Calcanhar de Aquiles estadunidense

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Pra quem não é da área de economia, entender o impacto da discussão sobre o aumento do teto da dívida pública dos Estados Unidos não é nada simples. As variáveis são muitas e os jargões econômicos muitas vezes não são suficientemente autoexplicativos. A questão é que, em se tratando de Estados Unidos, um assunto predominantemente interno como esse revela o calcanhar de Aquiles de Obama e possui, na verdade, implicações internacionais diretas no mundo inteiro.

Manchetes anunciam a possibilidade de que o mundo presencie o “primeiro calote da história” do país, já que o Tesouro norte-americano ficará sem recursos para cumprir seus pagamentos na falta de aprovação de um acordo possibilitando a tomada de recursos emprestados do mercado financeiro – impasse que persiste no governo desde maio, quando foi alcançado o limite da dívida atual. Sobrevivendo com recursos extraordinários para honrar compromissos, há quase duas semanas vemos um país com o governo paralisado (bem como outras instituições), já que o dinheiro se esgota e o prazo para que uma solução seja anunciada se aproxima: 17 de outubro, quinta-feira.

Duas considerações são necessárias para (começar a) entender o impasse. Em primeiro lugar, Obama é democrata e uma de suas principais bandeiras na campanha eleitoral era (e ainda é) a reforma da saúde, incluindo quase 95% da população sem planos de saúde em uma espécie de “SUS compulsório” [Reveja post de 2010 no blog a respeito aqui]. Os republicanos, oposição já naturalmente, opõem-se fortemente ao que foi apelidado de “Obamacare”, argumentando ser esta lei uma afronta ao princípio de livre arbítrio (!), obrigando os cidadãos a terem um plano de saúde.

Em um país do porte dos Estados Unidos, perceber a inexistência de um sistema público de saúde e a carência da maior parte da população em atendimento gratuito revela uma situação caótica e que comprovadamente se tornou um dos temas prioritários da gestão de Obama. Contudo, e aqui vai a segunda consideração importante, os dois partidos assumem posturas com frequência intransigentes e, querendo ou não, precisam negociar, já que o comando do Congresso é dividido, sendo que os republicanos representam maioria na Câmara e os democratas no Senado.

Um Obama que não é dotado de poder para desconsiderar estas instâncias se vê com o calcanhar atado diante de negociações atravancadas: por um lado, republicanos querendo a todo custo ter esse aumento do teto da dívida vinculado a grandes cortes no orçamento (incluindo explicitamente o adiamento ou a eliminação do financiamento à Saúde previsto na lei de reforma!). Por outro lado, democratas insistindo em cortes menores para garantir a manutenção dos benefícios sociais à população, com pouca margem de manobra para negociar.

Tendo rejeitado a última proposta republicana de elevação do teto da dívida apenas temporariamente, Obama arrisca (ou aposta) na busca de uma solução duradoura antes do prazo estipulado, já, contudo, sofrendo com as consequências econômicas da falta de aprovação do novo orçamento, revivendo a mesma situação de 2011, quando a polêmica acerca da reforma da saúde ainda era recente e predominava em qualquer debate.

Sensacionalismos à parte, o desfecho desta novela estadunidense não tardará a ser desenhado e possivelmente trará à tona um certo nível de diálogo que evitará, na última hora, o calote, evitando impactos econômicos estrondosos no mundo inteiro, especialmente nos países em desenvolvimento. Entretanto, não deixa de ser impressionante o impacto que o tema da reforma da saúde proporciona nos interesses políticos do país, e a forma como tais interesses afetam diretamente o desenrolar econômico deste gigante. Gigante cuja principal fraqueza parece se mostrar, justamente, de dentro para fora… 


Categorias: Economia, Estados Unidos, Polêmica, Política e Política Externa


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