E que venha 2015…

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Never give up

Em sua essência, a palavra “Natal” nos remete à ideia nascimento, vida. Nesta véspera de uma data tão simbólica, vale uma reflexão justamente sobre as vidas ceifadas ou prejudicadas durante o ano de 2014 devido a crises humanitárias, nas mais diversas localidades, vítimas das mais diversas tragédias. Tragédias estas que, advindas notadamente de desastres socioambientais ou conflitos políticos, possuem como consequência comum o custo humano envolvido. As cifras de mortos, feridos, refugiados, deslocados atingem níveis alarmantes e elevam as necessidades de financiamento de organizações humanitárias a montantes nunca antes vistos na história.

No início de dezembro, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou um apelo para 2015 no valor de aproximados 16 bilhões de dólares, em benefício de pelo menos 57 milhões de pessoas que se encontram em situação de extrema vulnerabilidade (veja o apelo aqui).

Algumas crises podem ser destacadas pela sua gravidade e seu enorme impacto social no ano de 2014, dentre as quais a crise na Síria, que completa quase quatro anos e devido à qual praticamente dois terços de toda a população do país se encontra em situação de necessidade de assistência humanitária. Os milhões de refugiados, principalmente nos países vizinhos, mas também pelo mundo afora (inclusive no Brasil), deixam claro que o problema não se restringe apenas à realidade síria, mas já alcançou níveis regionais e globais de intensa preocupação.

A persistente crise entre Israel e Palestina, cuja amplitude constitui um dos maiores impasses internacionais das últimas décadas, ocasionou um dos mais sangrentos combates na Faixa de Gaza esse ano: durante 50 dias, as notícias de bombardeios, vítimas e refugiados, notadamente palestinos, foram diárias. A trégua atual, infelizmente, ainda não traz uma perspectiva duradoura de solução para o conflito.

Também alcançando nível global, a crise humanitária na África Ocidental advinda do surto epidêmico do vírus Ebola tem demonstrado claramente a incapacidade internacional em lidar com uma emergência de saúde pública deste porte. Com quase 20 mil pessoas infectadas e 7 mil mortos segundo as últimas estimativas oficiais, o impacto da crise – principalmente nos países mais afetados (Guiné, Libéria e Serra Leoa) – foi subestimado por um período muito longo de tempo até que medidas condizentes com as necessidades começassem a ser tomadas.

A República Centro-Africana, o Sudão do Sul e o Iraque, países fragilizados e com conturbado histórico de conflito político integram a lista de crises cuja gravidade é visível, porém que se prolongam indefinidamente, já que a solução envolve um complexo jogo de poder e interesses em que o custo humano não se enquadra como uma das variáveis. A Ucrânia, país europeu, também integra a lista e sofre hoje uma situação de crise de destacadas proporções.

As secas no Chifre da África, notadamente na Somália, bem como na América Central (Guatemala, El Salvador, Honduras), trazem à tona o tema da insegurança alimentar e nutricional em contextos de impossibilidade de produção local de alimentos. As crianças, que constituem um dos grupos mais vulneráveis nas sociedades, se veem destacadamente afetadas, com índices de má-nutrição que alcançam tristes recordes.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 2014 foi um ano “devastador” para as crianças. A estimativa é de que 230 milhões de crianças vivam atualmente em áreas de conflitos armados, sendo que aproximadamente 15 milhões estão sofrendo consequências diretas nas principais crises mencionadas.

Com perspectivas tão “sombrias” para o ano vindouro no que se refere às crises humanitárias, celebrar a vida parece uma realidade ainda muito distante para milhões de pessoas no mundo, infelizmente. Esperemos que 2015 possa contrariar as expectativas negativas e trazer consigo esperança: esperança de que novos caminhos para o diálogo e para a cooperação internacional se abram e de que a paz se torne, mais que um desejo, uma realidade…


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Ambiente inóspito

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Quem navega a internet sabe que a Austrália é famosa pela fauna bizarra e letal, inglês com sotaque e gírias indecifráveis e por usarem as cores do Brasil nos esportes apesar de sua bandeira ser azul e vermelha. Nesta semana, o país vem ao noticiário com notícias bem chamativas – e polêmicas.

