1994, 20 anos depois

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Ruanda
1994, 20 anos depois. Há exatas duas décadas, o horror se iniciava em um país africano, até então, do qual pouco se sabia ou se procurava saber. O pequeno território de Ruanda se tornou palco de um dos maiores massacres da década de 1990 – um genocídio que, em aproximados 100 dias, levou à morte cerca de 800 mil inocentes, marcando tristemente e para sempre a história de um país e do mundo inteiro.

Tentar entender o genocídio de Ruanda em poucas linhas não é tarefa fácil, dada a complexidade histórica de um país cujas marcas da colonização europeia deixaram raízes profundas, influenciando na própria diferenciação étnica entre “hutus” e “tutsis”, origem social e política de toda a violência que seria presenciada anos depois.

A (ainda obscura) queda do avião do presidente Habyarimana, hutu, em 06 de abril de 1994 desencadeou uma situação de instabilidade política e rejeição à minoritária, mas historicamente dominante no poder, etnia tutsi que definiu os traços de um genocídio – sinônimo de extermínio de todo um povo ou grupo étnico – como ainda não se havia (ou nunca se deveria ter) visto no mundo pós-Guerra.

Em linhas gerais, e para além de todo o atentado contra a humanidade que Ruanda vivenciou, fica o registro histórico da incapacidade internacional em (re)agir à situação. Passividade, inoperância, inconsequência… não há conceito que traduza a postura de uma comunidade internacional cujo choque diante das imagens ruandesas provocou talvez muita indignação retórica, mas pouca ação prática em um país onde as Nações Unidas já possuíam o mandato de proteger civis, mas se abstiveram de sua nobre missão, diante de claro desinteresse político na crise.

Sob o lema “Lembrar, unir e renovar”, o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, incitou há semanas o debate sobre as lições aprendidas pós-Ruanda no seio da organização, a qual reconhece ter pouco ou nada feito diante da situação no país. Hoje, no “Dia Internacional para Reflexão do Genocídio de 1994 em Ruanda”, celebrou-se uma memória ainda muito viva, talvez pela experiência de seu próprio presidente, Paul Kagame, cujo envolvimento na morte do presidente Habyarimana ainda é questionado, bem como sua influência na escalada da violência na vizinha República Democrática do Congo, talvez pela ferida que segue contrapondo colônia e colonizadores tanto tempo depois de sua emancipação. Farpas políticas trocadas por Ruanda e França ainda trazem a polêmica “Operação Turquesa” ao centro do debate…

Diante de um país que prospera crescentemente nos indicadores econômicos e sociais, fato é que parece inconcebível constatar que, há vinte anos, se iniciava o massacre de aproximadamente 10 mil (sim, 10 mil!) tutsis e hutus moderados por dia (sim, por dia!) em um horizonte de três infindáveis meses. Cada ser humano sendo muitos, o número total de vítimas ultrapassa qualquer soma. Não há palavras para justificar ou compreender motivação genocida como aquela vivida em Ruanda, semeada por tantos anos, e com consequências tão desumanas.

Fica apenas um sentimento misto de luto, memória e culpa, aliado à necessidade de que tanto sofrimento desabroche finalmente em frutos de paz e convivência fraterna entre indivíduos, povos e sociedades.


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Os confrontos esquecidos

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Central-African

Os distúrbios recentes na Ucrânia retiraram, por algum tempo, o foco do noticiário internacional da crise Síria. Agora que a situação parece “sob controle” (apesar de a anexação da Crimeia à Rússia trazer um abacaxi para o Direito Internacional e ser o prelúdio de uma complicada guerra econômica de sanções na Europa), podemos voltar a nos preocupar com as centenas de milhares de mortes na conta do senhor Basshar al-Assad e desafetos. Porém, aproveitaremos a postagem de hoje para mostrar que, se a situação Síria é ruim, temos muitos outros conflitos ainda piores rolando nesse exato momento.

A Somália, por exemplo, que apareceu mais por causa dos casos de pirataria em alto-mar que pela miséria que assola a nação há mais de 20 anos, está em guerra civil por quase todo esse tempo – o que não é nenhuma surpresa. A bola da vez é o conflito com extremistas islâmicos jihadistas, que trouxeram a novidade do atentado suicida a uma região já caracterizada pela brutalidade dos conflitos sectários africanos, com expedientes tradicionais como o estupro e a mutilação. Mais de 20 anos de guerra e corrupção arruinaram o país, considerado por muitos como um exemplo de Estado falido. Para piorar, ainda soma à sua contagem de corpos aqueles que não perecem no conflito, mas na travessia do Mediterrâneo, fugindo da situação desesperadora em que se encontram.

