Cartas marcadas

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Eis um fim de semana para ser lembrado. Talvez por um acontecimento memorável que é uma eleição e pela celebração da democracia, da mudança e da vontade popular, as quais seu nome está sempre associado? Bom, não desta vez. Há, de fato, eleições no Irã e na Rússia. São, entretanto, pleitos populares que não necessariamente expressam a vontade de parte da população ou mesmo não permitem que se demonstre indignação com os atuais regimes.

De um lado, tem-se a república islâmica sob os auspícios de um líder político conservador, Mammoud Ahmadinejad, e um líder espiritual, digamos, ultra-conservador, o aiatolá Khamenei. Duas figuras que, apesar de dividirem a mesma base do governo, não tem compartilhado tantas posições semelhantes nos últimos tempos e, portanto, representaram duas frentes conservadoras diferentes nas eleições parlamentares dessa sexta-feira. Do outro lado, na grande Rússia emergente, não há duas grandes frentes e nem mesmo muitas grandes opções com chances de vitória. Há uma espécie de eleição de um homem só. Sim, de Vladimir Putin. O ex-oficial da KGB que já se encontra no poder há 12 anos – considerando-se que o mandato presidencial russo é de 6 anos e que Putin cumpriu um mandato como presidente e outro como primeiro-ministro – já é praticamente considerado vitorioso nas eleições presidenciais de amanhã.

Em ambos os pleitos existe um considerável número de insatisfeitos com o atual governo que possuem poucas vias para expressar sua indignação. No Irã, a possibilidade de se votar na oposição, mesmo com o voto sendo facultativa, é quase nula. Isso porque o governo atual baniu aproximadamente 1951 candidatos da base dos reformistas (36%), a principal oposição do governo, por o que julgaram ser conduta anti-islâmica. Já na Rússia, a classe média é um dos principais focos de insatisfação. Gestada durante a administração Putin, sob os auspícios do crescimento econômico provindo das exportações de gás natural e petróleo, é um grupo que tem se sentido traído desde as suspeitas de corrupção e das fraudes nas eleições parlamentares no ano passado. E, mesmo sendo um grupo expressivo, não há nenhum candidato com força política expressiva capaz de canalizar a indignação dessa parcela da população.

Agora pensemos nas possibilidades de fraudes. Tanto a Rússia quanto o Irã passaram por escândalos de fraudes eleitorais em seus últimos escrutínios. O pleito que deu a reeleição a Ahmadinejad, em 2009, foi tido como suspeito. Até hoje, acredita-se que houve uma grande fraude. Na Rússia, no ano passado, houve caso semelhante. Os partidários da “Rússia Unida” (partido de Putin) miraculosamente apareceram com quase todos os votos de algumas urnas perdidas (para mais sobre isso no blog, clique aqui e aqui).

Bom, como disse antes, ambas as eleições são pleitos que não necessariamente permitem que parcelas da população sejam capazes de expressar sua insatisfação. Frente a esse cenário, até agora o governo iraniano tem feito questão de que a mídia internacional visse que houve uma significativa participação da população, apesar de essa informação também ter caráter duvidoso. Em contrapartida, essa informação, sendo verídica ou falsa, não representa muito em uma eleição em que se tinha governo contra governo e que basicamente se disputou influência para o pleito presidencial de 2013. Agora resta esperar para ver como procede a eleição russa. Todavia, parece que, como no Irã, teremos mais do mesmo, mais de um jogo de cartas marcadas, no qual os mesmos governantes são capazes, por suas manobras, fraudulentas ou não, empurrar à população suas vontades e desejos.

[Para mais sobre a eleição iraniana, clique aqui]

[Para mais sobre a Russa, clique aqui, aqui, aqui e aqui]


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