Primeiro, foi o primeiro país a fechar oficialmente as portas a cidadãos do oeste africano afetados pela epidemia de ebola. A medida, com a intenção de evitar o contágio do vírus no país, é polêmica pois vai contra instruções da própria OMS (Organização Mundial de Saúde) e os fatos – apesar do pânico, o número de pessoas infectadas fora da África não chega a uma dezena. A paranoia deu certo (como mostrou bem o caso suspeito que mobilizou o Brasil há umas duas semanas), e quase todos os países estão tomando medidas preventivas e de isolamento satisfatórias quando há suspeitas. A chance de uma epidemia em outros continentes é remota. E negar vistos é considerada uma atitude grave no cenário internacional – claro que os países podem escolher quem pode ou não entrar, mas na maioria, desde que tenha o visto, a circulação de pessoas é livre. Negar esse direito equivale à privação de um direito universal, e definitivamente não é uma medida que ajuda na luta contra a epidemia, pois significa que o envio de pessoal australiano para ajudar nas áreas afetadas (onde números oficiais contam mais de 5 mil mortos mas estimativas chegam a quatro vezes mais) também fica proibido.

Segundo, o país está endurecendo leis contra terrorismo. Pode parecer uma coisa positiva, mas a exemplo do Ato Patriota de Bush há acusações de ser uma justificativa para ameaçar direitos civis, discriminar indivíduos de religiões específicas e “imunidade civil” para agentes da lei – o que poderia liberar geral, por exemplo, a prática de tortura, à sombra do Estado. Desnecessário dizer que isso revoltou defensores de direitos civis e organizações islâmicas pelo mundo. Isso vem no momento em que a Austrália se junta à coalizão internacional contra o ISIS, e a medida que tem como objetivo “proteger” o país pode ter o efeito oposto, trazendo atenção internacional e ódio daqueles a que se dirige. Basta ver o que aconteceu no Canadá semana passada para entender que não é nada impossível uma ação desta natureza em um país aparentemente pacífico e longe da carnificina do Oriente Médio.

Essas duas notícias mostram um pouco de intransigência – o governo conservador do premiê Tony Abbott mostra claramente que, em momentos de crise, uma guinada conservadora pode ser a medida considerada mais segura pelos governos para preservar sua integridade. Porém, os resultados são os mais adversos possíveis.


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Há… uma semana!?

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Aqui no blog temos a seção “há um ano” em que postamos análises das consequências dos fatos que, bom, aconteceram há um ano. Mas nessa semana agitada, já se faz necessário rever as postagens de poucos dias atrás por que durante esse período em que a Terra deu pouco mais de 7 voltas no próprio eixo muita coisa aconteceu.

Sobre a epidemia de Ebola na África, começa hoje a quarentena nacional em Serra Leoa. Cerca de 6 milhões de pessoas estarão impedidas de saírem de casa, não para evitar o alastramento da doença – mas para que seja mais fácil identificar os infectados. A situação exige essas medidas drásticas, mas faltam condições e pessoal. Sem auxílio, a estimativa é que, sem os casos contabilizados e com a possibilidade de alastramento e mutações do vírus, até 2015 a epidemia a casa dos milhões de infectados.

Enquanto isso, um pouco ao norte, a coisa esquenta no Iraque com os primeiros ataques de países ocidentais a bases do ISIS/Estado Islâmico, efetuados pela França. A expectativa é que se mantenham os ataques aéreos, mas ao longo da semana o comandante das Forças Armadas dos EUA cogitou a possibilidade de enviar tropas em solo caso seja necessário. Obama já refutou essa possibilidade, pois com as implicações dessa empreitada passando até pela crise ucraniana (já que o apoio da Rússia nas operações será essencial e isso deve afetar negociações que vão de Damasco a Kiev) a última coisa que quereria é mais uma impopular incursão armada para causar a morte de americanos.