Um pouco ao sul, na República Centro-Africana, a violência aumenta. O conflito de natureza religiosa produz horrores como pessoas sendo atiradas em rios para serem devoradas por crocodilos ou crianças decapitadas. Mais uma vez, grupos islâmicos estão envolvidos, ao derrubarem o presidente no ano passado – porém, não são os “protagonistas”, já que sua violência serviu como justificativa a muçulmanos comuns pelo resto da população, o que tornou uma outrora pacífica convivência religiosa no mais sangrento conflito entre cristãos e muçulmanos no mundo de hoje. A França envia um contingente para auxiliar as forças de paz da União Africana, mas seu interesse é pontual (basicamente, espezinhar o interesse chinês na região) e apesar do discurso humanitário da União Europeia nenhum outro país europeu tenciona enviar tropas para conter a violência. O resultado é literalmente o risco de uma nova Ruanda, com um genocídio anunciado, mortes na casa de milhares e mais de um milhão (cerca de um quarto da população) de refugiados.

Agora, os campeões nesse “score” macabro são dois conflitos velhos conhecidos, do Afeganistão e do Iraque. Apesar de estarem mais em voga por causa da reação ao 11/09, essas guerras podem ter suas origens puxadas lá para a década de 80, já que ambos os países nunca experimentaram alguma estabilidade desde a invasão soviética ou a guerra com o Irã, respectivamente. O fracasso dos EUA em alcançar seus objetivos, com a retirada do Iraque e gradual abandono do Afeganistão, tornaram essas guerras “esquecidas” pela mídia, com a menção esporádica de algum atentado, mas que continuam a ocorrer diariamente. Mesmo desconsiderando o período histórico mais longo, estamos falando de conflitos onde o número de mortos pode chegar à casa dos milhões – e que, definitivamente, não estão encerrados: não passa uma semana sem o anúncio de algum atentado em Bagdá ou Cabul com dezenas de mortes. Existe até um site que faz a contagem dos mortos no Iraque desde a intervenção norte-americana.

Claro que, em termos de vidas humanas, qualquer guerra é negativa, sejam 100 ou 1 milhão de mortos. Porém, os casos apresentados (e são apenas alguns) mostram que, como sempre, o interesse da “opinião pública” internacional sobre os conflitos mostra um pouco do interesse dos grandes centros de poder da mundo – na Síria, onde há interesses de grandes potências em choque, se despendem recursos estratégicos e diplomáticos. Mas, como vemos, não parece ser o caso em um Estado falido, com interesse marginal de uma potência decadente, ou de fracassos da superpotência meio que jogados ara baixo do tapete.


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Post Especial: homenagem a Nelson Mandela (1918-2013)

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“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar” (Nelson Mandela) 

O dia 05 de dezembro de 2013 entra, a partir de hoje, para a história. Faleceu agora há pouco o primeiro presidente negro da África do Sul, ganhador do Nobel da Paz e símbolo da resistência contra o Apartheid – política de segregação racial adotada no país durante grande parte da segunda metade do século XX –, seja ele um dos maiores ícones pacifistas de nosso tempo: Nelson Mandela, então com 95 anos. 

“Madiba”, como era carinhosamente apelidado, já se encontrava em precárias condições de saúde, tendo sido internado cinco vezes no decorrer dos últimos dois anos. A causa de sua morte adveio de infecção pulmonar. Vai-se uma das maiores personalidades do último século. Um ícone, um idealista feroz na defesa dos direitos humanos. O líder que tentou trazer aos sul-africanos um pouco de paz em meio a regimes segregacionistas e racistas. 

Em decorrência de sua luta ferrenha por maiores direitos da população negra, passou 27 anos da vida aprisionado. Após este período, tornou-se presidente de 1994 a 1999, tendo rejeitado permanecer no cargo mesmo com 80% de aprovação da população. Era simples e humilde: doava um terço do salário para fundação de caridade criada com o dinheiro do Prêmio Nobel da Paz de 1993. 

