Caixa dois aqui, caixa dois lá

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Durante o julgamento do mensalão, que cumpriu na visão de muitos um anseio da sociedade, as defesas de alguns réus admitiram a existência de caixa dois em campanhas do PT como forma de descaracterizar outros encargos mais graves. Dessa forma, acreditavam minorar as denúncias imputadas às figuras envolvidas. A ministra do STF, Carmem Lúcia, perplexa diante da conduta, recriminou a estratégia e disse: caixa dois é crime também, não é menos ilícito e nem é pouco.  

Pois bem, isso me leva a outro caso recente. Na França, segundo denúncia do jornal Le Monde, o UMP, partido do ex-presidente Sarkozy, teria recebido doações não declaradas nas duas últimas campanhas presidenciais. Na primeira, o partido venceu a socialista Ségolène Royal. Já no ano passado, novamente contra o Partido Socialista, perdeu para Hollande. Assim, o UMP e o PT fizeram, basicamente, a mesma coisa. Claro, limitando o olhar para o caixa dois somente.  

Na primeira semana de julho, o Conselho Constitucional do país condenou o UMP por ter ultrapassado o teto de gastos eleitorais em 20 milhões de euros e não ter declarado parte do que efetivamente despendeu. Eis que entra o elemento interessante. No caso francês, o partido foi condenado e não terá acesso a subsídios públicos no total de 11 milhões de euros. Não é pouco, ainda mais para um partido endividado. Neste contexto, Sarkozy voltou para consertar a situação. Primeiro, criticou a decisão, que na visão dele coloca o pluralismo político em risco e, depois, colocou a mão no bolso.  

A justiça francesa determinou igualmente um prazo para o partido reembolsar o Estado, inicialmente final de julho e depois estendido até setembro. Para isto, os líderes da UMP encabeçam uma campanha de arrecadação de fundos para cobrir o rombo e salvar o partido. Alguns colegas de partido criticam Sarkozy por querer posar de herói, após uma discreta doação de 7500 euros, mesmo tendo sido o responsável direto pela irregularidade. Até o momento, faltam 2 milhões. Entre as hipóteses consideradas para arrecadar o total necessário está vender a sede do partido.   

Os modelos de financiamento, brasileiro e francês, são similares. Aqui, existe o repasse público via fundo partidário e a compra de inserções nos meios de comunicação que são oferecidas, sem custos, para os partidos. Além disso, é permitida a doação privada. Lá, há subsídios públicos e uma permissão de doações privadas até um valor máximo. No casos em questão, trata-se de ilícitos que guardam como semelhança o caixa dois. Aqui, advogados de réus, perante o STF, se referiam à prática como se não fosse muito grave. Lá, o principal partido de oposição se enrascou e teve que juntar moedas. Na França, a Carmem Lúcia não precisaria lembrar ninguém que caixa dois é crime.  

Caso alguém tenha se sensibilizado, segue o link para fazer uma doação para o UMP. 


Categorias: Europa, Política e Política Externa


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