Por fim, ontem aconteceu o tal referendo na Escócia acerca da independência do Reino Unido. E para a felicidade dos professores de Geografia, a terra da rainha continuará a ter seu fundo azul com a cruz diagonal branca, pois resultados preliminares apontam a vitória do “não”, permanecendo o vínculo histórico. Análises sobre a razão disso passam por muitos fatores, o principal deles o risco econômico que a opção pela separação apresentava e o fato que o “sim” havia sido superestimado. Bom para David Cameron, que não entra pra história como o Primeiro-ministro que destruiu o Reino Unido, mas tem problemas pela frente por ter sido um dos responsáveis por esse plebiscito em primeiro lugar, e agora para agraciar o parlamento escocês, que vai receber alguns poderes (e mais dinheiro) como parte de um acordo proposto como medida preventiva da separação.

Não é possível nem escrever o “postando e relembrando” por ser algo tão recente, mas imagino como será o “há um ano” de setembro de 2015 se os eventos dessa semana repercutirem como o esperado…


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Economia doente

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A epidemia de ebola na África, que ocupa as manchetes por causa das mortes e da instabilidade política, já está migrando para outro setor do noticiário – a extensão da epidemia, a longa duração e a quantidade de pessoas afetadas já pode causar impactos reais na economia dos países afetados.

Economia em si é algo ligado diretamente às causas dessa epidemia, da falta de condições sanitárias e de profilaxia que levam ao alastramento do vírus, à ganância das indústrias farmacêuticas que deixam de lado o tratamento de doenças tropicais como malária já que, dificuldades inerentes do combate a viroses à parte, não rendem lucros como remédios para calvície ou outros problemas mais urgentes para o primeiro mundo. Porém, aqui falamos de consequências reais e imediatas. Ao longo das semanas de epidemia, seguindo o rastro de mortes (milhares a cada semana) se seguiram a retirada de empresas, investimentos, redução ou completa suspensão da operação de linhas aéreas e problemas de produção, desabastecimento e saques. Apesar do auxílio externo, países como Guiné, Serra Leoa e Libéria terão sua economia afetada em médio prazo por conta dos efeitos imediatos e a recuperação pode levar muito tempo já que não existem estimativas confiáveis de quando a doença será controlada. Nesse caos, Serra Leoa chegou à medida extrema de decretar uma quarentena nacional por três dias na tentativa de identificar mais facilmente as pessoas afetadas.  O perigo de expansão da doença para outros países, especialmente a Nigéria, acima de tudo é um risco humanitário, mas que pode piorar a situação econômica da região.

Historicamente, não é nenhuma novidade. Na esteira da Primeira Guerra Mundial, a crise da Gripe Espanhola causou ainda mais prejuízos econômicos no mundo – e mudou até mesmo a política do Brasil já que vitimou o presidente eleito Rodrigues Alves em 1919. Nem precisamos dizer o resultado da Peste Negra na Europa durante a Baixa Idade Média. Porém, a crise do ebola se assevera por conta das condições de propagação da doença e pelo fato de serem economias que apesar dos pesares conseguiam manter uma taxa de crescimento estável nos últimos anos. Com isso, o ebola vai conseguir o feito de ser uma doença que não apenas afeta os humanos, mas também está adoecendo as próprias nações .


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Imagem da Semana

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Ebola

E um dos assuntos cujas imagens e dados mais têm impressionado é a crise da epidemia de Ebola, na África Ocidental, que já tem mais de 3.000 casos e 1.550 mortes confirmadas, segundo o último boletim oficial da Organização Mundial da Saúde (OMS). A transmissão, principalmente em Serra Leoa, na Libéria e na Guiné, ainda não foi controlada e os casos se multiplicam a cada dia.

Essa semana houve o primeiro caso confirmado de um cidadão britânico, o qual foi removido em operação digna de filme de ficção científica (foto), com a grande mídia e a Europa em comoção diante da possibilidade, ainda que remota, de que a epidemia se alastre para outros continentes.

O drama que está sendo vivido pela região afetada denota as dificuldades em se controlar uma epidemia deste porte sem infraestrutura para atendimento, com comunidades cada dia mais isoladas e sem condições mínimas para recuperação (alimentos e medicamentos).

O risco de que se generalize e se estigmatize (ainda mais) o continente africano diante da presente situação é claro. Clara também é a necessidade de disseminação da informação e de apoio adequado aos países para que criem localmente condições de superação da epidemia com a urgência que a situação demanda…

[Para dúvidas frequentes sobre Ebola, acesse a página oficial do Ministério da Saúde sobre o tema.]