“A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”, afirmava Mandela. Nasceu em 1918, formou-se em Direito em Johanesburgo e logo criou uma instituição chamada Liga da Juventude. Em 1958 foi preso acusado de traição, conseguiu escapar, mas anos mais tarde foi condenado à prisão perpétua. Neste período as manifestações ocorriam em peso no país, a exemplo do acontecido no famoso “Levante de Soweto”, episódio em que mais de quinhentos estudantes negros foram mortos em meio a passeatas pacíficas. Foi liberado em 1990, sendo que três anos mais tarde fora decretado o fim do Apartheid. Depois, conforme dito acima, tornou-se presidente e retirou-se da vida pública em 2004. Teve suas últimas aparições públicas durante a Copa do Mundo de 2010 e recentemente quando estava saindo de hospital em Pretória ao lado do atual presidente Jacob Zuma. 

De palavras finais, ficam as do presidente norte-americano Barack Obama, ganhador contestável (e político) do Nobel da Paz em 2009. Segundo ele, Mandela atingiu mais do que seria esperado de qualquer homem e, a partir de hoje, não mais pertence a nós, mas sim às eras. Seria muita pretensão admitir que há possibilidade de haver outros líderes do porte de Mandela. Figura-se ao lado de Gandhi e Luther King, outros inigualáveis. Que ele continue servindo e deixando seu legado no combate a um dos maiores males existentes a nível mundial: a intolerância. Vai-se o homem, permanecem seus ideais.


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Post do Leitor

Post do leitor – Wilson Pedro Té

[A importância dos estudos e textos sobre a África é incontestável. O terceiro continente mais extenso do planeta, e o segundo mais populoso, apresenta uma riqueza cultural ímpar, uma expansão econômica recente e uma complexidade social capazes de centralizá-la no debate internacional. Mesmo assim, a escassez de textos sobre o continente ainda é um problema grave, já debatido em algumas de nossas postagens. Por isso mesmo, é com enorme alegria que publicamos um texto sobre a África, e ainda melhor, escrito por um leitor africano. Wilson Pedro Té, natural de guiné-Bissau e mestrando do programa de pós graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP), hoje nos premia com esse excelente e importante post sobre como a África Ocidental se transformou em uma importante região de trânsito para o tráfico de drogas internacional. Caso tenha um assunto preferido e a vontade de publicá-lo em nosso blog, mande um e-mail para [email protected]. Boa leitura!]

África Ocidental, teatro de tráfico de drogas 

A África Ocidental é uma região do continente que inclui os seguintes países: Benin, Burkina Faso, Cabo Verde, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné-Bissau, Guiné Conacri, Libéria, Mali, Mauritânia, Niger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa e Togo. Esses países foram colonizados pelas potências europeias (França, Inglaterra e Portugal), sendo que o processo de descolonização iniciou-se em 1957, com a exceção da Libéria, e culminou em 1975. 

No que se refere ao tráfico de drogas, o cultivo é destacado principalmente em três países da América Latina (Bolívia, Colômbia, Peru), onde as folhas de coca são transformadas localmente em cocaína, depois exportados principalmente para América de Norte e Europa Ocidental, passando pela África Ocidental. De acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, 2012), embora em declínio, os mais importantes destinos destes mercados são os Estados Unidos da América, absorvendo cerca de 157 toneladas de cocaína por ano (36% do total mundial, em estimativas de 2009). 

A partir de 2004, África Ocidental se tornou uma importante área de trânsito para o tráfico de drogas destinado ao mercado europeu e americano. Entre 2005 e 2007, as apreensões têm aumentado na África Ocidental e nas redondezas. Chegando da América do Sul, principalmente através de via marítima, mas também aérea, as principais vias de entrada de drogas na África Ocidental são: primeiramente, as costas da Guiné-Conacry e da Guiné-Bissau, e ainda, o Golfo de Benin (Gana, Togo, Benin e Nigéria). 

Além disso, alguns fatores podem ser aventados para explicar este novo papel da África Ocidental no tráfico de drogas. Inicialmente, citamos o fortalecimento dos controles nos aeroportos e portos europeus dos aviões e navios vindos da América Latina, a situação geográfica da sub-região do oeste da África, muito próxima de América Latina, e menos de duas milhas de quilômetros distante do sul da Europa, onde a quantidade de cocaína importada está aumentando. 

