega aos 30 anos. Não existe uma “solução” para isso nem a longo prazo. A não ser ignorar ou fingir que não existem. E essa parece ser a solução dada pela mídia e governos ocidentais.


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