O cálculo da intolerância

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O HOMEM q calculava

Um dos meus livros favoritos até hoje é “O homem que calculava”. Escrito nos anos 30 pelo professor Júlio César de Mello e Souza, mais famoso como Malba Tahan, narra as aventuras do bom e justo Beremiz Samir resolvendo problemas com sua prodigiosa habilidade com números. Mais do que ajudar a despertar o amor pela matemática recreativa, o livro também mostra um pouco do ambiente do Oriente Médio antigo, inclusive com figuras históricas reais. Apesar de no final o protagonista muçulmano se converter ao cristianismo (literalmente no último parágrafo, o que ficou meio estranho para dizer a verdade), a mensagem que transparece é de tolerância, e apesar do contorno fantasioso, é sabido que o grau de aceitação de outras culturas em certas regiões do Oriente Médio sempre foi muito alto. Basta ver como traços de diferentes culturas e ciências foram legados pelos povos de lá. O próprio Líbano, a despeito de anos de guerra civil nos anos 80, é um dos países mais cosmopolitas do mundo hoje.

A razão de ter feito essa introdução é para, mais uma vez, comentar sobre a violência insensata no Oriente Médio. Enquanto podemos dizer que na Síria se pratica uma guerra contra a humanidade, já que todos os lados cometem violações humanitárias, no Iraque o aumento da violência do grupo Estado Islâmico é aterradora, com imagens de decapitações e a noticia de pessoas do mundo todo largando suas vidas para se juntar a essa causa extrema causando comoção internacional. E a razão, em boa parte, é a intolerância.

Não devemos dizer que a região sempre foi um mar de rosas, mas geralmente a culpa dos problemas recai sobre os países ocidentais, das Cruzadas à desastrada divisão política da região entre as potências no período entre guerras. O mesmo vale para hoje. Os EUA tem sua culpa em pelo menos 3 dos conflitos violentos de agora (dando costas quentes a Israel no caso da faixa de Gaza, sendo os culpados pela falência do Iraque que deu força ao ISIS no país, e armando os rebeldes sírios que por sua vez estão ligados aos grupos radicais anti-americanos). O descontrole que toma os beligerantes é impulsionado pela ação externa, e o resultado é a violência. Mas é incrível perceber o contraste. A base do conflito entre Israel e palestinos é a não aceitação da existência do outro lado por algumas lideranças. O conflito sectário da Síria tem como resultado a perseguição a minorias como os alauítas, protegidos de Assad. E o ISIS, que quer restabelecer os califados da época do livro, parece se esquecer da parte em que aceitavam a presença de estrangeiros e outras religiões enquanto pratica atos de selvageria que literalmente os isolam da opinião pública internacional.

Infelizmente, não é algo exclusivo dessa região. Intolerância é algo que parece próprio do ser humano, e não precisamos ir longe para ver seus matizes mais variados em aspectos como a vida política (basta acompanhar a irracionalidade de alguns argumentos no debate eleitoral desse ano) ou até mesmo as brigas entre torcidas de futebol. A violência do ISIS, apesar de lamentável, nem é inédita na história da humanidade (apesar de fazer com que regridamos a tempos bem mais infelizes).

Porém, a grande ironia é ver como este ponto nodal do planeta, onde tantas culturas interagem há milênios, e que poderia ser (como já foi) um ponto de entendimento e verdadeira comunidade internacional, hoje é um barril de pólvora banhado a sangue. Aqui mais uma vez o livro de Malba Tahan é ilustrativo – a história se encerra relatando a invasão mongol de Bagdá, justamente o evento que desarticulou por séculos a política regional e, de certo modo, foi o começo dessa espiral de violência identitária.


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E o fantasma ressurge…

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Somália
E o fantasma da fome ressurge na Somália – o que não significa que ele tenha, de fato, desaparecido totalmente em algum momento, mas desde 2011 não se via tão assustador como agora…

Há exatos três anos, a crise no Chifre da África levou a uma situação catastrófica em que mais de 250 mil pessoas morreram – especialmente crianças menores de 5 anos, faixa etária mais vulnerável a esse tipo de situação. Calamidade pública que gerou (e sempre gera) comoção internacional momentânea, porém pouca mobilização para soluções duradouras.