Ainda, o contexto “Pós-conflito” de alguns países da África Ocidental, também conhecidos como países da CEDEAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental), a presença da corrupção nos vários níveis de forças de segurança, de justiça e política de vários países, a fraca rentabilidade das atividades econômicas legais, em um contexto de crise e de redução da demanda, diminuição da ajuda ao desenvolvimento, são, entre outros, fatores que favoreceram o surgimento e desenvolvimento de tráfico de drogas nesta região da África. 

O tráfico de drogas na África Ocidental tem consequências negativas, sendo uma delas é o grave problema da saúde pública. Tem‐se constatado que, em meio aos grupos vulneráveis, tais como os consumidores de drogas, as doenças infeciosas espalham‐se muito rapidamente. Em Cabo Verde, por exemplo, a prevalência geral do HIV/AIDS é de 0,8%, ao passo que atinge quase 14% entre consumidores de drogas. 

Em todos os países, os principais atores que intervêm na área de segurança e defesa são os militares e policias. Porém, na África Ocidental, os principais colaboradores dos traficantes de drogas são esses dois atores. Qual será, portanto, a solução para África Ocidental no combate ao narcotráfico? Será que a DNA pode combater o tráfico de drogas na região por conta própria, sem a colaboração das autoridades desses países?


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O jogo das sombras na República Democrática do Congo

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Fonte: DefesaNet


“Geni viu os corpos das duas filhas serem arrastados pela correnteza de outubro, mês das chuvas. Forjou com o caçula um esconderijo sobre folhas de bananeira e ali ficaram até cessarem os gritos. Voltou à vila e encontrou a cabeça do marido, como as de outros homens da aldeia, secando ao sol em estacas – a marca do grupo liderado por um homem chamado Sheka.”  


Esta é uma das várias histórias tristes sobre a República Democrática do Congo (RDC). O relato foi descrito na excelente reportagem do Estadão, da jornalista Adriana Carranca, que cobriu o ataque de um grupo rebelde ao vilarejo Lwibo, na Província de Kivu do Norte. Entre tantas tragédias, uma boa notícia: o “Movimento de 23 de março” (M23), principal grupo rebelde congolês, anunciou sua rendição no último dia 5. Um fato significativo no longo percurso em direção à paz e estabilidade do país e da região, onde perdura um delicado jogo das sombras. 


A principal razão desse jogo é a riqueza inestimável da RDC. Se há uma linguagem universal para as interações sociais, ela se fundamenta em três palavras inter-relacionadas: poder, espaço e dinheiro. Uma matéria publicada na revista Tecnologia & Defesa destacou as riquezas do Congo: 30% das reservas mundiais de diamante, quinto maior produtor mundial de estanho e segundo, de cobre, é responsável pela metade da produção global de cobalto e detém 80% das reservas conhecidas de coltan (uma mistura composta de dois minerais: tantalita e columbita, material de alta resistência, muito utilizado na fabricação de eletrônicos).  


Tão logo se percebe que o conflito na RDC não é por liberdade ou democracia, trata-se de uma disputa por recursos naturais e domínio das áreas onde eles se encontram – sobretudo, no leste do país. Ressalta a matéria citada que os grupos rebeldes, particularmente o M23, são apenas a “ponta do iceberg”; submerso, está a oculta e acirrada luta das grandes potências pelo controle desses recursos. 


Neste sentido, a renúncia à luta armada por parte do M23 é parte – muito importante – do processo de pacificação e estabilização da RDC. Isto significa que, até o momento, a estratégia mais proativa e incisiva da comunidade internacional está surtindo efeito. A aprovação de uma brigada de intervenção no âmbito da MONUSCO, a missão de paz das Nações Unidas no país, e a nomeação do general Santos Cruz para comandar as tropas por lá podem promover, inclusive, um ponto de inflexão na história congolesa.  


Antes mesmo de partir para a missão, tive a oportunidade de conversar diversas vezes com o general e ficou nítido todo seu entusiasmo em assumir esta grande responsabilidade. À época, dizia ele sobre os grupos rebeldes: “estes caras só entendem duas coisas: a força e o dinheiro”. A melhor maneira de agir, em sua opinião, era pressionar esses grupos de modo que não tivessem outra opção, senão um acordo político e a inserção dos ex-combatentes em um programa de desarmamento, desmobilização e reintegração. E essa ação deveria ser permeada por contexto político favorável, negociando com atores externos envolvidos com o conflito, como Uganda e Ruanda.  


Há quase três semanas, em rápida visita ao Brasil, acabei me encontrando novamente com o general e pude ouvir as novidades de lá. Confidenciou o chefe militar brasileiro que foram travadas batalhas longas e sangrentas entre as tropas da ONU e os grupos rebeldes, além das atrocidades cometidas contra civis pelos revoltosos – cenas inimagináveis, diria ele. Ao mesmo tempo, deixava transparecer sua expectativa acerca de possíveis desdobramentos positivos na RDC.  


Um clima de otimismo,ainda que moderado, já toma conta da comunidade internacional. É preciso, no entanto, lidar com este jogo das sombras, à medida que se aprofunda a disputa pelos recursos naturais. As grandes potências – ou boa parte da alta classe delas –, que deveriam colocar a proteção dos civis em primeiro lugar, definem essa tarefa sob a ótica econômica, não humanitária. Se isso persistir, nunca haverá a superação do longo – embora segmentado – conflito na RDC.

Por e-mail, o general contou suas primeiras impressões de lá: “O Congo, em particular, é uma história fantástica e triste, de colonialismo e massacres inimagináveis. Talvez a dimensão dos números fez perder o sentido da dimensão humana dos absurdos.” Passou da hora de recuperar a humanidade.  


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Uma Sombra a Cada Oito

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Quando uma pessoa é questionada sobre quais são os cinco ou dez maiores problemas existentes no mundo, ela provavelmente não vacile em responder a fome como um deles. Entre os problemas globais, a solução para fome só seria tão popular do que a o estabelecimento da Paz Mundial, tanto no discurso de concursos de beleza quanto nas discussões política. Também distante do nosso imaginário e da mídia, que o torna popular, o problema da fome continua a ser uma das maiores tragédias humanas.

Desde 1992 a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) tem realizado, entre muitos outros projetos, a confecção de relatórios anuais que mapeiam a fome no mundo. Em todos esses 21 anos de dados a humanidade tem apresentado uma evolução continua rumo ao fim do problema no futuro. Mesmo assim ainda temos um total de 896 milhões de famintos atualmente, um número enorme, mesmo sendo 17% menor do que era indicado nos anos 90 do século passado.

A evolução da diminuição da fome tem sido causada principalmente pela América Latina e a Ásia. Nesses continentes, a evolução econômica dos países emergentes, junto a uma crescente diminuição da desigualdade, tem feito com que obtivessem os melhores resultados de melhoria de vida para a população faminta. Se o Mundo todo estivesse no mesmo ritmo desses países, o número de famintos no mundo poderia ter recuado até 50% nos últimos 20 anos, índice muito maior do que foi visto.

Mas por que a fome, mesmo cultivando uma grande preocupação mundial, tem se apresentado um adversário difícil de ser vencido? Talvez essa questão possa ser respondida com o caso da África Subsaariana, o local no mundo mais atingido pela fome. Expor causas que justifiquem a realidade de pobreza e fome nesse continente não caberiam em uma coleção de livros, quanto mais em uma postagem. Mas podemos pegar alguns aspectos atuais do continente para entender por que este permanece nessa situação.

Na África, não só temos o maior número de famintos como a maior desaceleração na diminuição de pessoas que saem dessa situação anualmente. Tal cristalização da fome, em contrapartida a rápida melhora do quadro em outros locais do mundo, tem alarmado a todos. Nem mesmo os países emergentes da África parecem ter força para anular a fome. O simples movimento de crescimento econômico não é suficiente no continente. 

A incapacidade da economia para solucionar o problema por si só é facilmente explicável. No caso de países como o Congo Belga, a riqueza é compartilhada apenas por uma minoria da elite nacional e magnatas estrangeiros. Já na Nigéria, a situação é bastante exemplar. Sua capital Abuja, fabricada exclusivamente para a elite política e econômica do país, ostenta grandes obras de infraestrutura e uma riqueza quase inigualável entre as capitais africanas. No entanto, os interiores do país continuam afundados na miséria e fome.