Condições sociais e políticas desfavoráveis em um país de triste histórico contencioso se somam a condições climáticas de seca que tornam crônico o problema da fome na região. Hoje foi divulgado comunicado por parte de vinte Organizações Não-Governamentais (ONGs), dentre as quais Action Contre la Faim e World Vision, segundo o qual a Somália se encontra à beira de uma nova crise de proporções similares àquelas de 2011.

Segundo as ONGs em questão, hoje existem mais de 300 mil crianças subnutridas e 2,9 milhões de pessoas que necessitam de meios de subsistência na Somália. Dados estarrecedores se considerarmos a população total do país, que é de aproximadamente 10,5 milhões de somalis.

Ainda é triste perceber que aqueles especialmente vulneráveis não se refizeram completamente da crise de 2011, com grandes possibilidades de reincidir em uma situação crítica se o quadro não se alterar nos próximos meses.

Se concordamos que a ajuda internacional não pode se perpetuar nos países, é nítido que esta também não pode deixar de existir em casos extremos como solução paliativa que impulsione a criação dos meios locais de desenvolvimento futuro. É preciso que se evitem novos laços de dependência nos dias atuais, porém não se pode negar que apoiar a população somali no atual momento representa uma demanda humanitária urgente e justificada em prol de níveis mínimos de segurança alimentar e nutricional na vida de milhares de pessoas.

Para que esse “fantasma” de fato se torne lenda, é preciso, entretanto, muito mais: criar estruturas localmente sustentáveis e que promovam o desenvolvimento com bases sólidas, desvinculando a imagem de país eternamente dependente de ajuda humanitária para fortalecer capacidades produtivas locais e, por consequência, livrar o país de (recorrentes) catástrofes de tamanha proporção.


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Criando seus demônios

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Após o ultraje internacional direcionado ao rapto de centenas de meninas na Nigéria, finalmente o Conselho de Segurança da ONU tomou uma decisão (após a Nigéria relutar por semanas, afinal não pega bem ter que ficar pedindo ajuda internacional…) e baixou sanções contra o grupo Boko Haram, incluindo nebulosos “congelamento de bens e embargo de armas”. Na prática, não parece que o resultado vá ser tão relevante, mas no campo das ideias significa muito – incluindo o grupo na lista de organizações terroristas como Al Qaeda e outros, praticamente dá a chancela da ONU de reconhecer aquilo como um grupo radical e verdadeira ameaça à segurança internacional. Ora, não é justamente o que eles querem?

Existe um famoso e controverso documentário da BBC britânica chamado “The Power of Nightmares”, que em três episódios esmiúça a relação existencial entre os grupos terroristas islâmicos e o movimento neoconservador nos EUA. Um dos dados mais chocantes que se constata nos vídeos é que a famosa Al Qaeda simplesmente não existia até idos de 1998 – havia um grupo de descontentes ligados ao finado Osama bin-Laden, mas sem expressividade ou agenda concreta. Porém, devido a uma série de fatores (e um julgamento fajuto) a mídia e o governo norte-americanos lançaram o termo “Al Qaeda” para designar o grupo, dando-lhe assim um nome e propósito (de fato, bin-Laden nem nome tinha para sua turma e só assumiu de fato o antiamericanismo quando os próprios EUA engoliram essas ideias). O resultado disso tudo é que hoje um grupo de meia dúzia de tresloucados, que se tivessem sido deixados de lado possivelmente nem teriam sobrevivido aos conflitos internos com outros ativistas islâmicos, foram reconhecidos como ameaça pela maior potência do mundo e criaram uma aura de interesse ao seu redor, inspirando muita gente a seguir seus passos. E com isso o grupo é uma ameaça verdadeira nos dias de hoje, como podem constatar os habitantes de Nova Iorque, Londres e Madri.