Diante desse cenário, até mesmo o aumento da produção agrícola, o maior desenvolvimento da história da África, e consequentemente da oferta de alimento, não tem sido suficiente. A FAO considerava esse fator como crucial a uma menor quantidade de famintos. Infelizmente, os resultados ficaram distantes do esperado. Isso pode ter ocorrido graças a grande concentração do desenvolvimento, restrito apenas às capitais e áreas urbanas.

A verdade é que a África expõe uma dura realidade: no mundo a desigualdade na divisão de recursos e de alimento é tão grande, que mesmo em um planeta que produz mais do que o suficiente para a alimentação diária de toda a população, quase 1 bilhão de pessoas passam fome. 

Mas para outros especialistas a culpa da falta de evolução do combate á fome na áfrica não diz respeito apenas a desigualdade. Os grandes índices de natalidade deram nova voz a teorias Neomalthusianas, que afirmam por meio de uma simples conta entre o alimento disponível e superpopulação, que a não redução da fome é originada pela falta de controle de natalidade.

Para eles, os africanos teriam que ter menos filhos. No entanto, a própria evolução da agricultura, que abriu uma nova oferta alimentar, e os altos índices de mortalidade da população, alavancada por males como a própria fome e a AIDS, tem jogado por terra essa teoria. Há menos pessoas, mais alimentos, e o problema persiste. A questão parece ser mais de falta de acesso ao alimento do que propriamente de escassez. Caímos então em uma complexa relação de cause e consequência causada pelo tipo de organização política e de desigualdade histórica na África, um problema social dos mais complexos existentes.

Abaixo, um vídeo bastante didático para a compreensão do mapa atual da fome e a questão da produção de alimentos versus a desigual distribuição: 

 

Na virada do século XXI, a Cúpula Mundial sobre a Alimentação definiu que o número de famintos no mundo em 2015 deveria ser de 498 milhões de pessoas, o que representaria uma diminuição de 60% no número de famintos desde que a FAO iniciou o seu projeto de relatórios anuais sobre a fome, em 1992. No entanto, faltando apenas 2 anos para o tempo limite da meta, ainda estamos com um número total de 846 milhões de pessoas famintas, quase o dobro do esperado. Ainda pior, tivemos uma baixa diminuição nos índices, em média apenas 20 milhões de pessoas por ano, o que leva a crer que estamos desacelerando na solução do problema.

A grande evolução econômica dos emergentes da América Latina e Ásia foi o grande combustível da evolução para um mundo sem fome. No entanto, nesses países o número de famintos é cada vezes mais baixo, os impossibilitando de prosseguiram como a grande vanguarda de combata a fome. Em contrapartida, a África Subsaariana, depois de anos de recuperação, parece se chocar contra os muros que  a impedem a um desenvolvimento mais veloz. A atenção estará voltada para a solução desse mal nesse local específico nos próximos anos.

Sintomaticamente, a ONU define a fome como “o maior problema solucionável da humanidade”. Enquanto tivermos pessoas vivendo nessas condições, teremos uma sombra permanente a nos rondar. Atualmente, há ainda muitas delas, uma em cada oito pessoas. Tomara que a situação em que vivem e as soluções para ela não sejam tragadas também por essa sombria escuridão.

 


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Visão 2020

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Quando se fala sobre Ruanda, inevitavelmente a primeira lembrança que nos vem à tona é a do genocídio ocorrido no país em 1994, o qual marcou tristemente a década pela brutalidade dos atos cometidos de uma luta étnica que beira o inexplicável, o inenarrável.

Às vésperas de completarmos 20 anos desse triste marco histórico, a verdade é que Ruanda busca se reerguer e alcançar o desenvolvimento nacional para ser lembrada de outra forma, recriando a história de um povo que luta para crescer e arquivar em um passado (cada vez mais) distante a violência e o desgaste causado pelo genocídio.

No ano 2000, o governo lançou o projeto “Visão 2020”, cuja principal meta é viabilizar a transformação do país em uma economia baseada em tecnologia, espelhando-se no exemplo asiático de Cingapura. O projeto “Um laptop por criança” inclui-se neste contexto, iniciado há cinco anos pelo governo com o apoio de Organizações Não-Governamentais, e impactando hoje aproximadas 400 escolas do país (foto). Aproximar a tecnologia ao processo de aprendizado infantil é uma meta ousada, mas que certamente renderá frutos para muito além de 2020.

Visualizar a forma como esse processo está alcançando Ruanda reflete claramente os benefícios e as facilidades da era das telecomunicações em que as ferramentas existentes podem (e devem) ser utilizadas para beneficiar as sociedades.

Para uma sociedade ainda predominantemente rural, o processo começa na base. Avaliar o impacto das novas tecnologias e pensar em como “urbanizar” o país de forma sustentável, aliando esse processo ao esperado crescimento econômico e à melhora nas condições sociais da população é um objetivo amplo, mas de extrema importância e que os ruandeses almejam atingir gradualmente.

No curto prazo, o plano visa à promoção da estabilidade econômica e à redução da dependência de ajuda externa; no médio prazo, espera-se transformar a economia agrária em uma economia baseada em conhecimento (“knowledge-based economy”); e, por fim, para o longo prazo o objetivo é de apoiar uma classe média produtiva, incentivando o empreendedorismo. [Confira a íntegra do plano aqui.]

Os desafios são muitos e existem não apenas em Ruanda, mas em todo o continente africano, com cada país vivendo momentos distintos de desenvolvimento social, com maior ou menor dependência de ajuda externa nos dias atuais. Fato é que o programa em questão representa uma estratégia interessante do governo ruandês, inspirado por uma visão estratégica de longo prazo, possibilitando que Ruanda se destaque nas manchetes internacionais por razões muito distintas daquelas dos idos de 1994 que nunca deveriam ter ocorrido… 


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Homens ao mar, e à própria sorte

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Hoje está repercutindo o naufrágio de um navio de refugiados do Quênia e da Eritreia, em que cerca de 90 pessoas morreram. Não se sabe a causa, mas a história é familiar – embarcações geralmente malcuidadas e superlotadas que trazem refugiados buscando melhores condições de vida, como as folclóricas lanchas cubanas rumo a Miami, mas muito comuns especialmente partindo do norte da África e cruzando o Mediterrâneo em direção a França, Itália e Grécia. Nesse caso, a ação da guarda costeira italiana em salvar os náufragos foi louvável, já que nem sempre isso acontece. 

A recusa sumária a refugiados é considerada infração do direito internacional. A Grécia, por exemplo, já teve problemas envolvendo denúncias recentes de estar desviando barcos de refugiados da Síria. Porém, a grande dificuldade nesses casos acaba sendo a precariedade da embarcação e a quantidade de pessoas que buscam uma nova condição de vida. 

O problema fica mais grave quando o refugiado parte para uma aventura ainda mais arriscada, como clandestino. Várias histórias de horror envolvem a morte de pessoas nessa situação, como a do navio MC Ruby, que até virou filme, em que refugiados ganeses foram mortos em 1992 pela tripulação ucraniana para que não pagassem a multa de trazer clandestinos para um porto europeu. Mas não precisa ser necessariamente um privilégio de países africanos – em 1996 o caso do Maersk Dubai trouxe algo semelhante, mas eram refugiados romenos que foram atirados em alto-mar pelo comando taiwanês do navio (e que resultou na revolta e denúncia da tripulação filipina, que acabou protegendo e salvando outro clandestino da morte). 

Essas histórias mostram o pior que o ser humano pode fazer. Basta lembrar que a maior tragédia náutica da história foi o afundamento de um navio alemão na 2ª Guerra Mundial, o Wilhelm Gustloff, com mais de 10 mil refugiados alemães a bordo e torpedeado impiedosamente por um submarino soviético. Isso passa pela crueldade para com os refugiados, desde o interesse econômico (de evitar uma multa e impedir a entrada de novas pessoas em uma economia em crise) e pela própria origem da migração: quando pessoas querem fugir para países com a economia mal das pernas como a Itália, a Grécia, ou mesmo países em situação de conflito como o Iraque (para onde muitos sírios estão indo), significa que a coisa está feia. 

O trágico é imaginar a contraposição entre as condições cada vez mais rígidas de controle de entrada e as dificuldades progressivamente maiores que esses imigrantes buscam devido à piora da situação de vida em seus países de origem. Não basta sobreviver a essa verdadeira epopeia de viajar em condições terríveis, uma verdadeira epopeia – essa é apenas a primeira etapa de um processo longo de aceitação, reconstrução, ou no pior dos casos de deportação, para recomeçar tudo do zero. O drama dos refugiados é uma questão de segurança internacional, sob diversos aspectos, e a tendência é que esse tipo de tragédia se repita, infelizmente.