Longe de dizer que o Boko Haram deva ser ignorado, mas se o exemplo da Al Quaeda ensina alguma coisa é que dar esse “status” a grupos criminosos e terroristas geralmente apenas aumenta seu apelo. Vamos lembrar que definições de terrorismo são variadas, mas um traço comum é o fato de buscar o terror psicológico na população civil, sempre sob ameaça do desconhecido. O grupo nigeriano já tinha na conta milhares de mortes em atentados (que deveriam ser tão chocantes quanto o sequestro das meninas, mas não despertam tanto interesse na mídia…), e estando sob os holofotes da mídia internacional, não vai buscar outra coisa que não seja mais “publicidade” para suas atividades. Basta ver o duplo atentado do dia 21, em que mais de 140 pessoas pereceram. Muito provavelmente, a tendência é que os ataques do grupo aumentem para explorar a imagem criada pelas próprias vítimas. O caminho das sanções é importante para estrangular a captação de recursos dos grupos, mas não é o bastante. E pensando na fragilidade do governo nigeriano com relação a essa crise, infelizmente devemos esperar mais ataques e vítimas nas próximas semanas…


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E a história se repete…

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Ban ki-moon Sudao do Sul

Há algumas décadas, imagino que não seria utópico pensar que, no ano de 2014, as ideias de genocídio e crimes contra a humanidade constituiriam marcas de um passado distante, refletindo expectativas em relação a um novo contexto internacional em que tais situações não mais seriam identificadas ou, se identificadas, facilmente combatidas.

Como tragédia ou farsa, já ouvíamos de Marx que a história se repete e, infelizmente, é o que vemos hoje acontecendo no Sudão do Sul. Este que é o mais novo país do mundo, cuja independência do Sudão ocorreu em julho de 2011 e configurou a esperança de solução para uma guerra civil duradoura em que sudaneses, ao sul e ao norte, sofreram aos milhões, tornando-se refugiados ou vítimas fatais de um conflito do qual não escolheram fazer parte.

Com uma geografia privilegiada em relação a reservas de petróleo, esse benefício se tornou a maior fonte de recursos (95% da economia do país) e, ao mesmo tempo, de hostilidades na região. Unindo esse elemento econômico às tensões étnicas que insistem em assolar o continente africano como um todo, mas hoje especialmente o Sudão do Sul, vimos um país nascer, porém já iniciar sua história com massacres e mortes. Despreparo de um país recém-criado em lidar com a situação? Corrupção política? Escasso apoio da comunidade internacional? Talvez todos esses elementos juntos ou nenhum deles sejam capazes de explicar a situação. [Reveja post de 2012 no blog a esse respeito aqui.]

Em um contexto como tal, fato é que nem o Sudão nem o Sudão do Sul puderam ainda vislumbrar o conceito de estabilidade nos últimos anos. Desde dezembro de 2013, contudo, uma situação cada vez mais crítica se alastra no Sudão do Sul sem que alcance os noticiários internacionais, em repetição de história já antes contada, como em Ruanda, há exatos vinte anos.

Tudo (re)começou no final do ano passado quando o ex- vice-presidente Riek Machar foi acusado pelo presidente Salva Kiir de uma tentativa de golpe de Estado, refletindo uma crise política enraizada em diferenças étnicas. O presidente Kiir é da etnia Dinka, predominante no país, enquanto Machar pertence à etnia Lou Nuer. [Mais informações aqui.] Desde 2011, conflitos étnicos têm sido constantes entre as comunidades, exacerbando-se nos últimos cinco meses e levando as Nações Unidas a alertarem a respeito da possibilidade de genocídio no país, além dos inúmeros crimes contra a humanidade cometidos por ambas as partes em conflito.

Segundo informações da ONU, 716.500 pessoas foram deslocadas no interior do Sudão do Sul desde dezembro, e 166.900 tornaram-se refugiadas em países vizinhos, mesmo com a presença de uma Missão da ONU no país (UNMISS). Números expressivos que levaram Ban Ki-moon (foto) e John Kerry (sempre ele) a mediarem um “Acordo para reduzir a crise no Sudão do Sul” na sexta-feira, com o compromisso de Kiir e Machar em assumirem um cessar-fogo que permitisse o apoio humanitário às vítimas.

Menos de dois dias depois de o acordo ter sido saudado internacionalmente, já foram registrados novos conflitos na cidade de Bentiu, estratégica pela produção de petróleo, e as partes se culpam mutuamente pelo reinício das hostilidades e pelo fiasco no diálogo.