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Luto e tensão no Quênia

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A notícia que abalou o final de semana vem da África, mais especificamente do Quênia – e está diretamente relacionada à Somália. O ataque ao shopping Westgate em Nairóbi, na capital do Quênia, já deixou, segundo a Cruz Vermelha local, 68 mortos e 175 feridos, sendo que ainda há reféns e os autores do ataque permanecem no local.

Ainda é muito cedo para qualquer análise a respeito da situação, mas a autoria do ataque já foi assumida pela milícia radical islâmica somali Al-Shabaab, a qual justifica o feito em represália contra a participação do Quênia na Missão de Paz das Nações Unidas na Somália.

A referida participação corresponde a 4 mil soldados quenianos que se encontram no sul da Somália desde 2011, envolvidos em esforços internacionais na busca pela estabilidade em um país que enfrenta violentas disputas pelo poder político desde 1991, com a queda do governo de Siad Barre. Neste ano de 2011, contudo, a saída dos militantes islamitas do grupo Al-Shabaab, vinculado à Al-Qaeda, da capital Mogadíscio deu novos ares de esperança à reconstrução do país.

Vale relembrar, contudo, que a insistente intervenção da ONU na Somália é considerada um dos grandes fracassos da organização em sua história, denotando a complexidade da situação no país e a falta de preparo da comunidade internacional em lidar com este desafio. [Interessante artigo sobre as intervenções na Somália aqui.] O tema da legitimidade do uso da força vem à tona em meio a um debate que talvez nunca se esgote.

Este ataque premeditado pelo grupo Al-Shabaab no Quênia só demonstra o quanto ainda há a ser realizado em termos de diálogo para que a mais nova missão da ONU no país, estabelecida em maio deste ano (Missão de Assistência das Nações Unidas na Somália – UNSOM), venha efetivamente a cumprir sua missão de facilitadora e auxiliar o atual governo federal interino a harmonizar os interesses nacionais em busca da paz – no país e na região.

Aliás, é tristemente irônico que um ataque deste porte tenha ocorrido no Quênia justamente no Dia Internacional da Paz, celebrado pela ONU em 21 de setembro desde 1981. Percebemos, infelizmente, que a distância entre as declarações e a prática com frequência é muito maior de que se espera ou do que se possa porventura imaginar…


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Há um ano...

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Há um ano, um importante assunto discutido no blog era a nova tentativa de estabelecimento de um acordo de paz entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) que se iniciava. Assunto polêmico, que envolve a importante participação da sociedade civil e que trata de um conflito extremamente complexo que envolve guerrilhas, grupos armados, milícias paramilitares, e forças do Estado, já tendo deixado aproximadamente 220 mil mortos há décadas, desde 1958.

Hoje, essa tentativa parece render bons frutos, centrando-se em cinco grandes pontos de negociação: desenvolvimento rural, participação política, fim do conflito armado, narcotráfico e direitos das vítimas. Amanhã se inicia o 14º ciclo de negociações em Havana, Cuba, sendo que momentos decisivos se aproximam. Mujica, presidente do Uruguai, pede o apoio do Mercosul ao processo; Jonh Kerry, secretário de Estado estadunidense, qualifica o processo de paz como corajoso e criativo; as expectativas são altas e as perspectivas otimistas em relação à presente iniciativa.

Outro tema abordado foram as eleições em Angola, pela primeira vez livres desde a guerra civil que perdurou no país de 1975 a 2002. O clima de “normalidade” prevaleceu, apesar do possível questionamento ao adjetivo “livres” para eleições que apenas garantiram a continuidade de José Eduardo dos Santos, no poder há mais de 30 anos.

Denúncias de corrupção no regime rondam seu governo atualmente, sendo que sua filha mais velha, Isabel dos Santos, foi considerada pela Revista Forbes como a mulher mais rica da África (!). Ainda, pela primeira vez Santos permaneceu ausente de Angola por mais de um mês sem notícias de seu paradeiro, revelando o personalismo ainda predominante no governo e nos levando a crer que (infelizmente) talvez pouco se altere nos próximos anos… 

E seguimos então, ano após ano,  postando e relembrando na nossa Página Internacional! 


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