À beira de uma epidemia de fome que pode vitimar 50 mil crianças (!) em um horizonte de poucos meses e se tornar uma das mais graves crises no continente africano em comparação com as últimas décadas, dizer que a situação demanda uma ação urgente é pouco. Entretanto, a perversa mistura de motivações e interesses políticos, econômicos e étnicos traduz uma situação de instabilidade em que a comunidade internacional se faz incrédula, ao mesmo tempo que impotente/indiferente diante de tamanha violência que se repete na região…


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Explicar o inexplicável

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O que significa o rapto de mais de 200 meninas de uma escola na Nigéria? E dizemos rapto no seu sentido verdadeiro, de abdução com fim libidinoso, e não como se diz equivocadamente por aí quando se referem a sequestros.

Provas de que a humanidade não merece o ar que respira existem aos montes no noticiário internacional, mas a notícia dessa semana despertou uma repulsa poucas vezes vista anteriormente. Países com EUA e China, que tecnicamente não têm nada a ver com o assunto (pelo menos, de maneira direta) estão ajudando o governo da Nigéria com informações de inteligência e imagens de satélites. Então existe comoção. É algo inadmissível. Mas o que significa?

Será que representa a opressão feminina em uma sociedade machista? Especialmente na África e na Ásia persistem padrões mais claros de patriarcalismo. Não que isso não aconteça do lado de cá do Atlântico, mas por aquelas bandas a coisa é escancarada. E o anúncio do líder do grupo responsável pelo rapto de que as meninas serão vendidas como esposas para líderes e ricaços nos países vizinhos fortalece essa mensagem. Mas na Nigéria os problemas são mais profundos. Os alvos não são apenas mulheres – há relatos de escolas atacadas, em que todas as vítimas massacradas eram meninos. A opressão de gênero parece ser mais uma consequência de uma estrutura maior.

Seria religião o problema? O tema tem sua cota de responsabilidade pelo sangue derramado no país, mas o radicalismo de grupos como o Boko Haram é rejeitado pela grande maioria dos muçulmanos mundo afora. Não chega a ser representativo de um conflito sectário maior, como o que está rolando na República Centro-Africana.

Será então que o problema é a falência do governo? Notícias do dia mostram haver evidências de que o governo sabia da iminência dos ataques mas não conseguiu de organizar a tempo. E protestos por uma atitude mais eficiente do governo no resgate foram respondidos à maneira dos ditadores truculentos, com a prisão de líderes manifestantes sob a acusação de estarem patrocinando a instabilidade do Estado. E não vamos esquecer da pobreza, que é a fonte de recrutas para esses grupos, bem como possivelmente a fonte da maioria dos males do mundo.

Crianças que buscam educação, para superar a pobreza e as deficiências de um Estado ausente. Grupos radicais que agem à revelia do mesmo e destroem potencialidades em cada uma dessas vítimas. A questão é a busca pela educação, e o problema se constrói como se isso fosse algo errado! O que choca nessa caso é justamente a proximidade da situação. Pode-se contestar o meio como isso é feito, mas os programas de inclusão no Brasil, por exemplo, servem para tentar evitar esse tipo de “erosão” social. Pode ser que nem todos que leem estas linhas estejam em fuga de suas casas, amontoados em caminhões e dividindo espaço com cadáveres como na RCA (onde, por sinal, a coisa está MUITO pior que na Nigéria), mas a maioria conhece a história de alguém esforçado, que trabalha e faz algum curso noturno para ter um diploma técnico para tentar um padrão de vida melhor. É uma situação mais próxima, e por isso ainda mais revoltante que qualquer relato de combates ou mortes. Sem contar o lado da violência e humilhação de gênero, que causa asco na sociedade (ou deveria, haja visto a repercussão daquela famosa pesquisa equivocada do IPEA como vimos há pouco tempo). O rapto dessas meninas na Nigéria tem muito significado, mas principalmente, nos mostra a aparente impotência e incredulidade contra a ignorância que parece ser a única característica verdadeiramente comum no gênero humano, além da violência, seja com raptos na Nigéria, linchamentos no Brasil, ou atirando bananas na Espanha.


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